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em Qui Out 25, 2018 5:10 am
"Só na Bahia poderia se ver tanta gente festejando um homem que não é político, fazendeiro, rico, cardeal ou general..."

- Jorge Amado.
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em Qui Out 25, 2018 6:37 am
Enquanto a cidade se descortinava diante do mar azul, a Fazenda São Domingo se encontrava no interior da região. Sol intenso e trabalho extenuante eram a regra, com as atividades, infinitamente repetitivas, acontecendo dia após dia. Acordar, cuidar dos mais jovens e mais velhos, cortar a cana, moer a cana, preparar o melaço. Ser castigado. Retornar à senzala com o corpo coberto de Sangue, com as feridas abertas a ponto de não conseguir deitar e descansar. No dia seguinte, tudo de novo.

Mas havia algo que sussurrava nos ouvidos de Muyaka. Dizia que as coisas não seriam daquele jeito para sempre. E sussurrava já há alguns meses. Não obstante isto, nada parecia ser passível de mudança desde que ali havia chegado, ainda que sua força e sua vingança se manifestassem ocasionalmente, derramando-se sobre alguns homens brancos. Mas, no cenário macro, existia somente a repetição das tarefas e o castigo, inevitável, mesmo se ele ou os seus trabalhassem corretamente.

Na verdade "seus" era uma maneira de dizer. Boa parte daquelas pessoas não pertenciam ao seu povo na Terra Mãe. Eram homens e mulheres de diversas regiões, eram ioruba, nagôs e bantos. Todos submetidos às mesmas pressões, ao mesmo desespero, à mesma violência. Suicídios eram comuns, ao menos quando tinham acesso aos meios necessários para tirar a própria vida. Estupros eram comuns, tanto das mulheres quando dos próprios homens, violados por senhores e senhoras brancas. Seus corpos não lhes pertenciam, sua força era usada para gerar riqueza. Suas almas, contudo, pertenciam somente a eles mesmos e ao Orun.

Muyaka ouviu os sussurros, outra vez, naquela manhã quente e abafada. Abriu os olhos somente para ver seus companheiros deixarem, apressados, a senzala. O senhor gostaria de falar-lhes. Haveria castigo, pressentiam, na tarde anterior um dos escravos havia roubado - ou assim havia feito parecer João Borba, proprietário da Fazenda, um homem obeso, estúpido e desprezível, que se divertia em estuprar escravas que sequer haviam tido a primeira menarca - um pedaço de pão esquecido na janela da Casa Grande. Haveria castigo a todos, pois estas eram as leis de João Borba:"se um rouba, todos pagam".

Muyaka se preparou para sair, o espírito quebrado, uma vez mais, pela violência que os seus sofreriam. O feitor, um homem horrível chamado Chico, que era mestiço de branco com índio, já havia entrado na Senzala. Chico era cruel, talvez mais cruel que Borba, pois enquanto o Senhor reforçava a obediência com o castigo, Chico agredia os escravos por mero prazer. No outro lado da senzala, Seu Afonso, escravo mais velho da Santo Domingo, restava sentado no chão. Estava pálido. Era fome, uma fome profunda. Respirava com dificuldades. Seu Afonso tinha sessenta e sete anos, uma idade surpreendente para um escravo. Mais da metade dos jovens escravos da Fazenda eram filhos seus. Ou netos. Ou bisnetos. Mas Chico não respeitou Seu Afonso. Aproximou-se e deu-lhe um bofetão na face, de forma tão veloz e violenta que Muyaka não pode sequer reagir. O velho se desequilibrou, mesmo sentado, chocando a cabeça com força na parede de madeira da senzala. O sangue escorreu veloz pelo canto da boca. Chico ainda olhou para Muyaka, mas nada disse: o escravo sabia o que ocorria. Medo. Chico tinha muito, muito medo de Muyaka, por uma razão que o escravo não entendia.

Se viu sozinho na senzala, pois Chico não ordenou sua saída. Sozinho não. Com Seu Afonso que, recuperando-se, pediu ao mais jovem que se aproximasse. Do lado de fora, João Borba convocava os escravos a se juntarem ao seu redor. Muyaka sabia que Borba era ciente de todos os homens e mulheres que viviam ali. Sabia que Borba sentiria sua falta e ordenaria a Chico - ou a outro feitor - que viesse buscá-lo.

Seu Afonso estava sereno. Os olhos haviam se tornado levemente azuis com a idade, ainda que fossem profundamente escuros. Quando Seu Afonso falava, ninguém respirava. Era um poço de Sabedoria e experiência. E Seu Afonso falou, desta vez somente para Muyaka:

- Hoje. Hoje é o dia de fazê-los pagar. Hoje. Preste atenção aos sinais. Os sinais te guiarão. Hoje. Não pode passar de hoje. Proteja os teus, os meus e os outros, Muyaka.

E então, morreu Seu Afonso, um homem que havia sido um grande guerreiro em seu mundo. Morreu ali, reduzido a uma massa de carne que fedia a fezes e urina. Mas Muyaka sabia que seu espírito seria recebido no Orun. Intuía que veria Seu Afonso novamente.
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em Sab Out 27, 2018 11:46 am
Não haveria lágrimas daquela vez. Sua alma, alquebrada, aos poucos se inflamava, desde que começara a ter aquela sensação, a ouvir aquelas vozes em seus sonhos. Seriam os espíritos daqueles que se foram?

Muyaka observou Chico sair apressado da senzala, deixando-o com Afonso em seus braços. Ele pressionou o velho escravo contra seu peito, que há pouco havia dado seu último suspiro nesta terra.

O escravo fez uma prece e pediu para os deuses e seus antepassados recebessem o velho e sofrido Afonso e que este se tornasse um espírito que guiasse aqueles que ali viviam.

Muyaka não saiu de imediato da senzala. Ele sabia que se saísse, além de ser castigado, não poderia enterrar o corpo do ancião ex qua do chegassem, após um dia fatigante de trabalho forçado, o encontraria ali, largado, desrespeitado, como um animal sem importância. Não seria daquela forma. Não mais.

Ele não sabia explicar, mas, o mesmo desejo que o fizera entregar-se para ser vendido, ainda em sua terra, para encontrar seu irmão, brotava em seu interior. Uma fúria, ainda contida, crescia em seu peito. Lembrou-se dos sons de sua terra.

Muyaka carregou o corpo inerte do velho Afonso para fora da senzala. O sol quente, castigava a pele sofrida e cheia de feridas e cicatrizes. Ele andou, sozinho, entre todos os escravos e parou, olhando fixamente para seus opressores, enquanto mantinha o ancião em seus braços.

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em Dom Out 28, 2018 7:31 am
Deixou a senzala com o corpo inerte de Seu Afonso nos braços. Do lado de fora, o sol inclemente já dominava o céu claro. O espaço no qual estava localizada a senzala era vizinho ao terreno cultivado da fazenda, onde trabalhavam Muyaka e os seus. Ao longe, sobre uma ligeira elevação no terreno, repousava a Casa Grande. Era enorme, branca, imaculada. Dominava a paisagem e a sua presença era onipresente, lembrando constantemente aos escravos a sua dominação.

Diante da senzala, mas antes da plantação, estava João Borba. Enxugava o suor das papadas e da testa com a ajuda de um tecido engordurado. Na outra mão, mantinha um chicote. Era imenso, fétido, uma expressão do que havia de pior na humanidade. Ao seu redor, os escravos esperavam o veredito, cabisbaixos. Ele ergueu o chicote sem se dar conta de que Muyaka havia deixado a senzala. Chico o via, mas nada havia dito ao seu patrão.

- Ontem um outro animal ousou roubar a minha casa. Vocês são uns ingratos. O que fornecemos a vocês é o suficiente para que comam bem e vivam bem mas, ainda assim, insistem em hábitos pouco cristãos, como roubar e invejar o que eu e minha família conquistamos com o nosso trabalho.

Erguia, mais e mais, o chicote. Não havia nenhum escravo ao alcance de sua mão, mas ele se comprazia em levantar o instrumento, como um troféu, uma extensão da sua masculinidade e força.

Muyaka sentia, agora, tonturas e fortes vertigens, a ponto de quase não suportar o peso do corpo de Seu Afonso. Sentia uma forte pressão nas têmporas e sentia, também, a presença de seu irmão. Algo lhe dizia que estaria envolvido em alguma situação semelhante naquele exato momento. O interior de Muyaka queimava. Queimava como se uma fornalha estivesse acesa em seu estômago, como se nas suas veias corresse a lava derretida que corre nas veias de Xango. Sentia como se seus músculos fossem feitos de aço, como se fossem inquebráveis.

Os escravos, agora, ignoravam João Borba. Observavam Muyaka. Os mais velhos dentre eles se curvavam como se ele fosse uma divindade. Os mais novos apenas observavam com a boca aberta. Chico parecia encolhido em si próprio. Enfim, João Borba se girou para encarar o que todos encaravam em silêncio: o escravo que deixava a escuridão da senzala.
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em Seg Out 29, 2018 12:12 pm
Nosso trabalho?

O corpo trêmulo de Muyaka avançava por entre seus iguais. Homens, mulheres, crianças e velhos, todos eles na mesma condição de servidão. Uma ira crescente se apoderava dele.

Todos aqueles anos, afastado de seu irmão, condicionado a uma vida de servidão e humilhação parecia enfim estar cobrando o preço. Ele, que sempre fora paciente e suportara todo aquele carma sem reclamar, entendeu que não aconteceriam milagres. A mudança partiria dele e os sinais estavam dados, como dissera o agora falecido Afonso.


Nosso trabalho? Sua voz soou mais alta do que qualquer escravo jamais ousou fazer. Seu olhar estava fixado naquele homem gordo, que oprimia seu povo por amarras. Masque amarras? Que força física aquele homem teria para se opor contra ele, um guerreiro de nascença, forjado sob o sol escaldante da terra mãe?

Decidido, continuou a andar e se virou para seus irmãos, ficando de costas para seus opressores. Naquele momento eles não eram importantes. Ergueu sua voz, para que todos os presentes pudessem ouvi-lo.


Hoje, um homem sábio nos deixou. Seu corpo cansado, exausto do trabalho forçado, exausto da dor e dos maus tratos, exausto de ser chamado de ladrão, de preguiçoso e outras coisas mais. Ele estará agora entre os espíritos que nos guiará neste momento difícil, de luta e resistência.

Muyaka coloca o corpo de Afonso suavemente no chão e vira para seus opressores. Com o punho esquerdo fechado, erguido sobre a cabeça ele finaliza, ainda gritando.

No chão está Afonso. No final, todos estaremos como ele. É este o irreversível ciclo da vida, agora, cabe a vocês decidirem, se morrerão presos a grilhões e a servidão ou se morrerão livres ou lutando pela liberdade!

E então, com a fúria digna de um animal selvagem, avançou contra o, até então, senhor daquelas terras e do fundo de sua alma, um grito ecoou pela fazenda.

OMINIRA!!!

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em Ter Nov 06, 2018 7:20 am
O grito de Muyaka ecoara pela fazenda, inundando os ouvidos de seus companheiros e enchendo-os de coragem. Avançavam, lentamente, um a um na direção de João Borba. O homem suava aos borbotões, enxugando-se com um lenço escuro e sujo enquanto mantinha em riste o chicote. Exortava os escravos a não avançarem, a não ousarem desafiá-lo, mas sua autoridade parecia se esvair a cada segundo. Os homens e mulheres pareciam tomados por uma espécie de transe coletivo: não falavam, não gritavam, mas em seus olhos havia a sede por uma justiça que há muito lhes estava sendo negada.

Muyaka podia ver que João Borba, agora, tremia. A maior parte de seus capatazes já estava no campo, portanto distantes daquele local. Somente Chico estava à vista, mas parecia incapaz de reagir. Estava encolhido contra uma árvore, os olhos fixos em Muyaka, o terror estampado em sua face mestiça. Parecia que via algo que os outros não viam, ou ao menos intuía o que estava por vir. Os escravos, naquele momento, estavam próximos à João Borba, mas não tomaram nenhuma ação. Para afastá-los, o Senhor brandia violentamente o chicote, atingindo alguns deles no rosto, peito e ombros. Mesmo com os pequenos nós de couro que rasgavam a pele e a moral em suas pontas, o chicote parecia incapaz de ferir os escravos. Ricocheteava em suas peles escuras sem deixar absolutamente nenhuma marca. Eles ignoravam Borba: tinham a atenção voltada para Muyaka.

O escravo sentia um calor intenso, mais intenso do que jamais havia sentido naquelas terras. Era como estar dentro ou próximo a um vulcão em atividade. Olhou para o lado e por um segundo viu um outro homem.

Era alto, imensamente alto, com a pele extremamente escura. Em sua cabeça havia uma coroa de ferro fundido, com pouca decoração, mas de grande presença. Seus membros eram fortes e musculosos. Muyaka não viu sua face: estava coberta por um tecido avermelhado, assim como a tanga de couro que vestia. Nos braços e pulsos inúmeras pulseiras e braceletes, em ouro maciço, além de anéis com grandes rubis. O abdome era definido e na mão esquerda o homem carregava um enorme machado de ferro e pedra de duas faces. Nada disse, mas Muyaka sabia quem era. Xangô. O Senhor da Justiça. E foi ele quem, com um aceno de cabeça, autorizou Muyaka a portar a Justiça aos seus opressores.
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em Ter Nov 06, 2018 9:11 am
Por um breve instante, o ainda escravo Muyaka, olhou para o guerreiro que ali estava parado, ignorando a existência de João Borba. Finalmente os deuses ancestrais haviam olhado para seu povo sofrido. A presença dele aumentava a sensação de que chegara o momento de lutar pela liberdade. Não pela sua liberdade, ele era um pequeno ser, comparado a todos aqueles que chegaram ali antes e depois dele.

Muyaka se viu como aquele que lutaria, até o fim, por aqueles que foram tirados a força de sua terra natal. Um sorriso confiante brotou em seus lábios, ressecados pelo Sol massivo da lida cotidiana, e então, como se tivesse sido tomado pela autoridade de Xangô, virou-se para Borba.

Naquele momento, aos olhos de Muyaka, João Borba não passava de um homem assustado. Ainda assim, não haveria clemência nem misericórdia para aquele que maltratara os seus.

Decidido, caminhou na direção daquele homem obeso. A princípio, ignorou o capataz e, mesmo sob o estalar do chicote, avançou em direção ao até então, dono da propriedade.

Com um movimento, Muyaka esbofeteou com força o rosto de João, arremessando-o no chão. Ele sabia que existia uma superioridade agora entre eles e o lado fraco, com toda certeza, era o lado do homem branco. Com a mão firme, agarrou-o pelos cabelos, erguendo sua cabeça parcialmente, para que pudesse ver todos os escravos que o circundavam.

Ele então ergueu sua voz, para que todos os seus escutassem a sua sentença.


Hoje estamos livres do julgo do homem branco e mesmo assim não encontraremos a paz, pois, teremos que lutar para manter nossa liberdade. Esta fazenda, mantida com o esforço de nosso trabalho, arderá em chamas ao final da tarde. O fogo que aqui queimará, lembrará aos outros de que a paz e a subserviência acabou.

Recolham mantimentos, armas, roupas, dinheiro, tudo que há de valor na casa grande. Tragam todos os brancos para cá, independentemente da idade e do sexo. João verá, antes de seu julgamento, o que sofremos todos os dias. Espancaremos seus filhos, violaremos suas mulheres, como as nossas foram violadas, diante de seus olhos. Hoje ele será açoitado por cada um de vocês e, no final, pagará o preço por sua violência contra nosso povo com a própria vida. E não só ele. Aqueles que trabalham para ele, assim como o Chico e os outros capitães do mato, sofrerão esta noite, como viemos sofrendo há anos.

Irmãos, libertenssem de vossas correntes e façam o que deve ser feito. Amarrem-os, hoje será um dia de festa entre nosso povo. Aqueles que, assim como eu, não suportam mais e podem lutar, surpreendam os capitães do mato e os traga para cá. E, no final do dia, partiremos para um lugar que chamaremos de lar.


Ainda segurando João pelos cabelos, o arrastou até o meio dos agora libertos homens e mulheres. Prendam-no, ele será o último. Não permitam que ele morra. Não agora. Muyaka largou-o no chão e caminhou em direção ao capataz, que agora lhe parecia uma figura diminuta e digna de pena. Havia uma frieza na voz do antigo escravo. Assim como puniu muitos entre nós, para dar exemplo, Chico, assim será feito contigo. O teu destino hoje foi traçado por Xangô. E assim como João, você é culpado.

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em Qui Nov 08, 2018 5:21 am
Não hesitaram.

Após as palavras de Muyaka, seus companheiros se moveram velozmente pela Fazenda. Era como se fossem invisíveis e, além disso, conheciam cada pedaço daquele chão, cada esconderijo e cada acesso. Não demorou mais que alguns minutos para que os capatazes fossem subjugados e trazidos à presença de João Borba. Eram mantidos ajoelhados, cercados por escravos armados com os facões usados por eles. Houve resistência em alguns casos. Alguns dos capatazes tinham grandes feridas ou sinais de briga na face. A família de Borba também tinha sido trazida até ali. Duas filhas mulheres, uma de quinze e outra de onze anos. Um herdeiro macho, de sete. A mulher era muito mais jovem que ele. Todos pareciam apavorados. As faces cobertas de lágrimas e as bocas balbuciando orações. Somente o garoto permanecia impassível, do alto de seus sete anos.

Em poucos minutos, a Fazenda havia sido tomada de assalto. Em que, na verdade, se baseava a dominação de João Borba? Se era tão simples, porque não haviam feito antes?

De longe, Xangô observava Muyaka. Impassível, como o filho de João Borba. Não tinha mais em mãos o machado, mas a face ainda estava coberta.
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em Seg Nov 26, 2018 1:53 am
Muyaka fitava Xangô enquanto, em sua mente, dezenas de pensamentos se acumulavam. Pensou em seu irmão, em sua terra e em seu povo. Ainda que hoje estivesse liberto, haveria um grande e pedregoso caminho a percorrer.

Ele sabia que não teria muito tempo, pois, a qualquer momento poderiam surgir outros homens brancos, amigos de Borba, que poderiam dificultar as coisas. Seus olhos voltaram-se para os prisioneiros e depois para seus iguais. Dentro de si, a sensação de poder era crescente e ele sabia o que deveria fazer. Desejou isso por anos.


Tragam os tambores e os outros instrumentos. Hoje a terra mãe é aqui. Levem o garoto para a casa grande e o deixem amarrado. Ele não terá o mesmo destino que sua família. Alguém deve manter vigia, o menino é retado e pode escapar e avisar alguém.

Ordenou ele, meio que inconscientemente do tom autoritário que possuía.

Enquanto aguardava os tambores e atabaques, caminhou até os prisioneiros, pegou o chicote no chão, abandonado por Borba e o estalou no ar. O Sol, ainda escaldante, brilhava em sua pele suada. Seus gestos, cada vez mais ameaçadores, intimidavam todos os presos.

Sentiu uma satisfação por poder fazer justiça. Não havia deboche e tampouco escárnio. Os brancos e seus asseclas pagariam o preço de seus pecados.

Quando o som ritmado dos instrumentos começou a soar na fazenda, aos pés da casa grande, Muyaka ergueu o chicote e então o desceu com extrema violência nas costas de Chico. A pele cedeu fácil e um corte profundo se abriu, sangrando em profusão. O mestiço que, até pouco tempo, se regozijava por seus atos violentos, urinava nas calças no primeiro golpe do chicote.

Os homens libertos, empolgados pelo ato de Muyaka, fizeram o mesmo com os capatazes que haviam prendido, agredindo-os com socos, chutes, golpes de facão entre outros instrumentos e formas de violência. Eles vibravam, igualmente satisfeitos pela justiça que agora era feita.

Enquanto os feitores eram espancados, a família Borba era forçada a ver cada instante da vingança que, em breve, os alcançaria. Os feitores eram mortos um a um, depois de sofrerem toda sorte de violência. Alguns gemiam, outros gritavam, mas, nenhum, nenhum se mantinha em absoluto silêncio, como muitos daqueles ex-escravos suportaram dia a dia até hoje.

Borba suava aos borbotões quando viu seu último feitor, Chico, ser estrangulado até a morte. Dos olhos de suas filhas e esposa, vertiam lágrimas de pavor e desespero. Até então, elas não haviam sido tocadas.

Muyaka avançou até os troncos o de estavam presos e ordenou que as garotas e a mulher fossem trazidas até ele e que Borba fosse virado numa posição em que pudesse ver o que aconteceria.

A tarde avançava lentamente e o julgamento estava para acabar. Uma brisa quente passava por todos, enquanto as mulheres se debatiam em vão, tentando escapar de seu inevitável destino. Muyaka se aproximou de Borba e forçou para que não fechasse os olhos. Ele deveria ver tudo o que aconteceria a sua família. Este era o seu castigo.

Com um aceno de cabeça de Muyaka, alguns homens rasgaram as roupas das mulheres, deixando-as completamente nuas. A senhora da fazenda ainda conseguiu correr um pouco, mas, caiu numa poça rubra, formada pelo sangue dos feitores, que jaziam mortos próximos a eles. A esposa de Borba ainda clamou, em nome de Deus, que nada fosse feito a ela e a sua família.

Seu Deus não ouviu os nossos clamores, quando nossas mulheres e filhas, crianças e adultos foram violados por sua família. Não invoque o nome dele, pois, o que foi feito aqui com o meu povo, será feito convosco.

Os corpos já estavam sendo empilhados por uns, enquanto outros observavam o que estava por vir. O som dos tambores recomeçaram, retumbantes, enquanto os homens, sem qualquer tipo de misericórdia ou hesitação, começaram a violar as mulheres. Elas gritavam de dor e desespero, enquanto tinham seus úteros invadidos pelos antigos escravos. Elas gritavam de dor e desespero, tal qual várias escravas já haviam gritado e nada havia sido feito, para que as mulheres escravas não fossem violadas suscetivamente. Elas foram estupradas, sodomizadas até a exaustão.

Quando seus corpos já não mais respondiam, foram largadas no chão. Chorando de dor, gemendo de tristeza e aflição. Os olhos de Borba estavam esbugalhados, descrente do que acontecia consigo e com sua família.

Como que por misericórdia, elas tiveram suas cabeças arrancadas a golpes de facão, que a esta hora, estavam cegos, de tanta pancada que já haviam dado hoje. Elas não morreram no primeiro golpe.

Agora restava apenas João Borba. Preso no tronco, onde espancara dezenas de escravos, tremia e chorava suas perdas.


Vê João? Isto que você está sentindo agora é a mesma dor que somos obrigados a sentir há anos. Somos humilhados, escravizados e tratados sem dignidade alguma, porém, a balança pesa para os dois lados e, assim como você, outros pagarão por seus crimes contra meu povo. Não descansarei enquanto houverem outros como você nesta terra.

O chicote cantou diversas vezes, enquanto Muyaka golpeava mais e mais o corpo obeso do senhor destas terras. O sangue vertiam pelos ferimentos. Os punhos, amarrados firmemente, começaram a sangrar também, sem suportar o enorme peso. O corpo de João Borba mantenha-se ereto apenas pelo tronco. Seus gritos se misturavam ao som dos atabaques e tambores, até que, não suportando mais os golpes, tombou. Morto.

Muyaka procurou Xangô com e depois gritou, para que todos pudessem ouvir


Irmãos e irmãs, peguem tudo que recolhemos e partamos. Dispomos de pouco tempo e nossa viagem e longa. Tragam tudo que puderem, como eu havia pedido e vamos.

Antes de partir, libertou o garoto e incendiou todas as propriedades da fazenda e o restante da plantação, pois, não teria como ser transportado.

O anoitecer caía, mudando as cores do céu. Enquanto caminha entre a multidão, Muyaka olha para trás, para ver arder em chamas a casa grande.


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em Dom Dez 02, 2018 9:13 am
As chamas engoliam, com imensa fúria, o casarão e a plantação atrás dos homens e mulheres que, satisfeitos e banhados de sangue, caminhavam, afastando-se do local onde tinham sido mantidos forçadamente por tantos anos. Não eram um grupo homogêneo, havia bantos e nagôs, além de outros grupos menores. Cantavam à liberdade, cada grupo invocando a sua língua e os seus ancestrais. Muyaka seguia à frente de todos, passos largos e confiantes, sua vingança satisfeita. Xangô não estava em nenhum lugar visível.

Os gritos da família de Borba ainda ecoavam em sua mente. Sabia que devia afastar-se o mais rápido possível. Apesar do isolamento da fazenda, sabia que não demoraria até que a destruição fosse descoberta. Mas para onde levar todas aquelas pessoas? Diante de Muyaka se erguia a mata fechada, escura. O sol ainda estava forte, mas a mata em meio às sombras parecia convidar o homem a entrar. O vento agitava suavemente as folhas e os galhos. Muyaka sentia o odor de água fresca vindo do meio das árvores. Sentiu sede.

Um dos escravos chamou a sua atenção para um detalhes. Ao longe distante, tentando permanecer icógnito, estava o filho mais novo de Borba. Muyaka sabia que se chamava João, assim como o pai. Tentou pensar no que fazer com o garoto, mas o calor e a sede eram intensos. Sentia uma forte tontura. Tinha dificuldades de respirar. Olhou para o céu, como se buscasse o ar: as chamas criavam um crepúsculo antes da hora determinada pelo Orun. Mas não se via mais o sol. Somente nuvens pesadas, de cor de chumbo e de prata. Quando abaixou a cabeça, estava sozinho. Seus companheiros de viagem não mais estavam ali. Somente ele, o garoto de Borba a uma certa distância, e a mata escura.

Um trovão cortou o silêncio. Muyaka sentia a presença de Xangô novamente. Estava agitado e nervoso quando viu o Orixá diante dele, na boca da mata. A pele escura parecia brilhar, incandescente, ainda que não houvesse sol. A face estava coberta como sempre, em mãos o machado de duas lâminas. Somente uma tanga cobria sua intimidade. Carregava enormes pulseiras de ouro, assim como um colar igualmente dourado. Atrás dele, o mundo se distorcia como se estivesse envolvido em um incêndio.

Com movimentos lentos e sem tirar os olhos de Muyaka, Xangô despiu-se de seus braceletes. Colocou-os no chão sem mover a face. O homem não via os olhos do Deus, mas se sentia escrutinado por ele. Em seguida, olhando para o filho de Borba, retirou o colar e pousou-o também no chão. Só então, falou. Sua voz emanava de todos os lugares, deixava para trás o futuro e colocava, diante dos olhos, o passado. Era um clamor de batalha e de justiça. Era o som de um imenso vulcão que entrava em erupção.

- Cada homem dispõe de uma herança e de uma responsabilidade. Vossa herança é dada por mim, vosso pai. Vossa responsabilidade será dada pelo mundo.

Aproximou-se, a passos lentos, de Muyaka. Tocou-lhe a testa e, sem palavras, contou-lhe toda a Verdade. Sua mãe, ainda na Terra Mãe. Xangô que descia do Orun. Um único encontro, longo e intenso. Muyaka. A proximidade de Xangô causava fortes espasmos no corpo de Muyaka. Era glorioso e insuportável. E Muyaka soube quem era. Era filho do Senhor do Trovão. Não como seu povo era filho dos Orixás, mas diretamente. Em suas veias corria um Sangue divino. Nas veias do pequeno João Borba, ele sabia, corria o mesmo sangue.

- Teu povo não precisa de ti. Podem sobreviver sem ti. Serão livres sem ti. Crescerão e se reproduzirão, e a sua descendência, no tempo certo, será a dona destas terras.

Olhou para o pequeno.

- Teu povo não mais existe.

Voltou o olhar para Muyaka.

- Nada tenho a pedir. Nada a ordenar. Não agora. Mas eles virão atrás do pequeno. Eles virão. E se o pequeno estiver entre o teu povo, teu povo será dizimado. A decisão é sua.

- Muyaka?

Diante dele, homens e mulheres preocupados. A mata ainda estava ali, agitada. Muyaka sabia que sua gente não deveria entrar ali, mas seguir por outros caminhos. Um dos homens segurava o pulso do pequeno João Borba, que encarava intensamente Muyaka. O colar e os braceletes estavam no chão. O facão do homem estava no pescoço da criança.


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em Ter Dez 04, 2018 9:28 am
ọmọ wẹwẹ!

A sensação de estar ao lado de Xangô lhe era magnífica, no entanto, seus medos lhe eram mais urgentes e o impediam de desfrutar plenamente a presença de seu deus, seu guia, seu pai.

Sua mente ainda estava confusa com as revelações quando notou que o garoto possuía a mesma natureza que ele e, mais, possuía o mesmo pai. Algo duas vezes inimaginável.

Voltou a si. O cheiro da mata e da água corrente despertara seus sentidos. Ao ver o facão no pescoço da criança, hesitou por um tempo. Desejava que ele não estivesse ali, que permanecesse na fazenda, que não dificultasse as coisas ainda mais. Matá-lo seria, com toda certeza, a alternativa mais acertada, porém, não o fizera na fazenda, quando julgava a sua família, não faria agora que estava só.

Deixem o mancebo, ele deve viver. Por enquanto. Seus olhos transbordavam ira. Caminhou até próximo ao seu companheiro e afastou o facão com a palma de sua mão. Na volta, desferiu um golpe, com as costas da mão, no rosto do garoto.

Moleque tolo! O que pensa que está fazendo? Por que não ficou na fazenda? Certamente algum parente apareceria.

A noite avança sobre nós e precisamos encontrar um local seguro para descansar, comer e depois seguir. Estava contrariado, mas, sabia que aquela situação não seria uma coincidência. Deveria preservar aquela vida. Para proteger os seus, tomou a decisão mais difícil.

Sigam nesta direção, pois, a mata logo a frente é perigosa e traiçoeira. Mantenham-se unidos. Saberão onde parar. Eu ficarei aqui e cuidarei deste garoto, até saber o que fazer com ele, considerando que a morte não é uma opção.

Em pouco tempo, dividiram as provisões e o dinheiro, suficiente pra algum tempo. Antes de partir, porém, pegou as jóias que estavam no chão, tanto as pulseiras quanto o colar. Passou por garoto, o pegou pelo braço e começou a seguir em direção oposta ao bando que fugia

Espero estar certo nesta decisão.

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Salvador: A Roma Negra Empty Re: Salvador: A Roma Negra

em Qua Dez 05, 2018 6:56 am
Naquele momento, Muyaka tinha algumas certezas.

A primeira era de que Eshu, Senhor das Estradas e dos Caminhos guiaria seus companheiros até um local seguro. A segunda era de que o garoto o detestava. Nada dizia, mas o observava com uma fúria compreensível em seus olhos infantis, um comportamento justificado, dado que estava diante do assassino de sua família e destruidor de tudo o que havia conhecido. A terceira era que a mata não era uma mata comum. Muyaka percebia uma névoa baixa que se prolongava do meio das árvores, um fenômeno que jamais havia observado naquela região.

Colocou todos os objetos que carregava em uma bolsa de couro roubada de Chico e prosseguiu, arrastando o jovem Borba. O garoto continuou mudo, observando Muyaka com seus olhos escuros e rancorosos. Muyaka sabia que ele tinha somente oito anos.

As árvores pareciam aumentar de tamanho à medida em que os dois se aproximavam. Era composta de árvores da região, como cajueiros e cajazeiras, mas que eram estranhamente retorcidas, fúnebres. Quando entraram era como se fosse a mais profunda noite: as árvores eram tão frondosas que bloqueavam a luz solar. fazia frio. Imediatamente, um forte som de tambor começou a ser ouvido. Parecia ecoar entre as árvores, sobre a terra e sob o céu. O garoto pareceu assustado, eram sons similares aos que soavam na senzala. A névoa se elevava, agora, até os joelhos de Muyaka e até o peito de João. O garoto suava visivelmente. Muyaka também. Pararam diante de uma árvore que não podia ser ignorada: um imenso jacarandá, de tronco nodoso e repleto de galhos e folhas. As raízes estavam expostas, e pareciam mergulhar em direção ao centro do mundo.

Diante da árvore havia uma mulher.

Era bela, de estatura media e estrutura longilínea. Estava vestida de preto e verde escuro, com um belo turbante no alto da cabeça. Sua aparência era régia e elegante. Os traços eram belos, com zigomes bem desendos e olhos intrigantes. Dela emanava uma forte energia, uma axé que não passava despercebido aos olhos de Muyaka. Ela olhou para o homem e, em seguida, para o garoto. Em seguida, apoiou-se na árvore antes de falar.

Salvador: A Roma Negra Rs_63410

- Mo kí awọn ọmọ ti iji, com a esperança de ser abençoada em retorno. Sou Anande, emissária do Trovão, mas respondo somente ao Ifá. Diante, a Árvore da Vida. Sua defesa incondicional, dado que dentro dela está acumulado todo o conhecimento do mundo e a ordem de todas as coisas vivas e não vivas, estáticas e transcendentes, é a função de todo Filho de Xangô. Sem a Árvore da Vida, não florescem comunidades. E sem comunidades, não florescem deuses.

Olhou por cima dos ombros de Muyaka.

- Atrás, o passado não acabado. Teu companheiros - pois poucos ali são parte de teu povo - vagarão pelas pradarias desejando retornar a casa. Não há, porém, a casa com a qual estavam acostumados, as estepes. Falharão e morrerão.

A expressão da mulher se tornava mais austera enquanto falava.

- Teu Pai, Shango, te dá escolhas. Nenhuma delas conduz à Justiça. Ao mesmo tempo, todas elas conduzem.

Voltou-se e observou a árvore. Em seguida, olhou para Muyaka.

- Aceite a defesa da Árvore da Vida e os teus serão guiados até a Terra Mãe. Em troca, teu destino estará ligado ao de teu irmão até o Fim dos Tempos.

Fez uma pausa.

- Mate o teu irmão, cancele o seu e o teu destino e siga, com teus companheiros, em direção à Terra Mãe, para o teu merecido descanso. A Árvore da Vida será defendida por outro, pois outros sempre existirão.

Olhou para o garoto, que tremia.

- Abandone a todos e siga teu caminho. Teu descanso será garantido, mas todos os outros sofrerão imensamente.

Voltou-se para Muyaka. Nada disse, mas esperava uma resposta imediata.
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em Qua Dez 05, 2018 9:52 am
Muyaka caminhava em silêncio, ao lado do pequeno Borba. Apesar de sua quietude, não ignorava o olhar de ódio que o garoto o destinava constantemente. Seus passos eram comedidos e seu olhar vagava pela mata, que se adensava mais e mais. Em sua mão direita pendia o facão, ainda sujo do sangue dos capatazes.

Muyaka lamentava que o garoto os tivessem seguido. Certamente ele deveria estar pensando numa forma de matar aquele que dizimou a sua família. Ele não estava errado, talvez até mesmo ele teria feito isso, ponderou ele.

O cheiro dos cajueiros e cajazeiras instigavam a fome do antigo guerreiro. Ele parou por alguns instantes, comeu um pouco da comida que havia separado . Dividiu-a em duas partes e ofereceu ao garoto.

Voltou a caminhar e se deparou com a imensa árvore. Suspirou profundamente, em reverência aquela imensa árvore. Tocou-a, impressionado com seu tamanho. Ao perceber a mulher, afastou-se alguns passos pra trás e a observou.

Muyaka a ouviu imerso no mesmo silêncio em que se encontrava desde a entrada na mata.


Salve Anande. Ouvi tudo que dissera e tenho algo a dizer. Nunca desejei amortecedor do pequeno João. Sei desejasse, ele já estaria morto, junto com seus pais. A misericórdia que tive dele, não foi a mesma que seu pai transmitia as nossas crianças.

Agora, que seja feita a vontade de Xangô. Que os meus encontrem seus caminhos e que meu caminho, que está ligado a esta criança, tragam a justiça que me foi tirada há muito tempo. Não sei como ainda, contudo, lutarei contra os brancos, que insistem em escravizar-nos.

Sob a copa da árvore da vida, juro que me dedicarei minha vida a protegê-la e matarei todo aquele que lhe quiser mal. Que o deus das tempestades olhe por mim e me guie, pois, sou ignorante em muitos assuntos e, se é necessário que o jovem Borba esteja comigo, que assim seja, contudo, sua vida não é responsabilidade minha.


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em Sex Dez 07, 2018 7:11 am
Anande demorou para responder a Muyaka. De fato, demorou um longo tempo enquanto olhava no fundo dos olhos do homem. Olhava tambem, ocasionalmente, para o garoto.

- Sim, sua vida é responsabilidade tua.

Sorriu, enigmaticamente.

- Se esta e a tua decisão, o Orun a aceita. És o Senhor de teu destino, ainda que as possibilidades estejam traçadas. Não mais verás aqueles que contigo viviam. Parte deles retornará à Terra Mãe, mas parte aqui permanecerá. Assim foi decidido. Nestas terras os Orixás construirão um novo comeco. Lentamente. Passo apos passo. Mas virá. Nada pode deter a mudanca que é gestada nas entranhas de um mundo destruído.

Da cintura a mulher retirou uma adaga. Era curva como un dente, mas feita de osso e com um cabo de obsidiana. Muyaka percebeu que ela não piscava os olhos desde que tinham se encontrado.

- A ti, Muyaka, sera dada a Sabedoria. Verás o que não pode ser visto pelos outros. As traições do mundo sobre ti não terão efeito. Es filho do Juiz,kao kabesile, e como tal verás o que se esconde no fundo dos olhos dos homens.

Com a adaga, perfurou o tronco da árvore. Do ferimento escorria uma seiva branca profundamente perfumada.

- Beba. - Olhou para o garoto - Você também. A ti será dada a Piedade.

Voltou a olhar para Muyaka.

- Esta não é a árvore sagrada, mas uma mera representação dela no mundo físico. Uma representação omperfeita, mas que a ti mostrará o que deves ver.

Sorriu mais uma vez enquanto a seiva escorria pelo tronco da árvore. Muyaka escutava sons de chicotes e grilhões. Ouvia seu povo a lamentar-se. Era como se tivesse retornado a Fazenda de João Borba. Era uma sensação que se tornava cada vez mais intensa à medida em que a seiva da árvore se aproximava do chão.
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em Ter Dez 18, 2018 10:36 am
O antigo guerreiro emudeceu ao ouvir as palavras da mensageira. Ele observou atentamente o pequeno Borba e odiou tê-lo consigo e o pior, ter o destino atrelado a ele. Ainda assim, não reclamou, pois, sabia que não deveria voltar-se contra a vontade do senhor das tempestades.

Muyaka abaixou-se próximo a árvore e inclinou a cabeça,para que pudesse beber da seiva que vertiam abundantemente do tronco do jacarandá. Ele sorveu grandes goles do líquido leitoso, até que se afastou alguns passos para trás.

Ele olhou a sua volta e todo aquele verde o fez sentir saudades de casa. Apesar de toda abundância de alimentos e água, as terras secas de seu lar faziam falta. Definitivamente, ali ainda não era seu lar.

Muyaka estava fadado, ao menos por enquanto, abandonar os seus em detrimento do projeto de escravista.


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em Dom Dez 23, 2018 7:54 am
De qualquer forma, bebeu.

Bebeu, também o pequeno Borba.

- OKÊ!! - Gritou a mulher quando viu que o Senhor das Tempestades descia dos céus escuros.

Muyaka sabia que o Mundo não era puro o bastante para receber seu Pai. Aliás, nenhum dos outros Orixás. Por isso, cavalgavam. Como Xangô cavalgaria Anande.

A mulher tremeu e arqueou para a frente, tremendo os ombros enquanto murmurava palavras incompreensíveis. O mundo parecia eletrizado, intenso e vívido. Mesmo o pequeno João Borba pareceu perder o medo. Ainda não falava, mas olhava diretamente para a mulher. Todo o local parecia envolvido em uma aura de paz e justiça infinita. Nenhum rumor, somente aqueles que deveria existir para dar sentido ao Universo.

Anande, agora, tinha os olhos fechados. Estava ereta. A mão direita, erguida, parecia segurar um machado invisível. A esquerda estava apoiada na cintura. O corpo se movia, lentamente, para a direita e para a esquerda.

Ao lado de Muyaka, o tronco da árvore se abria. Expunha dezenas de cipós que pareciam querer engoli-lo.

Xangô falou. A voz que ecoava no centro do mundo, que girava nos vulcões, vales e montanhas.

- A Árvore da Vida não é sagrada para um. É sagrada para todos. Quem ameaça a Fonte da Vida sofre e fúria de todas as potências. Seguirás pelo mar. Golpearás o coração do Imperador. Fazendo isto, tanto a Fonte da Vida estará a salvo quanto o meu povo, que deixará de ser forçado a morrer no mar, longe de casa. Também o Imperador é um Filho do Trovão, mas daquele do Norte. Lhe dou o conhecimento que te serve. Falarás a língua do inimigo e verá através de suas mentiras.

Muyaka viu Xangô se voltar para João Borba. Mas não conseguia escutar o que o Pai dizia ao outro Filho. Uma violenta sonolência tomava posse de seu corpo. Deixou-se cair, incapaz de resistir, em direção aos cipós do jacarandá.

*

Abriu os olhos e ouviu o som de pássaros do mar. Fazia calor, o tempo estava abafado. No ar, o cheiro do sargaço que trazia más lembranças a Muyaka: era o perfume do mar, fortemente ligado a sua própria vida. Estava sentado no convés de um navio. Estava vestido, limpo, com barba e cabelos aparados. Tinha nos pés sapatos. As jóias de ouro, presentes de Xangô, estavam em uma forma discreta, mas Muyaka sabia que eram as mesmas.

O navio era um vapor grande. Ao seu redor, identificou a cidade do Salvador, como chamavam os portugueses. Viu a parte alta e a parte baixa da cidade, o mercado dos artesãos e o forte português no meio do mar - que mesmo ele tinha de reconhecer que era uma obra prima. A cidade tinha o cheiro característico de mar e de pobreza, mas era ao mesmo tempo cheia de vida, cheia de esperança. Muyaka nunca a tinha visto assim. De fato, agora via muitas coisas que não enxergava antes.

Viu também que uma mulher se aproximava dele. Tinha ao lado João Borba, também bem vestido. O garoto segurava um copo de suco amarelo enquanto caminhava encarando Muyaka. Estava em silêncio. A mulher era baixa e bem servida. Aparentava ter cerca de quarenta anos. Vestia-se em modo europeu, ainda que tivesse feito concessões para adaptar-se ao calor de Salvador: havia reduzido o número de anáguas do vestido longo e azul. Os cabelos eram escuros, enrolados em um coque acima da cabeça. Muyaka sabia, instintivamente, que ela não era como ele ou Borba. Não tinha nenhuma ligação com os deuses. Mas o Filho de Xangô intuía que era uma boa mulher. Mais do que isso. Soube que seu Destino estava entrelaçado com o dela.

Ela lhe entregou um copo de suco amarelo. Era cajá. Depois, lhe falou. Em inglês. Muyaka sabia porque entendia e era capaz de responder.

- Não consigo lhe dizer o quanto estou feliz de ter-lhe encontrado, Muyaka. A você e a João Borba. O incêndio foi uma tragédia, mas a sua coragem e abnegação em salvar o pequeno João foram comoventes. Fico ainda mais feliz que tenha aceitado vir comigo para a Inglaterra, que tenha aceitado dar seu testemunho no Parlamento. Tenho certeza que ajudará a aumentar a fiscalização contra os traficantes de pessoas.

Muyaka sabia que ela se chamava Emeline Watters. Que era uma mulher diversa daquelas que ele conheceu. Que havia algo intenso nela, um idealismo, um forte senso de justiça, ainda que limitado. Sabia que ela o havia comprado por uma soma absurda - depois de saber que ele falava inglês - e logo em seguida o havia libertado. Sabia que Borba havia fugido das autoridades e se juntado a eles, como filho de Emeline. Pois Borba também falava inglês. Ele só não sabia quando cada uma dessas coisas tinha acontecido.
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