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Re: Províncias Imperiais - Ocidente

em Sab Jul 07, 2018 5:21 am
Aulus ouvia as vozes. As vozes que, de uma certa maneira, clamavam por Dázbov, Senhor de Ai-Pétri, já que falavam em sua língua. Mas Aulus não era mais Dázbov, embora uma infinidade de características ainda permanecessem, latentes, nele. Notadamente, a compaixão do Deus Branco o impelia a dar um fim no homem que jazia aprisionado, contudo Aulus era mais pragmático. Haviam perguntas a serem respondidas. Aulus sabia que sua movimentação por entre o Abismo não havia sido alterada por uma força externa, mas que, por alguma razão, haviam sido jogados naquele umbral. E desconfiava que a razão estaria diante dele, na figura de Appius. Ao notar que o Capadócio se preparava para realizar algo, Aulus intervém:

- Appius, por favor, espere.

Aulus se aproxima, passos cuidadosos em direção ao trono. Não observa a figura no trono, não nutre nenhum sentimento por Camilla. Nas últimas semanas, havia entendido que seu inimigo era outro e, não tendo convivido com Camilla em Roma, se recusava a julgar aquele que poderia ser o verdadeiro Imperador. Em certa maneira, resistia à ideia de destruí-lo. Aulus, ou melhor, Dázbov, não havia vivido no Império, mas as poucas histórias que havia ouvido sobre Camilla retornavam à sua mente.

Era muito difícil, sobretudo, separar os pensamentos de Dázbov daqueles de Aulus.

- Espere, Appius.

Aproximou-se do Imperador, mas manteve uma distância razoável, para não ser tocado pelo homem no trono. Seu olhar, entretanto, se dirigiu às inúmeras mãos que circundavam o corpo de Titus, movendo-se como sombras mas sem ser, necessariamente, Escuridão.

Aulus desejava conversar de igual para igual com aquelas vozes.

Concentrou-se por alguns segundos, ignorando o mundo ao redor. Antes, porém, direcionou um olhar a Appius, no qual pedia que ele tivesse paciência. Em seguida, seu corpo se desfez abruptamente em um torrente de sombras que serpenteou pelo local antes de retornar à sua posição original, diante do Imperador aprisionado. Aulus abriu sua mente, ainda que de maneira controlada e limitada, às consciências que ali se encontravam.

- Quem são vocês? O que desejam?


[Aulus Otavius usa 3 Pontos de Sangue para ativar Corpo de Sombras. Em seguida, abre sua mente utilizando Telepatia.]
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Re: Províncias Imperiais - Ocidente

em Ter Jul 10, 2018 7:50 am
Aulus Otavius experimentou o vazio. O puro e absoluto vazio.

Seu corpo tornou-se um com o Abismo e sua consciência percebeu, instantaneamente, que estavam - ele, o Capadócio e aquele cainita acorrentado -  longe demais. O Lasombra sentia em seu âmago que havia ultrapassado as camadas superficiais do vazio ao qual costuma caminhar. Havia, contra a sua vontade, mergulhado na mais profunda escuridão. Era, acima de curioso, desesperador notar que naquele local tudo parecia maior, mais denso, mais difícil.

Sentiu-se, ao mesmo tempo, invencível. Era como se todo o ambiente fizesse parte de seu corpo e o inverso se fazia sentir. Poderia mover céus e terras com aquele poder que percorria seu corpo não-vivo. Poderia esmagar montanhas e interromper o fluxo dos mares. Poderia tudo e nada. Sentia-se compelido a ficar, a esquecer tudo e a todos. Era, aquele, o seu lugar. Pertencia às sombras e a elas dominava. Sentia-se mais vivo do que quando caminhar ao sol era possível.

Appius imergia em seus pensamentos. Na dor do existir e carregar o peso das decisões difíceis apresentadas noite após noite. Doía, ter que ser ele a encerrar a existência do Imperador. Doía ainda mais, lembrar-se que havia feito o mesmo com o seu próprio Criador.

Sentiu seu corpo pesar, as ideias e decisões flutuarem incertas e a dúvida pairar sobre si. Sentiu o peso do mundo e a certeza de que não poderia carregá-lo.

Ambos abriram suas mentes, tentando controlar seus impulsos, para prescrutar a superficialidade do pensar daquele cainita acorrentado. Nada mais viram ou ouviram naquele lugar.

Aulus Otavius estava de pé sobre a montanha gelada de Ai-Petri. O Vento gelado soprava violento contra suas vestes brancas. Notou, ao olhar seus braços, a pele alva lhe cobrir. Sentiu-se o Deus daquele lugar. Sentiu-se Dázbov.

À sua frente estava uma caverna, escura e profunda, com a entrada  iluminada parcamente pela luz lúgubre das estrelas acima de sua cabeça. Dela, da caverna, um homem caminhou em sua direção. Possuía cabelos longos que lhe caíam sobre os ombros, escuros como  a noite. A barba era cerrada, porém curta, também escura e sem quaisquer falhas. O nariz adunco, quebrado acima de sua metade, contrastava com as sobrancelhas grossas e os olhos dourados que lhe fitavam. Era magro e esguio, usava nada mais que um manto escuro. Tão escuro que parecia ser feito do abismo. Sua boca não moveu-se, mas sua mente debruçou-se sobre a de Aulus - Não. Dázbov - com uma voz pacífica e bela.


"Porque sobes a Montanha, Mortal?"

Appius abriu os olhos e à sua frente estava um homem senil. Cabelos e barba brancos, pele frágil e corpo franzino. O manto púrpura que o cobria parecia desgastado pelo tempo. Diante de si estava Dionysius, seu Criador. Seu Pai.

Estavam sentados em um átrio da vila do antigo capadócio. Era uma daquelas infindáveis noites de aprendizado. Prazerosas e breves quando Dionysius deliberava sobre os mortos e entendiante e prolongadas quando o assunto era a política da Capital. Esta noite, tratava-se do segundo assunto.


- Addemar virá até nós na próxima noite, Appius. O Senador é um tanto quanto...peculiar, como os de sua família costumam ser. É ele, e jamais te esqueças disso, o mais velho a ocupar uma cadeira no Senado nestas noites. Costumo ouví-lo e a seus sermões pois há uma sabedoria que emana naturalmente daquele cainita. Uma que, conforme ele fala, parece não pertencer somente a ele.

- Quero que estejas presente e observes. O assunto será delicado e a tua percepção me interessa particularmente neste momento. Talvez tenhamos que cometer atrocidades em noites próximas. Atrocidades para com nossos conceitos e crenças e atrocidades para com os nossos amados.  Serás tu capaz de fazer o necessário quando o momento chegar?
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Re: Províncias Imperiais - Ocidente

em Ter Jul 10, 2018 10:17 am
Aulus fechou os olhos. Recuou, em direção aos recônditos da mente do cainita. Em seu lugar, emergia Dázbov, Senhor de AI-Pétri, Deus Branco da Montanha. Mas, a visão de Borghav, o fez tremer. Não era Cassimir, fugindo da fome e da morte? Indo ao encontro de um Deus que não conhecia, mas que era a sua única esperança? Não era Aulus, que havia abandonado Appius e o Imperador em um local desconhecido? Sua cabeça doía, suas mãos tremiam. Ianka surgiu em sua mente, sua irmã mais nova. Corria pelos campos, aos pés das montanhas infinitas, quando era primavera. Ianka fora a primeira a morrer de fome, Cassimir sepultou seu corpo aos pés do Narodnaja. Jurou que o mesmo não aconteceria com os outros. Não cumpriu a promessa.

Dázbov não se recordava de Ianka, mas amava os mortais de Ai-Pétri como se fossem sua família. Aulus amava alguma coisa? Era somente um simulacro que possibilitava o cumprimento do dever. Aulus amava os três tronos e o Clã Lasombra. Como doía, sua cabeça. Ajoelhou-se, ignorando a pergunta do homem diante de si, que era Borghav mas era também Dázbov.

Chorou.

Lágrimas rubras mancharam a neve branca de Ai-Pétri. Gotas cada vez mais frequentes, espessas, quentes.

Quem era?

Sua existência era definida pela busca de si mesmo. Mas isso parecia não bastar. Se perdeu em devaneios e lembranças de um mundo que não mais existia, que tinha sido engolido pela Fome, pelo Dever ou pela Corrupção. Cassimir, Dázbov, Aulus. Três espíritos que haviam perdido tudo. Onde um começava e outro terminava? Impossível dizer.

Levantou-se e olhou o homem à sua frente. Sentia-se vazio. Lentamente, recobrou o autocontrole, e recordou-se a razão, ou razões, de estar ali.

- Eu subo a Montanha pois tenho frio, fome e sede, e não tenho esperanças. Eu subo a montanha em busca da bênção do Deus de Ai-Pétri, pois tenho medo da morte e, ainda que sofrendo-a possa encontrar meus entes queridos, não a desejo e luto contra ela. Subo a montanha em busca da Sabedoria do Senhor da Escuridão, que combate a guerra e faz com que a terra continue a fortalecer as sementes.

Deu um passo a frente. Sua voz mudara. Se tornara mais imponente.

- Subo a Montanha pois subo a mim mesmo, um degrau a cada vez, uma escarpa após a outra. Subo pois os que não sobem necessitam de minha proteção. Subo a Montanha pois do alto vejo o inimigo e vejo o meu dever. Subo pois este é o meu lugar. Eu sou a Montanha.

Olhou profundamente nos olhos de Borghav, que não existia em nenhum lugar, a não ser dentro de si mesmo.

- Subo a Montanha, mas a subo contra a minha vontade. Não é o local onde queria estar, mas o local onde devo estar. Então, responda-me. Porque subo a Montanha, transpondo degraus de pura inexistência, nesta hora mais escura?

O cainita estava em paz. Olhou para o céu, admirando os flocos de neve que bailavam suspensos no ar. Na Primavera, Ianka corria pelos campos e seu Pai assava um delicioso veado das montanhas. No Inverno, seu nome ecoava entre as hostes romanas, levando o terror ao coração do inimigo. No Outono, marchava pelos campos recém molhados e passeava por uma Roma que jamais havia visto. Mas agora era Verão, o sol despontava alto no céu. A Montanha se iluminava de luz e de esperança no futuro, as árvores sorriam ao som do vento do sul. Ianka sorria. O cainita estava em paz.
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Re: Províncias Imperiais - Ocidente

em Qua Jul 11, 2018 12:55 am
Aulus respondera e o homem à sua frente começara a respondê-lo. Subitamente, sentiu a escuridão preenchê-lo e sua consciência se desprender de seu corpo. Não habitava mais a carne, não caminhava mais nas sombras. Pairava, sobre os céus, como um espectador diante de um macabro espetáculo.

Appius ouviu o questionamento e, incerto de sua condição ou localização, preparava-se para responder quando o ambiente, Dionysius e mesmo seu próprio corpo se desfizeram em uma torrente de sombras incontroláveis. Perdeu-se na escuridão onde nada enxergava e nada sentia.



Ambos - Aulus e Appius despertam. Suas cabeças doem, forte e compassadamente como se um martelo as atingissem. De seus olhos verte sangue, a dispor de suas vontades. Ao seu entorno, Salianna, Damek e Gayal estão caídos e desprovidos de consciência.
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Re: Províncias Imperiais - Ocidente

em Qui Jul 12, 2018 5:02 am
*Appius se controla ao pedido de Aulus, evitando puxar o fio derradeiro da mente de Camilla. A revelação que tem, porém, é mais assustadora. Por que aquela noite, novamente? E porque a via ao perscrutar a mente do Imperador? Ele se encontrava em pé ao lado de si próprio, quando ouvia a pergunta do sábio Dionysius, e viu seu eu mais jovem responder com simplicidade.*

-Eu não sei.

*Como era diferente aquele Appius! A mente era mais límpida, sem sombras de dúvida, com mais foco e mais paixão. Era a única explicação para uma resposta tão... correta. Não havia peso em sua consciência, ou fantasmas em seu passado. O futuro era incerto, e ele tinha plena consciência daquilo. E agora via a si próprio, o Appius de "hoje, se dirigindo ao mentor.*

-Você já tinha tudo planejado, não, Dionysius? Me atreveria a dizer que Jesus o Cristo poderia ter se inspirado em você, pois naquela noite já havia visto seu fim. E tudo para me proteger. Lhe agradeci da pior das formas, mas espero que em algum lugar ainda saiba o quanto sou grato, profundamente.

*Dionysius apenas olhou para ele. Como em um sonho, ele podia vê-lo e ouví-lo, e Appius teria enfim o tão ambicionado perdão de seu mestre. Tudo estava bem.*

*Mas quando o Senador abre a boca, sua imagem se distorce e todo o mundo rui à sua volta. E o que era tudo aquilo? Capadoccius, o primeiro e mais sábio crucificado como Cristo? Appius andando como um igual entre Japhet, Caias Koine e Constância? E tantos membros, apenas para tamanha morte? Seria essa sua sina, de passar a eternidade com as mãos sujas do sangue de sua própria família? E o final? Um morto com roupas que nunca havia imaginado, um nome que sabia e não sabia qual era, uma luz que queimava como mil velas que não afetavam a Besta e... Barão? Servo, soldado, a palavra parecia uma mistura de latim com gaulês, mas ele não conseguia extrair sentido de nada.*

*E quando tudo acaba, se vê de volta na Tessalônica. Seus olhos sanguinolentos encontram os de Aulus, e a expressão de Appius era a de puro horror. O que poderia ter feito de diferente? O choque e medo eram tamanhos que não conseguia falar.*
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Re: Províncias Imperiais - Ocidente

em Qui Jul 12, 2018 11:53 am
O cainita tremia.

Encarou os olhos aterrorizados de Appius. Os seus não esboçavam terror, mas seu corpo sim. Tremia, incontrolavelmente. Tateou o ar, sem desviar o olhar co Capadócio. Encontrou uma poltrona. Sentou-se.

Levantou-se.

Olhou para baixo. Viu Appius atrás de si, mas não viu a si mesmo.

Quem eram aquelas pessoas? Tentava raciocinar, pesquisar em sua mente o nome de membros conhecidos do seu clã. Não encontrou nada.

Quem era aquele que sofria em uma cela imunda? E, mais importante, quando sofria?

Sentou-se.

Quem era ele, afinal? O que seria?

Tinha poucas respostas e muitas perguntas. Inconscientemente, buscou a mão de Appius, seu companheiro de viagem. Suava Vitae.

Tinha medo.

Sem dúvidas, tudo o que havia visto dizia respeito ao Clã Lasombra. Era aquela uma revolta? Haveria uma Guerra Civil entre os Magistrados?

Sentiu vontade de vomitar. Era Cassimir.

Onde era Nova Iorque? Queria conhecer Nova Iorque.

Respirou fundo, forçando os pulmões. Nenhuma conclusão era razoável em seu cérebro morto.


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Re: Províncias Imperiais - Ocidente

em Sab Jul 14, 2018 12:18 am
Incertezas e medo pairavam no átrio da antiga morada de Canatos.

As mentes de Aulus e Appius recompunham-se quando as sombras aglomeraram-se em um dos cantos daquele salão de mármore, dando a impressão de que todo o restante havia clareado. O Lasombra reconhecia o emprego das habilidades de sua família.

Da escuridão  formada nas paredes, um corpo alto e esbelto se fez notar. As trevas mescladas à sua carne e deslizaram rumo a seus olhos lentamente revelando sua aparência.

Longos cabelos negros e escorridos lhe caíam sobre os ombros e as costas. Nenhum fio parecia fora do lugar. Os olhos eram azuis cristalinos, muito claros a ponto de parecerem esbranquiçados sob a baixa luz do ambiente gerada por sua presença. Haviam marcas escuras, como sombras, em seus olhos e lábios. Eram uma espécie de contorno que lembrava as pinturas faciais que as mulheres se utilizavam em eventos sociais romanos. Era uma figura masculina, embora os traços finos o tornassem um tanto andrógeno. Suas vestes eram escuras, mórbidas até, rica em detalhes e, dessa vez, diversa daquelas comumente utilizadas em Roma.

Quando falou, Aulus reconheceu de imediato a mais branda das vozes que lhe falava no Castelo das Sombras.


- Não há tempo. Torna-se cada vez mais inseguro percorrer os caminhos do abismo. Tomes a minha mão Dázbov e estenda a vossa aos seus aliados.



Última edição por Storyteller em Sab Jul 14, 2018 7:40 pm, editado 1 vez(es)
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Re: Províncias Imperiais - Ocidente

em Sab Jul 14, 2018 11:37 am
Diante da manifestação Aulus se colocou, prontamente, em estado de alerta. Sabia que algo acontecia, algo que questionava seu controle sobre a Escuridão e que, portanto, deveria estar pronto para tudo. Não se curvou perante ao visitante pois não o conhecia mas, ao ouvir sua voz, sentiu um súbito conforto. Ainda que permeado por uma sensação de urgência crescente. Diante das palavras, aquiesceu rapidamente, antes de voltar-se para Appius, estendendo a mão direita.

- Este homem é um meu aliado, Appius Galerius. Podes escolher seguir conosco ou permanecer aqui. Caso decida por vir, recolha entre os seus aqueles que te são queridos e indispensáveis.

Aulus seguiu em direção ao cainita, ainda que com um leve receio, pois mesmo a Escuridão era suspeita nestes tempos de guerra. Tomou a mão do visitante, mantendo a mão estendida para Appius. Seu coração e mente ainda não havia se recuperado das visões, mas não tinha tempo, agora, para pensar sobre elas, para dissecá-las.
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Re: Províncias Imperiais - Ocidente

em Dom Jul 15, 2018 11:26 am
*Appius ainda estava visivelmente abalado. Viu o recém-chegado, e entendeu, de súbito, que nada mais seria o mesmo, e sabia que este mesmo fenômeno havia sido responsável pelo que quer que houvesse acontecido na jornada com Aulus. Se lembrava de repente dos olhos amarelo-esverdeados, e de tudo que seguira. Ele toma a mão do Lasombra quando este a estende e tenta por seus pensamentos em ordem.*

-Seleucas... Mas não posso fazer isso com ele. O pobre diabo terá seus próprios pesadelos para resolver, eu imagino, e prefiro não lhe impor mais este fardo.

-E Aulus... Sei que o tempo urge, mas após esta viagem, precisamos conversar. Sobre... não sei explicar sobre o que, mas precisamos conversar.
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Re: Províncias Imperiais - Ocidente

em Dom Jul 15, 2018 2:48 pm
Os olhos daquele que os falava enegreceu. Seus cabelos, antes imóveis sobre seu corpo, esvoaçaram e mesclaram-se às sombras a seu redor. Parecia maior, mais imponente e, acima de tudo, urgente. Sua presença antes estranha e delicada, andrógena, tornou-se terrível aos olhos de Appius e fascinante naqueles escuros olhos de Aulus. Diante deles, a escuridão moldava-se e crescia em perfeita harmonia com aquele corpo longilíneo. Aulus teve absoluta certeza de que à sua frente estava a figura sombria do Trono da Direita. As sombras lhe davam toda a razão de que necessitava.

Salianna e Damek erguiam-se do chão. A primeira vislumbrou aquela cena e seus esverdeados olhos tornaram-se negros como a noite, derramou uma lágrima rubra e avançou a passos decididos em direção a figura sombria. Sua voz embargada se fez ouvir.


- Pai!

A figura manteve-se impassiva, visívelmente possuía imensa dificuldade em manter as sombras esguias e profundas sob seu controle. Havia, ainda sim, reconhecido sua cria.

- É um tempo de Sacrifícios, Cannatos, meu filho. Permaneça a meu lado.

Calou-se e as sombras tomaram o teto do Átrio. Debatiam-se, como se ali não quisessem estar. A sua voz ecoou, uma vez mais.

- Não me fiz claro os suficiente, Dázbov de Ai-Petri e Aulus Otavius de Roma, diga-me os nomes dos teus aliados na dura batalha que virá e a localização aproximada destes. Esta será a última viagem possível pelos caminhos do Abismo. É este o decreto do Rei das Trevas.
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Re: Províncias Imperiais - Ocidente

em Dom Jul 15, 2018 3:25 pm
Aulus não questionou. Sequer pensou no que poderia estar acontecendo. Confiava em absoluto nos Três Tronos dos Lasombra e, se fosse da vontade do Rei da Escuridão que seus filhos não mais viajassem através do Absimo, assim seria.

Aulus deixou-se guiar pelo seu superior, informando a localização transmitida por Qaphsiel quando tentou até ele viajar e, em seguida, as terras escuras e lamacentas onde havia encontrado Odoacro e seus seguidores ferozes. Aulus, porém, não considerava Damek um aliado. Desconfiava intensamente das motivações do Demônio.

Sem opor resistência, entregou seu destino e o dos seus companheiros ao emissário do Clã Lasombra.
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Re: Províncias Imperiais - Ocidente

em Dom Jul 15, 2018 8:46 pm
Descontrole.

As trevas dançaram acima de si descontroladas, dispersas. Pareciam revoltar-se contra aquele que as comandava. Aulus, Appius e Salianna foram envoltos em um turbilhão de escuridão que descendia do teto daquele átrio.

Sentiram-se abraçados pelo viscoso e frio escuro que os envolvia. Aulus notou que tudo parecia diferente.

Na escuridão absoluta do abismo, seus olhos prescrutavam faces distorcidas forçando passagem por entre as sombras. As vozes que eram ecos perdidos e quase inaudíveis gritavam em seus ouvidos. O idioma, porém, lhe era desconhecido. Appius sentiu a agonia de ser arrastado, como se suas pernas estivessem presas a uma biga puxada por alazões em alta velocidade. Mesmo Salianna - Cannatos - sangue do sangue daquele evocador das sombras, jazia em agonia buscando compreender o que as vozes que a perturbavam queriam lhe dizer.

O abismo espremia-os, apertava-os violentamente como se não os permitisse deixar aquele local. Ainda assim, em um esforço descomunal, o homem longilíneo rasgou os próprios pulsos e fez verter seu sangue mesclando-o aos tentáculos que desprendiam-se de seu corpo.

E então, subitamente, foram dragados para o nada.

Brotaram em uma terra ressequida, desértica. Seus corpos ainda interligados aos inúmeros braços escuros e pegajosos que se prolongavam daquele cainita sombrio. Estavam em um pátio arenoso e logo suas bestas encolheram-se vislumbrando as labaredas longíquas que consumiam o segundo andar de uma construção de pedra. Estavam abaixo, no solo, onde dezenas de homens - legionários romanos e aparentes viajantes com vestes esvoaçantes e turbantes - se misturavam em sangue, dor e morte. Era o palco de uma batalha.

Os olhos fitaram o horizonte e Aulus reconheceu Qaphsiel prontamente, e, mais adiante Arhmad. Para além deles, surpreendeu-se ao vislumbrar aquele homem que foi capaz de subir o Ai-Petri tanto tempo atrás. Aquele soldado, o último sobrevivente de seu destacamento que ousou atacar as terras do norte. O General Lucius Aellius Sejanus. Parecia ainda mais altivo. Seu olhar, contudo, permanecia desafiador.

Ao lado deles havia um outro romano que escapava ao conhecimento de Aulus, mas não ao de Appius. O filho de Dionysius já o tinha visto antes na Capital e, como não saberia quem ele era?

Cabelos cortados ao estilo militar dos Legionários, armadura prateada bem lustrada, tecido carmesim sobre o ombro e os olhos azuis cristalinos. A presença emanava autoridade, embora houvesse urgência em seus modos. Ali, junto aos demais, estava o Senador Marcus Verus, o Filho do Deus das Ilhas da Britania.

Nada foi dito, os braços obscuros projetaram-se envolvendo Qaphsiel, Arhmad e Sejanus. Verus, em um último instante, os fez ouvir embora seus olhos fitassem Qaphsiel.


- Mithras irá ao vosso encontro nas noites que se seguirão. A partir de agora, somos todos rebeldes.


As trevas engoliram a todos, subitamente e a cada vez a agonia era maior. As vozes cresciam, as faces tornavam-se figuras a quase romper a fina camada de escuridão que os separava deste lado do Abismo e do que quer que esteja além. Era frio, muito frio. Seus corpos mortos tremiam como se mortais ainda fossem.

Viram-se em uma clareia. A terra era molhada, havia chovido. Notaram que sob seus pés a água escorria rubra. Corpos, centenas, talvez milhares, amontoados sobre o horizonte até o limite de suas visões.

Viram centenas de Romanos a marcharem contra um só homem. Alto, corpulento, cabelos e barbas loiras terminadas em longas tranças. Urrava como um animal selvagem e dilacerava os inimigos com as mãos nuas, terminadas em longas garras. Estava só, mas avançava sob os golpes dos gládios inimigos e arrancava membros, espalhava vísceras e dividia corpos em dois. Era um imenso e brutal predador.

Qaphsiel e Aulus logo reconheceram O Rei Odoacro e sua selvageria a avançar, sozinho, contra a horda romana. Não houve tempo.

De um dos destacamentos, um homem caminhou e tomou a frente da batalha. Era negro, alto, com braços delineados e olhos castanhos em tom de fogo. Trajava uma distinta armadura prateada, reluzente, contudo diferente daquelas usadas pelos soldados de Roma. O Rei avançou e antes que o alcançasse seu corpo avermelhou-se, enegreceu-se e se contorceu.  O fogo o consumiu, veloz e impiedoso. O Rei gritava em agonia e as nuvens do céu escuro abriam-se perante a sua dor.

Antes do fim, sentiram o abraço frio dos tentáculos os envolverem sob o olhar do cainita que os evocava. Sua voz, tremula, como se debilitado pelo uso daquela habilidade estivesse, sentenciou.


- Não há tempo.

Sentiram o solo os arrastarem para dentro, mas não havia areia. A escuridão os engoliu uma vez mais.


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Re: Províncias Imperiais - Ocidente

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