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Re: Mashkan-Shapir: Fortaleza da Dor.

em Sex Jul 06, 2018 5:34 am
Teste de Ataque e Dano de Ya'rub:
Ya'rub possui Destreza 9 e Armas Brancas 5, além de um MI de 2, totalizando 16 dados. Tanit tenta se defender, embora de forma visivelmente preguiçosa, contando somente com sua Destreza 7 além de um MI de 2, totalizando 9. A Margem de Sucesso é 1. Ya'rub causa 6 níveis de Dano em Tanit. A Lança parece anular a Força de Ya'rub, determinando o resultado do combate.

Foi um movimento rápido e preciso. Uma tensão de energia percorreu o braço de Ya'rub quando ele trespassou o ventre de Tanit com a Lança de Haquin. A arma adentrou o corpo do inimigo como se nada fosse, movendo-se entre órgãos e músculos, trespassando mundos e realidade, fino a encontrar novamente a realidade do outro lado do corpo de Tanit. Ya'rub, entretanto, soube imediatamente: a Lança se recusava, por algum motivo, a causar a destruição do Inimigo.

Tanit se retesou, os músculos contraídos instantaneamente. Em seguida, caiu no chão como um pesado tronco de árvore. A Lança absorveu rapidamente o Sangue carmesim que a banhara, o líquido precioso borbulhando e chiando enquanto era subjugado pelo poder do Ancestral, sua lâmina simples permanecendo limpa após o movimento. Duas coisas aconteceram então.

Jamal se precipitou para atacar o caído Tanit, disposto a encerrar de uma vez por todas a sua existência amaldiçoada. Japhet, por outro lado, não estava mais ao lado de Ya'rub. O Feiticeiro observou enquanto o Necromante avançou pelo Zigurate, parecendo sentir que o tempo deles ali era limitado. Ya'rub viu o Mundo dos Mortos se mover com Japhet, dezenas, não centenas de espíritos rodopiando ao redor do cainita, protegendo-o do que poderia encontrar adiante. Japhet desapareceu em uma das escadarias que levava aos andares superiores do Zigurate. Ya'rub tentou raciocinar rapidamente, mas outra cena chamou a sua atenção, desestabilizando seu pensamento.

Num dos cantos da sala, se encontrava o Ghûl. O ser olhava para o canto esquerdo do salão, aparentemente enxergando alguma coisa. Seu olhar era de mais profundo pavor. Não o medo que governava as ações de Ya'rub, mas um pavor genuíno, primal. O Feiticeiro, sem demora, olhou para o mesmo lugar que fixava seu espírito guia, mas não viu absolutamente nada. Foi sua audição, porém, que denunciou que havia mais alguém ali. Uma voz rouca e profunda, acompanhado do grito de mil desgraças, atingiu seu ouvido.

- Eu sei o teu nome, Ya'rub bani Qahtani. Eu sei o teu nome e tu me pertences.

O Ghûl continuava paralisado enquanto a voz misteriosa se dirigia também a ele.

- Você o ama, não é? Terei o prazer de arrancá-lo de você.

Ya'rub não via ninguém, mas poderia jurar que o dono da voz sorria. Foi tomado por uma sensação de desolação, de ódio, de inveja e de fraqueza. Tudo ao mesmo tempo. Desejava mais, desejava resistir e para isso precisava tornar-se forte como era seu Ancestral. Haquin se recusava a ensiná-lo os Dons que poderiam garantir sua sobrevivência. Haquin, o egoísta e autoritário. Ya'rub realmente precisava dele?

Tais devaneios passaram quando o Ghûl desapareceu da visão de Ya'rub. Sem ele ali, a voz também cessou de prometer controle sobre tudo e todos. Restava apenas o silêncio, com Jamal detido diante do corpo inerte de Tanit.

- Penso que ele não deve ser destruído. - Falou Jamal.

Ya'rub estava desnorteado quando Japhet retornou, nas mãos uma tabuleta de pedra desgastada pelo tempo. O Necromante observou o Feiticeiro, inconsciente dos sentimentos que o haviam atingido apenas segundos atrás. Ou talvez não. Quantos minutos haviam se passado?

- Eu a tenho, Ya'rub. Precisamos deixar este lugar imediatamente. Mashkan-Shappir se debruça sobre nós, corroendo nossos pensamentos.

Teste de Ataque e Dano de Enki:
Enki dispõe de Destreza 12 e Armas Brancas 4, além de um MI de 2, totalizando 18 dados. O inimigo possui, com penalidades, de uma Defesa de 10. Com MS 2, Enki tem 6 dados de dano adicional.

A Força de Enki é 11, somada a + 3 da Lança, totalizando 14. Com seis de dano adicional o total é 20. A "Coisa" dispõe de uma absorção de 5 com as penalidades. O Dano total de Enki é de 15 níveis de Dano Agravado!

Enki salta alto o bastante para fazer com que a "Coisa" olhe para cima, perdendo o equilíbrio e o preparo para defender-se. A lança atravessa, embora com dificuldade, o corpo do Inimigo, fincando-se no chão escuro atrás dele. O tecido que cobre o seu rosto se desequilibra e cai, revelando uma face, ou melhor, um conjunto de músculos pulsantes e cheios de feridas que se retorce, por um segundo, antes de tombar para o lado. A "Coisa" não cai, permanece pendurada no ar, trespassada pelos ossos de Enki.

Ao redor do Senhor do Abzu, a batalha seguia contornos dramáticos. Samiel comandava seu homens contra um contingente assombroso de defensores de Mashkan-Shappir. Estavam em clara desvantagem numérica e temporal: a manhã se aproximava com presteza. Em um segundo, Enki notou que Samiel pareceu receber uma mensagem. O Filho de Saulot voltou-se para seus aliados:

- Japhet a tem! Precisamos nos retirar!

Era nítido, porém, que não conseguiriam retornar a Nippur antes do nascer do Sol. Samiel dava ordens e os mortais que os acompanhavam, em posição defensiva, afastavam-se do campo de batalha. Mashkan-Shappir rugia alto, com ferocidade. Mas seu rugido era voltado somente aos mortais e aos outros cainitas; para Enki soavam como um cântico, uma promessa de paz e tranquilidade dentro de seus muros. Mashkan o convidava a entrar. O Filho do Estrangeiro sentiu-se mais tranquilo quando divisou a aproximação de Tepelit, Filho de Laza, pronto para retirá-los dali. A primeira frase do Místico, contudo, não era animadora:

- Não posso entrar em Mashkan-Shappir, para retirar os nossos. Teremos de esperar que saiam da cidade. Não temos escolha.

Mashkan lembrava a Enki dos dias que ele havia passado dentro de seus muros e, de repente, não pareciam tão tristes assim. Quantas pessoas dentro daquelas paredes precisavam de ajuda, de carinho? Enki poderia abandoná-las à própria sorte, fugindo para Nippur? Se a cidade se enfurecesse e decidisse exterminar todas aquelas vidas ele se sentiria culpado e, de alguma forma, Mashkan parecia furiosa. Seus muros pareciam imensos diante dos olhos de Enki, e cada vez mais próximos. O Dracon o observava em silêncio, movendo-se ocasionalmente para destruir, com as mãos nuas, os corpos dos mortais que ousavam atacá-lo. A letargia típica do amanhecer começava a tomar conta dos braços e pernas de Enki, era cada vez mais difícil manter-se alerta, resistir ao Canto da Sereia que era Mashkan-Shappir.
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Re: Mashkan-Shapir: Fortaleza da Dor.

em Sex Jul 06, 2018 2:17 pm
O corpo de Tanit foi ao chão e seu sangue era absorvido pela lâmina, quando o Filho de Haqim lembrou-se de uma frase comumente proferida por seu Pai: Nenhum sangue deve ser desperdiçado. Essa era uma lição que todo bom caçador deveria aprender .

Contudo, Ya'rub não teve muito tempo para apreciar ou compreender o poder da lança que acabara de usar. Jamal já se aproximava, decidido em terminar a existência do Baali caído. Então veio a voz e a visão assustadora que era observar o Ghül, a representação de seu medo, contorcendo-se em pavor. Para Ya'rub, aquilo era desestabilizador. De quem era a voz abissal? Quem era o ser sussurrando dúvidas que se reviravam no âmago mais profundo do seu ser?

Ya'rub precisava sentir Medo. Era preciso tomar-se de terror até o pedaço mais minúsculo de seu corpo. Até a essência mais primal de seu espírito imortal. O Medo, quando tomava seu corpo, expulsava a destruição do ódio, a perfídia da inveja e lenta corrosão da desolação. Buscava em sua memória todos os momentos em que sentiu Medo, para que se lembrasse do quão frágil era, é e sempre será. Tentava, com todas forças, sentir novamente o hálito da hiena em seus calcanhares. Mas não conseguia. A voz monstruosa, sempre acompanhada do som abissal das desgraças, o impedia.

Quando o Ghül e a voz desapareceram, Ya'rub só voltou a si - ainda que não completamente - quando ouviu as palavras de Jamal. Parecia um eco distante, mesmo que ele estivesse ali ao seu lado. Não sabia onde o Ghül estava, mas precisava dele. Não poderia seguir sem ele.

De olhos fechados e sem sorrir, Ya'rub fala para Jamal, com uma voz hesitante:

- Encontre um pedaço de madeira pontiaguda. Uma flecha sem cabeça. O que quer que seja. Mas crave a madeira no peito desse homem. Ele virá conosco.

Não sabia exatamente porquê dava essas ordens, mas sentia que precisava. Ya'rub não acreditava que os Senhores Baali teriam amor por suas crias, mas queria ter em mãos alguma moeda de troca para o caso do Ghül ser aprisionado pelos infernalistas. Ao menos poderia aprender algo com Tanit... ou fazê-lo sofrer.

Ya'rub sentiu os mortos se movendo quando Japhet se aproximou, portando a tabuleta. Virou-se para o Necromante e concordou.

- Vamos. Que esse lugar queime com as chamas que seus habitantes tanto veneram.
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Re: Mashkan-Shapir: Fortaleza da Dor.

em Sex Jul 06, 2018 2:55 pm
Sem demora, deixaram o Zigurate. Jamal, habilmente, encontrou uma tocha apagada que serviria como estaca. Entregou-a a Japhet, que sem demora a fincou no coração de Tanit. O corpo espasmou, mas foi só isso. Japhet colocou-o nos ombros, aparentemente sem muito esforço, carregando o cainita tórpido em direção à saída do Zigurate.

Do lado de fora, a cidade estava imersa no Caos. Ya'rub levantou o Véu através dos Dons de seu Pai, protegendo a si e a seus acompanhantes. Pelas estradas, nenhum mortal comum caminhava, somente a guarda de Mashkan se movimentava em direção ao portão Norte, onde deveriam estar Enki e Caias. Passaram pelas estreitas vielas sem que fossem enxergados, os pés movendo-se em velocidade rumo à saída. Ainda que os mortais não os vissem, Ya'rub sabia que Mashkan os enxergava. A cidade parecia se mover, com casas surgindo onde não existiam, e as ruas estreitas se prolongando infinitamente. Não sentia a presença do Ghûl, o vento frio que lhe soprava a nuca constantemente. Em meio à inquietação, foi o Djiin quem apareceu.

Passou a acompanhar, de longe, Ya'rub e seu grupo. Não podia ser visto, mas era sentido, uma ideia, um senso de proteção. As ruas pareceram se alargar, a intuição do Feiticeiro guiando seus passos, complementando-se com os sussurros escutados por Japhet - os caídos de Mashkan se agarravam ao Necromante, que parecia sofrer uma imensa agonia e cansaço. Infelizmente, a chegada do Djiin parecia ter aberto um canal para outra presença. A voz rouca, profunda, carregada de lamentos que Ya'rub havia ouvido no Zigurate tornava a sussurrar-lhe.

- Eu não posso fazer mal a vocês, Não hoje. Mas, por qual razão foges de mim, Ya'rub? Eu que te escutava nas noites em que estavas sozinhos muito antes que Haquin viesse em teu auxílio. Eu que te nutri e te alimentei na imensidão do deserto.

Avançavam rápido. Cruzaram uma das avenidas e reencontraram o mercado. Faltava pouco, o portão era já visível.

- Eu, Ya'rub, a quem tua mãe mortal rezava, oferecendo leite e mel em troca de colheitas duradouras. Eu, que protegi teu clã nas inúmeras travessias somente para que tu viesses ao mundo. EU! Não um caçador qualquer de uma terra distante e manchada de morte. EU, YA'RUB!

Cruzaram as barracas vazias. Última avenida. O Djiin guiava o caminho dessa vez, um vento frio matutino que se confundia com aquele que prenunciava o amanhecer.

- Não posso fazer mal a ti e ao teu. Mas este mortal terá esta terra como tumba.

E então, Jamal gritou.

Levou ambas as mãos à cabeça, girou no ar e caiu no chão ressequido. Seu corpo se debatia furiosamente, sangue vertia de seus ouvidos. Gritava coisas incompreensíveis em um idioma esquecido. Suas unhas se agarravam à terra amaldiçoada, como se as mãos agissem independentemente, numa tentativa de manter o corpo dentro das muralhas de Mashkan-Shapir.
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Re: Mashkan-Shapir: Fortaleza da Dor.

em Sex Jul 06, 2018 11:30 pm
*Seu adversário jazia empalado, agonizando por alguns instantes antes de por fim expirar. A Enki bastava olhar para seu rosto, agora descoberto, para concluir que havia lhe feito uma gentileza. Com um puxão, o Moldador retira a lança do chão, e de sua vítima, fazendo com que esta caísse no chão, enfim em paz, enfim descansando.*

*E ele olha afinal para Mashkan-Shapir, enquanto caos e sangue rugiam ao seu redor. Como poderia ele odiá-la? Como poderia ele odiar qualquer coisa sobre esta terra? Não cabia a ele amar e conhecer ao mundo? Não caberia a ele amar sua cidade, no momento em que ela mais precisava dele? Quando tantos ali clamavam por seu nome?*

*Enki caminha a passos lentos em direção à cidade, sua forma lentamente voltando ao normal, ao menos o quão normal Enki conseguia ser. Soldados o atacam, mas ele pouco percebe. Enki é gentil: uma esquiva, um giro de sua arma, uma torção do pulso e a vida do agressor acabava ali, sem dor, sem sofrimento - e impassível, ele segue em direção à Cidadela da Dor, até parar ao lado do Dracon, seu irmão, quando lhe afaga lentamente no ombro, buscando sua atenção.*


-A nós foi dado o caminho do amor para trilhar. Eu vejo isso em você irmão, como um espelho de minha própria alma. O curso de nosso rio está traçado, e é inútil nadar contra sua correnteza.

-Sabes que somos criaturas da terra, e enquanto houver a terra, haveremos nós. Sabes também que é amado por mim. E que igual amor devoto ao Pai, a Gallod, a todos de nosso sangue. E é graças a esse mesmo amor que eu lamento por lhe fazer sofrer agora.

*Mashkan-Shapir ruge. O grito é parte dor, parte pedido de ajuda, parte mensagem de boas-vindas. Talvez fosse por isso que o Pai sempre lhe proibira de voltar até ali. Talvez fosse por isso que seu tio Sutekh lhe encorajou. A verdade é que o sol se aproximava, mas Enki não iria a lugar algum.*

*Cruzando os braços sobre o peito, Enki cai para trás, mas seu corpo nunca bate no chão. Ele continua, continua até que ele e a terra de Mashkan-Shapir fossem um só.*


Sistema: Enki usa a Fusão com a Terra [Metamorfose 3] para encontrar refúgio e comunhão com o solo.
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Re: Mashkan-Shapir: Fortaleza da Dor.

em Sab Jul 07, 2018 6:09 am
A queda de Enki em direção ao solo parecia ocorrer lentamente. O Dracon o observava, olhos sem amor, cabelos ígneos esvoaçando sob o hálito bestial de Mashkan-Shapir.

- Eu não conheço o amor, irmão, este é um teu dom. No entanto, conheço outras coisas que deves conhecer. Vá, nada te acometerá.

O abraço gentil da Terra.

Afunda. Raízes, escuridão, conforto.

Ondas de ódio e de medo atingem Enki. Desespero. Mashkan-Shapir tenta alcançá-lo, garras poderosas rasgando o ventre da Terra em direção a Enki, desesperadas. Calor, o ventre de uma mãe.

Afunda ainda mais.

Mashkan-Shapir urra de ódio sanguinolento. Por detrás dos gritos, milhares de consciências clamam, ainda que inconscientes de sua própria necessidade, por ajuda. Eram mortais que rezavam, em seus esconderijos em meio ao caos da batalha, ao Senhor do Abzu.

O corpo de Eki passa por um lençol aquático subterrâneo. Limpo, purificado de todos os medos e receios. Enki é somente resolução e coragem. A Água lhe dava aquilo, aquele grande presente. Mashkan é um eco longínquo, blasfemando ativamente contra uma força que não conseguia subjugar. Mas que força era aquela? Envolvia e protegia Enki, dava-lhe conforto e uma sensação de paz contínua e duradoura.

- ...E eu permaneço, pois morrer não posso...

A voz não era masculina ou feminina, não estava ali nem em local algum senão na mente de Enki. Era, contudo, conhecida, familiar, pois estava dentro dele.

Afundava, ainda.

- ...A semente é forte, dá frutos. Ainda que os frutos não respondam ao nome da planta, pois são parte dela e, não obstante, são outra coisa.

Seu corpo parou. O que era aquele local? Um jardim? Havia água, Enki sabia. Um espelho de água cristalino que refletia a luz do luar. Ali não havia dia, e jamais haveria novamente. Árvores frondosas circundavam o local. Mashkan não existia. Teria algum poder, aquela cidade, além do que se creditava que tivesse? Mashkan não existia, mas seu medo era onipresente, e Enki estava muito, muito próximo à razão do medo de Mashkan-Shapir.

Sentia o Dracon, o Fogo que consome todas as coisas, dando lugar ao renascimento através da purificação. O Dracon era uma águia que voava, alto, no céu noturno. Sentiu Byelobog, as próprias fundações da Terra que sustentava todas as vidas. Sentia a si mesmo, mas faltava sentir alguém.

-...Morrer não posso, e isto é bom...

A voz vinha de uma grande árvore. Era horrenda. Retorcida, galhos a imitar formas humanas em agonia, a alma de parte dos cainitas. As folhas eram negras, com frutos pegajosos que pareciam damascos. Raízes fortes afundavam, alcançando lugares onde Enki não tinha ido. No tronco, uma face disforme, agonizante. Uma presença aterradora, atroz, íntima e conhecida. O que vivia na árvore vivia também dentro de Enki, em um recôndito de seu espírito, massacrado pelo Amor constante que guiava as ações do Filho do Estrangeiro. Contido. Uma fera.

-...Pagamos mas, obviamente, não foi o suficiente...

Enki estava de pé no meio do jardim. O espelho de água mostrava tudo o que viria, mas não o que havia sido. A árvore o encarava. Um nome ecoava, fora e dentro.

"Kupala".

-...Morrer não posso, portanto Eu permaneço graças a Ele, que foi Sábio...

O Dragão devorava a Serpente, mas a Serpente se deixava devorar. E o Dragão rugia em tristeza e agonia, mas a Serpente era mística e poderosa, e sobreviveria. Ninguém jamais superaria o conhecimento arcano da Serpente.

E com seu sacrifício a Serpente bania todos os males deste mundo, ou ao menos o maior deles. E o Mal gritava em agonia e jurava vingança, seus cabelos horríveis tentando romper a Realidade.

E no fim, A Grande Vingança.

A Terra expulsou Enki. Era noite novamente. A batalha havia terminado, corpos sem vida espalhados pelo chão ressequido de uma silenciosa Mashkan-Shapir. As defesas estavam restabelecidas, embora fossem mais frágeis. Ninguém entraria, ninguém sairia a menos que fosse desejo da cidade. De pé, o Dracon ainda observava o ponto exato onde Enki havia afundado na noite anterior.
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Re: Mashkan-Shapir: Fortaleza da Dor.

em Sab Jul 07, 2018 3:20 pm
Algo aconteceu. Ya’rub não saberia dizer se foi a súbita sensação da presença reconfortante do Djinn, ou se era a raiva que tomou o seu corpo quando escutou novamente a Voz maldita... Mas enquanto corriam em direção à saída de Mashkan-Shapir, sentindo o peso da cidade caindo sobre sobre ele, Japhet e Jamal, Ya’rub voltou a sorrir. Ainda não conseguia ter certeza sobre o que acontecera com o Ghul, mas o Medo voltara. Talvez por apenas alguns instantes, de modo que precisaria aproveitá-lo ao máximo.

O pobre Jamal se contorcia no chão, sofrendo uma dor que Ya’rub não conseguia explicar. Ainda assim, o Feiticeiro parecia ignorá-lo. Ele parou a fuga acelerada que empreendiam para simplesmente colocar-se ao lado do mortal que agonizava. Repousou sua mão direita sobre a cabeça dele e continuou sorrindo, olhando para os céus negros daquela noite amaldiçoada. Falou, em voz alta, para que a cidade pudesse escutar. Sabia que não era necessário, pois sentia que a voz conseguia ler parte dos seus pensamentos. Mas queria expressar-se a plenos pulmões:

- Consegue escutar a si mesmo, ó Senhor de Mashkan? Consegue perceber a fraqueza que expressa com suas próprias palavras? Eu fujo de ti porquê o desprezo. És fraco!

Ya’rub gritava as palavras ao vento, girando o corpo enquanto mantinha o toque em Jamal.

- Talvez tenha sido você a me guiar no deserto. Talvez tenha sido você a guiar minha tribo. A receber as oferendas de minha mãe mortal. Entregaram-lhe leite e mel e você lhes deu algo em troca. Entreguei-te oferendas, e me ajudaste a sobreviver. O que mais queria? Amor? Hahahaha! Devoção? HAHAHAHAHAHA!

A gargalhada de Ya’rub ecoava pelas ruas sinistramente silenciosas da cidade.

- Eu não vim a este mundo para servir ninguém. Não fui amaldiçoado para adorar mortal ou imortal. Aprendi a negociar meu lugar neste mundo. Se lhe ofereço algo, me dará algo em troca. Sem amor, sem devoção. Somos iguais, Senhor de Mashkan.

- É isso que me torna diferente de todos que vivem nessa patética e deplorável cidade. Seus filhos lhe dão oferendas e você entrega migalhas, para depois exigir que seja adorado, em uma relação de servidão que considero desprezível... Então compreenda...

- YA’RUB BANI QAHTANI NÃO SERVIRÁ NINGUÉM.

O Feiticeiro se silencia por alguns instantes, dando tempo para que o eco de seu último grito se dissipasse. Em um tom mais baixo e calmo, ele prossegue:

- Tens inveja do que sinto pelo Senhor dos Caçadores. Porque ele conquistou meu respeito e não minha devoção. Jamais conseguirá o mesmo...

Em seguida, Ya’rub se ajoelha ao lado de Jamal, sussurrando em seu ouvido.

- Não nasceste para servir a ninguém. Seu destino é liderar. Lute!

Rapidamente, o Filho de Haqim deixa seus caninos a mostra e morde o próprio pulso, levando o sangue que escorria até a boca de Jamal.

- Este é o Sangue de Haqim. Tome sua força para que encontre seu lugar entre as coisas do universo. Mashkan Shapir não tem poder sobre você!
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Re: Mashkan-Shapir: Fortaleza da Dor.

em Sab Jul 07, 2018 6:56 pm
Mashkan ria, ria histericamente.

- Você e o teu Sangue não têm poder aqui, Ya'rub. Nenhum poder. Teu Sangue não será capaz de salvar este homem. É o tributo que exijo para pagar vossa insolência, vossa invasão.

Abaixo daquele céu de chumbo, pesado como as dores do mundo, Jamal ainda jazia no chão. De fato, o Sangue de Ya'rub parecia não surtir efeito, visto que Jamal ainda se debatia, Sangue escorrendo de seus ouvidos e nariz. Ya'rub sentia, porém, que a batalha fora da cidade dava sinais de esgotamento: as forças de Mashkan-Shapir pareciam recuar em direção à cidade. Em pouquíssimo tempo estariam cercados, incapazes de deixar a armadilha que aquele lugar representava.

Acima de tudo, Mashkan-Shapir o oprimia, apertava, tentava de todas as formas destruir seu espírito. O Feiticeiro sentia que os seres inomináveis que transitavam, se arrastavam no subsolo da Cidade Amaldiçoada estavam cada vez mais próximos da superfície. Embora não os visse, Ya'rub os sentia, centenas de braços e pernas disformes a buscar sua carne e seu Sangue. Mandíbulas sedentas das quais respingavam ácidos capazes de corroer as fundações da Terra.

Jamal ainda não respondia aos estímulos físicos e nem mesmo àqueles do Sangue. Ao invés dele, porém, foi Haqim quem respondeu.

- Faça com ele exatamente o que fiz contigo. Faça com ele o que te foi proibido de fazer. Conceda-o o Dom das Trevas, e eu estarei segurando tua mão.

Não havia tempo para pensar. As presas saíram de seu corpo quase que automaticamente. O Sangue de Jamal o chamava. Fincou os dentes no pescoço do Guerreiro, e o mundo desapareceu.

E como era doce! Uma torrente de fúria e coragem. Cânticos, orações aos deuses do Deserto Infinito. Caçadas sob a luz do luar, bestas inomináveis subjugadas ao pés de Jamal. Não caçava os animais do deserto, caçava As Grandes Bestas que Vagavam pelo Mundo. Caçava demônios e seus seguidores. Um filho, morto após o nascimento. Uma esposa que se lançara no Tigre, afundando para nunca mais ser vista. Quanta dor! O Sangue, doce e espesso, lhe queimava a garganta. Jamal orava para a Lua e para os seres invisíveis, pedia proteção. Havia perdido tudo e, portanto, nada mais tinha a perder.

A fonte, subitamente, secou. Uma Escuridão familiar podia ser vista transitando pelos telhados de Mashkan-Shapir, rumava ao portão norte. Se a cidade blasfemava, Ya'rub não mais ouvia. Seu Sangue fervia nas veias, enlouquecendo-o.

Devia abrir um talho em si mesmo, entregar seu Sangue a Jamal como Haqim havia feito com ele.

Uma caçada. Bestas que não mais vagavam neste mundo. Haqim as abatia, uma a uma, sem propósito ou buscando por um propósito. E ele veio, na forma de uma mulher que Ya'rub não conseguia ver o rosto. Dor, muita dor. Quanta dor havia no coração de Haqim! Teria sido realmente necessário?

A Dor de seu Ancestral lhe invadia o peito, de forma muito mais violenta que o Sangue que incendiava suas veias. Mashkan não os via, não mais. Ya'rub flutuava na vastidão que existia entre os mundos, Haqim ao seu lado explicando-lhe todas as coisas. Quantos mundos existiam dos quais ele jamais havia ouvido falar! Havia até mesmo esquecido de Jamal. Jamal. Retornou.

Abriu um fino talho em seu pulso. Foi ali que aconteceu.

Uma força avassaladora, uma sensação de paz e pertencimento invadiu o coração de Ya'rub. Se morresse ali, não faria diferença. Seu Sangue se tornou espesso e falou com ele, uma voz antiga e firme, a voz que aprendera a respeitar. A amar. A voz de seu Criador.

- Através de ti, meu Filho. Eu me abro para o Mundo.

O Sangue que jorrou não era o Sangue de Ya'rub. Escorreu por seu corpo, pelas ruas, cobriu Jamal, as casas, os mares e montanhas. O Sangue inundava o mundo e era o mundo, a resposta para todos os erros e acertos. O Sangue era a honra e glória de Haqim, sua identidade. Haqim gritava dentro de Ya'rub, os olhos do Ancestral queimando diante da Verdade Final. E Ya'rub gritava com Haqim, pois tornar-se um com o Ancestral era difícil de suportar. Mas, Deus, como era prazeroso! As montanhas que Haqim escavou, os homens e mulheres que ele amou. O Abraço de Mancheaka, envolto em violência. O de Ya'rub, envolto em devoção. Rashadii, envolto em todos os mistérios existentes. Quantos era Haqim? Quantos haviam dentro do simplório Feiticeiro, pois era simplório diante do infinito, naquele momento.

Ya'rub era e não era. Era o Deus do Sangue da Guerra Haqim, recém acordado de um sono que nunca deveria ter sido, pronto para avançar e descobrir o mundo como se fosse a palma de sua própria mão ou a lâmina de sua Lança Sagrada.

O Sangue de Haqim fluiu forte através dos lábios semi-cerrados de Jamal. E ele abriu os olhos e bebeu, bebeu profusamente e incessantemente de Haqim. Ya'rub não mais existia, Ya'rub era o Sangue, a Única Vontade. E o sol queimou sua pele uma última vez, quando Haqim viu o amanhecer no deserto, antes de entregar-se à vontade da Mulher Sem Face. E Haqim chorava, pois sabia que seu fardo seria pesado, duríssimo. Mas não era ele o grande guerreiro? Do que deveria ter medo? Do que Ya'rub deveria ter Medo, com Haqim ao seu lado?

E, num momento mais breve que um segundo e mais longo que o Tempo, Ya'rub voltou a ser. Em seus braços, jazia Jamal, olhos abertos a fixá-lo, Besta sob controle. E Mashkan-Shapir observava, muda e cheia de pavor, o Poder do Ancestral, do Deus do Sangue.

A Escuridão familiar retornara. Ya'rub e Jamal foram envolvidos nela, um abraço frio e desprovido de essência. Mergulharam, fundo, no Mundo que Não Existia, mas somente por um breve período, após o qual emergiram diante da entrada dos Túneis de Haqim. O horizonte era já alaranjado, o Sol nascia no horizonte. Ya'rub sabia que deveria entrar, o Sol o reduziria à cinzas. O fez quase automaticamente, como um hábito que se reproduz noite após noite, e se repetiria pelos próximos milênios. Mas o fez sem medo.

Ya'rub, afinal, não tinha medo de absolutamente nada.
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Re: Mashkan-Shapir: Fortaleza da Dor.

em Dom Jul 08, 2018 3:38 pm


*Kupala... Quanto tempo fazia? Enki não sabia dizer, pois o tempo não se aplicava à entidade. Kupala não conseguia ver o passado pelo mesmo motivo que via todo o futuro à sua frente: estava alheio ao tempo, às suas regras, assim como estava alheio às normas que regiam a existência de todas as outras formas de vida.*

*Em seu sono, ele bebe do poço de Kupala. A árvore estava longe, verdade, mas as raízes são longas e se estendem por todas as profundezas da Terra, e absorver a água de Kupala era absorver sabedoria, como Enki já aprendera há muito, mesmo que a sabedoria fosse turva e etérea, ao contrário da água rica e límpida à sua frente. Ele sabia e não sabia quem era o Dragão, quem era a Serpente, e ainda assim temia a resposta. Temia estar certo, ou errado. A única coisa que sabia é que como toda profecia, só estaria clara após realizada.*

*Quando a terra enfim o vomita para fora de seu abraço, ele sorri com ternura ao ver que o Dracon lhe esperara.*


-É uma alegria imensa lhe ver a salvo, Irmão. Algo que dissestes me fez pensar em meu sono - és o Fogo, e poucas coisas no Fogo são constantes. Não julgues, não tão cedo o que és ou não capaz de fazer ou sentir. Eu posso sentir, Irmão, que o Fogo que queima dentro de ti é a renovação e a mudança, e tal Fogo lhe trará muitas surpresas por sua existência.

-Este dia passado sob o solo de Mashkan-Shapir me trouxe claridade, pois apesar de tudo, esta terra me é querida, mas ainda assim me preocupo com nossos primos. Como eles se saíram? O quanto ardem as chamas da guerra?
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Re: Mashkan-Shapir: Fortaleza da Dor.

em Seg Jul 09, 2018 11:33 am
O Dracon encarou profundamente Enki e, depois de alguns segundos, sorriu. Um riso mecânico, que fez com que o Senhor do Abzu tivesse certeza, se isso já não fosse uma realidade, de que aquele diante de si era seu irmão. Mashkan-Shapir havia se fechado como uma concha marinha, escura e impenetrável. Enki não ouvia a voz da cidade, mas intuía que ela os observava, furiosa. Curiosamente, o chão ressequido ao redor de Mashkan-Shapir estava livre de corpos. Nenhum sinal de que uma batalha havia acontecido ali. Foi o Dracon quem esclareceu, com um tom de desinteresse não intencional.

- A cidade engoliu os cadáveres.

Com um outro gesto mecânico, o Dracon limpou a poeira das vestes rasgadas de Enki.

- Nossos primos estão muito bem. Alguém chamado Tepelit os resgatou usando de impressionantes poderes sobre a Escuridão. Neste momento, possivelmente já estão em Mashkan-Shapir.

O Dracon proferiu um longo assobio em direção ao deserto.

- Fico contente que esta noite sob a terra tenha esclarecido tua mente, irmão, pois necessitaremos do máximo de clareza possível. Nossa batalha será longa mas, eventualmente, terminará. Nossa viagem para descobrir quem somos, por outro lado, durará muitos milênios. Quando você virá comigo, irmão, até a terra onde repousa Kupala? Não posso fazer isso sozinho, assim como não pode nenhum de nós. Devemos encontrar Byelobog. Devemos encontrar também o quarto, aquele que nos completará.

O Dracon, enquanto falava, observava o céu e as estrelas. Parecia alheio, imerso em divagações, processando inúmeras informações ao mesmo tempo. Pôs-se a andar e, minutos depois, dois alazões surgiram, rompendo a planície e se aproximando de Enki e de seu irmão. Aquiesceram à autoridade do Dracon e ambos montaram, rumando para Nippur.

A viagem não foi longa, mas deu tempo aos dois irmãos para que se conhecessem melhor. Enki havia ouvido falar do filho mais velho de seu Pai, mas nunca o tinha encontrado pessoalmente. O Dracon, segundo suas próprias palavras, girava o mundo a procura de algo que nem ele sabia o que era. A única certeza que tinha, desde o primeiro dia em que pisou em Nippur, é que permanecer ali seria condenar seu espírito a uma condição estática, imutável. Optou, com a autorização do Pai, por caminhar indefinidamente entre vales, planícies e montanhas. Não obstante, retornara na hora de necessidade, não somente por ter sido ordenado a fazê-lo, mas por senso de dever para com sua família. E para encontrar Enki.

Aos portões de Nippur se encontrava Gallod. O Profeta havia permanecido na cidade, usando de seus assombrosos poderes psíquicos para comunicar-se com as diversas frentes de batalha. Não disfarçou a alegria ao ver os dois irmãos que adentravam a Cidade Sagrada, abraçando Enki assim que ele desmontou do cavalo. Ao Dracon, dirigiu um cumprimento cortês e respeitoso, mas que Enki percebeu que era carregado de algum ressentimento.

- Fico feliz de vosso retorno, irmãos meus, pois são quase os últimos. As notícias são ambíguas. Mashkan recuou suas forças após a quebra do Trato. A tabuleta foi recuperada por Japhet e Ya'rub, e se encontra em segurança no Trono Negro. Encontramos a traidora, tratava-se de Amarantha, filha de Arikel, que está sendo mantida como prisioneira por nosso parente Ventru. Além dela, o prisioneiro trazido por Ya'rub, que está sendo mantido em custódia por Haqim. É, aparentemente, alguém de alta hierarquia entre as forças do inimigo. Ventru espera o retorno de todos, para que possamos nos reunir em julgamento.

Gallod evitava olhar para o Dracon. O cainita de cabelos flamejantes, contudo, ainda parecia alheio, observando Nippur com um inegável saudosismo no olhar.

- Por outro lado, Sutekh deixou a cidade, comunicando que seu papel na guerra havia acabado. Seu filho, Taweret, decidirá em seu nome tudo o que precisa ser decidido. Adicionalmente, Saulot, Laza e Sarosh ainda não retornaram. Outra notícia ruim é que Mi-Ka-Il, filho de Arikel, caiu em Torpor devido a pesados ferimentos. Sua Senhora ordenou a remoção de seu corpo, enviando-o para terras distantes, para que seja preservado.

O Profeta começou a caminhar em direção à cidade.

- Mas descanse, meu irmão, e tome o tempo necessário para concretizar seus anseios. Eventualmente Ventru nos fará saber quando deveremos seguir para o Trono Negro.

Enki notou que o Dracon resistiu, por alguns segundos, antes de entrar em Nippur. Curiosamente, não rumou em direção do Zigurate onde residia seu Pai, mas ao templo subterrâneo onde se congregava Sutekh e suas progênies, quando estavam na cidade.
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Re: Mashkan-Shapir: Fortaleza da Dor.

em Sex Ago 17, 2018 8:55 am
Era o fim.

Deixaram o Trono Negro, caminhando pelas ruas de Nippur. Enquanto alcançavam a saída da cidade, os descendentes de Ventru, de Ilyias e de Saulot instruíam aos mortais que deixassem as ruas, refugiando-se nos Templos e Ziguarates, onde deveriam esperar até o retorno das hostes para então deixar aquele lugar. As pessoas obedeceram sem pestanejar. Os armazéns de Nippur também foram abertos, e os mortais foram rápidos em recolher alimentos, preparando-se para a difícil viagem que se aproximava.

No centro da cidade, as forças mortais de Nippur se preparavam para a marcha, sob um céu escuro e profundo. Havia outros, homens e mulheres oriundos das cidades livres do Sul, que haviam atendido ao chamado de Ventru e enviado suas forças. Camponeses e ferreiros se misturavam com dignatários, num esforço comum. Cainitas que viviam em Larsa, Uruk e Ur haviam retornado ao lar. Estavam munidos de armas e proteções de couro de animais. Nas faces, angústia e preocupação mas, também, expressões resolutas e decididas. Era início de noite quando Ventru, montado em um poderoso alazão negro, dirigiu-se aos mortais.

- Não prometemos nada, não oferecemos nada. Talvez não haja um lugar no próximo mundo para aqueles que cairão. Vossa descendência, porém, está a salvo, vosso sangue seguirá pelos séculos. Vocês sobreviverão a nós.

Os Filhos se reuniam próximo aos Pais. Da família de Laza estavam presentes Karotos, Sybilla, Tubalcain, Tepelit e Sarosh. Laza os havia instruído, deveriam começar a concentrar-se e conectar-se com o Abismo que existia dentro de cada um deles. Operar o Tchernabog, segundo o Fundador, seria difícil e exigiria esforço. Nenhum deles jamais o havia feito, sequer haviam ouvido falar de tal proeza. Aparentemente, Laza havia se tornado capaz de vencer a primeira das maldições d'Aquele Acima. O Antediluviano, porém, não parecia presunçoso ou orgulhoso de suas capacidades. Estava sério, compenetrado e focado.

Dos Moldadores, estavam presentes Enki, Byelobog, Dracon, Gallod e Kartaryria. Gigantes em seu poder, um abismo entre suas personalidades. Compunham a mais estranha das Famílias, com cainitas das mais diversas origens caminhando pela Planície de Nippur. Os liderava Loz, O Estrangeiro, que caminhava a pé. Seus olhos estavam completamente brancos. Loz espionava Mashkan-Shappir à distância. Segundo ele, não seria um ataque surpresa. O inimigo se movimentava. Todos sabiam que seria uma última batalha.

Ilyias estava ausente, mas seus filhos marchavam. Amon, Belit-Sheri, Anis. E Troile. O mais novo de Ilyias demonstrava um poder imenso, incontido, destrutivo. Era um belo homem, notadamente estrangeiro. Havia algo sobre ele, porém, que fazia com que os Antigos o encarassem com frequência, especialmente Haqim. Se algo pensavam, nada disseram. Observavam Amon que, com uma expressão tranquila, os informava que nada estava fora do lugar.

Todos os outros estavam presentes. Os Filhos de Ventru, de Haqim - à exceção de Ya'rub e Rashadii, de Laodice e de Saulot. Urlon de Uruk e Hukros representavam a Casa de Ennoia. Hazimel a Casa dos Andarilhos. Mesmo Lamdiel, Filho de Malkav, estava presente, sua face jovem contorcida em visões do que poderia acontecer em batalha.

Marcharam.

Nenhum deles usou dos Dons das Trevas. Cruzaram a planície como se mortais fossem, acompanhados de suas forças humanas. Os Antigos iam à frente, discutindo estratégias de batalha e, mais importante, onde repousariam, uma vez que a viagem até Mashkan-Shappir duraria alguns dias. Laza se ofereceu para, junto aos seus Filhos, conduzir ao menos os cainitas a um lugar seguro antes do nascer do Sol. O Techernabog, segundo ele, deveria ser convocado quando estivessem mais próximos.

Mas não foi necessário.

Pouco antes do nascer do Sol, quando a Casa da Noite se preparava para conduzir seus parentes, uma vibração foi sentida. Um som baixo e contínuo no fundo da nuca de todos os cainitas. Uma presença imensa, não natural, devastadora. Parecia que podia romper a terra sem nenhum esforço. Aves voavam em direção ao sul, somente para interromper a migração e sobrevoar a cabeça dos cainitas e mortais. Olhos avermelhados se mostraram na escuridão da noite, centenas de feras e bestas a cercar as forças de Nippur. Foi Haqim, atento, quem explicou o que acontecia.

- É bom vê-la novamente, irmã.

Hukros e Urlon demonstravam uma forte comoção e profundo respeito.

Saulot instruiu os cainitas a deixarem seus cavalos e manter-se de pé sobre a terra, com os pés descalços. E mesmo que não soubessem como ou não pudessem fazê-lo, a terra permitiu a sua entrada para o descanso diurno. Lentamente, afundaram, dezenas de cainitas em uma única cova coletiva, protegidos durante o dia pelos mortais e pelas feras que habitavam aquela parte do mundo. Dentro da terra, o calor e o conforto. Mas havia, também, uma presença que açoitava seus sonhos com uma satisfação mal disfarçada. Mashkan-Shappir, a mácula da Planície, finalmente cairia. Assim como cairia Nippur, a casca que não mais servia.

Por dias assim seguiram viagem. Marchavam sob a luz da lua e alimentavam-se das feras. Coiotes e hienas se aproximavam para permitir que os cainitas bebessem somente o necessário, de forma a poupar as forças dos mortais que os seguiam. De dia, a terra os recebia com sonhos de liberdade e visões de um mundo vasto e infinito.

À medida em que se aproximavam de Nippur, a tensão crescia. Loz, desta vez com a ajuda de Saulot, perfurava os véus que encobriam Mashkan-Shappir. Segundo estes Antigos, o inimigo se movimentava nos subterrâneos, prontos para atacar. Eram as abominações, um número infinito delas, que espreitava à espera dos cainitas. Havia, ainda, inúmeras presenças de imortais como eles, que também se preparavam. Ventru, diante de tais informações, limitou-se a instruir a todos.

- A prioridade de nosso ataque é a destruição de Mashkan-Shappir. Atacaremos suas estruturas. Seus Zigurates, Palácios e Poços de Sacrificio. O Inimigo estará desnorteado, adormecido, mas suas bestas e cultistas mortais responderão à nossa violência. Nós as obliteraremos com força e decisão. E quando o Inimigo se levantar de seu sono, nós estaremos prontos para abatê-lo.

Haqim interrompeu.

- O Inimigo tem um poderoso general. Não o subestimem em nenhuma hipótese. De qualquer maneira, eu me ocuparei dele. Estejam atentos para a presença de Nergal em campo de batalha. Se ele se mostrar e nós, Antigos, não pudermos intervir, ataquem em grupos, jamais sozinhos. Nergal é por demais poderoso para ser derrotado por um de vós.

A voz rouca de Loz completou.

- Tenham confiança no Sangue, e o Sangue os retribuirá.

Com a proximidade, tornou-se necessário enganar o Inimigo, ou ao menos tentar fazê-lo. Tal proeza foi realizada por Hazimel. Estavam a algumas horas de Mashkan-Shappir e do amanhecer. O Andarilho concentrou-se. Em um instante, havia somente o exército de Nippur. Em outro momento, um segundo depois, havia uma cópia perfeita daquelas forças, que continuava a marcha em direção à cidade enquanto as forças reais estacavam, sob o comando de Ventru. Hazimel tinha os olhos esbranquiçados e deixava entrever um esforço intenso. Havia, ainda, uma segunda presença que parecia dar-lhe poder. Podia-se notar uma figura fantasmagorica, com uma longa barba escura e vestes avermelhadas, que estava de pé ao seu lado. Durou um segundo. Todos os Fundadores, sem exceção, fizeram uma respeitosa mesura antes que a figura desaparecesse.

Por alguma razão, o Sangue dos Filhos parecia ferver em suas veias, correr mais rápido e à sua revelia. Mesmo o de Amon, cujo Sangue parecia gritar na presença de um Troile imenso, resoluto, fusão perfeita entre si mesmo e Ilyias. Era notável a todos, naquele momento, que Ilyias não mais existia, mas que uma parte dele estava ali, presente, no Sangue e na Meste de Troile e de seus irmãos.

Enquanto o exército fantasma de Hazimel marchava, resoluto, um Véu Invisível caiu sobre o verdadeiro. Centenas de mortais e cainitas estavam, subitamente, invisíveis aos olhos do Inimigo, d'Aquele Acima e d'Aquele Abaixo. Não estavam ali, não existiam, jamais haviam existido. Haqim, o Grande Caçador, os protegia. Era chegado o momento. No horizonte, Mashkan-Shappir emitia uma fumaça escura, como a de uma fornalha ardente, e o céu se tornava lentamente alaranjado, impondo terror à Prole de Caim. Ao menos até o momento em que a Casa da Noite interviu.

Laza estava diante de todos. Seus filhos se perfilavam alguns passos atrás deles. Sarosh sentia seu Sangue ferver nas veias de uma maneira insuportável. Seus irmãos, aparentemente, sentiam o mesmo. O Sol se erguia com pressa, mas ninguém se movia apesar do medo experimentado pela Besta. Confiavam em Laza, todos eles. E Laza não traiu sua confiança.

Sarosh sentiu, por um momento, que era capaz de fazer qualquer coisa. E então, fez o que era necessário.

Do Sul, de onde estaria Nippur, uma onda de Escuridão profunda tomou de assalto o céu, encobrindo as estrelas e as nuvens. Se espalhava com velocidade e fúria, mas com um silêncio rompido somente pelo som do vento do deserto. O corpo de Laza estremeceu e colapsou, sua forma fisica cessando de existir naquele momento, tornando-se Escuridão, alçando voo e juntando-se à massa escura que se movia no céu. Quando mesclou-se com o próprio poder, eram minutos antes do Amanhecer. Ouviu-se um estrondo e, durante alguns segundos, Escuridão e Luz pareciam se confrontar nos céus da Planície. Os Filhos de Laza sentiam que eles também eram responsáveis por tal efeito, e intensificaram seus esforços. E venceram. Com um segundo estrondo, as Trevas venceram a Luz. O Sol nascente, as montanhas, o horizonte, tudo foi encoberto. Era noite novamente.

O Sono diurno, porém, ainda era uma presença incômoda. Saulot, avançou em direção aos seus parentes. O Terceiro Olho do Antediluviano se abriu, emanando uma poderosa e reconfortante luz azulada que os envolvia, percorrendo suas veias e seus sentidos quase entorpecidos. E o Sono desapareceu.

Nas veias de todos ainda corria a força dos Ancestrais. Não haveriam, ao menos por alguns segundos, limites ao que eles pudessem fazer. Eram um com seus Criadores, unos no Sangue e na vitória. Mais a frente, o Inimigo, ou suas Bestas, deixavam seus abrigos subterrâneos, segundo Loz, enganados pela ilusão de Hazimel. Era chegado o momento.

Ventru, Rei dos Cainitas da Cidade dos Deuses ergueu sua espada. E, conforme havia prometido, foi o primeiro a lançar-se contra os muros amaldiçoados de Mashkan-Shappir. Foi seguido por todos, sua liderança inspirando a certeza da vitória. Somente diante dos muros é que a proteção de Haqim se ergueu, mas foi substituída pela de Laza que, de algum lugar nos céus acima, enviava imensas mortalhas de escuridão que confundiam o Inimigo.

A Batalha Final havia começado.
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Re: Mashkan-Shapir: Fortaleza da Dor.

em Sex Ago 17, 2018 2:08 pm
Nippur, a última noite da Cidade dos Deuses.

Até mesmo as estrelas minguavam sua antes resplandescente luz sobre a Segunda Cidade. Definhava e se desfazia, conforme a certeza dos antigos e de seus filhos se engrandecia. Deveriam ganhar o mundo, pois a ele pertencem.

Observou as famílias e seus membros. Poderosos, ávidos e concentrados. Absolutamente diversos. Logo estariam espalhados por todos os lugares como os grãos de areia carregados pelo vento. Assim deveria ser.

Diante da multidão no centro da cidade e após o discurso de Ventru, o Rei dos Reis, Daharius ergueu sua voz que inspirava e preenchia o coração dos mortais de esperança em um futuro vindouro. Assim como uma plantação tem início em uma pequena semente, Daharius plantava naquele momento e através de suas palavras um vislumbre de um futuro possível.


- Toda calamidade é passageira. Venceremos. E, após a nossa vitória - que será paga em sangue, dor e destruição - haverá um novo começo.

- Convoco a todos que possuem a chama da guerra no coração, a esperança da prosperidade na alma e a determinação para prosseguir na mente que me sigam após o desfecho desta guerra. Ergueremos, juntos, um império. O maior de todos os impérios - que será dedicado aos mortais. Não somente a vós, mas aos seus descendentes que o herdarão portando os nomes que os cabem.

- Os aptos juntarão-se aos Guerreiros das Sombras, meus leais Arautos da Guerra. Precisarei, também, de construtores, agricultores e pensadores. Vislumbrem o futuro e eu os guiarei. Triunfem e o futuro lhes será grandioso. Este não é o fim, é o início de vossa jornada.


Caminhou por entre o povo, deixando os antigos e iguais para trás. Naquele momento, deixaria tudo para trás.

-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

A última marcha dos Deuses.

Marcharam.

As noites de viagem eram a última das oportunidades para que estivessem unidos. A descendência dos antigos compartilhava do rebanho, do abrigo e do ideal de uma forma que, talvez, jamais seja possível novamente. Usou-as, aquelas noites, para desperdir-se de si mesmo.

Buscou Amon e abraçou-o. Agradeceu-o por mostrar-lhe a humanidade. Foi humildade ao reconhecê-lo como um espírito superior, pois ele o era. Quando Daharius temia por suas ações, Amon encarava sua própria natureza inerte para tomá-las. Quando Sarosh explodia em uma profusão de sentimentos diversos, Amon os domava, um a um. Era grandioso, Amon. E seria cada vez maior.

Caminhou por entre os seus até encontrar Enki. Dedicou uma noite inteira para ouví-lo. Como era sábio, em sua constante mudança, aquele filho de Loz. Carregava a dor de seus dias mortais como o sangue que flui pelo seu corpo, modifcando-o, engrandecendo-o, tornando diverso de qualquer outro. Enki era aquilo que Sarosh jamais poderia ser: adaptável. Enki venceria o tempo, tornaria-se uno com tudo aquilo que pode ser moldado.

Sentiu a falta, física, de Ya'hub. Sentiu-o, porém, espiritualmente. A aura mística que a escuridão lhe propiciava enxergar permitia vê-lo presente, olhando pelos seus e na sombra de Haqim. Havia uma sabedoria, uma calma estratégica e uma busca por compreender as mais profundas razões que faziam com que todos congregassem do que deveria ser feito. Ya'hub não era somente um vampiro, era uma busca. E a busca jamais terá fim.

Abraçou Samiel e compartilhou de sua força. Venceriam, pois o filho de Saulot era o maior dos guerreiros e estava ao lado dos seus. Sabia, Daharius Sarosh, que Samiel era o melhor de todos os que marchavam. Nem mesmo Ventru, em toda a realeza e grandiosidade que poderia inspirar, possuía uma natureza mais nobre que a do primeiro filho de Saulot. Samiel era uma luz em meio as trevas que Sarosh tentava controlar. Samiel era o amanhã, em toda a sua glória, que viria depois de um escuro hoje.

Sentou-se, aos pés de uma pedra e a fitar os céus, ao lado de Laza. Sorriu, genuínamente, como não fazia desde suas primeiras noites ao lado do antigo.


- Contenha teu sofrimento, Pai. És o maior deles e cumpres o maior dos papéis. Agora, eu sei. Sei quem sou e sei que tu me fizestes. Mantenhas a máscara, pois é teu dever, somente assim foi capaz de gerar meus únicos e grandiosos irmãos. Tua família é a maior de tuas realizações e eu a protegerei - mesmo de ti - até o fim dos tempos.

- Tenho orgulho de ti, Laza Omri Baras, tenho orgulho de ser vosso filho.


Na última das noites, após caminhar pelas sombras de todos os seus, o procurou.

Adentrou à tenda de Ventru, na qual o majestoso líder preparava-se para o conflito final que surgiria conforme os raios solares fossem aplacados por seu irmão, Laza. Caminhou, em silêncio, em sua direção. Ventru era a representação do que todos os vampiros deveriam ser. Justo, Nobre, Grandioso. Magnífico e Corajoso. Ventru era a obsessão de Sarosh.

Tocou-lhe o rosto e admirou-o, por longos instantes. Os olhos negros fitaram os azuis indefinidamente e aquele momento - que pertencia somente aos dois - durou uma eternidade. Parcas palavras se sucederam.


- Jamais serei teu filho, mas esta noite - e apenas nesta - seremos um só.

A tenda escureceu e as horas transcorreram em um tempo único até que o momento chegasse.


-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

A Guerra

O momento final havia chegado.

As forças de Nippur enfileiravam-se aos pés dos portões de Mashkan-Shappir. Eram inúmeros e corajosos mortais oriundos das diversas cidades livres da planície. A guerra também os pertencia e que nenhum dos imortais jamais esqueça: o mundo, aos mortais, pertence.

Os vampiros, em sua diversidade e poder, preparavam-se para o confronto. Cerravam os dentes, brandiam espadas, erguiam escudos. Ouvia-se as respirações ofegantes e ansiosas dos humanos em contraste ao silêncio profundo dos vampiros a prepararem-se.

E então, Laza deu um passo à frente seguido por seus filhos.

Sarosh vislumbrava, para além dos montes ao longe no horizonte, os primeiros dos raios solares ameaçarem erguer-se. Foram incapazes disso perante a grandeza do Rei da Noite. Quando o sangue em suas veias feveu e os estrondos ganharam eco, Daharius invocava as trevas abissais em apoio ao antigo. OS céus enegreceram e o dia tornou-se noite. Desafiavam Mashkan.

Desafiavam a natureza. Desafiavam o Deus vingativo. Desafiavam a Morte.

As criaturas oriundas dos pesadelos que é a Fortaleza da Dor foram despejadas de seus portões. Ventru, então, como o líder que deve ser cavalgou em seu alazão negro e majestoso inspirando a todos que fizessem o mesmo. Sarosh caminhava, lentamente, atrás do Rei e a frente das forças de Nippur.

Da sombra de sua montaria, uma dezena de tentáculos sombrios que alçavam os três metros de altura prolongaram-se. Conforme Ventru avançava e destroçava os que ousavam adentrar o seu caminho, a escuridão criada por Sarosh se encarregava de manter os demais longe do Rei - despedaçando-os - no processo.

E vieram.

Monstros com diversas mandíbulas e patas, com vísceras pegajosas e imersas em ácido se projetando para fora e dezenas de faces humanas se lançariam contra as forças unidas da planície, como um pesadelo macabro que cairia sobre os justos, dragando-os para um inferno de dor e agonia. As aberrações vomitadas por Nergal e pelos que o seguiam não deveriam, jamais, pisar sobre o mesmo solo que os humanos. Deveriam ser extirpados daquele mundo para que sua presença pútrida não o contaminasse para além do já realizado.

Daharius Sarosh, O Arauto do Abismo, olhou para cima. Vislumbrou as nuvens obscurescidas e repletas pelas trevas de seu Pai. Ele sabia que seria capaz. Sentia, em seu interior, o poder do abismo ganhar forma.

Caminhou por entre as criaturas que tentavam avançar mas estacavam. Notavam suas próprias sombras prendê-las ao chão com tamanha força que quebrava suas pernas. No meio delas, de dezenas delas, Sarosh ergueu os braços e sua voz ecoou pelo campo de batalha.


- Avancem. Avancem sobre a cidade pois o inimigo cairá aqui.

Seu corpo foi suspenso no ar. Levitava. Os braços abertos começaram a gotejar um líquido espesso e negro, como um sangue repleto de trevas. De seus olhos e boca, escorria seu precioso vitae. Gotejaram e tocaram o chão.

Primeiro, seu corpo transmutou-se e tornou-se o Abismo. Escuro, profundo, indistinto das sombras que manipulava. Sarosh era o Abismo em toda a sua crueldade. Erguido por suas habilidades, seus pés sombrios não tocavam o chão. Os braços abertos e a face escura voltada para os céus eram um símbolo de que não estava só. Sentia-os, todos os seus.

Khanon, o Forte, estava nas sombras que formavam seu corpo. Assim como Karotos, Tepelit, Sybilla e Tubalcain. Osíris, que jamais pertencera as sombras, ainda sim se fazia presente. Retribuía sua libertação com aquela que viria para o povo da planície. Amir, seu filho, aquele que o tornou um Criador e que renovaria a sua vontade de resistir ao tempo. Junto a ele estavam também os céus, a terra e todas as sombras que Laza comandava.

Notaram, todos os cainitas do campo de batalha, que suas sombras os deixavam. Concentravam-se todas em uma massa negra e indistinta aos pés do corpo flutuante de Sarosh.

E então, com um estalo seco que ecoou nos mais longínquos cantos da terra, se fez existir.

Primeiro arrastou a terra em um redemoinho de escuridão absoluta. Depois cresceu. Tornou-se um Vórtice abissal que dragava areia, ar, esperança e corpos para seu interior. As criaturas monumentais de Mashkan nada eram capazes de fazer. A escuridão brotava de suas próprias sombras e arrancavam-lhe as patas, abria-lhe os ventres e esmagava-os em ângulos impossíveis antes de arrastá-los para o vazio absoluto.

O Vórtice crescia. O corpo de Sarosh se mantinha erguido a levitar, gotejando sangue negro que alimentava o monstruoso vazio que se abria como uma boca a engolir todos os inimigos a seu redor. Tentavam, em uma última ação, alcançar o Arauto e atacá-lo. Era em vão. Suas garras e os dejetos ácidos que cospiam em sua direção transpassavam seu corpo de trevas e nada lhe causavam. Somente poderia ser acometido pela luz do sol e, mesmo esta, havia sido vencida pela escuridão do abismo comandado por Laza Omri Baras.

As criaturas eram desmembradas e engolidas. Os exércitos de Mashkan viam o abismo e sentiam o frio lhes percorrer a espinha antes de serem retorcidos como esculturas de barro e reduzidos a alimento para as sombras que já formavam um colossal redemoinho no solo. Ampliaria-se rumo à Mashkan, engolindo inimigos, estruturas e a própria cidade conforme os seus avançassem e, com suas grandiosas habilidades, também cumprissem o seu papel.

Apenas os seus eram livres para prosseguir, enquanto o inimigo conheceria o terror - o verdadeiro terror - de um Filho de Laza. O Arauto do Abismo.




Disciplinas:
No decorrer das rodadas da Cena, Sarosh utilizou-se das seguintes disciplinas:

Braços de Ahriman com força sombria e aço negro.

Shadow Wachtower - se tornando imune a tudo a não ser o sol.

Ahriman's Demesne - criando o vórtice
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Re: Mashkan-Shapir: Fortaleza da Dor.

em Sex Ago 17, 2018 4:52 pm

*Outra viagem, ainda mais maravilhosa do que as anteriores. Todos caminhando, com propósito e uma certa serenidade ao seu destino final. Vendo tantos da prole de Caim marchando sob a noite era uma visão notável, mitológica. E Enki sabia que não importa o quanto tempo vivesse, jamais esqueceria este fenômeno. Era um cortejo fúnebre sim, mas não de Nipur, de Mashkan-Shapir… Os filhos da Noite marchavam pelo fim de uma era. E ele estava exultante, andando descalço, sentindo a cada noite quente os ventos da mudança soprando em seu rosto. Ele caminhava para a morte, e estava exultante.*



*A visita de Sarosh, durante uma das noites, é uma surpresa, mas bem-vinda, e ambos caminham juntos até o nascer do sol. Era curioso, seu irmão das sombras. A impressão de Enki é que sua vontade era de abrir mão de tudo e alçar vôo, mas era segurado por vários grilhões - e nenhum grilhão era mais pesado do que ele mesmo, sua própria consciência. O encontro com Kupala havia ensinado muito a Enki sobre dualidade, e ele agora conseguia vê-la melhor do que nunca em Sarosh, duas entidades dentro de si. O Senhor Sábio e o Espírito Furioso. Ele o vê mais uma vez, e seu Olho vermelho dá um leve lampejo, e balbucia em uma língua desconhecida, ainda que familiar para Sarosh.*


-Ahura Mazda. Angra Mainyu.

-Nenhum inimigo que enfrentará ao longo de sua existência será tão perigoso quando o dentro de você, amado.

*Ele conseguia ver que Sarosh o admirava, talvez especificamente por serem tão diferentes entre si. Algo no âmago de Sarosh gostaria de ser fluido e inconstante como Enki, mas não era esse o papel do Arauto das Sombras. E Enki? Talvez fosse tudo que Enki quisesse para si. Um lorde temível, uma força avassaladora, mas sabia que não era esse seu caminho. Enki poderia ser um Príncipe como Sarosh, mas não duraria por mais de uma lua. Poucas coisas duravam em sua mente e espírito, todo o resto escorrendo entre seus dedos como a água que tanto lhe guiava.*

*Pelo resto da noite, conversaram entre si. O que quer que esteve em poder de Enki responder para Sarosh, foi respondido, mas a maior curiosidade do Moldador era sobre o Abismo, de onde surgia o magnífico poder manipulado pela Casa da Noite. E ao final da conversa, antes de se retirarem para o sono diurno, Enki deixa a Sarosh uma última mensagem.*


-Você não é o mestre do Abismo. Ele não é sua ferramenta, tampouco você é seu escravo. Sua relação é uma: você é seu Guardião.



*Chegaram. E Enki não pode fazer nada senão observar maravilhado como estava andando em plena luz do dia, quando Laza Omri Baras e sua casa encobriram o sol e desafiaram a vontade do Criador. Ficou maravilhado ao ser contemplado pelo terceiro olho de Saulot, e sentir sua alma ser perscrutada, analisada, pesada e julgada no processo. Mas agora ele sentia o peso longe de si. Não só caminhava sob o sol, mas o fazia sem o Sono, sem a Besta a lhe ditar as ações. Hoje seria um maravilhoso dia.*

*Ventru lidera a carga, e que visão que era! Uma resplandecência tamanha que Enki não acompanha a investida de seus pares, mas encontra um local próprio e lá fica, uma rocha elevada diante de uma vala e fecha os olhos, recebendo no rosto o vento quente da manhã.*

*Mashkan-Shapir amanhecia sob a égide da guerra. Toda sorte de abominação deixava suas entranhas para fazer frente aos invasores, primeiro o exército ilusório de Hazimel, depois o verdadeiro, oculto por Haqim, e Enki observava, do alto de sua rocha. Sarosh pois o dia era de fato maravilhoso. Ele fecha os olhos mais uma vez, e sente o ar.*

*E quando abre os olhos novamente, eram pura energia. Magma brilhante, as torrentes marinhas e granito indestrutível do leito da terra rodopiavam em seus olhos, e Enki sabia o que devia fazer. O Moldador abre seus braços, e sangue começa a escorrer deles, se derramando em quantidades inacreditáveis e escorrendo até a vala abaixo de si, quando era prontamente absorvido pela terra. Kupala estava sedento, sempre estaria.*

*Enki olha, mas não vê o que está à sua frente. Vê o centro de Mashkan-Shapir, a própria Cidadela da Dor. E debaixo dela surge o Fogo, o sangue da própria Terra. Os zigurates de Mashkan-Shapir se racham ao meio, e deles surge uma montanha no coração da cidade, um canal para o coração flamejante de Kupala, e dele emana fogo líquido, o terror para qualquer criatura, viva ou não, que caminhe sobre a terra.*

*Enki vê as chamas e o calor, e sabe que não basta. Ele olha a rocha onde estava de pé, e salta para a vala, já vazia do sangue depositado. E ao saltar, golpeia o chão, embora nada se sinta aqui. O golpe atravessa toda a planície, carregado pelos espíritos, até que o efeito se dê, novamente, no centro da Cidadela da Dor. Se antes a terra sangrara fogo, agora se contorcia em dor, e chacoalhava a ponto de destruir toda sua superfície. Kupala visitava seu Irmão sob a Terra, e lhe mostrava suas carícias.*

*Enki olha e ri. O dia seria de fato maravilhoso.*


Spoiler:
Disciplinas usadas:

Trilha do Espírito - nível 6

Ritual Koldun: Invocar Sinal do Poder Superior

Explosão Vulcânica (Trilha do Fogo 5)

Fúria de Kupala (Trilha da Terra 5)

Para fins de testes de Disciplinas, Enki possui Vigor, Carisma e Manipulação 4 e Ocultismo 7.
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Re: Mashkan-Shapir: Fortaleza da Dor.

em Dom Ago 19, 2018 1:26 am
A cada instante em que o confronto se aproximava, em tempo e em distância, Amon sentia um formigamento no corpo, na mente e, porque não, no espírito. Ele sentia que existira apenas para estar ali, naquele momento. Defenderia o futuro dos mortais e de suas crias, daqueles que profanavam a jovem e pouco numerosa humanidade.

Caminhou ao lado de seus tios, sem nada a dizer, lembrando aos outros a temperança que lhe era característica. Amon nunca perdera a calma e agora ele sabia o motivo...

Na noite da chegada a Mashkan-Shapir, manteve-se ao lado de Troile. Estava preocupado, pois, não sabia os efeitos que seu ato geraria sobre seu corpo e alma. De qualquer forma, Troile parecia não padecer de mal algum. Amon estava satisfeito, finalmente teriam um tempo juntos.

Quando finalmente vira o céu matinal escurecer novamente, significava que a partir daquele instante, não haveria volta. Com os olhos arregalados, observou Laza vomitar as trevas e fazer um longo manto sombrio, que impediria que a luz solar os queimasse de imediato. Teve a impressão de que as crias de Laza fizeram a mesma coisa.

Ainda boquiaberto com a recente amostra de poder, sentiu uma brisa fria passar. Um arrepio percorreu-lhe dos pés a cabeça e, quando achou que não poderia se surpreender mais, viu a terra elevar-se. Um odor forte preencheu o ar, enquanto fogo e fumaça saíam das entranhas da terra. Uma nuvem negra se formou sobre a nova montanha, enquanto cinzas caíam do céu.

Amon aguardou que o Rei dos reis avançasse sobre as hostes malditas de Mashkan-Shapir. Ele esperou que a espada de Ventru fosse erguida por seu portador, para enfim, iniciar sua vingança. Sua justiça.

Enquanto os cainitas avançavam a sua frente, destruindo as casas e matando os mortais e as criaturas vomitadas pelo solo seco da cidade, Virou para Troile e sentiu, no exato momento, o sangue ferver. As veias saltavam na pele negra de Amon. O coração bombeava o sangue que alimentava os membros, com velocidade, resistência e força. Amon, ao vislumbrar os olhos de seu irmão imediatamente o amou e aquele amor o fez entender as últimas palavras de Ilyias. Para proteger a humanidade da perversidade e do autoritarismo, não seria possível proteger através do diálogo e dos números, tampouco pela observação dos astros e do movimento migratório dos animais. Não seria possível liberta-los através do mero convencimento. Seria necessário mais.

Uma fúria brotou em seu coração e se espalhou por todo o corpo assim como o fogo se espalha pelo palheiro. Tentou, mais por costume do que por raciocínio, vislumbrar as possibilidades e como usar este conhecimento a seu favor, no entanto, abandonou a ideia, saber o futuro não era interessante. O interessante era fazer o agora.

Amon começou a correr na direção da cidade e, sem notar, sentiu seu corpo formigar ainda mais, parecia que seu corpo estava mais leve, solto da linha do tempo presente. Amon se movimentava tão rápido que chegou ao centro da cidade antes dos outros.

Ele se concentrou e avançou sobre as construções inimigas. Um zunido era ouvido por todos enquanto Amon passava. Graças a velocidade adquirida, ele atravessava as construções, abalando suas estruturas com socos e chutes.

Enquanto algumas das construções caíam, Amon saltou sobre uma delas e correu, com o prédio ainda na vertical, alcançou o topo. O prédio finalmente passou a desabar e Amon sobre ele aguardou o momento certo para saltar sobre uma das criaturas mais horrendas que ele já havia visto.

Uma criatura com diversas cabeças, humanas, de animais e de outros seres que sequer Amon imaginava. De seu corpanzil imenso, brotavam dezenas de braços e pernas. Seu corpo, pelo tamanho, lembrava um mamute. Graças ao salto, Amon já caiu dando um grande soco, forçando a criatura a baixar suas cabeçorras cheias de dentes afiados e olhos esbugalhados.

Em contrapartida, a criatura atingiu Amon com um golpe, de tamanha força, que o arremessou metros de distância.

Amon Nunca fora um guerreiro, pelo menos até aquele momento. Ele correu mais uma vez em direção a criatura, sua presença era notada apenas por um borrão que atravessava uma parte da cidade, até se ouvir o estrondo do impacto de seu soco com o corpo do bicho. Sangue ácido espirrou da entranha da criatura, pelas diversas bocas que possuía. Ao pousar no chão, Amon pegou algumas pedras e as arremessou. A velocidade foi tamanha, que toda vez que uma pedra atingia seu alvo, um crânio explodia violentamente, fazendo jorrar sangue, enquanto corpos caíam inertes no chão.

Tomado pela violência e pelo desejo de lutar e ainda se movendo numa velocidade tão absurda que, enquanto Amon socava a criatura, parecia que ele tinha dois, quatro, cinquenta braços a mais. Ele ficou tão absorto no combate contra a vil criatura, que socou, socou, socou, até não restar mais nada do que uma pasta imunda, fixada no chão por socos rápidos e poderosos.

Uma névoa vermelha cobriu os olhos de Amon. Ele sentiu-se preso, apenas observando de muito perto, o que seu corpo fazia. Um urro ecoou pelas casas agora vazias de Mashkan-Shapir. Amon movia-se com ferocidade, descontrolado. Por onde passava, arrancava cabeças e braços, derrubava construções e destruía estátuas e monumentos.

Amon socava o chão quando sentiu uma mão pousar em seu ombro. Ergueu o olhar viu Ilyias sorrindo para ele, sentindo o toque de seu amado senhor desaparecer no ar. Voltou a si e a única coisa que seus olhos conseguiam ver, era o rastro de destruição que ele havia deixado.


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Re: Mashkan-Shapir: Fortaleza da Dor.

em Seg Ago 20, 2018 5:49 am
Alguns dos mortais ergueram suas espadas e urraram diante do discurso de Daharius Sarosh. Acompanhariam o Filho de Laza até o Submundo, se necessário. Haviam agricultores e poetas, guerreiros e pescadores, todos a concordarem com suas palavras e a jurar que construiriam o Imperio sonhado pelo Arauto. Em outras partes do campo de batalha, porém, os mortais aceitavam as promessas de grandiosidade de outros cainitas, em especial as de Medon, Tinia, Orthia e Belit-Sheri.

*

Laza Omri Baras apenas sorriu diante das palavras de seu Filho, antes que seu corpo entrasse em colapso e ele se reunisse com as Trevas acima de Mashkan-Shappir.

*

E na última noite antes da batalha final pela liberdade da Planície, dois cainitas estiveram juntos, em pele, carne e Sangue, tendo somente as estrelas e a lua como testemunhas.

*

Daharius Sarosh caminhou atrás do alazão guiado por Ventru e circundado por seus filhos. Lado a lado, os descendentes de Laza e os de Ventru enfrentavam o inimigo, que tombava rapidamente perante suas poderosas espadas de bronze. Ventru era uma visão inspiradora e aterradora, sua própria espada calando fundo na carne amaldiçoada. Como um escudo de defesa que protegeria o Rei, seus Filhos e os Filhos da Escuridão avançavam. Sarosh percebeu o quanto seus primos eram diversos. Sentiu a ferocidade de Medon, o Grande Guerreiro da Casa dos Reis, que brandia o bronze como se fosse uma extensão de si próprio. Veddartha e Tinia conjuravam potentes encantamentos, suas vozes se elevando acima do barulho da batalha. Orthia, a Donzela Guerreira, lutava lado a lado com Sybilla, compartilhando sua resistência sobrenatural com a cainita mais nova. Eram uma dupla notável. O filho mais novo de Ventru, Sargão de Akkad, era um guerreiro capaz, ainda que novo. Ao seu lado combatia Karotos, cujas sombras antinaturais se prolongavam, abrindo caminho por entre o inimigo.

Tubalcain também avançava por entre as hostes malditas, seu corpo transformado em Escuridão envolvendo e mutilando as abominações. Tepelit movia-se como o vento, transitando pelo Abismo para emergir próximo aos inimigos e, num abraço obscuro, dragá-los rumo ao Reino comandado pelos Filhos de Laza. As garras e dentes que se projetavam sobre o corpo de Ventru eram incapazes de arranhar sua pele alva, e o Rei cavalgava com uma fúria jamais vista a emanar de seus olhos.

Quando Sarosh levitou, tomado pelo Poder do Abismo, alçou-se mais alto do que o campo de batalha. Do alto pode ver seus primos que avançavam em direção aos muros e construções de Mashkan. No céu, em meio à Escuridão indistinta, lampejos azuis escuros permitiam que ele visse a face de Laza. Seu Pai o apoiava e amava. Tinha orgulho dele. E concedia a Sarosh parte de seu Poder.

O vórtice atingiu a planície amaldiçoada com uma potência monstruosa. Foi conjurado mais adiante, distante de onde estavam os aliados do Arauto. Engolia terra, pedras e o inimigo sem distinção, a voracidade do Abismo fazendo-se sentir no Plano Material. Todo o corpo de Sarosh havia se tornado denso e escuro, seu Sangue espesso e feito de Escuridão abria feridas horríveis na terra seca, de onde brotavam infinitos tentáculos que esmagavam os oponentes. Mais de uma vez livrou um de seus primos de ser atacado de surpresa. Sarosh sentia que sua mente se abria e alcançava um local obscuro dentro de si mesma, sentia que o Abismo ameaçava tomar conta de sua alma. Em seu Sangue uma crueldade sem limites. Lembrou-se de Khanon-Mehr, seu irmão caído, e o vórtice aumentou de tamanho. Daharius encontrava prazer em mutilar e destruir o inimigo, mas foi uma voz, desconhecida e familiar, rouca como o movimento interno da Terra e com um tom sonolento, que arrepiou seus pelos e o fez sentir um frio na barriga.

Daharius.

*

Sobre a montanha, o Sangue fervia nas veias saltadas de Enki. Impunha sua vontade sore o Mundo e este respondia. Viu, ao longe, quando uma poderosa colina se ergueu no centro de Mashkan-Shappir. O chão tremeu perante o poder de um dos Filhos de Kupala. Enki sentia que a terra estava prestes a vomitar seu Sangue incandescente sobre Mashkan, ainda que as defesas místicas da cidade tentassem defendê-la. Foi nesse interludio de alguns segundos que, olhando para baixo, pode ver sua Família.

Sob o comando de Byelobog, a terra se abria em fendas profundas que engolia os Inimigos em grandes números, somente para se fechar depois, esmagando-os. Gallod, espada em mãos, lutava lado a lado com Kartaryria, que detinha nas muitas mãos espadas, machados e adagas. Juntos eram um furacão de morte que caia sobre os inimigos. O Dracon não estava em nenhum lugar visível. Mas Enki o sentia. E foi somente quando parte da Escuridão que era Laza se abriu, deixando entrever um vórtice obscuro, que um grande, imenso dragão baixou dos céus. Seu irmão fazia juz ao próprio nome. Era uma besta formidável, pele escamosa e asas couráceas cuja face e coloração avermelhada faziam recordar a forma humana do Dracon. Inspirou fundo, a Besta, e exalou sua respiração incandescente enquanto descia, em um movimento rasante, por sobre a cabeça dos aliados e inimigos.

Foi ali que a Terra obedeceu a vontade de Enki. Quando ele viu as chamas do Dracon.

Mashkan-Shappir tremeu. Iluminou-se em tons de alaranjado e carmesim quando a lava e as cinzas cobriram suas construções. Gritos podiam ser ouvidos, assim como grunhidos dos servos do inimigo. Enki sentiu, claramente, quando as chamas queimaram os corpos dos poucos cainitas que ali estavam presentes, as peles brobulhando e inchando para depois se tornarem cinzas escuras. A montanha era mais alta que a maioria dos Zigurates, e continuava sua destruição enquanto Enki sentia que em suas veias corria o Sangue Incandescente de Kupala. Diante de seu Olho avermelhado, os inimigos brilhavam também em vermelho, como faróis, incapazes de se esconder.

Mas não era o suficiente.

O Filho de Loz saltou, caindo próximo a Samiel. Samiel, Filho de Saulot, que agora era Pai de tantos filhos que circundaram Enki, protegendo-o enquanto ele se concentrava, invocando a Fúria de Kupala. Quando sua mão atingiu o solo, os Filhos e Netos de Saulot recuaram, abrindo caminho para a fúria da Terra, que se abriu para engolir os inimigos. Aqueles que tentavam escapar da rota de destruição de Enki eram golpeados pelos atentos guerreiros de Samiel. O golpe, porém, viajou pela Terra até Mashkan-Shappir, devastando seus muros e rompendo suas já frágeis defesas mágicas. Enki intuiu, porém, bem no seu íntimo, que o que quer que fizesse refúgio sob Mashkan-Shappir, não se encontrava mais ali. A cidade recebia, silenciosamente, a sua fúria.

*

Movendo-se como o vento, tomado pelo Sangue de sua Família que agora encontrava refúgio nas veias de Troile, Amon adentrou Mashkan-Shappir. Aprendeu, em pouco tempo, a controlar a sua velocidade recém descoberta, e a usou para escalar as torres e zigurates da Cidadela Amaldiçoada, desferindo potentes golpes que rachavam as construções. Trabalhava em conjunto com seu primo Enki e seu irmão Byelobog: Amon golpeava as estruturas que, frágeis, caiam sob a fúria da Terra e da montanha de jorrava fogo.

Do alto de um destes Zigurates, observou enquanto Japhet invocava a força do Mundo dos Mortos, numa tentativa de romper em definitivo as barreiras mágicas que defendiam Mashkan. Seu irmão, Caias Koine, o defendia, mas aparentemente seria sobrepujado pelos números do inimigo. Amon saltou, golpeando continuamente uma das criaturas que ameaçava seu primo. Lutaram, em seguida, lado a lado, a voz de Japhet se elevando mesmo acima da fúria do vulcão que havia sido erguido em meio à cidade. Troile, Amon podia ver, se movia pelas ruas em chamas, suas mãos nuas golpeando a base das construções, fazendo-a tremer. Davam-lhe cobertura Urlon e Hukros, Filhos de Ennoia, metamorfoseados em bestas horrendas e gigantescas, que evisceravam os inimigos.

O Filho de Ilyias sentia, em seu peito, uma fúria e um senso de dever que jamais havia sentido antes. Sua mente fervia, seus olhos eram nublados por uma névoa avermelhada que insistia em baixar sobre eles, a Besta cobrando o preço pela sanguinolência que impunha a Mashkan. Se controlava por muito pouco, em especial quando sentiu a presença de Ilyias. Foi esta mesma presença que sussurrou em seu ouvido, um eco perdido vindo de um tempo que não existia.

- Meus irmãos concederam parte de seu poder a seus filhos. Meus irmãos estarão vulneráveis.

Procurou, então, os Antediluvianos com os olhos.

Viu somente Saulot e Haqim, ambos dentro de Mashkan-Shappir. Haqim era impressionante. Não havia, e não haveria de existir um guerreiro mais capaz do que Haqim. Era invisível aos olhos do Inimigo, que sentia somente um vento quente oriundo de sua passagem. Sua lâmina movia-se com presteza e precisão, mutilando pernas, cabeças e troncos. Aqueles que não eram tocados por sua espada sentiam, quando de sua passagem, o Sangue ferver e explodiam em carne e putrefação, pois Haqim comandava todo o Sangue que existia, não somente o de sua Prole.

Saulot, por outro lado, movia-se lentamente em direção ao Zigurate central de Mashkan que, a despeito da investida de Nippur, permanecia intacto, seu brilho esverdeado iluminando levemente a cidade. Movia seu braço e sua espada somente quando algum inimigo o ameaçava, e eram poucos, dado que a Paz emanada pelo Pastor pacificava mesmo o inimigo, tornando-os presas fáceis para Anis e Belit-Sheri, que o circundavam. Anis lutava com as mãos nuas, cada um de seus golpes fazia tremer o mundo. Belit, com uma lança em riste, demonstrava habilidade marciais que Amon desconhecia, além de se mover muito rápido, exatamente como o irmão.

Saulot, todavia, não conseguiu se aproximar do Zigurate, que parecia misticamente protegido. E Amon percebeu que Ilyias talvez estivesse correto. Saulot parecia cansado. Haqim começava a ser visível.

Da mesma forma que veio às veias dos Filhos, aquele poder imenso passou. Estavam arfantes, mesmo que não respirassem há muito. Loz destruia multidões dos inimigos apenas com a imposição de sua poderosa mente, mas começava a ser cercado por um número infinito deles. Laza ainda sustentava os céus, mas pequenos raios de sol se tornavam visíveis de tempo em tempo, somente para serem cobertos por um esforço adicional do Rei da Escuridão. Troile tinha grandes ferimentos em forma de garras que vertiam Sangue, as costas banhadas de carmesim.

Mas grande parte dos batalhões de obscenidades haviam caído. Ventru ordenou um leve recuo, de forma que as forças de Nippur cercassem aqueles restantes do lado de fora da cidade, atraindo, ainda, os que restavam dentro para uma armadilha. A manobra foi bem sucedida.

*

Horas se passaram desde o início da batalha, e poucos inimigos restavam em campo. Do lado de fora, Enki e Sarosh continuavam a decepar corpos profanos. Dentro, Amon enfrentava outras bestas junto aos Filhos de Ennoia e aos Filhos de Haqim, Jamal, Nakurtum e Sha'hiri. Saulot continuava a recitar encantamentos que romperiam as defesas do último Zigurate, protegido por Anis e Belit.

Foi quando Amon o viu.

De uma das plataformas no alto da contrução, surgiu um homem. Era alto e imponente, de pele extremamente branca, quase translúcida. Seus braços e pernas eram poderosos, e estava vestido inteiramente em branco. Seu rosto, porém, não era visível, oculto atrás de uma máscara de coruja enfeitada com grandes penas. Somente os olhos eram evidentes. Olhos grandes, esverdeados e cruéis. Mesmo em meio ao caos da batalha, Amon pode ouvir sua voz, dizendo uma única palavra.

- Saulot.

O Zigurate brilhou, emanando uma luz esverdeada. O ar se aqueceu e vibrou ao redor dos cainitas. Subitamente aquela energia esverdeada se tornou incandescente, transformando-se em chamas da mesma cor. Aqueles que estavam próximos ao Zigurate sentiram a pele quimar e chiar, como se estivessem sob a luz direta do Sol. As chamas profanas alcançaram, também, os céus, e a Escuridão que o cobria, que era Laza, tremeu. Era evidente a Amon que o alvo era Saulot, que seria atingido em cheio pelas chamas. Desejou defender o Antigo, mas sua carne fumegava em agonia, desconcentrando-o. Sua irmã, Anis, tomou a frente do Antediluviano, protegendo-o do impacto direto. Seu corpo magro foi envolvido pelas chamas verdes e Anis gritou, um grito profundo e gutural de sofrimento e dor. Sua mão se estendeu em direção a Amon, como se desejasse alcançá-lo. Em segundos, Anis não mais existia, reduzida a uma pilha de cinzas diante de um incrédulo Saulot.

Laza não suportaria por muito tempo.

Do lado de fora de Mashkan, o brilho esverdeado poder ser visto. Mas aqueles que ali estavam não puderam fazer nada a respeito.

A Planície se abriu em duas. Toneladas de areia e pedras escorreram para o interior da Terra enquanto novas hostes deixavam o submundo. Desta vez eram mortais, homens e mulheres dispostos a vencer a batalha. Subiam por plataformas compostas de largas rochas e pedaços de terreno. Cainitas das mais diversas origens os seguiam, seus olhos e mãos incandescentes de poder infernal. Estavam muito próximos às forças de Nippur e, de um sentido oposto a Mashkan, avançavam em direção ao inimigo. Uma figura comandava todas as forças. Uma figura desconhecida e poderosa, que era também uma aberração aos olhos dos cainitas.

Era uma criança.

Sua pele era muito escura. Os olhos eram vermelhos e donos de uma malícia e ódio grandiosos. Deveria ter onze anos quando foi Abraçado e por onde caminhava a Terra morria lentamente. Estava completamente nu e parecia frágil, mas a energia que emanava de seu corpo não era daquele mundo. As hostes avançavam correndo enquanto ele se movia com graça, caminhando. Diversos dos cainitas de Nippur estavam diante dele e, num veloz movimento da mão esquerda que se ergueu e se fechou, muitos sentiram o Sangue a ferver nas veias, mas de uma maneira muito mais agressiva que antes. Gallod, Filho de Loz, irrompeu em chamas avermelhadas, correu por alguns segundos pela planície antes de cair no chão escuro e se tornar, lentamente, cinzas diante dos olhos de Enki. Este último e Sarosh sentiram que suas veias ameaçavam explodir diante do avaço da criatura, as forças mortais de Nippur já estavam envolvidas em combates com as hostes do Inimigo. Num último segundo antes de serem consumidos, sentiram que a própria Terra os convocava, engolindo suas pernas e, em seguida, seu corpos. O mesmo aconteceu com aqueles que estavam dentro de Nippur. Ennoia protegia seus parentes uma vez mais, antes que a Escuridão de Laza se desfizesse e o sol surgisse em toda a sua glória sobre o campo de batalha, queimando as últimas abominações e alguns dos cainitas que lá estavam. A maior parte deles, porém, também foi engolida pela Terra, mas guiados por uma força alienígena, que não era a Mãe de Hukros e Urlon. Foi a última coisa que viram.

Não dormiram, porém. Faltavam poucas horas para o anoitecer. Com os sentidos levemente entorpecidos, aguardaram. E quando o sol finalmente se pôs de forma natural, se ergueram novamente no campo de batalha.

Era um massacre.

Centenas de corpos mortais, de ambos os lados, jaziam inertes no solo. Outra centena de feridos clamava por ajuda. Não tiveram sequer tempo para pensar. Brotavam, da terra seca, os cainitas que serviam a Mashkan e a seu Senhor obscuro. Sarosh, Enki e todos os outros se viram acompanhados de um único Antediluviano, Laodice, que estava entre eles e os inimigos. Sabiam que Ventru, Laza e Loz ainda dormiam no conforto da Terra, incapazes de conter a Maldição de Mikael como seus Filhos. E sentiam também que seus Senhores estavam esgotados pelo excesso de poder doado. Ignorando tal fato, os inimigos avançavam em direção a uma força composta de vários cainitas sem comandante e poucos mortais que começavam a duvidar da vitória. A criança, porém, não estava entre eles.

Amon se reergueu, as cinzas de Anis já haviam sido profanadas pelo Inimigo, que as devoravam em busca de poder. Sentiu a Besta rugir como nunca antes, sentiu que perderia o controle. Antes, porém, foi capaz de ver Haqim, de pé, diante do Zigurate. Ao seu lado estava uma criança. Era horrivelmente queimada, quase até os ossos, o que tornava seu corpo ainda menor do que o que realmente era. Não tinha olhos, apenas dois grandes buracos profundos e horrendos, que vertiam um Sangue espesso com cheiro de Haqim. Era magro e franzino, mas emanava um poder avassalador, que foi direcionado à sua mão estendida em direção ao Zigurate. Uma onda de vento e calor foi sentida, além de um som surdo de algo grande que caía. O Zigurate deixou de brilhar. A ultima defesa de Mashkan-Shappir havia caído.


Última edição por Regista em Ter Ago 21, 2018 8:38 am, editado 1 vez(es)
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Re: Mashkan-Shapir: Fortaleza da Dor.

em Seg Ago 20, 2018 10:40 am
A dor e o desespero tomaram conta de Amon, assim que Anis virou cinzas. Com as mãos na cabeça e a boca aberta, sem emitir som algum, lágrimas rubras escorreram por sua face. Apesar do combate fervilhando ao seu redor, Amon era uma figura estática. Havia falhado em sua missão de proteger seus irmãos.

A figura da criança estava em sua frente, seus olhos, vermelhos de fúria e ira, permaneciam fixos no algoz de sua irmã. Amada irmã. A besta sacudiu-se vertiginosamente dentro de si, querendo tomar o controle e partir para cima do alvo de seu ódio, no entanto, uma força de vontade sobre humana o manteve calmo. Amon, que era considerado como sábio por muitos, hesitou por um ínfimo instante.

Ainda assim, ele sabia o que deveria fazer, ainda que as circunstâncias pudessem ser catastróficas. Sua sanidade estava em teste. Ele não suportaria a perda de dois amores num curto período de tempo.

Um grito ecoou por Mashkan-Shapir, mesclando-se aos sons de combate. Além do fato dos antigos estarem fraquejando, devido ao uso excessivo de seus poderes, a batalha parecia perdida. Ainda estático em seu lugar, viu Ventru tomar o controle da situação e recuar as forças de Nippur.

Não havia muito tempo para decidir. Entre manter a linha natural do tempo, coisa que Ilyias lhe ensinou que deveria ser seguida e impedir que sua irmã encontrasse o fim definitivo, a escolha era óbvia. Se a batalha ocorresse antes da destruição de seu genitor, ele nada faria, no entanto, Ilyias estava morto e o sangue clamava por outra coisa, clamava gritantemente pelo amor.

Os sons começaram a chegar até Amon como sons sombrios, lentos, como se levassem uma eternidade pra chegar até ele. Os sons foram morrendo aos poucos, até que enfim, o absoluto silêncio. O céu escurecido pelo poder de Laza, possuía algumas fendas, por onde a luz do sol passava e atingia alguns cainitas, que queimavam até atingir o fim. Homens e mulheres, além dos próprios cainitas, estavam imóveis, suspensos no tempo.

Amon caminhava entre todos, ignorando o combate que decidiria o fim de Mashkan-Shapir. Lágrimas, sangue e suor estagnaram, enquanto o pai do tempo seguia em direção às cinzas de sua irmã. Ali ele poderia acabar com o combate, derrotar a criatura com apenas um golpe e, apesar de seu profundo desejo em acabar com aquilo, sabia que não deveria interferir de forma tão soberba sobre os acontecimentos da guerra. A transgressão que estava prestes a realizar já era demasiadamente grande para arcar com as consequências.

Próximo às cinzas de Anis, ele se concentrou. Grande quantidade de sangue verteu de si, manchando o chão ao seu redor, misturando-se com as cinzas e o solo seco de Mashkan-Shapir. O vento começou a soprar em sentido contrário. As chamas e a lava que vertiam do chão, graças aos dons de Enki, voltavam para o centro da terra. Aqueles que estavam em combustão, de repente, as chamas pareciam não queima-los, voltando a sua forma original.

Anis nunca havia assumido a forma de cinzas, era uma poderosa guerreira a frente de Saulot, protegendo-o das chamas profanas que nunca atingiriam. Não naquele tempo.

Ignorando as consequências imediatas, Amon a segurou pelo braço e a levou para onde estava, sobre o monte, observando as chamas, que agora, partiam em direção a Saulot. Não havia arrependimento, pois, o antigo possuía muito mais poder e capacidade para se defender, assim ele esperava que acontecesse. Abraçou-a, como se fosse a última coisa a fazer em vida, pois, ele sabia, que aquela transgressão cobraria um preço.


Eu te amo irmã. Ainda que céus e terra caiam, eu não suportaria te perder, como perdi Ilyias. Pois, eu sou Amon e me recuso a perder aqueles que amo.

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Re: Mashkan-Shapir: Fortaleza da Dor.

em Seg Ago 20, 2018 10:57 am
Do alto do monte, com Anis em seus braços, viu o Tempo voltar a correr.

As chamas esverdeadas envolveram Saulot. O Antigo rugiu, gritou em agonia, enquanto as chamas se espalhavam pelo seu braço, avançando rapidamente pelo ombro, tórax, face e cabelos. Saulot correu em desespero por alguns segundos, ajoelhando-se, em seguida, no chão. Não estava morto ou entorpecido, mas as chamas continuavam avançando em sua direção, em uma inexplicável torrente de ódio. Amon havia visto, em Possibilidade, as cinzas de sua irmã acumuladas no chão. Agora assistia ao Pastor enquanto ele se retorcia. Nenhum cainita ousava se aproximar de Saulot, embora o desejassem. As Bestas recuavam, instantaneamente, diante deste simples pensamento. Não eram chamas naturais, aquelas.

Do alto do Zigurate, o homem com máscara de coruja tinha os olhos fixos em Amon. O Filho de Iliyas podia jurar que a criatura sorria.

Subitamente, foram as sombras que interromperam a conflagração. Saulot jazia com os joelhos e mãos apoiados no chão, resistindo o máximo possível. O Zigurate parecia diminuir a intensidade das chamas emanadas quando Amon divisou Tepelit. O irmão se Sarosh, envolvidos em sombras que o protegiam, minimamente, do fogo, surgiu e retirou Saulot do meio das chamas, puxando-o em direção ao Abismo. Amon não pode deixar de notar, contudo, que mesmo a Escuridão parecia não ser párea para o Fogo Profano de Mashkan-Shappir. Ainda que tenha agido rápido, Tepelit foi atingido, seu corpo entrando em combustão velozmente antes de desaparecer, com Saulot, por entre a Escuridão.

E então, o Tempo parou novamente.

Amon sentiu, com uma agonia indescritível, sua pele arder e queimar de dentro para fora. Seus braços adquiriram, rapidamente, uma coloração acinzentada igual àquela que afligia Iliyas antes da morte. Sua mente não conseguia reagir, perdida em milhares de visões assombrosas que a invadiam. Faltou-lhe força nas pernas. Ajoelhou. Sentiu-se amparado por Anis, que exibia uma expressão de profundo horror ao observá-lo. Levou a mão esquerda à face. Estava seca, enrugada. Uma secreção pustulenta e fétida pingava de seus dedos. Amon tinha Sede, uma Sede inominável, a maior que havia sentido em séculos. Sua visão se tornava turva. Tudo estava escuro. Sentiu a mão de Anis envolvendo seu corpo, erguendo-o. Foi a ultima coisa que a sua já frágil consciência conseguiu perceber.
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Re: Mashkan-Shapir: Fortaleza da Dor.

em Seg Ago 20, 2018 8:13 pm
Do alto, com seu corpo transmutado na substância de outra existência que é o Abismo, Daharius sentia a crueldade percorrer-lhe o corpo enquanto os membros e vísceras dos inimigos alimentavam o vórtice que a tudo devorava abaixo dele.

Sentiu frio, mesmo sem mais o conhecer. Sentiu prazer durante a matança. Deixou a besta urrar dentro de si enquanto a escuridão que habita em sua alma preenchia seu pensar. Não havia mais a justiça naquele enfrentamento. Sarosh desejava apenas o sangue e a morte daqueles aos seus pés. O Filho de Laza deixara de ser o Arauto para se tornar o próprio Abismo: Cruel, insensato e sanguinário. As vozes que de lá provinham eram na verdade ecos de sua vontade assassina. Mataria. Mataria a todos.


"Você não é o mestre do Abismo. Ele não é sua ferramenta, tampouco você é seu escravo. Sua relação é uma: você é seu Guardião."

Enki.

Foram as palavras do sábio filho de Loz, em sua única e diversa forma de enxergar o todo, a trazê-lo de volta. Não se tornaria uma cópia do inimigo. Não seria como eles, não poderia deixar que o Abismo invadisse a sua vontade e quebrasse as barreiras guardadas pelo Arauto. Sim, era ele o Guardião e cabia a ele manter os portões fechados.



"Daharius"

Quando sua vontade se impôs sobre a escuridão e Sarosh olhou para o Abismo, ele o encarou de volta. Sentiu sua espinha esfriar intensamente e sua mente fraquejar. Lidava com forças muito maiores que o controle exercido por ele próprio e mesmo pelos poderes soberanos de Laza. O Abismo, em sua magnitude e mistério, deveria ser contido. O vórtice reduziu. Daharius fez um esforço monumental para conter o avanço daquela imensa mandíbula de trevas que devorava a terra, os inimigos e quaisquer corpos próximos a ela.

Em meio a sua luta solitária, pôde ver a grandiosidade de seus primos em ação. Terríveis, cada um a seu modo, destruíam o inimigo e as fundações da Fortaleza da Dor impiedosamente. Naquele momento o Arauto soube o quão horrenda seria a Jyhad. Enfrentariam-se, eternamente, em um infinito e negro mar de conflitos nas quais ondas de perdas impiedosas se abateriam sobre todos. Todos, sem exceção.

Naquele dia obscurecido por Laza, contudo, a obrigação dos presentes era extirpar daquelas terras a existência profana dos infernalistas. Seu corpo caiu ao chão, exausto e quando se ergueu foi em surpresa - e mesmo contemplação - daquela luz impressionante e ardente que alcançava os céus em um verde doentio.


"Pai"

Seus olhos escuros não mais alcançavam a face do Rei das Trevas, mas sua presença ainda mantinha o sol escondido sob o manto da escuridão. Raios dispersos começaram a brotar e foi notável a seu segundo filho que mesmo ele, o mais capaz dos guardiões, não sustentaria tamanho controle por muito mais tempo. Deveriam apressar-se.

A espada curva de trevas surgiu nas mãos de Sarosh e ele avançou, dilacerando as bestas e inimigos que o interpelavam. Estava determinado a encerrar o terror de Mashkan naquele dia. No entanto, uma nova visão o fez recuar.

Quando a terra expulsou mortais e cainitas, ergueu a espada em riste e seus tentáculos o circundaram, preparava-se para a carnificina que se seguiria. Estacou, porém, ao sentir que suas veias ardiam e quase explodiam diante da presença daquele ser.

Uma criança.

Era aterradora a sua presença. Daharius se viu incapaz, o poder das trevas que carrega regrediu de forma a impedí-lo da ação. Viu, angustiado, Gallod arder em chamas e cair como cinzas que logo foram erguidas pelo vento. A angústia transformou-se em ódio, embora seu corpo permanecesse imóvel. Seu olhar era fixo naquela criatura que - sem dúvidas - servia aos propósitos do inimigo. Tentou avançar, ainda era incapaz. Sentiu a terra arrastar-lhe para baixo e suas mãos sombrias a rasgaram buscando uma saída. Queria enfrentá-lo, destruí-lo, fazê-lo pagar.

Foi em vão. Assim como o surgimento da criança o incapacitou, a força que o puxava para a terra era absolutamente superior. Sabia, Daharius, que a antiga que não mais habitava Nippur os protegia. Sabia que, não fosse pela intervenção dela e dados os raios solares a atravessarem a já frágil nuvem de escuridão de Laza, todos pereceriam.

A odiou, ainda assim. A odiou pois não teve a cabeça daquela maldita criança em sua lâmina sombria.

Aguardou, impaciente, que o dia se fosse. Cerrou os dentes com tamanha força que sentiu o vitae escorrer de seus lábios. Mashkan sobreviveu ao primeiro dia e a noite traria um novo e sangrento embate. Quando o sol escondeu-se - naturalmente - nos confins da terra, o Arauto ergueu-se e divisou os seus em relação aos inimigos que também brotavam.

Estava sedento. Ainda não esgotava suas capacidades e a fome não lhe abatia, mas estava sedento. Sedento por sangue, morte e destruição do inimigo.

O abismo ganhou novamente a disputa com o guardião. Ergueu-se das trevas a sugar, espremer e se alimentar dos mortais que erguiam-se para confrontá-lo. Secou-os, as dezenas. Não precisava de seu sangue, o fazia por puro prazer e crueldade. Nada mais importava. Sua hesitação fez com que a batalha se estendesse e mais dos seus pagassem com a destruição. Prosseguiria, iria até os portões do inferno para destruir a todos.

O Arsenal sombrio cobriu seu corpo em placas firmes e translúcidas, endurecidas pela camada de sombras que lhe guardava das chamas infernais enquanto a espada alongava-se em sua mão direita uma vez mais. Os tentáculos apertavam, esmagavam e sugavam o sangue dos mortais a seu redor fortalecendo-o, transferindo o vitae para que estivesse pronto para o embate decisivo.

Este, o conflito final, não se daria diante daqueles vampiros sem liderança e mortais diante de si. Ergueu uma das mãos sombrias alongadas pelas trevas de sua armadura e diversos pequenos globos surgiram a seu redor. Daharius empregava um de seus rituais místicos, fazendo com que dezenas de olhos sombrios levitassem e surgissem nas sombras de Mashkan Shappir.

Através deles, viu as ruínas da cidade. O sangue manchando o solo e seus aliados e os inimigos no interior. Um, e apenas um, dragou sua atenção.

Lá estava a criatura. O corpo minúsculo e decrépito, horrendo como as criaturas infernais, a caminhar por Mashkan. Vislumbrou o maldito a levar a morte aos seus. Seria o próprio Nergal? Não importava. Aquilo, seja o que for, havia destruído seus aliados e marchado contra os seus. Era ele um inimigo com potencial destrutivo que deveria ser extirpado.

Caminhou e as sombras o envolveram. Divisou uma das ruínas dos zigurates caídos, mais alto que o caminhar daquele ser e saltou com a espada em riste, circundado por seus tentáculos sombrios, em direção à ela. A destruiria impiedosamente. O Abismo clamava por aquele sangue.


"Daharius"

Ouviu-a novamente. A voz rouca e sonolenta. Aquela que provinha da mais profunda escuridão. O que lhe diria? Irrelevante. Nesta noite, apenas a destruição possui relevância. No ar, prestes a destruí-la, sua visão periférica o permitiu enxergar Haqim - o Grande Caçador - ao lado daquele ser maligno. Havia um dos seus caído perante aquela criatura? Estava de pé, o antigo. O que significava? Sabia, Daharius Sarosh, que o inimigo possuía dons de controle sobre os demais. Impossível...o Caçador não seria uma marionete daquela forma.

Não poderia arriscar. Só teria uma chance de destruí-lo de uma única vez em meio ao conflito. Havia experimentado o seu poder e o silêncio da escuridão era sua arma na investida que poderia destruir aquela criatura que poderia ser o próprio Nergal.

"Não o enfrentem sozinhos, apenas em grupos"

Lembrou-se das palavras dos antigos, na reunião estratégica, antes da marcha final. Sorriu. Imprudência sempre marcou suas ações em prol de uma causa maior que ele próprio. Cairia, com honra, se necessário fosse. Mas o maldito Nergal - ou servo deste - conheceria o fio de sua espada e o peso de seus tentáculos antes da destruição final.

Daharius saltou do zigurate em ruínas erguendo a espada e aproveitando-se do movimento para golpear a maldita criança de cima para baixo, com a maior força que possuir, bombeando seu sangue para tornar seus braços mais poderosos. Concomitantemente, os tentáculos sombrios o golpeariam com a força esmagadora e cortante das trevas fortalecidas pelo místico aço negro e a força sombria que a potência de seu sangue lhes conferia. Seria um ataque sem aviso, poderoso e cruel, como o abismo que percorre o corpo e a alma de Daharius Sarosh.


Disciplinas:
Sarosh alimentou-se dos mortais inimigos e, ao longo dos turnos, ativou as seguintes disciplinas.


Arsenal do Abismo - Armadura e espada. Tenebrosidade na absorção e no dano (7). ( Manipulação 6 + Ofícios 3 com dificuldade 6) - 2 pts de sangue

Armadura da escuridão - protege do sol e do fogo com tenebrosidade . ( Testa FV 10 contra dificuldade 7) - 2 pts de sangue

Aço Negro - Tentáculos convocados que possuem como características o dobro de tenebrosidade (14). Fortaleceu-os com Força sombria, adicionando potência ao dano. ( Testa Manipulação 6 + Ocultismo 7 com dificuldade 6) - 2 pts de sangue

Ao longo dos turnos citados, aumenta sua destreza em 3, sua força em 6 e seu vigor em 3. Fica com os atributos físicos em 9 pelo resto da cena.

Gasto total de sangue - 18
( considerando que o gasto foi depois de se alimentar dos mortais, sobram 22)





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Re: Mashkan-Shapir: Fortaleza da Dor.

em Ter Ago 21, 2018 4:47 am
Testes de Ataque e Dano:
Sarosh dispõe de Destreza 9 e Armas Brancas 6 (+1), além de Tenebrosidade 7, com um MI de 2. Deve superar um MS de 2. Ur-Shulgi dispõe de Destreza 10, Briga 6 e uma Rapidez de 5, sem MI, dado o ataque surpresa. Sarosh acerta, causando dois níveis adicionais de dano.

O dano de Sarosh é determinado por Força 9 +2 + 8 (P 5x1.5) + 5 (T), que é igual a 24. A absorção de Ur-Shulgi é determinada por Vigor 10 + Fortitude 7. Ur-Shulgi recebe, no total, 7 níveis de Dano Letal.

O Arauto salta do topo do Zigurate, espada em mãos, precipitando-se em grande velocidade em direção da criança que, ao lado de Haqim, ainda mantinha a mão estendida em direção ao Zigurate central. Ainda que não tenha olhos, mas somente duas órbitas escuras e queimadas, o cainita olha para o alto, na direção do ataque de Sarosh. Recua a mão estendida e cruza os dois braços diante do peito e da face, numa tentativa de se proteger do impacto do ataque do Arauto do Abismo.
¨
Mas não foi o suficiente.

O impacto do golpe é imenso. A criança é arremessada para trás, rolando no chão seco. Um rastro de Sangue espesso banhou o chão, escapando de um profundo corte na altura do antebraço. Parte da lâmina havia atingido, também, o ventre queimado da Criança, e o Sangue verteu também dali.

Um zumbido alto podia ser sentido naquele momento. O Zigurate tornou a brilhar em um tom esverdeado e, ao fazê-lo, forçou o recuo dos cainitas que estavam ao seu redor, mesmo Haqim, cujos pés arrastaram no chão na medida em que ele tentava manter sua posição. Daharius foi impulsionado em direção ao centro de Mashkan-Shappir, afastando-se por alguns metros do local onde havia pousado. O som da batalha no lado de fora alcançou seus ouvidos, uma voz feminina conclamava os cainitas de Nippur e seus seguidores mortais a fazer um esforço final. Havia fumaça e ruínas no centro da cidade.

A Criança, no entanto, se erguia. Seus ferimentos se fechavam a uma velocidade impressionante. Nada falou, apenas caminhou em direção ao Zigurate, estendendo novamente sua mão esquerda na direção da construção. Parecia não enxergar Daharius, ou não se importar com ele, ao menos não naquele momento. Seus passos eram arrastados, pesados, como se grandes correntes limitassem seu movimento. Podiam-se ouvir sussurros indistintos que deixavam sua boca. Não eram audíveis, mas podiam ser sentidos dentro dos ossos dos presentes. Emanava uma aura levemente faiscante. Haqim direcionou um olhar para Sarosh, levantando a mão direita e pedindo-lhe que detivesse seus ataques, sem expressar, porém, nenhuma palavra. Parecia extremamente debilitado. Não esperou a reação do Arauto, mas voltou sua atenção ao Zigurate. Ambos figuravam de costas para Sarosh.

Foi possível, porém, poucas frases dita pela Criança em um idioma compreensível. Dirigia-se a Haqim. A voz era baixa, infantil, mas carregada de um tom estranho, alienígena. Era como se outra voz se encondesse atrás da primeira.

- Eu recomeço. Alerto, Haqim, que o teu Inimigo escapa por entre teus dedos.

Daharius... Eu posso te ver agora
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Re: Mashkan-Shapir: Fortaleza da Dor.

em Ter Ago 21, 2018 11:22 am
Ao ser lançado para trás pela puljante e desconhecida força que emanava do Zigurate, o Arauto cravou a espada sombria no solo buscando firmar-se sobre ele.

Sentiu o ar aquiescer em seu entorno. Algo antinatural e profano se alastrava do epicentro da construção ao longe. Inquietou-se ao notar que aquele ser horrendo que habitava um corpo infantil tentava conter, de alguma forma, o que quer que emanava do zigurate.

Incerto e vacilante, Sarosh não compreendia. Aquela criatura não poderia ser um aliado visto que marchou junto ao inimigo e destruiu Gallod impiedosamente. Quem ou o quê ele era?

Pensou em destruí-lo, uma vez mais e foi interrompido pelo gesto do Grande Caçador. Haqim insinuava que não deveria atacar. Aquilo, em sua presença fúnebre, ergueu a voz para o antigo como se o auxiliasse. Daharius permanecia imerso em dúvidas, mas optou por depositar sua confiança na ação de Haqim, Pai de Ya'hub.

Manteve a espada em riste e dedicou-se a proteger o antigo de eventuais atacantes, assim como seus tentáculos os circundaram mantendo-os focados em sua tarefa e livres de interferências externas.

Estava, ainda sim, atento à criança. Não hesitaria em atacá-la uma vez mais se suas ações demonstrassem agressividade para com os seus. A dispor do momento necessário, não tardaria o momento no qual a julgaria pela destruição do filho de Loz.

Em meio ao turbilhão de acontecimentos, a voz se fez presente uma vez mais. Concentrou-se, fitou as sombras sob seus pés e a permitiu entrar. Estava decido a compreender o que o aflingia. Mergulhou no abismo de seu pensar e sussurrou.


- Apresente-se e permita-me vê-lo, também. E digas o que queres.
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Re: Mashkan-Shapir: Fortaleza da Dor.

em Ter Ago 21, 2018 1:39 pm
Seus braços se moviam, velozes, afastando todo e qualquer Inimigo que se aproximasse dele ou de Haqim. Não eram muito, porém, já que a maioria ainda se encontrava do lado de fora, onde seus irmãos e primos opunham resistência.

Mas eu estou aqui... Daharius... O que há escondido em teu reflexo... Daharius Sarosh... Eu te vejo, agora.

Diante do Arauto, a Criança continuava a desafiar a defesa restaurada de Mashkan-Shappir. O rosto estava girado em direção à cidade, com os olhos que não estavam ali fixos no granito do Zigurate. Sarosh percebeu que Haqim tinha os olhos fechados, mas seus dedos se agitavam lentamente, como se estivesse recolhendo fios invisíveis no ar. O céu, que até aquele momento era aberto e escuro, começava a se cobrir de nuvens acinzentadas. Soprava um vento estranho que carregava uma forte sensação de angústia.

Ela está... Lá dentro... Ela chora, chora... VOCÊ QUER MESMO ME VER, DAHARIUS?

Fez-se silêncio. Então, gritos. Inúmeros, incontáveis gritos graves e agudos, que pareciam vir das paredes, do chão, dos muros. Não. Eram as pedras que gritavam, gritavam como se estivessem sendo torturadas monstruosamente. Daharius sentiu cheiro de Sangue. Mas não era o Sangue que estava espalhado pelo campo de batalha. Vinha do céu. Chovia. Chovia Sangue rubro e espesso, que escorria, lentamente, pela face de Daharius e pela pele escura de Haqim. A Criança, porém, não se molhava.

Um zunido fino e crescente. Depois, um som surdo, como se uma massa gigantesca caísse no chão. O Zigurate tremeu, levemente, deixando que a poeira caísse sobre a cidade.

Um segundo zunido, mais grave. Outro som surdo. Estou aqui, Daharius.

Era Tubalcain.

Tubalcain emergiu do Abismo, lançando-se sobre Sarosh. Agarrou os ombros do Arauto com as duas mãos, e era tão forte e tão veloz que conseguiu empurrar Sarosh em direção ao Zigurate antes que este pudesse reagir. Chocaram-se contra o muro que, diante do peso e da força, abriu-se em uma passagem que portava ao interno da construção. Tubalcain caiu sobre Sarosh, imobilizando-o contra o chão. Seus olhos eram orbes escuras, com um leve brilho azul. Sua boca estava aberta, presas expostas. Salivava sangue, que pingava sobre a face de Sarosh. Gritava, alto e desesperadamente encarando seu irmão.

ELA ESTÁ AQUI! ESTÁ AQUI!

Com uma certa habilidade, Daharius conseguiu desvencilhar-se de seu irmão, rolando no chão para a parte interna do Zigurate e levantando-se em seguida. Do lado de fora, atrás de Tubalcain, ainda chovia Sangue. A Criança se afastava do Zigurate, enquanto Haqim não estava mais visível. Sarosh estava de pé, diante de um Tubalcain arqueado, ofegante e que chorava lágrimas de Sangue.
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Re: Mashkan-Shapir: Fortaleza da Dor.

em Ter Ago 21, 2018 1:55 pm
Lidava com forças que desconhecia. Isto, muito para além das bestiais criaturas que enfrentou, o assustava. Mesmo o firme segundo filho de Laza perecia quando o desconhecido se avolumava diante de si, pois, a dúvida e o receio do que não se conhece é o maior e mais primal de todos os medos e ele existe em todas as criaturas sencientes.

A chuva rubra tocou-lhe a face enquanto a voz ecoava em sua mente. Mente? Não possuía a certeza se a ouvia ou apenas sentia. Era Mashkan-Shapir, a própria Fortaleza da Dor, a fazer ecoar seus lamúrios e gritos em sua alma. Ou seria um eco do abismo e de tudo que lá contém?

Tentava conjecturar as possibilidades quando os zunidos começaram. O zigurate tremulou e a poeira espalhou-se rapidamente, um passo para trás e a mão erguida diante dos olhos, buscando ver além. Contudo, foi de seu flanco que Tubalcain lançou-se contra ele. O choque contra a construção o fez notar o tamanho da força que seu irmão - se é que ali era o seu irmão - possuía naquele momento. Rolou, exasperado, para longe da criatura que se assemelhava com - ou vestia - o corpo de Tubalcain.

Seu primeiro reflexo foi comandar que os braços de Ahriman que o circundavam no exterior do zigurate surgissem sob os pés daquele ser, buscando segurá-lo e comprimi-lo ao chão. Tubalcain havia perecido para a sua própria besta? Mashkan, Nergal ou um dos seus o controlava? Sarosh não tinha certeza de nada a seu redor, apenas buscava imobilizar seu irmão de forma que um confronto físico não se estendesse, pois ferí-lo não era uma opção.

Ouvia os gritos. Ela? Quem era ela? Decidiu impôr-se. Abriu os abraços diante de Tubalcain e gritou, com toda a força que poderia fazer para que sua voz ecoasse neste e no outro mundo, aqui e para dentro do abismo.


- DO QUE TENS MEDO!? POR QUE USAS O MEU IRMÃO!? EU A CONVOQUEI, EU PERMITI QUE TU ENTRASTES! ABANDONE-O E CÁ ESTOU. VENHA! MOSTRE-ME SE FOR CAPAZ!

Os braços abertos eram um convite. Um convite a seu corpo, sua alma e para a escuridão abissal que reside em seu coração.
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Re: Mashkan-Shapir: Fortaleza da Dor.

em Ter Ago 21, 2018 2:28 pm
Terminou de gritar e viu, contra a sua vontade, que os tentáculos que prendiam Tubalcain ao solo se libertaram, contra a sua vontade. Em um piscar de olhos, sentiu os próprios tornozelos sendo envolvidos pelos seus tentáculos. Fixaram-no no chão, exatamente como havia comandado que fizessem com Tubalcain. Este último ria, ria histericamente.

- VOCÊ ACHA QUE PODE ME AFETAR? EU SOU O ABISMO!

Tubalcain levou as duas mãos à cabeça. Depois, fixou o olhar em Sarosh.

- Sarosh, ouça. Nergal está no subsolo. Ele escapa. Porta consigo uma pedra manchadaaaaAAAAHHH!

- VOCÊ PERTENCE A MIM, DAHARIUS SAROSH. A MIM!

Dos olhos de Tubalcain, algo parecido como piche negro escorria. Era quente, excessivamente quente, e queimava a sua pele branca. Sarosh podia ouvir o chiado. Não conseguia, porém, se mover.

Foi então que as sombras se condensaram em um canto do Zigurate. Um grande tentáculo se prolongou delas, envolvendo Tubalcain e puxando-o para dentro do Abismo. Ao mesmo tempo, seu Senhor saltava para dentro da sala, ainda coberto de terra úmida.

Laza olhou para Sarosh, uma expressão de extrema urgência nos seus olhos. Sarosh jamais o havia visto assim.

- Não se preocupe, Tubal estará bem. Vejo que você conheceu Ahriman. Falaremos sobre isto depois. Agora, precisamos encontrar Nergal.
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Re: Mashkan-Shapir: Fortaleza da Dor.

em Qua Ago 22, 2018 5:39 am
*Enki .*

*Vê o fogo consumindo Mashkan-Shapir, vê a cidade desmoronar sob seu próprio peso, após o ataque conjunto da fúria de Kupala e da velocidade empregada por Amon, algo que nem mesmo sua Visão, que estava em todos os lugares ao mesmo tempo, conseguia acompanhar. E vê o zigurate central, teimando contra todo o caos à sua volta.*

*Vê toda a força de Nipur lançada sobre a planície, uma destruição que somente o Criador Acima pudesse igualar. Vê Nergal, a Grande Sombra, a Coruja, e sabia que em algum momento teria de enfrentá-lo. Da última vez que o havia encontrado, firmara seus pés no chão e resistira ao filho de Saulot, e isso lhe rendeu um rosto desfigurado e carne dilacerada. Como seria da segunda vez?*

*Vê Amon, e não vê mais. O sábio fez algo que salvou a si, e sua irmã, da morte iminente.*

*E vê a Criança.*

*Enki sente.*

*Sente a agonia inimaginável correr por suas veias, a dor desencadeando um medo com que abandone seu corpo físico e serpenteie a planície por alguns metros como uma poça de puro sangue, até que recobra a consciência e se reforma. Ele se recupera quando vê Gallod cair à sua frente.*

*Ele estica suas mãos em desespero, primeiro para o corpo flamejante do irmão, sem se importar com queimaduras ou medo, e depois pega suas cinzas tentando, sem sucesso, juntá-las como se isso fosse trazer seu irmão de volta, até que o vento se encarrega de espalhá-las.*


-Ah, meu doce irmão… Você nunca irá voar, mas agora finalmente está livre… Mas quem vai me ensinar? Quem vai me limpar quando estiver impuro e não perceber? Quem vai me mostrar os mistérios do mundo? A quem vou contar meus sonhos? Por que não teve filhos para que eu os adotasse como meus? Como poderei seguir em frente quando olhar para trás e ver que você não está lá?

*Estranhamente, o medo, raiva e sofrimento não despertam a Besta dentro de si. Pelo contrário, Enki sente uma clareza como nunca antes. Ele olha o campo de batalha novamente, vê a fúria de Sarosh atingir a Criança, e entende três coisas:*

*Seria a Criança que derrubaria Mashkan-Shapir. Haqim havia feito algo que lhe transformara de corpo e alma, e o poder contido dentro dela, imenso, pavoroso e desconhecido, agora era direcionado contra a Cidadela da Dor.*

*Enki também entendeu que nem ele nem a Criança morreriam naquela noite.Ele possuía toda uma eternidade para planejar, para odiar e para se vingar, mas o que estava à sua frente precisava ser resolvido agora.*

*E acima de tudo, entendeu pela primeira vez em seus séculos que os Antigos não eram invencíveis. Ilyas mostrou a todos que poderiam morrer, mas agora via que podiam ser derrotados, expostos, mesmo contra a própria vontade.*

*O campo de batalha estava caótico e sem controle. Apenas Laodice, Senhor dos Mortos lá estava representando os Antigos e ainda assim ele parecia estranhamente vulnerável de frente à horda. Seus filhos não estavam ali para protegê-lo, e todos os outros lutavam por suas próprias existências. O fardo cabia a ele. E, por sorte, Enki tinha uma imensa vontade de derramar sangue.*

*Ele se aproxima de seu tio, e o olha por uns instantes. Curioso como se sentia distante de alguém tão sábio. Laodice deveria ser um dos Quatro ao guardar os Arcanjos, mas ao mesmo tempo… sente que não seria apropriado. Sem dúvida, ele e seus filhos poderiam criar as melhores defesas imagináveis, talvez uma defesa que fizesse o Véu ser permanente, e suas preocupações extintas, mas ao mesmo tempo que Enki sabe que isso é verdade, também sabe que o mais provável é que o tio levantasse as próprias proteções por sentir algum tipo de culpa em sua mente, e condenasse a todos. Era provável que fizesse isso naquele momento, e isso não podia ser permitido.*

*Agora Enki permanece entre o Senhor dos Mortos e o que restava da horda de Mashkan-Shapir, mas não era mais o Moldador que estava de pé. Era uma criatura saída de um pesadelo, a parte inferior do corpo uma série de pernas blindadas por uma armadura de osso, como um grande caranguejo, o torso forte e desnudo segurando uma lança grande como um cajado, e vê a todos com seu rosto. E seu rosto é um horror em particular - ao longo de um pescoço gigantesco, como uma serpente ou enguia, o rosto que mira as hordas da Cidadela da Dor é o de Gashan. O rosto esmagado e triturado do ex-escravo que encarava seus algozes, um olho afundado no crânio como que por uma pedra e o outro mirando a todos, brilhando com uma luz vermelha. Sem nenhuma palavra, o Moldador se põe em frente ao seu tio e traça uma linha na areia com sua lança e a bate no chão. Estava pronto.*


Spoiler:
Uso de Sangue e Disciplinas:

Enki assume sua forma de Zulo enquanto anda até Laodice e ao lançar seu desafio ao exército inimigo, gasta dez Pontos de Sangue, 3 em Força e Vigor e 4 em Destreza. Somados à forma de Zulo, Enki agora possui Força 10, Destreza 12 e Vigor 10. Caso seja necessário, Enki também criou uma nova lança feita de ossos com seu Arsenal Corporal.
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Re: Mashkan-Shapir: Fortaleza da Dor.

em Qua Ago 22, 2018 6:08 am
Sim, estava pronto.

Viu, enquanto se transformava em Pesadelo, duas coisas.

A primeira era que Laodice, por alguma razão, o protegia. Laodice era fraco fisicamente, com braços e pernas frágeis. Era o mais velho, em idade mortal, dos Antediluvianos.

Mas Laodice era um gigante.

Seu corpo ignorava completamente os ataques dos cainitas inimigos, que tentavam alcançar Enki com suas espadas de bronze e mãos flamejantes como o Submundo. Laodice protegia não só Enki. Protegia seus irmãos que ainda dormiam. Ventru e Loz, que estavam, ainda, supultados naquela terra, protegendo-se do amanhecer. Laodice respondia aos inimigos com uma imensa gentileza: para cada espada que se rompia diante de sua pela absurdamente branca, retribuia com um toque ligeiro. E os Inimigos se desfaziam em cinzas escuras, úmidas e borbulhantes.

O Antedlivuano não atacava. Apenas reagia. Era irremovível do lugar que ocupava. De início, tinha uma tristeza estampada na face mas, pouco a pouco, tal expressão mudou, tornando-se algo semelhante ao prazer. Nem mesmo Laodice, estóico como era, seria indiferente ao prazer de destruir a carne do Inimigo. Mas Enki sentiu, no ar, gritos muito mais profundos que aqueles que os inimigos emitiam quando tocados por Laodice. Eram gritos que ecoavam em outros mundos. Com seu toque gentil, o Pai de Japhet e Caias destruía a alma daqueles que tentavam ferir seus irmãos e sobrinhos.

Tomou a frente de Laodice, quando sua metamorfose estava completa. Moveu-se sobre várias pernas, um corpo grande e monstruoso que deveria ser desajeitado, mas que era extremamente funcional. Diante daquela visão aterrorizante, o inimigo recuou, hesitou. E Enki notou a segunda coisa.

Um cainita desconhecido abria caminho, vindo do Leste, por dentre as hordas de Nippur. No caos da batalha a sua presença passava despercebida. Mas não para Enki, que viu, com o Olho de Kupala, a ilusão que cobria as formas e a face do cainita cair. Era negro e alto, forte e imponente, com tatuagens no corpo e na cabeça sem cabelos. Seus olhos eram de um castanho avermelhado. Em suas mãos, as mesmas chamas que se prolongavam das mãos do Inimigo, as quais usava para incinerá-los com uma velocidade estonteante. O Olho, porém, não o reconhecia como Inimigo. E Enki teve a intuição de que se tratava de Moloch, Senhor de Assur. O recém chegado se dirigia ao centro de Mashkan-Shappir, onde resistia o Zigurate.

Não conseguia, porém, mover-se com facilidade, já que precisava responder aos ataques das hostes de Mashkan. E se tornava cada vez mais difícil. Enki percebeu que, na ausência de Ventru, as hostes de Nippur pareciam confusas e desnorteadas. Mas não demorou muito mais tempo. Em meio à terra que subitamente elevou-se sobre o campo de batalha, como se algo implodisse no subsolo, Ventru, Rei dos Reis, se reergueu. Tinha já sua espada em mãos. O efeito que causava era natural, instantâneo. À sua visão, Nippur se reorganizava quase que automaticamente, sem que ele sequer tivesse dado uma ordem. Cainitas e mortais formaram, novamente, uma única força conjunta que se lançou sobre o Inimigo.

A visão de Ventru distraiu tanto a Enki que ele só notou que seu Senhor também havia se erguido quando ele tocou a couraça de ossos que compunham suas pernas de carangueijo.

- Nós não temos o que fazer aqui. Nossa batalha é contra Nergal, no Zigurate, ao lado de Laza e Daharius.

Nada mais disse. Avançou em direção ao Zigurate, os inimigos se desfazendo em cinzas diante de seus passos. Enki o acompanhou, abrindo caminho entre os que ousavam avan4ar sobre ele, mutilando-os com sua lança de osso. Via, mais adiante, Moloch que se aproximava do Zigurate. Notou como Loz parecia não percebê-lo.

Num dos lados do Zigurate, havia um enorme buraco que dava acesso a uma sala em penumbra. Viu, de longe, quando Laza, Rei da Escuridão, deixou o Abismo, indo ao encontro de Sarosh, que também estava lá dentro. Entraram pela passagem, encontrando o outro Antediluviano e seu Filho. Além dos quatro, Moloch também estava ali. Visível, e sem disfarces.

Enki ouvia, porém, um choro. Não era um choro de tristeza. Era de desespero, de ódio e impotência. Um choro contínuo que féria seus ouvidos e fazia estremecer sua alma.
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Re: Mashkan-Shapir: Fortaleza da Dor.

em Qua Ago 22, 2018 8:23 am
Ahriman.

O Místico estacou por alguns instantes, absorto da guerra a seu redor. Era muito para racionalizar em tão pouco tempo. Aquela terra amaldiçoada, cujas criaturas adoradas são profanas e residem em planos outros - talvez até mesmo estejam entre as vozes infindáveis que murmuram seu sofrimento no abismo - havia aberto a passagem de tal forma para que o próprio Ahriman pudesse cruzá-la?

Ou teria sido o esforço monumental de Laza e seus filhos a cobrirem o sol que permitiu-o escapar, dando-lhe ainda mais poder deste lado?

Ahriman.

Daharius sorriu, incrédulo, sobre o quão ignorante é no uso de suas próprias habilidades. Dedicou séculos de sua existência para dominá-las e empregá-las com maestria, ao menos próxima, do mais antigo e, ainda assim, não compreendia de fato quem ou o que é aquele que nomeia parte considerável das habilidades místicas do abismo.

Seu conhecimento sobre as teorias do Abismo era vasto, somente superado pelo próprio Laza e por Tepelit. Ainda sim, desconhecia a origem e natureza real de Ahriman. Confabulava com seu irmão místico sobre o abismo e sua antiguidade. O viés que mais o apetecia era da existência primordial da escuridão antes que o Deus vingativo ordenasse que a luz existisse no firmamento. Ahriman seria, então, o próprio abismo? Ou uma criatura que dele se alimenta? Dataria do início dos tempos? Era muito, mas muito, para se analisar.

Não era o momento. Estava sendo tolo.

Era um tolo, Daharius Sarosh, um tolo que tinha muito a aprender. Deu-se conta disso ao golpear a criança maldita que reduziu Gallod às cinzas e que, na verdade, auxiliava Haqim na derrocada do Zigurate e de suas proteções mágicas. Era um tolo pois combatia em uma guerra na qual o inimigo possui um Nome e uma Face e, mesmo assim, ele que deveria ser um dos líderes do enfrentamento nada sabia sobre seu inimigo. Se cruzasse com Nergal nas ruas de Mashkan, o trataria como qualquer outro oponente, por desconhecê-lo.

Não lhe cabia muito mais além de prosseguir. As palavras de Laza o trouxeram de volta para a incessante busca por um fim daquele conflito. As sombras o envolveram, brotando de seus olhos, e seu corpo se desfez esvoaçante no interior do Zigurate enquanto a voz de Daharius se fazia ouvir.


- Abaixo de nossos pés.

Sem nada mais dizer ou aguardar, a massa sombria adentrou a terra atravessando-a em busca do inimigo que fugia abaixo de si. Sabia, contudo, que naquela forma seria ainda mais vulnerável às chamas do inimigo e, por isso, buscou-o por entre a terra mantendo-se escondido na escuridão dela. Seu intuito inicial era localizá-lo.
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Re: Mashkan-Shapir: Fortaleza da Dor.

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