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Backgrounds

em Ter Nov 06, 2018 5:53 pm
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Re: Backgrounds

em Ter Nov 06, 2018 6:19 pm
Jogador: Pedro Augusto
Personagem: Xavier Saavedra, Scion d'A Morrigan



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Santiago de Compostela, Galícia, 1848

Querido Xavier,

Espero que esta carta lhe alcance bem. A notícia de que fostes recentemente promovido à Comandante da Guardia correu aqui e em A Coruña. Estamos todos muito orgulhosos de ti. Seu pai, ao lado do Senhor, certamente sorri e lhe abençoa.

Conforme me pediu em sua última mensagem, estou lhe enviando o diário do falecido Padre Brian. Também atendendo ao seu pedido, destaquei alguns trechos que me chamaram a atenção. Foi a primeira vez que tive acesso aos escritos pessoais do nosso querido padre, e me impressionaram os detalhes que ele dava a alguns acontecimentos.

Sei que ele muito o amava, Xavier. E, tal como você poderá ver, era um dos poucos que nunca reprovou a busca pela identidade de sua mãe. Infelizmente, devo adiantar que não encontrei nada que você já não saiba.

Todos nós ainda estamos tristes com a partida de Brian. De fato, ele já estava muito velho e sua saúde era mais do que vacilante. No entanto, não sei se sabes, mas ele veio a falecer imediatamente após completar sua última peregrinação pelo caminho. Brian nos deixou aos pés do altar da Basílica. Não me resta nenhuma dúvida de que este foi mais um dos milagres de Santiago.

Espero, de coração, que Nossa Senhora do Caminho continue iluminando sua estrada e lhe provendo o amor que sempre lhe deu. Sei que és um devoto, ainda que à sua maneira. Sei também que o amor materno que julgas lhe faltar sempre esteve presente nas bençãos da Virgem.

De sua sempre querida,

Mariana Villafínez


Do diário do Padre Brian Quinn

A Coruña, Galícia, 1809


Um fato curioso ocorreu esta noite. O Señor Fernando de Saavedra, comandante de uma das Santa Irmandades da região, bateu em minha porta. Ele estava ensopado pela chuva que caia, com um olhar transtornado. Em seus braços carregava um bebê recém-nascido. Disse-me que era seu filho de sangue e que a mãe da criança não teria condições de cuidá-lo. Por um momento e em silêncio nos olhamos. Eu sentia que Fernando me procurara por que pensou, inicialmente, em me entregar aquele bebê. Mas algo aconteceu. O modo como o homem-de-armas segurava o próprio filho não era o de alguém que teria coragem de entrega-lo. Ao contrário, era a convicção de alguém que teria a coragem de criar uma criança, a despeito de todas as dificuldades. Fernando sorriu e me disse que seu filho se chamaria Xavier, como o avô. Ele apenas me pediu que o ajudasse a criação-lo e que, caso o pior acontecesse, o herdeiro de Saavedra teria alguém para olhar por ele.

Fernando de Saavedra é um homem bruto e violento. Não é alguém de muita instrução. Mas sei que tem o coração no lugar certo. Foi embrutecido pelo próprio ofício da família e pelo modo como escolheu proteger os peregrinos que caminham até Santiago. É um devoto, apesar de tudo. O pequeno Xavier estará em boas mãos.

Quando peguei o bebê em meus braços, notei um pingente em um cordão de prata. Era a figura de uma mulher, coberta por um manto que lhe escondia a face. Perguntei o que era aquilo e Fernando prontamente respondeu que era o único presente da mãe da criança. Entendi que eu não saberia mais do que aquilo e deixei que pai e filho partissem para sua casa.

A Coruña, Galícia, 1816

O pequeno Xavier Saavedra é uma das crianças mais peculiares dessa região. De natureza inquisidora, ele segue a todos que lhe despertam interesse, conhecidos ou desconhecidos, e os bombardeia com perguntas. Ele quer saber quem são, para onde vão, de onde vieram e o que fazem. Por outro lado, é capaz de ficar horas em silêncio, contemplando a natureza e o movimento da cidade. Dei-lhe acesso a minha biblioteca. Como eu já imaginava, tendo em vista que aprendeu a ler muito rápido, Xavier tornou-se um leitor ávido.

No entanto, é impossível não notar uma certa tristeza nessa criança. Possuí poucos amigos e é muito introspectivo. Afeiçou-se apenas ao pai, à avó e a mim, mas não é afeito à longas conversas. A única criança com quem consegue brincar e ficar próximo é Mariana, uma das órfãs cuidada pelas irmãs da paróquia.

Suponho que a tristeza seja resultado da ausência de uma mãe, mas Fernando se recusa a falar sobre o assunto. Ele chega a ficar agressivo quando eu, Xavier ou qualquer outro pergunta algo nesse sentido. Estranho.

A Coruña, Galícia, 1818

Após a missa de domingo, Xavier me procurou. Um pouco tímido, conversávamos sobre as aves da região enquanto caminhávamos pelo cemitério. O garoto disse que seus únicos irmãos são os corvos e que fala bastante com eles. Nunca se sente sozinho pois os pássaros negros lhe fazem companhia. Como pode ser fértil a mente de uma criança! Estávamos ali e Xavier me perguntava sobre as pessoas enterradas nas lápides. Em determinado momento, ele cessou com as perguntas e ficou em silêncio, até que me inquiriu sobre sua mãe. A pergunta me entristeceu profundamente, pois não havia nada que eu pudesse responder.

Por fim, eu lhe disse que nenhuma pessoa neste mundo está órfã, pois sempre teremos a Deus como Pai. E que, caso precise de uma mãe, a Virgem Maria sempre o acolheria em seus braços.

A Coruña, Galícia, 1819

Encontrei com Xavier na capela de Nossa Senhora do Caminho. O garoto estava sozinho e rezando. Fiquei feliz que minhas palavras serviram para acolhe-lo de alguma forma. Observei-o por alguns instantes e reparei que, apesar de rezar, Xavier passava a maior parte do tempo na capela literalmente conversando com a Virgem. Ele fala sobre o que viu, sobre o que fez, sobre qualquer coisa que falaria com uma mãe.

Que assim seja, contanto que encontre paz.

A Coruña, Galícia, 1819

Xavier veio correndo hoje pela manhã, para me mostrar algo. Enquanto caminhava rotineiramente com sua avó em um dos castros região, ele encontrou um pingente perdido. Tratava-se de um pequeno corvo talhado em prata. O garoto disse que um dos seus “irmãos” havia deixado cair e me perguntou se seria pecado tomar para si. Eu não pude deixar de gargalhar! Respondi, para alívio de Xavier, que não havia pecado em aceitar presentes de amigos e da família.

A Coruña, Galícia, 1820

Ao passar pela casa dos Saavedra, pude ver Xavier treinando com o pai e o avô. Apesar de franzino, é impossível negar que o jovem tem a habilidade de um homem de armas. Não é forte, porém é ágil. Seu avô, em particular, o submete a um tratamento muito duro, incluindo agressões físicas para que saiba “como aguentar um golpe ou morrer dignamente”.

Nunca imaginei que aquela criança quieta e curiosa, sempre afeita aos livros, poderia seguir por este caminho.

A Coruña, Galícia, 1820

Um milagre, só pode ser! Encontrei com Xavier saindo de minha biblioteca e ele imediatamente me cumprimentou com um “ní fraca mé le fada thú”! Perguntei onde ele havia aprendido minha língua mãe, ao que ele respondeu com um singelo “lendo”! Eu já havia me esquecido que trouxe um pequeno acervo de Dublin, logo após me mudar para cá. Enfim, alguém encontrou alguma utilidade para aquilo…

A Coruña, Galícia, 1821

A violência vem aumentando na região. Bandoleiros atacam peregrinos indefesos e não têm nenhum escrúpulo em matar e torturar suas vítimas. As Santa Irmandades fazem o que podem, mas muitas começam a se importar mais com o dinheiro que recebem para proteger viajantes que podem pagar. Ouvi dizer que algumas vêm inclusive se aliando aos criminosos para garantir mais lucros.

A Irmandade de Fernando e de seu pai vêm recendo olhares de desconfiança da população. Todos começam a achar que esses homens portando armas são parte do problema e não oferecem nenhuma solução.

A Coruña, Galícia, 1821

Fernando Saavedra me procurou. Estava preocupado. Disse para não confiarmos em mais nenhuma Santa Irmandade que viesse até nós e temia pela própria vida e de seu pai. Ele não me deu muitos detalhes, mas apenas pediu que eu reforçasse minha promessa.

Xavier já é quase um homem, mas eu cuidarei dele caso algo aconteça com seu pai.

A Coruña, Galícia, 1821

O velho Saavedra e seu filho Fernando estão desaparecidos há dois dias. Eles saíram à cavalo para procurar um grupo de peregrinos que havia desaparecido no Caminho. Não se têm notícia de nenhum deles desde então.

Que Deus cuide de suas almas, pois eu temo pelo pior.

A Coruña, Galícia, 1821

Xavier apareceu aqui esta noite. Ele suava frio e tinha o rosto lívido. Disse que tinha a certeza que seu pai e avô estavam mortos. Os vira em um sonho vivo, onde a Virgem lavava suas roupas sujas de Sangue enquanto corvos voavam em círculos sobre as sombras dos dois Saavedra.

Eu tentei lhe acalmar, dizendo que aquilo fora apenas um pesadelo, mas Xavier não ouvia. Apenas repetia em palavras as imagens do sonho.

A Coruña, Galícia, 1821

Uma tragédia. Os peregrinos foram encontrados mortos. Todos os bens de valor foram levados. Junto deles estavam os corpos de Fernando e o velho Saavedra. Foram mortos a golpes de espada.

Estou preocupado com Xavier. Seu comportamento é muito distinto daquele com que apareceu aqui há três noites. O jovem tem apenas 12 anos, mas recebeu a notícia e ficou em silêncio. Havia uma clara tristeza ali, mas temperada com uma estranha calma. Mariana tem lhe feito companhia, mas Xavier simplesmente não conversa.

A Coruña, Galícia, 1821

Não há nada mais torpe, pecado mais reprovável aos olhos de Deus, do que a traição. O velho Saavedra e Fernando Saavedra foram mortos por seus companheiros de Irmandade. A denúncia sobre os peregrinos desaparecidos fora apenas uma armadilha. As Santa Irmandades se desviaram do caminho, não há dúvidas. Eu soube que ontem, por um decreto, a Rainha Izabel II iniciou a criação de um novo corpo de homens-de-armas, destinado à servir e proteger a Coroa e seus súditos. Sua primeira missão será combater as Santa Irmandades, que se tornaram ilegais.

Devo dizer que o mais impressionante disso tudo é que Xavier Saavedra foi o responsável por descobrir os culpados pelo assassinato de seu pai e avô. Ele fez questão de olhar os corpos, mesmo quando insistíamos que não o fizesse. Xavier também foi ao local onde foram mortos. Fez uma breve oração e, em silêncio, observou a tudo. Ao final, como que por mágica, o garoto sabia quem deveríamos buscar!

Como pode? Seria um milagre? Ou apenas a convicção de uma criança que perdera sua família?

A Coruña, Galícia, 1827

Muitos jovens da região se alistaram para fazer parte da nova Guardia Civil. Entre eles está Xavier. Nunca imaginei que ele seguiria por esse caminho, mas creio que a perda dos seus parentes o afetou. Ele não se tornará um médico, um padre ou um professor. Não cursará nenhuma universidade. Ele seguirá, enfim, os passos de seu pai e avô.

Tenho medo de que tenha um Destino semelhante, mas sinto que há algo naquele rapaz que o levará sempre para onde os corvos se encontram.

A Coruña, Galícia 1834

A fama de Xavier Saavedra só cresce. Ele vem galgando postos na Guarda Civil com rapidez. Não tem sido poucos os culpados que são levados à Justiça da Coroa por causa de seus estranhos métodos. Dizem que, ao se deparar com um cadáver, Xavier age como um cão farejador. Sua capacidade para observar elementos que passariam desapercebidos é quase que sobrenatural. Ninguém entende como ele o faz, mas todos confiam no rapaz.

A Coruña, Galícia, 1847

Após descobrir a identidade do monstro que vinha assassinando inocentes ao longo de toda Galícia e localizar seu paradeiro, Xavier foi promovido. Romasanta não era um lobisomem, afinal. Tratava-se apenas de um louco cruel, tomado por forças malignas que o fizeram cometer as atrocidades que cometeu.

Xavier o descobriu em Toledo. Não foi preciso descarregar uma arma ou desembainhar um sabre. Ele apenas sabia. Romasanta não ofereceu nenhuma resistência à prisão.

O jovem Saavedra agora é um capitão. A Guarda o levará à Madrid, onde pensam que suas habilidade serão mais úteis.

Xavier Saavedra veio aqui se despedir de mim. Dei-lhe um abraço e desejei que Nossa Señora do Caminho continue abençoando-o. Espero que ele saiba que nunca estará sozinho.
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