Ir em baixo
Storyteller
Admin
Mensagens : 369
Data de inscrição : 25/11/2017
Ver perfil do usuáriohttps://terturiumdigital.forumeiros.com

Os caminhos da Noite Empty Os caminhos da Noite

em Sex Dez 07, 2018 1:00 am
Kraków era bela, pequena e aconchegante. Passageira como todas as outras e, exatamente por isso, aconchegante. A vila às margens do rio Vístula possuía um movimento reduzido ao fim do dia, mas ainda pulsante.

Ao contrário de boa parte das terras à oeste, as vielas de Kraków eram iluminadas graças às variadas carruagens e tendas dispostas ao longo delas. Aquele era um burgo de idas e vindas, passagem constante do povo Romani.

A lua crescia no céu noite após noite tornando-se mais e mais brilhante. Havia sonhado em noites passadas com uma lua amarela, brilhante como o sol, mas a tomar a escuridão da noite.

Sua tenda estava disposta próxima ao rio, tão próxima que o cheiro forte das águas escuras lhe arrebatava por vezes. O odor era forte, mas não ruim. Cheirava a vegetação, a vida. Cheirava aos passantes e isso o agradava em certo tom. Estava ali já há alguns dias, nem mais e nem menos que o necessário. Aguardava um contratante.

A missiva, assinada somente com a incial M, foi recebida por Horváth e indicava Kraków e a especifidade daquela margem do Vístula para o local de encontro. Era comum os contratantes enviarem emissários em seu nome a fim de preservarem sua face e mesmo suas vidas, não negociando diretamente com o Romani. Incomum era que estes contratantes conseguissem contato direto com Vano se ele assim não quisesse.

Por isto, havia uma excitação adicional para este encontro em particular. A missiva o encontrou ainda em viagem, como se o emitente soubesse exatamente onde o Romani estava. Ouviu o questionamento no exterior da tenda. Eram as vozes de seus subordinados a, aparentemente, checarem uma aproximação. Não tardou e o tecido da entrada foi posto de lado por Sandu, um de seus homens de confiança.


- Senhor, M. está aqui.

Horváth já havia instruído seus homens a tomarem as devidas precauções para o encontro. A reunião aconteceria em sua tenda, salvaguardada por seus mercenários e com a ausência de armas que deveriam ser deixadas no exterior da mesma. E assim foi feito.

Quando M. entrou, passando por Sandu e fazendo as cortinas de palha e guizos de pedra branca chacoalharem, sua imagem destoou daquele ambiente. Era uma mulher alourada, com cabelos cacheados a lhe caírem sobre o ombro e olhos castanhos em um tom amarelo vívido. Sua pele clara e vestes estrangeiras denotavam pertencer às terras do oeste ou do norte. Não demorou-se, tomou a palavra após uma breve saudação inclinando levemente a cabeça e nada mais. Falava em um inglês médio, o idioma central das Ilhas Britânicas e que é de conhecimento do Romani.


- Vano Horváth, o saúdo. Sou M. e apenas M.

Os olhos dela o atraíram. Eram grandes, redondos e amarelados. Eram como a lua que crescia nos céus durante seus sonhos nas noites anteriores e pareciam tornar-se ainda maiores e mais brilhantes conforme falava. Ela continuou em tom decidido, ainda de pé à frente do Romani.

- Teus serviços e a discrição que decorre deles me trouxeram até aqui.


Os caminhos da Noite 0310

M.
Vano Horváth
Mensagens : 14
Data de inscrição : 25/08/2018
Ver perfil do usuário

Os caminhos da Noite Empty Re: Os caminhos da Noite

em Sex Dez 07, 2018 2:56 pm
Vano estava à beira do rio Vístula. O sol havia se deitado há algumas horas, dando uma trégua do calor daquele verão. Nuvens de insetos voavam naquelas margens, dando um sinal de que estavam na estação mais quente do ano.

Do lado de fora de sua tenda, ele terminava de preparar um chá de hortelã. Ainda que a bebida fosse quente, a sensação de frescor da erva lhe agradava. Com cuidado, ele despeja a infusão em uma belíssima jarra de cristal da Boêmia. Um dos muitos presentes que havia recebido de pagamento por seus distintos serviços.

Com a jarra na mão, o romá retorna para o interior da tenda. Sabia que estava quase na hora de receber seu mais novo contratante. Tratava-se de um patrono misterioso que, por uma razão que ainda não distinguir, havia o contatado no meio de suas viagens. A estranha circunstância o deixava ansioso para este encontro. Certamente perguntaria como fora encontrado.

Dentro da tenda, Vano serve para si uma xícara do chá. Enquanto sorvia o líquido, colocava as cartas do Tarot para si mesmo. Todos ali sabiam dos seus dons. Sabiam também que Vano se recusava a colocar cartas para qualquer um que não fosse a si mesmo. A dom da vidência entre os Romani era quase que exclusivo para as mulheres. Os homens que o manifestavam eram vistos com desconfiança. Era um sinal de que forças malignas os haviam tocado desde o nascimento. Este era mais um dos augúrios negros que constituiam sua fama entre seu próprio povo. Contudo, havia construído o respeito dos seus pares exatamente por causa da pesada aura que o cercava. Ainda era Romani, afinal. E qualquer Romani era mais confiável do que um gadjé.

Quando soube que seu contratante havia chegado, Vano esperou que seus homens prosseguissem conforme haviam sido instruídos. Qual não foi sua surpresa ao se dar conta que M era, na verdade, uma bela gadjé de terras distantes. Não conseguiu nem tentou disfarçar o espanto. Já havia feito trabalhos para mulheres anteriormente, mas nenhuma delas havia contatado-o pessoalmente. Imediatamente admirou a ousadia de M. Ademais, havia algo nos olhos dela que o seduzia...

Levantou-se rapidamente para preparar algumas almofadas e transformá-las em assento, de modo que sua convidada ficasse o mais confortável possível. Com calma e em silêncio, recolheu as cartas que havia colocado para si. Serviu-se de mais um pouco do chá fresco e colocou o restante para a mulher. Quando se sentou novamente, voltou a contemplar os olhos da mulher.

- Por favor, M. Sente-se e fique à vontade.

Sua voz era calma.

- Devo dizer que já a admiro por uma série de questões. Me encontrar no meio da estrada não é uma tarefa trivial. Chegar até aqui sozinha, então... é fascinante. Mas diga-me: a quais serviços a senhora se refere, exatamente?


Storyteller
Admin
Mensagens : 369
Data de inscrição : 25/11/2017
Ver perfil do usuáriohttps://terturiumdigital.forumeiros.com

Os caminhos da Noite Empty Re: Os caminhos da Noite

em Sex Dez 07, 2018 11:23 pm
Era estranho.

Ao colocar as cartas não conseguiu decifrá-las. Eram confusas, enigmáticas e vazias. Lhe diziam tudo e nada. O Romani sabia que o dom da vidência é uma dádiva andante, assim como o seu próprio povo. Não lhe pertence, de fato. Não é. Está.

E neste momento, parecia não estar.

Em seguida uma nova surpresa a lhe arrebatar naquela noite quente às margens do Vístula. Uma mulher, bela e com olhos fascinantes era a autora do chamado. Após providenciar um assento confortável, Vano passou a recolher as cartas e então a leitura se fez possível. Lá estava, dada ao Romani clara como a lua do lado de fora da tenda.


Os caminhos da Noite 388x7010

A carta XIII. A Morte.


Vano Horváth compreendia a profundidade de seu significado: O fim de uma etapa. Renovação. Mudança. Aquilo que não mais lhe cabia deveria deixá-lo.

Após o breve transe, o Romani voltou sua atenção à M. e só então percebeu que apesar de trajar um fino vestido carmesim com detalhes negros, ela estava descalça. Seus pés tocavam o chão como os de uma criança do povo andante, livres e desprotegidos, em contato direto com o solo que  a tudo conhece e pelo qual tudo passa.

M. sentou-se e bebeu do chá que lhe fora ofertado, sem que seus olhos dourados deixassem de aprofundar-se naqueles escuros de Horváth. E, então, o Romani viu mais.

Viu e sentiu naquela mulher uma incontrolável mudança. Viu a ave que cruza os céus e os mares para cumprir seu destino. Sentiu a brisa quente do verão se tornar fria como aquela das terras ao norte. Viu a jovem e a velha. Viu o caminho. Ouviu os andantes. Poderia jurar que aqueles olhos dourados eram iguais aos dos felinos que circulam nas áreas selvagens.

Sentiu medo e alegria, em conjunto. Mahrime. Sentiu-a Pura e Suja.

Viu, ouviu e sentiu tudo em uma fração experimental de tempo. Havia sido breve ou longo aquele tempo? Não sabia dizer.

Diante dele, M. permanecia sentada a beber do chá, observando-o em silêncio até que decidiu quebrá-lo para responder à sua pergunta.


- A caça.

Um gole a mais. Ela parecia apreciar a bebida oferecida pelo Romani. Sua expressão era ainda imutável, estática, predatória. Era aquele último momento em completa inércia antes do bote dado por uma serpente.

- Suas presas são pequenas para o caçador que se tornou. Venho contratá-lo para que recuse um outro patrono que o visitará na noite seguinte.
Vano Horváth
Mensagens : 14
Data de inscrição : 25/08/2018
Ver perfil do usuário

Os caminhos da Noite Empty Re: Os caminhos da Noite

em Sab Dez 08, 2018 4:39 pm
Vano ficou observando o Arcano da Morte por alguns segundos. Como qualquer entendendor do Tarot, sabia que as interpretações nunca eram literais, mas o modo como aquela carta demorou para lhe aparecer o deixou pensativo. Recolheu o baralho, mas deixou a carta XIII na mão. Enquanto ouvia o que M tinha a lhe dizer, o cigano ficou girando a Morte entre os dedos, executando pequenos truques com a carta, de modo displicente.

Conforme observava e escutava sua ilustre visitante, pegava-se mais e mais fascinado pela presença dela. Detalhes singelos lhe chamavam a atenção e o seduziam de modo misterioso. Os pés descalços, por exemplo. O que significavam? Eles contrastavam com o vestido de tecidos finos que M trajava. E aqueles olhos? Era impossível não se impressionar com eles...

Sim... Mahrime. M exalava toda a poluição do mundo, mas esta era um paradoxo diante de sua inconfundível nobreza. Vano sentia uma conexão imediata com a mulher. Queria tirá-la dali. Queria rodar com ela em torno de uma fogueira, vê-la dançar ao som de sua rabeca. Amá-la por uma noite inteira, para morrer junto aos primeiros raios do Sol.

A caça, ele a ouviu dizer. Mas por que ela o queria como caçador, quando estava claro para todos que não havia predador mais eficiente na face da terra do que M?

Vano ainda estava em um quase-transe, mas ouviu muito bem a proposta que M lhe fizera. Inusitada. Em toda a sua carreira, nunca havia sido contratado para recusar outro contrato. Ele sorri para ela. Sabia que aceitaria qualquer coisa que ela pedisse. Ainda assim, resolveu que havia um papel para encenar. Vano sorri, enquanto coloca a carta da Morte diante de si:

- Senhorita... este é um pedido deveras incomum. Imagino que saiba que minha fama advém da eficiência com que eu e meus homens cumprimos aquilo para o que somos chamados. Se eu recuso um contrato, os rumores podem começar a correr... Logo as pessoas saberão que eu não sou alguém de confiança, o que pode ser péssimo para meus negócios.

- Contudo, estarei disposto a seguir com nosso acordo, caso sua oferta de pagamento seja generosa... Generosa ao ponto de ser ainda melhor do que aquilo que este patrono que mencionas venha a me oferecer...
Storyteller
Admin
Mensagens : 369
Data de inscrição : 25/11/2017
Ver perfil do usuáriohttps://terturiumdigital.forumeiros.com

Os caminhos da Noite Empty Re: Os caminhos da Noite

em Dom Dez 09, 2018 3:07 pm
M. mantinha os fascinantes olhos a fitar Vano durante sua resposta. Sentada sobre as próprias pernas e acima das almofadas que o Romani havia disposto, ela apenas ergueu uma das mãos à altura do próprio rosto, segurando a xícara com o chá que bebia na outra.

Desenhou no ar uma letra, lentamente, com seu indicador. Começou da esquerda e desceu em diagonal para, em seguida, subir à direita com o movimento oposto. O gesto, se pudesse ser visto como uma linha a flutuar no ar, formaria a letra V.


- Minha oferta é de uma generosidade incalculável, Romani.

Ela sorriu, levemente. Não era um sorriso simples, aquele. Quando o fez ergueu levemente o queixo e seus olhos brilharam em dourado refletindo as velas ambientes. Era malicioso, invasivo, de certo modo assustador. Ela continuou.

- Eu lhe ofereço O Nada enquanto o próximo patrono lhe oferecerá O Tudo.

- Ofereço a ausência da minha caçada nesta noite e apenas nesta. A liberdade para a tua escolha. Conheça o homem que virá e o tudo que lhe será ofertado por ele.

- Advirto que esta não é uma escolha simplória e que a resposta dela reside somente dentro de ti. Eu não a conheço e tampouco o homem que virá. Nós apenas...

Fitou a carta XIII nas mãos do Romani.

-...fazemos a leitura ao nosso modo.  

Colocou a xícara no chão, a seu lado, e levantou-se.

- Voltarei em duas noites e conhecerei a tua decisão, Vano Horváth. Onde reside a tua ambição?

Não se curvou. Não houveram mesuras. Não inclinou sequer o queixo ou moveu os olhos grandes, brilhantes e amarelos. Deu as costas e caminhou, com os pés descalços, deixando a tenda do homem andante.
Vano Horváth
Mensagens : 14
Data de inscrição : 25/08/2018
Ver perfil do usuário

Os caminhos da Noite Empty Re: Os caminhos da Noite

em Seg Dez 10, 2018 6:13 pm
Vano sorria enquanto ouvia M apresentando sua inusitada oferta. Já não via mais motivos para esconder dela o quão fascinado estava. Ao final, o cigano dá um último gole na sua xícara de chá e diz:

- Então as ofertas se resumem ao Tudo e ao Nada?

Ele solta um riso abafado antes de continuar.

- Só posso dizer que a senhorita e esse misterioso patrono que me visitará amanhã não são pouco ambiciosos...

Vano inclina o corpo na direção de M, falando um pouco mais baixo:

- Irei ouvir o que o próximo visitante vai me oferecer, mas devo adiantar que o Tudo não me agrada nem um pouco. E sabe por que?

O cigano abre os braços e olha ao redor, como se estive apresentando algo para sua interlocutora.

- Porque o Tudo eu já tenho. Eu o tenho desde que nasci!

Vano cruza os braços. Sorrindo, continua falando, agora com o tom de voz um pouco mais baixo.

- Mas veremos, senhorita. Veremos o que as próximas noites me reservam...

Quando M se despede, revelando que voltaria em breve, Vano se levanta e faz uma mesura, mesmo diante da notável frieza de M:

- Foi um prazer, senhorita. De tudo o que conversamos, o que mais me agradou foi, sem dúvida, saber que a verei novamente...
Storyteller
Admin
Mensagens : 369
Data de inscrição : 25/11/2017
Ver perfil do usuáriohttps://terturiumdigital.forumeiros.com

Os caminhos da Noite Empty Re: Os caminhos da Noite

em Seg Dez 10, 2018 10:28 pm
Ela se foi e com ela uma profunda ausência se abateu sobre o Romani. Ausência daquele mistério que ela emanava, das palavras frias e enigmáticas e, claro, dos olhos. Ah, o quão lhe fizeram falta no restante daquela noite e no próximo dia aqueles olhos dourados.

Assim, Horváth aguardou. Teve dificuldades para dormir naquela noite. Sua mente vagava nas possibilidades e tentava desvendar os mistérios de M. Esquecia-a somente por breves segundos ao lembrar-se que tudo passa, nada deve permanecer estático e mesmo ela teria que partir. Lembrava-se uma vez mais, ao ter a certeza de que ela voltaria. Eram essas as andanças da existência: o ir e vir, o ganhar e perder.

O próximo dia arrastou-se lento, tedioso. Maltratou o cigano com sua longa espera, afinal, estava a aguardar o prometido segundo patrono. Seria ele tão fascinante quanto M.? Não, jamais o seria. Ninguém poderia ser como ela e nenhum outro possuiria aqueles olhos mas, ainda assim, poderia ser o outro fascinante à seu próprio modo. O que o aguardava?

A ansiedade angustiante deu lugar à uma expectativa vibrante conforme o sol descia por detrás do longo Vístula. Suas águas escuras tornaram-se laranjas, marrons e então negras. A noite estrelada estendeu-se pela vastidão e o coração do Romani já pulsava excitado. Esperou e esperou um pouco a mais.

Somente quando a noite se alongou e os mais cansados já dormiam, o visitante fez-se presente no acampamento de Vano Horváth. Assim como na noite anterior, os homens haviam sido avisados sobre a chegada de um Gadjé e os protocolos para recebê-lo foram aplicados em conformidade àqueles utilizados para a recepção de M. : armas retidas e apresentação formal por parte de um dos homens de Vano.

Rivan adentrou à tenda de seu mestre e curvou-se respeitosamente antes que falasse. Embora fosse ele um homem de sua comitiva há mais de três anos, estava hierarquicamente abaixo de Sandu dentre àqueles que cumpriam as demandas nas sombras para Vano Horváth.


- Meu Senhor, o visitante está aqui. Não trouxe quaisquer armas...e, mestre, Sandu não é visto desde a noite anterior. Os homens já vasculharam Kraków e não encontraram vestígios dele. Sua cimitarra e pertences estão na tenda que ele ocupava.

Rivan deixou-o e anunciou a entrada do misterioso segundo patrono, embora tenha lhe trazido uma notícia igualmente intrigante sobre o desaparecimento de Sandu. Em meio as dúvidas, o homem adentrou à tenda fazendo com que os guizos de pedras brancas balançassem e emitissem o seu característico som.

Assim que pisou no interior da tenda as velas tremularam, a escuridão veio e se foi em parcos instantes enquanto reacendiam velozmente. Poderia ser a constante brisa noturna de Kraków, mas Vano não a sentiu.

Era um homem exótico para alguns, mas parecia familiar para Horváth. Usava um turbante de cores vibrantes com tons em vermelho e púrpura, possuía a pele corada típica do povo cigano e trajava roupas largas, folgadas, repletas de jóias em tom prateado e dourado. As vestes chamavam a atenção, mas sequer poderiam se comparar aos seus olhos.

Eram negros como a noite mais escura, mas infestados de pequenos pontos luminosos que lembravam as estrelas brilhantes da vastidão. Olhar diretamente para eles era como se perder nos céus e nos mistérios escondidos na escuridão. Neles Horváth via o passado, o presente e o futuro. Via a si mesmo e o outro. Via uma infinita possibilidade de ser e de estar.



Os caminhos da Noite 0510


O homem curvou-se até que sua cabeça estivesse abaixo da cintura enquanto as jóias tintilavam entre si de forma aguda e cristalina. Ergueu-se novamente, trazendo na expressão um sorriso singelo e notadamente sincero.


- Que alegria finalmente encontrá-lo. O menino orfão, o vidente solitário, o negociante astuto, o senhor dos ladinos, o sedento por vida Vano Horváth. Alegra-me e honra-me estar em vossa presença.

Aqueles olhos arrastavam toda a luz para ele e brilhavam com uma centena de pontos prateados em torno dos globos escuros.

- Eu sou Mustafá Fahir, aquele que aguardou a maturidade do teu espírito.
Vano Horváth
Mensagens : 14
Data de inscrição : 25/08/2018
Ver perfil do usuário

Os caminhos da Noite Empty Re: Os caminhos da Noite

em Ter Dez 11, 2018 10:42 am
Dormira mal naquela noite. Achou que sonharia com M, mas na verdade passou a maior parte do tempo em claro, revivendo aquele encontro. O dia se arrastou, com o calor dando a sensação de que tudo andava ainda mais devagar. Ao final da tarde, uma dor de cabeça, advinda do cansaço, começou a castigar Vano. Novamente, ele via o dia partir às margens do rio, dessa vez preparando um chá de mel com limão.

Com movimentos lentos e circulares, Vano despejava um filete de mel diretamente de um favo, que segurava acima da chaleira no fogo, fervendo com a infusão. Havia pedido que Sandu buscasse o mel entre os mercadores de rua da cidade, mas como não o encontrou durante o dia, teve que fazê-lo pessoalmente. O cigano adorava caminhar entre os gadjé, ainda que estes muitas vezes o olhassem com muita desconfiança. Na verdade, Vano se regojizava com isso. Fazia parte de sua persona. Naquela tarde, contudo, a caminhada não fora tão prazerosa assim. Para todos os lados em que olhava no meio da multidão, lá estava ela: M. Porém, Vano só a via por alguns poucos segundos. Bastava alguém cruzar seu caminho para que a imagem de M desaparecesse como um fantasma.

Lembrou-se disso enquanto terminava de preparar o chá. Limpou as mãos nas águas do rio e, com o chá colocado em sua jarra de cristal, retornou à sua tenda.

Tomou do o chá antes que o aguardado visitante chegasse. Imaginara que ele chegaria no mesmo horário de M, mas isso de fato não ocorreu. Já era tarde quando Rivan o anunciou. O acampamento já estava quase todo em silêncio. No meio do anúncio, veio a notícia do estranho desaparecimento de Sandu.

Vano não teve tempo para sequer processar a notícia, pois imediatamente se impressionara com a entrada do visitante: Mustafá Fahir.

Como se não bastasse sua exótica aparência - que denotava a distância pela qual havia viajado - a fala inicial do estrangeiro foi mais do que o suficiente para fasciná-lo. Subitamente, tudo o que achava que já estava decidido na noite passada - a escolha pelo contrato de M e toda a sua paixão - foi colocado em suspenso.

Observou Mustafá com atenção. Era um fascínio distinto daquele exercido por M. Não havia paixão, pois o que o estrangeiro lhe despertava era uma imensa curiosidade. Vano sentia que o Destino lhe pregava uma peça. Algo que ele não conseguia ver. A única coisa que sabia era que, ao final das próximas noites, estaria mudado. Era isso que a carta XIII sinalizava.

Com um gesto, pediu que Mustafá se acomodasse nas mesmas almofadas onde M sentara na noite passada. Colocou um copo de cristal na frente de seu convidado e despejou ali água fresca, que estava em uma jarra de barro.

- Perdoe-me, Mustafá Fahir, por servir-lhe apenas água. Eu já lhe aguardava, mas achei que viria mais cedo. Tudo o que eu havia preparado já foi consumido.

Vano se senta diante do convidado e sorri.

- Uma mulher veio aqui na noite passada e disse-me que eu receberia uma nova visita hoje. Uma nova proposta.

- Pelo que vejo, vieste de longe. E me conhece de longa data. Como posso servi-lo?
Storyteller
Admin
Mensagens : 369
Data de inscrição : 25/11/2017
Ver perfil do usuáriohttps://terturiumdigital.forumeiros.com

Os caminhos da Noite Empty Re: Os caminhos da Noite

em Qua Dez 12, 2018 8:34 am
- Uma mulher, uma proposta anterior.

Os olhos negros como a noite mergulharam em uma escuridão ainda maior. O cigano pensou ter visto, por um breve momento, todos os pontos luminosos como estrelas apagarem-se deles e nada mais além do escuro restar. Talvez esteja deslumbrado com as últimas noites. Ao olhar novamente, estavam lá, brilhantes e fascinantes como quando o homem adentrou à tenda. Ele sentou-se no local indicado e bebeu da água oferecida.

- Ah, neste território, posso supor o que o visitou. A informação me traz uma imensa satisfação ao desfrutar deste momento e me coloca em uma posição de escolha, tal qual aquela na qual o senhor parece estar.

Ele ergueu uma das mãos até a altura do peito e segurou um dos penduricalhos de prata e ouro que estão em volta de seu pescoço. Era uma estrela de cinco pontas que possuía um crânio esculpido em seu centro. Naquele momento, Horváth notou que todas as outras jóias - e eram muitas - sobre o peito daquele homem possuíam desenhos específicos. Haviam pequenas conchas, cálices, crânios e, para a sua surpresa, algumas lembravam parcamente até mesmo os arcanos das cartas que costuma jogar. Ele continuou.

- As noites continuam a me surpreender. É este o mistério do caminhar nelas.

Sorria, como alguém que acabara de encontrar um imenso momento de felicidade.

- Vano Horváth, veja que belíssima ironia. Sim, eu vim até ti com uma proposta. Vim porque as tuas capacidades são podadas, restritas e espremidas por uma vida repleta de distrações. Tu podes mais, muito mais. Podes ver o mundo e além dele. Podes enxergar os fragmentos do futuro, a extensão do passado e as nuances do presente. Podes, mas jamais irá enquanto permanecer na inércia de tuas mudanças.

Ergueu um dedo, com o indicador levantado. Vano chegou a imaginar que ele desenharia a letra V no ar, tal qual M. o fez. Seria um saudosismo precoce? Não. Ele apenas manteve o dedo erguido, como se o usasse para chamar a atenção do Cigano.

- Meus planos mudaram. A noite os mudou. Me sinto arrastado por minha usual sede de conhecimento à apenas observar o desenrolar de tua história. Se outro o buscou e o avaliou, significa que um de nós dois está errado.

Sorriu abertamente.

- Minhas decisões costumam ser racionais até que a intuição se torne maior que o pensar. Ambas caminham, dentro de mim, guiando as ações de meu corpo. Usando da intuição, eu simplesmente deixaria vossa tenda agora e observaria o teu futuro, Vano Horváth. No entanto ela, a intuição, ainda não se tornou maior que minha razão neste momento.

- Talvez seja O Todo a nos oferecer a chance da escolha. Que assim seja.

- Eu o busco para que completes a minha visão e encontres a sua. O quero a caminhar comigo para que descubras o que há além das cartas e das visões breves que possui e que, neste processo, ilumine também o meu olhar. O quero a ver O Todo, Vano Horváth, e não somente os pequenos pedaços dele. Na sua completude, também me completarei.

-  O quero porque a imensidão e tudo aquilo que lhe escapa precisa ser vista por outros além de mim. Para isto tu nasceu, por isto podes renascer.

Agora o semblante estava sério. A expressão variava de curiosidade a uma certa apreensão.

- Assim como é minha a decisão entre o observar e o agir, é tua a decisão entre alcançar O Todo que ofereço-lhe ou negá-lo em detrimento da outra proposta que recebestes.
Vano Horváth
Mensagens : 14
Data de inscrição : 25/08/2018
Ver perfil do usuário

Os caminhos da Noite Empty Re: Os caminhos da Noite

em Qua Dez 12, 2018 4:20 pm
Todos os Romani que conheceram Vano sabiam que ele era uma pessoa de vários talentos. A maioria o conhecia por sua inclinação ao hokkani boro, o grande truque. Outros o temiam e respeitavam por seus dons oraculares. No entanto, se havia uma habilidade da qual o próprio Vano se orgulhava, era seu dom para línguas. Os ciganos são notórios conhecedores dos mais diversos idiomas e dialetos - algo necessário à vida nômade - mas os Horváth sempre foram particularmente notórios quanto a isso.

E fora exatamente por causa desse talento que, após Mustafá apresentar sua oferta, Vano começou a gargalhar.

-Hahahahahaha!

Ele balançou a cabeça negativamente, rindo com o que havia acabado de perceber. Não era um riso jocoso ou desdenhoso. Era sincero.

- Tenho que lhe confessar algo, caro Mustafá Fahir. Quando a mulher que lhe falei veio aqui, ela me ofereceu o Nada e disse que você me ofereceria o Tudo. Ora, pensei naquele momento, eu já sou possuidor de tudo o que eu gostaria de ter! O Nada me parece muito mais instigante...

Vano interrompe o sorriso, passando a olhar sério para Mustafá.

- Mas eu não disse isso à mulher, mesmo que estivesse quase decidido pela oferta dela. Agora, eu fico contente por não tê-lo feito...

Ele enche mais um copo de água e o observa por alguns instantes, antes de bebê-lo.

- Veja, a mulher me disse que você me ofereceria Tudo. Mas hoje, não foi isso que me apresentou. Você, Mustafá Fahir, me oferece O Todo. E, para mim e para qualquer um atento o bastante, há uma imensa diferença entre Tudo e o Todo.

- A mera soma de todas as coisas é diferente do valor da Totalidade. Esta última é provida de um significado muito maior. Um significado ao qual eu não tenho acesso e talvez ninguém o tenha...

Vano solta um riso abafado e prossegue, agora sorrindo.

- Eu não sei se a mulher o vez de propósito, ou se foi um erro originado em um mal domínio da língua na qual ela se comunicou comigo. Fato é que estou entre o Nada e o Todo.

- Não, Mustafá, eu ainda não decidi. Mas só tenho a agradecer a ti, à mulher e ao Destino por me agraciarem com tão maldita escolha.

O cigano se levanta e caminha, pensativo, pela tenda. Olhando para uma vela acesa, ele diz, taciturno.

- Até amanhã a noite eu terei tomado minha decisão, que será comunicada à mulher. Se estiver observando, você também saberá.
Storyteller
Admin
Mensagens : 369
Data de inscrição : 25/11/2017
Ver perfil do usuáriohttps://terturiumdigital.forumeiros.com

Os caminhos da Noite Empty Re: Os caminhos da Noite

em Qui Dez 13, 2018 10:29 pm
Fahir observava com uma atenção dedicada, absoluta, todos os movimentos, palavras e sensações que Horváth transbordava diante de si. O Cigano notou que o homem se importava, verdadeiramente, com todo e qualquer detalhe daquele diálogo.

Ao fim das palavras do Romani, Mustafá levantou-se e repetiu a prolongada mesura que realizou em sua chegada. Ao erguer-se, sorria de forma leve e apenas aquele sorriso era capaz de preencher a tenda com toda a paz disponível na existência. Vano sentia que nada precisava ter urgência, tudo prosseguiria no seu adequado tempo.


- Se agradeces ao destino, Vano Horváth, eu faço o mesmo.

Ele retirou um dos muitos colares do entorno do seu pescoço e o estendeu,  sobre ambas as mãos espalmadas, ao cigano. Tratava-se de um pequeno olho com pupilas verticais, como as de um felino, esculpido em prata e preso em uma corrente do mesmo material.

- É costume entre os meus retribuir os presentes. Esta noite fui agraciado com a observação e o aprendizado. Tua decisão, seja qual for, me encherá de alegria e me permitirá avaliar um fenômeno raro e de valor inestimável para um homem como eu. Por favor, aceite-o.

Após entregá-lo, Mustafá sorriu pela derradeira vez antes de deixar a tenda sob o som de suas últimas palavras.

- A Noite nos fará um novo encontro Horváth - O Vidente Andarilho, próxima ou longínqua, e então eu saberei a sua escolha.

Deixou-o. Aqueles negros e profundos olhos com o brilho de mil estrelas se foram. Ficou um vazio tal qual aquele deixado por M. após a sua partida.

Antes de buscar descanso, Vano ordenou uma busca por Sandu que continuava desaparecido. A noite se foi breve e o dia se levantou com o cheiro do amanhecer às margens do Vístula. Não teve nenhuma dificuldade ao dormir e sequer encontrou o abraço confortável do sonhar. Foi simplesmente como mergulhar no escuro e emergir no grande lago do dia seguinte.

As notícias não eram boas acerca de Sandu. Nenhum vestígio em Kraków, ao longo do Vístula e nem mesmo em assentamentos vizinhos. O homem havia desaparecido.

O dia foi mais frio que o comum para aquela época do ano e passou com uma leveza manchada apenas pela falta do seu homem de confiança. Os insetos amontoavam-se sobrevoando as velas que eram acendidas conforme o sol mergulhava na extensão do grande rio. Uma vez mais a noite caiu sobre as pretensões de Vano e esta era a mais aguardada delas. A noite da decisão.

Algum tempo se foi e as instruções permaneciam. Na exata altura da primeira noite a mulher adentrou à tenda do Cigano após a apresentação devida realizada por Ravi. A primeira coisa que sentiu foi o cheiro. Forte e adocicado. Se assemelhava ao aroma de alguns dos seus chás mas era ainda mais atraente. Depois e sobrepujando quaisquer outras sensações, se fizeram ver os olhos.

Dourados e ainda mais brilhantes que na primeira noite. Caberia a lua naqueles olhos. Oferecia todo o risco do mundo, aqueles olhos.

M. havia trançado os cabelos loiros e trajava um vestido de cor carmesim escura, quase preto. Haviam tiras de couro-cru presos em suas tranças e uma espécie de tintura vermelha abaixo de seus olhos, se prolongando até o queixo de ambos os lados da face. Os pés, descalços, não emitiam um só ruído conforme ela adentrava à tenda de Horváth.


- É tempo, Romani. Venho em busca de tua decisão.
Vano Horváth
Mensagens : 14
Data de inscrição : 25/08/2018
Ver perfil do usuário

Os caminhos da Noite Empty Re: Os caminhos da Noite

em Sex Dez 14, 2018 7:31 pm
Vano não esconde a surpresa quando recebe o colar de Fahir. Ele sorri, pegando o objeto para observá-lo melhor. Em seguida, o coloca no pescoço, deixando-o visível para qualquer um. O cigano também sorri quando escuta o estrangeiro, em sua despedida, chamá-lo de Vidente Andarilho.

- Eu lhe agradeço novamente, Mustafá Fahir. A noite tornou-se mais agradável com nossa conversa. Espero mesmo, do fundo da minha alma, que nos encontremos novamente. Assim poderei retribuir este presente com algo mais valioso do que meros devaneios de um homem que viu muito mais conhece pouco.

O restante da noite segue, e com ela vem o vazio da ausência de M. e de Fahir. Vano sentia que havia mudado naquelas duas noites. Ao amanhecer, o vazio e a angústia aumentam quando se dá conta de que não havia nenhum sinal de Sandu. O cigano queria ter forças para buscá-lo pessoalmente, fazendo perguntas às pessoas certas. Mas ele simplesmente não conseguia. Sua mente e corpo estavam entregues aos mistérios que surgiram com as últimas visitas. Porém, começa a se perguntar se o desaparecimento não tinha algo a ver com as duas estranhas figuras que surgiram em sua vida.

O dia segue e, ao final da tarde, Vano prossegue com seu ritual pessoal de preparação do chá à beira do rio. Dessa vez, porém, tinha um ingrediente especial. Sentado próximo à uma pequena fogueira, o cigano cortava pedaços de um cogumelo com sua faca. Ele pega um punhado de pedaços e os joga na água fervente. Com uma colher, vai mexendo lentamente a mistura, até que a infusão adquire uma cor cinzenta e translúcida. Com cuidado, despeja o líquido em sua jarra e caminha para sua tenda. O céu já estava escuro.

Vano se senta nas almofadas. Despeja um pouco do chá em sua xícara e o bebe de uma vez só. O gosto era amargo e extremamente desagradável. Mas sentia que era necessário. Naquela noite, precisaria expandir sua consciência.

Os efeitos começam aos poucos. Os sons do rio, dos insetos e das pessoas vão se tornando mais nítidos. Era como se tudo estivesse ali ao seu lado. Em seguida, as cores, todas elas, tornam-se mais brilhantes, mais vivas. A expansão sensorial segue pelo que parece ser uma hora, até que algo mais acontece.

Os pensamentos de Vano começam a entrar em uma cadência intuitiva. Era como se um turbilhão explodisse em sua mente, mas não vinha de modo caótico. O turbilhão era conduzido por um canal, que transformava sua força em potência produtiva. O Universo fazia mais e mais sentido.

Vano tinha o Tarot em mãos. Ele começa a separar algumas cartas. Não estava vendo seu futuro, mas buscava alguns arcanos específicos. Primeiramente, ele coloca a carta XIII na mesa. A Morte, que lhe aparecera duas noites atrás. Nada mais seria o mesmo. Vano Horváth tornaria-se outro.

Do lado direito da Morte, Vano abre a segunda carta que buscava. Ali estava ela, uma mulher dominando um leão. A carta VIII, a Força. O cigano sorri. Sabia que ela estava prestes a chegar.

Então, ao lado esquerdo a carta XIII, ele abre o último arcano. Um homem solitário, diante de uma mesa repleta de objetos. Cada objeto representando, ao mesmo tempo, os pontos cardeais e os naipes do baralho. A carta I, o Mago. Vano acena com a cabeça. Sabia que ele o observava de longe.

Com as três cartas dispostas sobre a mesa, ele a escuta chegando. Quando M. entra em sua tenda, Vano não fica de pé. Ele apenas levanta o rosto e abre um largo sorriso. A mulher estava ainda mais deslumbrante do que quando a vira pela primeira vez. Subitamente, ele sente o vazio ser preenchido.

Vano volta a contemplar as cartas enquanto fala.

- Quando vieste até mim, há duas noites, me disse que eu deveria escolher entre o Nada e o Tudo. Você estava errada, pois foi o Todo que me foi oferecido.

Ele fica em silêncio. Ainda sentado, ele se serve duas xícaras com o chá. Bebe uma delas de uma só vez e faz uma careta. A segunda é oferecida para M.

- Percebe a diferença? Inicialmente eu pensei que seria uma escolha fácil. Mas a verdade é que escolher entre o Nada e o Todo é uma decisão difícil. Difícil pois não se tratam de opostos. Não são dois pólos dispostos em um mesmo plano, olhando-se de um modo equidistante.

Vano olha para M. pela segunda vez naquela noite. Suas cores, sons e cheiro, acentuados pela expansão de sentidos, eram como forças da natureza.

- O Nada e o Todo são a mesma coisa, vista de perspectivas diferentes. O que você e Mustafá Fahir me pedem é a escolha de uma perspectiva. E eu já decidi qual delas escolherei, ainda que isso me custe um modo de ver o Universo, em detrimento do outro.

Vano recolhe então as três cartas que estavam sobre a mesa. Com pequenos truques de prestidigitação, ele as manipula habilmente.

- Eu não tenho nenhum pudor em dizer que me apaixonei por ti no momento em que lhe pousei os olhos, M. Mas por mais livre que eu seja, não são paixões que orientam minhas escolhas. Meus motivos são outros, e terei o prazer de dizê-los quando quiseres me ouvir. Se é que um dia decida fazê-lo.

- Esta é minha escolha.

Subitamente, Vano joga as cartas na mesa. Uma delas cai com a face virada para baixo, enquanto duas estão abertas. Uma delas é a Morte. A outra é:

Os caminhos da Noite Rws_ta10

- Eu escolhi o Nada.
Storyteller
Admin
Mensagens : 369
Data de inscrição : 25/11/2017
Ver perfil do usuáriohttps://terturiumdigital.forumeiros.com

Os caminhos da Noite Empty Re: Os caminhos da Noite

em Qua Dez 19, 2018 8:16 am
- Os homens e as suas certezas me divertem. O controle que acreditam possuir de suas ideias e de sua própria vida me serão sempre fascinantes. Nada têm, de fato.

M. aproximou-se caminhando lentamente e sem qualquer pudor ou necessidade da permissão do homem à frente dela, sentou-se sobre as pernas de Horváth. As coxas brancas e torneadas da bela mulher envolveram a cintura de Vano enquanto aquela alva face se colocava diante do Cigano, separada da sua somente por um movimento.

- Enxergas pouco, mesmo que possas muito, Vano.

Sentia seu doce hálito a tocar a face. Sentia também o cheiro adocicado daquela tinta carmesim que pintava a face de M. Via no fundo daqueles grandes e dourados olhos o reflexo dos seus próprios. Ela colocou os braços sobre os ombros do Romani, envolvendo-o por completo.

- O homem que o visitou é um tolo se ousou oferecer-lhe O Todo, pois ele, O Todo a ninguém pertence para oferecer. É inalcançável, intangível e a ninguém pertence. Ele não pode oferecê-lo porque ele não o possui. Eu não posso, de igual forma.

Seus lábios estavam tão próximos que Vano poderia sentir o seu toque junto aos seus.

- Ele ofereceu-lhe O Tudo pois acredita que através dele poderias chegar ao Todo. Ele lhe daria as amarras, a disciplina e os moldes inertes forjados como aço durante incontáveis anos para prendê-lo à uma forma de buscar o Todo. Ele o prenderia em tuas próprias ideias. Fecharia as possibilidades ao lhe oferecer...

Ela tomou o penduricalho em torno do peito do Cigano e o arrancou, abruptamente.

- a prisão do imaterial.

Em seguida, ela cruzou sua face com a do Romani, colocando seu queixo sobre o ombro do homem enquanto deslizava seus lábios por seu pescoço. Sussurrava em seu ouvido.

- O Nada que escolhestes é também uma busca pelo Todo. É vivê-lo, livre. Experimentá-lo sem as amarras inertes do que se chamam escritos. Mergulhar em seus mistérios e desvendar a sua profundidade conforme a vontade do Todo.

- O Nada e o Tudo buscam o Todo. Ambos são um meio e apenas um meio.

- Viver o Nada é viver Livre.

O cheiro dela era inebriante, sentir os seus lábios a tocar-lhe o pescoço lhe despertava uma paixão quase insuportável. E não queria resistir, afinal. O calor de suas coxas em torno de suas pernas e cintura incendiavam o cigano.

- Livre, eternamente.

Sentiu a mão da mulher mergulhar em seus cabelos e puxar sua cabeça para trás o suficiente para que seu pescoço ficasse completamente exposto. Ela o cheirou para em seguida tocá-lo com os lábios e, então, Vano sentiu.

Ela mordeu-lhe o pescoço. Cravou as presas profundamente. No entanto não havia dor, havia êxtase. Prazer. Estavam entrelaçados como um só e aquele era um apaixonado e profundo beijo. Sentiu-se letárgico mas mantinha-se viril pelo bater acelerado de seu próprio coração. Jamais tinha experimentado tamanha paixão. Ela continuou. Vano não se importava. Apenas se entregava à sensação de absoluto prazer que a mulher em seus braços lhe garantia.

Sentiu, através do toque dela, que o seu lugar no todo havia sido encontrado.  Explodiu em sensações conforme o ápice do prazer brotava. Seus olhos começaram a escurecer, lentamente, seu corpo exigia descanso enquanto sua mente demandava mais, muito mais.

M. encerrou o beijo em seu pescoço e tornou a encará-lo com seus majestosos olhos amarelados enquanto lambia o próprio indicador o manchando de carmesim para, em seguida, desenhar na face do cigano as mesmas linhas que ocupam a sua própria face: partiam de baixo dos olhos em direção ao queixo, de ambos os lados do rosto. Ela sussurrou uma vez mais.

- Bebo de tua alma e beberás da minha para que sejamos um só. Predador e Presa. Caçador e Caça. Amante e amado. Mãe e Filho. Dois e apenas um. Nada. Livres.

Vano estava em um estado letárgico, quase delirante, entregue a paixão e as sensações. A via de forma embaçada. Sentia-se fraco e não se importava com isso. Achou ter visto presas sobressalentes quando a estonteante mulher mordeu o próprio pulso para, em seguida, colocá-lo na boca do Romani.

Horváth o segurou, firme, e dele bebeu. Era espesso e agridoce. Era um ato apaixonado que destroçava todas e quaisquer convenções em seu modo de vida. Não mais se importava. Sentiu-se como nunca antes. Forte, predatório, livre.

A última coisa que viu foram os olhos. Dourados e repletos de brilho como os de um grande felino a espreitarem o sono profundo que o envolveu.

- Por três noites morrerá para que possa viver a Noite Eterna.

Naquela noite sonhou - e delirou - profundamente acerca dos dois encontros das últimas noites. Sobretudo com os diálogos e as palavras dos visitantes. Mas não foi apenas sobre eles que sonhou.

Vislumbrou M. e Mustafá imersos no Vístula. As águas não eram apenas escuras como de costume, tremulavam em carmesim como aquele que bebera do pulso da misteriosa mulher de olhos dourados. Ambas, as cartas VIII e I, flutuavam rasgadas ao lado de seus corpos inertes. Mustafá possuía os olhos inteiramente brancos e o pescoço dilacerado do qual escorriam inúmeros penduricalhos dourados que se misturavam à água rubra do Vístula.

M., por sua vez, mantinha os olhos dourados abertos e as mãos a tentar conter o ventre do qual sangue jorrava em profusão para dentro do grande rio. Ela parecia olhar para Horváth, que ali não estava mas que a tudo via, enquanto sussurrava.


- O Sangue escolhe.


Acordou em susto, suava e ouvia o próprio coração bater acelerado em altíssimo tom. As luzes das velas amareladas na tenda doíam em seus olhos e um aperto no peito tomava-lhe o ar. Seus olhos alcançaram M. sentada à sua frente, observando-o em silêncio. Os olhos dourados não se moviam e a expressão mantinha-se impassível.

O Romani padecia de terríveis dores físicas e emocionais e embora estivesse aos pés dela, da misteriosa M., sentia-se absolutamente sozinho.
Vano Horváth
Mensagens : 14
Data de inscrição : 25/08/2018
Ver perfil do usuário

Os caminhos da Noite Empty Re: Os caminhos da Noite

em Sex Dez 21, 2018 4:21 pm
O Sangue escolhe.

Com a voz de M. ainda reverberando em seus ouvidos, Vano acorda. Estava deitado. Tenta se levantar de sua cama, mas logo cai de quatro no chão, batendo os joelhos e os cotovelos. Esforçava-se para olhar M., mas não conseguia. A dor era insuportável.

Sua visão ainda estava turva, mal permitindo que definisse os objetos que estavam na sua frente. Apenas tinha a certeza de que M. estava ali. O pouco que conseguia enxergar se confundia com visões e lembranças, sem que ele conseguisse distinguir exatamente o que era real.

Por três noites morrerá para que possa viver a Noite Eterna.

Estava morrendo então? Em sua mente vinham as imagens de M. em seus braços, sentada em seu colo. Havia saciado seu desejo de tê-la para si. Aquilo havia de fato acontecido? Com um esforço que lhe pareceu brutal, levou a mão ao pescoço, mas não havia nada ali. Como era possível? Sentia o gosto em sua boca. Era o gosto dela. A garganta estava seca e Vano queria mais.

Mahrime.

Todos terão um papel a cumprir.

Vano se sentia sujo. Nunca se sentira tão sujo como agora. Era como se, finalmente, havia completado seu ciclo e tornado-se intocável. Estava livre?

A visão das cartas vinha aos seus olhos. Morte. Força. O Mago. O que estava acontecendo? Sussurrou:

- Meu nome... meu nome é Vano Horváth...

O cigano começa então a rir. É invadido por um estado paradoxal de euforia. O ar que saia de seus pulmões com aquela risada provocava dores lancinantes em seu peito. Mas ele não conseguia parar.

- Hahahahaha. Beng, és um demônio. É isso que você é?

Vano levanta a cabeça, buscando M. com o olhar.

- O que fizeste comigo?
Storyteller
Admin
Mensagens : 369
Data de inscrição : 25/11/2017
Ver perfil do usuáriohttps://terturiumdigital.forumeiros.com

Os caminhos da Noite Empty Re: Os caminhos da Noite

em Seg Dez 24, 2018 11:18 am
M. sorria largamente. Os caninos eram longos e aliados aos dourados olhos lhe davam um aspecto primal. Era ela a encarnação do instinto? Daquele desejo que consome todos os homens? Era mais, era algo a mais.

Horváth viu o mundo escurecer e perdeu-se na mais completa escuridão. Acordou e o tempo lhe escapou. Quantos dias haviam se passado? Estava tonto, como se tivesse mergulhado em um lago de suas ervas mais fortes. Olhou em volta e notou estar do lado de fora de um forte. Havia uma grande muralha de pedra, tão alta que impedia ver o interior do forte, com um portão duplo de madeira fechado. A lua estava vibrante nos céus, ainda crescia como se não possuísse um limite. Atrás de si haviam árvores altas que iniciavam uma vasta floresta com apenas uma pequena trilha que permitiria à um homem caminhar por ela.

A tontura se encerrava e o seu olhar, ganhando consciência, a viu: M.

Estava de pé, trajando um belíssimo vestido rubro, na entrada daquela escura e aparentemente infindável floresta. Ela o observava com aquele olhar impassivo que a caracterizou nas primeiras noites. Sem nada dizer ela adentrou à vegetação alta, ignorando a trilha. Seus pés continuavam descalços. As plantas alcançavam à sua cintura e ela deslizava as mãos por elas, sentindo-as.

Vano a seguiu. Era instintivo, deveria seguí-la.

Conforme adentrava à vegetação e a luz da lua se escondia por debaixo da escuridão da copa das árvores, sentia a boca salivar, os olhos apertarem-se e a garganta secar completamente. Doía, aquela sede. Via M. à sua frente continuar a caminhada em silêncio, dando-lhe as costas. Parecia guiar-lhe à algum lugar.  

A sede aumentou quando um aroma agridoce inundou as narinas de Horváth. Desejava beber um lago inteiro mas sabia, por alguma razão, que a água não lhe bastaria. Desejava mais. Lembrou-se do vinho, dos chás e mesmo do suor das mulheres que passaram por seu caminho. Insuficientes, todos eles. Lembrou, então, do gosto de M. a deslizar por sua garganta. Desejava mais, precisava de mais.

A relva tornava-se rubra aos seus olhos. Ouvia-se ofegante embora o ar fosse completamente irrelevante. A visão se estreitava e nada mais que a imagem de M. obscurecida pela luz parca do astro no céu se mostrava à sua frente. O cheiro adocicado aumentou, tornou-se forte ao ponto de quase enlouquecê-lo. Avançou e sua mão tocou uma folha manchada de carmesim. Levou-a imediatamente à boca, por instinto, e deliciou-se com o sabor do líquido na ponta de seus dedos.

Havia mais. Era uma trilha rubra que seguia na direção que M. caminhava. Horváth mal podia se controlar. Sentia a garganta inflamar-se seca e o desejo por muito mais daquele delicioso néctar carmesim lhe consumia intensamente.

Chegavam à uma clareia e finalmente M. interrompeu-se, virou-se e sorriu para Vano.


- Nossa sede é aplacada somente com a caçada. Seja o Caçador.

O cigano viu à frente, em uma clareira circular que permitia a entrada da luz da lua, um homem com um ferimento no braço esquerdo. O sangue fluía por suas roupas e deixava o rastro que seguia até então. Desejava beber todo aquele líquido que se perdia e gotejava ao chão. Desejava secá-lo, bebê-lo através das veias pulsantes que conseguia enxergar em cada parte do corpo daquele homem. Embebido pela necessidade absurda que o consumia, só pôde perceber sua face após alguns instantes.

Sandu.

O homem estava ofegante, parecia ter corrido - fugido - durante um longo tempo. Sua pele estava pálida e seus olhos denotavam o mais primal dos medos. Viu Horváth e desesperou-se. Tropeçou nas raízes em seu entorno e correu, cambaleante, para dentro da mata.

Vano o via enquanto homem em seus parcos espasmos de consciência. Isto não importava. A sede o consumia. Nada mais importava além da necessidade de ter aquele líquido rubro, em abundância, na sua boca. O Cigano sentia-se forte, rápido como nunca antes. Sentia-se poderoso, predatório.

Sentia-se um Caçador e aquele homem era a sua presa.
Vano Horváth
Mensagens : 14
Data de inscrição : 25/08/2018
Ver perfil do usuário

Os caminhos da Noite Empty Re: Os caminhos da Noite

em Sab Jan 12, 2019 8:44 pm
Vano acordou novamente. Contemplou o cenário ao seu redor, na medida em que seus olhos se voltavam ao normal. Estava de joelhos no chão empoeirado, em frente ao grande portão da desconhecida fortaleza que estava diante de si.

Seus sentidos foram voltando, mas o cigano percebeu algo diferente. Sentia a sutileza dos aromas. Ouvia os sons da noite. Enxergava muito além da penumbra. E tudo isso vinha de um modo muito distinto da ampliação de sentidos que seus chás lhe traziam. Não havia nenhuma substância em seu corpo. Não havia nada. Apenas sangue.

Dar-se conta disso foi o gatilho para perceber a secura em sua garganta. A sede era implacável. Contudo, ao mesmo tempo em que esta sede nublava seus pensamentos, ela o movia. Era como ter fome e aguardar um prato suculento. A mera expectativa da refeição enchendo-o de prazer.

Vano colocou-se de pé com agilidade. Não havia mais tontura. Seu primeiro instinto foi o de respirar fundo, mas percebeu que não era necessário. Não havia ar em seus pulmões e, ainda assim, ali estava ele. Em plena forma física. Com exceção da sede...

Foi quando viu M, com seu maldito e maravilhoso sorriso, à borda de uma floresta. O cigano não retribuiu o sorriso, mas sentiu que deveria segui-la. Ao adentrar na mata, foi tomado pelos sons e aromas da floresta. Mas havia a sede. A sede o impedia de atingir qualquer estado contemplativo e apreciar os impulsos que eram captados por seus sentidos. Até que estes mesmos sentidos captaram algo. O cheiro e a cor. A relva manchada de vermelho e o aroma adocicado que vinha do líquido foram mais do que suficientes para disparar um choque que percorreu todo o seu corpo. Sangue.

Caminhou, decidido, pelo rastro de sangue no chão da floresta. Era como se, em meio a escuridão, houvesse uma luz emanando do líquido, orientando seu instinto para seguir o caminho com agilidade. Mesmo antes de M dizer qualquer coisa, Vano sabia que estava atrás de uma presa. Todo o seu corpo, toda a sua mente, lhe davam essa certeza. Estava caçando.

Quando chegaram à clareira e M. explicitou em palavras aquilo que Vano já vinha sentindo, ele apenas aquiesceu com a cabeça. Adentrou o espaço entre as árvores e ali o viu. Sandu.

O homem estava ferido e apavorado. Era um animal pronto para ser abatido. Vano sentiu o estômago queimar e engoliu em seco.

Sandu o viu com uma expressão de terror e fugiu para dentro da mata. Nesse pequeno instante, um fio de consciência se forçou nas águas turvas que era a mente de Vano naquele momento. Como poderia? Sandu era seu companheiro. Era parte do seu povo. Mataria-o como um animal, para beber do seu sangue?

Vano hesitou. Olhou mais uma vez para M. Perguntou, dessa vez para si mesmo, no que ela o havia transformado. Um ser devorador de sangue? Logo o Sangue.

Mahrime. O Sangue era uma das substâncias mais impuras. No Sangue só havia poluição. Tocar o Sangue era a certeza de tornar-se maculado. Haveria alguém, entre os Romani, mais maculado do que ele agora?

Foi então que, nesse mesmo instante de consciência, veio-lhe a lembrança da velha esposa do barô, que conhecera quando era jovem.

Você nunca será puro, Vano Horváth. Essa será sua força, pois a impureza o fará livre.

Estava livre. Era livre agora. Nada o impediria. E sabia, no fundo de sua alma, que todos tinham um papel a cumprir.

Vano ainda não sabia qual seria o seu papel. Precisaria descobrir. Mas sabia qual era o papel de Sandu. O homem deveria morrer, para que Vano Horváth pudesse viver.

Essa era a ordem das coisas. Não havia remorso, mas também não havia crueldade. Tal como o lobo se alimenta de um cervo. Tal como uma aranha se alimenta de uma mosca. Um morre para que o outro siga.

Vano Horváth retesou o corpo e correu. Correu com a agilidade de um predador, cobrindo uma distância impossível para um humano normal. Com facilidade alcançou Sandu. Deu-lhe um chute por detrás da perna, para que caisse no chão. Sandu tentou então se arrastar, mas Vano o segurou pelo calcanhar, trazendo-o para perto de si.

Desferiu-lhe um soco na cabeça, apagando-o.

E a última imagem que conseguiu se lembrar foi da veia pulsante no pescoço de Sandu. Todo o resto de sua memória cobriu-se de vermelho.
Conteúdo patrocinado

Os caminhos da Noite Empty Re: Os caminhos da Noite

Voltar ao Topo
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum