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Mashkan-Shapir: Fortaleza da Dor.

em Sab Maio 05, 2018 11:33 am
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Re: Mashkan-Shapir: Fortaleza da Dor.

em Sex Jun 01, 2018 5:37 am
Infinitamente bela era Mashkan-Shappir, ainda que a terra ao seu redor fosse enegrecida, dura e sem vida. Ainda que o céu sobre ela fosse escuro e tempestuoso. Ainda que um forte odor de carvão queimado e de vidas perdidas empesteasse o ar. Infinitamente bela era Mashkan-Shappir, com suas muralhas que se entendiam pela planície, suas casas de argila e pedra uniformemente posicionas ao redor do imenso zigurate no centro. Os cainitas desceram a montanha e a vibração no ar tornava óbvia uma intuição que atingia a todos: havia magia ali, magia forte e obscura, que protegia a cidade de inimigos visíveis e invisíveis. Infinitamente bela era Mashkan-Shappir, mesmo sem árvores ao redor, mesmo sem sons de animais e ainda que a face dos mortais, reunidos em caravanas, que para lá se dirigiam fosse triste e pesada. Bela era Mashkan-Shappir, com suas torres cheias de fuligem e com a dor que emanava de seus muros.

Tepelit já os havia deixado. Aproximaram-se da cidade e notaram que o chão parecia ter sido queimado, e que nenhuma vida nasceria ali. No espírito, desolação. Era cada vez maior à medida em que se aproximavam, um organismo vivo que parecia clamar por adoração. Tinha uma personalidade, Mashkan-Shappir. Era guerreira e impulsiva, além de cruel. Mas era também generosa. Escravos e senhores confluíam em direção à Fortaleza da Dor, atraídos por ela como moscas eram atraídas pelas fezes. Ricas caravanas com tecidos e especiarias, mortais famintos e mendicantes. Mashkan recebia a todos sem distinção.

Havia inscrições nas muralhas, histórias de dor e de guerra que reverberariam através do Tempo. Nos entrepostos, pequenas torres circulares abrigavam soldados atentos. Os cainitas prosseguiram até um determinado ponto, aquele em que Enki, Japhet e Caias se sentiam impedidos de avançar. Ya'rub, porém, parecia não ser limitado pela cidade. Pelos portões abertos os mortais afluíam e dos portões abertos soldados saíram. Eram corpulentos, belíssimos exemplares de mortais. Vestiam-se em vermelho, deixando clara a riqueza da cidade. Portavam lanças escuras, grandes, ameaçadoras. Suas faces eram cobertas por máscaras de couro representando as bestas da noite: chacais, hienas e lobos. Marchavam uniformemente até o ponto onde os cainitas se encontraram. Um deles, com a máscara de uma hiena, se aproximou. Parecia não temê-los. Parecia não temer absolutamente nada sob o céu.

- Mashkan-Shappir, a Imortal, lhes dá as boas vindas e pergunta: O que pode fazer por vocês?
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Re: Mashkan-Shapir: Fortaleza da Dor.

em Sab Jun 02, 2018 12:44 pm
Quando encontrou com seus primos reunidos nos portões de Nippur, Ya’rub tinha plena noção da importância atribuída à tarefa que estavam prestes a cumprir. A eles caberia a responsabilidade de evitar que o conflito instaurado chegasse a proporções catastróficas. Contudo, para Ya’rub, o peso do dever se misturava à grandes expectativas com relação às próximas noites. Estava prestes a entrar pela primeira vez na amaldiçoada Mashkan-Shapir! Teria a oportunidade de ver a malfadada cidade com os próprios olhos e avaliar, de fato, o que aconteceia ali. Mais do que isso, poderia vislumbrar, ainda que por instantes, parte do conhecimento acumulado pelo inimigo dentro daquelas muralhas. Havia dedicado anos de sua não-vida ao estudo dos Baali e, ainda assim, tudo o que sabia era ínfimo diante de sua curiosidade.

E qual não foi sua surpresa e satisfação ao descobrir que chegariam à Mashkan-Shapir por meio dos poderes sombrios dos Filhos de Laza! A noite mal havia começado e Ya’rub experimentaria, também pela primeira vez, a Travessia das Sombras. O Clã da Noite, por meio do contato constante com a dimensão que chamavam de “Abismo”, havia desenvolvido uma forma de cruzar distâncias rapidamente, tomando uma espécie de atalho pelo misterioso plano sombrio.

A passagem pelo Abismo, tal como Tepelit havia avisado, não foi uma experiência que poderia ser classificado como agradável. Mas para Ya’rub, foi fascinante. Durante o prolongado segundo em que cruzaram a dimensão da escuridão, o feiticeiro foi capaz de ouvir a cacofonia de sussurros. Era como se aquele lugar fosse composto pelo conjunto de infinitas entidades, convidando-o a conhecer seus segredos. E no todo, elas eram uma coisa só. Sentia que o Abismo era vivo, uma entidade una e que lhe era completamente desconhecida. Em momentos como esse, Ya’rub era invadido por uma euforia, uma vontade de gargalhar e agradecer a todos os deuses por terem lhe escolhido para carregar a maldição da noite. Pois somente com ela teria tempo suficiente para descobrir todos os segredos esotéricos do universo.

A viagem já havia terminado e Ya’rub ainda se deliciava com as lembranças do Abismo quando sentiu algo. À sua frente estava Mashkan-Shapir, em toda a sua glória e perdição. O feiticeiro conseguia captar com todos os seu sentidos o poder corrupto que emanava daqueles muros. Ao contemplar a cidade de cima da colina, Ya’rub sorriu. Finalmente estavam ali.

Ajoelhou-se e pegou um punhado de terra enegrecida com as duas mãos. Observou os grãos negros, compostos de matéria morta, que escorriam por seus dedos. Havia um cheiro. Ya’rub sabia que, se voltasse vivo daquela viagem, lembraria pra sempre do cheiro. Era um aroma de matéria em combustão, misturado aos perfumes de todos os lugares do Crescente Fértil. Não obstante, Ya’rub sentia um cheiro que vinha de outro plano. Mashkan-Shapir era movimentada no mundo dos espíritos.

Ele e seus primos foram descendo a colina e se aproximando dos portões da cidade. Ya’rub caminhava com passos decididos, levando a lança de Haqim na sua mão direita, portando-a como se fosse um cetro. Quando se deu conta que Japhet, Caias e Enki não conseguiam se aproximar, Ya’rub olhou para eles e sorriu. Não disse nenhuma palavra, mas percebeu que era como se Mashkan-Shapir o convidasse a entrar.

Lembre-se do seu Medo - disse Ya’rub para si mesmo.

Percebeu o curioso soldado se aproximando. A máscara da hiena lhe chamou a atenção. Também tinha em seu próprio rosto a sua tradicional pintura que reproduzia as manchas daquele mesmo animal. Seria aquele homem ciente do poder que ostentava em sua face? AO ouvir a gentil pergunta do soldado, Ya’rub abriu seu sorriso e fez uma reverência.

- Gentil soldado, incumbido de guardar os portões dessa magnífica cidade. Eu e meus primos somos emissários enviados de Nippur. Nosso governantes nos delegaram a tarefa de vir até aqui para negociar os termos de um acordo entre nossas nações. Assim, viemos em paz.

Ya’rub olha imediatamente para trás, em busca de seus primos. Fez um gesto para que eles também falassem, caso quisessem se apresentar.
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Re: Mashkan-Shapir: Fortaleza da Dor.

em Dom Jun 03, 2018 4:11 am
Foi Japhet quem deu um passo a frente, ainda que não tenha se aproximado de Mashkan como Ya'rub havia feito. Quanto era potente, Japhet. Ya'rub sentia que a presença do Filho do Clã da Morte agitava os espíritos presentes. Era quase como se pudesse ver todos os espíritos que se inclinavam em direção a Japhet, curiosos com a sua presença, tentados a tocá-lo e, talvez, receber parte de seu conhecimento. Japhet tinha um postura particularmente régia. Ya'rub e Enki não sabiam do passado daquele cainita, mas seguramente não foi um simples camponês quando em vida.

- Acompanham Ya'rub, Filho do Grande Caçador, Japhet e Caias Koine, Filhos de Capaddócius e Enki, nascido daquele que se faz chamar Estrangeiro. Em paz viemos e invocamos vossa hospitalidade.

O soldado com face de hiena permaneceu em silêncio durante poucos segundos. Depois, curvou-se em direção aos visitantes. Por trás da máscara os olhos eram de um castanho intenso. O cheiro do homem, porém, deixava claro que a vida ainda corria em suas veias. Deu uma ordem a um de seus subordinados que, aproximando-se da muralha, a repetiu a um dos soldados que realizavam a defesa. Aparentemente a ordem foi transmitida pela muralha, até se perder dentro de Mashkan-Shappir. O comandante não falou mais nada, mas permaneceu entre os visitantes e Mashkan-Shappir.

Nos minutos que se seguiram, os cainitas acompanharam a procissão de mortais que adentrava a cidade. Mais de um mercador entrou no local, acompanhando de um número razoável de escravos. Mashkan os encarava, era fácil sentir. A cidade parecia respirar, lentamente, lançando as sombras de suas torres sobre os cainitas. Poucas tochas estavam acesas do lado de fora.

Súbito, a sensação. Enki, Caias e Japhet podiam prosseguir para reunir-se com Ya'rub.

No sentido oposto ao dos mortais, alguém se aproximava. Uma figura esguia, vestida com uma túnica belíssima, decorada em tons de azul claro e dourado, que alcançava seus pés. Os cabelos eram escuros e curtos, chegando à altura das orelhas. Os olhos eram também escuros, emoldurados por sobrancelhas negras e espessas. Tinha uma face delicada e fina e, notando isto, se deram conta de que se tratava de uma mulher. Caminhava lentamente em direção aos vampiros, os mortais que passavam por ela prestavam uma reverência profunda e temerosa.

O ser que a acompanhava era tão ou mais impressionante quanto a mulher.

Caminhava alguns passos atrás dela. Era alto, com quase dois metros. Vestia somente uma calça de algodão branca, imaculadamente limpa. O torso, nu, era coberto de cicatrizes e suturas longuíssimas. Caminhava pesadamente, sem a elegância da mulher. A cabeça era coberta por um tecido escuro, que parecia não perder o equilíbrio enquanto ele avançava. Na cintura, uma espada grande restava ao alcance de suas mãos aparentemente potentes. A mulher se deteve diante dos cainitas, mas atrás dos soldados.

- Mil vezes bem vindos a Mashkan-Shappir, visitantes! Nos honram com vossas presenças e, de antemão, os esclareço: Mashkan é uma cidade de paz e nenhuma agressão será tolerada, assim como nenhuma violência recairá sobre vocês. Sou Arishat, Progênie do Senhor desta cidade, e tenho total autoridade para discutir qualquer assunto com os senhores. Mas, por favor, entrem e contemplem nossa bela cidade!

Arishat e seu acompanhante.
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Re: Mashkan-Shapir: Fortaleza da Dor.

em Seg Jun 04, 2018 9:22 am
Com um certo espanto, Ya’rub sentiu a permissão que Mashkan-Shapir deu aos seus primos, autorizando-os a entrar por seus portões. Foi como se um vento quente passasse pelo mundo dos espíritos, abrindo cortinas que não eram visíveis aos olhos nús. Desde que chegaram, aquela cidade dava sinais de que era um ente vivo, consciente e maligno.

Ya’rub sorriu quando Japhet se aproximou e prosseguiu com as apresentações. Ainda não tivera chance de conversar com o Filho de Capaddocius tal como gostaria. Sua presença impunha respeito e admiração, e o efeito que causava nos espíritos ao redor era facilmente perceptível para qualquer pessoa minimamente sensível.

Também não pôde deixar de rir sutilmente de sua própria vergonha. A experiência sensorial de estar ali, com aquelas companhias, o estava atrapalhando um pouco. Tinha dificuldades de articular as palavras, tamanha a curiosidade diante de tanta informação. Eram muitas coisas para ver, ouvir e sentir, em todos os planos para onde conseguia estender seus sentidos.

Ya’rub esforçou-se para manter um postura atenta e concentrada, focando-se na tarefa que tinha em mãos. Prestou atenção quando Arishat chegou junto do que parecia ser um estranho guardião. Era como se as duas figuras não pertencessem mais a este mundo, se é que haviam pertencido em algum momento. Ao perceber que a mulher terminara as apresentações, Ya’rub respondeu:

- São vocês que nos honram com a abertura dos portões, Senhora Arishat. É em paz que viemos e é a paz que buscamos ao batermos em suas portas. Nippur nos envia para tratarmos de assuntos diplomáticos que afetam os interesses de nossas prósperas nações.

Conforme preparam-se para entrar na cidade, aceitando o convite da mulher, Ya’rub prossegue.

- Creio que meu primo Japhet nos apresentou para o homem que guardava os portões, mas não sei se a mensagem foi devidamente passada em detalhes à Senhora. Me chamo Ya’rub, Filho de Haqim. Comigo caminham Japhet e Caias Koine, Filhos daquele que veio da Capadócia, bem como Enki, Filho do Inominável Estrangeiro.

Ya’rub lança um olhar alternado entre Enki e Arishat, buscando observar se haveria alguma reação em particular. Ele aproveita o momento para aguçar sua percepção e ler a aura de seus dois novos anfitriões.

- Disse que és Progênie do Senhor de Mashkan-Shapir, mas não tivemos a graça de ouvir-lhe o nome.
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Re: Mashkan-Shapir: Fortaleza da Dor.

em Seg Jun 04, 2018 1:07 pm
Arishat sorriu. Era estranhamente bela. A boca era larga e carnuda e o sorriso encantador. Respondeu Ya'rub, e os presentes notaram um certo orgulho quando o fez.

- Nergal. Seu nome é Nergal.

A cidade respirou diante do nome de seu Senhor. Era mais uma sensação que um fato propriamente dito, mas foi como se as muralhas se tornassem mais altas e mais robustas.

- É também um prazer recebê-los, Caias Koine, Enki e Japhet - Parou o olhar em Enki - Muito ouvimos falar sobre o Senhor do Abzu.

Sorriu novamente. Parecia inofensiva.

Sugeriu que os cainitas a acompanhassem. Enfim, caminharam em direção a Mashkan-Shappir, a Fortaleza da Dor, cruzando, pela primeira vez, seus portões. Antes, porém, Ya'rub ouviu uma voz em sua mente. Era familiar, calma e portava paz de espírito. Tratava-se de Samiel. Onde ele estaria, Ya'rub não sabia dizer.

- Boa sorte, irmão meu. Me encontro nas redondezas. Interviremos quando for necessário.

Adentraram.

Era mais bela dentro do que fora. As ruas eram largas, ventiladas e pavimentadas com pedras encaixadas com um cuidado milimétrico. As casas, de argila e pedra, jaziam a espaços bem definidos umas das outras, permitindo ao vento passar entre elas, assim como aos pedestres alcançarem ruas próximas sem muito esforço. Comércio florescia nestas pequenas vielas, com tecidos, carne, bronze, joias. Uma multidão transitava, prestando pouca ou nenhuma atenção nos visitantes, mas saudando respeitosamente Arishat, que retribuía as saudações com breves toques nas cabeças dos moradores. Sorria e agradecia, abençoava-os quando os tocava. No final da larga avenida em que transitavam, havia um grande e barulhento mercado. Se ouvia música e risadas, os homens jogavam jogos de azar e as mulheres dançavam e cozinhavam perfumados guisados de veado. Além do mercado, a avenida continuava, ladeada por construções cada vez mais altas, algumas com três andares. No mercado haviam estátuas de palha e metal, que representavam os Deuses adorados ali. Era possível ver, claramente, uma estátua da própria Arishat, assim como a de um homem usando uma máscara de pedra.

Avançaram e as ruas se tornaram mais estreitas. O movimento diminuiu a li reinava um certo silêncio. E então, veio. A sensação de que grandes túneis se estendiam sob toda a cidade. Era mais que uma intuição, era como se a cidade desejasse que aqueles visitantes soubessem que a sua glória se entendia até as raízes da terra. E, acompanhando esta sensação, uma outra. A de que coisas inomináveis vagavam naqueles túneis. A cidade, agora, parecia menos gentil e mais ameaçadora.

À esquerda divisaram o zigurate em que, segundo as visões, estava retida a tabuleta. Era de médio porte mas, ainda assim, de uma proporção impressionante. As pedras de que era composto pareciam emitir uma leve coloração esverdeada. Nas suas proximidades, ninguém. O zigurate parecia vigiá-los, como se fosse um dos grandes e protuberantes olhos da cidade.

O outro olho, maior, estava bem diante deles.

Elevado sobre uma grande plataforma de barro compacto repousava um zigurate. O maior que todos eles haviam visto. Era ordenado e preciso, com seus planos se erguendo em harmonia, prontos a tocar o céu cor de chumbo. Daquele local emanava uma malevolência incompreensível, orientada a bons propósitos. Parecia uma contradição, como tudo o que envolvia o inimigo. Aproximaram-se e notaram a presença de uma guarda, homens e mulheres vestindo as mesmas máscaras de animais. Os olhos se mexiam, acompanhando a passagem dos cainitas. No entanto, não se curvavam diante de Arishat.

Na base de barro havia uma pequena entrada. Passaram por ela para alcançar degraus escavados na terra, levando-os acima. Então, sob a base, puderam ver o zigurate em toda a sua glória. Era como se ele fosse parcialmente oculto quando estavam abaixo, mas tenha se revelado somente quando eles estavam mais perto. Emitia o mesmo tom esverdeado que o zigurate menor, mas a mesma sensação de vigilância amplificada por dez vezes. Aproximaram-se e uma outra entrada pode ser vista. Arishat os conduziu adentro e a cidade se tornou uma memória longínqua. Só o zigurate importava. Ali reinava um silêncio tumular, quebrado somente pelos passos dos cainitas no corredor. Arishat seguia em silêncio.

Girando à esquerda, acessaram uma segunda escada. Era apoiada na própria rocha do zigurate, com degraus perfeitamente simétricos e forma circular. Uma vez no final dela, viram um salão amplo e bem iluminado pela lua e pelas tochas que se mantinham perigosamente perto dos assentos de pedra. Observando como estavam posicionados, pareciam propositalmente destinados a intimidar os cainitas. Arishat os convidou a sentar em tronos diante de um único trono de igual porte, onde se sentou.

Só então notaram a presença de um homem no recinto, pois a homem com tecido na face e repleto de suturas não havia entrado no recinto, permanecendo, de costas, na porta. O outro estava de pé em uma outra passagem menor que levava mais avante no zigurate. Era negro, alto e musculoso. O maxilar era quadrado e rígido, suportando lábios grossos. O nariz era largo e os olhos escuros como a noite. Os cabelos eram crespos e mantidos em uma altura razoável. Vestia somente um saiote imaculadamente branco e um colar de pedras brancas no peito.

Arishat se dirigiu a ele.

- Jamal, traga algo para que nossos convidados bebam.

O homem se curvou e deixou a sala, sem olhar para os convidados.

Somente quando os cainitas se sentaram, ela se dirigiu a eles.

- Sejam bem vindos ao Grande Zigurate, visitantes. Em nome de Nergal, de Arishat e de Tanith, ouvirei vossas palavras com o coração aberto.
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Re: Mashkan-Shapir: Fortaleza da Dor.

em Ter Jun 05, 2018 9:02 am
*Tepelit falava a verdade, e Enki jamais poderia dizer o contrário. A viagem foi extremamente desagradável, embora o Moldador desconfiasse que havia sido mais para si do que para os outros, porque a viagem o arrancara da terra, e ele sentia sua falta como se tivessem lhe arrancado um membro. Inclusive, ele desconfiava que se não fosse o pequeno conforto que trazia dentro de si, a experiência teria causado algum dano à sua mente. Mas todo o desconforto valera a pena, pois à sua frente, estava Mashkan-Shapir.*

*Mashkan-Shapir. Quanto tempo fazia? Talvez nem o próprio Enki se lembrasse mais. Mas a verdade é que no momento em que seus pés descalços tocam o chão enegrecido, tudo muda. Ele pode sentir o lugar chamando seu nome, e ouvir os gritos dos espíritos da terra. Se eram de júbilo, horror ou ambos, não saberia dizer, mas quase que como por instinto, o Moldador se torna o Genius Loci quando pisa em Mashkan [Trilha do Espírito, uso de um ponto de Força de Vontade e um Ponto de Sangue]. Ele podia ver, ouvir, tocar e sentir o gosto por quilômetros ao seu redor. Entre ele, que era um receptáculo para a terra, Ya'rub, amigo e encantador de espíritos e Japhet, para quem os mortos se arrebanhavam como ovelhas para um pastor, o mundo espiritual devia estar fervilhando.*

...

*Quando Arishat os recebe, só resta a Enki abrir um sorriso largo, mostrando seus dentes serrilhados. Cabia a ele, ao menos naquele momento, ser a face da polidez e contenção.*


-Imensa gentileza, minha anfitriã. Mashkan-Shapir sempre terá um lugar no coração de Enki, e tenho certeza de que sua chegada também desperta algo na cidade.

*Em seguida, ele se permite conduzir pela cidade, não deixando, apesar de todas as memórias ruins que tinha do lugar, de se admirar com tamanha opulência. Talvez isso só aumentasse a beleza do ato de destruí-la, quando chegasse a hora. Ele também não podia deixar de notar o acompanhante encapuzado de Arishat. Algo nele lembrava a Enki as artes de seu pai, e o Moldador julgava sábio prestar mais atenção.*

*Na sala onde é realizada a conferência, ele passa alguns instantes olhando as tochas, e a chama nua. Está prestes a ceder ao medo quando sente os espíritos ao seu redor sussurando para sua Besta, e a acalmando. Tranquilizado, ele se senta com um sorriso no rosto. Seu primo Ya'rub era a parte ofendida, e seu outro primo Japhet era o mais velho, portanto não seria próprio falar antes deles.*
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Re: Mashkan-Shapir: Fortaleza da Dor.

em Ter Jun 05, 2018 2:14 pm
A cidade deus as boas vindas a Enki.

Ele sabia pois sentia em seus ossos que Mashkan-Shappir o observava mais do que aos outros. A disposição das ruas, casas e zigurates continuava a mesma das memórias de Enki. Era como se a cidade estivesse congelada no tempo desde o dia em que ela a deixou. O mercado era vibrante como sempre e as oferendas de sangue estavam convenientemente depositadas aos pés das estátuas dos Senhores de Mashkan-Shappir.

Continuava bela, Mashkan-Shappir, com seus murros marrons e seu céu cor de chumbo. Foi para este céu que Enki alçou os seus sentidos, garantindo uma visão privilegiada da cidade. Era muito mais fascinante vista de cima. A evidente organização e uniformidade eram de dar inveja às outras cidades do mundo. Sem dúvidas era a mais grandiosa da planície. Era? Ou seus sentimentos por Mashkan-Shappir fazia com que visse a cidade em uma maneira diferente? Ou era a cidade que desejava que ele a visse assim?

Poucos locais restavam fora da visão de Enki. O interior do Zigurate menor era uma icógnita, assim como o do maior. Enki intui que proteções muito intensas faziam morada ali. Poderes obscuros haviam garantido sua escuridão aos pontos mais importantes de Mashkan-Shappir. Do lado de fora, porém, Enki divisou Samiel. Estava a poucos minutos de cavalgada da cidade, cercado de guerreiros montados que aguardavam somente uma ordem. Seu primo observava os céus, como se esperasse um augúrio. O Terceiro Olho estava aberto.
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Re: Mashkan-Shapir: Fortaleza da Dor.

em Ter Jun 05, 2018 2:25 pm
Nergal. Ya’rub sorriu ao ouvir pela primeira vez o nome do Senhor de Mashkan Shapir. Então era assim que se chamava aquele que, por alguma razão, entrou em conflito com Moloch e decidiu criar para si uma cidade ainda maior e mais gloriosa do que Ashur.

Conforme caminhavam pelas ruas movimentadas em direção ao grande zigurate, Ya’rub tinha a impressão de que Nergal havia sido bem-sucedido em sua empreitada. De fato, havia glória em Mashkan Shapir. Tudo na cidade impressionava. O tamanho, a quantidade de pessoas, a prosperidade. Aos seus olhos, Mashkan parecia florescer ainda mais do que Nippur. Mas a que custo? Qual era o preço que aqueles mortais pagavam por viver aquela pujança? O que seus Senhores, na figura de Nergal, cobravam? E, mais do que isso, o que os Senhores dos Senhores de Mashkan exigiam?

Ya’rub olhou novamente para Enki. O FIlho do Estrangeiro tinha as respostas para essas perguntas. Essas respostas estavam marcadas em sua memória e em seu corpo. O preço da vida em Mashkan Shapir era a dor e a servitude forçada. O feiticeiro sabia que a dor, em muitas ocasiões, era necessária. A dor é o preço que se paga ao bargar com muitos espíritos e mortais. A servitude, contudo, é o grande problema. Nenhum conhecimento, riqueza ou poder tem valor suficiente para obrigar qualquer ser a esquecer o lugar que ocupa na ordem das coisas.

Tudo ainda impressionava e chamava a atenção de Ya’rub até o momento em que adentraram o silêncio e a penumbra do grande Zigurate. Ali, o feiticeiro sentiu um peso nos ombros e recebeu a sensação que lhe era tão familiar: o Medo. Era como se um velho amigo tivesse acabado de lhe dar a mão, tão gelada quanto a Morte. Ya’rub abriu o sorriso. De uma forma muito paradoxal, sentia-se melhor assim. Imediatamente, procurou decorar mentalmente o caminho que estavam fazendo, ainda que tivesse a impressão de que só conseguiriam sair do Zigurate se os Baali assim o quisessem. Lembrou-se também das palavras de Samiel na sua mente. A lembrança veio de modo forçado, numa vã tentativa de trazer uma espécie de conforto.

Sentaram-se no salão interno do Grande Zigurate. Ya’rub observou com atenção o escravo que servia Arishat. Jamal. Pelo porte do homem, ele claramente ocupava um lugar que não era seu. Deveria lider exércitos em campos de batalha, e não servir aos Baali. Mais uma vez, Ya’rub via na sua frente os problemas da servitude...

Quando Arishat lhes deu a palavra, Ya’rub rapidamente circulou o olhar entre seus primos e se adiantou:

- Senhora Arishat, voz de Nergal, Senhor de Mashkan-Shapir, novamente lhe agradeço por abrir suas portas para nossa comitiva. Como dissemos, viemos como emissários de Nippur em missão de paz.

Ele sorri antes de prosseguir

- Como imagino ser de comum conhecimento a todos aqui, nossas famílias possuem divergências. Essas divergências nos levaram a conflitos no passado, mas creio que já é um fato estabelecido, de comum acordo, que nenhum de nós gostaria que esse cenário voltasse a se repetir.

Ya’rub olha para Japhet. Provavelmente era o único entre os presentes que havia visto a guerra com os próprios olhos.

- A paz foi positiva para ambas as nações e, consequentemente, para nossas famílias. Andando pelas ruas de Mashkan-Shapir, é possível ver o quanto essa cidade surgiu do nada e prosperou nos últimos séculos. Tornou-se uma nação forte e cheia de glória. Eu não venho aqui para questionar os métodos e a cultura de Mashkan Shapir. Como eu disse, ainda temos nossas divergências. Mas é inegável que não foi por meio da guerra que conseguiram tudo o que têm.

- Posso afirmar, Senhora Arishat, que Nippur prospera igualmente. A ausência de conflitos permitiu ao nosso povo ser feliz e seguir com o destino de nossa nação. A paz favorece a todos nós.

Ele pausa mais uma vez, esperando que suas palavras ecoem no recinto.

- É evidente que longos períodos de paz podem ser perturbados por pequenos conflitos pontuais. Afinal, a vida e a convivência entre nações é dinâmica. Mas não devemos olhar para esses conflitos como evidência de que o que se construiu de comum acordo está completamente perdido...

Ya’rub sorri.

- Peço desculpas pela longa introdução, mas, agora sim, indo direto ao nosso ponto, é sobre um desses recentes conflitos que gostaríamos de conversar. Algumas noites atrás, um dos meus irmãos de sangue foi atacado em sua viagem de retorno à Nippur, após ter retornado das margens do Rio Indo. Meu irmão não é um guerreiro, bem como não estava acompanhado de uma caravana preparada para a guerra. Em verdade, essa é uma situação que pode acontecer com todos aqueles que atravessam o deserto. Muitas tribos têm como única fonte de vida o assalto. Sustentam homens, mulheres e crianças dessa forma e não serei eu a condená-los...

- Ocorre que, durante este assalto, algo que nos pertence foi levado. Uma tabuleta que ele conseguiu às margens do Indo. Após ocorridos como este, minha primeira opção seria ir até a tribo de salteadores e tentar pedir em retorno aquilo que nos pertence. Eu não iria vingar eventuais mortes, nem mesmo exigir qualquer tipo de reparação. Iria apenas pedir o retorno deste único objeto.

Ya’rub olha Arishat nos olhos. Sua expressão era calma.

- E é justamente isso, Senhora Arishat, que viemos fazer aqui. Sabemos que a tabuleta que nos pertence foi trazida à Mashkan Shapir e encontra-se guardada no zigurate menor, por onde passamos. Assim, peço humildemente, em nome da prosperidade trazida pela paz entre nossas nações, que nos retorne este artefato. Com ele em mãos, retornaremos à Nippur com a gratidão em nossos corações e com a certeza de que nossas divergências são pequenas diante da glória de nossas prósperas cidades. Como eu disse, a paz é algo que favorece a todos nós.

Ao terminar, Ya’rub sorri.
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Re: Mashkan-Shapir: Fortaleza da Dor.

em Qui Jun 07, 2018 4:41 am
Enquanto Ya'rub expunha as razões da visita, Arishat escutava tudo com atenção. Em sua face residia uma expressão quase compreensiva. O escravo havia retornado ao salão, em suas mãos uma jarra de argila finamente decorada com inscrições desconhecidas. Pousou-a numa pequena mesa de pedra entre os visitantes e a anfitriã. Em seguida, depositou ali copos também de argila, retirando-se para o local onde estava quando os cainitas haviam entrado.

Arishat serviu um dos copos, deixando a jarra no mesmo lugar em que Jamal a havia depositado. O perfume forte de Vitae invadiu o ambiente, um cheiro exótico e atraente. Caias tomou a jarra com as mãos, servindo o conteúdo nos outros recipientes. Foi o primeiro a beber, enquanto encarava Arishat. Diante da ação de seu irmão, e como se fosse movido por uma segurança dada por ele, Japhet fez o mesmo.

- Certamente a paz fez grandes coisas por Mashkan-Shappir e Nippur. Nossas nações aprenderam a coexistir em harmonia, ainda que nossos interesses e métodos sejam bastante diversos. Eu não caminhava entre os mortos quando os primeiros conflitos aconteceram, o pouco que sei me foi informado por meu Senhor Nergal, o Infalível.

Arishat tomou mais um gole e depositou o copo na mesa de pedra. Movia-se lentamente e com a graça de uma serpente.

- De forma que não temos absolutamente nenhum interesse em romper tal situação de paz, visitantes. Me revelo profundamente desgostosa que as ações de meu irmão Tanith - pois tais ações impensadas são parte de sua personalidade - tenham causado problemas à grande Nippur. Não estava ciente de tais fatos, meu irmão costuma ser bastante enigmático em suas ações. De antemão me desculpo pelo dano causado ao seu irmão, nobre Ya'rub.

Arishat se levantou, colocando-se diante dos cainitas. Sua voz era calma e suave e seus olhos escuros brilhavam intensamente.

- Arrisco dizer que nem mesmo meu Senhor Nergal, Grande Seja Seu Nome, detém conhecimento sobre esta situação. Posso dizer, conhecendo-o, que tais atos foram realizados sem a sua anuência e que, por isso, Tanith será devidamente punido. A harmonia entre nossas nações é uma prioridade de Mashkan-Shappir.

Sorriu. Seu sorriso era muito similar ao de Ya'rub. Olhou para Enki durante algum tempo e a ele endereçou um sorriso ainda mais vasto. O Filho do Estrangeiro se sentiu, subitamente, analisado em seus ínfimos detalhes pela anfitriã.

- Requeiro a vossa licença, procurarei imediatamente meu irmão no grande Zigurate, e ordenarei que tal artefato seja devolvido. Fico satisfeita que tenham vindo em paz e que compreendam que um pequeno contratempo como este não possui a força para arruinar o cenário em que vivemos, que é interessante a todos.

Arishat começou a se retirar, saindo pela mesma porta pela qual os visitantes haviam entrado. O homem com o véu no rosto a seguiu, como um guarda costas obediente. No salão, permaneceram somente os quatro visitantes e o escravo Jamal.

O homem encarou Ya'rub por alguns segundos. Tinha o olhar fixo e intenso, e transmitia uma sensação de emergência palpável. Ya'rub sentiu como se a mente do homem roçasse na sua, como se desse ao cainita permissão para entrar. Concentrando-se por alguns segundos, e invadido pela sensação de urgência imposta por Jamal, os Dons de Ya'rub se ampliaram subitamente. Estava envelhecendo. Estava se tornando mais poderoso e capaz de realizar ações impressionantes. A voz de Jamal, grossa, imponente e em nada parecida com a voz frágil de um escravo adentrou sua mente.

- É uma armadilha. Meus homens estão prontos.

Quem era aquele homem e o que fazia ali? As respostas para estas perguntas deveriam esperar para serem respondidas. Ya'rub percebeu que o olhar de Enki se perdeu no vazio, como se seu parente não estivesse ali. E, de fato, não estava. Enki flutuava sobre Mashkan-Shappir, alto o suficiente para perceber os destacamentos de homens mascarados que marchavam, rapidamente, em direção ao Zigurate onde se encontravam.
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Re: Mashkan-Shapir: Fortaleza da Dor.

em Qui Jun 07, 2018 3:25 pm
Estranho. Enquanto ouvia as palavras generosas e gentis de Arishat, Ya'rub não pôde deixar de achar a situação estranha. Viera preparado para ter que negociar o retorno da tabuleta em exaustão, mas tudo parecia transcorrer na mais absoluta tranquilidade. Não houve nenhuma pergunta requisitando mais informações. Nenhuma exigência ou pedido de algo em troca. Nada. Apenas o misterioso sorriso de Arishat e um surpreendente pedido de desculpas.

Quando a Baali se retirou do salão, Ya'rub continou se questionando sobre o que estava acontecendo. Seria assim tão fácil? Foi o olhar de emergência oferecido pelo escravo Jamal que o fez ter certeza de que algo de fato estava errado. A voz súbita do homem em sua mente foi como um choque que percorrendo a espinha. Surpreendeu-se com o que acabara de acontecer, mas não teve tempo de processar. A mensagem era mais urgente do que o modo como ela fora transmitida.

Ya'rub nunca havia visto Jamal antes daquele momento, mas algo lhe dizia que podia confiar naquele homem. Rapidamente, o feiticeiro se levanta da cadeira. No mesmo movimento, se vira para Japhet, Caias e Enki:

- Preparem-se, isso é uma armadilha. Creio que fomos encurralados aqui.

Ya'rub tinha raiva e medo no seu tom de voz e na expressão dos seus olhos. Malditos Baali. Com passos apressados, ele se aproxima de Jamal e o toca nos ombros. Pergunta, com voz baixa:

- Quem são seus homens e onde eles estão? Precisaremos de ajuda para sair daqui.

Só de imaginar que a saída do Zigurate já seria apenas a primeira etapa da fuga, pois teriam que sair dali e posteriormente da cidade de Mashkan Shapir, Ya'rub sentiu o medo invadir todo o seu corpo. Ele aproveita a sensação para se preparar. Pega uma dos pequenos sacos de couro com kalif escondidos em sua veste. Deposita um pouco na palma de sua mão esquerda e, concentrando-se, faz com que seu sangue se ative, brotando como uma fonte em sua mão e banhando a erva prensada com o líquido vermelho. Murmurando palavras estranhas, Ya'rub espalha o kalif por seus braços e, finalmente, em seu próprio rosto.

Ya'rub sabia lutar, mas não era um guerreiro. Ele faria o que fosse possível para sair dali com vida, junto de seus primos. Mas para isso, precisaria contar com o fator surpresa.

[Ya'rub gasta 1 Pto de Sangue para ativar o Aroma do Kalif (Dur-An-Ki - Trilha Ventos do Caçador 4). Qualquer pessoa que olhe diretamente para ele deverá fazer um teste de Raciocínio + Prontidão. Em caso de falha, ficará intoxicada]
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Re: Mashkan-Shapir: Fortaleza da Dor.

em Qui Jun 07, 2018 3:31 pm
*O olhar vazio e sem piscar de Enki se volta lentamente para Ya'Rub, e em seguida seus primos Caias e Japheth, o sorriso vago nunca deixando seu rosto. Vendo como os dois irmãos bebiam o sangue sem receio, sabia que era seguro, então os acompanha. Ao beber, se marcava como hóspede de Mashkan-Shapir, o que deixava tudo apenas mais... delicioso.*

*Das alturas, via os soldados marchando ao seu encontro, assim como também via por baixo. Era o vento passando por suas orelhas, o solo pisoteado por suas sandálias, sentindo cada um dos que aproximava pela magnífica cidade. Mais do que nunca, Mashkan-Shapir falava com ele, e o alertava.*


-De fato, eles vêm até nós, Amados. Todas as feras do deserto, chacais, hienas, gafanhotos, leões e tigres vêm até aqui com sede por nosso sangue. Sinto vinte marchando com fúria nos seus corações, portanto a nós cabe recebê-los com a maior das gentilezas.

*Como na sala do Trono Negro em Nippur, um osso começa a despontar de seu antebraço, embora desta vez saísse por ambos. Enki retira dois espigões do corpo e os molda em um só, formando uma lança. Em seguida fecha os olhos e suspira, e toda a carne de seu corpo treme, até que a pele começa a esticar e rasgar. Barbatanas e espinhas surgem das costas e membros, e escamas passam a cobrir seu corpo. Enki era o senhor do Abzu, um terror vindo das profundezas, e quando abre a boca, é como se sua voz fosse a água jorrando de um poço.*



-Cabe a nós lhes ensinar boas maneiras.

[Enki gasta dois Pontos de Sangue para criar uma arma com seu Arsenal Corporal (Metamorfose 3, Vicissitude 3), e mais dois para ativar sua Forma do Zulo (Vicissitude 4).
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Re: Mashkan-Shapir: Fortaleza da Dor.

em Sex Jun 08, 2018 12:20 pm
A situação de tensão imediatamente toma conta da sala. Diante do aviso de Enki, Caias e Japhet se levantam. O guerreiro saca uma belíssima cimitarra da cintura, finamente trabalhada com joias azuladas. Coloca-se em posição de combate. Japhet, por outro lado, parece murmurar algumas palavras com uma velocidade impressionante. Retira de um saco de couro preso à cintura uma pedra de carvão e começa a desenhar um círculo escuro ao redor dos olhos e das costas das mãos. Caias olha atentamente para a entrada que havia sido usada pelos cainitas, parece esperar pela entrada dos inimigos.

Jamal parecia absorvido pela transformação de Enki em um ser completamente diferente daquilo que era. Não era possível discernir se o homem estava admirado ou assustado mas, de qualquer forma, abandonou seu transe para ouvir as palavras de Ya'rub. Respondeu ao feiticeiro sem esboçar nenhum sentimento.

- Meus homens estão entre a guarda de Mashkan-Shappir. Imagino que vocês sejam provenientes daquela outra cidade onde os deuses caminham entre os homens. Não caberá a mim julgá-los. Ao menos não agora. Neste momento, temos um inimigo em comum.

De fato não era um simples escravo. Jamal tinha o porte de um guerreiro e, mais ainda, de um líder. O que quer que tenha feito ou planejado tinha sido especialmente efetivo, a ponto de enganar os deuses de Mashkan-Shappir. Continuou, após uma pausa.

- Ouvi parte da conversação entre vocês, e me parece que um artefato de relevância está na posse destes infernalistas. Se é o que eu penso que seja, uma tabuleta escrita em um idioma desconhecido, sei onde ela está e sei como acessá-la. Precisarei, entretanto, de alguém que compreenda defesas místicas. Minha recomendação é que aqueles de vocês que são guerreiros enfrentem a guarda de Mashkan, mas o faça fora da cidade, onde eles estarão em desvantagem. O movimento servirá para encobrir a minha entrada com os outros no zigurate menor, onde também repousa uma relíquia roubada do meu povo. Não estou em posições de dar ordens, mas me parece a melhor opção.

Ya'rub sentiu, dentro dele, a presença de seu Pai. Sabia que Haqim observava o desenrolar dos fatos, embora não pudesse pisar fisicamente em Mashkan-Shappir por conta da trégua. A voz de seu Ancestral era cristalina e trazia boas notícias.

- Meu poder o tornará invisível aos olhos do inimigo, filho meu.

Fez uma pausa antes de continuar.

- Assegure-se de que este homem sobreviva e que o acompanhe até Nippur.

Jamal continuou, olhando para aqueles que portavam armas: Caias Koine e Enki.

- Meus homens se confundirão com a guarda de Mashkan até o último segundo. Mas vocês saberão claramente quem são quando se revelarem. Se posso pedir algo é que contribuam com a proteção deles. Não obstante, estarão prontos para morrer. Não sem antes derrubar o maior número de inimigos possível.

Enki sabia que os inimigos se aproximavam em velocidade. Tinham pouco tempo para fazer as escolhas certas.
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Re: Mashkan-Shapir: Fortaleza da Dor.

em Dom Jun 10, 2018 2:33 pm
*Lenta e deliberadamente, Enki anda até Jamal e escuta suas palavras com atenção. Ele observa o escravo por longos segundos antes de abaixar, mantendo um olho enorme e intenso na altura de seu rosto e enfim pronunciando sua sentença.*

-Notável.

*Ele fica ereto novamente, e se vira para seus primos.*

-Ele fala, até onde posso perceber, a verdade. Dois pontos na cidade estão além da minha visão - os dois zigurates. Se andarem pelas vielas, terceira esquerda e segunda direita, não serão molestados, mas eu não posso dizer em qual dos dois está aquilo que procuramos, embora arrisco dizer que entre Japheth e Ya'rub, ambos não guardarão segredos de vocês. Apenas tomem nota: são bem protegidos, por algo que não posso definir.

*Enki enfim anda até Caias.*

-E você, meu caro primo que transita entre os mortos e os vivos, posso nos levar para fora dos muros da cidade sem risco de sermos emboscados, onde podemos saudar nossos anfitriões de forma digna.
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Re: Mashkan-Shapir: Fortaleza da Dor.

em Seg Jun 11, 2018 9:15 am
Ver seus primos se preparando para o iminente combate já teria sido suficiente para trazer o sorriso de volta ao rosto de Ya’rub. Mas foi a voz de seu Pai diante das palavras de Jamal que fizeram seu sangue ferver. A emoção foi tamanha que não conseguiu conter o riso.

- Hahaha! Os espíritos estão sendo generosos conosco esta noite!

Virou-se para Enki e Caias. O Filho do Estrangeiro havia se transformado em um monstro tão belo quanto o Medo dos afogados. Caias parecia tão altivo que certamente continuaria majestoso e combativo mesmo no mundo dos mortos.

- Levem a luta para os portões dessa cidade, primos amados. Faça com que saibam que há mais a temer nesta terra do que os mestres infernais que tanto adoram dentro destas muralhas.

Ya’rub voltou-se a Jamal. Não podia deixar de se surpreender a cada segundo com aquele homem. Agora tinha certeza que o lugar dele não era entre os escravos de Mashkan Shapir, mas os espíritos o levaram ali por algum motivo. Caberia a Ya’rub trazer-lhe de volta ao lugar original no grande esquema das coisas.

- Jamal. É assim que lhe chamam e é assim que eu o chamarei, se o desejar. Tens um papel mais honrado a cumprir do que servir os senhores de Mashkan. Leve-nos ao zigurate e à tabuleta, como disseste e, ao final desta noite, será homenageado como merece em Nippur. Mas antes, permita-me fazer algo.

Tal como Japhet fizera, Ya’rub retira um pequeno pedaço de carvão de suas vestes. Com ele, começa a pintar o rosto e o corpo de Jamal, enquanto sussurra aos espíritos dos predadores que lhe concedam o dom do caçador que se move invisível. O feiticeiro sente seu sangue percorrendo o corpo, enquanto transfere seu poder ao mortal.

Ao terminar, diz em voz alta para todos, mas mentalizando também a imagem de Haqim.

- Estamos prontos.

[Ya’rub gasta 1 Pto de Sangue para ativar o Corpo Fantasma (Dur-An-Ki - Trilha Ventos do Caçador 5) em Jamal, tornando-o invisível, inaudível e intangível para todos, com excessão do invocador, a partir do momento em que quiser ativar o efeito]
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Re: Mashkan-Shapir: Fortaleza da Dor.

em Sab Jun 16, 2018 6:48 am
Estavam prontos.

Jamal agradeceu a Ya'rub. Nos olhos do mortal existia algo de estranhamente familiar, algo que parecia atrair o vampiro. Ya'rub teve a nítida sensação de sentir a presença do Djiin, como se o observasse e julgasse suas ações. Não tinham, porém, muito tempo de que pudessem dispor. Jamal cumprimentou Enki e Caias e indicou a Ya'rub e Japhet que o seguissem. Indicou, em voz alta, que poderiam usar uma saída alternativa que os levaria até as ruas indicadas por Enki, de modo a alcançar o zigurate menor com menos dificuldade. Ainda segundo ele, Enki e Caias deveriam usar a saída principal, que os levariam até o melhor acesso até as muralhas. Isso foi segundos antes que deixassem o local, em grupos separados, e foi nestes segundos que Enki sentiu algo estranho. Sentia que o seu Pai estava por perto.

Jamal, Ya'rub e Japhet seguiram pela porta que o "escravo" havia acessado anteriormente. Ela dava acesso a um longo e baixo corredor. O local era iluminado somente pelo brilho esverdeado e fantasmagórico que escapava das rochas. Reinava o silêncio. Acessaram uma estreita escada de pedra que os encaminhou para baixo. Jamal parecia conhecer intimamente a conformação do Zigurate e Ya'rub se perguntou por quanto tempo ele tinha estado ali. Japhet os acompanhava, reunindo ao seu redor os espíritos, inquietos e curiosos, que acompanhavam seus passos.

Enfim, a saída. Deixaram o zigurate no sentido oposto àquele que haviam entrado. Era notável que a cidade já estava ciente de que inimigos havia penetrado as defesas. Ou que ao menos, agora, eram tratados como inimigos. Desceram da base de barro a tempo de ver as tropas que marchavam em direção à entrada principal. Os outros tinham pouco tempo. No ar, uma notória sensação de urgência. Era possível ouvir cavalos que marchavam carregando seus cavaleiros para fora da cidade, em direção ao sul. Oposto à saída em que estariam seus primos. Possivelmente estavam marchado em velocidade até os vilarejos atacados por Sarosh e os demais. Ya'rub sentiu que uma presença particularmente poderosa marchava com eles, mas não conseguia identificar de quem se tratava.

Caminhou pelas ruas largas, evitando os mortais que tornavam rapidamente às suas casas, como se açoitados por uma força invisível. O clima mudara. Mashkan-Shappir não lhe parecia magnânima, mas hostil e violenta, projetando-se sobre eles como se desejasse intimidá-los, fechá-los em um casulo urbano. Em pouco tempo e sem contratempos estavam diante do zigurate. Jamal declarou conhecer um acesso, mas que jamais o havia utilizado, não sabendo o que poderiam encontrar ali. A outra opção era o acesso direto, pela porta de entrada. Esperou que Japhet e Ya'rub respondessem.

Do outro lado da cidade, Enki conduzia Caias Koine para o lado de fora das muralhas. Sua Visão ainda funcionava, mas os efeitos pareciam diminuir. Por fortuna havia memorizado o caminho que havia visto, e conduziu seu primo, que se movimentava atento a eventuais emboscadas, até os muros da cidade. Não demoraria para que a guarda de Mashkan-Shappir seguisse seus passos, mas os enfrentariam ao lado de fora. Seguiam para lá não somente em razão de Enki saber o caminho. Seguiam, fundamentalmente, pois era dali que parecia vir a presença d'o Estrangeiro.

Os poucos mortais que ainda encontraram pelas ruas se dividiam na reação. Alguns fugiam imediatamente de Enki, aterrorizados pelo monstro que vivia e dormia em seu Sangue mas que agora estava desperto. Outros pareciam reconhecer o Senhor do Abzu e, com olhos quase marejados, pareciam implorar para serem retirados dali. Não se sentia a prosperidade e alegria de Mashkan-Shappir, apenas uma sensação generalizada de desespero. Cruzaram um pequeno portão esculpido nas muralhas e deixaram a cidade. Caias pareceu ter uma iluminação repentina, demonstrando uma sabedoria que normalmente seria atribuída a Japhet.

- Ela pode escolher nos deixar entrar, mas não pode nos impedir de sair. Fascinante.

Giraram as muralhas em direção ao portão principal, onde uma provocação deveria ser feita para atrair a atenção da guarda, de modo a permitir a Ya'rub, Jamal e Japhet de acessar o zigurate. Enki intuiu, talvez por senti-lo, que Samiel estaria ali em poucos minutos. No entanto, foi a presença de um outro homem que chamou a atenção enquanto eles se aproximavam.

Era alto, com quase dois metros de altura. Estava vestido com roupas muito simples, quase camponesas, escuras e ligeiramente sujas. Não era magro nem forte, mas tinha um porte atlético, altivo. Os cabelos, vermelhos como o fogo e organizados em grandes caracóis caiam pelas suas costas. O rosto era andrógino, parecia delicado como o de uma mulher mas com uma expressão firme como a de um homem. O nariz era longo, mas não muito, e os olhos intensamente verdes. A boca era grande, larga, desequilibrava o rosto. Ele girou-se quando os dois vampiros se aproximavam e, quando os olhos de Enki cruzaram com os seus, o Senhor do Abzu teve certeza de que a semente de seu Senhor era responsável por aquele vampiro. E mais do que isso. Havia algo nele que atraía imensamente Enki.

- Saudações irmão. Me chamo Dracon. O Pai me mandou para ajudar.
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Re: Mashkan-Shapir: Fortaleza da Dor.

em Seg Jun 25, 2018 11:37 am
Enquanto ouvia as instruções de Jamal, Ya'rub pôde sentir que aquela noite seria uma noite de embate entre poderosas forças. Ao longo do caminho que percorriam em direção ao zigurate menor, foi possível perceber picos na movimentação dos espíritos. Era como se cada ser de grande poder que se mobilizava para o conflito próximo criasse ondas de atração ou repulsa no mundo imaterial. Essa era, sem dúvida, a primeira noite de muitas que iriam transformar a face da realidade, tal como a conheciam.

O próprio Jamal, que os conduzia com habilidade e certeza pelas ruas de Mashkan-Shapir era uma clara demonstração disso. A presença daquele homem, que se apresentara como mais um dos muitos escravos da cidade, era algo anormal. Como poderia ser ele um simples mortal? Não, não era. Jamal era especial, apesar de Ya'rub não conseguir determinar, naquele momento, os motivos para tal. Mas quando sentiu a presença do Djinn ali por perto, observando Jamal com a mesma atenção que o observara, soube que o escravo estaria em seu caminho pelas noites seguintes. No fundo, era como se Jamal fosse um parente perdido há muitos anos, e que agora reencontrava. Um reencontro que ocorria no momento mais providencial possível.

Quando Jamal apresentou as opções que tinham, Ya´rub ponderou por um momento e olhou para Japhet:

- Até onde sei, esperamos que nossos primos causem uma distração grande o suficiente para que não tenhamos problemas ao adentrar no Zigurate. Se isso der certo, a porta da frente me parece a melhor das opções. Não gostaria de ser surpreendido por um problema maior trilhando um caminho que seja desconhecido por nós três. Não hoje.

Ya'rub continuou olhando para Japhet, esperando uma resposta de seu sábio primo.
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Re: Mashkan-Shapir: Fortaleza da Dor.

em Ter Jun 26, 2018 10:59 pm
*A perda de sua Visão era um pouco preocupante. Enki podia sentir os espíritos que lhe informavam se esvaindo, pouco a pouco enquanto deixava a cidade. Eles se dissipavam por fraqueza, ou medo? Algo se remexia na Cidadela da Dor, despertava. E seria melhor que se concentrasse nele, ao invés de seus primos.*

*Aos que clamam por seu nome, Enki não lhes fala, mas ao mesmo tempo seu tamanho é como um farol, e sua lança como o cajado de um pastor, todos aqueles que desejarem lhe seguir, são livres para tal. E quando Caias aponta para a peculiaridade do portão, não pode deixar de se surpreender, ao mesmo tempo em que anuncia em alto e bom som, para o primo e para todos ouvintes.*


-Fascinante sim, amado. Foi decretado pelos deuses que caminham sobre Nippur que ninguém permanecerá em Mashkan-Shapir se assim não for sua vontade, e até aqui a voz dos deuses de Nippur se faz ouvir.

*Fora dos portões, ele se sente como uma mariposa voando a uma chama. Seu irmão é como um sinal, um farol naquela cidade que, apesar de todo o saudosismo, ainda era uma lembrança pesada em seus ombros. Enki abaixa sua cabeça para olhar o homem ruivo nos olhos, e suas presas se expandem, num gesto que muito provavelmente era um sorriso.*

-E nenhum poderia pedir, ou agradecer, tanto ao pai. Me agrada imensamente conhecê-lo, Irmão.
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Re: Mashkan-Shapir: Fortaleza da Dor.

em Qui Jun 28, 2018 5:18 am

O Dracon, Progênie do Estrangeiro

Dracon sorriu. Observou Enki por um longo tempo, mantendo-se calado. Do lado de dentro das muralhas, a aproximação das forças de Mashkan-Shapir era sentida. Podia-se ouvir cascos de cavalos a aproximarem-se. O Dracon continuou olhando para Enki, sem proferir nenhuma outra palavra. Era como se estivesse hipnotizado pelo Senhor do Abzu, como se algo o impelisse a aproximar-se, a tocar Enki e senti-lo. Não dispunham, todavia, de tempo para amenidades.

Enki, por outro lado, sentia-se confortável na presença de Dracon, mesmo que estivessem estado juntos por poucos minutos. Era uma sensação de pertencimento, de afinidade. Como se ambos pertencessem a um mundo antigo e que deixava, lentamente, de existir. Era como se completassem um ao outro. Era forte e metafísico. Finalmente Dracon se pronunciou, ao mesmo tempo em que Caias se aproximava do portão, espada em mãos, pronto para o combate que viria.

- O Pai o ama, irmão. E por isso, mas não somente, eu o amo.

Dos portões de Mashkan-Shapir irromperam homens montados em poderosos cavalos escuros. Tinham as mesmas máscaras de animais da guarda que os havia recebido, mas pareciam mais bem equipados e mais agressivos. Estavam em um grande número, eram cerca de cinquenta, contando também os homens que corriam a pé atrás dos cavaleiros, seguindo sua liderança contra o inimigo de Nippur. Dentre estes, estava o misterioso indivíduo com um pedaço de tecido na cabeça. Corria a passos largos, parecia incansável. Em sua mão esquerda jazia uma poderosa espada de bronze. Os homens abriam caminho diante de sua passagem, encolhendo-se de medo e respeito. Estavam a poucos minutos de distância dos cainitas.

Enki notou, com alguma dificuldade pois a sua Visão teimava em falhar, que uma segunda força, mais numerosa, deixava a cidade pelos portões que levavam ao Sul. Entre eles se encontrava Arishat. Sabia que naquela região Sarosh e os outros enfrentavam as forças do inimigo nos vilarejos vizinhos. Poderia ter pensado em intervir, não fosse a voz cristalina de Samiel a ecoar em sua mente, despertando-o do transe que a presença de Dracon o havia causado.

- Não os impeça. Meu Pai estará no caminho, ansioso para fazê-los romper a trégua.

Samiel havia chegado. Detrás dos cainitas surgiram diversos homens, alguns em cavalos, outros a pé. Acompanhavam Samiel, Filho de Saulot, altivo e régio sobre um poderoso garanhão marrom. Os homens avançaram rapidamente, e ficou claro para as forças de Mashkan que eles encontrariam resistência. Não hesitaram, porém, sequer um minuto. Pareciam resolutos e determinados a morrer para seguir as ordens dos Deuses da Cidade Amaldiçoada. Mashkan-Shappir aparentava ter se tornado mais escura, mais ameaçadora. O céu sobre a cidade era de um cinza profundo e sufocante. O vento não se movia na planície. Somente os sons dos cascos de cavalos chocando-se contra o solo seco quebrava o silêncio. A coisa com tecido na cabeça marchava adiante das forças de Mashkan. Samiel havia alcançado, em um galope furioso, seus primos. Mas foi Caias Koine quem se preparou para atacar o homem misterioso.

A coisa, entretanto, não pareceu responder ao desafio de Caias. Mesmo com o tecido na face, Enki sentiu que a coisa o observava. E observava o Dracon. Começou a marchar com mais velocidade, com uma fúria incontida. Enki ouviu um grunhido gutural, um som agourento e desesperador, como se a dor fosse a única sensação que aquilo havia conhecido. Passou velozmente por Caias, que não foi capaz de atacá-lo. Lançou-se contra Enki e contra o Dracon, que havia se aproximado de seu irmão, em uma fúria devastadora e, aparentemente, inexplicável.

Dentro de Mashkan-Shapir, Japhet, Jamal e Ya'rub ouviam e viam a movimentação das forças de defesa. Uma parte delas deixava a cidade pelo Norte, rumo ao portão onde estavam os outros membros da comitiva. Uma segunda parte, maior, deixou a cidade através dos portões do Sul. Japhet não respondeu com palavras, mas indicou com um aceno de cabeça que eles deveriam seguir pela entrada principal, conforme sugerido por Ya'rub. Assim o fizeram.

Subiram as pequenas e estreitas escadas que separavam a rua da porta do zigurate. O local parecia emanar um aviso, uma ameaça, dizendo aos invasores que não ousassem adentrar suas dependências. O fizeram, acessando um corredor baixo e estreito. Todo o local cheirava a mofo e a velhice. Não demorou, contudo, para que Japhet e Ya'rub se entreolhassem ao mesmo tempo. Espíritos diferentes haviam avisado aos cainitas, ao mesmo tempo, uma verdade óbvia.

Não estavam sozinhos.

O corredor desaguou em uma pequena sala redonda, repleta de colunas escuras e bem trabalhadas. Havia uma história ali, e Ya'rub desejou ter tempo para aprendê-la. Não haviam móveis ou decoração, o teto era baixo, impondo uma sensação quase claustrofóbica. Todo o lugar emitia uma estranha coloração esverdeada. De pé, no centro do salão, se encontrava um homem. Era de porte médio, não muito musculoso. Poderia ser um adolescente. Vestia-se em púrpura e dourado, os pés descalços tocando o chão. As mãos estavam estendidas ao lado do corpo e a face era coberta por uma estranha máscara de pedra esverdeada. Estava imóvel quando eles entraram. E assim permaneceu, somente os olhos se movendo por debaixo da máscara. Eram escuros e maliciosos.

- Eu lhes dou as boas vindas, visitantes, em nome de meu Senhor Nergal. Aqui nos enfrentaremos, pois não permitirei que acessem o interior deste templo.

O homem fixou os olhos escuros em Ya'rub. Transmitia uma sensação estranha ao Filho de Haquim. Era como se não pudesse falar. Ya'rub intuiu que o indivíduo não parecia tão dedicado ou interessado em defender o local. Não obstante isso, parecia se preparar para a batalha que viria.


Teste de Iniciativa Enki, Dracon e "Coisa":
Enki dispõe de Destreza 5 e Raciocínio 8, somados a um MI de 2 e ao bônus de +3 em Destreza concedido pela Forma de Zulo, totalizando 18 de Iniciativa. O Dracon dispõe de Destreza 7 e Raciocínio 6, além de um MI de 2, totalizando Iniciativa 15. A "Coisa" dispõe de Destreza 7 e Raciocínio 3, além de Rapidez 2 e um MI de 2, totalizando 14. Enki é o primeiro a agir.
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Re: Mashkan-Shapir: Fortaleza da Dor.

em Sab Jun 30, 2018 2:20 pm
*As tropas marchavam no tabuleiro, mas Saulot e Samiel tinham sua própria jogada a fazer. O que era bom, pois Enki estava com as mãos cheias. A coisa à sua frente, o que quer que fosse, possuía um ódio mortal contra o sangue d'O Estrangeiro. E então ele percebe: quem investia contra ele era a própria Mashkan-Shapir. Era toda a dor e sofrimento que embalaram seus anos como mortal, eram suas cicatrizes e mutilações, seus medos. Todos os fantasmas de seu passado avançavam agora na forma desta criatura com o rosto encoberto, e Enki sabia que cabia exorcizar esses demônios, se quisesse encontrar respostas... ou paz.*

*O homem peixe dá dois passos serenos em direção à carga do inimigo e para. Nos últimos metros da investida, Enki firma a sua lança no chão, mirando no peito do seu adversário, de forma que seu peso e velocidade se tornassem um trunfo, ao invés de perigo.*


[Enki possui Destreza 5 (8 na forma de Zulo) e Armas Brancas 4 +1 (especialização em Lanças)]
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Re: Mashkan-Shapir: Fortaleza da Dor.

em Seg Jul 02, 2018 6:11 am
Teste de Ataque e Dano de Enki:
Enki possui Destreza 8 e Armas Brancas 5, além de um MI de 2. O total é 15. A "Coisa" dispõe de Destreza 5 e Armas Brancas 6, além de um MI de 2, totalizando 13. Enki acerta o ataque, (MS 2), mas sem dano adicional.

Enki dispõe de Força 7 (Em Forma de Zulo) + 3 concedido pela sua Lança, totalizando 10. A "Coisa" dispõe de Vigor 5 e Fortitude 3. 10 - 8 = 2. Enki causa dois níveis de dano.

Enki realiza uma manobra para obter vantagem diante da carga da "Coisa", mas esta parece se alertar, tentando desviar num último segundo. Com habilidade, Enki move a lança em direção ao flanco exposto do inimigo: era grande e particularmente fácil de atingir, embora parecesse razoavelmente resistente. A ponta da arma rasga o corpo costurado da criatura na altura das costelas. Enki nota que um líquido escuro e purulento jorra da ferida aberta, mas a criatura não emite nenhum sinal de dor. Segurando com mais força a enorme espada de bronze, se prepara para contra atacar Enki, no que é impedido pelo Dracon, que havia tomado a frente de seu irmão, de forma a receber o golpe.

Teste de Ataque e Dano da "Coisa":
A "Coisa" possui Destreza 5 e Armas Brancas 6 com MI 2, totalizando 13. O Dracon possui Destreza 7 com MI 2 (Enki nota que, apesar de colocar-se diante dele, o Dracon parece não tentar se defender com todas as suas capacidades, simplesmente deixando-se atacar. Com MS 2, a "Coisa" atinge o Dracon causando 2 dados adicionais de Dano.

A "Coisa" dispõe de Força 6 e Potência 3, com +3 devido a Espada e + 2 Adicionais, totalizando 14 . O Dracon dispõe de Vigor 6 e Fortitude 4, totalizando 10. Dracon recebe quatro níveis de vitalidade de dano.

A espada da "Coisa" rasga do ventre e o tórax do Dracon em um movimento vertical, de baixo para cima. O impacto é tão forte que faz o Filho do Estrangeiro recuar em direção ao seu irmão. Enki nota, contudo, que o corte abre uma profunda ferida pela qual escorre o Sangue de seu irmão, mas que esse também entra em contato com o braço direito da "Coisa", assim como respinga sobre o seu tórax. O resultado é estarrecedor. A carne do inimigo começa imediatamente a chiar e fumegar, deixando no ar um odor grotesco de carne queimada. Parte do véu que cobre a sua cabeça também é atingido e se derrete, deixando à vista uma face sem pele, com os músculos expostos e a expressão eternamente paralisada em um sorriso afetado e distendido. Desta vez a coisa grunhe ligeiramente, demonstrando sentir dor diante do Sangue Ácido do Dracon.

Teste de Dano Dracon:
Dracon derramou dois Pontos de Sangue durante o ataque, resultando em 10 níveis de Dano Agravado direcionados à "Coisa", que dispõe, neste caso, de Vigor 2 e Fortitude 3. Cinco níveis de dano agravado atingem a "Coisa" enquanto sua carne costurada queima, tornando-se estranhamente escura no local onde fora atingida.

O inimigo recua alguns passos, cambaleante, dando tempo a Enki de preparar uma nova investida. O profundo corte no peito do Dracon parece se recuperar rapidamente, e o Filho do Estrangeiro exibe um sorriso de escárnio, a boca particularmente grande se alargando impossivelmente. Enki sente calor, como se estivesse próximo a uma fonte de chamas. Ao redor dos dois combatentes, Caias Koine derrubava os mortais um a um com golpes rápidos, limpos e extremamente precisos. Era elegante como espadachim, movendo-se com uma graça digna dos Filhos de Arikel. Outros mortais da guarda enfrentavam aqueles das forças de Samiel, e Mashkan- Shapir vomitava mais e mais inimigos na planície. Os que se aproximavam, contudo, eram liderados por homens em mantos negros e faces de giz. Eram claramente cainitas, e se aproximavam em velocidade. Samiel se deslocou do centro da batalha em direção aos recém chegados, tentando ocupá-los enquanto Dracon e Enki enfrentavam a "Coisa". Era a vez de Enki atacar novamente.
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Re: Mashkan-Shapir: Fortaleza da Dor.

em Seg Jul 02, 2018 11:47 am
Como era magnífica Mashkan Shapir. Apesar do preço que os habitantes daquele lugar pagavam, Ya’rub não podia deixar de admirar o conhecimento impregnado nas pedras e caminhos daquela cidade. Dentro do zigurate que acabavam de adentrar, isso ficava evidente. Os Baali e seus servos pagaram um alto preço por tudo aquilo... Talvez tenha sido alto demais, mas era impossível negar que algo lhes foi entregue em troca. Quem sabe, um dia, quando aqueles que dormem sob a terra, Senhores de Mashkan, não mais existerem, Ya’rub poderia ali retornar e aprender com suas ruínas? Quantos espíritos atormentados ou corrompidos não ficariam por ali, dispostos a negociar seus segredos?

Ya’rub despertou dos seus pensamentos quando ouviu o sussurrar dos espíritos, alertando-o da presença do homem que já era possível ver no centro do salão. Mesmo com a máscara, o Filho de Haqim conseguia vislumbrar a incerteza naqueles olhos. Usando seus dons do sangue, Ya’rub perscruta a alma do homem para identificar sua natureza e reais sentimentos. Ao mesmo tempo, confiando em suas perspepções iniciais, prossegue falando, com um sorriso no rosto:

- Saudações, guardião do templo. Saiba que não temos intenções de enfrentá-lo. Nenhum conflito será necessário. Viemos de Nippur em busca de algo que nos pertence e que se encontra dentro dessas paredes. Deixe-nos recuperar o que é nosso e esse local sagrado não será desrespeitado.
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Re: Mashkan-Shapir: Fortaleza da Dor.

em Ter Jul 03, 2018 6:48 am
Ya'rub encara o estranho homem com máscara esverdeada. O possível inimigo se mantinha imóvel diante do Filho de Haquin e de seus acompanhantes. Não demorou muito até que pequenas ondas coloridas começassem a se prolongar da pele do homem, demonstrando exatamente seu estado de espírito. Emanava uma aura azul clara, que confirmava sua postura calma e resoluta. Ao mesmo tempo, sua energia se manifestava como um forte idealismo. Os olhos ainda fixavam Ya'rub.

- Tudo o que aqui está pertence a Nergal, Senhor de Mashkan-Shappir. Quem vos diz isso é Tanit, Senhor das 5 Estrelas e do Grande Salão Dourado. Lembrem-se deste nome. Tanit.

O estranho se aproxima lentamente do grupo. Jamal, espada empunhada, parece esperar um comando dos Deuses que o acompanham. Japhet, olhos estreitos, parecia se dedicar à mesma atividade de Ya'rub, tentando identificar nuances no estado de espírito do inimigo. Enquanto Tanit se aproxima, Ya'rub sente a consciência do desconhecido roçar levemente na sua, como se pedisse permissão para entrar, para compartilhar alguma coisa que poderia ser de interesse. Não havia hostilidade, mas havia urgência.

"Não sou teu inimigo. Incapacite-me e prossiga. Não sou teu inimigo."

Estava a meia distância do grupo. Suas mãos se estenderam em direção a Jamal, que não parecia disposto a esperar que um ataque viesse em sua direção. Ya'rub se sentia estranho. Era como se o ar estivesse vibrando estranhamente, emitindo um rumor baixo e contínuo. Os espíritos estavam agitados. Subitamente, um calor imenso invadiu o zigurate. Tão intenso que Ya'rub teve medo de entrar em combustão. Japhet parecia sofrer do mesmo efeito, assim como Tanit. Jamal aproveitou da distração do inimigo e avançou, espada em riste. Não parecia sofrer nenhum dos efeitos que os cainitas experimentavam. Seu ataque abriu um corte profundo no ventre de Tanit, que urrou de dor e de agonia. Ya'rub notou, em meio ao calor que o desestabilizava, que a espada de Jamal parecia absorver o Sangue retirado das entranhas de Tanit, emitindo um leve fulgor rubro no processo. Atrás do inimigo que recuava com a mão no ferimento, mas incapaz de reagir diante daquele calor, o Ghûl sorria.

- Não há mais uma Trégua. - Murmurou para Ya'rub, fitando-o com seus olhos doentios e inquietantes.

E Mashkan-Shappir parecia ter ciência disso.

Trovões ecoavam nos céus quando Ya'rub sentiu que os próprios portões do Abismo pareciam se abrir sob a cidade. Não viu ou ouviu nada, mas tinha certeza que Mashkan, numa tentativa desesperada de defender-se, havia libertado seus horrores. O Filho de Haquin sabia, pois o Mundo Além do Mundo se encolhia e estendia, em pânico. Teve a nítida sensação que morreria. Mashkan se comprimia ao redor deles, prendendo-os em uma armadilha. No subsolo, coisas se moviam, ansiosas e sedentas de sangue cainita. Não demoraria até que encontrassem suas presas.

Do lado de fora, no campo de batalha, Enki assistiu atônito quando as nuvens de chumbo se juntaram. Um relâmpago cortou o céu noturno, e a face de Sutekh pode ser vista pairando sobre a cidade, boca aberta, feições serpentinas. Mashkan-Shapir se encolheu e chiou diante do poder do Antediluviano, a terra se abriu em fissuras. De repente, Enki não sentia mais as defesas místicas da cidade. A "Coisa" com a qual combatia urrou em agonia e ódio, intensificando sua carga. Parecia maior e mais ameaçadora, os ferimentos causados por ele e pelo Dracon se fechando rapidamente. Era como se a terra ao redor de Mashkan subitamente acordasse, sustentando com sua magia obscura os inimigos. O furor atingia também os mortais, que começavam a causar grandes danos aos seguidores de Samiel.

Mas foi no céu que surgiu um nefasto sinal.

Era um brilho pequeno, ao início. Cresceu e tomou forma, surgindo como uma estrela avermelhada que observava o mundo abaixo. Sussurrava. Falava com Enki, coisas incompreensíveis. Enki sentia a terra gritar em dor e fúria enquanto um exército de demônios passeava por suas entranhas, tentando alcançar a superfície. Não fosse o bastante, sabia que o nascer do sol se aproximava. Mashkan gargalhava e sua voz ecoava em todos os mundos que existem e que existirão.

A Guerra havia começado.
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Re: Mashkan-Shapir: Fortaleza da Dor.

em Ter Jul 03, 2018 5:11 pm
Caos, trevas, dor, sofrimento e corrupção. Subitamente, era como se tudo isso, os alicerces e estruturas que mantinham Mashkan Shapir de pé, estivessem se curvando sobre Ya'rub e seus primos. Era uma sensação de urgência, misturada à percepção de que tudo estava perdido e que qualquer resistência seria inútil.

Ya'rub sentia isso em seu corpo e em sua alma. A onda de calor e a presença de coisas inomináveis se movendo no subterrâneo fizeram-no lembrar e desejar como nunca a brisa fria e a solidão do deserto. Agonizava apenas por pensar que morreria daquela forma. Seus joelhos arqueavam e o torso se curvava para frente, quase que buscando uma posição fetal.

Até que conseguiu ver e escutar o Ghül.

Mesmo em agonia, Ya'rub voltou a sorrir. Finalmente, alguém entre seus primos havia sido bem sucedido em fazer os Baali quebrar a trégua. Naquele momento, a agonia e o desespero abandonaram a alma do feiticeiro, dando lugar ao Medo. Velho e familiar, lá estava ele, personificado na presença do Ghül.

Ainda curvado, Ya'rub se movimenta. Sem esboçar nenhuma reação além do movimento necessário, ele atenderia ao pedido de Tanit. Ya'rub ativa os dons de seu sangue para elevar sua agilidade a um nível sobre-humano. Com um gesto rápido e simples, sem nenhum exibicionismo, ele segura a Lança de Haqim com apenas uma das mãos e a dirige em direção ao ventre de seu anfitrião. Sentia, pela primeira vez, o poder da arma de seu Pai.

[Ya'rub gasta 5 Ptos de Sangue, elevando sua Destreza para 9. Seu habilidade em Armas Brancas é 5.]
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Re: Mashkan-Shapir: Fortaleza da Dor.

em Ter Jul 03, 2018 8:04 pm
*Nada terminaria esta noite, ele sabia disso agora. Pelo contrário, começaria. O ar, a terra, todo o ambiente pulsava com a força da mudança. E ninguém triunfava na mudança como a prole do Estrangeiro. O mundo era o jardim dos Moldadores para que dele dispusessem, cada um a sua maneira. A possessividade fria de Byelobog, ou o próprio carinho aberrante de Enki, não importava. O que importava é que nenhuma mudança sobre a Criação o assustaria, e que nada terminaria esta noite.*

*Nada a não ser o inimigo à sua frente.*

*Olhando para o céu, Enki vê Sutekh, e se lembra do que o tio disse sobre os rios de sua terra, e de todos os cantos da Criação. Este pensamento faz com que sinta os próprios rios do planeta cursando por suas veias atrofiadas, como se fosse a fúria das águas personificada.*

*Ele se movia em sincronia perfeita com o Dracon. O irmão percebeu, como que por instinto, que deveria sair da frente enquanto Enki realizava seu ataque. Encontrando uma força renovada, a criatura aquática dá um salto para cravar a lança no estômago da criatura, tentando usar o próprio peso para prender a Coisa de Mashkan no chão com sua lança.*


[Enki gasta 8 pontos de sangue para aumentar em 4 sua Força e Destreza. Com os modificadores da forma de Zulo, passa a ter respectivamente 11 e 12 nos atributos.]
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Re: Mashkan-Shapir: Fortaleza da Dor.

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