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A Cidadela da Noite Empty A Cidadela da Noite

em Qui Dez 06, 2018 11:22 pm
Pôde ver da janela esculpida em pedra, ainda ao longe, a carruagem - escoltada por cavaleiros - aproximar-se de Sisteron. Naquela torre da Cidadela pouco escapava do seu atento olhar.

Quando o transporte cruzou a estrada de terra batida recoberta com pedras, fincadas no solo de forma a garantir uma viagem mais rápida e menos truculenta, e projetou sua imagem refletida no espelho d'água do lago aos pés da vila, O Duque de Provença já havia ordenado a seus criados que preparassem uma recepção digna do visitante.

Recebera há duas noites uma missiva que lhe despertou curiosidade e causou-lhe um crescente receio. A carta havia sido assinada por J. V. Artevelde, renomado e influente comerciante flamengo, solicitando uma audiência acerca de negócios.

Artevelde era um nome conhecido por sua influência no ramo têxtil, o maior dos negociantes do período. Era também notável por suas relações saudáveis com a Coroa Francesa e, de igual forma, com àquela das Ilhas Britânicas. Sua ascendência lhe escapava, mas os boatos de que o comerciante possuía um crescente poder político em Gand e Flandres alcançaram a aguçada percepção de Francesco de Anjou com relação a movimentos político-econômicos.

A missiva era breve, solicitava um encontro de negócios com um foco específico nos navios do Duque de Provença. Estimava sua chegada na segunda das próximas noites e, precisamente ao cair do segundo dia, a carruagem se movia pelas ruas da vila de Sisteron e adentrava à Cidadela, sendo recepcionada pelos criados e, especificamente, por Carlo Azeglio, o mais antigo deles e responsável por manter a ordem e as tarefas comuns em funcionamento no castelo.

O Duque os aguardava em um dos salões externos, amplo e decorado com tecidos oriundos da  já moribunda rota da seda, troféus de caça empalhados e móveis dignos dos salões do Rei de França.

Quando as portas se abriram e a luz do luar preencheu o salão mesclando-se com as luzes das velas do elegante lustre dependurado no teto, dois homens adentraram após a apresentação formal realizada pela voz rouca do já tomado pela idade Carlo Azeglio.


- A comitiva do Signore Artevelde se faz presente, Vossa Graça. Anuncio, então, o signore Jacob van Artevelde, de Gand. E, a seu lado, Vossa Senhoria o Conde Antoine de Lannoy, de Hainaut.

Os homens o saudaram através de  uma mesura respeitosa e com um traço típico estrangeiro, joelhos pouco dobrados e olhos fixos - todo o tempo - no Duque à sua frente. Notou o fato de relance, pois sua atenção havia sido capturada pelo Conde de Hainaut, a quem desconhecia até esta noite inclusive o nome.

O homem era belo, jovial e alto. Cabelos escuros e curtos e pelos faciais que contornavam somente os lábios e o queixo. Os olhos eram azuis intensos, brilhantes e cristalinos como as águas de Calla Rossa, em Sicília. Perdeu-se por um momento naqueles olhos.

Passeou o olhar em outra direção e encontrou os de Artevelde, escuros, a lhe observar. Só então, de fato, deu-lhe atenção. Era um homem franzino, longilíneo e com uma face comprida. Os cabelos escuros lhe caíam sobre os ombros e seu corpo estava vestido com uma elegante peça em tom azul escuro.

Ambos, de forma polida, aguardaram as palavras do anfitrião após a apresentação realizada pelo criado.



A Cidadela da Noite 0110

Conde Antoine de Lannoy


A Cidadela da Noite 0210

Jacob van Artevelde
Francesco de Anjou
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em Sex Dez 07, 2018 5:56 am
Desde que havia recebido a missiva que indicava a chegada dos visitantes, Francesco tomou todas as providências necessárias para uma boa recepção. Saiu à caça um dia antes e retornou ao castelo com um cervo adulto e dois faisões. Ordenou a limpeza do ambiente e o preparo de um banquete - nada luxuoso e excessivo como se fazia na Corte de Paris, mas adequado à importância de seus hóspedes - solicitou que os quartos fossem preparados e que fosse garantida a maior privacidade possível.  Deu ordens para que o mercado de Sisteron, que recebia parte dos produtos que chegavam em Nice, fosse organizado durante a semana: uma bela demonstração de como aquela região era ativa economicamente poderia ajudar a impressionar Artevelde. Posicionou dois navios no grande lago, de forma que ficassem emoldurados na belíssima paisagem.

Depois, descansou. Francesco era um comerciante, um banqueiro e um Duque. Mas a ele não era permitido o desleixo ou a improvisação. Tampouco ficaria sentado enquanto seus servos preparavam tudo. Ajudou a retirar a pele do cervo e a montar as barracas do mercado de Sisteron. Caminhava em meio às pessoas e, embora se sentisse formalmente diferente delas, substancialmente eram a mesma coisa. Francesco apreciava o respeito que sua posição garantia, mas retribuía com um respeito adequado à classe daqueles com os quais se relacionava. Era uma troca justa.

Adorava o mercado. Ali, estava em casa. O local era bem movimentado e cheio de mercadorias interessantes e exóticas, bem como coisas mais mundanas e locais como frango, batatas e carne. Pouco era retirado, da parte de Francesco, dos servos que viviam em suas vastas propriedades. O restante ele permitia que fosse comercializado em mercados específicos erguidos em suas terras e protegidos por seus homens.

Na noite da chegada de seus hóspedes vestiu-se bem, embora de maneira sóbria e equilibrada: indumentária completamente negra coberta por um manto de arminho azul escuro. Quando Azeglio o alertou para a chegada dos dois homens, agradeceu e desceu as escadas sem pressa, munido de seu melhor sorriso. Saudou Artevelde com um forte aperto nos punhos, mas o fez enquanto olhava de relance para o outro homem, o Conde de Hainaut. Demorou-se algum tempo com Artevelde, a perguntar sobre o andamento da viagem enquanto tinha suas mãos envolvendo as do homem. Em seguida, voltou-se para o Conde e o saudou em silêncio e com a formalidade necessária entre os homens de posição.

Que belos olhos, tinha. Na realidade, era um belo homem. Francesco sorriu cordialmente enquanto o imaginava sem roupas sob a luz da lua cheia.

- Signori. Bem vindos a Sisteron. É um grande prazer recebê-los em minha morada. Há uma ceia esperando por nós, mas entenderei se preferirem descansar primeiro.
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em Sex Dez 07, 2018 10:44 pm
Artevelde destinou um olhar de soslaio ao Conde antes de responder. O último mantinha um sorriso leve no rosto e a atenção voltada à Francesco.

- Apreciaremos vossa hospitalidade, Sua Graça. A ceia ofertada será a coroação de uma viagem esplêndida até as tuas terras.

Era magnífica a Cidadela. A construção de pedra rústica bem decorada era uma ode ao bom gosto e, por tamanho refino, à simplicidade. Havia um tom correto para cada peça, cada corredor, cada degrau da escadaria e da tapeçaria que a cobria. Era a imagem de Francesco e também a semelhança dos que antes dele vieram. No salão de jantar após as suntuosas escadarias uma mesa farta e diversa os aguardava.

A ceia transcorreu em um tom leve e agradável. Artevelde era um homem da palavra. Entrava nas vielas mais apertadas dos assuntos específicos da Provença sem dificuldades e se esbaldava ao comentar os rumos do comércio e da política. Falava também dos tipos de tecidos, das especiarias que já encontrou e dos homens de diversas terras aos quais já se dirigiu. Era um homem que colecionava vivências. Ficou claro ao Duque de Provença, desde muito cedo durante o parlamento, que o famoso comerciante era um homem astuto e eloquente. Poderia ser um perfeito cretino por essa combinação. Na Ceia, contudo, era um homem agradabilíssimo e não parecia se esforçar para tal. Era natural.

O Conde de Hainaut era um homem mais econômico em suas palavras. Não se furtava a participar de nenhum assunto mas não se prolongava além do que considerava necessário. Não se excedia e não era medíocre em suas opiniões. Para além de seus olhos, o que mais chamava a atenção de Francesco era a hipnótica postura daquele homem. Os menores movimentos eram precisos e graciosos. A voz soava no tom exato para agradar os ouvidos. Francesco intuía que aquele homem poderia possuir a mais alta etiqueta e os mais honrosos modos cabíveis e que nada sob o seu olhar sairia de controle, a não ser ele mesmo. Francesco tinha a certeza de que ele poderia ser tudo, menos inofensivo.

Aquele homem era como o mar. Havia uma calmaria a ir e vir de seu olhar e modos mas era como se a qualquer momento uma imensa e violenta onda pudesse esmagar tudo abaixo de si ou ser capaz de dragar o todo até os seus pés.

Ambos, Jacob Artevelde e Antoine de Lannoy, também não avançaram ao assunto descrito na missiva até que a farta ceia se encerrasse. Somente após degustarem das especiarias e de apreciarem o vinho com parcimônia e elegância, o Comerciante pareceu colocar as cartas na mesa.


- Vossa Graça, há uma movimentação política que afetará o comércio local e as rotas sob o teu controle de forma ampla. De igual forma, afetarão os meus assuntos e os de outrem. Há um grupo de homens, com notável influência, que estão reunindo-se para que uma coalizão pró-comércio se estabeleça durante os anos vindouros. Sobretudo se nossas suspeitas se confirmarem.

Então, o Conde continuou, após um gole adicional na taça em sua mão.

- Guerra.

Seus olhos azuis turquesa fitaram Francesco, que sentiu um calafrio estranho a lhe percorrer a nuca. Deu-lhe tempo, antes de concluir.

- O Rei Bretão e seus Lordes já se movimentam. O conflito interno entre os anglo-saxões não parece ser empecilho para que marchem sobre a coroa de Filipe de Valois. Flandres já fervilha. Homens como Sua Graça serão decisivos na balança. Viemos ouvi-lo, conhecê-lo e então apresentá-lo às nossas ideias para o que virá.

Em meio ao dito, dois termos proferidos pelo Conde de Hainaut despertaram a curiosidade do Duque dentre dos Anjou: "Rei Bretão" e "Anglo-saxões". São alcunhas antigas e caídas em desuso.
Francesco de Anjou
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em Sab Dez 08, 2018 5:49 am
Enquanto comia, escutava as histórias do mercador do Flandres. Muitas de suas experiências eram similares às de Francesco, que também havia viajado bastante, conhecido pessoas e mundos diversos e aprendido imensamente com povos diferentes do seu. Sempre apreciava a história de outros homens que atuavam no mesmo setor que ele.

Dado que o Conde de Hanaut falou por último, Francesco, por alguns segundos, dedicou toda a sua atenção àquele homem. Analisou os detalhes de seu rosto e a forma de suas palavras. De fato era um perfeito filho da nobreza europeia, com seus modos elegantes e seu aspecto curado. Os olhos, entretanto, representavam um elemento de distração para Francesco. Enquanto ouvia Antoine, se concentrava para sustentar seu olhar, mas nem sempre era simples.

Quando seus convidados expuseram a razão da visita, Francesco se empertigou na cadeira alta e ouviu com atenção. Em seguida, respondeu.

- Para mim não é inteiramente uma surpresa, Sua Graça. É provável que saibam que meus negócios alcançam regiões tão distantes quanto as Ilhas. E de fato obtenho grandes proventos com a minha atividade naquele lugar. Contudo, os movimentos de disputa que se insinuam no horizonte não são necessariamente silenciosos. A situação me preocupa.

Mordeu um pedaço da coxa de faisão e bebeu do vinho antes de continuar.

- Uma guerra entre os dois reinos pode ser uma grande oportunidade para encerrar de vez as dúvidas sobre a sucessão. Digo, as dúvidas que levantam os "bretões" - Foi propositalmente irônico - De minha parte, tais dúvidas não são relevantes. Sou fiel à Coroa e à Sua Majestade o Rei Filipe.

Bebeu um novo gole do vinho.

- Minha presença no Reino, contudo, é recente. Estou muito mais informado e capaz de intervir nas disputas de poder da minha península do que no Reino dos Francos, ao menos inicialmente. Qual o cenário que temos diante de nós? Adicionalmente, o que o senhor entende como "coalizão pró-comércio"? O nome me inspira, hahahaha. Quem são e o que desejam tais pessoas? Vejamos se tenho tanto acordo com o projeto quanto já tenho com a denominação dele.

Terminou a frase bebendo novamente um gole do vinho. A presença do Conde de Hainaut o excitava. Talvez se seu par o acompanhasse na bebida terminaria a noite menos... resistente a algumas propostas.

- Há pouco para saber sobre mim, Signor Artevelde. Sou apenas um homem que soube reconhecer as oportunidades que me foram dadas pela vida. Construí sobre as bases erguidas pelos meus antepassados, mas levei as atividades de minha família a um patamar não visto antes. Se há algo de importante a saber sobre mim é o seguinte: eu acredito e confio na troca, na integração e nos vínculos sociais. São tais forças que podem impedir conflitos. E a única atividade humana que dispõe de todas estas características, ou que as alimenta adequadamente, é o comércio.
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em Sab Dez 08, 2018 11:18 am
Enquanto o Duque de Provença falava, o Conde de Hainaut apoiava os braços sobre a mesa e o queixo sobre as mãos. Encarava-o. Media-o com o olhar. Artevelde, por sua vez, reagia às palavras com sorrisos e concordâncias em alguns dos pontos comentados, sobretudo durante a frase final.

Ao fim da resposta, Antoine de Lannoy ergueu sua taça, antes de tomar um novo gole.

- Ao promissor Duque de Provença.

Artevelde sorriu por um momento, antes de continuar.

- O senhor foi ao cerne da questão, Sua Graça. Homens como o senhor e como eu estão igualmente preocupados com o panorama que se desenha. Citarei Flandres, onde a situação já avança, para explicitar o propósito da coalizão proposta.

- O Conde Nevers, Regente de Flandres, sentou-se sobre os acordos anteriormente tratados entre a região, que é vassala da Coroa de Filipe de Valois, e a Inglaterra sob o reinado de Eduardo III. Flandres, Sua Graça, é um dos maiores produtores de tecido e possuía, até poucos meses, como principal fornecedora de lã a coroa inglesa. Nevers, em sua ânsia por demonstrar sua fidelidade a Sua Majestade, o Rei Filipe, desmontou os acordos comerciais e nos mergulhou na seguinte condição: Nobres e mercadores vêem seus negócios definharem. Seus vassalos perdem terras e a economia de Flandres e das regiões circunvizinhas se apertam, jogando o povo, a médio prazo, na miséria. Isto porque o Rei Eduardo III, inspirado por seus Barões que perderam substanciais quantias com a atuação do Regente de Flandres, encerrou o envio de lã para a região.

- O fato poderia ser isolado se não estivéssemos falando de tecido. Sabes o senhor que o vestuário e os tecidos de alta estirpe representam hoje a principal mercadoria do seio dos grandes centros. Flandres, como um importante produtor, começará a influenciar a derrocada deste mercado em toda a Europa, impactando o modo de vida de Nobres e Plebeus.

Francesco de Anjou sabia que boa parte de seus navios mercantes eram arrendados por transportadores de tecido. Artevelde continuou.

- Este é um claro exemplo da necessidade da Coalizão Pró-Comércio, que estamos tentando formalizar. Os principais negociantes e detentores de títulos nobiliárquicos envolvidos nas regiões produtoras, beneficiadoras ou transportadoras de insumos e produtos estão sendo visitados por nós com um propósito claro: estabelecer acordos para a manutenção de rotas e portos seguros para a continuidade do comércio ao longo do conflito que se desenha.

- Nós, unidos pelo ideal e pelo acordo firmado, pressionaremos as coroas a cumprirem a demanda necessária para que a Europa não mergulhe em recessão durante a disputa pelos tronos.

O Conde de Hainaut continuou.

- Atento-o para um detalhe. Respeitamos e compreendemos as nuances da guerra. Haverão ações, de ambos os lados, para que algumas regiões estratégicas sejam asfixiadas com a falta de produtos diversos. Rotas serão fechadas e alguns fortes e cidadelas serão isoladas, em cerco, na tentativa de que sua tomada seja bem sucedida por um lado ou por outro. Seria utópico e desrespeitoso para com os representantes de Deus na terra, crer que acordos comerciais isolados barrariam os decretos Reais de Filipe ou Eduardo. Não é este o ponto. O ponto é erguer um tratado, conjunto, que nos garanta opções aos decretos reais específicos. Que tenhamos poder de barganha com as coroas e não estejamos limitados à uma ação isolada, como o exemplo de Flandres e da ação do Conde Nevers.

- Integração e vínculos sociais, Sua Graça. Através do comércio e da coalização, acharemos um ponto comum entre os conflituosos para a manutenção das necessidades de cada localidade e, por consequência, de toda a Europa.

O Conde encerrou, deu-lhe tempo para elaborar e concentrou-se em sua taça. Parecia apreciar o vinho e mais ainda aquele diálogo.
Francesco de Anjou
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em Sab Dez 08, 2018 12:39 pm
Francesco ergueu a taça em retribuição.

- O agradeço, Sua Graça, mas não é uma questão de ser promissor, e sim de enxergar o lógico.

Bebeu do vinho. Em seguida, voltou suas atenções a Artevelde.

- Compreendo o anseio do Conde de Nevers de demonstrar sua lealdade à Coroa. Foi um passo apressado e com consequências desagradáveis, todavia. Tal tipo de comportamento tende a aumentar as tensões: não duvido que o Rei Eduardo considere que é fruto de uma pressão da Corte de Paris. Imagino, também, que a situação já tenha se tornado incontornável, não? Imagino que o Conde não possa - ou não queira - voltar atrás em sua decisão. Seria o ideal, mas agora as emoções e os orgulhos - os piores inimigos dos acordos - entram em cena.

Bebeu um segundo gole.

- Imagino que terão - ou teremos, a depender dos resultados desta visita - muito trabalho para reverter tal cenário.

Francesco levantou-se e convidou Artevelde e Hainaut para a sala onde recebia as visitas. Ali poderiam continuar a beber um bom vinho enquanto estavam aquecidos pelo calor da grande lareira. Sentou-se e convidou amboa a fazerem o mesmo.

- Evidente que, na medida em que o Flandres rompe com a Inglaterra, o fornecimento de tecidos pode ser substituído. Embora a matéria prima inglesa seja de qualidade, o continente dispõe, também, de excelentes produtores que podem entrar em contato com Flandres, inclusive estabelecendo novas rotas de passagem que favoreçam a França. Nós temos a vantagem estratégica, signori, nossos reinos são vizinhos e o transporte de mercadorias é muito mais barato se excuírmos as viagens náuticas. Nesse cenário o Rei Eduardo também perceberá que tem muito a perder.

Voltou-se para Hainaut.

- Quanto à guerra, Sua Graça, todos nós estamos cientes dos desdobramentos de tal evento. Sou um homem de inclinações pacíficas, mas há muito aprendi a como usar o comércio para encerrar, influenciar ou criar um conflito. Esperamos que não chegue o momento em que deverei usar tais conhecimentos. Prefiro contribuir para a paz europeia. Me agrada a ideia de um acordo que garanta tal coisa. Tenho ainda mais curiosidade para compreender como os senhores esperam "pressionar" a Coroa a aceitar tais medidas.

Recostou-se na cadeira.

- Mas enquanto aos senhores? Suas atividades e interesses, Signor Artevelde, onde residem? E quanto ao Conde de Hainaut? Me encontro em profunda desvantagem social neste momento: meus interlocutores me conhecem mas o inverso não pode ser dito.
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em Sab Dez 08, 2018 2:14 pm
Seguiram o anfitrião até a sala destinada a visitas e reuniões. Um salão oval, com dois grandes arcos a formarem janelas de onde se poderia ver a beleza do grande lago e a volúpia de Sisteron às suas margens. A lareira era de grande porte e havia já sido acesa sob a coordenação de Azeglio, o velho e capaz homem predizia que a reunião se encaminharia para o local.

E foi ela, a lareira, a única a retirar a completa atenção do Conde de Hainaut das palavras de Francesco. Ele interrompeu-se por um breve momento e a observou. Sua expressão mantinha-se impassível, embora seus azuis e cristalinos olhos ganhassem um contorno mais escuro, mais concentrado. Após uma breve pausa a observá-la, ele continuou a caminhada e sentou-se em uma das cadeiras dispostas em semi-círculo. Preferiu a mais afastada do calor proveniente da lareira.

Artevelde sentou-se na cadeira ao lado do Conde e apenas sorriu ao notar que Antoine de Lannoy tomaria  a palavra.


- Promissor, uma vez mais.

Ele sorriu e cruzou as pernas, apoiando o braço direito sobre o encosto do assento.

- Está correto quanto a situação em Flandres, é irreversível. Acerta, uma vez mais, ao apontar que a capital dos tecidos pode ser substituída e que a própria Coroa inglesa perderá com o processo. A não aceitação desta perda é o combustível final para o conflito declarado que surge no horizonte.

Inclinou o corpo para frente. Parecia maior, o Conde de Hainaut, quando sua expressão abandonou o sorriso e tornou-se concentrada.

- É preciso que eu seja o mais claro possível com Sua Graça sobre os nossos interesses que espero que se tornem também os vossos. Primeiro, não é de nosso interesse que a situação de Flandres seja resolvida pacificamente. Ela é, exatamente, a oportunidade para que as nossas ambições se concretizem. E a maior delas, Senhor Duque de Provença, é que o Comércio atue como uma força reguladora acima das demais vigentes.

Reclinou-se, recostando-se no assento e tomando uma postura um tanto professoral. Não era pedante, ainda assim. Tratava-se claramente de um homem a cercar de argumentos o seu ponto no debate.

- Nossa conjuntura política construiu e fortaleceu três grandes poderes, Sua Graça. A Realeza, o Clero e a Terra. A Terra tende a ser um terceiro incorporado aos dois primeiros como parte da afirmação de seus poderes. O Clero flutua abaixo, ao lado e por vezes acima da Realeza. Esta última é o epicentro do poder que se utiliza dos outros dois para que possa exercer o seu assim chamado Direito Divino.

- A maioria dos homens como o Senhor pertencem a dois destes poderes. Agraciado com um título nobiliárquico, por direito e nascença, dispõe do apoio do primeiro poder: a Realeza e desfruta do terceiro: a Terra para a afirmação do seu devido lugar. No entanto, Sua Graça está uma categoria acima e eu não me refiro aos Anjou. Me refiro ao Comércio.

- O Comércio é o quarto poder desta relação que atua invisível e circula por todos os outros. O Comércio é uma entidade viva e móvel. Permite a participação dos três poderes e mesmo daqueles que se vêem à margem deles. O comércio é o mais igualitário dos poderes de nossa conjuntura e a minha maior ambição é torná-lo uma força ainda mais destacada.

Ele interrompeu-se somente para apreciar mais do vinho. Deu indícios de que continuaria e assim o fez.

- A situação criada nos Flandres é a oportunidade pois levará a perdas em ambas as Coroas e, eventualmente, ao conflito. Aqui, Sua Graça, em virtude de nossa ambição nós não desejamos evitar a Guerra. É o oposto, precisamos dela. No conflito as Coroas exercerão os seus poderes sobre os vassalos, conclamando-os à luta. Títulos, honra, glória e ambições despertarão e se espalharão como os alicerces dos Barões, Condes, Marqueses e demais vassalos reais durante o conflito. Todos, sem exceção, dependerão cada vez mais do comércio.

- Do ferro, da madeira, do tecido, dos grãos e do óleo. A necessidade elevará o Comércio acima dos outros poderes quando um Barão que dispõe de 500 aldeões para as fileiras do Rei notar que seu alimento está escasso e que os homens liderados por ele estão fracos, revoltosos e desanimados por sua situação calamitosa. Consequentemente o Exército Real perde força, número e moral.

Inclinou-se para frente uma última vez. Contornando a taça com o vinho com um dos dedos da mão esquerda.

- Este conflito será decido pelo Comércio, Sua Graça, e por aqueles que o controlarem. Artevelde citou pressionar as Coroas, eu usaria um termo mais simplório: convencê-las. Se houverem tratados comerciais que garantam a fluidez do comércio, as Coroas terão o suporte financeiro necessário para a guerra que já travam, nos acalourados debates entre o Baronato de ambas.

-  Nossa coalizão já dispõe de homens relevantes em frentes fundamentais: Clero, Realeza e Terra. Agora buscamos os homens mais capazes para gerir  e forjar os acordos que virão. Neste ponto eu busquei Artevelde e agora estou diante de ti, Francesco de Anjou, Duque de Provença.
Francesco de Anjou
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em Dom Dez 09, 2018 5:53 am
Escutou as palavras enquanto bebericava do vinho. Alternava o olhar entre Artevelde e Hainaut, demorando-se um pouco mais neste último. Tentava absorver todos os detalhes do Conde, um homem que o atraia, por alguma razão, imensamente. Quando terminaram, levantou-se e apoiou-se sobre a lareira.

- Oh, eu entendo.

Voltou-se para Hainaut.

- Esperava que Sua Graça fosse, de fato, plenamente sincero sobre vossos interesses e aspirações. A guerra, Vossa Graça, é simplesmente o prosseguimento da diplomacia através de outros meios. Se a diplomacia tem falhado, se a Europa não é ainda aquilo que enxergamos e que desejamos, uma mudança de instrumentos não é necessariamente um problema. Tenho plena consciência que as transformações que desejamos ver não serão concluídas na duração de nossas vidas. É preciso começar o trabalho, entretanto.

- Minha única preocupação é que nossos esforços sejam minados por uma ação predatória das coroas. No final, signori, homens como nós sempre pagam o preço das guerra de nossos reis.

Sorriu.

- Precisamos garantir que o que ganhamos em troca dos nossos monarcas seja adequado aos nossos interesses.

Bebeu um segundo gole do vinho. Ponderou sobre o que tinha sido dito por Hainaut.

- Tenho total acordo com Vossa Graça em relação aos poderes que regem tal mundo. Nossa atividade é a única que torna possível o desenvolvimento de nossa sociedade. Mas, ao mesmo tempo em que circunda e envolve os outros poderes, frequentemente garantindo sua permanência, é contido por eles. Me explico. Certas barreiras, como aquela do acesso à terra e aos frutos do trabalho nela impedem que a nosssa produtividade aumente. Tornar o comércio uma força decisiva passa também por pensar a sua relação com os outros poderes. Minha intuição é que, ao final, precisaremos escolher.

Pousou o cálice sobre a lareira e voltou a sentar-se.

- Dito isso, deixo claro que os vossos interesses são os meus interesses. No entanto, tenho opiniões e projetos mais... profundos, se posso dizer desta forma. Não sei se é o momento de compartilhá-los, mas espero que estejam cientes de que sou um homem com convicções fortes. E tais convicções guiam minha ações. Não sou um homem de fácil convivência, Senhores, mas coloco os meus talentos e os meus recursos à disposição.

Cruzou as  pernas.

- Ou colocarei, no momento exato em que tal coalizão pareça mais palpável. Sobretudo, quando conhecerei os outros participantes, quando os senhores me apresentarem um plano de ação concreto e, sobretudo, quando tiver consciência dos custos e dos benefícios da minha atuação.

Tornou a preencher o cálice com vinho e sentou-se, desta vez, mais próximo do Conde de Hainaut.
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A Cidadela da Noite Empty Re: A Cidadela da Noite

em Dom Dez 09, 2018 3:49 pm
Antoine de Lannoy sorriu, desta vez mais abertamente. E que maravilhoso sorriso era aquele. Clareava o ambiente ainda mais que aquela lareira, transbordava o coração dos que assistiam de alegria e, em conjunção, luxúria. Artevelde, encantado, conteve-se em observar silenciosamente aquele diálogo. O Conde manteve um discreto sorriso na face ao iniciar suas próximas palavras, inclinando-se para Francesco após este sentar-se mais próximo.

- Promissor, uma terceira vez. Me basta.

Ergueu levemente a mão direita e, prontamente, Artevelde levantou-se tomando a palavra.

- Perdoem-me, Sua Graça e Vossa Senhoria, mas o cansaço da viagem se abateu mais pesado sobre mim. Devo desfrutar da hospitalidade do Duque de Provença ao repousar em um de seus aposentos. O Senhor Azeglio disse-me nos aguardar no salão quando este momento chegasse, seguirei até ele.

Aproximou-se para cumprimentar o Duque de Provença uma última vez. Sorria, maliciosamente, o comerciante Artevelde.

- Que os entendimentos se prolonguem, Sua Graça.

Deixou-os.

O Conde bebeu do vinho antes de continuar somente após a partida de seu acompanhante.

- Meu tempo de avaliação se encerrará após aprofundar-me em algumas de tuas palavras, Sua Graça. Me interessa a tua visão sobre projetos mais...profundos. Me interessa, sobretudo, que compartilhe comigo a força de tuas convicções e me auxilie a entender Francesco de Anjou.

Os olhos azuis claríssimos penetraram àqueles escuros de Francesco e o último sentiu-se arrastado em sua direção. Tornavam-se maiores e mais brilhantes. Mais belos e atraentes.

- Eu quero e preciso entendê-lo, Francesco.

Chamava-lhe pelo nome. Parecia impossível negar-lhe qualquer pedido.
Francesco de Anjou
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em Seg Dez 10, 2018 9:37 am
- Tenha um bom descanso, Senhor Artevelde.

Antes que o homem saísse, Francesco convoca Azeglio à sua presença. O quarto reservado para Artevelde era inferior somente ao de Francesco e àquele reservado para o Conde de Hainaut. Azeglio já estava informado de todos os detalhes: deveria garantir o máximo de conforto aos visitantes, incluindo água e alimentos a serem deixados nos quartos, bem como uma temperatura agradável no ambiente.

- Por gentileza, Azeglio, conduza o Senhor Artevelde aos seus aposentos.

Diante da última mensagem do homem, Francesco o dedica um sorriso.

- Não se preocupe. Intuo que se prolongarão.

Agora, sozinho na presença de Antoine, as sensações de Francesco eram dúbias. O homem o atraia intensamente, mas o debate ali não deveria se concentrar sobre este elemento. Os anseios do Conde, todavia, não eram facilmente atendidos. De fato, Francesco tinha alguma dificuldade em falar de seus planos com outras pessoas. Parte por razões de desconfiança, parte por sua própria personalidade: expansiva no genérico e introspectiva no específico. Sorriu, contudo, para o Conde antes de começar. Encheu novamente ambos os cálices de vinho.

- Eu tenho ideias pouco ortodoxas, Antoine. Assim como você eu acredito profundamente no comércio e na troca como elementos essenciais para aumentar o bem estar de nossos reinos e repúblicas. Todavia a minha intuição, tanto como homem de negócios quanto como filósofo amador, é de que as barreiras políticas à nossa visão de mundo são tão intensas, tão determinantes que o conflito, eventualmente, acontecerá.

Bebeu um gole do vinho.

- Tome por exemplo as relações entre os territórios. Sou veneziano, com orgulho, mas nunca entendi a razão de nos opormos violentamente à República de Gênova. É evidente que cada um desses locais pode se especializar na produção e comércio de um produto e, ainda que comercializem a mesma coisa, podem fazê-lo em territórios diferentes. O que é que impede tal movimento? Simplesmente os interesses de um pequeno grupo de pessoas que lucra muito mais com a divisão do que com a unificação.

- O mesmo fenômeno pode ser observado nos grandes reinos do continente: em França, cada Senhor de Terra tem poder discricionário para decidir sobre temas que, necessariamente, afetam o comércio e a expansão deste. Com centenas de polos de decisão nada é decidido, Antoine. Sua Majestade pode até se interessar em um projeto como o nosso, mas o diálogo passa por dezenas de vassalos. Isso se o instrumento é o diálogo. Sua Majestade poderia proceder ao convencimento, digamos, violento dos opositores, mas essa não é uma possibilidade agora. Não com um conflito no horizonte.

Recostou-se na cadeira. A discussão o estimulava.

- O fato, Antoine, é que existem inúmeras resistências a um modelo de sociedade não mais baseado em barreiras, mas em integração. As barreiras são a síntese do poder de alguns dos nossos comtemporâneos. É sobre isso que tenho pensado e é sobre isso que desejo atuar quando as condições forem adequadas. Como disse antes, não tenho ilusões quanto à minha própria importância: sou um homem mortal com um tempo limitado neste mundo.

Inclinou-se em direção ao Conde. Os olhos azuis lhe davam calafrios de excitação.

- Se eu tiver de escolher, Sua Graça, entre a preservação de um status quo que favorece um punhado de homens ao invés de promover uma mudança que possa envolver todos os estratos sociais, sem dúvidas, escolho a segunda opção. Ainda que eu faça parte deste punhado de homens. Tenho a impressão que o meu enfrentamento, no final das contas, se dará contra as estruturas de poder ainda vigentes. Não me entenda mal. Não espero que toda a Europa se torne uma República como Veneza. Não é de meu interesse questionar o poder real ou suas justificativas. Muito pelo contrário, tenho por objetivo reforçar tal poder, único legítimo em um Reino como este. É o excesso de autoridades que nos impede de alcançar uma real integração.
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A Cidadela da Noite Empty Re: A Cidadela da Noite

em Seg Dez 10, 2018 1:30 pm
Os cristalinos e sedutores olhos do Conde ganharam um aspecto ainda mais profundo. Vibravam em cor e brilho e se estreitavam durante as palavras do Duque de Provença. Eram belos, atrativos e claramente predatórios. Havia desejo neles.

- É o excesso de autoridades que nos impede de alcançar uma real integração.

Reproduziu sussurrante ao término do discurso do herdeiro Anjou. Levantou-se e caminhou até um dos arcos que formam as janelas da torre. Repousou ambas as mãos sobre a estrutura de pedra branca e observou os contornos de Sisteron abaixo de si, enquanto suas palavras ganhavam eco naquela sala de reuniões.


- Impressionante, Francesco. Deveras impressionante. Enxergas tanto que sequer compreende tudo o que vê. Vislumbra além de tua realidade e é exatamente por isso que preciso de ti.

Silenciou por alguns instantes. Estava de costas para o Duque, não por uma etiqueta descompassada ou por desqualificar seu interlocutor. Era o oposto. Mantinha-se de costas na tentativa - vã - de esconder sua frustração e o cenho franzido que denotava irritação. Apesar da tentativa, o ângulo permitia ao Duque de Provença notar tais expressões. O Conde continuou.

- Autoridades diversas e em profundo desacordo mergulham nossa sociedade na inércia e no caos, Francesco. Nos espremem contra suas leis retrógradas e nos restringem à colher o resto de seus reinados tolos e ultrapassados!

Francesco ouviu a pedra da janela sob a mão direita do Conde estalar. Aquela deveria estar solta ou desgastada pelo tempo e mexeu-se com o toque do homem - assim pensou. Antoine de Lannoy continuou.

- Apenas o...Comércio dispõe das características para que este quadro avance para um futuro diferente, Francesco. E apenas homens como nós estão alinhados nesta busca. Sim, devemos iniciar a aplicação de alianças que forcem as estruturas a se moverem na direção que desejamos. Será um processo lento, gradual, mas teremos sucesso se agregarmos homens como você às nossas fileiras.

Virou-se e caminhou lentamente em direção ao Duque. Quanto mais se aproximava, mais exalava uma paixão avassaladora que era quase palpável.

- A vida humana é fugaz, breve em excesso para tamanhas transformações, Francesco. Ah, se assim não fosse...

Estava próximo, de pé à frente do senhor de Sisteron. Aqueles olhos azuis turquesa agora brilhavam como nunca antes, pareciam adentrar aos de Francesco e buscar no interior dele a fagulha necessária para colocá-lo em chamas.

- Se pudéssemos assistir as transformações que agora começamos, intervir nas possíveis falhas e continuar a avançar sobre nossas ideias eternamente...

Abaixou-se, apoiando as mãos nos braços da poltrona na qual o Duque está sentado. Apenas um palmo separava as faces de ambos. Aqueles olhos agora estavam interligados, diretamente, aos de Francesco. Via através dele as ondas do mar da Sicília. Sentia o cheiro do homem à sua frente e bebia do aroma de sua ambição. Francesco sentia-se não somente atraído, mas lançado à um desejo quase incontrolável de avançar sobre o Conde.

Quase. Havia uma pequena brecha para que, com muito esforço, fizesse a escolha.


- Eu posso fazer com que veja, ouça e sinta mais do que jamais sonhou, Francesco.
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A Cidadela da Noite Empty Re: A Cidadela da Noite

em Qua Dez 12, 2018 10:15 am
- Eu agradeço a tua estima por minha pessoa, Antoine. Penso, até, que me tens mais estima do que o adequado. Ou do que mereço.

Francesco sorriu. Olhava no fundo dos olhos de seu hóspede. Sentia calafrios, ora de ansiedade, ora de excitação. Sua mente estava repleta de pensamentos pouco cristãos em relação ao Conde de Hainaut. Algumas palavras martelavam em sua mente como mantras repetitivos, mas nem um pouco entediantes: "que você sinta o que jamais sonhou sentir". As palavras eram pesadas e cheias de significado.

Francesco levantou-se, apoiando-se em Antoine. Segurou os antebraços do Conde ao fazê-lo. Não se afastou. Pôs-se de pé mantendo a proximidade quase erótica com o visitante. )Olhava-o do alto - era mais alto - mas sem nenhuma intenção de demonstrar superioridade. Pelo contrário. Francesco intuia que, no fundamental, eram iguais. Sorriu.

- Caminhe comigo, Antoine.

Conduziu o Conde pelos corredores escuros e úmidos, caminhando à frente do outro homem. Dava passos lentos, para permitir que o visitante apreciasse as particularidades de Sisteron: os longos corredores quase vazios, as escadas antigas que viram os passos de dezenas de dignatários e os muros decadentes - quando chegaram às ameias do castelo. Diante dos dois, somente o belíssimo lago e uma intensa lua cheia. Francesco estacou, encostando-se numa das muralhas. Sentia frio, mas qualquer outra coisa que sentisse naquele momento, e que não fosse uma profunda atração e nascente devoção por Antoine, era irrelevante. Francesco jamais havia se sentido assim diante de outro homem. E não foram poucos aqueles com os quais estivera em situação semelhantes.

- Penso que alcançamos um entendimento, Sua Graça. Ao menos político. Me interessa, agora, saber o que é que eu jamais sonhei.
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em Qui Dez 13, 2018 10:01 pm
- Eu lhe darei os meios para tomar o mundo em suas mãos, Francesco.

Não teve tempo de responder ou avaliar o dito. Sua visão foi ofuscada pela aproximação repentina daqueles brilhantes olhos azuis-turquesa. O homem tomou-lhe pela cintura e arrastou-lhe - com certa violência - contra o próprio corpo. Sentiu um agradável cheiro agridoce, forte e inebriante, dos lábios do Conde que estavam já recostados nos seus.

Beijou-o.

Sentiu a paixão queimar dentro de si e por um único instante desejou que aquele momento jamais tivesse fim. Somente o lago e a lua debruçavam seus curiosos olhares sobre os dois. Francesco sentiu a luxúria percorrer a sua alma e sentiu mais, muito mais. Aquele cheiro adocicado transformou-se em gosto. Um sabor jamais experimentado e absolutamente delicioso tomou o seu paladar. Sentiu o líquido espesso a escorrer por sua garganta e degustou-o como se fosse o melhor dos vinhos.

Era fascinante. Jamais havia sentido algo daquela dimensão.

Paixão, luxúria, sabor, cheiro e o toque da pele do Conde. Os pelos de seu corpo eriçaram-se imediatamente e não pôde se conter. Envolto nos braços de Antoine e ainda interligados naquele sublime beijo, chegou ao ápice do prazer. De Lannoy o segurava ainda pela cintura enquanto as bocas se afastavam e o corpo do Duque desvanecia para trás, levando o seu olhar daqueles azuis e hipnotizantes olhos em direção à lua acima de ambos. Viu as estrelas, a vastidão infinita da noite e a luz amarelada do astro noturno.

Ouviu as palavras de Antoine e antes de mergulhar na escuridão e entregar-se aos braços de morpheus, viu um broche na abotoadura do punho das vestes do Conde que ainda não tinha notado. Tratava-se de uma peça dourada com um Caduceu, um bastão com asas em suas hastes e no qual duas serpentes enroscavam-se. Havia, naquele pequeno adorno, uma inscrição.


Moderatoris


- Somos um, eu e você Francesco. Tu não falharás, eu não permito que falhes.

Nada além da escuridão.

Abria os olhos lentamente, estavam turvos. Sua visão esbranquiçada começava a ganhar forma enquanto seus ouvidos alcançavam o forte som de tambores ensurdecedores a ecoar em um compasso constante. Aquele som diminuiu enquanto seu olhar alcançava os próprios pés. Estava deitado. O som agora era quase inaudível mas se mantinha o suficiente para notar que se tratava do seu próprio coração a bater. Viu a silhueta do Conde, de pé à beirada de sua cama. Ele sorria.

- Por três noites morrerá para que possa viver a Noite Eterna.


Uma vez mais foi tomado pelo mais profundo sono que já experimentou.
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em Sex Dez 14, 2018 6:17 am
E então, sonhou.

Primeiro, com as mãos de Antoine. Lembravam aquelas de seu pai, Guillaume de Anjou. Lembravam as mãos que não se cansavam de agredí-lo quando o garoto Francesco não demonstrava o interesse esperado naquilo que Guillaume achava importante.

Sentia como se as mãos de Antoine tivessem deixado marcas em seu corpo, como se as vibrações daquele homem passeassem por sobre seu corpo. Por um breve instante, Francesco não se preocupou em ser flagrado pelos servos ou por aldeões que porventura passassem sob as ameias de Sisteron. Deixou-se envolver e carregar por Antoine, retribuiu a mão na cintura pousando suas mãos nos ombros do Conde. Não se sentia ridículo ao parecer uma donzela indefesa nos braços de um homem mais forte. Sequer pensava nas convenções sociais que o impediam de fazer o que desejava. Aquele momento pertencia somente a ele e a Antoine.

Perdido entre os mundos, entre o calor do beijo e a escuridão do sono, murmurou.

- Não me deixe. Nunca.

- Por três noites morrerá para que possa viver a Noite Eterna.

Foi o que escutou, antes de dormir profundamente.

*

As imagens passavam velozes por sua mente febril. Os verões quentes de Castella. Sentado na varanda com Alfonso diante de si. O outro comia uvas da maneira mais sensual que Francesco havia visto. Por quanto tempo Alfonso havia permanecido trancado em sua mente? O fim tinha vindo tão velozmente quanto o início. Recordava-se das estepes das Astúrias, das longas cavalgadas com Alfonso, sobrinho do Rei de Castella. Quanto tempo havia permanecido ali? Não importava. Havia aprendido muito com seus tutores, a guerra e o comércio eram seus para dispor, mas muito mais havia aprendido - sobre o amor entre dois homens - com Alfonso.

Sentia sua falta, isso agora era óbvio.

Sentiu, novamente, quando a espada atravessou o homem desconhecido. Era a sua primeira morte. O homem era um pouco mais jovem que ele. Lembrou-se do por do sol, sangrento, como se tivesse bebido do sangue que se espalhava por sobre aquela planície no sul da Ibéria. Era muçulmano, o homem. Quando ele morreu em seus braços, Francesco entendeu que não havia absolutamente nada, a despeito do que o haviam ensinado seus tutores espanhóis, de diferente entre ele, cristão, e o outro. Foi a sua primeira grande revelação.

Sentiu o interior quente e úmido da mulher que se forçou a visitar, em Veneza, numa tentativa desesperada de despertar uma masculinidade que jamais havia existido. As lágrimas quentes rolavam em sua face, estava sentado na borda da cama improvisada. A mulher o abraçava e o consolava enquanto ele tinha medo de que ela o chantageasse. Ela trouxe seu irmão para o quarto. Não havia nada que Francesco pudesse fazer. Seu coração - e seu corpo - respondia a estímulos muito precisos.

Sentia falta de Elena. Lhe havia dado uma casa e um emprego em seu banco. Tornaria a encontrá-la? Sentia frio.

As mãos de Antoine. Queria permanecer ali para sempre. Seria capaz de amá-lo como havia amado Alfonso?

Percebeu, com uma enorme surpresa, que estava morrendo. O que Antoine havia dito sobre a Eternidade?

Abriu os olhos. O Conde estava diante da cama.

- O que fizestes comigo?

Fechou os olhos.
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em Qua Dez 19, 2018 7:36 am
Imerso nas brumas de suas próprias memórias, abriu os olhos sem a certeza de quanto tempo havia se passado. Passeou-os, ainda febril, pelos seus aposentos até encontrá-lo sentado a observá-lo. Alfonso.

- Por que? Por que me deixastes?

Sentiu uma pressão descomunal no peito. Falta de ar. Sentia o suor lhe cair pela face e a visão se tornar turva.

- Por que? Por que não permaneceu ao meu lado? Por eles? Não...por tua ganância e nada mais. Tua ambição será a tua ruína.

Soluçou. Não conseguia respirar e apagou novamente. Quando despertou em um desespero profundo para encontrá-lo, para respondê-lo, sentiu sua mão ser segura e apertada. Olhou para a direita e com os olhos embaçados via Antoine a segurá-la. Suas palavras soavam com um estranho eco e a sua imagem tremulava. Francesco ouvia o próprio coração a bater acelerado e alto. Era incômodo, lhe doía os ouvidos.

- Resista, filho meu. Resista. Encontre-se no fim e enterre as vossas dúvidas. O passado o arrasta para a escuridão.

Sentiu o corpo se contrair como se estivesse sendo esmagado. Sentia mil lâminas a cortar a sua carne e lhe parecia que o seu próprio coração explodiria a qualquer momento dada a força com a qual batia em seu próprio peito.

Rápido e compassado e em seguida lento. Cessava aos poucos. Bateu três, duas e por fim uma vez. Parou.

A dor se foi e a morte o abraçou enquanto buscava conforto naqueles azuis olhos de Antoine. Não mais sonhou e nada mais sentiu. Escuridão.

O tempo lhe fugia ao controle e quando abriu os olhos fitava a lua brilhante nos céus, grande e luminosa. Não estava na cama. Estava novamente na murada decadente do castelo de Sisteron, com o belíssimo lago abaixo de seus olhos e a luz do astro branco na vastidão acima deles. Estava sentado em uma poltrona disposta de forma que pudesse ver Sisteron de cima. Foi a voz dele que o trouxe de volta.

- Eu quis que a primeira coisa que visse com eles fosse Sisteron.

As palavras o fizeram olhar para o lado e ver Antoine a sorrir.

- Com eles, os seus novos olhos.

Francesco, ainda ganhando consciência, enxergava os mínimos detalhes da Sisteron abaixo de si. Viu o suor escorrer da face de um homem a descarregar as mercadorias que chegavam de uma pequena embarcação em uma das margens do lago. Ouviu os gemidos de uma mulher ao ser acariciada. Estava próxima? Pensou tê-la ouvido de muitas ruas abaixo e ao longo de sua província. Ouviu sorrisos, lamúrias, gritos e suspiros. Ouviu Sisteron e a viu como nunca antes. Percebia os contornos que antes lhe escapavam. Os cheiros das mercadorias e o forte odor dos trabalhadores inebriava as suas narinas. Ergueu o olhar e fitou o céu estrelado e brilhante. Fascinante. Eram tantos pontos luminosos, tantos! Jamais havia  os visto daquela forma.

O céu era de um azul escuro belíssimo. Ainda assim sua beleza murchava perante o azul daqueles sobrenaturais olhos que os fitavam. Eram os novos olhos, azuis claríssimos em tom turquesa, de Francesco de Anjou.

- Viva, comigo, a Noite Eterna.

Antoine encerrou.
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em Qui Dez 20, 2018 12:04 pm
Francesco permaneceu por um longo tempo observando a lua. Parecia enorme, reluzente. O céu ao redor o encantava igualmente. Não concentrou-se nos sons e odores, mas deixou que estes o preenchessem inteiramente. O mundo lhe pareceu excessivo, repleto de informações que nunca tinha percebido antes. O que faria com elas? De onde vinham?

Não sabia se sentia frio ou calor. Abaixo dele, Sisteron se esplainava diante do lago. Francesco desejou banhar-se. Desejava muitas coisas. E então, como se para retirá-lo de um estupor, veio a memória de Alfonso.

Sentia uma tristeza imensa, uma saudade de algo que não tinha vivido. Olhou para as próprias mãos, para as marcas e para as veias sob a pele.

Não o havia abandonado. Havia deixado a Espanha a pedido de seu pai, que desejava que ele se estabelecesse na Provença. Alfonso se casaria, não haveria espaço para ele naquele novo mundo. Optou por partir. As memórias, agora, retornavam com uma força avassaladora. As azeitonas e o queijo de Castella, a brisa quente das longas noites de verão em Valladolid. Pensava nessas coisas enquanto seus sentidos continuavam a ser bombardeados. Então, a voz de Antoine. Quanto tempo havia passado? Se recordava das muralhas, do beijo, da febre. Seu coração já não batia, mas no entanto ele ainda pensava, via e escutava. O fato não o assustou, embora o silêncio dentro de si mesmo lhe causasse algum incômodo. A boca entreaberta, os olhos fixos no céu. Segurou com força os braços da poltrona antes de olhar para Antoine. Ou era Alfonso?

- Eu a vejo. E é belíssima como sempre.

Era um milagre? Sua voz saia límpida e cristalina. Ecoava em seu tórax como se não encontrasse resistência. Se falava, estava vivo. Pensou em Deus e na danação eterna. Mas somente por um segundo. Percebeu que tais pensamentos o angustiavam, que não queria se debruçar sobre a própria morte e eventual destino. Tinha medo da morte.

- Você é ainda mais belo do que era antes. - Sorriu.

Olhou no fundo dos olhos turquesa do Conde. Eram como o lago de Sisteron, como as vias inundadas de Veneza. Sentiu saudades de casa. Queria vê-la, Veneza.

- O que você fez comigo? Sinto como se estivesse morto, mas claramente não estou. Sinto que minhas veias estão cheias de vida. Você me deu algo, você está dentro de mim agora. Como um eco, um chamado.

Não esperou resposta. Levantou-se e passou a caminhar pelo quarto. Tocava os móveis e as tapeçarias, sentia-os com seu tato. Aproximou-se de uma jarra de água para beber.
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em Seg Dez 24, 2018 10:46 am
- O tempo das respostas está próximo. A tua primeira lição é a sede.

Tomou a jarra em suas mãos e a sentiu leve, muito leve. Sentia suas mãos poderosas, firmes, repletas de uma força que nunca possuiu. Levou-a até uma taça próxima e teve tempo de enxergar o seu próprio reflexo no espelho d'água da jarra. Via-se mais belo, com contornos faciais mais precisos e bem delineados. Seu cabelo estava impecável e seus olhos eram fascinantes. Eram azuis-turquesa ainda mais claros que aqueles de Antoine. Poderia passar horas a admirar a si mesmo, como Narciso o fazia.

Poderia, não fosse ela, a sede. Sua garganta estava seca ao ponto de começar a doer, sua visão apertava-se e os cheiros inundavam as suas narinas. Suor, especiarias, tecidos e...algo a mais. Sentia o aroma doce, apetitoso, talvez fosse vinho? Levou instintivamente a taça repleta de água à boca e bebeu de seu conteúdo. A sede aumentava. Toda a água do mundo seria incapaz de aplacá-la. Sentiu um aperto no peito e uma necessidade absurda de beber. Beber algo, beber tudo, beber imediatamente.


- Eu o guiarei nos próximos passos, amado filho, mas esta lição pertence somente a ti. A tua sede é a tua essência. Aprenda com ela.

A voz de Antoine soava baixa, longe e em um eco contínuo. Mal podia vê-lo. O ambiente ganhava contornos rubros, tudo se tornava de um vermelho carmesim aos seus olhos. Deixou a jarra cair e quebrar-se e desejou mergulhar no oceano e bebê-lo indefinidamente. Não! A água não lhe importava, não lhe saciava. O aroma adocicado crescia, ampliava-se. Sentia-o atrás da porta do quarto e antecipava a sua aproximação como se fosse parte de si próprio.

A porta se abriu e um jovem homem adentrou. Estava bem vestido com tecidos de fino corte, possuía uma face clara e olhos castalhos. Pertencia à nobreza, sem dúvidas. Era ainda muito jovem, não tinha sequer alcançado os vinte. Seus olhos estavam opacos, quase sem vida. Andava como um homem perdido e sem rumo, completamente em silêncio ele se aproximava de Francesco. Este último não mais via o jovem homem, enxergava apenas o seu pescoço. Ouvia o pulsar compassado e forte de seu coração, conseguia ver em detalhes a ramificação de veias no pescoço do rapaz e o líquido rubro a circular por elas. O aroma agridoce era absurdo e irresistível, vinha delas, das veias.

- À nós, somente o melhor.

Antoine mantinha-se próximo à janela, observando a cena com absoluto interesse.

- Não há culpa na sede. Somos o que somos. Estamos acima do trivial.

Era delicioso aquele aroma e quanto mais o jovem se aproximava, mais rubro o mundo lhe parecia. Sentiu as pontas afiadas de seus próprios caninos passearem sobre a sua língua. Sabia que aquela sede absurda se encerraria somente naquelas veias e no líquido que desejava intensamente naquele momento. Nada mais importava, somente a sede.
Francesco de Anjou
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em Qui Dez 27, 2018 8:10 am
Francesco se deteve, mãos firmes a apertar o mármore da mesa em que repousava o vaso. Não deu atenção ao objeto que caiu, nem ao rumor que ele provocou durante a queda: somente o jovem importava naquele momento. Acompanhou enquanto ele adentrava a sala, os passos vagos e vacilantes, os olhos fundos e meio mortos. Francesco arfava. Sentia como se houvesse um outro dentro de si, um desconhecido que o conduzia a pensamentos terríveis. Sentiu os caninos que lhe arranhavam a lingua, mas ainda não entendia o que estava acontecendo.

E, acima de tudo, a Sede. Os olhos estreitos estavam voltados ao pescoço do rapaz. Ouvia suas pulsações como se fosse tambores tribais que lhe tiravam a tranquilidade. Francesco desejava beber, e aos poucos sabia exatamente o que desejava beber. Olhou para Antoine, não como se pedisse permissão - estava em sua casa - mas como se buscasse uma última palavra de libertação, de anuência. Sua mente lhe dizia que o que desejava fazer não era correto de diversos pontos de vista. Mas tinha Sede. Oh, Deus, como tinha Sede…

Tremia quando se aproximou do rapaz. Naquele momento, Antoine pouco importava. Era uma sombra, uma presença que permitia a Francesco fazer o que desejasse, como um pai que, ao dar uma lição ao filho, esperava que ele a aplicasse com a firmeza necessária. Francesco tocou o pulso do homem. Tinha a esperança de falar com ele, seduzi-lo ou prometer-lhe alguma recompensa para que ele permitisse que o Duque de aproximasse. Tinha tais intenções, mas não as cumpriu. O cheiro era por demais inebriante, os calafrios que Francesco sentia não o deixavam em paz. Gaguejou, e a voz também lhe falhou a causa da secura na garganta.

Não suportou.

A urgência que sentia transformou-se em força e violência. As mãos se moveram, rápidas, do pulso ao pescoço do jovem. Francesco aproximou-o de si mesmo, com uma força irresistível, praticamente levantando o homem no ar com as mãos fortes. Em seguida, trouxe-o para próximo à sua boca, praticamente devorando-o, como o monstro marinho deveria devorar a Andrômeda sacrificial. Não mordeu com perícia, mas mastigou o pescoço por algumas vezes, até que o sangue jorrasse. E jorrou. Vivo, quente, rubro, pelo queixo, pescoço e roupas de Francesco. E para dentro de sua boca.

Nada, nada poderia ser comparado àquele momento. Francesco não era particularmente religioso, mas intuía que aquilo era como estar na presença divina. E então, finalmente, percebeu que havia se tornado algo diferente. Algo superior, maior e mais complexo do que tudo o que jamais havia sido.

Flutuou num espaço vazio, feito das lembraças que insisitiam em atormentá-lo há anos. Pensou em Alfonso e em sua mãe doente, no pai doente do qual não pôde se despedir. Mas nada brilhava tão intensamente quanto a cascata de Sangue na qual Francesco se banhava. Bebia do líquido, o tinha em meio às mãos, banhava-se nele. Sentiu-se em paz, como se nada devesse a ninguém. Queria mais e mais, apertava o pescoço do jovem para que o Sangue escorresse, como tamanha força que percebeu que seus olhos estavam para abandonavar o crânio. Bebeu sua vida, suas memórias e suas esperanças. Depois, quando nada mais existia ali dentro, deixou que o corpo seco caísse no tapete.

Ensanguentado, mas saciado, olhou primeiro para o corpo. Sentiu sua moralidade se insinuar, um pequeno fio de arrependimento que ameaçava dominá-lo. Ainda arfava quando olhou para Antoine, a boca entreaberta e os olhos fixos, a esperar por uma explicação.


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