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Excursus: Entrelinhas do Destino.

em Seg Dez 03, 2018 6:24 am
De pé, no alto da muralha branca e reluzente, Lenneth observava Midgard. Sabia que seus serviços seriam requeridos, embora a guerra não ocorresse nos territórios de influência dos Aesir. Havia Einherjar dignos em ambos os lados do conflito, e Lorde Odin tinha seus olhos atentos sobre o Reino dos Francos. Lenneth tinha desconfianças, teorias e esperanças, mas mantinha o silêncio diante das ordens do Pai de Todos. Seu coração ardia com um desejo antigo, não alcançado, ainda que ela buscasse incessantemente a realização deste há pelo menos setecentos anos.

Sem esperar mais nem um segundo, saltou e mergulhou no infinito. Bifrost e sua energia atingiram o corpo da Valkyria segundos depois e ela fechou os olhos, deixando-se carregar pela energia multicor da ponte que ligava os mundos contidos em Yggdrasil.

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Ela dormia e sonhava. Como sempre.

As vozes, em cânticos, tentavam acalmá-la. Deus a havia abandonado? Tinha certeza que não. A cela era fria e pequena, sem janelas. Não via o nascer do sol já há sete dias, segundo seus cálculos. Ver a aurora era um dos seus grandes prazeres após a batalha. Naquele momento, orava e agradecia a Deus pela vitória. Ela vencia, sempre, pois o Senhor guiava sua mão em batalha, fazendo-a atingir, com toda a Sua fúria, os hereges.

Havia feito tudo o que havia comandado o Senhor. Havia conquistado cidades e fortalezas, derrotado exércitos e libertado cativos. Sob a sua inspiração, seu povo cavalgava as planícies da França para expulsar o invasor inglês. Agora, estava reduzida a uma casca do que era, presa em uma cela úmida, em jejum voluntário. Sentia-se cada vez mais próxima do Senhor e não tinha dúvidas sobre o seu papel na Terra, mas os sonhos que tinha ocasionalmente - sonhava com um homem alto e louro, que brandia uma espada estranhamente familiar - traziam dúvidas ao seu coração. Quando tais sonhos vinham, ela rezava com ainda mais Fé, rogando ao Cristo que lhe livrasse das armadilhas do Inimigo.

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Lenneth pairava, silenciosa e fúnebre, sobre o campo de batalha. Os mortos estavam em todos os lugares. Eram ingleses e franceses, mas também mercenários irlandeses e espanhóis. Não invadiria o domínio de outros Panteões, então sentiu a Fé e a força de caráter daqueles homens. Aqueles que eram bravos e corajosos, mas com pouca vinculação com o divino eram seus objetivos principais. Quando localizou a todos eles, ergueu Arectaris. A espada brilhou, uma luz avermelhada. Em poucos segundos suas tarefas tinham sido completadas. Ponderou. Seguiu para onde seu coração ordenava que fosse, ainda que Lorde Odin não a tenha expressamente autorizado.

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Jean Totmouille assinou o documento. Tinha as feições tristes. Diante dele, com uma expressão calma e serena estava a Donzela de Orleans. Jean dispensou a prisioneira e os soldados a conduziram à cela. A fogueira estava quase pronta. Joana deixou o recinto com uma dignidade que o Rei Carlos jamais teria. Em segredo, jean Totmouille chorou pelo destino da Libertadora.

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A turba não gritava quando a fogueira foi acesa. Rapidamente o feno seco se incendiou. Reinava um silêncio sepulcral. Joana não gritava, tinha os olhos voltados para o céu escuro. Pareceu a Lenneth, por um segundo, que a mulher era capaz de vê-la. A Valkyria olhou nos olhos da Donzela de Orleans. Teve absoluta certeza de suas teorias mas não tinha certeza de que deveria intervir.

Lembrou-se do homem louro. Ergueu Arectaris.

Quando o odor de carne queimada invadiu as narinas dos observadores e enquanto as autoridades francesas observavam, sem nenhum remorso, a execução de Joana de Rouen, também chamada de Joana D'Arc, a Donzela de Orleans, Arectaris trincou e se partiu em duas no exato momento em que a vida deixou o corpo da Donzela. Lenneth imediatamente pôs-se a chorar. Não havia adiantado estar ali. Lorde Odin sabia de todas as coisas, afinal.

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O balanço do mar acordou Albert Osmund. Era um balanço calmo e cadenciado, que sugeria que estavam próximos da costa da Irlanda. Era a segunda vez que tinha o mesmo sonho durante a viagem.
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Re: Excursus: Entrelinhas do Destino.

em Seg Dez 03, 2018 6:57 am
A opulência da corte de Maomé II era inigualável, superior àquelas de todos os reinos da Terra, fossem a Leste ou a Oeste, e estava abaixo somente da Corte de Allah, Louvado Seja Seu Nome. O sultão estava satisfeito. A guerra chegaria ao fim. Seus cortesãos, homens e mulheres dependentes de sua vontade e bajuladores de sua magnânima presença estavam ao seu redor, na sala onde o sultão reinava. Observavam, boquiabertos, a vitória de Allah e de seu enviado, o Sultão de Constantinopla. A cabeça na ponta de uma lança posicionada no meio do salão era o atestado da vitória final. Em júbilo, sem que a presença da cabeça decepada incomodasse, teve início um dos maiores banquetes da história de Constantinopla.

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Ele sabia que morreria.

O sol se erguia avermelhado no horizonte. Aquele seria o dia de sua morte. Sabia, ou melhor, tinha certeza, pois assim tinha sido dito por seu Pai, Byelobog e por seu Pai, Czernobog. Tal dualidade era parte de seu caráter. Era gentil e educado com os aliados e subordinados, mas implacável com os inimigos, que não deveriam esperar de obter anistia.

Tal dualidade era presente em outros aspectos de sua vida. Apesar de ter descoberto sua filiação ainda jovem, quando de tenra idade e em cativeiro, no momento em que ocorreu a descoberta era já cristão, batizado e campeão da Igreja de Deus. Lidava bem com estes aspectos. Em segredo, erguia-se antes do exército e executava libações de vinho, para Czernabog, e de leite para Byelobog. Em seguida, dirigia-se à Igreja para seu encontro com Cristo.

Em seus últimos dias sonhava continuamente. Sonhava com o desenrolar da batalha contra o Sultão. Sonhava com a liberdade de sua terra e de seu povo. Sonhava com a Santa Madre Igreja estendendo seu poder por toda a região mas sonhava também com liberdade de culto para os camponeses e servos que, vinculados aos Antigos Caminhos, ainda cultuavam seu Pai, em suas duas formas. A Igreja traria ordem e legitimaria que ele se sentasse no Trono da Valáquia. Os Antigos Deuses garantiriam a fertilidade da terra, a saúde dos homens e a vitória na guerra. Tal aliança duraria milênios.

Sonhava, também, com aquele estranho homem ruivo que ria e cantava.

Nada daquilo aconteceria.

Voltou a pensar na morte quando estava já ajoelhado, despido de seus títulos e de sua nobreza, diante de seus captores traidores. Homens sem visão e sem objetivos, submissos moralmente e espiritualmente a um inimigo estrangeiro e ao enriquecimento a qualquer custo. Ele lamentou. Sorriu, mas lamentou. Toda a sua vida foi passada em campo de batalha, negligenciando até mesmo sua família, sua amada Elisabetta. Seus captores usavam crucifixos, assim como ele. Eram cristãos, assim como ele. Ele sabia que Deus não existia, mas compreendia a força de sua instituição. Mas não funcionaria sem ele. Não somente em razão da incompetência daqueles que desejavam usurpar seu lugar. Ele garantiria que não funcionasse.

- Tu nu arăți ca un mare rege acum, Draculea.

Cuspiram em sua face inchada a causa das agressões. Ele continuava sorrindo. Seus dentes ferozes causavam terror no coração de seus inimigos ainda que ele estivesse subjugado e indefeso. Causava tanto medo, tanto terror, que havia sido batizado como o Filho do Diabo. Filho do Dragão. Ao longo dos anos, Vlad Tepes havia se tornado Vlad Draculea.

- Eu voi trăi pentru totdeauna. - Foi a sua única e última resposta.

Os traidores não suportavam mais a existência daquele homem. Tinham medo. Medo de que ele se libertasse e matasse a todos. A noite já havia caído. Estavam no subsolo de uma taverna perdida entre as estradas da Valáquia. Os exércitos d'O Diabo estavam longe, ocupados com os turcos. Era melhor acabar com tudo ali, o mais rápido possível. Vlad sorria. Ecoaria, para sempre e por todas as gerações, no frio do sangue dos seus assassinos. Viveria para sempre, pois assim havia garantido Czernabog. Fechou os olhos. Não sentiu sequer o frio da lâmina quando esta separou sua cabeça do corpo.

Tudo estaria bem. Jamais teriam acesso à gema.

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Os sonhos não perturbavam Saavedra. Os seus eram sempre estranhos e repletos de significados e presságios. Mas sonhar com um Príncipe do Leste era totalmente novo. Se repetiria, contudo. Ao menos outras três vezes antes que ele chegasse à Ilha Esmeralda.
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Re: Excursus: Entrelinhas do Destino.

em Qua Dez 05, 2018 7:43 am
Aconteceu exatamente quando o Comandante o convidou para um jantar, no meio da travessia que o levaria a Irlanda. Por sinal, aconteceu exatamente na noite seguinte àquela que havia sonhado com o Filho do Dragão. Saavedra tinha acabado de se sentar diante de uma mesa espetacularmente bem servida, como poucas vezes havia visto. O Comandante, um homem com claras tendências homoeróticas, havia conhecido Saavedra no convés e o havia convidado. Não estavam a sós, outros passageiros de uma certa elegância também tinham comparecido. O clima era de frivolidade, interrompido somente quando o Comandante, gabando-se de suas conexões, entregou um manuscrito a um dos passageiros, insistindo que ele tocasse alguma coisa no pequeno piano que decorava sua sala pessoal.

Quando o jovem passageiro começou a tocar, com uma maestria impressionante, Saavedra não estava mais ali. A última coisa que viu foi o título da partitura,

Die Walkure - Richard Wagner.

Novamente via alguém proximo à morte. Era um homem alto, forte, com longo cabelos louros trançados e vestindo uma armadura azul escura destroçada em diversos pontos. Sua barba estava suja do sangue que havia expelido pela boca. Os olhos azuis estavam desfocados, expressavam dor, mas mantinham uma enorme serenidade diante do fim. Havia sinais de golpes contusivos que haviam amassado a proteção. Seus braços expostos estavam também feridos por lâminas. Tinha as duas mãos juntas sobre o peito e com a esquerda protegia o dedo anelar da mão direita. O local era uma clareira sob a luz da lua cheia, cercada de árvores esguias e curvadas. O chão estava coberto pelas folhas de outono.

Não durou muito tempo, esta proteção. Outras mãos separaram as suas, e o dedo que protegia foi cortado violentamente. Saavedra, então, o viu. O dedo carregava um grosso e imponente anel de safira, decorado com um belissimo diamante. Ao fundo, soava Wagner. O homem manteve o grito de dor, oriundo da mutilação, contido em seu peito. Desafiou seus agressores com um olhar decidido. Estava no chão, cercado e em minoria, mas mantinha uma dignidade e força de caráter impressionantes.

- Diga-nos, Siegfried. Diga-nos onde encontrá-la.

O homem sorria, ainda que estivesse em seus momentos finais.

- Não. Vocês precisarão esperar até que eu retorne.

Riu alto. Tinha vencido.

Saavedra retornou ao controle de si próprio quando o Comandante propôs um brinde. Os convidados o observavam, elogiando o seu grau de apreciação da música. Saavedra, na verdade, pouco tinha ouvido. Seu dedo anelar direito coçava intensamente, e a pele estava avermelhada e irritada.
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Re: Excursus: Entrelinhas do Destino.

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