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A Catedral de Corpos Empty A Catedral de Corpos

em Qui Dez 06, 2018 11:56 pm
O dia se encerrava e a pergunta mórbida ecoava no pensar da maioria dos homens em Stourbridge: será amanhã, o fim?

A chegada da noite era sempre angustiante. A luz e o pouco calor que ali circulava desapareciam. O escuro e o frio se intensificavam e, com este último, a sensação da proximidade do fim se tornava maior e mesmo na ausência de dor, as articulações passavam a incomodar. O que poderia parecer um conforto, uma libertação, logo se tornava nada mais que a ampliação da solidão. Silêncio. Todos os moribundos destinavam-se ao sono.


Stephen já repousava quando a portinhola, estreita e retangular, da porta de seus aposentos se abriu por fora. A voz que ecoou nas paredes frias era facilmente reconhecida, tratava-se do Padre Callum, um jovem sacerdote recém-chegado ao leprosário. Suas palavras eram leves e um tanto rápidas, em tom brando. Sua voz era quase feminina. Através da pequena abertura da portinhola seus olhos curiosos escrutinavam o interior do quarto escuro durante o falar.

- Lorde Stephen? Stephen de Cromwell?...há um homem a procurá-lo, ele o aguarda no salão de orações, senhor.

Não pareceu que iria deixar a frente da porta, o jovem padre Callum. Silenciou por apenas um minuto e retomou.

- Um Lorde, eu diria, assim como o senhor. Veste-se como um, fala como um. Por Deus, até caminha como um. O Senhor precisa de algum auxílio, Lorde Cromwell?

Stephen sabia que Callum também padecia da podridão. Nele havia apenas começado. Seu braço esquerdo estava enfaixado e haviam chagas aparentes em seu pescoço. Naquele local não havia uma só vivalma livre da lepra e, por isso, a notícia sobre o visitante ganhava contornos cada vez mais instigantes após a continuação do matraquear do jovem padre.

- Ele não possui feridas aparentes, nem ataduras, nem mal cheiro. Por Deus! Ele cheira a nobreza! Aquele cheiro do ferro das armaduras e do couro de suas botas. O Senhor deve ter ótimas relações, Senhor Cromwell.

Balbuciava algumas triviais coisas a mais, Callum. Stephen chegou a pensar o quão incômodas podem ser aquelas portinholas. Foram colocadas ali para prevenir que os leprosos morressem em seus quartos e por lá ficassem esquecidos por dias, com a porta fechada, até que alguém os encontrasse. Entristecia-se ao notar que cada detalhe daquele local era preparado para a morte.
Sir Stephen de Cromwell
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em Sex Dez 07, 2018 11:03 pm
*Ele estava deitado quando o jovem padre entrou. Não estava exatamente dormindo, mas naquele limiar da consciência, quando se encontrava meditando e entregue aos próprios pensamentos. Ao ouvir a voz do padre, Stephen abriu um único olho e observou seu interlocutor. Não esboçou reação alguma, exceto talvez por uma fagulha de raiva que brilhou no olho ao ser chamado de Lorde. Após um silêncio considerável, ele começa a se sentar. Um processo longo e meticuloso, onde Stephen tomava cuidado com cada gesto e checava o próprio corpo em busca de novas feridas. É apenas quando está efetivamente sentado que começa a responder ao padre.*

-Eu não sou um lorde, padre Callum. Em sua sabedoria, Deus e sua majestade, o rei, julgaram melhor assim. Eu sou um cavaleiro, e se Deus permitir, morrerei um cavaleiro. Nem mais, nem menos.

*Com o mesmo cuidado com o qual havia se sentado, Stephen agora enrolava os braços em bandagens. Não era bom deixar as chagas expostas, ainda mais se tinha um visitante, algo tão raro. Ele sente os dedos, os que lhe sobraram ao menos, rígidos e intertes ao enrolar as faixas. Era mais um motivo para que cada gesto seu fosse feito com extremo cuidado - não conseguia fazer mais nada sozinho se não fosse dessa forma.*

-Você me dá mais valor do que eu tenho. Todos a quem conheci fora destes muros estão mortos ou me esqueceram, não consigo quem poderia vir me visitar nos dias de hoje. E um lorde ainda por cima... qual surpresa essa visita nos reserva, padre?

*Ele abana uma mão ferida quando o padre oferece ajuda, mas em seguida passa um tempo observando a parede com suas relíquias, uma única concessão sua ao pecado da vaidade. Sua armadura estava montada, ainda polida, ainda bem cuidada, bem como suas vestes da época das cruzadas e sua grande espada, exposta na parede pendurada por um suporte. A cavalaria sempre seria seu orgulho e no seu cotidiano, mesmo nas roupas simples, costumava combinar as cores de sua ordem, o branco e verde, e se tinha um visitante, o receberia como o cavaleiro juramentado que era.*

-Me faça a gentileza de pegar meu tabardo e meu cajado, por favor.

*As memórias da Terra Santa logo lhe voltam à cabeça quando encosta no tecido branco, e ao vestí-lo com ajuda do padre, se sente um pouco melhor. Um pouco mais digno. Um pouco mais si próprio. A roupa branca com uma cruz verde lhe trazia paz, talvez a única que conseguia encontrar nos dias atuais.*

*Ele se levanta, um gesto igualmente cauteloso como os demais, e se apoia no cajado fornecido pelo padre. Ainda era um homem grande, embora encurvado, mas não sentia mais a mesma firmeza nas pernas. Talvez real problema é que não sentia mais as pernas, não inteiramente. Ele pega uma espécie de capacete improvisado que usava ao andar pelo ar livre - uma máscara de malha de ferro combinada com ataduras, para proteger o rosto e esconder coisas como a ruína que havia se tornado seu nariz. Ele olha para a portinhola e dá um suspiro cansado, ao pensar na morte que espreitava a todos naquele lugar.*


-Não ficarei melhor que isso. Por favor, mostre o caminho, padre. Não é cortês deixar um visitante esperando.
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em Sab Dez 08, 2018 10:33 am
Callum, o jovem filho de Deus, guiou Stephen através dos corredores lúgubres de Stourbridge. O garoto estava visivelmente excitado, ansioso.

- Perdoe-me Sir, perdoe-me. Ao chegar aqui três a cada dois residentes se referiram ao senhor como Lorde. Eles o vêem desta forma, como alguém que não deveria estar aqui. Por Deus! O que estou falando? Mal consegui me ordenar e cá estou. Mas não posso maldizer os planos de Nosso Senhor para mim. Sou um Padre, eu consegui! Imagino como seria se a podridão me alcançasse antes de minha ordenação...

Caminhavam pelo estreito corredor de pedra e ouviam os ecos dos lamúrios cada vez que passavam diante de uma das portas. Para além deles, somente o bater constante e compassado do cajado de apoio do Cavaleiro e a voz constante de Callum eram ouvidos.

- Pega-se pensando sobre isso, Sir Stephen de Cromwell? Sobre o quão bondoso foi Cristo-Rei, o Filho e o Pai, ao permitir que o senhor pudesse tornar-se um Cavaleiro antes de possuir a doença? O amor divino é belíssimo, Sir Stephen, belíssimo. Ele nos deu tanto, tanto...eu creio que agora somos os penitentes de nossa história.

O corredor se encerrava em um salão central que desembocava em um segundo corredor que permitia acesso ao pátio externo e, dele, rumava à capela de Stourbridge, chamada de Salão de Orações. Quando lá chegaram vislumbraram um homem de pé, atrás de um dos bancos da capela, a observar a imagem do Cristo Crucificado acima do altar. Ele não tecia preces, ao menos não o fazia de forma audível. Apenas permanecia a observar, fixamente, a estátua sagrada.

Novamente foi a voz de Callum a quebrar o silêncio.


- Milorde, apresento-o Sir Stephen de Cromwell.

O Rapaz sorria enquanto o homem virava-se para seu interlocutor. Era um homem com uma face vivida. A idade havia pesado sobre seus ombros e levado sua juventude. Ainda assim, era imponente e parecia possuir o vigor físico intacto. Era um homem de armas por seu porte, não restava dúvidas. Seus cabelos eram de um castanho claro e uma barba por fazer, muito curta, permanecia em sua face. Trajava roupas de cor escura, em couro, com um tecido pesado de cor marrom lançado sobre os ombros e caindo por suas costas até a cintura. Não havia nenhuma marca visível da doença em seu corpo. Nenhuma.

Os olhos eram particularmente atrativos diante da pouca iluminação disponível na capela, oriunda dos castiçais nas paredes e das velas espalhadas pelo altar. Eles, os olhos, eram azuis em um tom escuro, profundo. Lembravam o mar durante o fim do dia, quando o sol se esconde e uma onda púrpura-azulada cobre as águas. Brilhavam um tanto a mais naquela luz baixa.



A Catedral de Corpos 0410



Primeiro, ele olhou para o jovem padre Callum e o agradeceu.

- Sou grato por vossa atenção, Padre. Peço que nos deixe agora.

Callum, sorrindo como um garoto deslumbrado com um elogio de seus pais, se despediu de Stephen e os deixou aos pés da Cruz de Nosso Senhor e sob a luz amarelada das velas da simplória capela de Stourbrigde. O Homem aproximou-se, estendeu a mão - sem quaisquer receios ou mudanças em sua expressão - para um aperto de pulsos.

- Perdoe-me retirá-lo de vosso repouso, Sir Stephen de Cromwell. Sou Arturo de Richmond, Conde de Montfort.
Sir Stephen de Cromwell
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em Sab Dez 08, 2018 11:28 pm
*Enquanto Stephen se arrasta pelos corredores, não consegue deixar de pensar nas palavras do padre. Algo nele o fez pensar da última confissão que fizera, ainda que não fosse o mesmo sacerdote.*

-Sua visão não é sem fundamentos, padre. Em verdade, é de um otimismo reconfortante. Talvez você esteja certo - afinal eu não posso dizer que não tive uma vida plena, por mais que tenha sido cheia de dor. Nós somos, eu imagino, nossos próprios mártires.

*Quando chegam à Sala de Orações, Stephen deixa Callum fazer as apresentações enquanto olha mais uma vez para o Cristo crucificado ali. Ele faz uma genuflexão, lenta e metódica como todos os seus gestos, além de se ajoelhar diante do altar. Era um martírio por si só o ato, com suas juntas rígidas e insensíveis, mas Stephen não podia se permitir tamanho sacrilégio, não enquanto ainda tinha forças para se ajoelhar. Ele oferece uma prece rápida para Cristo e São Lázaro, para então se levantar, depois de um esforço considerável. É só então que se dá ao luxo de observar o visitante. Um homem deveras impressionante, que poderia estar em qualquer campo de batalha da Europa, mas ao invés disso preferia estar ali, em meio aos proscritos.*

*Ele se despede do padre simpático com um cumprimento silencioso, e olha curiosamente o braço estendido pelo visitante. Se ele não aparentava repulsa, Stephen estaria mais do que feliz em retribuir o cumprimento, e o faz com força, para mostrar que seus braços ainda não eram inúteis. Ainda.*


-Não interrompeu nada. Eu suspeito que terei tempo o bastante para repousar quando estiver morto, Vossa Senhoria. É um prazer receber sua visita, ainda que não possa deixar de me perguntar seu motivo.
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em Dom Dez 09, 2018 3:28 pm
- Perdão e redenção.

Respondeu-lhe o homem enquanto apertava, com firmeza, o punho de Sir Stephen. A iluminação baixa marcou com sombras a face de Arturo de Richmond com uma expressão triste. Encerrou o cumprimento e colocou-se ao lado do moribundo Cromwell, para que seus olhos alcançassem a estátua do Crucificado no altar à frente.

- Somos ambos homens definhando com o tempo, Sir Stephen. Ambos acorrentados com os pesados grilhões do destino e das leis dos nossos.

Estavam lado a lado, ombro a ombro, como por muitas vezes Stephen se viu em batalha ao lado de seus companheiros. Desta vez não havia um inimigo à sua frente, mas o igualmente julgador e misericordioso olhar do Cristo na cruz. O Conde de Montfort continuou.

- Eu o observei por muito tempo e por todo ele fui incapaz de quebrar os meus grilhões. O vi ser um promissor escudeiro. Assisti, da escuridão e com orgulho, tua nomeação e tua ascenção como Sir Stephen de Cromwell. Estava tão próximo...tão próximo.

- E então ela veio. A doença.

Stephen poderia ver o perfil do homem a seu lado e notar que seus olhos azuis brilhavam em um púrpura escuro e lúgubre como os cantos escuros daquela capela. Os olhos colocavam para fora o desespero incontido daquelas palavras ao brilharem cada vez menos. Continuava, o Conde.

- O peso que carrego está naquelas noites. Nas primeiras delas. Me acovardei de minhas íntimas vontades e da busca por ti, Sir Stephen, e me permiti ser amarrado pelas leis dos meus. Me negaram o direito a intervir e eu aceitei passivamente. Eu poderia ter impedido a tua desgraça e assim encerrado também o meu sofrimento. Fui fraco ao não fazê-lo. Hoje eu vejo.

- Os anos que decorreram foram de apodrecimento da tua carne e da minha vontade de continuar de pé. O tempo, assim como faz convosco, não tratou de curar as chagas e sim as fez crescer e espalhar sobre a minha alma.

Só então ele virou-se novamente e encarou o único olho visível de Stephen por trás das bandagens. Encarou-os com os seus azuis cor-do-mar escuro.

- Esta noite me liberto de minhas correntes ao oferecê-lo o fim da doença do corpo e o início de uma nova caminhada.
Sir Stephen de Cromwell
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em Seg Dez 10, 2018 6:59 pm
*Stephen fica sem reação. Seu único olho encara o conde de Richmond incrédulo com suas afirmações, que beiravam o sacrilégio. Ele precisa de um bom tempo, longos minutos de silêncio, para se recompor.*

-É... de um certo alento para minha desgastada vaidade que o senhor tenha me acompanhado tanto tempo atrás, Vossa Senhoria. Aqueles eram bons tempos, melhores ainda se comparados aos de hoje, mas a Doença veio, e a Doença, Senhor Conde, tem um hábito nefasto de atrapalhar planos. Alguns dos padres aqui presentes gostam de dizer que é como uma maneira de Deus nos fazer rever nossas vidas, de criarmos novos caminhos para desfrutarmos de Seu amor. Nos meus bons dias, eu gosto de acreditar nisso, mas os bons dias são raros...

*Ele passa mais uns segundos quietos, nervosamente retorcendo o cajado em sua mão, até falar novamente, após um longo suspiro.*

-Mais de uma década, senhor conde... Há mais de uma década eu vivo com essa doença, a cada dia achando que acordaria pela última vez. E em todo este tempo, não faltaram curas milagrosas para minha condição. Meu pai, chegou ao meu conhecimento, gastou uma verdadeira fortuna com charlatães, para nenhum efeito. Meu caro conde de Richmond, sua presença me agrada muito. Eu gosto de pensar que ainda há alguém no mundo lá fora que se importe comigo. Eu gosto de saber que algo de minha vida antiga ainda exista... Gosto de pensar que Vossa Senhoria seria um soberbo camarada de armas, e que ombro a ombro faríamos uma Cristandade melhor...

-Mas meu caro conde, quem quer que lhe prometeu uma cura para minha condição, apenas quer seu dinheiro por vias pecaminosas. Foi apenas Nosso Senhor Jesus Cristo que pôde curar os leprosos e, para azar da humanidade, ele anda entre nós há muito, muito tempo...

*Ele se vira para o nobre, encarando seus olhos, se perdendo por um momento na cor profunda deles. Pelo resto da sua vida, por mais breve que fosse, Stephen sentia que agora associaria aquela cor aos bons eventos que não poderia viver.*

-Eu sou imensamente grato por sua visita, meu senhor. Me trouxe um conforto indescritível. Mas não é para ser... *Ele sacode a cabeça lentamente* Meus dias como cavaleiro pertencem a outra vida, outro tempo...
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em Qua Dez 12, 2018 8:11 am
Desviou o olhar do Crucificado e depositou os olhos azuis escuros sobre Stephen. Havia compaixão e dor naqueles olhos.

- Não há cura, Sir Stephen de Cromwell. O que lhe ofereço é a morte.

Silenciou por alguns instantes e tornou a olhar a imagem do Cristo. Neste momento, o leproso pôde notar um broche de prata brilhante que prendia o tecido jogado por cima dos ombros do Conde de Richmond ao restante do vestuário. Tratava-se de uma pequena espada entalhada dentro de uma cruz, contornada por uma linha em forma de círculo.

Stephen havia visto muitos brasões em seus dias como cavaleiro. Templários, Hospitalários, casas nobres e até mesmo de ricos comerciantes passantes pela terra sagrada. Nenhum deles lembrava aquele brasão, contudo. Havia uma sensação de proximidade ao vê-lo, ainda assim. Uma espada e uma cruz. A fé e as armas. Era o desenho do mundo ao qual o cavaleiro de Cromwell pertenceu, antes da doença.

O Conde continuou após algum tempo. As velas da capela e sua luz alaranjada davam contornos bem definidos a sua face, austera e um tanto sisuda. Triste, sobretudo.

- As provações são testes de fé.

- Não ouso citar esta frase como um ensinamento para vós, Sir Stephen, que viveu uma longa e tortuosa provação em todos esses anos. A trago à questão somente para evocar no senhor a máxima da cristandade:

Novamente, retirou os olhos da imagem e os depositou sobre o Cavaleiro. Stephen podia ver sua imagem refletida naqueles olhos azuis de tom escuro e arroxeado. Via sua decadência, seu corpo decrépito. Mas via também seu único olho e o brilho que ele ainda emanava, exatamente igual àquele de tantos anos atrás enquanto era são.

- Há vida após a morte e há redenção após o sacrifício.

- O meu tempo de tomar-lhe da doença se foi. Não me cabe, agora, dar o passo que deveria ter dado há tanto tempo. Eu devo lhe oportunizar a escolha, Sir Stephen. A escolha entre aguardar o fim lamurioso incerto dos próximos dias, meses ou anos ou renascer esta noite. Agora.

Depositou sua mão direita sobre o ombro do leproso e, talvez pela primeira vez, sorriu singelamente.

- Eu sou a morte, Cavaleiro. Eu sou aquele que pode tirar-lhe o último suspiro e dar-lhe a vida eterna.
Sir Stephen de Cromwell
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em Qua Dez 12, 2018 9:24 pm
*Ao ouvir as palavras do conde, Stephen solta um suspiro profundo, e para de encarar seu interlocutor. Ao invés disso, ele olha novamente para o Jesus crucificado. Mas há um brilho diferente em seus olhos, mesmo no cego. O brilho de lágrimas se formando.*

-Eu rezei por este momento, senhor Conde. Por quinze anos, rezei por uma morte digna. No início rezava por uma morte no campo de batalha, como os antigos pagãos do norte. Uma morte com honra em defesa de Deus. Quando ela não veio, desejava uma morte que me livrasse da vergonha de viver como um leproso, e ela também não veio. Com o tempo, rezava somente pelo fim, não importa de qual maneira como viesse, sempre lutando contra o desejo de que fosse pela minha própria mão, um pecado monstruoso. Eu passei quase metade de minha vida torcendo para que ela terminasse.

*Agora, com um pouco mais de força, ele consegue novamente encarar o conde Arturo.*

-O senhor acerta ao falar em provações. Teria eu passado o que passei para tolher o meu orgulho? Minha vaidade? Para entender o valor da vida através do sofrimento? Não posso dizer que não tive tempo para pensar... E agora a Morte vem, na forma do senhor. Se não for presunção de minha parte, eu gosto de ver no senhor o que teria me tornado, se Deus tivesse escolhido um caminho diferente para mim.

*Ele fecha os olhos, e passa alguns minutos murmurando preces para si próprio. Fazendo as pazes com Deus, e consigo mesmo. Até que os abre novamente, abrindo também os braços.*

-Então sim, Vossa Senhoria Arturo, Conde de Richmond. Se o senhor é a minha Morte, eu lhe recebo de braços abertos.
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em Qui Dez 13, 2018 9:18 pm
Os olhos azuis eram um farol a acender a esperança no coração amargurado do Cavaleiro. Brilhavam em um escuro tom que destoava da face repleta de sombras daquele homem, parte pela parca iluminação local e parte pela aparente dor que também carregava.

- Ajoelhe-se, Sir Stephen de Cromwell.

A voz grave entoou as palavras que o fizeram lembrar de sua ordenação. O homem castigado pela doença o fez com seus costumeiros lentos e pesados movimentos. Sentiu algo estalar na perna esquerda mas não se importou, nada mais importava. Sua libertação finalmente havia chegado.

O Conde Arturo de Richmond desembainhou um belíssimo punhal que estava abaixo do tecido que lhe caía dos ombros à cintura. Sua haste possuía o exato símbolo do brasão em seu peito cravejado, esculpido em riqueza de detalhes. Agora, maior, Stephen conseguia ler as inscrições na lâmina da espada desenhada sobre a cruz, entrelaçadas como uma só.


Fidelis Bellator


Ele ergueu a lâmina deitada no ar, segurando-a com ambas as mãos enquanto seus olhos destinavam-se ao Cristo na Cruz.

- Esta é a união do Corpo e do Sangue de Jesus, o Cristo e Senhor nosso.

Desceu a visão até encontrar aquele único brilhante olho do Cavaleiro e continuou.

- Quem come minha Carne e bebe meu Sangue permanece em mim e eu nele.

As palavras ecoavam pela escura capela enquanto as velas tremulavam e sua luz minguava, mas jamais se extinguia.

- Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.

Deslizou a lâmina do punhal sobre o próprio pulso, abrindo-o. Dele brotou o sangue escuro e espesso que começou a gotejar sobre a face do Cavaleiro. O cheiro o inebriava, era doce e tinha o aroma da paz, do fim das dores do corpo e da alma.

- Isto é o meu Sangue. O Sangue da nova e eterna aliança que é derramado em favor de muitos, para o perdão de pecados. Beba-o e seremos um só corpo, um só espírito.

Desceu o pulso, lacerado e gotejante, diante de Sir Stephen enquanto a outra mão já segurava a face do Cavaleiro pelo queixo. As velas apagaram-se por um breve momento e uma brisa gélida percorreu-lhe o corpo. Sentiu o gosto agridoce escorrer por sua garganta. Sentiu calor e depois um frio excruciante. Sentiu seu coração pulsar como nunca antes. Experimentou a fome e a saciedade. Prazer, libertação, paz.

A última coisa que viu foram os dois brilhantes olhos azuis de tom arroxeado. Era aquela a cor do renascimento. Poderia crer que dentro daqueles olhos havia a silhueta de Jesus, Nosso Senhor.

Em seguida mergulhou em um jamais experimentado estado de inércia. Ouvia a própria respiração, sentia no peito o bater compassado do próprio coração. Via imagens desconexas mescladas ao escuro absoluto. Viu-se nos braços do Conde Arturo de Richmond e em seguida nada mais viu. Ouviu passos no corredor de pedra de Stourbridge e depois o mais profundo silêncio. Inspirou e jamais expirou o ar em seguida.

Abriu os olhos, viu um teto de madeira acima de seu corpo e nele as luzes dançavam para a direita e para a esquerda. Conseguiu mover o pescoço e viu as velas protegidas por gaiolas nas paredes, que também balançavam lentamente. Moveu, então, o pescoço para o lado oposto e o viu sentado à cabeceira de onde aparentava estar deitado. Arturo o olhou, sorriu e apenas o disse:


- Por três noites morrerá para que possa viver a Noite Eterna.

Mergulhou na escuridão uma vez mais.
Sir Stephen de Cromwell
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em Seg Dez 17, 2018 2:54 pm
*Estava ele no Paraíso? Não saberia dizer. Tampouco no inferno, ou no Purgatório. Em verdade, ele não conseguia ver nada, exceto a si mesmo, em meio à escuridão. E o curioso era que ao mesmo tempo em que tinha sua visão, também podia vê-lo de fora de seu corpo. Era a Morte, era a Exaltação.*

-Você desistiu, então?

*Ele não conseguia associar a voz à memória. Poderia ser Sir Humphrey, seu finado mentor, poderia ser o misterioso padre com quem se confessara, o conde Arturo, ou mesmo a voz de Deus, da forma que a imaginava.*

*Ele podia ver a si próprio novamente agora, mas não mais a ruína que havia se tornado, mas sua versão jovem, plena e sã, ajoelhado de frente a Sir Humphrey, e na hora reconheceu a memória: estava sendo sagrado cavaleiro. Ele viu o cavaleiro mais velho bater a espada em seus ombros, e depois lhe dar um sonoro tapa no rosto. "Que este seja o último golpe que você receba sem revidar.", ele ouviu a voz em sua mente.*


-E foi? Foi o último golpe que recebeu sem revidar? *Ele ouvia a voz novamente.*

*Havia uma paisagem agora, estava nos desertos da Terra Santa. E entendia por fim a sensação que os olhos do conde de Monfort lhe causavam: eram da cor exata que  o céu assumia por um breve minuto, no por do sol do deserto. Mesmo em meio à guerra e, mais tarde, o próprio sofrimento, ele nunca deixara de apreciar aquele momento de beleza singular quando lhe era possível. E então ele os via. Sir Humphrey, sua entrada no mundo da cavalaria, Jesus Cristo em pessoa, sua fé, e Arturo de Richmond, a Morte. Eles falavam? Stephen não tinha certeza, pois a boca de nenhum dos três se mexia.*


A Catedral de Corpos 30026810

-Responda!

*Ele congela naquele momento, olhando os três. E algo surge dentro de si, algo que estava enterrado dentro de seu corpo há uma década. Stephen sente... raiva.*

-Deixei eu algum golpe sem resposta? Por acaso algum inimigo de Deus ou da Coroa viveu depois de enfrentar minha espada?

-E quais inimigos sua espada tem enfrentado ultimamente, leproso? O duque das teias de aranha? O conde da ferrugem? O principado da lepra? Você escolheu se esconder e chafurdar na própria auto-piedade. Escolheu apodrecer enquanto vivo ao invés de só o fazer depois de morto.

-Eu fui tomado pela PESTE! Uma sentença de morte, uma sentença de invalidez! Com qual arma enfrento esse inimigo? Deveria eu golpear os humores do ar com minha lâmina?

-A doença não lhe impediu de lutar. E enquanto muitos morreram ao seu lado, você viveu.

-E o que deveria ter feito? Aberto meus braços para receber uma lâmina sarracena? Não. Eu rezei por uma morte no campo de batalha, sim, mas não entregaria minha vida. Quem quer que fosse me matar, teria de conquistar minha morte. Nada além disso seria aceitável.

Então o aceitável foi apodrecer junto aos outros amaldiçoados podres como você?

*Stephen olha para as próprias mãos. Estavam plenas, rosadas e saudáveis. Mas ao mesmo tempo também eram a ruína com a qual estava acostumado: cheias de chagas, ressecadas e com um dedo indicador faltando. Eram as duas ao mesmo tempo, mas curiosamente isso não lhe assustava. Pelo contrário, via nelas um certo propósito, um que alimentava a raiva e o orgulho que o motivavam a responder às acusações. Ele cerra as mãos e continua.*

-O aceitável foi manter minha honra. Foi obedecer à minha Ordem. Se me foi fadada a clausura, que assim seja. Alguém poderá me acusar de covardia? De desonra? Infidelidade? Eu suportei minha sina, como Nosso Senhor suportou seu calvário.

-É o que você é, então? Um servo? Um refugo a ser descartado e jogado fora?

-Eu sou membro da Ordem de São Lázaro! Ordo sancti Lazari Hierosolimitani. Domus leprosum sancti Lazari.

-Um refugo, então. Destinado a gerir hospitais e padecer de autopiedade.

-Não! Minha vida se deu pela espada. Não me foi concedido morrer pela espada, mas vivi por ela.

-Então FALE! Diga-nos, o que você é?

...

*Na cama onde estava deitado, era visível que Stephen sonhava. Se contorcia e resmungava, mas nada de compreensível saía de sua boca. Apenas após um espasmo mais violento que sai um sussurro de sua boca. Em seus sonhos, gritava com orgulho, mas aqui, era apenas um murmúrio, praticamente inaudível.*

-Eu sou um cavaleiro...
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em Qui Dez 20, 2018 6:46 am
- EU SOU UM CAVALEIRO!

Despertou erguendo-se da cama como alguém que emerge de um longo mergulho do qual já lhe faltava ar. Deveria esta ofegante em decorrência do angustiante sono mas percebeu que o ar lhe era irrelevante. E percebeu mais.

Estava em um aposento sem janelas,  de madeira e no qual havia apenas a sua cama. O ambiente balançava lentamente para a direita e esquerda o que o fazia intuir que estava em uma embarcação. A intuição cresceu quando ouviu as ondas chocarem-se contra o casco do navio fazendo o som ecoar em seus ouvidos. Ouvia também os passos e palavras desconexas de homens no convés acima. Os ouvia em perfeição de detalhes.

Viu na parede à sua frente uma aranha, daquelas pequenas e comuns que costumam escalar as moradas, a caminhar lentamente por entre as minúsculas frestas entre uma tábua e outra que compõem a parede. Não somente via a aranha, enxergava seus vários olhos  e o brilho dentro deles e percebia as cerdas eriçadas de seus pelos nas oito patas. A via em detalhes, impossíveis detalhes para o seu único olho.

E, finalmente, notou. Estava sem ataduras.

Haviam as cicatrizes deixadas pela doença e as deformações que ela causou ao longo dos anos mas não lhe restava uma só ferida aberta. Sentia seus braços e pernas firmes e poderosos como em sua juventude. Não! Mais, muito mais! Sentia-se leve, rápido como nunca antes fora e forte como sonhava em seus jovens anos de batalha.

Não tinha fome mas sentia uma sede crescente. Sua boca estava seca e o seu nariz buscava, instintivamente, algum resquício de bebida. Nada havia naqueles aposentos.

Ouviu passos para além da porta daquele local. Imaginou que alguém passaria por ela e entraria no quarto em seguida, quem quer que fosse estava próximo. Os passos começaram baixos e foram aumentando, o dono deles dava passos muito curtos e seguidos ou estava assim tão distante? O ouvia se distante estivesse?

Começou a sentir um aroma adocicado. Sentia uma ânsia pela proximidade daquele cheiro. Era vinho? Algum alimento? Não importava, era delicioso e estava se aproximando.

Finalmente a porta se abriu e um jovem homem adentrou. Possuía os cabelos alourados cortados precisamente em círculo ao redor de sua cabeça e vestia uma único e imaculado manto branco que lhe cobria todo o corpo, até os pés. Não deveria ter alcançado mais que os 18 anos.

Stephen o olhou e ouviu o coração do jovem a bater acelerado, tão alto como se fosse o seu próprio. Notou, então, que o seu não mais batia. Sua atenção também foi atraída pelo medo do jovem.

O cavaleiro de Cromwell estava sem as ataduras, seu corpo desfigurado e marcado pela doença que lhe acompanhou por uma década. Talvez isto causasse medo no garoto. Não, era algo a mais. Estava nervoso sim, mas parecia indiferente à aparência de Stephen. O último sabia disso pois além de acompanhar o bater compassado daquele coração, notou os lábios do jovem a tremerem e as mãos a se entrelaçarem e apertarem-se. Acompanhou uma gota de suor a escorrer do lado direito de sua face e deslizar rumo ao seu pescoço.

O cheiro...

Aquele cheiro agridoce era crescente, inebriante, irresistível. Viu a veia no pescoço do garoto pulsar uma, duas, três vezes. Era dele, do líquido carmesim que enxergava a correr por aquela veia, que brotava aquele aroma.

O jovem aproximou-se lentamente e em silêncio. Conforme o fazia, Stephen sentia uma crescente e insuportável sede. Aquela veia lhe saltava os olhos e o fazia imaginar o inimaginável. Sentia um impulso quase incontrolável de saltar sobre o jovem homem e de morder-lhe o rosado pescoço e beber daquele líquido espesso de cheiro inebriante. Era instintivo. Deveria fazê-lo! Enxergava a cena, seu corpo tremulava ao imaginá-la. Por Deus! Que sacrilégio era aquele!? Que pensamentos abomináveis eram aqueles!? O que tudo isso significava?

A sede crescia. Sentiu sua garganta queimar e seu corpo clamar por aquele jovem. Em quase desespero, o viu ajoelhar-se, abaixar a face e erguer as mãos em oração.


- Deus Pai, em nome do teu amado Filho, Jesus Cristo, eu coloco toda a minha vida em tuas mãos. Por isto, eu peço que o Senhor a receba e a consagre totalmente a Ti.

Eu te entrego todo o meu ser, a minha liberdade, a minha memória, o meu entendimento, a minha vontade! Com a intercessão de Nossa Senhora, entrego também o meu passado, o meu presente e o meu futuro, para que sejam consagrados ao Senhor.


Sussurrava em oração e ao terminar ergueu o olhar para Stephen, ainda sentado sobre a cama. Estavam determinados aqueles claros olhos.


- Estou pronto.

A sede era insuportável.
Sir Stephen de Cromwell
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A Catedral de Corpos Empty Re: A Catedral de Corpos

em Qui Dez 27, 2018 5:45 pm
*Ele sentia.*

*Foi a primeira coisa que percebeu depois de acordar. Um pensamento trivial, talvez, mas Stephen sentia coisas que julgava perdidas há muito. Sentia o próprio sangue correr no corpo, formigações nas pontas dos dedos. Formigações! Achava que tais coisas não lhe pertenciam mais, mas sentia agora, sentia tudo ao contrário da torpidez que lhe acompanhara pelos últimos quinze anos. Ele belisca o próprio braço, apenas para confirmar e lá está: dor, doce e esquecida dor.*

*Stephen toma seu tempo observando o quarto à sua volta, vendo como seus braços não eram mais rijos como antes, como se sentia melhor. Duas coisas porém, lhe incomodavam no fundo da cabeça: que ele não estava respirando, e a sede, cada vez mais constante, no fundo da garganta; apenas uma vez ele sentira algo parecido, e foi após passar um dia inteiro nos desertos da Terra Santa sem água.*

*Seus pensamentos, porém, são interrompidos com a chegada do rapaz. Jesus e todos os seus santos, o que era aquilo que ele lhe fazia sentir? Não era luxúria. Graças ao bom Deus Stephen não era contaminado pelo pecado da sodomia, embora soubesse o quanto esta praga estava difundida na Igreja. Mas a visão do jovem lhe despertara algo. Algo... diferente. Enquanto ele se ajoelha e recita a prece, o cavaleiro não pode fazer nada além de observar, de boca aberta, a carne tenra à sua frente. Ele não pode fazer nada além de observar a si próprio, sem nenhum controle, enquanto se levanta. Não pode fazer nada, além de berrar em sua consciência, enquanto agarra o jovem e morde-lhe o pescoço. E que Deus me perdoe, pensou Stephen, mas jamais se sentira tão bem em toda sua vida.*
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