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Londres: Capital do Império. Empty Londres: Capital do Império.

em Qui Out 25, 2018 5:03 am
"You find no man, at all intellectual, who is willing to leave London. No, Sir, when a man is tired of London, he is tired of life; for there is in London all that life can afford..."

- Samuel Johnson.
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em Qui Out 25, 2018 5:27 am
Havia um perfume de ozônio no ar.

Insistente e inescapável. Já há dois dias se sentiam os indícios da chuva e da tempestade. Chovia perenemente em Londres, isso era um fato, Londres não existia sem a chuva, sem o cinza, sem a lama ou sem as constantes cheias do Tâmisa, que ameaçavam os mercados e estradas que levavam às mais diversas partes da cidade. Enquanto os pobres se preocupavam com o frio que inevitavelmente chegaria, Westminster e Buckingham observavam, incólumes, a escuridão da noite. Ou o que restava dela, misturada com o cinza das fumaças das fábricas.

Domar Londres era e sempre seria o maior desafio dos europeus.

A janela atrás da poltrona de madeira e couro africanos já se banhava com as primeiras gotas de chuva. Dentro do escritório simples e iluminado parcamente, uma pequena biblioteca, mapas espalhados pelas paredes e um tapete marroquino. Algumas esculturas. A mesa, de madeira de lei, repleta de ordens, observações, jornais novos e antigos, anotações particulares e telegramas-teste. Silêncio, a não ser pelos sons de trovões. Da chuva caindo sobre os paralelepípedos escuros. Dos saltos de sapato que corriam, apressados, para escapar da tormenta. Havia, também, música. Nascia no café em estilo parisiense que se localizava no térreo do prédio de quatro andares que pertencia a uma grande empresa de telégrafos britânica. Mas aquela era somente uma filial.

Era tarde, dezenove horas e trinta e seis minutos.

Havia, ainda o ozônio. Parecia que o escritório estava infestado de pequenas criaturas que voavam e espalhavam aquele odor pelo local. Não era possível vê-las. Na verdade, não havia nada ali e ele sorriu quando constatou este fato. Mas a sensação era real, a sensação de estar sendo observado, quase como se alguém estivesse a ponto de tocar-lhe as mechas dos cabelos.

A porta do escritório se abre com uma certa violência. Era Franklin. Somente Franklin, seu colega de trabalho do escritório vizinho, se dava a tal liberdade. Era um bom homem, Franklin. Casado, dois filhos. Frequentava a Igreja e os saraus de filosofia. Mas a estes ia somente pelo álcool. Tinha um bom coração, mas a intelectualidade de um peixe.

- Comemoração, Osmund? A sede acaba de nos informar que trabalharemos no Brasil. Parece que o Imperador deles deseja instalar uma linha privada. Pode imaginar? Eles têm um Imperador! Achei surpreendente, esta coisa. Anyway, estaremos no bar aqui embaixo. Te esperamos!

Não esperou a resposta. Seguiu apressado pelo corredor, junto a uma manada de outros funcionários que encerravam o trabalho e ou tornavam a casa, ou se dirigiam ao bar ou, ao menos uma parte deles, a uma das inúmeras casas de ópio da cidade.

O ozônio ainda estava ali, aquela sensação de que algo estava muito próximo de acontecer. Aperto no peito, frio na barriga. Garganta travada. Era hora de encerrar o trabalho. Precisava, realmente, de uma taça de vinho.
Albert Osmund
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em Qui Out 25, 2018 8:26 pm
*Uma tempestade estava chegando. Era estranho, ele pensou, dizer isso enquanto chovia do lado de fora. Mas algo estava estranho. O cheiro de ozônio, a... sensação de algo no ar, como se fosse energia acumulada. Albert se levanta e vai até ao barômetro na parede, mas se surpreende ao ver os ponteiros completamente irregulares, disparados. Com o cenho franzido, o engenheiro cutuca o vidro a fim de ver se produzia um resultado, mas nada, o mercúrio devia ter vazado. Ele sacode a cabeça. Pela manhã, consertaria o instrumento.*

*Novamente à sua mesa, olha para o papel à sua frente. Albert nunca se contentara em escrever relatórios para a diretoria da Electric Telegraph Company, ele também escrevia como companhia artigos para o Sunday Times, e todo o Império se informava sobre as novidades tecnológicas, sobre como a Inglaterra, e pouco a pouco o resto do mundo se tornavam unos pelos fios do telégrafo. Ele olha em sua mesa, e ao redor da sala, pelas lembranças colecionadas. Marrocos, Egito, Portugal, Noruega, Alemanha... Com um leve sorriso no rosto, ele escreve as últimas palavras e põe o ponto final no artigo.*


-O mundo é grande, mas estamos deixando ele menor.

*E é neste momento que a porta abre de supetão, e Albert levanta a cabeça de súbito antes de ver Franklin, mas a reação rapidamente se torna um sorriso. Não só por ver o colega, mas também pela notícia que trazia.*

-Brasil? Ora, isso é maravilhoso! Já faz anos que quero cruzar o Atlântico!

...

-É claro que eles têm um Imperador, homem! E acredita que é um Habsburgo, ainda por cima? *Quando o rosto de Franklin não esboça nenhuma reação, ele sacode a cabeça. O que o pobre diabo tinha de sobra no coração, lhe faltava na cabeça.* -Deixa pra lá. Vou fechar e nos encontramos lá embaixo. Preciso de uma bebida, ou quatro.

*Ele põe os papeis em ordem, separa o artigo para ser enviado ao jornal pela manhã, e começa a colocar o casaco e o chapéu-coco. Após apagar as luzes, começa a acender distraidamente seu cachimbo enquanto desce as escadas. E no meio do caminho, um pensamento lhe vem à cabeça.*

*Como ele sabia essas coisas sobre o Imperador do Brasil.?*


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Londres: Capital do Império. Empty Re: Londres: Capital do Império.

em Sex Out 26, 2018 6:01 am
Passou pelos corredores estreitos e repletos de artigos importantes que, emoldurados, atestavam os esforços da Electric em tornar um mundo um lugar melhor e menor. Suava, e somente agora tinha consciência disso. Enxugou a testa com o lenço que carregava no bolso. Sentia-se estranho. Um insistente formigamento nos braços e pernas, como se pequenos exércitos se enfrentassem em suas veias. O cheiro de ozônio era muito, muito mais intenso à medida em que descia as escadas.

Era uma quarta-feira.

Chegou à recepção e cumprimentou George, o porteiro, um homem cheio de rugas e com um bigode desproporcional. Trabalhava ali há anos. George parecia concentrado em alguma leitura, pois somente levantou a mão direita para saudar Osmund. Lia muito, George, apesar de ser um operário médio. Atrás dele, emoldurado como os artigos, um belíssimo quadro retratava a cavalgada das Valquírias, segundo instruía a mitologia escandinava. Eram inúmeras mulheres, montadas em lobos imensos, que cavalgavam pelos céus enquanto procuravam pelas almas dos guerreiros justos, que seriam levados ao Valhalla para esperar pelo Ragnarok, o Crepúsculo dos Deuses.

Não se lembrava onde tinha lido estas informações.

As ruas de Londres o receberam com uma lufada de ar fresco e, onde antes residia o cheiro de ozônio, passou a existir o odor desagradável da metrópole. Peixe, óleo de baleia, lama, urina e fezes de animais de rua: tudo aquilo compunha o mosaico de sentidos que era a capital do Império. Estava na região de Waterloo, vizinho ao Tâmisa, mas a presença do rio era sentida na umidade do ar. Atrás dele, o Café Moscou, onde sempre bebia uma taça de vinho ou de conhaque com seus colegas de trabalho. O local havia sido fundado por um certo Kalinin, imigrante russo de natureza intensamente filo britânica. O mundo, de fato, se tornava um lugar menor.

Entrou.

Foi recebido pelo cheiro dos charutos e do tabaco, além do perfume acre de álcool velho e de suor operário. Era um local pequeno, com pouco mais de dez mesas espalhadas por uma sala. Ao fundo, os banheiros quer deixavam no ar sua contribuição. No centro do local um balcão baixo de madeira e diante dele, em pé, seus conhecidos. Kalinin conversava animadamente com estes. Era um homem estranhamente alto e magro, com braços longos e rosto encovado. Tinha profundas olheiras e, ocasionalmente, tremia intensamente a mão esquerda, como se esta não fosse comandada por ele. De fato a mão era estranhamente mais escura que o restante do corpo, como se Kalinin a tivesse queimado ou como se tivesse alguma doença de pele, o que não era uma raridade em Londres. Provavelmente metade daquela cidade tinha alguma doença de pele ou de pulmão.

Kalinin se desvencilhou de Franklin e dos outros, circulou o balcão e deslocou uma cadeira alta, posicionando-a diante do balcão. Com um aceno, convidou Osmund a sentar-se. Agia sempre desta forma, pedindo aos clientes que se afastassem para que ele pudesse acomodar Albert. As razões deste tratamento nunca ficaram realmente claras. Havia, ali, pessoas de status social ligeiramente mais elevado que não recebiam a mesma distinção.

O proprietário não falou nada. Serviu a Osmund uma pequena dose de conhaque acompanhada de uma xícara de café forte que, pelo perfume, deveria ser sul americano. Depois, passou a servir os outros clientes. Osmund percebeu que seus colegas estavam entretidos em alguma importante discussão. Sequer tinham percebido sua entrada, e Osmund se perguntou se não o haviam convidado somente por educação. Suava ainda, o café era mais quente que o de costume. Em suas veias, os movimentos dos exércitos eram lentos e cadenciados.

E tinha, ainda, o cheiro forte de ozônio.

Kalinin havia retornado, sem que ele percebesse, e agora estava de pé em sua frente. Osmund percebeu que a mão esquerda tremia violentamente enquanto Kalinin enchia uma taça de vinho barato. Tremia tanto que não conseguiu manter o controle da garrafa, derramando um pouco de vinho no balcão e sobre a roupa de Osmund.

- Oh, Sirr Osmund! Perdoe a minha distração!

Osmund não teve tempo de perdoar, pois a porta do bar se abriu, deixando entrar uma forte lufada de ar fresco que o fez olhar para trás. Antes, porém, percebeu interessado como o vinho derramado sobre o balcão parecia formar o desenho de uma grande árvore.

Era um homem quem adentrava o Café Moscou.

Seu passo era lento, quase vacilante, apoiado por uma bengala de madeira extremamente clara. Tinha cabelos ligeiramente longos, mas cortados em forma elegante. Eram quase que inteiramente brancos, com alguns leves tons de cinza. Vestia-se de forma elegante mas simples, e ligeiramente antiquada. Nos pés, botas pujantes de viajante e sobre o corpo uma túnica, também de viajante, escura e ligeiramente puída. Sua pele era branca e aparentemente frágil, mas Osmund conseguia discernir alguns músculos, sinais de um passado voltado às artes físicas. Tinha barba, e era também acinzentada e bem cortada. O rosto era um emaranhado de rugas estranhas, que pareciam formar padrões desconhecidos. O olho, pois somente um estava descoberto, era de um azul gélido como o mar do norte e ligeiramente cinza como o céu antes de uma tempestade. O outro olho, o direito, estava coberto por um tapa olho como aqueles dos piratas. Albert teve a impressão que sobre o tecido escuro havia algo desenhado, mas foi só uma impressão. Parecia cansado, aquele homem. Osmund não conseguia discernir se ele tinha quarenta ou oitenta anos, mas o cansaço era claro, quase palpável.

Caminhou sozinho e sentou-se em um canto. Passou a observar intensamente, e sem nenhuma cerimônia, Osmund. O engenheiro só saiu do transe causado pelo homem quando Kalinin tocou em seu braço, dando-lhe um tecido para enxugar sua roupa. O fez, mas quando voltou-se para a mesa em que o homem estava sentado, viu alguém completamente diverso.



Londres: Capital do Império. Lasse_12



Era, ainda, um homem. Mas era o homem mais belo que jamais havia visto. Seus cabelos eram louros e cacheados, caindo por sobre os ombros. Vestia-se elegantemente, com um sobretudo azul escuro com pequenos detalhes em amarelo fosco. Tinha uma barba e um bigode louro, bem aparados, e dispunha de profundos olhos verdes, nariz fino e equilibrado e boca pequena. Não era baixo nem alto, forte ou magro, era equilibrado em todos os sentidos. No complexo, era visivelmente nórdico. Tinha a pele branca como a do velho, porém mais pálida. Não parecia cansado como o homem anterior, mas seus olhos pareciam muito mais tristes. Osmund percebeu, porém, que a bengala do velho continuava ali, encostada na mesa. Ainda sobre esta, Kalinin, que agora cumprimentava o homem com um respeito visível, depositava duas taças de vinho. Retornou, em seguida, ao balcão, dirigindo um breve e significativo olhar para Osmund. A mão esquerda tremia como o engenheiro jamais havia visto.

- O que você acha, Osmund? - Era a voz de Franklin. Percebeu que todos os seus colegas de trabalho o observavam, aguardando uma resposta.
Albert Osmund
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em Sex Out 26, 2018 8:41 pm
*O calor era desagradável. Ao entrar no Café Moscou, Albert deixa o chapéu e casaco na entrada e mais uma vez limpa a fronte com o lenço. Se estava sentindo aquele calor agora, como se sentiria nas selvas da América do Sul?*

*Ele estava distraído, enquanto tomava o café. Com o calor aumentando, ele afrouxa o nó da gravata, dá mais um gole e vira todo o conhaque de uma vez enquanto pensa... em nada. Em tudo. Sua cabeça lateja com o sangue pulsando em suas têmporas como um tambor. Como um exército em marcha. Sabia que mil pensamentos cruzavam sua mente, mas não conseguia se concentrar em nada que não fosse o pulsar do sangue.*

*É só quando Kalinin derrama o vinho que Albert volta a si, e por pouco tempo, pois a visita do recém chegado novamente o desestabiliza. Ele se levanta, de supetão quando a bebida é derramada, e se vê olhando para o espelho do bar. E ele vê mais e mais. Vê a mancha de vinho no balcão, se desenhando como uma árvore, e vê a si próprio. Curiosamente, estava de frente a um quadro que também representava uma árvore, e é desta forma que se encontrava. Atônito, com os braços abertos de frente ao tronco de uma árvore. Como que crucificado. E no espelho, via o estranho. Não como o homem que estava sentado no café naquele momento, mas o velho que ali adentrava. E o observava fixamente.*

*Ao ouvir Franklin, Albert não pode fazer nada senão balbuciar uma resposta improvisada.*


-Eu acho que você nunca esteve tão certo na sua vida, old chap.

*Ele se senta novamente, e pega o cachimbo para acendê-lo novamente. E é só quando tenta riscar o fósforo que percebe que sua mão tremia tanto quanto a de Kalinin. Ele olha o russo, com algo parecido com medo no olhar.*

-Amigo seu, Kalinin?
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em Sab Out 27, 2018 5:13 am
Kalinin observava disfarçadamente o belo homem sentado a uma de suas mesas. O desconhecido estava quieto, com a cabeça quase que completamente baixa. Erguia o olhar somente para beber da taça de vinho e para olhar ao redor de forma curiosa, com longos segundos dedicado a encarar Osmund. Quando acontecia, seus olhos se cruzavam intensamente. Osmund percebeu um belíssimo broche pendurado na lapela do casaco do homem. Retratava uma árvore grande que, mesmo à distância, Albert conseguia individuar facilmente: tronco grosso e nove ramos que se espalhavam uniformemente. Seus devaneios foram interrompidos pela voz de Kalinin.

- Nom. Amigo nom. Um conhecido, eu diria. Seu nome é...

- Balder. Meu nome é Balder.

Osmund viu, então, o mundo parar. Não metaforicamente. Aqueles que estavam ao seu redor, de Franklin e seus companheiros de trabalho passando pelos anciões bêbados do bar e por aqueles que simplesmente liam calmamente o jornal, se moviam em uma velocidade impossível. Eram lentos, suas atividades triviais acontecendo de forma quase invisível. Mãos que levantavam os copos terminariam tal movimento após vinte minutos, e virar uma página do jornal exigia quase meia hora. Mesmo a densa nuvem de fumaça de cigarro e charuto se movia lentamente, dando ao local uma aparência onírica. Do lado de fora, Osmund notava através das poucas janelas do local, o mundo seguia o mesmo. Notou, no entanto, que um velho homem adentrava o Café Moscou rapidamente, somente para ser acometido da mesma lentidão no momento em que seus pés tocavam o local.

Somente três pessoas agiam normalmente. Ele, Kalinin, que olhava por cima de seu ombro e o homem atrás de Osmund, que ele percebeu ser o belo homem misterioso. Ele tinha as duas taças em mãos. Pousou-a sobre o balcão e, sob o olhar atento de Osmund, passou a mão por sobre elas. O vinho rubro que as preenchia deu lugar a um líquido dourado, de perfume adocicado que despertava alguma coisa muito antiga no espírito de Osmund.

- Posso sentar-me?

Era impossível dizer não àquele indivíduo. Agora, de perto, Osmund sentia como se ele brilhasse como o sol do meio dia. Apesar de estar vestido de forma simples, sua presença parecia grandiosa, solene. A bengala que estava apoiada na mesa agora estava próximo à perna esquerda de Osmund, sem que o desconhecido a tivesse levado até ali.

- É um prazer conhecê-lo, Albert Osmund. - Olhou para Kalinin e realizou um aceno de cabeça. O dono do bar se retirou para a cozinha, onde trabalhavam seus lentos funcionários - Vou tentar fazer isto da forma mais simples possível.

A cabeça de Osmund estava perto de explodir. Todo o seu corpo suava. Nas veias o Sangue corria aparentemente ao contrário. O broche de árvore, na lapela, parecia se mover. Era como se pequenos mundos estivessem dispostos sobre cada um dos galhos da árvore, girando sobre si mesmos, coloridos e desafiantes.

- Me chamo Balder, Baldr ou Baldur. Me chamo também Phol ou Baeldaeg. O sangue que corre em tuas veias é o mesmo que corre nas minhas. Somos irmãos. Ambos somos filhos de Odin, O Que Tudo Vê. Venho em nome do Pai. Ele deseja vê-lo. E a bebida que está diante de você é o caminho.

Calou-se. Sorria. O mundo parecia confuso e diferente, mas o sorriso daquele homem era uma constante, um farol que guiaria qualquer um que estivesse em meio a uma densa tempestade.
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em Seg Out 29, 2018 2:26 am

-Meu pai...

*Ele olha o estranho, seu aparente irmão, olha, aterrorizado, o mundo congelado ao seu redor. Olha dentro de si próprio, para a enxaqueca que sentia e a pressão que acabaria por explodir sua cabeça. Albert fecha os olhos e comprime as têmporas.*

*E quando os abre de novo, dá um sorriso cansado. Podia ver agora. Ele era uma fagulha de eletricidade. Ele vivia e viajava dentro de um fio de cobre, e todo o mundo ao seu redor de movia como se submerso em melaço, se comparado com sua velocidade.*

*Ele via a árvore e muito mais do que a árvore. Eram galhos e raízes que a ligavam, mas era também mais. Eram cordas. Teias. Fios. Ela conectava o mundo, e o mundo se tornava menor por isso. Quando Albert vê, ele entende. E quando entende, sua cabeça para de doer.*


-Perguntar sobre meu pai era a garantia de uma bronca. De uma surra, nos piores dias.

*Albert mergulha um dedo na bebida dourada e começa a traçar um padrão ilógico no balcão de madeira. E o padrão começa aos poucos a ligar os copos, os guardanapos, garrafas. Tudo se tornava uno por aquela seiva mágica.*

-Eu sabia que havia dinheiro. O suficiente para uma casa. Para ser aceito em boas escolas sem maiores perguntas.

-Era um grande lorde? Um duque? O primeiro-ministro? E conforme fui crescendo, vi que ele não podia ser essas coisas. Era uma canção, uma nota de música no ar. Era a batida em código Morse de um telégrafo. Era uma engrenagem que não para de girar. Era o brilho do sol em uma gota de orvalho. Era a pólvora. Era o raio e a nuvem. A pena que flutuava em meio ao vento.

-Em dado momento, eu sentia que meu pai era tudo. Grande demais. Então por isso precisava deixá-lo menor. Precisava ligar todos os seus pontos desconexos, para que pudesse entendê-lo.

-E agora você aparece, se apresentando como meu irmão. Aparece com a aparência de um perfume e o cheiro de beleza



*Ele sacode a cabeça, como que saído de um transe, mas pega a taça e a ergue em um brinde.*

-Eu entendo muito pouco. E sempre preciso saber mais.

*E com um gole, sorve todo o conteúdo dourado.
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em Seg Out 29, 2018 8:22 am
O último som ouvido por Osmund foi a intensa gargalhada de Balder, que ecoou pelo bar silencioso. As pessoas ali dentro ainda se moviam lenta e mecanicamente enquanto Osmund bebia do conteúdo da taça. Era extremamente doce, mas não enjoativo, e o engenheiro sentiu notas de mel, de flores e de outras coisas que desconhecia. A nível de álcool era uma bebida forte, o que forçou Osmund a fechar os olhos brevemente para digerir seu conteúdo. Quando os abriu, viu Balder diante de si. Pouco havia mudado na aparência do homem. Parecia mais imponente, quase divino, sensação aumentada pelo ligeiro halo de luz dourada que reluzia atrás de sua cabeça.

Não teve tempo de fazer novas perguntas. O mundo ao seu redor se tornou escuro e rodopiante por breves segundos.


Londres: Capital do Império. Asgard10

Quando abriu os olhos pela segunda vez, se viu diante de uma paisagem absurda. Estava diante de um abismo imenso, com nuvens cinzentas se acumulando abaixo de seus pés. Notou que não era o cume de uma montanha, mas uma planície que terminava em um imenso vale cujo fundo era impossível de se ver, pois estava coberto pelas nuvens. Mas, diante de seus olhos incrédulos, se apresentavam outras imensas montanhas e chapadas, mais ou menos dispostas em semicírculo. No meio deste, nada era visível, mas Osmund tinha a sensação que havia feito todo o caminho até ali passando por aquelas nuvens pesadas. Diante dos olhos do engenheiro, todavia, uma imensa cidade se descortinava, branca, prata e dourada, reluzente sob um sol claro, mas não intenso. Havia torres, palácios e catedrais. Havia campos de batalha e oficinas, mercados e estruturas semelhantes a hangares de navios. Pássaros voavam sobre sua cabeça, tecendo movimentos uniformes. Mas cavalgavam o ar, também, inúmeros lobos de enormes proporções, sobre os quais mulheres vestidas em armaduras gloriosas e azuladas brandiam espadas.

Ouviu rumores de batalha e de treinamento. Eram onipresentes.

No céu, quase ofuscadas pela luz do sol, flutuavam também imensas espirais coloridas, que Osmund intuía serem mundos distantes e importantes. Giravam ao redor de si mesmas, em um movimento lento e milenar, mas que o engenheiro conseguia entender perfeitamente. Era o Universo que se abria diante de seus olhos, com grande parte de suas regras de funcionamento acessíveis. Era grandioso, aquele momento. E, no meio da movimentação, Osmund sentiu-se ligado a um número enorme de pessoas. Quando voltou a olhar para o penhasco diante de si ainda não enxergava nada além das nuvens. Mas, pouco a pouco, pontos de luz azulada começaram a ultrapassar a espessura das nuvens. Osmund também brilhava em uma tênue luz azul. Os pontos estavam distantes dele, mas eram, de alguma forma, parte de Osmund. Era como se existissem em um outro lugar, distante, talvez no mundo que Osmund chamava de casa. Pessoas ou locais com os quais ele se sentia vinculado, ainda que não os visse. Sentiu-se parte de algo muito maior do que si mesmo, mas que confirmava a sua própria maneira de ver o mundo: nada sobrevive em isolamento.

As torres daquela cidade escavada no cume das montanhas e nas planícies no alto das chapadas rasgavam o céu com elegância e leveza. Havia uma aura de poder e grandiosidade ali, mas também uma palpável sensação de fatalismo. Osmund sentia, e nisso sentia uma certa tristeza, que tudo aquilo acabaria, se tornaria pó: todas as obras de arquitetura que seus olhos enxergavam, mas também toda a política, filosofia e artes que existiam ali e que ele ainda não tinha visto. E isto lhe dava uma profunda e inexplicável tristeza. Não obstante, aquele local parecia eterno. Parecia impossível de destruir, e um certo alento tomou conta do coração de Albert. Em um breve instante intuiu que aquela era a contradição central do lugar: fadado à destruição mas, aparentemente, grandioso demais para ser destruído por qualquer força militar imaginável.

O vento soprava constante, levantando as vestes e os cabelos do engenheiro. Sentia um perfume similar àquele que sentiu na bebida oferecida por Balder. Balder, aliás, não estava em lugar nenhum à vista. Osmund se girou, procurando aquele que se dizia seu irmão. Nada. Apenas uma estrada atrás de si mesmo, que conduzia, intuía o engenheiro, a uma das montanhas próximas, na qual se assentava um imenso castelo fortificado, tão brilhante que seus detalhes eram impossíveis de determinar àquela distância. Nesta paisagem, havia somente um homem. Caminhava pela estrada, aproximando-se lentamente de Osmund. Pareceu ao homem que aquele que caminhava o fazia lentamente de propósito, como forma de permitir a Albert que observasse ao redor, que aproveitasse aquela visão que estava destinada a não durar.

Osmund não soube discernir quanto tempo permaneceu ali, observando aquele belíssimo lugar, antes que o homem se aproximasse dele. Mas soube dizer exatamente quando o homem estava prestes a tocá-lo. E o fez, pousando o braço esquerdo sobre os ombros de Osmund. Nada disse. Manteve-se calado, observando a paisagem exatamente como fazia o engenheiro. Foram longos segundos até que aquele homem de cabelos brancos que alcançavam os ombros, pele clara e expressão austera, altura imponente e presença incompreensível falasse. Ele não dispunha de um olho, havia somente um tecido com estranhas inscrições que cobria o local onde o órgão deveria estar. Vestia-se com um camisão de estilo medieval branco e calças escuras. Estava descalço. Não era particularmente forte ou imponente fisicamente, era como se a idade se fizesse sentir, embora Osmund não conseguisse discernir quantos anos tinha. Mas tinha um físico de guerreiro, com músculos fortes e bem marcados. O único olho era cinza como as nuvens que estavam diante dos dois. A barba grisalha lhe dava um ar de seriedade, mas a boca grande e expressiva concedia um tom de sarcasmo à figura. Osmund se sentiu protegido sob seu braço. Sentiu que poderia perguntar qualquer coisa, pois nada escapava ao conhecimento daquele homem. Sentiu que poderia perguntar qualquer coisa, pois é a função de um Pai responder às perguntas que os filhos têm sobre o Mundo. O homem tinha cheiro de mel e de ozônio, de flores, de tempestade e de relâmpagos. De corvos. De Magia e Profecia. Tinha cheiro de raízes profundas e de conhecimento antigo.

- Esta é Aasgard. Tua casa. Teu legado. Tua herança. Teu Destino.

O homem girou a face, sem retirar o braço dos ombros de Albert. Olhou para o engenheiro. Em seus olhos, Osmund viu a vastidão do Universo, tudo o que foi, era e seria.
Albert Osmund
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Londres: Capital do Império. Empty Re: Londres: Capital do Império.

em Ter Out 30, 2018 2:18 am
*Albert nunca soube explicar, mas desde criança, a ideia de Paraíso, ao menos como contavam na igreja, parecia... errada. Ele não conseguia ver valor nela, nenhuma virtude. Mas era agora, naquele momento, sentado na colina verde de frente para aquela vista magnífica, finalmente conseguia por em palavras o que sentia: ao Paraíso, faltava glória. Em toda a criação faltava glória, porque aquele local a havia pego toda para si.*

*Ele se senta e estica as pernas. O vento chega até suas narinas e ele respira fundo. Era frio, mas isso trazia uma sensação límpida, de pureza, revigorante. E enquanto aproveita a vista, e as sensações, sente que seu Pai se aproxima. E sabia que era seu Pai sem precisar se virar. Sabia, a partir daquele momento, que sempre tivera um. Que eram completamente diferentes, pois Albert não era um dos guerreiros vikings que desembarcara na Inglaterra mil anos antes. Mas eram iguais, os dois. Em meio a todas as diferenças, sentia uma fagulha em comum com o velho ao seu lado. Albert sabia que o Pai era imenso e vasto, e que com isso seu filho era uma representação sua. Talvez como o Pai fosse durante um dia ao mês. Ou por ano.*

*Sentir a mão calejada e nodosa no seu ombro lhe traz um conforto indescritível. Não é um laço emocional, ele percebe. Albert não se vê prestes a cair em prantos e se abrir ao pai ausente, mas sente que agora, com aquela mão ali, estava completo. Não, não completo, mas agora tinha dentro de si uma peça fundamental que não estava lá antes. A presença de Odin era como a agulha de uma bússola em seu coração. Agora ele tinha propósito e rumo. Ainda sem olhar, eles passam alguns minutos em silêncio, pois ambos sabiam que diziam muito sem precisar de palavras. Osmund prepara e acende seu cachimbo mais uma vez, e após algumas baforadas, passa para o pai ao lado, quando enfim o olha.*


-Asgaard...

*No único olho do Pai, ele vê um poço. Um poço cuja água matava toda a sede sentida pela mente, mas apenas um sacrifício do corpo permitia que dele se bebesse. Encarar Odin em seu olho era como beber deste poço, ainda que uma única gota. Albert sabia agora que, para onde quer que fosse, sua existência jamais seria a mesma.*

-Por que tal lugar existe? De quem o herdarei, e para qual fim?

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em Ter Nov 06, 2018 5:57 am
O velho homem toma o cachimbo com a mão esquerda, conduzindo-o à boca e dando uma profunda tragada. Quando expira, a fumaça parece se prolongar infinitamente, cobrindo até mesmo o belíssimo panorama que se descortinava diante de Osmund. Com o único olho cinzento Odin observa a fumaça. O vento carrega seus cabelos claros, dando-lhe um ar particularmente mortal, ainda que Osmund soubesse, e sobretudo sentisse, que estava diante de um Deus. O Senhor dos Mistérios gira o rosto na direção de seu filho. Osmund estava correto: não havia sentimentalismos, nenhum grande rompante emotivo. Mas Odin o olhava com respeito e uma certa deferência. Todo o local cheirava a flores, mel e chuva fresca de verão e quando Odin abriu a boca para responder às perguntas de Osmund, o vento pareceu soprar ainda mais forte. Sons de sinos podiam ser ouvidos na cidade ao longe, mas Odin nada disse.

Diante deles, no imenso vão geográfico que os separava de Asgaard, o sol pareceu brilhar com mais força, perfurando as nuvens escuras que separavam aquele lugar do que quer que existisse abaixo dele - e que Osmund intuía ser o mundo no qual havia vivido até agora. As nuvens também brilhavam, emitindo uma gloriosa coloração dourada. Em pouquíssimo tempo, haviam começado a girar em torno de si mesmas, como se um grande tornado estivesse em formação. Do centro das nuvens um brilho multicolor, inicialmente pequeno, ganhava força e tamanho. O resultado final era um evento que poderia por lágrimas nos olhos do mais duro dos homens: um grande e largo arco-íris se prolongava, formando algo muito similar a uma ponte. Não era um arco-íris simples. Brilhava intensamente, emanando faíscas em tons de verde, prata e dourado. Tão veloz quanto veio se foi, retornando às profundezas das nuvens escuras, que voltaram a ser totalmente imóveis.

Osmund distraiu-se tentando observar nuances do mundo abaixo, a ponto de não notar, inicialmente, que flutuando sobre o penhasco, a meia distância dele e de Odin, estava uma belíssima mulher.

Londres: Capital do Império. Yuly-a10

Estava sentada sobre um belíssimo alazão de cor escura, com músculos definidos e face bondosa. O animal cavalgou o ar como se estivesse sobre a terra firme, aproximando-se da borda onde estavam sentados Osmund e Odin. Uma vez instalado ali, a mulher desceu do animal. Era alta. Dispunha de longuíssimos cabelos prateados, pele alva e olhos profundamente verdes e enigmáticos. Vestia-se com peles brancas e um longo vestido prateado. Os seios e ombros eram protegidos por partes de uma armadura medieval, mas incrivelmente elegante, um objeto que jamais poderia ter sido forjado por quaisquer mãos humanas. Não tocava o chão enquanto caminhava. Flutuava ligeiramente, e o sol atrás dela dava-lhe uma imagem muito mais divina do que aquela de Odin. Era bem feita de corpo, com uma estrutura de combatente nítida, mas era ainda mais bela de rosto, com feições delicadas e finas, ainda que austera. Antes de se dirigir a Odin, deteve-se a encarar Osmund. O fez por longos segundos, que pareceram durar uma eternidade. Nada disse, não deixou à vista nenhuma expressão em particular. Apenas observou o mortal diante de si. Em seguida, voltou-se para Odin, diante do qual se curvou respeitosamente. Ergueu-se e abriu uma bolsa de couro que carregava ao lado do corpo. Retirou um objeto e, com as duas mãos estendidas, o entregou a Odin.

Era a coisa mais bela que Osmund já havia visto.

Uma belíssima coroa, feita de metal, cristais e safiras grandes como a unha do dedão de Osmund.

Londres: Capital do Império. Downlo10

Odin a tomou em mãos com um cuidado exagerado. Osmund aprendeu, subitamente, uma informação sobre seu Pai. Seu olho brilhava ao observar o objeto, não um brilho de cobiça ou avareza, mas de reverência profunda. Odin amava objetos e artefatos de todos os tipos. Mas aquele não o pertencia. O Deus levantou-se e, sem dizer uma palavra, pousou-a sobre a cabeça de Osmund. Era leve como um chapéu.

E, quando Odin retirou as mãos, o mundo mudou.

Osmund viu, assombrado, toda a Europa abaixo dele. Conseguia discernir os contornos de todos os reinos do continente, como se voasse sobre o planeta. Sobre Midgard. Sabia que o nome daquele local era Midgard, e não Terra. Viu pontos verdes brilhantes espalhados. Bruxelas, Paris, Oslo, Estocolmo. Moviam-se lentamente enquanto Osmund sentia que a conexão com eles aumentava velozmente. Eram pessoas. Eram como ele, filhos dos Aesir. Sabia que os Deuses se chamavam Aesir. Era como se a coroa respondesse às suas perguntas. Aliás, ela tinha um nome. Se chamava Coroa de Felmar, em homenagem a um grande herói da antiguidade, também filho de Odin.

A mulher ainda observava Osmund. Desta vez, Odin prosseguiu na fala.

- Você pode ir, Lenneth. Agradeço os seus serviços.

Novamente a mulher nada disse. Curvou-se, montou seu cavalo e partiu, cavalgando os céus em direção a Asgaard. Ainda dirigiu um último olhar para Osmund, um olhar que lhe deu calafrios.

- Eu acredito que ela gosta de você. És afortunado. - Interrompeu Odin, antes de tornar a sentar-se.

Osmund percebeu, repentinamente, que de fato tinha um chapéu elegante em estilo inglês sobre a cabeça.

- Agora, tuas perguntas. Este lugar existe somente porque eu existo. Porque os Deuses existem. É esta a nossa morada. É daqui que observamos os eventos em Midgard e nos organizamos para a eterna batalha contra nossos ancestrais, os Titãs e seus descendentes. E será aqui que será travada a última das batalhas, a mãe de todas as guerras. Ragnarok. Aqui viveremos após a batalha. E, se eu não sobreviver, tu e teus irmãos a herdarão. Serão os responsáveis por reconstruí-la. Vossas vozes e mãos guiarão os Nove Reinos em direção a uma nova era de Paz. Pois a minha existência é frágil. Mas Asgaard existe desde o início dos tempos. E continuará existindo mesmo em minha ausência.

Odin, agora, olhava para seu filho. Sorria levemente.

- Para qual fim, você me pergunta. Por acaso não é um fim em si a simples manutenção da existência deste lugar? De qualquer forma, Asgaard brilha como farol em meio à escuridão do Cosmos. É para cá que migram as almas daqueles que dedicaram suas vidas ao heroísmo, à coragem e ao Dever. Sem Asgaard, para onde migrariam? Estariam perdidos para sempre na Escuridão da não existência. Asgaard existe pois tais espíritos existem. Ou talvez seja o contrário.

O semblante tornou-se sério.

- És meu filho, Albert Osmund. De ti muito será exigido. Muito. Não há descanso para um filho de Odin, o Viajante, o Caolho, Aquele que Tudo Sabe. És filho deste meu aspecto, enquanto outros são filhos da Guerra ou da Magia. Mas tu, Albert, a tu estão destinados todos os mistérios do mundo. Tua falha em aprendê-los será a nossa falha em sobreviver ao Ragnarok.
Albert Osmund
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em Ter Nov 06, 2018 9:07 pm
*Não restava nada a Albert senão observar estupefato. Não havia palavras, nem mesmo um comentário sardônico ou bem humorado para fazer jus à situação. E as poucas palavras que lhe restavam ao ver o mundo e a ponte de Bifrost (e sabia que seu nome era Bifrost) sumiram de vez quando vê a Valquíria. E quando seus olhares se cruzam, Albert consegue se lembrar apenas de gelo. Não uma tempestade fria e cruel de inverno, mas sim de um gelo claro e transparente de uma manhã primaveril, refletindo a luz do sol como um cristal. Belo, impossivelmente belo. E pelo tempo em que tinha este pensamento, ela já tinha deixado o ambiente. Lenneth...*

*E a coroa... A coroa era tudo com que ele havia sonhado. Ou então havia despertado algo nele. O fato é que a coroa havia aberto as portas da sua consciência para patamares que ele não imaginava possíveis. Ou estavam lá o tempo todo. Rindo e sacudindo a cabeça, Albert se lembra de uma frase que escutara há muito tempo, mas que também não sabia que tinha escutado até este momento.*


-Frederico, o Grande disse que uma coroa é apenas um chapéu que não protege da chuva.

*Ele olha para o lago na beira do qual estavam sentados, e seu reflexo confirma o que estava sentindo. Ele usava uma coroa, mas em sua cabeça estava um chapéu-coco, idêntico ao que colocara quando saiu do trabalho mais cedo (mais cedo? Ou há uma eternidade?); era uma cartola; um chapéu Panamá. A coroa era o que quer que sua mente acreditasse enxergar naquele momento. Fascinante.*

*Ele fica em silêncio quanto ao comentário sobre Lenneth. Parte porque temia nutrir esperanças por ser verdade, e em parte porque sabia que seu pai, apesar do único olho, era dono de uma visão imensa. E saberia exatamente o que ele sentia. Ao invés disso, Albert escolhe comentar sobre o próprio pai, e o mundo abaixo.*


-É por isso que és o rei dos deuses, não? Talvez Thor seja mais forte. Talvez Tyr tenha mais habilidade com as armas. Mas nenhum de nossos parentes conseguiria ver o mundo da mesma forma. Loki, talvez, mas ele estaria absorto demais no próprio desejo de caos. Se Thor descesse para Londres neste momento, iria reclamar de algo trivial como o fedor! Mas o Pai de Todos veria o Coração do Império pelo que é: uma fonte pulsante de conhecimento e magia! Sim, magia, pois nenhum feitiço das lendas antigas previa o que a ciência moderna poderia fazer. E o que é a ciência se não magia que se sabe explicar?

*Ele gargalha e respira fundo. Como sabia tanto sobre sua família? Felmar, supunha. A voz do irmão há muito falecido era um sussurro constante em sua mente, lhe inundando com informação a cada segundo, mas também era algo a mais. Algo dele despertava na presença de Asgaard. O mundo jazia abaixo dele, mas ao mesmo tempo, no horizonte. O sorriso em seu rosto, e a expressão, era de quem vivia pela qualidade dos desafios à frente.*

-Passei minha vida adulta querendo deixar o mundo menor. E agora descubro que ele é ainda maior do que pensava.

*Ele põe as mãos nos braços do pai de forma calorosa e depois se põe de joelhos. Reverente, mas ainda exultante.*

-É meu juramento perante o solo de Asgaard. Perante sangue Aesir e Vanir. Não haverá segredo no mundo a ser deixado em paz enquanto a vida queimar em meu corpo.

*Osmund se levanta. Seus olhos eram verdes, ao contrário do pai, mas tinham o mesmo brilho. Uma chama de paixão pelo descobrimento.*

-Porque é esse o legado de minha família.

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em Qui Nov 08, 2018 4:47 am
Odin se levantou. Olhou por algum tempo em direção ao horizonte. Em seguida, voltou-se para Osmund e sorriu. Um sorriso cheio de rugas, de histórias e de batalhas sobre as quais Albert nada sabia. Não era importante. Teriam tempo.

- Estou satisfeito. - Girou-se, como se para retornar à Asgaard. - Sobre Frederico, Filho de Balder, acredito que tenha mudado de opinião desde que chegou a Asgaard.

Sorriu, novamente.

- Como podes ver, Asgaard é a Casa dos Grandes. Não me decepcione.

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

Quatro anos tinham se passado velozmente. Osmund continuava no seu emprego, utilizando-se das viagens para descobrir ainda mais sobre Midgard. Felmar o ajudava: todas as vezes em que Osmund pisava em uma cidade, a Coroa lhe revelava segredos escondidos e passagens esquecidas. O mundo se abria para Albert como uma flor no início da primavera, revelando-lhe todos os seus aromas, vozes e pensamentos.

Quando retornava a Londres, se ocupava de afazeres para os Aesir. Nada de difícil ou muito especial, mas Osmund intuía que não tardaria para que as grandes missões chegassem. Por vezes comprava um antigo artefato dinamarquês em um leilão. Fazia expedições às florestas e montanhas para descobrir pergaminhos em templos que sequer sabia que existia, e que pareciam existir em Midgard e em outros planos ao mesmo tempo. Estes itens recolhidos eram entregues a Lenneth, nas raras vezes em que descia à Asgaard. Era de poucas palavras, séria e compenetrada. Era um soldado.

Nos intervalos, Osmund sonhava com Lenneth. Sempre o mesmo sonho. Ele não conseguia impedi-la de cair do alto de um profundo penhasco. Osmund sonhava, também, com uma jovem mulher de intensos cabelos vermelhos.

Ainda em Londres, em uma das tardes em que caminhava pelo Tâmisa, teve a intuição de estar sendo observado. Foi o seu primeiro encontro com outro Scion. A mulher, uma elegante senhora da alta sociedade, de modos refinados mas de coração gentil, era filha de Héstia, deusa grega do Lar. Se chamava Elizabeth Briggs, e durante os longos chás e conversações, Osmund pode aprender muito sobre as próprias capacidades.

Por fim, em uma manhã de verão de 1852, Osmund acordou e soube imediatamente que Lenneth viria. Tinha a disposição algumas horas antes de começar a trabalhar, de modo que se lavou, arrumou-se e deixou sua casa em direção a um café na região central de Londres, onde sabia que encontraria a Valquíria. E não se decepcionou. Sabia que quando a sineta da porta tocou era por causa de sua entrada. Ouviu cada um de seus passos. Sentiu seu perfume antes de ver diante de si aqueles grandes olhos acinzentados como as marés do norte. Lenneth sempre se vestia em maneira elegante, mas prática, sem as longas saias das mulheres londrinas. De fato, chamava a atenção, mas parecia tão compenetrada que ninguém ousava questioná-la. Tinha em mãos passagens de trem e de navio.

- Você está indo para a Irlanda. Lorde Odin está preocupado com avistamentos de bestas por parte dos habitantes de Dublin. Ele acredita que filhos de titãs possam ter forçado uma passagem em Midgard. Ele requer que você parta imediatamente.
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em Sex Nov 09, 2018 2:43 pm
*A vida era boa. Seguia sendo boa nos últimos quatro anos. Dor, angústia, todas estas coisas seguiam existindo, mas ainda assim a vida era boa, pois tudo se compensava.*

*A entrada de Lenneth no café é mais radiante do que a luz do próprio Balder. E Albert pode fazer pouco, senão nada para se controlar enquanto a observa paralisado, até que a missão entregue por ela rompe o feitiço.*


-Dublin... Os irlandeses mal saíram de uma fome pavorosa e agora têm que lidar com as crias dos Titãs. Foram atraídos pela miséria, eu me pergunto. Ou a miséria veio pela presença deles? Talvez seja uma coisa para se descobrir enquanto estiver lá. Tomarei algumas providências e partirei ainda hoje.

*A expressão de Osmund muda naquele momento. Um pouco mais solene, imensamente mais melancólica.*

-Diga-me, Eleitora dos Caídos... Será hoje o dia em que me acompanhará para um café ou vai mais uma vez me deixar em Midgard, seu serviço concluído?
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em Sab Nov 10, 2018 5:12 am
Lenneth responde de imediato. Demonstrando notável conhecimento dos gestos de Midgard, levanta a mão para atrair o garçom. "Dois cafés", ordena, antes de voltar as suas atenções a Osmund. O garçom ainda permanece, por alguns segundos, a encarar encantado a mulher, antes de perceber o quanto estava sendo impertinente. Se vai, com passos apressados.

- O Senhor está certo em ambas as teorias. Os Fomoris irlandeses são atraídos pela fome, uma companheira histórica daquele povo. Ao mesmo tempo, as medidas desesperadas que as pessoas tomam em períodos como este também atraem tais entidades. Inversamente, eles podem ser atraídos por um objeto ou por uma pessoa, contaminando toda a zona ao redor. Onde um adentra, os outros seguem.

O garçom trouxe os cafés. Manteve o rosto baixo, fixando o chão. Lenneth bebeu o líquido e imediatamente fez menção de expressar seu descontentamento. Empertigou-se e engoliu o café sem reclamar.

- Houve relatos sobre bestas aladas que podem ser vistas, a partir do entardecer, sobrevoando as torres dos templos mais altos de Dublin. Não nos foi reportado nenhum ataque. As criaturas, segundo os relatos, vagam por partes da cidade, como se estivessem procurando algo. Desnecessário dizer que a situação está se tornando inconveniente. Além disso, Lorde Odin acredita que o que aquelas bestas procuram seja algo ligado a ele: uma antiga arma que ele perdeu nos confins das Ilhas, quando estas ainda eram jovens, em um dos seus combates contra a Mãe dos Corvos.

Osmund percebia que Lenneth falava olhando para ele mas, na realidade, não o encarava. Era como se tivesse observando algo atrás dele, desviando o olhar de maneira proposital.

- Devo partir para Asgaard em breve, há outras tarefas que requerem minha atenção. Eu agradeço pelo café. Há alguma outra coisa que posso fazer pelo Senhor?
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em Seg Nov 12, 2018 6:44 pm
*Albert começa a tomar nota mental das informações que Lenneth lhe passava enquanto sorve o café quente, mas não demora muito para que seus pensamentos fiquem descarrilhados. Estaria ela o observando enquanto fingia que não o fazia? Ou olhando algo além? O café era uma gentileza, mostra de interesse ou formalidade? Quatro anos depois, e a Valquíria continuava indecifrável como no dia em que a conhecera. E ele não precisa nem mesmo usar o Olho de Vidro de Odin para saber que seu Destino estava intrínseca e dolorosamente ligado ao dela. Albert tinha apenas medo de pensar (e descocbrir) a natureza desta ligação.*

-Criaturas aladas e uma relíquia da guerra contra os Tuatha... Bem, pelo menos sei que a viagem não será tediosa. Você tem meus agradecimentos eternos, e espero lhe ver de novo em algumas semanas.

...

-Há várias coisas que poderia fazer por mim, poucas que eu teria a coragem de lhe pedir. Boa fortuna, Eleitora dos Caídos.

*Ele se despede efusivamente da Valquíria, paga os cafés e se dirige para casa. No pequeno apartamento, arruma uma mala pequena com algumas mudas de roupa, seu violino, e, porque nunca é bom estar desprevenido, um rifle, que carregava desmontado em uma maleta e um revólver na sua pessoa. Não eram armas das sagas de antigamente, mas as crias de titã não pareciam se importar com a forma pela qual morriam. Ele olha para as passagens providenciadas por Lenneth e segue para a Estação Waterloo, e para seu Destino.*

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em Qua Nov 14, 2018 7:39 am
Pareceu a Osmund, por um breve segundo, que Lenneth se sentia incomodada com o epíteto de "Eleitora dos Caídos". A Valquíria, porém, nada disse, limitando-se a um breve olhar de desaprovação. Ainda diante da resposta de Osmund, a mulher se levantou, atraindo a atenção de todos no salão que, porém, não eram capazes de observá-la por muito tempo. Fitou-o por alguns segundos, um olhar que lhe causou calafrios na alma, antes de se despedir.

- Eu parto, agora, pois me convoca Lorde Odin. Desejo-lhe uma boa viagem.

A mulher começou a deixar o café, com passos decididos. Antes de partir, ainda na porta, voltou-se para olhar uma última vez para Albert. O engenheiro teve a nítida sensação de ver, no lugar da face de Lenneth, um outro rosto, desconhecido mas extremamente familiar.

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

A viagem de trem de Londres até Southampton foi particularmente tranquila. Albert pode observar a mudança da paisagem no seu caminho rumo ao sul, sempre acompanhado de um corvo que parecia seguir o comboio e se empoleirar nas árvores do caminho. Do porto, embarcou em um vapor que o levaria a Dublin. Cruzar a faixa de mar que separava as ilhas foi veloz e sem eventos particulares, com Osmund aproveitando para revisar alguns contratos de trabalho. Precisou dormir por uma noite no navio, tendo embarcado ao entardecer, e durante seu descanso sonhou novamente com Lenneth. A Valquíria aparecia, desta vez, como um personagem terrível, dona de três faces diversas, mas que representavam, de forma unânime, a Morte.

Havia já estado a Dublin e conhecia a cidade. Lenneth, ou Odin, teve o cuidado de reservar também um quarto no Hotel Excelsior, no centro da capital. Dublin era mais fria do que Londres, mas muito menos monocromática e infinitamente menos poluída, de forma que o ar que entrava pelas janelas do quarto rejuvenescia os pulmões do engenheiro. Colocou seus poucos pertences no armário e preparou-se para deixar o hotel, talvez para realizar um giro pela cidade e começar a ter alguma impressões sobre o caso que lhe fora entregue. Não precisou, porém.

Ao olhar pela janela, notou que alguns transeuntes estavam parados, apontando admirados para as torres da Catedral de São Patrício. A maioria das pessoas seguia seu rumo, inconscientes ao estranho evento que se desdobrava. Felmar já havia avisado a Albert, através da Coroa, que quanto mais fortes fossem os Filhos de Titãs, mais estes conseguiam influenciar a realidade, tornando possível que pessoas comuns percebessem sua presença. Aparentemente era o que acontecia agora.

Erguendo os olhos, Osmund pode vê-los. Eram não mais que sombras escuras, algumas que pareciam ter asas e outras não, que giravam ao redor da torre da Catedral. Outras sombras estavam de pé no teto, movendo-se lentamente. Osmund percebeu que, enquanto ele os via com clareza, os Filhos pareciam desaparecer ocasionalmente da visão dos mortais, o que os deixava desnorteados. Divisou também, em meio à população, que uma jovem mulher vestida em azul escuro e com intensos cabelos vermelhos se desviava dos transeuntes, caminhando em direção do Templo.
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em Qui Nov 15, 2018 6:27 pm
*Durante a noite no navio, o sonho com Lenneth foi o suficiente para despertar Albert. Insone, saiu para caminhar no convés para por seus pensamentos em ordem. Até que, após alguns instantes, volta seus pensamentos para a coroa na sua cabeça.*

-Felmar... Em vida, você conheceu Lenneth?

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

*Ao aportar na Irlanda, Osmund não consegue deixar de sentir uma certa... pressão no ar, uma espécie de peso nos ombros. Sabia que o desconforto duraria enquanto permanecesse na Ilha Esmeralda, afinal, era duas vezes rejeitado no lugar: como inglês, e como Aesir.*

*Já no centro de Dublin, a perturbação na catedral se mostra, de certa forma, um alívio. Pelo menos não precisaria perambular pela cidade sem rumo. O que Felmar havia dito uma vez? A vida de um Herdeiro nunca era monótona.*

*Albert anda no meio da multidão curiosa com uma certa parcimônia, calmamente andando com sua bengala de cavalheiro enquanto limpava o monóculo na lapela do paletó. E quanto o encaixa no olho, não era Mr. Osmund, engenheiro e estenógrafo, mas Albert Odinsson.*

*O monóculo fora de Odin, eras atrás. Em verdade, era um olho de vidro, criado pelos anões de Svartalfheim como um de seus muitos presentes ao Pai de Todos, que ocasionalmente o usava quando não queria aparecer como um caolho em Midgard. E este simples uso do artefato o deixou com um resíduo da magia da Odin, de forma que Albert o usava como um foco para feitiços simples. E ao enxergar através de sua lente com vidro acinzentado, Albert vê pelo Olho Sem Pálpebras [Magia 1]. Vê as Crias dos Titãs com clareza, vê o Destino, os fios traçados pelas Norns em todo o local, e vê o lugar da mulher de azul no mundo, e enfim para ao seu lado, fazendo um leve cumprimento com o chapéu e depois colocando as duas mãos sobre a bengala.*


-Madame.
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em Sex Nov 16, 2018 7:39 am
Felmar havia, sim, visto Lenneth em pessoa algumas vezes. As relações entre os dois, porém, eram mínimas. Felmar, Filho de Odin, caminhou entre os mortais em um período particularmente complicado das relações dos Aesir com o restante da Europa. Tendo sido um navegador e saqueador no século IX, suas ações eram frequentemente baseadas na violência e na destruição, razão pela qual colaborou, na maior parte de sua vida, com a face mais violenta das Valquírias de Odin. Ao lado de Hrist, mais velha das três irmãs, trouxeram terror às populações litorâneas da Inglaterra e França. Felmar não demonstrava nenhum arrependimento de suas ações, e Osmund sabia que ele ainda existia em Valhalla. No entanto, mesmo para alguém violento como ele, as ações de Hrist eram consideradas excessivas. Se lembrava de ter presenciado, uma vez, uma discussão entre Lenneth e Freya, Deusa Mãe dos Vanir e comandante das Valquírias, acerca da postura de Hrist.

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

O Olho sem Pálpebras revela a Osmund um mundo vibrante, ainda que razoavelmente assustador: as sombras que voavam acima da Catedral de São Patrício eram, na verdade, enormes dáctilos reptilianos, de couraça marrom escura cheia de pústulas. As asas eram coriáceas, com buracos que evocavam antigas batalhas. As faces eram ligeiramente humanas, distorcidas em agonia e com bicos longos e escuros, repletos de dentes que se tornavam visíveis quando emitiam seus horríveis grunhidos. Os corpos das criaturas também recordavam, vagamente, corpos humanos. Eram cinco, os Filhos de Titãs. Quatro sobrevoavam incessantemente as torres, aparecendo e desaparecendo diante dos olhos dos mortais. Apenas um permanecia de pé sobre o teto da Catedral, seus grandes olhos amarelados observando a vizinhança, como se vigiasse a aproximação de eventuais inimigos.

O Olho não revela nenhuma particularidade sobre os mortais presentes, mas concede a Osmund a intuição de que algo grande e potente se refugiava na Igreja. Haviam fios que ligavam o que quer que estivesse ali, pois Osmund não tinha certeza de que se tratava de um ser vivo, uma entidade qualquer ou um objeto, diretamente aos Mundos Superiores. Osmund sentia a vibração fria e furiosa do Panteão ao qual pertencia, ainda que não sentisse uma vinculação imediata com Asgard.

A mulher, por outro lado, brilhava em dourado bem diante dos olhos de Osmund. Era claramente uma Herdeira, e a sensação que o engenheiro tinha era de que aquela mulher era extremamente capaz em tudo o que fazia e o seria em tudo o que desejasse fazer. A impressão mais forte, entretanto, era de que a Guerra representava sua afinidade, e Osmund teve a sensação de que ela dispunha de armas escondidas ou de que era capaz de conjurá-las se assim desejasse.

Aproximou-se e saudou a mulher.

Ela não desviou os olhos da torre sequer por um segundo. Tinha uma expressão altiva e autoritária, com olhos azulados particularmente violentos. Respondeu a Osmund sem observá-lo, mas começou uma lenta caminhada em direção à Catedral. Osmund percebeu que, antes de começar a se mover, a mulher girou, por três vezes, um broche de ouro e safiras que carregava no lado direito do peito. Mais uma vez o engenheiro sentiu o Destino se agitar ao seu redor, revelando-lhe que a mulher estava ligada a mortais como ele havia aprendido que era possível, mas como ainda não havia acontecido com ele. Os dáctilos passaram a voar mais rápido pelo céu azul. Pareciam agitados, como se intuíssem a aproximação dos Herdeiros.

- Você é um aliado ou um inimigo? Podes lutar? Se não puder se defender mantenha-se distante. - Perguntou e ordenou enquanto seus passos cruzavam a última estrada que a separava das portas da Catedral.
Albert Osmund
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em Sex Nov 16, 2018 12:15 pm
*A mulher era... interessante, isso era inegável. Osmund começa a andar na direção da catedral ao seu lado, e assume uma expressão estranha ao ouvir suas perguntas, para depois olhar para a própria bengala na mão. Albert não se sentia em um romance barato a ponto de ter uma lâmina oculta nela, mas era de madeira sólida com uma cabeça de metal. E tinha seu revólver. Americanos podiam ser broncos e avessos à civilização em geral, mas era inegável que eram bons fabricantes de armas.*

-Acredito que alianças não devam ser declaradas de forma tão levianas, não? E ainda assim não vejo motivo para sermos inimigos. *Ele olha para o topo da catedral.* Certamente vejo motivos para lutarmos juntos agora.

-E eu suponho que os Aesir não gostem que seus filhos não saibam lutar. Ainda que eu não seja particularmente predisposto a isso...

*Ao se aproximar da igreja, já longe dos olhares curiosos, Albert retira seu Colt do paletó e o monóculo do rosto. De forma meticulosa, ele o põe em cima do cano da arma, e parece encaixar perfeitamente, atuando como uma mira para a arma. Havia, afinal, mais de uma maneira de se aproveitar da visão de Odin.*
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em Seg Nov 19, 2018 9:44 am
- Ah, então és um Aesir. Interessante. Mais uma vez seu povo estende seus interesses em relação às nossas ilhas...

A mulher sorriu, mas não continuou a falar. Procedeu em sua caminhada, a passos decididos, aproximando-se da Catedral. Enquanto Albert ajeitava o monóculo sobre a pistola, observava, ao mesmo tempo, o ambiente ao redor. Notou que apesar da aproximação dele e da mulher, as criaturas continuavam seu movimento acima do local. Rapidamente, Osmund foi tomado de uma intuição. Queriam, mas não podiam entrar ali. Mas mantinham a Catedral sob vigilância, afinal os avistamentos já duravam ao menos alguns dias. Adicionalmente, Albert sentia calafrios quando olhava a construção. Era como se ela a chamasse, a convidasse a entrar. Ou como se algo ou alguém que ali estava o estivesse fazendo. Sentia-se conectado ao local, embora não necessariamente a causa da fé católica.

A mulher pareceu perceber a ausência de hostilidade dos Filhos de Titãs.

- Eles provavelmente estão esperando que nós entremos e recuperemos o que está lá dentro. Só então nos atacarão. Devo dizer, estrangeiro, que quaisquer artefatos que repousem sobre esta terra pertence aos Tuatha de Dannan.

Não havia ameaça em sua voz ou em seu olhar. Era como se estivesse transmitindo uma informação simples e óbvia.

- Eu me chamo Rose, a propósito. Sou uma filha do Grande Lugh. Também não vejo motivos para lutarmos um contra o outro agora. Mas, eventualmente, pode ser que isso seja exigido de nós. Veremos. Entremos?
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em Ter Nov 20, 2018 3:35 pm
*Albert tira o chapéu novamente, dessa vez num cumprimento mais elaborado, se curvando e estendendo o braço.*

-Pois eu tenho a graça de ser Albert Osmund, filho de Odin. Se fosse falar de títulos não sairíamos daqui hoje, portanto me contentarei com "o Grande", como a senhorita. E a senhorita está em seu inteiro direito de pensar que quaisquer tesouros aqui pertençam aos Tuatha... Da mesma forma em que eu sou livre para pensar que um tesouro que, digamos, o Pai-de-Todos tenha perdido aqui em suas andanças na sua bela ilha seja dos Aesir por direito.

*Ele retribui o sorriso.*

-Porque "mais uma vez" implicaria dizer que os Aesir em algum momento deixaram de ter seus interesses aqui. Ou em qualquer outro lugar. Porque somos, acima de tudo, exploradores.

...

-Mas, me perdoe, estamos divergindo. Estamos mais perto de um campo de batalha do que de um tribunal. Por ora vamos nos concentrar no fato de que nenhum de nós concorda que nossos amigos ali em cima devam ser os possuidores, legítimos ou não, de quaisquer tesouros hipotéticos que possamos encontrar.

*Albert abre caminho com mais um floreio rebuscado, para em seguida por seu chapéu novamente.*

-Depois da senhorita.
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Londres: Capital do Império. Empty Re: Londres: Capital do Império.

em Qua Nov 21, 2018 2:16 pm
Londres: Capital do Império. Histor10

A mulher entrou e Osmund fez o mesmo. A Catedral, vista de fora, era já uma construção espetacular. Dentro era ainda mais bela, ainda que não fosse grande ou suntuosa como os templos londrinos. Tinha um charme particular, mas o determinante era a vibração que Osmund sentia no fundo da nuca. Tinha certeza de que ali havia algo de grande importância para Asgaard e, mais do que isso, intuía exatamente onde encontrá-lo. Desta vez não era Felmar quem lhe dizia, mas era como se conhecesse perfeitamente a Catedral.

Caminhou rapidamente pela nave até alcançar o altar. Cristo e um São Patrício vestido em verde o observavam, mas o que ele buscava não estava ali. Quase que imediatamente acessou a porta da sacristia e dali para um corredor interno. Desceu um pequeno lance de escadas de madeira e depois uma escada mais antiga, de pedra, que descia em espiral em direção ao subterrâneo. Rose não tentou pará-lo, apenas o seguiu. Osmund, por sua vez, seguiu decidido até o fim da escada. Ali, o chão era mais antigo, assim como as paredes cobertas de musgos. A pouca luz que chegava ali não avançava para o interno do corredor que tinham diante deles. A intuição de Osmund - ou o chamado do objeto - o havia levado somente até ali.

Arectaris. Era assim que se chamava o objeto. Por alguma razão, Osmund agora sabia, como se a espada - sim, era uma espada - falasse com ele através de emanações de energia. Estava próxima. Felmar falou ao mesmo tempo, causando uma certa confusão na mente de Osmund.

"Arectaris. A Espada de Balder, O Magnífico. Matadora de Herdeiros."

Curioso. Sempre havia sentido Felmar como impressões em sua mente. Agora, porém, escutava-o como uma voz. Uma voz profunda como as águas que correm sob os oceanos.

Rose observava atentamente o lugar, mas não avançava. Apesar de suas palavras ríspidas, pareceu a Osmund que ela respeitava aquele momento. Era, afinal, uma Relíquia familiar, e poucas coisas poderiam enfurecer Herdeiros e Divindades do que a violação ou mau uso dos tesouros de família. A mulher manteve-se atrás, servindo de guarda, enquanto Osmund entrava no corredor.

Em pouco tempo soube que não estava mais na Catedral de São Patrício.

Pouco a pouco surgiu a luz no fim do túnel. Viu-se, então, diante de uma vasta, infinita pradaria. Não existia nada ao redor, nem rios, nem montanhas, nada. Somente o infinito verde a dançar sob o vento. E uma árvore. Uma grande árvore nodosa e antiga, com raízes já expostas e poucas folhas. No centro dela, em um nó particularmente profundo, uma superfície reluzia. Era como prata líquida, que não escorria pela árvore, mas se mantinha ali como um espelho ou janela.
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Londres: Capital do Império. Empty Re: Londres: Capital do Império.

em Qua Nov 21, 2018 8:04 pm
*Havia uma coisa que Albert jamais poderia negar, mesmo por baixo de todo seu patriotismo inglês: não havia religião com a mesma magia do catolicismo. Os protestantes de trezentos anos antes haviam matado essa magia em nome da razão, mas desde que despertara como Herdeiro, Albert sabia que os dois fenômenos podiam coexistir. Em verdade, desde que despertara, ele buscava ativamente os dois.*

*Transitar dentro da Catedral era como um sonho, ou transe. Osmund andava praticamente sozinho, o caminho desenhado como um rastro brilhante em sua mente. E na clareira, sua estupefação só aumenta, e ele fica sem saber qual ambiente considerava mais majestoso: a catedral ou o campo ermo. Ele se aproxima da árvore, que pulsava de magia. De Destino. Albert olha para o brilho em seu nó, olha o próprio reflexo, e a curiosidade era quase palpável, irresistível. A mesma curiosidade, a vontade de saber que herdou do pai, e que lhe custou um olho e nove dias de agonia como sacrifício.*

*Albert olha para o reflexo, estende a mão... e para. A mão volta ao corpo, e busca algo em seus bolsos. O filho de Odin produz sua última relíquia: seu conjunto de runas, esculpido a partir dos dentes de diversos cavalos, todos descendentes de Sleipnir, o garanhão de Odin. E objetos dessa linhagem possuíam um poder considerável, mas vestigial de Odin e Loki. Eram os dentes de cavalos que conheciam todos os caminhos do mundo, visíveis ou não. E era neles que Albert ocasionalmente buscava respostas. Num movimento aleatório, ele os deixa cair no chão, e observa com cuidado o padrão que forma.*
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Londres: Capital do Império. Empty Re: Londres: Capital do Império.

em Qui Nov 22, 2018 10:05 am
Um homem. Era um homem ou muitos?

Todas as coisas retornam ao seu local de origem, ao seu ponto inicial, de onde se movem, continuamente, em direção ao Mundo e ao Infinito. Assim é com todas as coisas, vivas, mortas ou retornadas.

O homem retornava continuamente, mas sua alma se partia a cada vez que retornava estando, a cada retorno, distante de sua integridade oficial. Era diferente com as coisas que, não sendo donas de um espírito, continuam partidas até que alguém as junte novamente. Todavia, alguns objetos dispõem de personalidade e alma, e juntá-los exige condições especiais.

Era uma espada aquilo que caia do céu?

Soavam trovões e relâmpagos naquela noite em que os corvos, inquietos, voavam pelos céus cinzentos. Como uma estrela cadente, Arectaris caia do céu. A batalha, contudo, tinha sido tão violenta que mesmo uma arma tão potente não poderia seguir incólume: partiu-se em dois pedaços. Um aqui e outro não, exatamente como a alma de seu forjador havia se partido. Arectaris, contudo, não se preocupava. Quem a havia forjado antes haveria de forjá-la uma outra vez. Por isso, repousou.

Um padre. Católico. Odain. O que ele sabia? Não importava mais. Era certo como a aurora que estava morto àquele momento.

Um homem. Não, diversos homens. Mas era possível ver Cú Chulainn, também ele Uno e Muitos. Sua lança vibrava no ar, destruindo os Filhos de Titãs que ousavam barrar seu avanço. Mas Arectaris pertencia a Balder, O Magnífico, antes de ter sido usada por Odin na batalha contra A Morrigan. Não era isso? Então, qual era a importância de Cú Chulainn? Havia outro homem, mas sua face não era visível. Estava em um tempo diferente, não aquele no qual se encontrava Osmund, mas ligeiramente anterior. Seus passos abriam caminho na neve gelada da Escandinávia. Estava cansado, o homem. Seus olhos continham dezenas de mares, muralhas e histórias...

Inspirando súbita e profundamente, Osmund retornou ao controle de si mesmo. Arfou, por alguns instantes: conhecer as ligações entre as coisas demandava um grande esforço. Pensou em apoiar-se na árvore, mas percebeu que a superfície reflexiva não estava mais ali. Havia escorrido pelo tronco da árvore e agora o líquido repousava diante dos pés de Osmund. Tinha, porém, a forma de uma espada longa simples mas imponente. Meia espada, porém. Faltava metade da lâmina, mas ali, diante de Osmund, se encontrava Arectaris.


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Albert Osmund
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Londres: Capital do Império. Empty Re: Londres: Capital do Império.

em Seg Nov 26, 2018 9:50 am
*Distraído, Osmund pega as runas de volta e passa longos minutos observando a espada. Mesmo quebrada, mesmo após tanto tempo inativa, era de um poder inacreditável. Albert desliza os dedos pela lâmina e embora se assuste, não se surpreende muito ao saber que ainda era afiada, deixando um filete de sangue escorrendo da ponta de seu dedo.*

*Mas havia muito mais a saber sobre a espada. Sua ligação com o Cão de Culann, seu criador, sua outra metade, os homens desconhecidos que Albert sabia estarem ligados ao seu Destino... E ele sabia que caçaria cada uma delas em seu devido tempo... Depois de lidar com Rose.*

*Com um último olhar para trás, o filho de Odin deixa a clareira, e se vê novamente nos porões da catedral de São Patrício. E lá a filha de Lugh o aguardava. Albert não faz qualquer tentativa de ocultar a espada, mas a segura em plena vista, a lâmina apontada para baixo.*


-Olhe em meus olhos e diga que esta arma não é dos Aesir. Olhe em meus olhos e me diga que não vê nela a luz de Balder, meu irmão.
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