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Madrid: Porta da Espanha. Empty Madrid: Porta da Espanha.

em Qui Out 25, 2018 5:00 am
"Madrid es tener un gabán que abriga mucho y con el que se puede ir tranquilo hasta a los entierros con relente. Madrid es no admitir lo gótico. Madrid es la improvisación y la tenacidad. Madrid es quedarse alegre sin dinero y no saber cómo se pudo comprar lo que se tiene en casa."

- Ramón Gómez de la Serna.
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em Qui Out 25, 2018 5:44 am
Toc, toc.

Estava sonhando. Era um sonho bom. Sonhava com o seu avô. Mas não era, realmente, o avô que ele conheceu, pai de seu pai, um homem inflexível e profundamente católico.

Era alguém diverso, mas que era seu avô. Passava a mão pesada em seus cabelos. Deu-lhe uma estranha fruta, instruindo que a comesse. Tinha um perfume doce e profundo. Havia sol e um impossivelmente grande jardim cheio de flores e insetos que zuniam.

Toc, toc

Abriu os olhos. Quanto tempo havia dormido? Na janela do escritório da Guarda, um corvo estranhamente azulado bicava o vidro. Levantou voo após acordá-lo. Pareceu sorrir antes de partir, contente de ter-lhe destruída a siesta.

Olhou o relógio. Treze horas e sete minutos. Havia uma quantidade obscena de trabalho acumulado, aparentemente os habitantes de Madrid resolveram enlouquecer ao mesmo tempo. Roubos, agressões, brigas de estrada. Coisas pequenas, para as quais poderia deslocar um ou dois homens, somente para averiguação. Se sentia ligeiramente impaciente, fazia calor. Os verões espanhóis estavam cada vez piores.

A imagem do homem do sonho retornou à sua mente. Barba branca, olhos profundamente verdes. O conhecia. Não era seu avô, agora estava em dúvida. Um tio, talvez? Uma memória de infância? Não, jamais havia visto um jardim impressionante como aquele. Mas a sensação permanecia, aqueles olhos verdes flutuavam em sua mente como dois faróis que desejavam guiá-lo até um destino desconhecido.

Encheu uma taça de vidro de água fresca. Preparou-se para beber o líquido, mas teve a ligeira - mas firme - impressão de ver um pequeno homem que se afogava dentro do copo. Esfregou os olhos, mas abriram a porta do escritório. Olhou novamente, e não havia homem nenhum.

Era o oficial Garda, um homem de estatura e peso médios, além de modos simples, mas extremamente leal e diligente.

- Capitão Saavedra, buenas tardes. Temos um probleminha.

Não precisava dizer. Outros oficiais conduziam, segurando pelos braços, um homem pelo corredor do Palácio da Guarda. Subitamente, Saavedra sentiu cheiro de rio. O homem passou pela frente do escritório: não oferecia resistência. Estava ensopado da cabeça aos pés, deixando água pelo pavimento. Mas, ao passar diante do escritório de Saavedra, girou-se, tentando observar o local. E seus olhos se cruzaram. Saavedra teve certeza de que aquele homem era completamente, invariavelmente louco. Mas o homem olhou em seus olhos. E começou a gritar, enquanto era conduzido para um cela, onde poderia se acalmar. Garda completou o raciocínio:

- Era isso. Tentou se matar, jogando-se no Manzanares. Não se afogou por um milagres, mas saiu da água e começou a importunar os passantes. O que fazemos?


Última edição por Regista em Sex Out 26, 2018 8:21 am, editado 1 vez(es)
Xavier Saavedra
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em Qui Out 25, 2018 3:58 pm
Xavier observou Garda. Soltou um profundo suspiro, denotando o cansaco - mais mental do que físico. Terminou de beber a água antes de responder qualquer coisa:

- Buenas tardes, Teniente Garda... Levem o homem até uma das celas vazias. Terei uma breve charla com ele.

Quando Garda estava prestes a se retirar, Xavier o chamou:

- Ah, Teniente, uma última coisa: sei que é difícil acreditar, mas tornei-me Comandante há algumas semanas. Usemos os título corretos, ? Caso contrário, os coronéis vão perceber o erro que cometeram ao me promover!

Sorria. Não o disse em tom de reprimenda. Xavier gostava de Garda e todos sabiam que o recém-Comandante não era um homem afeito à hierarquia da Guardia. O valor de um homem deveria ser demonstrado na prática, não nas estruturas.

Antes de sair de sua sala, caminhou até a janela. Pensativo, contemplou um pouco a vista, tentando localizar o estranho corvo que o despertara. Quem seria o estranho, porém ainda assim familiar, homem com quem sonhara? Fechou os olhos para relembrar a cena e visualizar o belo jardim. Como gostaria de estar num lugar mais sereno! Lembrou-se também de sua terra. Os campos verdes da Galícia, o odor do mar e o céu cinzento. O frescor dos dias e o frio da noite lhe faziam falta na quente e barulhenta Madrid. Mas enfim, eram os ossos do ofício.

Passou as mãos nos cabelos, ajeitando-os um pouco. Estavam úmidos de suor. Tentou alinhar a farda, mas não se preocupou demais com isso. Se algum coronel o visse assim, o reprimiria. Mas Xavier aceitava pagar esse preço para ter alguns minutos sem a apertada gola sufocando seu pescoço.

O galego saiu e caminhou em direção à cela onde haviam colocado homem. Pediu que algum soldado a abrisse, enquanto ele mesmo providenciava um banco. Colocou-o diante do preso e se sentou. Enquanto o fazia, disse:

- Buenas tardes, senhor. Sou o Comandante Saavedra. Tu nombre?

Seu tom de voz era gentil, ainda que decidido. Tentava passar a impressão de que estavam conversando em um lugar qualquer, que não fosse uma cela da Guardia Civil.

- Soube que tentou tomar um último banho no Manzanares. Com esse calor, eu compreendo parte de sua escolha. Pelo que entendi, a Morte não quis te levar...

Inclinou-se na direção do homem, mantendo uma das mãos apoiando o próprio queixo.

- Se queres se matar, esse não é um problema da Guardia, compreende? Mas por que decidiu importunar as pessoas diante da recusa da Morte?
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em Sex Out 26, 2018 6:42 am
A cela era extremamente pequena, não mais que um espaço de três metros por outros três, com uma cama simples suspensa na parede e uma pequena abertura, que fazia as vezes de janela, na qual haviam grades de ferro. O homem estava sentado, cotovelos apoiados nas pernas e mãos na cabeça, e assim se manteve mesmo enquanto Saavedra se dirigia a ela. No corredor, três outros oficiais observavam o interrogatório, a meia distância. Garda tinha acompanhado o galego até o interno da cela, mantendo-se ligeiramente afastado, atrás de Saavedra. O Comandante sabia que seu subordinado tinha fortes traços de covardia e medo, que tentava superar dia após dia.

- Ernesto. Mi nombre es Ernesto.

Foi a única coisa que disse antes de começar a vomitar. Primeiro era água com um forte cheiro de rio. Depois, alimentos. O homem vomitava compulsivamente, sem ter tempo sequer de respirar. Ao mesmo tempo, Saavedra notou que os três oficiais do lado de fora da cela, homens equilibrados e que prestavam bons serviços, discutiam ativamente, em uma maneira que não tardaria a tornar-se violenta. As altercações e xingamentos se misturavam ao som repetitivo de Ernesto que vomitava. Somava-se a isto o som irritante de um corvo que, empoleirado na pequena janela da cela, bicava insistentemente as barras de metal como se desejasse entrar no local.

Em pouco tempo, reinava a confusão no recinto. Ernesto continuava a vomitar, mas neste momento, de sua boca, saia um líquido estranho, escuro e espesso que se depositava no solo da cela. Àquele momento, os três oficiais no corredor trocavam empurrões e tapas. Saavedra não entendia a razão da discussão, pois não conseguia se concentrar. Na janela, o corvo emitia ruídos cada vez mais altos. Bicava o metal com força. As barras começavam a exibir um desgaste, como se estivessem sendo marteladas por um instrumento de metal pujante. O líquido negro se espalhava pelo chão na direção dos pés do Comandante. Seus homens rolavam pelo chão, trocando socos. Garda estava, ainda, de pé atrás do galego, mas não ousava se aproximar dos seus companheiros. Olhava, atônito, para a gosma negra que jorrava da boca de Ernesto que, ao expeli-la, se tornava visivelmente mais magro.

Adicionalmente, as veias de Saavedra ardiam. Sua cabeça doía. O mundo girava rapidamente ao seu redor. Olhou de relance para os antebraços e viu estranhas inscrições que começavam no pulso e se estendiam, por toda a extensão do membro, terminando nas dobras dos cotovelos.

O local começava a escurecer rapidamente. Sentiu a mão de Garda que segurava, de forma medrosa, seu ombro esquerdo.

E, de repente, não havia mais cela. O corvo havia entrado.

Viu-se em um grande salão redondo de granito acinzentado. O teto era impossivelmente alto, sustentado por colunas finas e retorcidas. O local era amplo, mas não haviam entradas ou saídas identificáveis, não haviam janelas ou móveis. Somente o salão iluminado por uma tênue luz clara, como aquela da lua cheia em um campo aberto. O local tinha cheiro de sangue e morte, de combate, honra e fúria. Garda também estava ali, a mão ainda pesava sobre o ombro de Saavedra. A gosma escura também estava espalhada pelo chão do salão. Saavedra percebeu que a coisa se movia, borbulhava, como se tentasse condensar-se em uma outra forma, mas tivesse dificuldades de fazê-lo.

Foi com nova surpresa que percebeu que dezenas, não, centenas de corvos adentraram o local, acessando-o de maneira misteriosa, e sobrevoavam suas cabeças em movimentos circulares. A gosma borbulhava, quase como se estivesse tomada por um ódio obsceno.

A voz de Garda interrompeu a cena absurda.

- Señor...

Apontava pra uma janela que não estava ali antes. Não era necessário se aproximar para perceber que estava voltada a um imenso descampado. Não havia ninguém ali, mas Saavedra conhecia a guerra e as batalhas. Sabia que era um local propício para um conflito. Quase podia sentir os exércitos que se aproximavam, ainda que não os visse. Quando da abertura da janela, a gosma escorreu rapidamente, tentando alcançá-la. Saavedra ainda pensou em impedir que o fizesse, mas se distraiu quando percebeu que Garda olhava fixamente para as paredes. Ali estavam as mesmas inscrições que o Comandante havia visto, segundos atrás, em seus antebraços. Estavam espalhadas por todas as paredes e pulsavam com uma tênue luz esverdeada. Era como se esperassem perguntas e como se estivessem dispostas a dar as respostas.
Xavier Saavedra
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em Sex Out 26, 2018 2:04 pm
Ainda que estivesse sentado no pequeno banco de madeira, dentro de uma simples cela no quartel da Guardia, Xavier sentiu o mundo girar. Era como se todos os elementos ao seu redor - imagens, sons e cheiros - estivessem em um carrossel macabro no qual ele era o centro. E o mundo não só girava a seu redor, como também parecia se fechar sobre ele.

Tentava, com toda a sua força, se concentrar e afastar aquela bizarra sensação. As palavras vinha à sua boca, mas não conseguiam ser proferidas. A cada segundo que tentava falar, era interrompido pelo barulho metálico e renitente do corvo na janela. Tentava também chamar o homem pelo nome - Ernesto - mas não era possível. O som do vômito negro caindo e se espalhando pelo chão não permitia. O que diabos aquele estranho estava expelindo? Era a própria alma? No meio disso tudo, seus homens se batiam e gritavam do lado de fora, somando-se ao caos que dominava a cena.

O suor escorria por seu rosto e descia pelo pescoço. Gotas pingavam de sua testa e caiam no chão, se misturando ao vômito negro. Maldito verão madrilleño... Foi quando abaixou o rosto para ver a poça que se formava no chão que percebeu as escrituras que ardiam em seus braços. Tentava lê-las, como se buscasse a compreensão daqueles símbolos no fundo de sua mente. Até que conseguiu forças para se levantar e gritar com seus homens...

Mas isso não aconteceu.

Ao se levantar, o corvo invadiu a cela, tendo quebrado a maldita barra de ferro. Uma BARRA DE FERRO! Como era possível?

E foi então que viu-se em outro lugar. Somente o corvo e Garda estavam ali. O peso do mundo e a sensação de desnorteamento desapareceram. O que havia agora era um estranhamento, acompanhado de uma curiosidade quase que... sobrenatural.

Quando a revoada de corvos invadiu o salão, com se grasnar e bater de asas ensurdecedor, Saavedra percebeu que não eram só eles e Garda que estavam ali. No chão, o líquido negro se movia. Olhou para a janela apontada pelo tenente e viu a poça negra avançando em direção à batalha iminente. Uma batalha que estava prestes a acontecer, mas não estava ali...

Xavier surpreendeu-se ao perceber, em si mesmo, o fim do cansaço que sentia até agora a pouco. Estava de pé. Seus olhos iam e vinham, observando com curiosidade todos os elementos que compunham aquela nova cena. Apesar da estranheza do momento, nada o perturbava. Não tinha medo. Os corvos, a batalha, o líquido negro. Era como se tudo aquilo fosse... natural. Ou seria "familiar"?

Percebeu também que Garda estava com medo. Sentia a apreensão na mão que tocava seu ombro. Deu dois leves tapas nas costas do homem, sinalizando, de alguma forma, que estava tudo bem. Mas, mesmo sabendo que estava tudo bem, levou a mão até o punho do sabre em sua cintura, apenas para ter certeza que ele estava ali. Ao mesmo tempo, levou a outra mão para dentro da camisa, buscando sentir o velho pingente que lhe fora dado por seu pai. O mesmo pingente que carregava desde bebê. Era imagem de uma mulher envolta em um manto. Seu avô sempre dizia que era a imagem de Nuestra Señora del Camino, e por muito tempo Xavier pensou dessa forma. Mas sabia, no fundo, que aquele pingente era a única conexão que tinha com sua mãe, fosse ela quem fosse.

Quando as escrituras apareceram nas paredes, Saavedra as percorreu com os olhos. Caminhou, devagar, até elas. Com cuidado, tentou tocá-las, buscando sentir se havia algum relevo ou calor ali. Até que as sentiu se abrindo. Era uma conexão que se fazia no fundo de sua mente:

- Onde... onde estou?

Sentiu que seu coração também se abria. Como se a dúvida latente que o acompanhou por toda a vida pudesse ser proferida novamente em voz alta. A dúvida que todos insistiam para que esquecesse, pois era inútil e sem sentido respondê-la. Lembrou-se e se viu novamente muito jovem, com apenas 9 anos, sentado em uma pedra junto ao seu pai e observando o mar da Galícia no horizonte, de cima de um dos penhascos da Costa da Morte. Ali, seu pai apontou para o Além-mar e disse que era de lá que sua mãe vinha, para em seguida afirmar que aquilo era tudo que saberia sobre ela.

A dúvida veio, em forma de pergunta. Saiu de seus pulmões e percorreu sua garganta, tornando-se impossível de ser contida em sua boca. Quando saiu, saiu na voz do Comandante Saavedra, mas ele se escutou na voz de um garoto de 9 anos:

- Onde está minha mãe?
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em Sab Out 27, 2018 5:55 am
A resposta veio em uma única frase escrita em verde sobre a parede.

- Ela está aqui.

E então, a batalha explodiu.

Do lado de fora, Saavedra podia ver através da janela, haviam exércitos. Uma quantidade impossível de homens e mulheres corria em campo de batalha, prontos para encontrar-se com uma outra força. Esta, por sua vez, era composta de coisas que Saavedra não imaginava que existiam. Eram sombras obscuras como aquela que havia sido vomitada por Ernesto: figuras disformes e horrendas, munidas de garras e dentes afiados mas sem nenhuma forma real, que lançavam-se, flutuando pelo ar, em direção ao outro exército. O som das armas de metal era ensurdecedor, assim como os gritos voltados a elevar o moral, gritos em um idioma estranho mas que era muito similar ao gaélico que o Comandante conhecia.

Em meio ao exército de homens e mulheres, ele a viu.

Corria, em investida, em direção ao inimigo. Seu corpo era coberto de runas, exatamente como aquelas que cobriam o antebraço de Saavedra. Estava quase nua a não ser por um leve e diáfano vestido escuro, uma semi armadura que lhe cobria os seios e o ventre e um grandioso machado que brandia enquanto avançava. Os cabelos eram longos e escuros, caindo em cachos pelas costas sendo carregados pelo vento. Estava descalça, e a terra tremia sob seus passos, inundando o espírito das sombras escuras - se é que tinham um espírito - de horror e profundo pavor da morte, que era certa. Ocasionalmente a mulher caminhava pelo ar, passando por cima das cabeças de seus aliados, para lançar-se, com força absurda, sobre os oponentes. A cada corte e a cada corpo despedaçado seu próprio corpo se cobria de sangue escuro, que era rapidamente absorvido por sua pele branca.

Ele a viu, também, em um dos cantos do salão.

Era uma Anciã. Estava debruçada sobre uma mesa de granito, sem adornos, mas sobre a qual estavam dispostos pequenos ossos e penas escuras. Ela tentava organizar-lhes, como se eles pudessem revelar um segredo antigo. Vestia-se somente com uma túnica cinza, exatamente como a passagem das Eras. Seus cabelos eram brancos, exatamente iguais aos da mulher do lado de fora. As mãos eram pequenas e finas, assim como a pele pálida, que deixava entrever veias azuladas e pulsantes. Tinha a cabeça baixa, concentrada em sua atividade. Era baixa e curvada, como os anciões de uma certa idade, mas sua presença deixava transparecer uma Sabedoria inquestionável. Em um dado momento, levantou o olhar. Fitou Saavedra, mas demonstrou muito mais interesse por Garda. Sorriu. Arrumou alguns dos outros ossos.

Ela também estava de pé, diante de Saavedra. Sua mãe, aquela que vinha do Além-Mar.

Era uma mulher alta, com longos cabelos escuros e olhos castanho-avermelhados. Vestia um vestido branco que alcançava seus pés. Estava, também, descalça. Os membros eram longos e longilíneos e as mãos terminavam em dedos longos com umas escuras, sujas. Ao longo do corpo haviam tatuagens como aquelas de Saavedra, que contavam uma história, uma antiga e desconhecida. A face era fina e alongada, com bochechas encovadas e olheiras profundas. Na cintura havia uma pequena adaga dourada e, ao pousar seu olhar ali, Saavedra notou algo óbvio. Estava grávida. Não emanava um terror como a primeira ou uma sabedoria como a segunda. Ao invés disso, manifestava uma sensação de calma e tranquilidade, que se combinava a uma forte sensação de poder. Ela olhou para Garda e, em seguida, para a Velha. O acompanhante de Saavedra parecia profundamente aterrorizado, sua face era de um branco lívido estranhíssimo.

A Velha olhou para a mulher e sorriu. Levantou um dos pequenos ossos. A terceira pareceu anuir e entender. Sorriu quando olhou para Garda novamente, antes de voltar seu olhar para Saavedra. Do lado de fora, a jovem continuava a banhar-se no sangue dos inimigos e uma revoada de corvos a acompanhava, se alimentando dos olhos dos caídos.

- Cá estou, filho meu. É chegada a hora de aceitar o teu legado e a tua Herança.
Xavier Saavedra
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em Dom Out 28, 2018 1:23 am
Xavier sorriu para sua Mãe. Naquele momento, soube que ela eram muitas. Era sim, a Mãe diante de si, Aquela que traz a Vida. Mas também a Morte em batalha, que aterrorizava o coração e as almas de seus oponentes, que banhava o solo com o sangue daqueles que pereciam por suas armas. Era, por fim, uma Anciã, cujo olhar não estava limitado pelo presente, cuja sabedoria se extendia até as muitas possibilidades do futuro, para então proferi-las àqueles que ousassem ouvir.

Sim, apenas os ousados. Ali, teve uma certeza concreta, como uma consciência que se inscrevia na sua pele e no seu sangue. Era a confirmação de algo que apenas intuira ao longo dos anos, mas que ainda assim o orientara: o Sangue de sua Mãe, o seu sangue, que corria em suas próprias veias, pertencia apenas aos merecedores. Aos melhores entre os homens e mulheres. E Saavedra sabia que estava entre estes. Soube desde seus 12 anos, quando se deparou com o cadáver do próprio pai e, mesmo com a tristeza que inundara seu peito, conseguia ver a verdade sobre aquele assassinato. Era tão óbvio! As pistas estavam diante dos olhos de todos! Mas apenas Saavedra as enxergava...

Olhou no fundo dos olhos castanho-avermelhados da Mãe. Saavedra continuava sorrindo, mas não se calou. O mesmo impulso que o fez perguntar por ela continuava impulsionando-o.

- Eu procurei por ti no horizonte, espremendo meus olhos para enxergar algo no Além-mar. Disseram-me que ali eu não a encontraria, que a única mãe que eu poderia ter era a Virgem. E por muitos anos eu orei para a Virgem do Caminho. Por anos eu busquei os mortos que tombavam no caminho até Santiago, derrubados pelas armas de homens ganaciosos, vingativos ou loucos. Nunca o fiz por justiça, mas por uma devoção à verdade sobre suas mortes, para lhes dar um desfecho. Eu descobria a verdade e pedia à Nuestra Señora del Camino que recebesse suas almas...

Saavedra engole em seco, pois finalmente tinha noção de tudo.

- Mas no fundo... no fundo eu acho que já sabia. Era a ti que eu buscava. Era por ti que eu chamava. E era a ti que eu dedicava tudo o que eu fazia. Por ti, eu me tornei como os corvos que sobrevoam os campos de batalha. Eu me alimento dos mortos. Não de sua carne, mas de suas histórias.

O galego dá um meio passo na direção da Mãe. Ensaiou um movimento com seu braço, como se fosse tocá-la. Mas, isso sim, ele não ousou fazer.

- Mãe, minha vida têm sido um chamado constante por este legado.
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em Dom Out 28, 2018 8:26 am
A Mãe abriu a boca, na intenção de responder. Brilhava, levemente, com uma luz clara que parecia aumentar de intensidade a cada segundo. Seus olhos recaiam sobre Saavedra de uma maneira dúbia: havia amor mas havia, também, uma profunda austeridade. Sua mão fina pousou sobre a barriga, mas a Velha a interrompeu antes que se pronunciasse.

- Sim, você sabia. Sempre soube. - Sua voz era rouca e baixa, mas as palavras saiam de forma extremamente articulada. E tinham um peso, flutuando pelo ar, quase visíveis aos olhos de Saavedra - Em teu sangue corre o Sangue de Macha, mas corre também o Sangue de Nemain, que exigiu de ti uma única missão: ver que o mundo ao teu redor não é aquele que aparenta ser. As canções antigas, trazidas a ti através das águas, na voz de Amergin mas inspiradas por mim, nunca cessaram de derramar suas sinfonias sobre os teus ouvidos. E você ouviu e entendeu. Agora, estás aqui. E eu vos digo, agora, que vejo em teus olhos as marcas de tua mãe: Três são os reis, mas só um é o trono. Um pecará pela Indiferença. Outro pela Vaidade. Outro pela Autoridade. Um deve ser. Uno será.

Os olhos da Velha tinham se tornado completamente brancos enquanto as palavras deixavam sua boca. Em seguida, ela pareceu se alongar, esticas em direção ao teto, suas formas tornando-se distorcidas e diáfanas. Só os seus olhos permaneciam no local depois de passado um certo tempo, olhos grandes, da cor do leite, que flutuavam sobre a cabeça de Saavedra. Garda estava em um canto, encolhido, como se tudo aquilo fosse excessivo para a sua mente.

- Mas, como tua tarefa, agora, não envolve a Profecia, eu me vou.

E os olhos desapareceram ao mesmo tempo em que os corvos, no campo de batalha, grasnavam em uníssono.

Uma terceira voz se fez ouvir. Era também feminina, mas era carregada de violência e ressentimento. Acompanhavam suas palavras os gritos finais de todos os condenados que existiram sobre a Terra.

- Eu me recordo. Me recordo de ti, quando esteve em Mag Tuired, e o horror dos teus inimigos ecoava nas espadas de teus aliados. Mas, como a tua tarefa, agora, não envolve a Guerra, eu me vou.

Com um forte estrondo a janela para o campo de batalha se fechou. Os corvos não mais grasnavam, e os exércitos não mais gritavam. Ninguém estava sendo condenado. Silêncio.

No salão restavam Saavedra, a mulher diante dele e Garda, que tinha a cabeça entre a mãos e os olhos fechados. A mulher o olhava serenamente.

- Eu sei. Acompanhei teus passos como fiz com Cú Chulainn em eras que não mais existem. Diferente dele, tua estrada o carregou para mais longe de mim. Igual a ele, retornas em um tempo de necessidade. Você se lembrará, pois viverá novamente. Os mortos falavam a ti, através de suas palavras escondidas, pois teus ouvidos são como os meus. Sou tua mãe, tanto quanto são todas as outras. Mas, como a tua tarefa, agora, envolve a Magia, aqui estou.

A mulher não recuou quando Saavedra tentou tocá-la. Mas ele sabia, no seu interno, que não conseguiria fazê-lo. Não agora. Não sentia mais nenhum mal estar físico ou nenhum estado de confusão. Pelo contrário, sua mente parecia serena e concentrada, como se ele fosse capaz de entender os conceitos mais complexos imaginados. A mulher, no entanto, pareceu perceber o desejo de Saavedra.

- Sou Morrigan e sou Badb e Macha e sou Nemain, Ériu, Banba e Fódia. Sou todas e não sou nenhuma. Cavalgo o ar nas almas dos corvos, destruo o inimigo e bebo de sua alma. Não me amedronta o Inimigo ou seus Filhos, pois minha e a Guerra e Toda a Verdade. Minha magia defende a terra e a floresta, permite ao ciclo continuar. Minha mão move os mares e levanta as montanhas, freando a agressão do inimigo. Mas, agora, me dispo de meus títulos e meus véus, por um único momento em toda a Eternidade, no qual encontrarei minha prole.

À medida em que falava, sua voz, que de início parecia trovejante e divina, se tornava mais e mais mortal. Nenhuma grande mudança veio, nenhum som ou brilho intenso que denunciasse uma intervenção especial. Saavedra sentiu, no entanto, que a Morrigan se tornava mais vulnerável. E, ao mesmo tempo, sentia que ele mesmo era preenchido com um amor que jamais havia sentido antes, que jamais havia imaginado existir, somado a um conforto profundo e um sentimento de paz. Era breve, ele saberia que seria breve. A Morrigan, diante dele, estendeu os braços como uma Mãe. Ele sabia que aquela seria a primeira vez que a abraçaria. E seria, também, a última.
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em Ter Out 30, 2018 5:11 pm
Os nomes que eram proferidos pelas três mulheres que eram sua Mãe poderiam soar estranhos, de início, mas logo eram absorvidos com familiaridade por seus ouvidos. Era como se sua mente trabalhasse como um arquivista diligente que, ao se deparar com um documento estrangeiro, se lembra em poucos em qual estante deve colocá-los. Na verdade, era até mais do que isso. Saavedra sentia sua memória e compreensão do mundo se expandir de uma forma que recuperava espaços que sempre lhe pertenceram.

Ao mesmo tempo, memórias reais, de sua infância, adquiriam um novo sentido. Lembrou-se dos passeios que fazia aos castros, muitas vezes solitário, mas as vezes acompanhado de sua avó paterna. Ali, nas ruínas abandonadas dos antigos gallaeci, Xavier sentia-se em casa. Enquanto sua avó colhia os frutos silvestres que cresciam entre as pedras, ele observava os corvos que se empoleiravam no que antes era um forte ou uma muralha. Construções que resistiram ao tempo e à ganância dos romanos. A avó cantava canções que eram passadas pelas gerações anteriores. Eram histórias de guerreiros e batalhas, de pessoas valentes que cruzavam o mar, de resistência e luta contra o Império do sul e os sanguinários invasores do norte. Canções que sempre tocavam seu coração, mas que agora faziam sentido em sua mente.

Agora Saavedra sabia que, quando sua avó cantava, era o bardo Amergin que falava através dela. E era sua Mãe quem lhe acalentava.

Lembrou-se também de memórias mais recentes. Já um jovem adulto, Xavier entrava na biblioteca do padre Brian. Na época não entendera muito bem como aconteceu, mas os tomos em gaélico começaram a ser lidos como se em galego fossem escritos. Original de Dublin, o padre havia viajado para peregrinar pelo Caminho e, ao chegar em Santiago, sentiu que ali deveria ficar. Dizia a todos que era um chamado.

Agora Saavedra entendia o porquê.

Tudo, absolutamente tudo, caminhara para este momento.

Entendeu que este não era o momento da Profecia, mas guardou as palavras da Velha. Também entendeu que não era, ainda, o momento da Guerra, mas sentiu o sabre pesar em sua cintura. Sabia que esses momentos não tardariam a chegar.

Aquele era o momento da Magia e, para isso, sua Mãe lhe abriu os braços. Era o momento da Magia e o momento de terminar um caminho e começar outro.

Xavier abraçou sua Mãe e sentiu ali todo o amor que buscara. Lágrimas escorriam de seus olhos, ainda que não emitisse nenhum som. Lutara para estar ali, lutara e perseverara por aquele abraço. Sabia que seria o único e último, pois aquela era a natureza de sua Mãe.

Morrígan, a Rainha Fantasma.

Xavier encerrou um ciclo nos braços de sua Mãe. Outro se iniciaria agora. Ainda abraçado à ela, perguntou:

- Eu clamo por meu Legado, Mãe. Serei seu instrumento até a Eternidade. Estivemos juntos em Mag Tuired e para lá voltaremos quando for preciso.
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em Ter Nov 06, 2018 6:45 am
Ela retribuiu o abraço. Ali, Saavedra se sentiu protegido. Amado. Os anos de ausência eram, agora irrelevantes, por ele sabia que jamais estivera sozinho. Sua Mãe estava ali em todos os momentos. Na brisa oceânica, no grasnar dos corvos, no elevar-se da lua e nos ciclos eternos da natureza. As estrelas eram os olhos escuros de Morrigan, assim como as nuvens de tempestade eram seus cabelos. Cada guerra era um seu grito. Cada caído em glória era carregado pelos infinitos corvos, levados ao seu glorioso palácio em Tír Na Nóg. Saavdra esteve ali, naqueles braços, por longas eras, pois não era a primeira vez. E não seria a última, pois os tempos se repetem incessantemente.

Mas, tão intenso quanto foi, deixou de ser. A Morrigan o deixou ir, liberando-o do abraço. Mas era, novamente, irrelevante. Ela estava ali dentro dele. Para sempre. Por todas as Eras, no futuro e no passado.

Saavedra sentia um leve desconforto. Era como se tivesse vivido aquela cena um infinito de vezes, ainda que não conseguisse se lembrar de nenhum momento que não aquele. Faltavam pedaços em sua mente e sua alma. Uma intuição, todavia, era onipresente. Ele era um e havia sido muitos.

A Morrigan agora o observava com um olhar pouco materno. Havia se tornado mais austera, quase como um dos generais aos quais Saavedra devia lealdade na Guarda Espanhola. Girou-se para observar Garda que, embora mais calmo, estava ainda encolhido em um canto.

- Está vinculado à tua Lenda, este mortal. É por isso que ele também se encontra aqui. Nós, filho meu, somos muito mais vinculados ao Destino que todos os outros Deuses e todos os seus outros filhos. Para nós o Destino é uma força essencial, motriz, determinante na nossa experiência física e espiritual. Jamais contrarie o Destino. Mas molde-o, trnaforme-o segundo as tuas interpretações. É teu dever, tua obrigação, cuidar daqueles que a ti estão ligados. Nossos parentes, irmãos e amigos são nossas âncoras na existência. Emanuel Garda depende de ti e tu dependes de Emanuel Garda.

O oficial, lentamente, deixava sua posição apavorada para erguer-se. Entendia muito pouco, era visível. Tremia. Estava cheio de medo e pavor. Mas tinha se levantado do chão. E Saavedra se sentia bem. Se sentia orgulhoso de Garda, por razões que não conseguia explicar. Era como se seu coração estivesse inundado de uma luz dourada, de satisfação diante da visão da superação de seu colega de trabalho. Garda sorriu, um sorriso tímido.

- Parece que passaremos algum tempo juntos, Saavedra.

Em seguida, com passos vacilantes, se aproximou d'A Morrigan. Tinha medo, mas superava-o a cada passo. E Saavedra se sentia mais forte, mais capaz. Garda não tocou a Deusa. Parou a meia distância e ajoelhou-se. Parecia fazer uma oração enquanto observava fixamente a divindade. Saavedra notou que conseguia ouvir, ou sentir, aquela oração. Garda rezava para Nossa Senhora dos Navegantes, senhora do Mar, rainha e guia de sua família por gerações.

A Morrigan finalmente se moveu. Aproximou-se de Saavedra, seu filho. O detetive notou que em sua mãos pálidas a Deusa carregava o que parecia ser uma corrente de metal com uma pedra escura, semi-arredondada, presa à corrente por uma pequena estrutura de metal. A Morrigan abriu a corrente a colocou-a ao redor do pescoço de seu filho. Saavedra viu, claramente, que a pedra pareceu alongar-se ligeiramente quando em contato com seu corpo, tornando-se um pouco mais oval.

- Este é o meu presente para ti. Não direi do que se trata, pois faz parte de teu Destino encontrar as tuas próprias respostas. Digo-lhe, somente, que era já tua. Estou apenas devolvendo o que te pertence.

Saavedra sentia que seu tempo ali era curto. Os sons e cheiros de Madrid começavam a dominar seus sentidos, assim como a imagem de sua mãe começava a tornar-se difusa e inconstante. Ela ainda estava ali, observando-o com olhos misteriosos, mas o detetive não sabia por quanto tempo.

- Tornarei a ti no tempo devido. Até lá, entenda teus dons e coloque-os a serviço de tuas funções. Prepare-se, todos os dias, para o que virá. Nós estamos em guerra, estaremos sempre em guerra, contra um inimigo que não come, dorme ou descansa.

Saavedra estava novamente na cela de Ernesto. As barras de metais estavam no lugar e os homens que se agrediam não estavam à vista. Garda estava ao seu lado, os olhos ligeiramente arregalados. Não havia nenhum corvo. Não havia sequer um Ernesto. Apenas a cela vazia. O colar, contudo, estava bem ali, suspenso no pescoço de Saavedra.
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em Ter Nov 06, 2018 5:30 pm
Xavier, finalmente, sentia-se pleno. Não só encontrara sua Mãe, mas também seu mundo. A vida tinha agora um novo sentido, mesmo sabendo que muito ainda precisaria ser descoberto.

No momento em que o abraço de mãe e filho se desfez, Saavedra se deu conta de outra coisa. Olhando para a Morrigan, percebeu que o mundo dela era diferente de tudo o que havia vivido. Os Deuses esperavam o máximo de seus filhos. Morrigan não era uma mãe que o acolheria novamente em seus braços, caso falhasse naquilo que se tornaria uma obrigação. Jamais. Não havia espaço para falhas. Os Tuatha Dé Dannan estavam acima dos mortais e por isso devem fazer jus ao lugar que ocupam. Seus filhos, por consequência, deveriam se mostrar como os maiores homens e mulheres a caminhar sobre a Terra.

A certeza de que deveria, a partir de agora, dar para sempre o melhor de si veio quando sua Mãe lhe entregou o colar. Sentiu em seu pescoço o peso do seu sangue.

Quando Madrid começou a forçar sua presença naquela realidade, Xavier entendeu que era o momento de se despedir da Morrigan. Sabia, contudo, que não seria por muito tempo. Aquela despedida, que pensou que seria extremamente dolorosa, foi na verdade recebida com serenidade. Sua Mãe estaria sempre com ele, tal como sempre estivera, afinal. Olhou para ela e disse, sorrindo:

- Eu estarei por aqui, minha mãe. Para sempre e por ti. Até breve.

Estavam então, Xavier e Garda, de volta à Madrid. Não sabia ao certo como partiram nem como voltaram, mas entendia que aquilo era possível. Com um gesto, sinalizou ao oficial que retornassem à sua sala. Ao chegarem, Saavedra serviu um copo de água e entregou para Garda. Segurou-o em um dos ombros e sorriu. Em seguida, caminhou até a janela e observou a cidade por um tempo.

- Nada mais será o mesmo, Señor Garda. Nada mais.

Olhava para o sol que ainda brilhava poderoso nos céus. As pessoas caminhavam com suas vidas nas ruas lotadas de Madrid, enquanto um vento quente e seco soprava e servia de apoio aos pássaros.Ao longe, contemplou um corvo empoleirado no telhado de um prédio. Sentiu, novamente, o colar que pesava em seu pescoço. A jóia era último presente de sua Mãe, pois agora sabia que o broche e o pingente também lhe foram dados por ela. Novamente, teve a certeza de que ela sempre estivera ao seu lado. Levantou o olhar para o sol e apertou os olhos.

- Ouça-me Garda, pois tenho uma promessa para fazer ao mundo. Tu serás minha testemunha.

Xavier leva a mão até o pingente feito de pedra negra e o segura com força.

- Eu protegerei a ti e a todos que estiverem enlaçados ao meu Destino. Suas vidas serão minha força e sua dor será minha sina. Essa é minha promessa aos Deuses de Tír Na Nóg. Que eles guardem minhas palavras, pois elas são agora minha Face.

Ao terminar de dizer as palavras, Xavier sentiu seu sangue ferver. Era como se todas as células de seu corpo fossem preenchidas por uma força sobrenatural, vinculando-as à promessa e ao Destino. Sentiu o colar pesar ainda mais, mas também sentiu que tornava-se mais poderoso. Aquele era seu Dever e seu Destino.

O corvo, que até então parecia distraído, o observou. E com um breve grasnar, alçou voo no horizonte.
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em Qui Nov 08, 2018 5:07 am
As obrigações na Guarda Civil absorveram o tempo e as energias de Xavier durante os quatro anos seguintes. Mas isto não era um problema. Ele tinha prazer em trabalhar e mais ainda em estar na presença de Garda, com o qual desenvolveu uma amizade profunda. Eram como irmãos. Garda, ao mesmo tempo, parecia se tornar diferente. Perdeu peso, passou a ser mais ativo. Adquiriu um porte atlético. E parecia fazê-lo de forma inconsciente.

Os corvos sussurravam continuamente segredos a Xavier durante suas investigações. Agora sabia de onde vinham as intuições e as vozes que ouvia. Eram corvos que estavam próximos a ele, ainda que fossem translúcidos, e que ninguém pudesse vê-los. Às vezes, os corvos traziam mensagens de sua mãe. Ela não exigia nada de Xavier. Aparentemente, havia dado ao filho tempo para conhecer a si mesmo, ao mundo e aos outros com olhos novos. Saavedra se recordava, porém, que sua missão tinha a ver com a Magia. E ele a sentia no horizonte.

Numa tarde de verão de 1852, ouviu Garda bater à porta de sua sala antes de abri-la.

- Saavedra, tem uma jovem que deseja vê-lo. Se chama Mariana, disse ser uma sua amiga.

A última frase foi pronunciada com uma expressão curiosa. Garda abriu a porta e permitiu que a mulher entrasse.

Era Mariana, Saavedra soube imediatamente. Soube, pois sentiu seu sangue ferver e o mundo girar ao seu redor. Ouviu os cânticos de Tír Na Nóg, o cheiro da terra e das árvores de Irlanda. O cheiro de sua Mãe. E soube que estaria ligado, para sempre, a Mariana, assim como estava ligado a Garda.

Madrid: Porta da Espanha. Sansa10

Havia se tornado uma bela mulher, Mariana. Os cabelos eram avermelhados, caindo pelos ombros. Vestia-se de forma elegante, mas simples. Os olhos eram acinzentados, grandes e expressivos. Saavedra sabia que Mariana havia estudado, mesmo com todas as interdições sociais. Havia sido adotada por uma rica família, o que lhe deu imensas oportunidades. Havia se tornado uma mulher culta, que falava sete idiomas e lia em vários outros. Sabia tudo isso, mas há quanto tempo não se viam? Anos? Mariana carregava uma espécie de pergaminho enrolado na mão direita.

- Señor Saavedra. Buenos días. Me desculpe tomar teu tempo. Mas imagino que tenho algo endereçado ao senhor. Recebi alguns dos pertences do falecido Padre Brian. Dentre estes, havia uma pintura.

Estirou o pergaminho sobre a mesa. Era a pintura de uma paisagem, uma série de rochas brancas que formavam um círculo. Ao redor, um frondoso bosque de árvores centenárias. Saavedra conhecia aquela disposição. Era típica dos templos existentes nas Ilhas. Mariana chamou a sua atenção para um detalhe. No rodapé da pintura, estava escrito a tinta:

"Para Xavier. Odaín."
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em Qui Nov 08, 2018 9:28 pm
Quando Garda anunciou a presença da visitante, Xavier demorou alguns segundos para associar as palavras "Mariana" e "amiga". Foi somente quando a viu entrando que se deu conta de que estava diante de sua velha amiga.

A sensação de rever uma pessoa tão querida do seu passado se misturou à experiência mística de saber que Mariana era muito mais do que uma lembrança que se tornava concreta na frente dos seus olhos. As teias do Destino vibravam conforme a mulher dava passos em sua direção. Imediatamente, o colar de pedra pesou mais uma vez em seu pescoço, fazendo com que Saavedra tomasse consciência de sua promessa de 4 anos atrás. Novamente, era um sentimento ambíguo, que o fazia perceber o quão difícil a vida se tornava e ao mesmo tempo o imbuía de uma força desconhecida. Xavier se tornava uma pessoa melhor a cada vez que o colar se deparava com alguém que estava ligado ao seu Destino.

Xavier ficou sem palavras. Era como se estivesse congelado, enquanto Mariana o cumprimentava e entregava-lhe o pergaminho. Sua mente, contudo, se movia velozmente. Todas as memórias que tinha de Mariana vieram à tona, mostrando ao galego que, mesmo antes de conhecer a força do Destino, Ele se fazia presente.

E como se tornara bela! Durante todos os anos em que estiveram próximos, Xavier nunca olhara Mariana como uma mulher. Era apenas uma amiga. Sua única amiga. Mas agora...

Saavedra sorriu, enquanto balançava a cabeça rapidamente, como se estivesse saindo de um transe.

- Oh, perdoe-me a indelicadeza - ele disse, ao mesmo tempo em que separava uma cadeira para que Mariana se sentasse - Eu realmente não esperava sua visita aqui em Madrid, Seño... Señorita?

Sinalizou para Garda, pedindo que o oficial servisse um copo de água à moça. Xavier voltou a sentar-se em sua cadeira, com o pergaminho nas mãos.

- A última vez que tive notícias suas foi há 4 anos, quando me enviaste o que lhe pedi... Espero que não tenha lhe dado muito trabalho. E também peço perdão por nunca tê-la respondido com meus devidos agradecimentos! Minha vida aqui tem sido... atribulada.

Saavedra abriu novamente o pergaminho, colocando-o sobre a mesa e observando-o em seus detalhes, incluindo a estranha dedicatória do falecido padre.

- Mas diga-me, continuas vivendo em Santiago? E o que fazes em Madrid, além de vir me entregar esse peculiar presente de nosso querido Padre Brian?

Ele fita a imagem mais uma vez. Subitamente, seu tom muda, e Xavier fica mais compenetrado.

- Tem alguma ideia do que isso significa?
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em Sab Nov 10, 2018 5:30 am
Garda moveu-se veloz para apanhar o copo de água, tendo a delicadeza de fechar a porta antes de sair. Mariana sorriu de forma cortês e se acomodou. Depositou a pintura sobre a mesa antes de responder.

- Señorita. Quase Doña Mariana, na verdade. Estou pra me casar. Ele é um importante industrial e...

Fez uma pausa. Sorriu. Mas Saavedra sabia que ela estava triste. O sentimento era como ondas que o invadiam. Nunca havia sentido nada parecido. Um efeito adicional do Destino? Não sabia.

- Agora vivo em Barcelona. Próximo ao mar. Era um sonho de criança, sabe? Consegui realizar ao menos este. Enfim, me enviaram um sem número de coisas pertencentes ao Padre Brian. Livros, diários, objetos estranhos... Este foi o único que encontrei endereçado a você, mas gostaria que você viesse ver os outros. Não tenho o que fazer com todas aquelas coisas, mas talvez tenha algo que pode lhe interessar. Me lembro como eras... estranho quando mais jovem. Me pergunto se continuas assim.

Garda entrou, ligeiro, serviu a água e desapareceu. Da mesma forma que Saavedra sentia a tristeza de Mariana, Garda parecia sentir a ansiedade de seu amigo.

- Vim até Madrid para ajustar detalhes do matrimônio. Lembrei-me de ter lido nos jornais algo sobre a sua promoção, então soube que ainda estavas aqui. Resolvi passar para lhe deixar o presente de Padre Brian. Achei que faria bem ao Señor se lembrar dele.

Quando Saavedra pergunta o que ela acha sobre o nome inscrito na pintura, a mulher se aproxima da tela. Examina-a com cuidado antes de falar.

- É bela. Me traz uma inevitável sensação de desolação. Quase de morte. Odaín, por sua vez, era um termo comum em algumas regiões das Ilhas Britânicas. Tomei a liberdade de pesquisar, dado que a palavra me deixava curiosa. Era comum em Gales e na Irlanda, e era destinado aos secondogenitos de famílias nobres. Aqueles que não herdavam a propriedade, mas que comumente seguiam para o sacerdócio.

Aparentemente se deu conta do quanto estava sendo impertinente.

- Me desculpe, sei que a mensagem não era para mim. Mas as vezes não posso controlar a minha curiosidade.
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em Dom Nov 11, 2018 11:20 am
Saavedra registrava mentalmente tudo o que era dito por Mariana, mas seu olhar não se desviava da pintura. Com uma expressão compenetrada, estava focado em entender porque o Destino trouxera aquele objeto até ele. Tentava juntar as peças, e só voltou a fitar a amiga quando ela interrompeu sua fala.

- Por favor, não se preocupe. Essas informações me interessam demais neste momento.

Ele abre uma de suas gavetas e retira uma carteira metálica de cigarrilhas mexicanas. Retira uma delas e deixa a carteira aberta em sua mesa, sinalizando que Mariana poderia pegar, caso o quisesse. Em seguida, Xavier acende a cigarilha enquanto se levanta. Dá as costas para a mulher e põe-se a observar a janela enquanto traga o tabaco. Ao soltar a fumaça dos pulmões, continua falando, meio que para si mesmo.

- Brian Quinn sempre foi um homem que sabia muito mais do que aparentava. O que mais ele sabia sobre o mundo e não nos contava? Me pergunto qual mensagem ele quis me passar, entregando-me essa pintura...

Dito isso, ele se vira novamente para Mariana, dessa vez com um sorriso.

- Eu deixei de ser aquele jovem estranho, “Señorita-quase-Doña” Mariana. Agora sou quase um velho ainda pior!

Xavier se reaproxima da mesa, tocando a pintura com a mão esquerda enquanto bate as cinzas em um cinzeiro de mármore.

- Terei o maior prazer em analisar o restante dos objetos deixados pelo velho Padre. Posso acompanhá-la até eles. Estão contigo em Barcelona? Há tempos eu não pouso meus olhos no Mediterrâneo... Na verdade, já faz alguns anos que não vejo o mar, desde que me trouxeram para Madrid.

Dando mais uma tragada na cigarilha, Saavedra fica com o olhar perdido por um momento.

- Sinto muita falta do clima cinzento e da maresia da nossa A Coruña. Sei que a señorita prefere a brisa mais amena da Catalunha, mas não sente saudades de... de casa?

Após lançar a pergunta, Xavier olha Mariana nos olhos, como se estivesse buscando se conectar com a tristeza que sentiu emanando da velha amiga.
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em Qua Nov 14, 2018 8:05 am
- Barcelona não me faz falta, Señor Saavedra. Ainda resido ali. Estou em Madrid por razões organizativas, mas em breve estarei retornando. Terei prazer em recebê-lo, de forma que possas avaliar os pertences de Padre Brian e retirar o que porventura o interessar. Mas somente dentro de dez dias, porém. Devo continuar a organizar o meu matrimônio.

Levantou-se, mas não se dirigiu à porta.

- Não sei se Padre Brian queria dizer-te algo. Mas eu imagino que sim. Não era um homem de gestos triviais, tudo o que fazia tinha um profundo significado. Sugiro que siga os passos que ele te apresenta, quaisquer que sejam. Fico também contente sobre a sua estranheza: de fato me recordo que era a vossa maior qualidade.

Por fim, caminhou lentamente pela sala, até se deter diante da porta.

- Eu devo partir, agora. Espero realmente revê-lo, Señor Saavedra. Gostaria de tê-lo reencontrado em um momento menos tumultuoso da minha vida e...

O chão foi inundado por uma quantidade absurda de sangue. Diante de Saavedra, Mariana jazia atravessada por uma enorme e grossa lança, os olhos abertos sem vida voltados ao teto, mas desejando observar o céu. O colar que lhe havia sido dado por sua mãe ardia intensamente, quase queimando sua pele.

- ... e me sinto no dever de convidá-lo para o meu matrimônio. Ocorrerá em um mês a partir de hoje. Mandarei os convites, quando estarão prontos. Me despeço, Señor Saavedra. Lhe desejo um bom dia.

Ao mesmo tempo em que Mariana se preparava para deixar a sala, Saavedra ouvia o ruído de corvos do lado de fora da sede da Guarda. Sabia que sua Mãe desejava falar-lhe. Lentamente, sentia como se as peças de seu Destino estivessem se encaixando.
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em Qua Nov 14, 2018 3:13 pm
Xavier sorriu para Mariana. Era um sorriso triste, desprovido de qualquer espécie de sarcasmo. Não sabia quais eram os motivos da tristeza que vinha do coração de sua amiga, mas o sentimento era palpável. Ademais, achou indelicado inquiri-la sobre aquilo, após tanto tempo sem vê-la. Tal atitude seria ainda mais apropriada pelo fato de estarem dentro de um prédio policial. Com o passar dos anos e com a distância física que se colocou entre eles, Mariana e Saavedra eram agora estranhos um para o outro, e essa distância emocional transformaria qualquer pergunta pessoal numa espécie de interrogatório.

Ele apaga a cigarilha no cinzeiro enquanto fala:

- Eu compreendo. Já imaginava que sua estadia aqui seria rápida. Aguardarei o seu retorno à ensolarada Catalunha para avaliar os pertences de Padre Brian.

Quando percebeu que Mariana estava prestes a sair, Saavedra se adianta em direção à porta de sua sala, colocando-se à frente para abri-la...

...e foi nesse exato momento que a visão invadiu sua mente.

Com o passar dos anos, após finalmente ter sido apresentado à sua Mãe, Xavier havia compreendido que era o sangue dela que lhe permitia ter visões do futuro. No entanto, nunca iria se acostumar com elas. Não era possível. A Morrigan permitia que seu filho vislumbrasse entre os caminhos por entre as névoas do tempo, mas tudo o que conseguia ver podia ser resumido em duas palavras: Morte e desgraça. A Rainha Fantasma tinha o dom da profecia, mas estas quase sempre envolviam sangue sendo derramado.

Xavier ficou lívido. O sorriso triste deu lugar à uma expressão fria, ao mesmo tempo em que se esforçava para não demonstrar a dor que vinha do colar queimando em seu pescoço. Novamente, o Destino lembrava-o de sua promessa, tornando aquela visão ainda mais devastadora.

Ouviu Mariana convidando-o para o casamento e desejando-lhe um bom dia, mas antes que ela saísse pela porta, Xavier a segura por um dos pulsos. O toque não era violento, mas foi firme.

- Señorita Villafínez... Mariana. Por favor, tenha cuidado. Se precisar de alguma coisa, qualquer coisa, não hesite em me chamar...

Ele solta o braço da moça, se dando conta do quão estranha sua atitude poderia parecer aos olhos comuns.

- Eu.. eu peço desculpas, mas é que, depois de tanto tempo... Eu odiaria que algo ruim lhe acontecesse...

Xavier volta a abrir o sorriso triste.

- Tenha um bom dia, Señorita. Espero revê-la em breve.

Após Mariana se retirar da sala, Saavedra aguarda alguns minutos, dando tempo para que ela se afastasse um pouco. Pela janela, Xavier observa e escuta os corvos que se aglomeravam do lado de fora do prédio onde estava. Ele sorri. Sua Mãe o aguardava. Antes de sair para encontrá-la, porém, Xavier para diante de Garda.

- Capitán, tenho uma tarefa para a qual preciso de ti. Quero que peça a dois homens de confiança.. Ortega e Miguel devem servir... para seguir a mulher que acabou de sair dessa sala. Eles devem acompanhá-la discretamente e garantir que nada aconteça com ela enquanto estiver em Madrid, compreende? Dê um jeito de justificar essa tarefa com algum motivo oficial... Não sei... Seja criativo!

Em seguida, Saavedra aperta o passo e sai do prédio, indo em direção ao local onde os corvos estavam. O galego dobra uma esquina e já os encontra. Estavam empoleirados em uma árvore. Eram dezenas e proporcionavam uma visão aterradora. Mas não para Xavier. Não para um filho da Morrígan.

- Cá estou, meus irmãos! Cá estou para atender o chamado de nossa Mãe!

Xavier falava com os corvos. Não sabia exatamente qual língua utilizava naquele momento, nem se os poucos transeuntes que passavam por ali compreendiam o que estava acontecendo. Mas fato é que tinha plena certeza que os pássaros lhe escutavam.

- Venho recebendo pistas. Detalhes de um quebra-cabeça que ainda não consigo completar. Mas sei que meu Destino chama. Digam-me: qual a mensagem de nossa Mãe?
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em Qui Nov 15, 2018 9:50 am
A expressão de Mariana era um misto de estranhamento pela ação de Saavedra e de contentamento em razão da preocupação demonstrada por ele. A mulher se limitou a sorrir e anuir com um movimento de cabeça.

- O esperarei em Barcelona, Señor Saavedra. Nos vemos em alguns dias.

Em seguida, deixou a sala, desaparecendo no corredor. Diante da solicitação de Xavier, Garda anuiu prontamente, deixando transparecer que já tinha alguma coisa em mente. Também ele desapareceu pelos corredores, dirigindo-se à própria sala.

Deixou, então, sua sala para seguir em direção aos seus irmãos. Deu a volta no prédio e os encontrou numa espécie de terreno baldio, próximo aos estábulos da Guarda. Ali, em meio ao descampado, existia uma única árvore, morta há anos, mas que ninguém teve a decência de cortar. Nos diversos galhos sem folhas se empoleiravam diversos corvos, seus grasnares ecoando na mente de Saavedra como uma sinfonia conhecida. Outros, silenciosos, estavam no chão sob os galhos da árvore.

Quando da aproximação do galego, um dos corvos se aproximou, aos saltos. Era maior do que os outros, com o peito estufado e uma coloração quase cinza. Deteve-se diante dos pés de Saavedra. O galego, por alguma razão, intuiu o que deveria fazer: agachou-se e expôs o colar que havia sido um presente d'A Morrigan, no que o corvo se limitou a bicar o objeto com aparente desinteresse. Em seguida, afastou-se e levantou voo, no que foi seguido por todos os outros corvos. Somente o som das asas eram audíveis. Partiram em silêncio.

Saavedra ainda esperava a mensagem quando teve a inequívoca sensação de estar sendo observado. Girou-se para ver um homem que não estava ali antes. Era uma figura impossivelmente alta, mas extremamente magra e esquálida. Tinha cabelos avermelhados que caiam pelos ombros e olhos azuis como os mares que Saavedra nunca havia visto. Seus braços eram longos e terminados em dedos finos e aparentemente hábeis. Em uma das mãos carregava uma harpa dourada. Vestia-se com um camisão cinza e calças da mesma cor, ambos cobertos por um manto em tons de verde e dourado. Dispunha de anéis e pulseiras aparentemente valiosas, mas estava descalço. A grama parecia bailar lentamente ao seu redor.

- É uma honra conhecê-lo, Xavier Saavedra. Sou Taliesin, chefe dos Bardos do Oeste e Poeta dos Tuatha. Pelo tempo que for necessário eu serei o intermediador de tuas mensagens e daquelas de tua mãe. O imenso poder da Mãe da Magia impede que a realidade suporte suas manifestações pessoais, de forma que, na condição de seu subordinado, assumo a tarefa de guiá-lo no que for necessário.

O homem sorriu. Era um sorriso franco, infantil. Quase inocente. Mas Saavedra se sentia bem na presença dele. Era como estar, uma outra vez, na presença de Padre Brian.

- Tua Mãe me confiou a tarefa de instruir-te em teus próximos passos. De ti é requerida uma viagem, deverás partir, o mais rápido possível, para Belfast. Seus talentos são necessários. Um dos Filhos de Belenus, Senhor da Luz, foi assassinado dois dias atrás. Seu corpo está sendo protegido e preservado magicamente por um de seus associados, um Filho de Ares, Senhor da Guerra. Esperamos que teus talentos possibilitem descobrir as circunstâncias da morte. A Morrigan acredita que esta morte se relaciona com eventos recentes que estão acontecendo em Belfast. Rumores falam sobre uma espécie de culto liderado por um Herdeiro de filiação desconhecida. Não dispomos de maiores informações, todavia. Quando da tua chegada ao porto de Belfast, encontrarás Theo Gemistus, Filho de Ares. Ele lhe dará novas instruções.

Saavedra notou que uma forte melodia começava a ecoar em seus ouvidos. Teve também certeza de que ninguém mais a ouvia. Era prenúncio de que Taliesin, O Bardo, estava de partida. Os Deuses e seus servos jamais restavam muito tempo no Plano Material, por razões que Saavedra ainda não entendia.

- Até breve, Xavier Saavedra. Se precisar de meus conselhos, toque o teu presente e concentre-se na minha figura. Eu o ouvirei e responderei. Não seja, contudo, leviano em convocar-me. Meus afazeres me mantém constantemente ocupado.

Olhou para a harpa e fez uma expressão como se dissesse "na verdade, devo só tocar continuamente esta coisa". Sorriu. Em seguida, desapareceu quando a melodia havia alcançado o seu ponto alto. Depois, restou somente o vento a balançar os galhos mortos.
Xavier Saavedra
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em Qui Nov 15, 2018 5:29 pm
Saavedra estava agachado no chão, quando os corvos alçaram voo e uma barulhenta revoada. Acompanhou-os com o olhar, até que sentiu a presença que se aproximava. Virou-se e vislumbrou Taliesin, o maior dos Bardos do Oeste. Ao ouvir sua melodiosa voz se apresentando, Xavier sorriu. Com uma voz empostada, respondeu em gaélico:

- Eu teria pedido um um ágil cavalo corredor
De vigoroso trotar, o preço do espólio de Talisin.


Saavedra abaixa então o tom de sua voz. Continuou falando, claramente emocionado.

- "Os Espólios de Taliesin, uma Canção para Urien". Sua obra fez parte de minha juventude, Bardo. Muitas foram as noites em que me perdi no meio de suas palavras. Se hoje me expresso na língua de meus ancestrais, foi porque me ensinastes. A honra é toda minha, Taliesin, dos Bardos do Oeste, Poeta dos Tuatha.

Em silêncio, Xavier recebe do Bardo a missão que sua Mãe lhe enviara. Não seria capaz de esconder o imenso sorriso, o orgulho que lhe preenchia o peito. A Morrigan exigia que Saavedra empregasse seus maiores dons em prol de seu povo. Os mortos denunciam seus algozes para aqueles que conseguem escutá-los. Um cadáver fala. A cena de um crime grita, clamando sua verdade. Agora, era a vez de Saavedra descobrir quem derramara sangue divino.

Saavedra sabia que sempre seguira seu Destino, mas dessa vez sentia os fios deste ainda mais fortes. Nascera para fazer aquilo. Entraria para a eternidade fazendo aquilo.

Não ousou interromper o Bardo. Foi somente quando este terminou que Xavier voltou a falar.

- Chegarei ao cerne do que está por trás dessa morte, Taliesin. A Morrigan já recebeu este filho de Belenus em seus braços, mas agora Ela saberá quem o enviou. E por que o fez. Eu partirei imediatamente para Belfast, onde encontrarei com este Theo Gemistus, filho de... Ares?

Ele levanta uma sobrancelha, denotando sua curiosidade com os detalhes que surgiam.

- Mas devo perguntá-lo, se me permite a ousadia, algumas coisas que me despertam a imediata curiosidade neste caso. Belenus perdeu um filho, mas por que nós, Tuatha, devemos nos encarregar de investigar sua morte? Ou o que está insinuando é que Belenus, Senhor da Luz entre os nobres gauleses que ocupavam a Francia, também é um de nós? E mais: o que um membro do Dodekatheon faz em nossas terras?

Após o término de seu encontro com Taliesin, Saavedra se despede polidamente. Com o passo apertado, ele retorna à sede da Guardia, procurando por Garda. Ao encontrá-lo, pede que o siga até sua sala.

Ali, o galego se apressa a dar as instruções necessárias para o companheiro, ao mesmo tempo em que ajeita todos os seus pertences e veste sua casaca.

- Parto hoje mesmo para Santander, onde tomarei um vapor para Belfast. Ficarás encarregado de nossas atividades até meu retorno. Peço que mantenha olhos e ouvidos abertos para garantir a segurança da Señorita Villafínez, enquanto ela estiver em Madrid. Caso eu precise me comunicar contigo, enviarei um de meus irmãos, compreende?

Xavier termina de se arrumar e coloca-se diante de Garda. Com uma mão pousada no ombro do amigo, ele continua, agora um pouco mais calmo:

- Diga à Mariana, caso esta venha a me procurar, que tive que partir para resolver assuntos de família. Diga isso para qualquer um que perguntar, pois... é a verdade, afinal. E diga também à Mariana que eu a verei em Barcelona, para o casamento!

Sorri, e dá dois tapas leves no rosto de Garda.

- Hasta luego, nobre amigo.



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em Sex Nov 16, 2018 9:36 am
Saavedra viu o Bardo sorrir diante dos relatos sobre a sua importância. Pareceu, por uma fração de segundo, que havia se tornado mais alto e mais imponente.

- É uma honra. Quando escrevi minhas canções e poemas o mundo era diferente. Me sinto feliz em saber que minhas palavras ainda ecoam nos corações e mentes de algumas pessoas. Obrigado, Senhor dos...

Não completou a frase. Ao invés de fazê-lo, abriu um meio sorriso.

- Sim, Belenus é um de nós. Seu Panteão foi exterminado séculos atrás e ele seguiu sozinho. Por piedade ou por necessidade ele foi acolhido pelos Tuatha, dado que o seu culto, trazido por povos que escapavam do jugo romano, chegou às Ilhas. A presença de Belenus entre os Tuatha, contudo, segue ritos e condições muito específicas. Um dos nossos Geas coletivos é a defesa dos Filhos do Sol que restam, por razões que não são de meu conhecimento. É um estrangeiro entre nós, o único, mas suas visões e preceitos encontraram na Ilha Esmeralda e na Bretanha um terreno fértil. Além disso, seus conhecimentos são de extrema relevância para os Tuatha.

Começava a desaparecer quando respondeu à outra parte da pergunta.

- Os Herdeiros estão espalhados pelo mundo, Saavedra. De forma que a presença de um Dodekatheon em Irlanda não é motivo para espanto. Theo Gemistus é um aliado circunstancial dos Tuatha e de seus Herdeiros. Digo circunstancial em razão de seu temperamento e interesses, sobre os quais você aprenderá quando o encontrar. Ele estará te esperando no porto de Belfast, é já ciente de sua chegada. Mantenha a prudência no seu confronto, porém. Não compactue com a sua violência gratuita, mas confie em sua força quando necessário.

E, com esta última recomendação, desapareceu.

Garda ouviu com atenção todas as recomendações de Saavedra, anuindo com as mesmas. O galego sabia que Garda havia se tornado, nos últimos anos, um homem capaz de assumir as suas tarefas quando da sua ausência. Fazia parte do processo de transformação acelerada que podia ser verificado. Emmanuel se despediu de Saavedra com um longo abraço e desejos de boa sorte.

Em pouco tempo, Saavedra conseguiu arrumar os bilhetes de trem e vapor que o conduziriam a Belfast. A viagem até Santander foi veloz mas incômoda: o vagão de Saavedra estava repleto de crianças barulhentas. O vapor, uma embarcação curiosamente chamada Rainha Esmeralda, era um veículo moderno e confortável, além de veloz, e conduziu o galego pelo Golfo de Biscaia e, em seguida, pelo Atlântico Norte em direção às Ilhas. Saavedra aproveitou para descansar e revisar alguns procedimentos da Guarda: seu sono se tornava cada vez mais relaxante à medida em que o navio avançava, e sua mente parecia se tornar mais afiada e concentrada. No coração, ansiedade. No estômago, frio. Estava tornando a casa.

Do convés, viu as Ilhas. Uma imensidão verde, com odor de mar e sargaço. Aves marinhas voavam sobre as chaminés dos navios, atraindo a atenção dos passageiros. Saavedra, entretanto, tinha os olhos fixos na ilha à sua frente, e quase podia discernir um véu esverdeado que parecia flutuar sobre o local. Estava ciente de que o Tuatha, seus Filhos e fiéis haviam convocado, poucos séculos antes, uma poderosa barreira que defendia a Ilha Esmeralda de invasões mortais e sobrenaturais. Teve certeza disso quando o navio ultrapassou um dado limite e ele sentiu, claramente, a presença não só de sua mãe mas de todo o seu Panteão.

Belfast se avolumava na costa: uma cidade antiga e charmosa, com casas baixas, ruas estreitas e chaminés que expeliam fumaça. O céu estava nublado, mas não havia umidade de chuva. Saavedra divisou o porto depois de um tempo, um local apinhado de gente, navios e mercadorias, onde qualquer transação poderia ser realizada com um pouco de pesquisa e paciência. A tripulação efetuou todos os procedimentos de atracamento e desembarque. O galego tinha poucos pertences, e foi com eles que desceu a rampa do navio pisando, finalmente, na Ilha Esmeralda.

Um calafrio de excitação e de energia percorreu seu corpo. Instintivamente descobriu que sabia mover-se com perfeição pelas ruas estreitas e apinhadas. O pingente, no colar, queimava a pele de leve.

Havia um homem no porto. Alto e musculoso, vestia-se com um casaco vermelho sangue que o distinguia dos outros homens e mulheres. Era careca, com grandes olhos perturbadoramente vazios. Dispunha de uma sombra de barba, um enorme colar que caia-lhe sobre o tórax avantajado e anéis dourados nos dedos. Saavedra viu o coldre de uma pistola, sob o casaco, quando ele se aproximou. Sentiu o cheiro de sangue e lama, e podia jurar ter ouvido os gritos dos caídos em batalha, envolvidos em desespero. O homem sorria, levemente, parecendo ter ciência do efeito que causava. Emanava uma aura de autoridade, mas também de justiça e piedade pelos mais fracos que ele.

- Você deve ser Xavier Saavedra, Filho da Rainha Fantasma. É uma honra e um privilégio conhecer um Filho da Mãe das Batalhas. Sou Theo Gemistus, Filho de Ares, Senhor da Guerra dos Dodekhateon. Espero que a viagem tenha sido tranquila e que te encontres descansado. Há muito a ser feito.
Xavier Saavedra
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em Seg Nov 19, 2018 11:03 am
Durante os poucos anos que se passaram após conhecer sua mãe, Xavier ficava imaginando como seria pisar na Ilha Esmeralda pela primeira vez. Agora, finalmente, a ilha estava diante dos seus olhos. Ali estava ele, de pé sobre o convés, observando a terra se aproximando, conferme a embarcação se preparava para atracar.

Se fosse contar apenas com sua visão, a Irlanda não lhe pareceria nada de mais. O céu era cinzento, as construções eram baixas e simples. Mas Saavedra via a Ilha Esmeralda com muito mais sentidos do que somente seu olhar. Era um misto paradoxal de ansiedade e aconchego, como se estivesse retornando à casa onde passou a infância, apesar de nunca ter posto os pés ali.

Seu coração se acelerava e se aquecia, ao mesmo tempo em que sentia o pingente queimando em sua pele. Mais uma vez, tal como ocorreu quando A Morrígan se revelou para ele, seu sangue fervia. Sua família o chamava. Sim, nunca havia visitado a Irlanda, mas o sentimento que o dominava era o de retorno. E ao cruzar a barreira esmeralda que fora erguida pelos Tuatha e seus aliados mortais, Saavedra sentiu-se seguro.

Entre os poucos pertences que carregava na bolsa à tiracolo, estava uma edição desgastada do Livro de Taliesin, retirada há muitos anos da biblioteca particular do Padre Brian. Emocionado, Xavier retirou o livro da bolsa e segurou-o com as duas mãos, apenas para ter a noção de que regressava à terra onde todas aquelas histórias aconteceram. As histórias de seus antepassados.

Quando desceu do navio e caminhou pelo porto de Belfast, Saavedra já tinha a certeza de que estava em casa. Em poucos segundos, sabia que estava familiarizado com o terreno. Regojizava-se com aquela sensação no momento em que vislumbrou o Filho de Ares que o aguardava. Observou o estranho homem de cima a baixo. Sem dúvidas, havia uma aura de ameaça e força, ainda que estas fossem controladas e direcionadas. Sorriu para o Herdeiro:

- A honra é toda minha, Theo Gemistus. A viagem foi ótima, obrigado por perguntar. Na verdade, sinto-me descansado como não me sentia em muito tempo. Enfim, disseram-me que você estaria aqui me esperando. Eu estou pronto para chegarmos ao fundo da questão do assassinato de seu amigo.

Saavedra continuou a observar Gemistus, dessa vez atentando-se a detalhes que poderiam ser imperceptíveis para qualquer mero espectador. Mas ao contrário deste, o galego sabia o que observar. Em poucos segundos, usou seus talentos para traçar um perfil do Filho de Ares e saber de antemão com quem estava lidando.

Perfilador Psíquico:
Xavier Saavedra usa o truque “Perfilador Psíquico”, tornando-se capaz de discernir a idade, vícios e compulsões do seu interlocutor, bem como saber se ele esconde algo, como define a si mesmo e sua Virtude mais alta.
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em Ter Nov 20, 2018 10:12 am
Gemistus contava trinta e um anos de idade. Era um homem forte, sem vícios ou compulsões além daquela de exercitar continuamente seu corpo, em busca do máximo preparo físico possível. Era um soldado. Mais soldado do que Saavedra, na verdade. Toda a sua mente, expertise e preferências estavam envolvidas com assuntos militares, com a violência e com a Morte. Não obstante, Saavedra sentia, embora não soubesse defini-lo, que Gemistus era guiado por um profundo código moral pessoal. Em seu íntimo existiam ao menos dois grandes segredos, pois Saavedra sentia no ar o perfume do mistério, um perfume que o atraia continuamente. Definia a si mesmo exatamente como um Soldado a serviço do próprio Pai, embora não estivesse necessariamente a serviço dos Dodekhateon. Dentre as Virtudes dos gregos, aquela que o guiava era o Valor, seguido de perto pela Vingança.

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Gemistus abriu um sorriso.

- Fico contente que sua viagem foi agradável. Por favor, me acompanhe. O Senhor pode se hospedar em minha residência, onde também está o corpo de Bernard. No caminho explicarei o que ocorreu.

Theo tomou a frente, sendo seguido por Saavedra. Deixou o porto pelas vielas de acesso, e o galego pode imergir-se no ambiente de Belfast. As ruas eram particularmente escuras e abafadas, com um odor constante de peixe fresco, cerveja barata e batatas assadas. O céu continuava nublado, ameaçando desabar sobre a cidade, mas as pessoas não pareciam se importar. Cumprimentavam Saavedra e Gemistus com sorrisos amistosos retribuídos pelo Filho de Ares. Gemistus parecia estar muito à vontade naquele lugar e mais do que isso, parecia realmente gostar de Belfast e da Ilha Esmeralda. Fazia piadas com os vendedores por todo o caminho. As casas escuras e cheias de musgo, a lama nas ruas, a vibração perpétua no ar, como uma corrente de energia que passava por todas as coisas: tudo aquilo fazia com que Saavedra se sentisse em casa. De fato, os transeuntes, por alguma razão, o cumprimentavam enquanto passava, como se a sua face não fosse desconhecida.

- Aos fatos, então. - Gemistus começou, depois de parar por alguns instantes para comprar duas canecas de cerveja, uma das quais ofereceu a Saavedra. O líquido era encorpado e de boa qualidade - Mais ou menos cinco anos atrás Belfast foi palco de um grande conflito. Eu ainda não vivia aqui, mas Bernard e uma outra aliada, Rose, me contaram o que aconteceu. Um círculo de Scion particularmente potente começou a colaborar com os mortais no sentido de opor-se aos ingleses. O resultado, como se pode prever, foi o total extermínio deste grupo pelas forças comandadas por um certo Lorde Wittshaw, Filho de Thor e homem forte no governo de Smith-Stanley.

Gemistus se deteve para carregar as bagagens de uma senhora, entrando em um pequeno prédio e retornando minutos depois com biscoitos. Os dividiu com Saavedra antes de continuar.

- As coisas retornaram mais ou menos ao normal até alguns meses atrás, quando este grupo pareceu ressurgir. Se comportavam, porém, de maneira diferente. São, pois ainda estão ativos, liderados por um Herdeiro de paternidade desconhecida, mas chamado de Marechal pelos mortais anti-imperialistas que o seguem. Nunca o vi, nós nunca o vimos, mas sua presença pode ser sentida pela cidade. Parece ser um indivíduo de um certo poder, alguém para se levar em consideração.

Neste momento os olhos de Gemistus brilharam.

- Entramos em rota de colisão, meu grupo e os seguidores do Marechal, quando chegou ao nosso conhecimento que ele procurava um artefato particularmente poderoso. Se trata de uma espada chamada Arectaris, que pertencia a Balder, O Magnífico, mas que foi usada por Odin na guerra contra os Thuata. Segundo a lenda, Arectaris é capaz de destruir qualquer Scion com um único corte, não importa se este é um Herói ou um Semideus. Não sabemos se a arma está em posse do Marechal. Nesta confusão, Bernard foi assassinado em uma emboscada. Não sabemos se organizada pelo Marechal e seus asseclas ou por outra força, tampouco sabemos o método usado. É por isso que você está aqui. Chegamos. Estamos em casa.

Era uma casa grande, mas particularmente simples, aninhada naquilo que Saavedra entendeu ser a periferia de Belfast. Ali o som de música, risadas e comida bem feita eram ainda mais intensos. Havia algo de genuíno na cidade, de pouco esnobe, ao contrário da maioria das capitais europeias. A casa era marrom, de dois andares e um porão visível já do lado de fora, abaixo do nível da rua. Dispunha de poucas janelas e somente uma porta. Enquanto Theo entrava, alguns bêbados o incitavam a juntar-se a eles. A resposta foi breve: Gemistus apontou para Saavedra, deixando claro que tinha negócios a finalizar. Terminou jogando algumas moedas para que os homens continuassem a se embebedar.

- Homem, eu adoro esta cidade. Bem vindo, Saavedra.

Ao passar pela porta, Saavedra pode sentir que a casa era protegida exatamente, embora com um poder muito menor, como a Ilha. A sala era pequena e aconchegante, com uma lareira, algumas poltronas, obras de arte e um grande tapete a decorar o pavimento. As outras salas não estavam à vista, a causa da conformação da casa, mas Saavedra não sentia sinal de perigo. Ao contrário, sentia-se muito bem, intensamente protegido. Gemistus serviu um scotch ao galego, além de acender a lareira com uma simples oração, enquanto mantinha a mão esquerda no bolso. Sentou-se em uma das poltronas e convidou Saavedra a fazer o mesmo. Saavedra sentia que havia mais alguém na casa, embora não necessariamente vivo. O cheiro de morte preenchia o local.

- Tens perguntas, Saavedra? As responderei, em caso positivo. Caso não, o levarei diretamente ao corpo de Bernard. Espero que o Senhor possa ser-nos útil como nos foi dito que serias.
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em Ter Nov 20, 2018 1:59 pm
Saavedra manteve-se em silêncio durante todo o trajeto do porto até a casa de Gemistus. No caminho, estava atento a todos os detalhes que conseguia captar. Tudo era fascinante, principalmente devido à bizarra sensação de novidade misturada com familiaridade. Belfast era um mundo que se abria diante de seus sentidos. Era um festival de cores, cheiros, barulhos e toques. Provou a forte cerveja irlandesa, muito diferente dos vinhos com os quais estava acostumado. Comeu o biscoito que lhe fora oferecido, com seu sabor simples e despretencioso. Escutava a música, não muito distinta das cantigas que conhecia de sua antiga e distante Galícia, e o sotaque particular do inglês falado pelos irlandeses. Os muitos cheiros eram um caso à parte: peixe, mar, lama e suor. Era como se a alma da Irlanda, humilde e verdadeira, estivesse condessada naqueles aromas. Tudo aquilo o fascinava, justamente por lhe despertar a sensação de conforto sensorial. De fato, era como voltar pra casa. Xavier não conseguia esconder o sorriso de felicidade.

E, por incrível que poderia parecer, não havia melhor guia para aquele momento do que Theo Gemistus. O homem navegava pelas ruas e por entre as pessoas de Belfast como se sempre tivesse pertencido àquele lugar. Por mais que emanasse guerra e fúria, Gemistus tinha a simpatia completa das pessoas que os cercavam. Era como se ninguém sentisse a potência ameaçadora dele. Ou até sentiam, mas essa era facilmente sobrepujada por outras qualidades. Theo Gemistus era um homem do povo. Bastou uma curta caminhada para que Saavedra o considerasse um potencial amigo.

Foi somente quando chegaram à casa de Gemistus e sentaram-se nas poltronas, e a sensação de conforto tornou-se ainda maior, que Xavier sentiu que era o momento de falar. Bebericou o scotch que lhe foi servido, para em seguida acender sua cigarrilha, oferecendo outra para Theo. Em meio às baforadas, quebrou seu silêncio:

- Agradeço muito sua já notável hospitalidade, Theo Gemistus. E perdoe-me o silêncio. Sou um homem que prefere ouvir à falar. Tenho sim algumas perguntas a serem feitas, antes de prosseguirmos para que você me apresente Bernard. A presença dele nesta casa já está clara pra mim.

Xavier passa os olhos pelo ambiente, levando-os na direção que sabia levar ao corpo do Herdeiro falecido. Voltou a olhar Theo e sorriu.

- Está claro para mim o amor que sentes por Belfast. Ainda que não me falasse, isso ficou evidente em nosso caminho do porto até aqui. E mesmo com o pouquíssimo tempo que tenho nesta cidade, já consigo entender os motivos. Mas me pergunto como chegou e porquê chegou até aqui, vindo seja lá de onde veio. E como veio a ter contato com Bernard?

- Sobre esse Marechal, é a primeira vez que ouço falar, mas já o acho uma figura fascinante. O fato de ser contrário ao domínio inglês já é o suficiente para que tenha um pouco da minha simpatia... Me incomoda, e muito, a opressão que o império protestante impõe aos católicos deste país. Além disso, a animosidade entre espanhóis e ingleses não é recente. Talvez tenha algo a ver com o fato de terem nos mostrado, forçosamente, que uma certa armada que se dizia invencível não era tão invencível assim...

Saavedra sorri.

- Você nunca viu esse Marechal pessoalmente. Mas não conhece ninguém que o tenha feito? Não sabem se é um homem, uma mulher? Tem algum treinamento militar? Gostaria de saber quais são seus métodos. Além disso, se ele é tão misterioso, como sabemos que é um Herdeiro? E essa espada, Arectaris, ninguém sabe de seu último paradeiro?

Ao terminarem com as perguntas, Saavedra apaga a cigarilha na sola de sua bota e se levanta.

- Muito bem. Estou pronto para conversar com o filho de Belenus. Vejamos o que ele ainda pode nos dizer.
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em Qua Nov 21, 2018 12:50 pm
Gemistus se recostou na poltrona e bebeu um gole do scotch. Inclinou a cabeça para o lado, acenando para um pequeno retrato emoldurado que estava sobre a lareira. Era a figura de um jovem, de traços finos e modos elegantes.

- Vim para Belfast por causa dele. De origem, sou grego como meu Pai. Ele era irlandês, e me convenceu, com toda a sua paixão, a vir pra cá e lutar contra os ingleses. Mas ele era um mortal. Era frágil. E foi morto. Ao menos sei quem o matou. E quando for o momento correto, arrancarei o coração dele com as minhas mãos nuas.

Theo falava as palavras com uma estranha naturalidade. Não demonstrava grande desejo de vingança. Mas seus olhos diziam outra coisa. De certa forma, eles assustavam Saavedra.

- Bernard foi o primeiro Herdeiro que conheci. Depois, veio Rose. Eles me acolheram, de alguma forma, ainda que eu não fosse um deles. Rose encontra-se em Dublin neste momento, investigando algumas Crias de Titãs. Retornará em breve. Fato é que sofremos uma baixa e agora somos mais vulneráveis em caso de confronto com o Marechal...

Levantou-se com o copo em mãos.

- Que é a sua outra pergunta. Eu nunca o encontrei pessoalmente. Rose sim, e o que sabemos vem de seus relatos. É um homem, na casa dos quarenta anos, com cabelos brancos e barba igualmente alva. Parece uma figura de autoridade, digamos. Rose disse que ele inspira muito respeito e ordem, da mesma maneira que nós, portanto intuiu que fosse um Herdeiro. Foi uma visão breve, segundo ela ocorrida por acaso enquanto passava por uma praça. Era como se ele quisesse que ela soubesse.

- Sabemos pouco também sobre seus métodos. O Marechal opera através de uma intrincada rede de servidores e espiões. Estes homens sabotam, assassinam e destroem documentos de propriedade ingleses. E está se tornando um problema, pois Lorde Wittshaw inevitavelmente olhará pra cá. Já lhe disse que foi ele quem matou Ronan? Acho que não.

Bebeu outro gole do scotch.

- Vamos subindo e eu te falo sobre Arectaris. - Caminharam - Não se sabe o paradeiro. Bem, não se sabia. Enfim, Arectaris caiu dos Mundos Supernos quando da batalha entre o Pai e a Mãe dos Corvos. Jamais havia sido vista antes de agora. Não temos certeza, mas acredito que detectamos alguma coisa em Dublin. É por isso que Rose está lá. Nem sei se deveria confiar tanto em você, mas é isso. Sou péssimo julgador de caráter, mas Rose dirá se você é confiável ou não.

Subiram as escadas e passaram por um pequeno corredor. Ao final dele havia uma porta estreita que foi aberta por Gemistus. O local parecia vibrar, além de ter um forte perfume de ozônio. Era um pequeno quarto com uma única janela e sem móveis. No centro, somente uma cama simples. Sobre ela um homem visivelmente irlandês: ruivos, com enormes sardas e uma barba igualmente avermelhada. Os olhos, abertos, eram profundamente azuis e fitavam o teto, sem expressão.

- Te apresento Bernard, filho de Belenus.
Xavier Saavedra
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em Qui Nov 22, 2018 10:00 am
Saavedra olhou para o porta-retrato indicado por Gemistus. Imediatamente, compadeceu-se com a dor do Filho de Ares.

- Eu lamento muito por sua perda, Gemistus. E também entendo sua dor. Sei como é perder uma pessoa amada para a violência. Meu querido pai e meu avô foram brutalmente assassinados quando eu era ainda jovem, em um ato de traição.

Ao dizer isso, deu-se conta que um dos motivos pelos quais teve uma simpatia inicial por Theo Gemistus era o fato dele lembrar-lhe um pouco Fernando Saavedra. Seu pai também era um homem bruto e violento, ao mesmo tempo em que era profundamente justo e querido. Mesmo embrutecido pelo vida, Fernando nunca escondeu ou negou afeto à pessoas que o buscavam. Talvez essa tenha sido sua sina. Sorri diante dessa conclusão.

- Mesmo com tudo o que aconteceu comigo após saber a verdade sobre minha mãe, ainda sinto falta dele. É curioso dizer isso mas, creio que você teria gostado dele. Sou bom em ler as pessoas, e acho vocês parecidos, de certa forma. Também é curioso quando percebemos que somos dependentes dos mortais, de várias formas possíveis.

Ainda estava fumando quando conversavam sobre isso. Deu uma profunda tragada na cigarrilha, baforando antes de continuar.

- Porém, acho que uma das nossas muitas diferenças é que temos concepções muito distintas de vingança, ou de retribuição. Vinguei meu pai ao descobrir a verdade por trás de sua morte. Esse é meu maior presente àqueles que partiram.

Quando se deparou com o corpo de Bernard, Saavedra se impressionou. À vista, não havia nada de particularmente distinto entre aquele cadáver e tantos outros que já vira. Mas era a primeira vez que se deparava com o corpo de um Herdeiro. Era uma sensação estranha perceber que, mesmo com o sangue divino, ainda eram mortais. Além disso, havia uma outra questão. Bernard jazia ali, sem vida, mas não sem presença. Sua força ainda emanava e era quase palpável naquele cômodo.

Aproximou-se do Filho de Belenus e tocou-lhe a fronte, fitando os profundos olhos azuis. Em gaélico, murmurou:

- Que a Mãe dos Corvos o tenha recebido em toda a glória que merece.

Virou-se para Gemistus e disse:

- Tenho um profundo respeito por todos aqueles que foram vítimas da Morte Violenta, não importando os motivos que os levaram para tal.

Xavier tira de dentro da camisa um dos seus pingentes. Era aquele que carregava consigo desde que se entendia por gente: a imagem de uma mulher coberta por um véu. Ele o beija e faz uma breve oração. Imediatamente, seu semblante muda. Saavedra torna-se sério e frio, não esboçando nenhum sentimento. Acabava de entrar em um modo obcecado. Deixa sua bolsa no chão, tirando dela um caderno surrado e um lápis. Ele abre o caderno na mesma cama onde estava Bernard e começa, freneticamente, a examinar o corpo e fazer anotações.

Minuciosamente, ele analisa cada detalhe. Buscava ferimentos e marcas. Qualquer tipo de pista que lhe saltava aos olhos. Olha debaixo das unhas, os cabelos, o nariz. Observa qualquer informação que estivesse escondida em suas roupas, inclusive retirando-as quando necessário. Para cada informação que Bernard revelava, Saavedra corria até seu caderno a anotava. Fazia tudo o que havia aprendido com os manuais do criminólogo Alphonse Bertillon.

Percebeu que Theo Gemistus o observava e disse, em voz baixa, mas sem olhar para o Fliho de Ares:

- Todo cadáver nos conta uma história, Gemistus. Se soubermos ouvi-los, seremos capazes de descobrir muitas coisas. Se pudermos observar a cena do crime, então... é como ler um livro...

Porém, Xavier Saavedra tinha muito mais do que os métodos heterodoxos do inspetor francês em sua caixa de ferramentas. Era um Herdeiro d'A Morrígan, e por isso a Morte abria seus véus para ele.

Sentidos da Morte:
Xavier Saavedra usa Sentidos da Morte (Morte 1), para descobrir a causa da morte de Bernard, bem como quaisquer detalhes que consiga captar. Ao mesmo tempo, Saavedra torna-se capaz de ver fantasmas e espíritos, caso algum esteja presente.
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