Compartilhe
Ir em baixo
avatar
Admin
Mensagens : 358
Data de inscrição : 25/11/2017
Ver perfil do usuáriohttp://terturiumdigital.forumeiros.com

Escriba - Verdades da Noite

em Ter Dez 04, 2018 7:58 pm
Quem somos?

A indagação permanecerá atual até que a última das noites se levante e nos arraste ao início de nossa própria história. Isto, é claro, se o fim vier nos buscar.

A verdade nada mais é que a repetição incessante e constante das incertezas que buscam explicar o desconhecido. A verdade muda, ganha novos e variados tons como o céu turquesa que se deixa abraçar pelo laranja e envolver pelo púrpura ao fim do dia. Assim me recordo e assim desejo lembrar-me dos dias que já não vejo.

Se dois ou mais concordam, uma verdade nasce e se perpetua até que seja contestada de forma capaz por outros dois ou mais. Ao ler esta afirmação, não me tomes como um tolo. É óbvio que o pensar dos que me precederam criaram os alicerces sobre o que discorro. Temos indícios. Inúmeros, variados e indecifráveis - aos menos aptos - indícios. Escritos que datam da pedra e do aço, do cobre e do couro. Papiros que se esvaem ao mais leve toque do vento impiedoso que os atinge quando manipulados pelos Incapazes.

Ah, os Incapazes. São tantos e tão presentes. Foram eles, os Incapazes, a destruírem um número incalculável de indícios que poderiam tornar esta verdade, aquela a qual estás a ler e que se perpetuará até que outro a conteste, ainda mais verídica.

Somos Carne. Somos Ossos. Somos, mais que ambos, Sangue. Me inclino a afirmar que fomos mortais, sem exceção, desde o início.

Minha observância desse fato parte do pressuposto da mortalidade da humanidade. Me encanta a caverna platônica quanto a ignorância de nosso miúdo saber. Para que uma verdade seja cunhada a pena e tinta, marcada neste papiro para que encontre um futuro questionador em tempos vindouros, é preciso ir além da caverna mas, ao mesmo tempo, firmar os pés em seu chão de certezas das quais precisamos para continuar a caminhada.

Minha busca, a busca dos meus - dos Escribas - provém dos símbolos talhados e pintados em paredes nos desertos infindáveis às folclóricas cantigas tradicionalmente passadas adiante de forma oral nos cantos mais frios já visitados. Compilamos, confrontamos e escrevemos nossas incertezas e certezas para que outros as analisem e se debrucem sobre a verdade nelas escondidas.  

Desta forma, o primeiro pressuposto é que Deus existe.

Homem. Energia. Divindade e alegoria ao todo. Construtor e Criador. Vingativo e Destruidor. Amor incondicional e Fúria Primordial. Único ou muitos. Tudo e Nada.

Esqueça, por um breve momento destinado a debruçar-se sobre este papiro, os escritos dos apóstolos do Crucificado. Não tropece na pedra fundamental de Pedro. Atenha-se somente ao fato da existência de Deus para além da imagem típica construída a seu redor.

Isto posto, avançamos à notável criação da vida, do todo e dos mortais. Haveriam de ter início e o principal dos indícios nos leva a  Ishah - A Primeira Mulher. A Mãe de todos.

Isha, a Mãe, também passou a ser conhecida por muitos povos como Hawah, a Vida. Nossa língua aproxima o termo para Eva.

Há, em cada cultura, um nome diverso para ela. A relevância do fato é o conjunto de indícios.

Esta é uma verdade, daquelas que acima explicitei, que fazem os homens - mesmo os imortais - enterrarem suas dúvidas em descrença e ignorância. A mulher na centralidade de nossa gênese é uma blasfêmia contra toda a nossa estrutura social. Verdades, como esta, tendem a cair no esquecimento e serem engolidas por novas verdades mais convenientes.

O aqui escrito compila uma vasta pesquisa de muitas faces, muitos braços e diversos escritos. Terei a honra de me debruçar sobre a pilha de papiros que me aguarda, anonimamente, para elucidar à luz do encontrado por outros as pequenas verdades espalhadas que pintam o rico quadro de nossa existência.

Eva é o início dos nossos. Nós somos os que transcendem o fim.


avatar
Admin
Mensagens : 358
Data de inscrição : 25/11/2017
Ver perfil do usuáriohttp://terturiumdigital.forumeiros.com

Re: Escriba - Verdades da Noite

em Qua Dez 05, 2018 10:13 pm
Isha é o início.


Há desacordos e incertezas acerca de como a Noite Eterna se tornou sua morada. Não estabelecerei uma verdade vã nestes escritos, esta é uma busca que permanece, visto que Isha reside apenas no imaginário e nos indícios coletados pelos Escribas ao longo do tempo.

Quem somos? É uma pergunta ampla e de respostas dúbias. Algumas verdades, estas não tão mutáveis, podem ser escritas ainda assim.

Fomos mortais que passaram por uma transformação, sobrepujando os limites do corpo humano e alcançando a imortalidade. Contudo não somos, de forma alguma, reduzidos a humanos que não perecem ao tempo. Mudamos. Somos algo a mais. Somos Vampiros. Somos Eternos.

Chamamos a mudança de O Beijo Eterno.

Quando um Eterno, ou vampiro, decide trazer um mortal à Noite Eterna ele o faz através do seu próprio sangue.

"Por três noites morrerá para que possa viver a Noite Eterna."


Para além da inscrição no brasão dos Escribas, a frase legitima o processo pelo qual a "vítima" é imersa. Nossa observação do ato do Beijo Eterno nos permitiu elencar as condições para que ele seja bem sucedido:

O mortal precisa ingerir o sangue do Eterno para que a mudança tenha início.


O sangue do Eterno precisa ser extraído de seu corpo diretamente pelo corpo do mortal. Qualquer meio outro pelo qual o sangue circule anula o efeito da mudança.

Experimentos nos levaram a notar que taças, tecidos e qualquer material usado como veículo para que o sangue do Eterno chegue ao organismo do mortal interfere e anula o Beijo da Noite. A forma eficaz é permitir que o mortal beba do sangue Eterno diretamente de sua fonte: o corpo do vampiro. Algumas das casas estabeleceram rituais para o Beijo, outras simplificam o ato ao  lacerar sua carne e oferecer o sangue gotejante ao mortal. Os tradicionais, em especial os Oligarkas, estabeleceram o ato de talharem a própria língua mordendo-a enquanto praticam o ósculo com um mortal escolhido.

Este último é o ritus mais comum e aquele que nomeou o Beijo Eterno.

A Trinca de Noites

A primeira noite após o Beijo
Há uma discordância entre nós, Escribas, acerca deste início. O viés que mais se aproxima dos indícios aos quais tive acesso é o que aponta o sangue do Eterno a testar a compatibilidade do mortal escolhido. Este teste é, sobretudo, da alma. Do âmago. Daquilo que define o que cada mortal é em sua individualidade.

Não são poucos os relatos de mortais a perecerem após a primeira noite e jamais adentrarem à Noite Eterna. Uma profusão de sensações e emoções brotam ao longo da primeira noite. Por vezes, em sonhos. Outras vezes, o mortal delira ainda acordado.

O sangue escolhe.

Notamos que o sangue Oligarka tende a rejeitar os submissos e os medrosos e a abraçarem, com vigor, os autoritários e ousados. Eles, os que prezam por serem chamados de Primeiros Eternos, gostam de adicionar "incapazes" na sequência de rejeitados e "nobres" na lista de escolhidos.

O nosso sangue, Escriba, envolve calorosamente os ávidos pelas descobertas, os insatisfeitos e os intelectuais. Nega, com certa violência, os conformistas, os preguiçosos e os crentes ferrenhos, apegados a qualquer verdade incontestável.

O sangue Venator envolve os espíritos livres, os viajantes, os contempladores do natural e os inclinados à violência. Da mesma forma, pune aqueles engaiolados nas jaulas da sociedade humana, do repetir,  e tende a rejeitar os pacifistas incorrigíveis.

A segunda noite é de mudanças propriamente físicas. Suor excessivo, mudança no tom de pele e febre são os sintomas mais conhecidos. É uma noite de provações físicas e delírios, sonhos perturbadores com a morte vindoura.

Há entre os nossos, para o desprezo da maioria dos Oligarkas, àqueles que o Sangue desprezou na primeira noite mas que foram capazes de sobreviver até o início da segunda. Estas criaturas sofrem perda de cabelos, mudança drástica em sua massa corporal e tornam-se desfiguradas das mais variadas formas durante a segunda noite. Os chamamos de Cloacus.

De acordo com as ancestrais leis que nos regem, por sobreviverem à primeira noite quando deveriam ter perecido, eles ganham o direito de habitar a Noite Eterna. Nós, os Escriba, observamos o fato com curiosidade e estimamos algumas das habilidades que somente os Cloacus demonstraram ao longo dos séculos.

Os Oligarkas os desprezam piamente, embora sejam astutos o suficiente para tolerá-los em suas cortes como servos ou para tentar usá-los como peças descartáveis de seus joguetes. Me pego aos risos quando começo a enumerar as vezes nas quais o manipulador se viu manipulado.

Os Venator divergem. Alguns dos próximos à mim enumeram as razões pelas quais os Cloacus devem ser tratados como iguais. Outros, àqueles das terras dos filósofos, defendem a extinção das bestas ainda na segunda noite, antes que se tornem um Eterno.

A terceira noite
Envolve o ainda mortal com A Sede. A implacável e insaciável Sede que o acompanhará - se bem sucedido - pela eternidade. Há relatos de mortais que beberam todo o líquido disponível em suas adegas, lançaram-se aos riachos em desespero e perderam-se nas águas do mar.

Reitero: o sangue escolhe.

O mortal pode perecer em definitivo em qualquer uma das três necessárias noites para que, ao fim delas, morra uma única vez e desperte para a eternidade.
Voltar ao Topo
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum