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Atenas: A Casa dos Deuses

em Qui Set 13, 2018 7:30 am
Faltavam palavras a qualquer um para descrever a experiência de pisar em solo ateniense. Era bela. Era harmônica. Era organizada. Era, acima de tudo, o único local da Terra em que todos os homens eram iguais, em deveres e direitos. Erguia-se imponente no centro da Ática, região mais importante da Hélade. Voltava-se em direção à Pérsia, sua suserana nominal, mas jamais de fato. Atenas jamais havia se curvado e jamais se curvaria a tiranos. Aqueles que tentaram, internamente, eram ostracizados. Aqueles que tentaram externamente poderiam até ser bem sucedidos durante um tempo, mas somente até o momento em que o povo ateniense, ciente de sua liberdade e de seus valores, se libertasse novamente.

Atenas havia sido, desde o início, uma criação de Amon. Mas, mesmo assim, por vezes a criatura foge à influência do Criador. E então, nas ruas estreitas mas limpas de Atenas, floresceu a Escravidão. Em princípio tratava-se de um fenômeno de baixa intensidade, mas que aumentou enormemente com o passar dos anos e com o continuar da expansão ateniense em regiões como a Ásia Menor, Norte da África e Magna Grécia. Haviam leis para o tratamento destas pessoas que, muitas vezes, tinham melhores condições de vida do que quando eram homens e mulheres livres. A guerra levava à Escravidão. As dívidas levavam à Escravidão. E a Escravidão alimentava a grandeza democrática ateniense, em um paradoxo que era visível aos olhos de poucos.

Amon havia visto o declínio dos reis de Atenas, fomentando a Democracia com suas próprias palavras. Não era uma obra perfeita e acabada, mas era melhor, muito melhor do que qualquer coisa que seus primos tivessem criado. Havia possibilitado que aquela vila fundada pelo Filho de Ilyias se tornasse a maior potência marítima do Egeu e do Mar Interno. Dominavam o comércio como haviam feito antes os Fenícios comandados por Troile. Dominavam as artes, a ciência, a filosofia, a lógica e a matemática. Ali floresciam grandes mentes que eram postas a serviço da cidade que, sob esta influência, cresceu enormemente. Em Atenas se cultuavam todos os deuses da região e, também, nenhum deles. Se cultuavam deuses estrangeiros desconhecidos, antepassados, espíritos. Eram um povo imensamente crente, vendo em augúrios e voos de pássaros constantes chamados à Guerra e à Grandeza.

Não obstante todas as contradições, Atenas era, no fim, o lar de Amon. E ele protegeria seu lar.

O planalto antigo, de onde ele havia visto crescer a cidade, agora era ocupado por um templo que vigiava a abençoava a cidade. Os atenienses haviam começado com um pequeno projeto, e os templos construídos eram derrubados e refeitos ao longo dos séculos, refletindo o crescimento do poder de Atenas. O mais novo projeto, ainda não iniciado, era a de uma estrutura que seria chamada de Partenon, que seria erguido em homenagem à Atena e seria o maior e mais belo templo do mundo. Uma ode à grandiosidade e beleza feito para durar pela eternidade.

Se assim permitisse a Guerra. Pois Amon, ciente das ambições de seus parentes, sentia no ar o gosto do metal. Mas Atena, afinal, era também a Deusa da Guerra em seu caráter justo, sintetizada em Pallas Atena. Haveriam de vencer, se chegassem ao conflito.

Numa das noites em que observava as luzes da cidade, Amon teve a sensação de que um cainita se aproximava. Uma cainita. Uma presença conhecida, pois Amon já a havia encontrado ao menos duas vezes. Era incrível como ela o fazia recordar-se de Arikel. No entanto, não era ela. Era a soberana de Micenas, Helena, dita Rainha de Troia, que subia o monte enquanto solicitava, mentalmente, uma audiência com o Espírito do Tempo.
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Re: Atenas: A Casa dos Deuses

em Ter Set 18, 2018 8:25 am
Amon, quando em vida, nunca havia valorizado o nascer do Sol e agora, centenas de anos após a sua transformação, percebia como sentia a falta daquele fenômeno. Enquanto o astro dispontava no horizonte, ele observava os raios luminosos dissipando a névoa que cobria a cidade, que há muito, já estava acordada.

Os pescadores já voltavam do mar, carregando o fruto de uma madrugada intensa de trabalho. Cestas enormes, repletas de peixes, eram carregadas por dois ou até três homens. Estes homens passavam por Amon, como se ali ele não estivesse.

Durante todo o dia, ele caminhou entre os mortais, observando seus afazeres cotidianos, alheios a sua presença. Na verdade, não tão alheios assim. Os mortais o homenageavam, assim como o faziam a outros deuses e espíritos. E apesar de toda a devoção e crença, os atenienses eram um povo evoluído, para a felicidade de Amon.

Sob o céu estrelado e sob a luz da lua cheia, Amon encontrou o espírito que criara, um espírito que servia como guardião e vigilante de seu povo e de suas fronteiras. Assim que o espírito desvanecia, entregando toda a informação colhida durante o período que caminhou pela cidade, Amon sentiu a presença fascinante de Helena.

Sorriu, ao lembrar de Arikel, a quem acreditava dever muito, por ter protegido sua cidade enquanto estava em torpor. Ao sentir sua consciência sendo consultada pela cainita, ele permitiu que a mesma fosse ao seu encontro. Amon a observava enquanto ela subia o monte em sua direção.


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Re: Atenas: A Casa dos Deuses

em Qua Set 19, 2018 6:18 am
Helena caminhava lentamente, mas sem dificuldades. Ocasionalmente, se detinha no caminho para observar o panorama que se descortinava diante de seus olhos. Amon não conseguia discernir detalhes de sua aparência, ao menos enquanto ela não se encontrava razoavelmente perto. Quando enfim alcançou o Senhor de Atenas, Amon pode admirá-la pelo que realmente era, pois era bela em uma forma inconcebível.

Não era bela como Arikel, obviamente. Helena era imperfeita. Olhos grandes e nariz pequeno e fino, boca bem desenhada e pele extremamente branca, quase como o leite, porém não pálida. Os cabelos eram louros, e caiam em cachos fartos pelos ombros, seios e costas. Vestia-se em azul, com um vestido longo e elegante, mas ligeiramente sujo de lama nas bordas. Uma outra imperfeição. Estava descalça, e parecia sentir muito prazer com a grama que estava sob seus pés. Acima de tudo, Helena era extremamente amável. Parecia impossível indispor-se com ela, falar-lhe com violência e absolutamente impossível agredi-la. Amon conhecia os Dons da Personalidade, mas não eram eles que faziam de Helena uma criatura fascinante. Era o fato de ser Filha da Rosa, ser bela como a Rosa mas não dispor de sua inconstância. Helena era estática. Amon se perguntou se seria possível que aquela mulher mudasse de ideia sobre alguma coisa.

- Eu o saúdo, Espírito do Tempo, Amon, Filho de Troile e Senhor de Atenas. Agradeço tua distinção em receber-me em tua morada. Trago uma mensagem minha, de Micenas e de Arikel, Senhora do Clã da Rosa.

Helena sentou-se ao lado de Amon. Tinha perfume de flores silvestres, de coisas novas não descobertas. Helena era apaixonante por si só. Amon se recordou, subitamente, que uma guerra foi feita somente pelo seu amor.

- Micenas não mais se submeterá aos Persas. A partir da próxima manhã, todo e qualquer navio do Império que se encontre em nossos portos será afundado. Nossas muralhas serão fechadas, os funcionários e sacerdotes persas que estiverem na cidade serão enforcados até o meio dia. Nós não mais nos humilharemos perante uma potência estrangeira, não mais ofereceremos nossas riquezas de bom grado para engordar os sacerdotes de Enlil e Inana em detrimento do nosso povo, que passa fome e sofre privações. Já tivemos o suficiente.

Havia falado enquanto fitava Atenas. Em seguida, voltou-se para Amon.

- Trago isto ao teu conhecimento por duas razões. A primeira é que sois Senhor de Atenas, Estado mais poderoso da Hélas. O segundo me foi instruído por minha Senhora, e diz respeito à tua proximidade com Daharius Sarosh, Senhor da Babilônia e um dos Senhores da Pérsia. Arikel achou que seria importante que soubesse. Arikel manda dizer-te que não protegeu e fez crescer Atenas, em tua ausência, para que ela se entregasse completamente a poderes externos.
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Re: Atenas: A Casa dos Deuses

em Qua Set 19, 2018 8:35 am
Como era bela, Helena. Amon a observava com atenção profunda e extrema admiração. Apesar de não ser tão bela quanto sua senhora, que era uma deusa encarnada na terra, possuía a beleza que toda mortal desejaria ter. O antigo se perdeu em devaneios, direcionados pelo aroma delicioso que emanava dela.

Manteve-se sério ao ouvir suas palavras e analisou todas as possibilidades e consequências geradas por tal decisão.

Amon levantou e caminhou, com seus pés igualmente descalços, pois, em sua terra,nunca ousara colocar sandálias. Era uma forma de estar sempre conectado com a terra que escolheu e que recebeu para si. Observou a negritude do céu e o reflexo da lua nas águas marinhas. Permitiu-se sentir o perfume da brisa marinha, do cheiro que subia da cidade e o próprio cheiro de Helena.

Ainda de costas para sua visitante, Amon deu um longo suspiro.


Sarosh... Sussurrou mais para si do que para Helena. Há quanto tempo não ouço falar do mais competente filho de Laza. Sua voz soou carregada de tristeza. Nossos caminhos se afastaram após a longa batalha de Mashkan-Shappir. O Sarosh que me recordo não é o mesmo que mantém a Pérsia sob punho firme.

Amon cruzou os braços atrás das costas e, ainda sem olhar para Helena e sua beleza estonteante, sorriu com amargura.

Finalmente ela chegou em nossos portões. Venho sentido seu cheiro há anos. Arikel foi sábia em enviá-la, minha criança. Eu tenho, não, nós temos uma visão diferente da visão dos persas. E é chegado o momento de interromper essa vida de servidão e exploração que os persas impõe aos nossos povos.

Volte para o seu lar e avise a mais bela que já pisou nestas terras sem outras, que terá meu incondicional apoio. Tenho apenas um pedido a lhe fazer.
Amon finalmente virou-se para Helena, encarando-a. Fez-se um silêncio prolongado, pois, sabia que era um pedido difícil de ser acatado. Apesar das diferenças e das ordens que os persas obedecem em suas terras, não os matem indiscriminadamente, sem chances de defesa. Isso causará ainda mais fúria em Sarosh do que o não pagamento de tributos. Exija que voltem para as suas terras, apenas com seus pertences que vieram com eles.

Além disso, organize seus homens e mulheres que podem lutar, este ato de rebeldia, justo, irá trazer consequências graves e devemos estar preparados. Serão enviados soldados, para que possam ajudá-los. Me reunirei com meus irmãos e se possível, com Troile, para organizar nossas defesas.


Novamente o silêncio se apoderou de Amon, enquanto ele se concentrava e invocava a presença de seus irmãos, filhos e o responsável pela família. O momento do reencontro havia chegado.

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Re: Atenas: A Casa dos Deuses

em Sex Set 21, 2018 5:15 am
Helena sustentou o olhar de Amon sem desviar. Ouviu as palavras do antigo com atenção e sorriu antes de responder. Sua face reluzia à luz da lua e suas palavras foram simples, mas diretas.

- Minha Senhora me instruiu a aceitar quaisquer condições suas, Amon. Ela tem grande consideração por tua sabedoria e por teus princípios. Será difícil acalmar os ânimos dos mortais contra os persas em Micenas, mas farei o possível para enviá-los em segurança até suas terras. Os navios, contudo, serão afundados. Ancorados no Golfo Sarônico, representam a dominação sobre estas terras. Concordo contigo, precisamos evitar violência. Mas uma mensagem clara precisa ser enviada.

Ainda observava Amon. Parecia haver uma grande curiosidade em teu olhar.

- Meus homens e mulheres já estão cientes e preparados para os conflitos que virão. Será importante contar com o poderio de Atenas. Na verdade, será importante contar com a união de todos os nossos estados. É a condição essencial para a vitória. Quanto a tua família, faz bem em reuni-los. Peço, somente, que considere não mencionar meu nome diretamente a Menelau, Filho de Troile. Temos uma história antiga e difícil, e mencionar a mim pode fazer com que sua disposição de colaborar diminua imensamente.

Sorriu. Amon não sabia identificar o sentimento encoberto por detrás do sorriso. Sem mais nada a dizer, Helena se ergueu rapidamente. Olhou uma última vez para Atenas, que se descortinava bem abaixo dos pés dos cainitas.

- Foi um prazer inenarrável revê-lo, Amon de Atenas. Espero que estejamos mais próximos nas noites que virão.

A Filha da Rosa se curvou próximo a Amon, beijando-lhe a testa. Depois, começou a se afastar lentamente, desaparecendo em meio às sombras da cidade.


Helena
.

*

Ainda naquela noite, Amon concentrou-se intensamente, tendo em mente os membros de sua Família e convocando-os, um a um, até a cidade de Atenas. Havia muito a ser discutido e havia, sobretudo, pressa em discutir o necessário. Amon sabia, porém, que levariam semanas até que alguns dos seus parentes alcançassem o local. Deixou-se guiar, neste intervalo, por observações quanto às opiniões dos atenienses sobre a submissão aos persas, e chegou a algumas conclusões.

Para a aristocracia ateniense, a submissão aos persas era absurda. Pagavam pesados tributos, contribuíam ao exército que os dominava e, em caso de recusa, tinham queimadas suas plantações, confiscados seus navios e roubados seus escravos. Para aquela classe, era somente uma questão de tempo até que a dominação estrangeira fosse insuportável. Faltava, contudo, combinar com os outros. Atenas era temida e invejada pelas outras cidades da Hélas. A maioria das outras aristocracias regionais temiam livrar-se dos persas somente para submeter-se ao poderio ateniense.

Mesmo entre as classes mais baixas a situação era tensa. Se os impostos recaiam pesadamente sobre os nobres, recaiam de forma ainda mais intensa sobre artesãos e comerciantes da cidade. Cansados de pagar para navegar pelas rotas dominadas por navios persas, a maioria deles começou a optar por usar rotas alternativas, que levavam à Magna Grécia e a cidades mais distantes. Alguns deixavam definitivamente Hélas, estabelecendo-se nestes lugares, longe da dominação. De fato, tais colônias floresciam, enquanto Atenas minguava visivelmente, seus mercados cada vez menores e o fluxo de mercadorias diminuindo visivelmente.

Para os escravos, bem, a política não importava. Não importava quem era o Senhor, seria sempre um Senhor. Persa ou grego.

Obviamente, os primeiros a atender ao chamado de Amon eram aqueles que se encontravam na Grécia. Nikaia e Ítalus foram os primeiros, seguidos de Menele, Progênie de Troile. Amon já o havia visto. Menele era um homem intenso. Era alto, corpulento, com uma longa barba e bigode. Em vida, havia sido Rei de Esparta, marido de Helena, pela qual invadiu Troia e levou a Hélas a uma guerra por longos anos. Menele era uma pessoa furiosa, por falta de uma palavra melhor. Falava alto e tinha modos pouco elegantes. No entanto, era um dos grandes estrategistas da Hélas, um homem que inspirava lealdade e honra através de inflamados discursos e olhares bem distribuídos. Causava reações contraditórias. Era possível amá-lo como autoridade e, ao mesmo tempo, detestá-lo como homem.

Acompanhava-o sua progênie, um homem chamado Critias. Jamais haveria cria e Senhor tão diferentes. Critias era um homem pequeno e frágil, de compleição magra, olhos azuis e cabelos louros, diversos dos olhos e cabelos escuros de Menele. Era um filósofo e médico, um homem de ideias, de natureza calma e contemplativa. Falava baixo, quase sussurrando. Amon reconhecia nele, porém, uma grande força de caráter.

Belit-Sheri não pode dirigir-se à Hélas, em razão de problemas pessoais. O mesmo aconteceu com Troile, que informou seu irmão sobre sua incapacidade, além de dizer-lhe sobre os intensos conflitos que começavam a se desenhar na região da Fenícia. Segundo a missiva que havia escrito, alguns grupos mortais ameaçavam insurgir-se contra a dominação imperial se os impostos não fossem baixados. A situação era particularmente intensa, e Troile havia requisitado o auxílio de outros cainitas da região para discutir o assunto, de forma que deveria permanecer na Síria. Anis, que vivia no coração da Pérsia, também não compareceu pessoalmente, mas enviou seu descendente Zatura, também este um filósofo, mas muito mais interessado na política do que em abstrações teóricas. Ele e Critias eram os grande pensadores entre os filhos de Ilyias, indivíduos muito semelhantes, ainda que diferentes fisicamente. Zatura era visivelmente persa, de cor morena e nariz grande e expressivo.

Amon se viu, finalmente, diante da parte de sua família que pode atender seu chamado. Encontraram-se em uma noite de outono, no templo que se erguia sobre Atenas. Estavam concentrados e em silêncio, à exceção de Menele, que parecia agitado. Esperaram, atentamente, pelas palavras do mais velho da Casa dos Filósofos.
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Re: Atenas: A Casa dos Deuses

em Ter Set 25, 2018 4:51 am
Amon não estava satisfeito com a ausência de Troile, Belit-Sheri e Anis, no entanto, sabia que a presença deles em outras terras era necessária, para o bem ou para o mal. Ele observava silenciosamente os mais novos, analisando meticulosamente o que diria a todos, considerando bem suas palavras, já que, com toda certeza, suas palavras inflamariam a todos presentes. E os ausentes também.

Após a visita de Helena, o antigo passara a questionar a sua inclinação a paz. Ele sabia que, em detrimento a guerra, manteve seu povo em paz, aceitando subservientemente as cobranças de tributos feitas pelos persas. Amon finalmente entendeu que possuía dois problemas para resolver. O primeiro, era justamente sobre os tributos pagos aos persas, que oneravam seu povo e os levava a desigualdade e a fome e a segunda, era o crescimento vertiginoso de escravos em suas terras.

Resumindo, ambos refletiam a mesma coisa: Servidão, subserviência e escravidão. Tudo que ele havia prometido combater. Era para isso que ele aí da estava neste mundo. Era este o seu motivo, que infelizmente fora esquecido com o tempo. Ele percebeu tardiamente, porém, não era irremediável.

Amon que parecia perdido em pensamentos, virou-se para suas crias e para as crias de seus irmãos. Sorriu para Critias, Zatura e Menele.


Estou contente com vossa presença, ainda que eu esperasse que seus senhores os acompanhassem. Temos problemas para resolver e precisaremos de todos juntos para resolver.

O povo está cansado de sofrer os abusos causados pelos persas. Os altos tributos estão minando as riquezas de nossa cidade e seus costumes nefastos corrompem nosso modo de vida.
A voz, normalmente contida e pacífica do antigo, ganhou um tom imperativo e apaixonado. Havia autoridade em suas palavras.

Precisamos organizar nossas ideias e vocês, que são os sábios de seu tempo, irão me auxiliar a mudar esta situação. Este povo, que hoje conhece a democracia, precisa entender que a escravidão deve ser banida de nossos territórios. Para combater a opressão persa, devemos acabar com a opressão em nossas terras, caso contrário, será apenas demagogia.

Assim como Micenas deixará de pagar seus tributos, nós também deixaremos, e mais, libertaremos os escravos e nos libertaremos do julgo. Não só nós atenienses. Todas as cidades da Hélas irão. Hoje, minhas crianças, me ajudarão a começar a retomada de nossas terras. Eu havia esquecido de meu propósito, no entanto, acordei novamente.


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Re: Atenas: A Casa dos Deuses

em Qua Set 26, 2018 8:58 pm
Carta de Amon, o espírito do tempo, aos atenienses


Hoje inicia-se uma nova era nesta cidade e eu, como espírito do tempo, tenho o dever de guiá-los nesta longa jornada.

Venho caminhando entre vós cidadãos atenienses há centenas de anos, antes mesmo desta cidade surgir gloriosa, graças aos esforços de seus antepassados, dos espíritos e dos deuses que caminham entre vós.

Em tempos imemoriais para vós, está cidade foi construída com muito suor, sangue e determinação. Aqueles que estiveram ao meu lado durante todo este tempo, idealizaram esta cidade, que não está longe do que pensamos, porém, a algo que não flui como deveria.

Vós, que sois dentre todos os povos conhecidos, os mais sábios e mais virtuosos, se permitiram a um vício comum nesta semana outras terras e este vício me desagrada profundamente.

Nós, que construímos e forjamos a democracia, ainda carregamos uma chaga que fere a nossa ideologia. E hoje, após muito tempo, mais tempo do que necessário, iremos findar com este mal.

A escravidão, que suja nossas ruas, casas e templos, impregnando de injustiça nossa tão sonhada e amada democracia. Este ato vil contra a humanidade, não importando a sua origem, nos torna iguais às outras cidades, que desconhecem nosso modo de vida.

Hoje, iremos dar um passo adiante, abandonando este costume que só faz ferir e degradar nossa sociedade.

A escravidão humilha homens e mulheres, crianças e idosos que vivem e se alimentam da mesma terra que nós, logo, não há motivos para diferenciação e tampouco, para que haja uma opressão aos mesmos. Somos todos iguais, morremos da mesma forma e deixamos nossa energia neste mundo da mesma maneira, em maior ou menos grau.

Eu declaro, que todos aqueles que possuem escravos de guerra, que os liberte, sem lhes causar qualquer dano. Dê-lhes um punhado de ouro, para que possam voltar às suas terras de origem ou para onde desejarem. Eles merecem, após tanto tempo de servidão.

Os escravos gerados por dívidas, devem ser igualmente libertos e um contrato com estes deve ser feito. Um contrato de prestação de serviços, onde será dado ao credor um dia da semana para tarefas a serem realizadas, de acordo com a demanda necessária.

Os escravos gerados por dívidas de jogos devem ser liberados de sua servidão e a dívida deverá ser perdoada. Aquele que já foi escravo por dívidas de jogos e for pego novamente neste erro, será sumariamente condenado.

As mulheres que foram tomadas por dívidas de seus companheiros devem ser igualmente libertas. Nenhum homem ou mulher deve ser escravos sexuais, para sanar o desejo de credores inescrupulosos.

Aqueles cidadãos que, sabendo da condição de seu semelhante, insistirem em fazer empréstimos, para justamente escravizá-lo, será punido. Não serão toleradas partidas de qualquer jogo no intuito de escravizar seu semelhante. Tanto o devedor quanto o credor serão punidos.

A escravidão, de qualquer natureza, está banida desta cidade e isso inclui a escravidão que nós atenienses sofremos perante o império persa. Não pagaremos mais pesados tributos ao império. Somos responsáveis por nossa produção, por nossa segurança e por nossa cidade.

Os persas que vivem em nossa cidade, devem ser enviados para as suas terras incólumes, carregando consigo apenas os objetos e riquezas que trouxeram consigo. Não será tolerada a violência gratuita.

Homens e mulheres de Atenas, escutem a voz do espírito do tempo. Estas são minhas palavras e o meu desejo. Aqueles que se voltarem contra o meu desejo, que é o desejo dos deuses e dos espíritos, conhecerão o tártaro e serão recebidos com alegria por Thanatos. Esta é a minha sentença e a minha vontade.
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Re: Atenas: A Casa dos Deuses

em Qui Set 27, 2018 11:57 am
Amon falava apaixonadamente. Inflamado. Mas se esperava que as respostas fossem à altura, havia se enganado profundamente. Os três cainitas o observavam com ceticismo. Zatura nada falou. Dos presentes, era o único que habitava fora da Hélas, e talvez por isso fosse mais consciente do que representava o Império.

Critias, que observava Amon durante todo o tempo em que o Antigo falava, respondeu de imediato.

- E assim farás com que toda a Hélas se levante contra o Espírito do Tempo. Pois se pensas que a aristocracia aceitará tal decisão, se enganas profundamente. Pegarão em armas contra ti, ainda que para eles sejas somente uma ideia. As fissuras que a tua decisão podem abrir na Hélas serão profundas. Compreendo teus ideais, Amon, mas talvez este não seja o momento adequado para eles.

Em seguida, foi a vez de Menele. Não falou no tom alto que normalmente usava mas, ainda assim, tinha menos elegância do que Critias. Sua voz era trovejante.

- Pois eu fico satisfeito com a tua decisão de que Atenas finalmente enfrentará o Império. Mas lhe digo que tuas decisões sobre a Hélas podem encontrar resistências. Tebas é extremamente filopersa, por exemplo. Além disso, estou de acordo com Critias, libertar os escravos neste momento seria um desastre. Quem iria trabalhar nos campos? O que achas que aconteceria com nosso exército? Você está cansado, Amon. Tem dificuldades para entender os novos tempos. Tua decisão sobre os escravos apenas aprofundaria a nossa servidão.
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Re: Atenas: A Casa dos Deuses

em Qui Set 27, 2018 1:04 pm
Amon observou incrédulo a reação de Critias e Menele. Respirou fundo, mesmo não precisando. Demonstrou decepção, irritação e tristeza.

Após as palavras de Menele, Amon irrompeu furiosamente sobre os três. Enquanto falava, seus punhos chocaram-se contra a estrutura, derrubando-as parcialmente e sua voz, geralmente calma, estava retumbante e decidida.


Velho? CANSADO? Seus olhos pousaram em Menele. Parece que não fiz me entender. Eu disse o que eu queria, cabe a vocês crianças, fazer funcionar. Amon caminhava entre os jovens, indo de um ponto a outro. Sua voz foi baixando o tom, enquanto ele explicava.

Então é assim que me vêem, como um velho cansado e ainda me tomam como tolo! O antigo ri, visivelmente desgostoso Acham que não pensei nisso? Acham que não sei que a aristocracia se levantará para não perder seus privilégios, tal qual um cão faminto não larga seu osso? Se a aristocracia não entender que ou serão todos livres ou serão todos escravos, esta cidade estará condenada.

E, digo mais, se for necessário, a aristocracia deixará de existir. Não vejo problemas em eliminar aqueles que oprimem o meu povo. Se vocês acha que os escravos não lutarão, estão enganados. Como homens livres, com um lar para defender, lutarão com afinco. Eu andarei entre os homens e libertarei os cativos e lhes darei terra e lar. Os que me desobedecerem, conhecerão o tártaro mais cedo.

Espero que vocês pensem em como fazer isso acontecer, todas as possibilidades foram estudadas por mim, não pensem que ignoro os riscos. Esta cidade será conhecida pelos homens livres ou então, pelos homens mortos. De um jeito ou de outro, a servidão acabará. Dentro de nossas fronteiras e fora delas também.


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Re: Atenas: A Casa dos Deuses

em Sab Set 29, 2018 5:04 am
Quando Amon explodiu, permitindo que as palavras saíssem de sua boca, seus descendentes se mantiveram calados, escutando. Zatura observava com atenção, enquanto Critias e Menele, cria e Senhor, trocavam olhares. O vínculo entre estes dois cainitas era conhecido por Amon, mas a extensão e a profundidade da relação lhe eram desconhecidos. Nikaia estava ao lado de Amon, e segurava seu pulso com força, como numa forma de prevenir que o Antigo se lançasse sobre os mais jovens. Ítalus estava mais afastado de todos, em silêncio. Quando o Antigo terminou de falar, foi Zatura, descendente de Anis, quem se pronunciou.

- Eu imagino que Menele não desejava ofendê-lo, Amon. A posição dele é somente a de alguém que, assim como você, se preocupa com a Hélas. É importante que tenhamos isso em mente se...

Menele interrompeu. Sequer moveu-se para fazê-lo. Simplesmente aumentou o tom de voz, de forma a sobrepujar a fala calma de Zatura.

- Esta é a terra de meus ancestrais. Aqui eu fui Rei, fui guerreiro e fui Juiz. Por anos eu tentei mostrar a todos a tragédia que era a nossa submissão aos Persas. Por séculos eu tentei demonstrar o quando a nossa independência estava sendo ameaçada, culminando na invasão do inimigo. E agora, depois de séculos, finalmente se entende a necessidade de combater o Império. E esperamos fazer isso destruindo a ordem que existe em nossa sociedade, a ordem que coloca cada coisa em seu lugar e que permite que Atenas funcione. Eu espero, sinceramente, que tenhas pensado em tudo, Amon, que tenhas tudo previsto e sob controle.

Menele olhou para Zatura, como se pedisse desculpas pela intromissão. Foi o cainita que habitava na Pérsia que continuou. Menele parecia tão inflamado quanto Amon, embora por razões diversas das suas. Zatura, então, continuou de onde tinha sido interrompido.

- ... se quisermos vencer a gigantesca máquina de guerra dos persas. Eu não vivo neste lugar, portanto não opinarei sobre a necessidade ou menos de abolir a escravidão. Mas me permita fazer uma observação, Amon. Os tempos são outros. Não acredite que libertando os escravos eles lutarão em teu nome. Que eles lutarão por uma terra que escravizou a eles e seus descendentes por séculos. Eles não tem nenhuma dívida com a Hélas. E esta geração não tem nenhuma dívida contigo, ou conosco.

Tornou a calar-se. A posição de Zatura era a de um mediador. Critias ainda se mantinha calado. Menele, no entanto, continuou.

- Nós não somos crianças da noite, Amon. Podemos ser muito mais novos e inexperientes que você, mas não nos trate como crianças que estão aqui somente esperando para atender e satisfazer seus desígnios. Se eu precisar escolher entre quem tem o meu apoio na Hélas, escolherei aqueles que sempre me apoiaram, quando eu ainda era um mortal. Escolherei aqueles que fazem a guerra. E devo dizer: se tu ameaças a aristocracia, ameaça também a mim. Não que eu tenha algum poder para fazer frente à sua força. Mas me sentirei na obrigação de me opor a ti se o teu desejo for destruí-la.

Só então Critias falou, esperando mediar a situação.

- A tua decisão não pode esperar até que este conflito com os persas tenha sido encerrado? Não podemos discutir o fim da escravidão com parcimônia ao invés de fazê-lo no calor do momento? Veja, Amon, tenho por ti profundo respeito. Mas repito o que já foi dito. Abolir a escravidão aqui e agora causará um derramamento de sangue jamais visto nestas ilhas. E, no final, a situação pode voltar-se contra ti. Esteja atento, seja sábio e equilibrado.

Menele terminou.

- Eu retornarei para Atenas. Darei as ordens para que os persas sejam expulsos mas preservados. Darei as ordens para que seus navios sejam confiscados, para que os tributos que existam neles sirvam para começar a organizar o conflito que virá. Mas não me peça para negociar com meus pares o fim da escravidão. Isto eu não farei. Se tanto o deseja, faça tu mesmo.

Deu as costas e iniciou o retorno à Atenas. Critias e Zatura ainda permaneciam ali, esperando uma resposta de Amon. Ítalus continuava em silêncio, observando Menele enquanto este descia o monte. Nikaia olhava para o seu Senhor, esperando uma decisão dele. Amon sabia que ela o apoiaria no que quer que fosse.
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Re: Atenas: A Casa dos Deuses

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