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O Menestrel da Noite - Contos jamais escritos.

em Seg Dez 03, 2018 11:07 pm
Prostrado diante dela ele estava. O corpo divino deitado no chão frio, mais baixo que os bancos de madeira que também ocupavam a sagrada morada. Diante dela, o regente tornava-se pequeno em corpo e imenso em espírito.

Diante dela buscava o conselho e o caminho. A sabedoria e a paz da decisão acertada, pois sua era a palavra de Deus e a Ele deveria consultar.

O queixo do rosto afilado tocava o chão enquanto o torso mantinha o corpo deitado no chão frio, de bruços, à frente do altar. Diante da Cruz de Nosso Senhor, Filipe de Valois meditava em oração. Seu corpo era franzino, um tanto frágil. Jamais fora um homem da batalha. Seu intelecto, contudo, resvalava no saber dos pensadores de outrora e daqueles reclusos monges entregues aos escritos.

Encerrava suas preces e erguia-se lentamente, escrutinando a imagem do Crucificado Senhor como se em sua incessante busca por iluminação pudesse encontrar uma resposta na imagem. Seu coração encontrou afago na voz que se fez presente após - e somente após - o fim de suas orações.


- Vossa Alteza, compreendo que o silêncio que ecoa após tuas preces é o momento de que necessitas para a reflexão. Permita que minhas palavras o auxiliem no caminho.

O Rei sorriu fraternalmente, era um gesto comum quando na presença do Bispo Guillaume Saint-Germain. O Sábio Clérigo, que ganhou sua alcunha por ser oriundo da Abadia de mesmo nome -  Saint-Germain-des-Prés - havia se tornado um confidente e aliado do monarca francês ao longo de seu - até então - breve reinado.

O Bispo curvou-se ao Monarca que, após o devido gesto, beijou-lhe o anel episcopal. Havia ali uma troca de poderes. O Rei, escolhido por Deus, bebia da sabedoria, da influência sobre o povo e da voz do Clero. Este, por sua vez, saciava seus anseios e necessidades através do poder terreno e militar do Monarca. Era um casamento perfeito.

Filipe convidou o Bispo a sentar-se junto a ele em um dos bancos de madeira da sagrada igreja. Ambos contemplaram a imagem de Cristo, antes do diálogo se seguir.

Saint-Germain era um homem de idade avançada. Os cabelos brancos e as rugas ao redor dos olhos endossavam suas palavras. Era um homem alto, esguio, com um olhar austero que o acompanhava por todas as noites. Há alguns anos dedicou-se a penitência de jamais caminhar sob o sol ou ver a luz do dia novamente. Tornaria-se puro ao desapegar-se da vida sob a luz e o calor presenteados por Deus. Vivia na escuridão do pensar humano para que pudesse levar a luz aos seus seguidores. Era considerado por muitos - Filipe de Valois incluso - um homem à beira da santidade.


- O tempo da reflexão se encerra, Vossa Alteza. Temo que o jovem monarca daquelas terras não possua mais o tempo de que precisas para a decisão a ser tomada.

O Bispo falava e sua voz, calma e baixa, acalentava os anseios do Rei apesar de lhe conferir um senso de urgência. Logo foi respondido por Filipe, que mantinha os olhos fixos na imagem de Jesus Nosso Senhor.

- É tempo da palavra ser dita, Reverendíssimo Bispo. Temo sim que minha deliberação recaia sobre o povo com o flagelo da guerra. Não temo, contudo, o tempo das armas. Pois o povo é forte e a vitória será, por Deus, da França. Temo o sofrimento dos meus ao longo do conflito.

- Vejas, Vossa Alteza. Observe as chagas de Cristo-Rei desenhadas na Cruz diante de ti. Percebas que a dor e o flagelo recai sobre os justos nos tempos de maior necessidade. O exemplo do Pai reside na resiliência. Suportaremos, Vossa Alteza. O povo suportará e vencerá. Ao fim, carregaremos as chagas da batalha vencida com orgulho e fé.

Saint-Germain mantinha os dedos entrelaçados e o indicador da mão direita à acariciar, lentamente, a jóia que denotava sua posição clerical que ornamentava o anular de sua mão esquerda. Filipe voltou a sorrir e cruzou olhares com o seu Bispo Conselheiro. Por um breve momento, Guillaume - O santo homem que caminha na escuridão - fitou os olhos claros do monarca e endossou suas palavras com uma cautela notável.

- É a decisão acertada, Vossa Alteza, o jovem deve receber vossa hospitalidade e segurança até possuir a idade e os meios para o retorno às suas terras.

Um parco momento de silêncio se seguiu e, em seguida, Valois sorriu de forma singela ao levantar-se e beijar - uma vez mais - a joia no dedo do Bispo antes de deixar a sagrada morada.

Ao fim e diante da Cruz, foi a vez do Bispo Saint-Germain sorrir antes de caminhar e deixar na santa igreja apenas os ruídos de seus passos lentos ecoarem nas pedras frias.



Bispo Guillaume Saint-Germain - O santo homem que caminha na escuridão
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