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New Orleans: A Jóia do Sul

em Qui Out 25, 2018 5:08 am
"Madame Lily Devalier always asked "Where are you?" in a way that insinuated that there were only two places on earth one could be: New Orleans and somewhere ridiculous..."

- Tim Robbins.
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Re: New Orleans: A Jóia do Sul

em Qui Out 25, 2018 7:05 am
Sonhava.

A mulher tinha vindo até ele em sonho. Era alta, esguia, vestida em vermelho intenso. Tinha, na cabeça, um enorme turbante branco e dourado. Os olhos eram castanhos. Se movia com graça e beleza, ainda que se movesse pouco. Ele não conseguia discernir o cenário no qual estava, mas sentia o perfume de velas de cera de abelha, de Sangue e de ossos. Sentia o perfume de incenso e morte. Sentia, sobretudo, o cheiro da sua terra.

Ela sorria e ele sabia que aquilo era um sonho. Não obstante, era muito real. Não via a si mesmo e não podia se mover, mas era como se a sua consciência, alerta, estivesse realmente naquele lugar. E como era bela aquela mulher! Era visivelmente uma liberta. Carregava joias típicas da Terra Mãe. Seria uma rainha? Não sabia, mas se sentia bem na presença dela. Muito bem. Como se a conhecesse. Como se a amasse ou devesse amá-la.

- Você virá a mim quando tudo estiver resolvido. Quando o ciclo tiver se fechado. Você saberá como me encontrar.

Fez uma pausa. Abriu um sorriso. Um sorriso lento e cruel, cheio de dentes brancos e alinhados.

- Por agora, trucide-os.

Benedict!

Era a voz de Anna. Abriu os olhos e fitou o teto úmido da senzala. O local fedia em meio ao calor intenso do verão da Louisiana. Anna, uma escrava magra, com grandes olhos escuros e sorriso vacilante estava de pé diante dele. Tinha profundas olheiras que o fizeram intuir que ela não havia dormido naquela noite. Provavelmente havia sido visitada pelo jovem Stroessner, filho do dono da Fazenda Índigo. Era um jovem que ele não conseguia definir. Intuía, talvez erroneamente, que era um bom homem submisso às pressões de seu pai, um homem velho e doente que não conseguia mais gerir a fazenda. Albert Stroessner, o jovem, era um poeta e um escritor forçado a assumir um papel que não era o seu. Quando o homem o via, quase sentia pena. Stroessner também era profundamente ligado a Anna, um amor que jamais poderia florescer no sul dos Estados Unidos.

- É hora de levantar, Benedict.

Ainda estava escuro. Anna deixou a senzala, apressada. O dia consistia em mais do mesmo: colher e tratar o algodão da Fazenda Índigo, que seria exportado para a França, onde seria transformado em suntuosas cortinas. Ele não sabia onde ficava a França.

No coração, um peso. "Trucide-os", ecoava em sua mente.

A senzala estava vazia. Sentiu, no fundo da nuca, uma sensação estranha. Seria um dia diferente de todos os outros. Seria também para Muyaka, onde quer que ele estivesse. Levantou-se, mas notou algo estranho. Num dos cantos da senzala, um canto escuro e esquecido, havia uma Falcione. Uma espada ligeiramente curva, de lâmina larga, com um cabo dourado decorado com fitas azuis escuro. Estava ali, ao alcance de suas mãos. Parecia chamá-lo. Não demorou a notar como era particularmente parecida com o que ele imaginava que era a espada de Ogoun.

Do lado de fora o trabalho começava, sob os gritos e ameaças dos capatazes. Ele sentia cheiro de metal e de trabalho. Ogoun estava presente, sempre havia estado presente. Mas desta vez era diferente. Sentia como se seus dentes fossem feitos de aço. Sentia uma fúria que jamais havia sentido.

"Trucide-os", ainda ecoava.
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Re: New Orleans: A Jóia do Sul

em Qui Out 25, 2018 9:58 pm

"Emancipate yourselves from mental slavery"


Não mais chorava. Secaram-lhe as lágrimas ao jogá-lo na imensidão salgada das águas do mar.
Não mais sorria. Mancharam a felicidade com os gritos intermináveis de seus irmãos.
Não mais erguia o olhar esperançoso. Despedaçaram sua dignidade com açoites que atingiam sua alma.
Não mais lutava. Arrancaram-lhe a vontade e tornaram o homem nada mais que um instrumento.


Esqueceram-se, porém, que um instrumento também é vazio de compaixão e medo. Esqueceram-se que um instrumento é um meio para um fim. Esqueceram-se que aquele que nada tem a perder, nada tem a temer.

Sonhava todas as noites pois apenas nos sonhos era livre. Nas memórias cada vez mais apertadas sob os grilhões de ferro que feriam suas raízes e seus antepassados até mais que a sua pele, era verdadeiramente livre. Lembrava-se dela, de seus olhos castanhos que tornaram-se acinzentados no balanço infindável daquele porão escuro no qual foram jogados, junto à dezenas de outros, por semanas.

Emilohi, sua esposa.

Acordava aos gritos todas as noites quando o sonho traiçoeiramente o lembrava do doloroso momento no qual o corpo dela, já franzino e frágil da fome e da doença, deixou de se mover. Esta noite, contudo, o desfecho foi outro.

A viu e a tudo entendeu. Bastava.

Ao despertar sob os gritos daquele nome que lhe deram e ao qual jamais pertenceria, Abioye despertava também para a única certeza de que dispunha: Seria livre, no aiye ou no ọrun. E, antes do fim, lavaria com o sangue dos brancos o mal feito ao seu povo.

Instrumento de Ogoun, Fúria de Eṣu. Forjador do medo no coração dos opressores.

Caminhou, decidido, até a espada que revelava-se diante de si. Ajoelhou-se diante dela, tocou o chão e em seguida a própria testa. A luz da lua, ainda presente no céu que começava a clarear, passou por uma fresta do desgastado telhado da senzala e reluziu sobre as inúmeras cicatrizes em suas costas, entalhadas pelo chicote, pelo ódio e pela opressão. Havia tanto a retribuir...


- Ogoun, Ọba awọn ọba, baba, lo mi gẹgẹbi ohun-elo fun igbẹsan rẹ.
(Ogoun, Rei dos Reis, pai, usa-me como instrumento de tua vingança e tua justiça.)


Tomou a espada em suas mãos e com ela segurou as rédeas do próprio destino.

Entrou naquele sujo e marcado pela dor dormitório da senzala como um escravo, deixou-o como um homem livre.



Abioye, Filho de Ogoun.
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Re: New Orleans: A Jóia do Sul

em Sex Out 26, 2018 7:13 am
Deixou a escura senzala e quase foi cegado pela luz do sol. Acontecia sempre que deixava a escuridão em direção à luz, mas naquela manhã era diferente. Sentiu que o calor queimava sua pele, mas que, ao mesmo tempo, o confortava. Não parecia o calor do sul, difuso e distante. Era similar a estar em uma fornalha, com o calor sendo uniformemente distribuído por todo o corpo. À frente, Anna caminhava apressada em direção à plantação de índigo. Abioye suava profusamente, estava encharcado. Sentia um formigamento nos dedos e na face. Sentia dor nas gengivas, como se vários dentes estivessem nascendo ao mesmo tempo.

Olhou ao redor. Tinha a espada em mãos. Os capatazes da fazenda o viram, mas não viram a arma. De forma rude o instruíam a caminhar veloz, em direção ao infinito azul de índigo que esperava para ser colhido. Açoitavam, ocasionalmente, escravos que passavam para fazê-los andar depressa. Aqueles homens e mulheres olhavam para Abioye quando eram fustigados. Mas havia algo de diverso também em seus olhos.

Abioye sentia um dor intensa no peito e um calor no estômago. Mal conseguia engolir a saliva.

Começou a caminhar, ainda com a espada em mãos, mas em nenhum momento foi interpelado pelos capatazes. Eles simplesmente ignoravam o falcione pesado e elegante que o escravo portava. Sentiu gosto de sangue na boca, uma pressão insuportável nas têmporas. Sentiu, também, o gosto do metal. Foi quase automático ao observar o próprio reflexo no falcione: onde deveriam estar seus dentes, haviam grandes pedaços de metal distorcido. Haviam rasgado as gengivas e preenchido sua boca com o sangue espesso.

Ainda que estivesse razoavelmente tonto, pôde discernir quando os dois Stroessner, pai e filho, passaram por ele à meia distância em direção aos campos de índigo. O velho ia na frente, com seu andar claudicante, apoiado em uma caríssima bengala de madeira e prata. Era um homem baixo e encurvado, frágil, com olhar austero e violento. A boca fina e cruel se movimentava por sob o bigode branco enquanto ele parecia praguejar. Abioye pode ouvir claramente, mesmo à distância, as palavras preguiçosos, animais, bestas, irresponsáveis. Atrás do velho, o jovem Stroessner caminhava pesadamente. Abioye percebeu que o rapaz, que devia ter uns vinte e quatro anos, apertava as têmporas com as duas mãos, como se desejasse escapar das palavras de seu pai. Era um homem muito alto, com quase dois metros, com músculos bem marcados, cabelos intensamente escuros, assim como a barba. Era diverso do pai, que era particularmente alourado. O velho Stroessner se deteve, girou-se em direção ao filho e, erguendo a bengala, atingiu-o na face, reclamando que este não respondia aos seus comentários sobre os escravos. O jovem não reagiu o respondeu, mas se deteve no meio do caminho, apoiando-se em uma árvore. O velho seguiu sozinho.

Abioye permaneceu algum tempo observando o jovem Stroessner. Teve a impressão que sua pele se tornava marrom como o tronco da árvore na qual se apoiava. Ele não parecia ver Abioye.

O velho Stroessner, agora, estava já no púlpito de madeira que fora construído, uma homenagem à violência e ao castigo, diante dos campos de índigo. Sobre a base de madeira existia um pelourinho manchado de sangue seco, o símbolo da dominação dos Stroessner. O velho já tinha um chicote em mãos, e neste haviam lascas de metal amarrados às pontas. Um dos capatazes arrastava uma velha escrava, de cerca cinquenta anos, em direção ao pelourinho. Os outros tinham cessado a caminhada em direção aos campos, por ordens do velho. O jovem Stroessner vomitava com tanta força que, para não cair, havia se apoiado em um galho de árvore que havia achado no chão. O sol brilhava forte, mas a dor havia passado. Os dentes eram de metal puro. Abioye sentia Ogoun vizinho. Parecia que descia do Orun, com toda a sua fúria, para despejar sobre a Fazenda a ira justa. Mas sentia, também, um segundo Orisha que se avizinhava.
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Re: New Orleans: A Jóia do Sul

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