Compartilhe
Ir em baixo
avatar
Mensagens : 502
Data de inscrição : 07/03/2018
Ver perfil do usuário

Atenas: A Casa dos Deuses

em Qui Set 13, 2018 7:30 am
Faltavam palavras a qualquer um para descrever a experiência de pisar em solo ateniense. Era bela. Era harmônica. Era organizada. Era, acima de tudo, o único local da Terra em que todos os homens eram iguais, em deveres e direitos. Erguia-se imponente no centro da Ática, região mais importante da Hélade. Voltava-se em direção à Pérsia, sua suserana nominal, mas jamais de fato. Atenas jamais havia se curvado e jamais se curvaria a tiranos. Aqueles que tentaram, internamente, eram ostracizados. Aqueles que tentaram externamente poderiam até ser bem sucedidos durante um tempo, mas somente até o momento em que o povo ateniense, ciente de sua liberdade e de seus valores, se libertasse novamente.

Atenas havia sido, desde o início, uma criação de Amon. Mas, mesmo assim, por vezes a criatura foge à influência do Criador. E então, nas ruas estreitas mas limpas de Atenas, floresceu a Escravidão. Em princípio tratava-se de um fenômeno de baixa intensidade, mas que aumentou enormemente com o passar dos anos e com o continuar da expansão ateniense em regiões como a Ásia Menor, Norte da África e Magna Grécia. Haviam leis para o tratamento destas pessoas que, muitas vezes, tinham melhores condições de vida do que quando eram homens e mulheres livres. A guerra levava à Escravidão. As dívidas levavam à Escravidão. E a Escravidão alimentava a grandeza democrática ateniense, em um paradoxo que era visível aos olhos de poucos.

Amon havia visto o declínio dos reis de Atenas, fomentando a Democracia com suas próprias palavras. Não era uma obra perfeita e acabada, mas era melhor, muito melhor do que qualquer coisa que seus primos tivessem criado. Havia possibilitado que aquela vila fundada pelo Filho de Ilyias se tornasse a maior potência marítima do Egeu e do Mar Interno. Dominavam o comércio como haviam feito antes os Fenícios comandados por Troile. Dominavam as artes, a ciência, a filosofia, a lógica e a matemática. Ali floresciam grandes mentes que eram postas a serviço da cidade que, sob esta influência, cresceu enormemente. Em Atenas se cultuavam todos os deuses da região e, também, nenhum deles. Se cultuavam deuses estrangeiros desconhecidos, antepassados, espíritos. Eram um povo imensamente crente, vendo em augúrios e voos de pássaros constantes chamados à Guerra e à Grandeza.

Não obstante todas as contradições, Atenas era, no fim, o lar de Amon. E ele protegeria seu lar.

O planalto antigo, de onde ele havia visto crescer a cidade, agora era ocupado por um templo que vigiava a abençoava a cidade. Os atenienses haviam começado com um pequeno projeto, e os templos construídos eram derrubados e refeitos ao longo dos séculos, refletindo o crescimento do poder de Atenas. O mais novo projeto, ainda não iniciado, era a de uma estrutura que seria chamada de Partenon, que seria erguido em homenagem à Atena e seria o maior e mais belo templo do mundo. Uma ode à grandiosidade e beleza feito para durar pela eternidade.

Se assim permitisse a Guerra. Pois Amon, ciente das ambições de seus parentes, sentia no ar o gosto do metal. Mas Atena, afinal, era também a Deusa da Guerra em seu caráter justo, sintetizada em Pallas Atena. Haveriam de vencer, se chegassem ao conflito.

Numa das noites em que observava as luzes da cidade, Amon teve a sensação de que um cainita se aproximava. Uma cainita. Uma presença conhecida, pois Amon já a havia encontrado ao menos duas vezes. Era incrível como ela o fazia recordar-se de Arikel. No entanto, não era ela. Era a soberana de Micenas, Helena, dita Rainha de Troia, que subia o monte enquanto solicitava, mentalmente, uma audiência com o Espírito do Tempo.
avatar
Mensagens : 70
Data de inscrição : 07/05/2018
Ver perfil do usuário

Re: Atenas: A Casa dos Deuses

em Ter Set 18, 2018 8:25 am
Amon, quando em vida, nunca havia valorizado o nascer do Sol e agora, centenas de anos após a sua transformação, percebia como sentia a falta daquele fenômeno. Enquanto o astro dispontava no horizonte, ele observava os raios luminosos dissipando a névoa que cobria a cidade, que há muito, já estava acordada.

Os pescadores já voltavam do mar, carregando o fruto de uma madrugada intensa de trabalho. Cestas enormes, repletas de peixes, eram carregadas por dois ou até três homens. Estes homens passavam por Amon, como se ali ele não estivesse.

Durante todo o dia, ele caminhou entre os mortais, observando seus afazeres cotidianos, alheios a sua presença. Na verdade, não tão alheios assim. Os mortais o homenageavam, assim como o faziam a outros deuses e espíritos. E apesar de toda a devoção e crença, os atenienses eram um povo evoluído, para a felicidade de Amon.

Sob o céu estrelado e sob a luz da lua cheia, Amon encontrou o espírito que criara, um espírito que servia como guardião e vigilante de seu povo e de suas fronteiras. Assim que o espírito desvanecia, entregando toda a informação colhida durante o período que caminhou pela cidade, Amon sentiu a presença fascinante de Helena.

Sorriu, ao lembrar de Arikel, a quem acreditava dever muito, por ter protegido sua cidade enquanto estava em torpor. Ao sentir sua consciência sendo consultada pela cainita, ele permitiu que a mesma fosse ao seu encontro. Amon a observava enquanto ela subia o monte em sua direção.


Enviado pelo Topic'it
avatar
Mensagens : 502
Data de inscrição : 07/03/2018
Ver perfil do usuário

Re: Atenas: A Casa dos Deuses

em Qua Set 19, 2018 6:18 am
Helena caminhava lentamente, mas sem dificuldades. Ocasionalmente, se detinha no caminho para observar o panorama que se descortinava diante de seus olhos. Amon não conseguia discernir detalhes de sua aparência, ao menos enquanto ela não se encontrava razoavelmente perto. Quando enfim alcançou o Senhor de Atenas, Amon pode admirá-la pelo que realmente era, pois era bela em uma forma inconcebível.

Não era bela como Arikel, obviamente. Helena era imperfeita. Olhos grandes e nariz pequeno e fino, boca bem desenhada e pele extremamente branca, quase como o leite, porém não pálida. Os cabelos eram louros, e caiam em cachos fartos pelos ombros, seios e costas. Vestia-se em azul, com um vestido longo e elegante, mas ligeiramente sujo de lama nas bordas. Uma outra imperfeição. Estava descalça, e parecia sentir muito prazer com a grama que estava sob seus pés. Acima de tudo, Helena era extremamente amável. Parecia impossível indispor-se com ela, falar-lhe com violência e absolutamente impossível agredi-la. Amon conhecia os Dons da Personalidade, mas não eram eles que faziam de Helena uma criatura fascinante. Era o fato de ser Filha da Rosa, ser bela como a Rosa mas não dispor de sua inconstância. Helena era estática. Amon se perguntou se seria possível que aquela mulher mudasse de ideia sobre alguma coisa.

- Eu o saúdo, Espírito do Tempo, Amon, Filho de Troile e Senhor de Atenas. Agradeço tua distinção em receber-me em tua morada. Trago uma mensagem minha, de Micenas e de Arikel, Senhora do Clã da Rosa.

Helena sentou-se ao lado de Amon. Tinha perfume de flores silvestres, de coisas novas não descobertas. Helena era apaixonante por si só. Amon se recordou, subitamente, que uma guerra foi feita somente pelo seu amor.

- Micenas não mais se submeterá aos Persas. A partir da próxima manhã, todo e qualquer navio do Império que se encontre em nossos portos será afundado. Nossas muralhas serão fechadas, os funcionários e sacerdotes persas que estiverem na cidade serão enforcados até o meio dia. Nós não mais nos humilharemos perante uma potência estrangeira, não mais ofereceremos nossas riquezas de bom grado para engordar os sacerdotes de Enlil e Inana em detrimento do nosso povo, que passa fome e sofre privações. Já tivemos o suficiente.

Havia falado enquanto fitava Atenas. Em seguida, voltou-se para Amon.

- Trago isto ao teu conhecimento por duas razões. A primeira é que sois Senhor de Atenas, Estado mais poderoso da Hélas. O segundo me foi instruído por minha Senhora, e diz respeito à tua proximidade com Daharius Sarosh, Senhor da Babilônia e um dos Senhores da Pérsia. Arikel achou que seria importante que soubesse. Arikel manda dizer-te que não protegeu e fez crescer Atenas, em tua ausência, para que ela se entregasse completamente a poderes externos.
avatar
Mensagens : 70
Data de inscrição : 07/05/2018
Ver perfil do usuário

Re: Atenas: A Casa dos Deuses

em Qua Set 19, 2018 8:35 am
Como era bela, Helena. Amon a observava com atenção profunda e extrema admiração. Apesar de não ser tão bela quanto sua senhora, que era uma deusa encarnada na terra, possuía a beleza que toda mortal desejaria ter. O antigo se perdeu em devaneios, direcionados pelo aroma delicioso que emanava dela.

Manteve-se sério ao ouvir suas palavras e analisou todas as possibilidades e consequências geradas por tal decisão.

Amon levantou e caminhou, com seus pés igualmente descalços, pois, em sua terra,nunca ousara colocar sandálias. Era uma forma de estar sempre conectado com a terra que escolheu e que recebeu para si. Observou a negritude do céu e o reflexo da lua nas águas marinhas. Permitiu-se sentir o perfume da brisa marinha, do cheiro que subia da cidade e o próprio cheiro de Helena.

Ainda de costas para sua visitante, Amon deu um longo suspiro.


Sarosh... Sussurrou mais para si do que para Helena. Há quanto tempo não ouço falar do mais competente filho de Laza. Sua voz soou carregada de tristeza. Nossos caminhos se afastaram após a longa batalha de Mashkan-Shappir. O Sarosh que me recordo não é o mesmo que mantém a Pérsia sob punho firme.

Amon cruzou os braços atrás das costas e, ainda sem olhar para Helena e sua beleza estonteante, sorriu com amargura.

Finalmente ela chegou em nossos portões. Venho sentido seu cheiro há anos. Arikel foi sábia em enviá-la, minha criança. Eu tenho, não, nós temos uma visão diferente da visão dos persas. E é chegado o momento de interromper essa vida de servidão e exploração que os persas impõe aos nossos povos.

Volte para o seu lar e avise a mais bela que já pisou nestas terras sem outras, que terá meu incondicional apoio. Tenho apenas um pedido a lhe fazer.
Amon finalmente virou-se para Helena, encarando-a. Fez-se um silêncio prolongado, pois, sabia que era um pedido difícil de ser acatado. Apesar das diferenças e das ordens que os persas obedecem em suas terras, não os matem indiscriminadamente, sem chances de defesa. Isso causará ainda mais fúria em Sarosh do que o não pagamento de tributos. Exija que voltem para as suas terras, apenas com seus pertences que vieram com eles.

Além disso, organize seus homens e mulheres que podem lutar, este ato de rebeldia, justo, irá trazer consequências graves e devemos estar preparados. Serão enviados soldados, para que possam ajudá-los. Me reunirei com meus irmãos e se possível, com Troile, para organizar nossas defesas.


Novamente o silêncio se apoderou de Amon, enquanto ele se concentrava e invocava a presença de seus irmãos, filhos e o responsável pela família. O momento do reencontro havia chegado.

Enviado pelo Topic'it
avatar
Mensagens : 502
Data de inscrição : 07/03/2018
Ver perfil do usuário

Re: Atenas: A Casa dos Deuses

Ontem à(s) 5:15 am
Helena sustentou o olhar de Amon sem desviar. Ouviu as palavras do antigo com atenção e sorriu antes de responder. Sua face reluzia à luz da lua e suas palavras foram simples, mas diretas.

- Minha Senhora me instruiu a aceitar quaisquer condições suas, Amon. Ela tem grande consideração por tua sabedoria e por teus princípios. Será difícil acalmar os ânimos dos mortais contra os persas em Micenas, mas farei o possível para enviá-los em segurança até suas terras. Os navios, contudo, serão afundados. Ancorados no Golfo Sarônico, representam a dominação sobre estas terras. Concordo contigo, precisamos evitar violência. Mas uma mensagem clara precisa ser enviada.

Ainda observava Amon. Parecia haver uma grande curiosidade em teu olhar.

- Meus homens e mulheres já estão cientes e preparados para os conflitos que virão. Será importante contar com o poderio de Atenas. Na verdade, será importante contar com a união de todos os nossos estados. É a condição essencial para a vitória. Quanto a tua família, faz bem em reuni-los. Peço, somente, que considere não mencionar meu nome diretamente a Menelau, Filho de Troile. Temos uma história antiga e difícil, e mencionar a mim pode fazer com que sua disposição de colaborar diminua imensamente.

Sorriu. Amon não sabia identificar o sentimento encoberto por detrás do sorriso. Sem mais nada a dizer, Helena se ergueu rapidamente. Olhou uma última vez para Atenas, que se descortinava bem abaixo dos pés dos cainitas.

- Foi um prazer inenarrável revê-lo, Amon de Atenas. Espero que estejamos mais próximos nas noites que virão.

A Filha da Rosa se curvou próximo a Amon, beijando-lhe a testa. Depois, começou a se afastar lentamente, desaparecendo em meio às sombras da cidade.


Helena
.

*

Ainda naquela noite, Amon concentrou-se intensamente, tendo em mente os membros de sua Família e convocando-os, um a um, até a cidade de Atenas. Havia muito a ser discutido e havia, sobretudo, pressa em discutir o necessário. Amon sabia, porém, que levariam semanas até que alguns dos seus parentes alcançassem o local. Deixou-se guiar, neste intervalo, por observações quanto às opiniões dos atenienses sobre a submissão aos persas, e chegou a algumas conclusões.

Para a aristocracia ateniense, a submissão aos persas era absurda. Pagavam pesados tributos, contribuíam ao exército que os dominava e, em caso de recusa, tinham queimadas suas plantações, confiscados seus navios e roubados seus escravos. Para aquela classe, era somente uma questão de tempo até que a dominação estrangeira fosse insuportável. Faltava, contudo, combinar com os outros. Atenas era temida e invejada pelas outras cidades da Hélas. A maioria das outras aristocracias regionais temiam livrar-se dos persas somente para submeter-se ao poderio ateniense.

Mesmo entre as classes mais baixas a situação era tensa. Se os impostos recaiam pesadamente sobre os nobres, recaiam de forma ainda mais intensa sobre artesãos e comerciantes da cidade. Cansados de pagar para navegar pelas rotas dominadas por navios persas, a maioria deles começou a optar por usar rotas alternativas, que levavam à Magna Grécia e a cidades mais distantes. Alguns deixavam definitivamente Hélas, estabelecendo-se nestes lugares, longe da dominação. De fato, tais colônias floresciam, enquanto Atenas minguava visivelmente, seus mercados cada vez menores e o fluxo de mercadorias diminuindo visivelmente.

Para os escravos, bem, a política não importava. Não importava quem era o Senhor, seria sempre um Senhor. Persa ou grego.

Obviamente, os primeiros a atender ao chamado de Amon eram aqueles que se encontravam na Grécia. Nikaia e Ítalus foram os primeiros, seguidos de Menele, Progênie de Troile. Amon já o havia visto. Menele era um homem intenso. Era alto, corpulento, com uma longa barba e bigode. Em vida, havia sido Rei de Esparta, marido de Helena, pela qual invadiu Troia e levou a Hélas a uma guerra por longos anos. Menele era uma pessoa furiosa, por falta de uma palavra melhor. Falava alto e tinha modos pouco elegantes. No entanto, era um dos grandes estrategistas da Hélas, um homem que inspirava lealdade e honra através de inflamados discursos e olhares bem distribuídos. Causava reações contraditórias. Era possível amá-lo como autoridade e, ao mesmo tempo, detestá-lo como homem.

Acompanhava-o sua progênie, um homem chamado Critias. Jamais haveria cria e Senhor tão diferentes. Critias era um homem pequeno e frágil, de compleição magra, olhos azuis e cabelos louros, diversos dos olhos e cabelos escuros de Menele. Era um filósofo e médico, um homem de ideias, de natureza calma e contemplativa. Falava baixo, quase sussurrando. Amon reconhecia nele, porém, uma grande força de caráter.

Belit-Sheri não pode dirigir-se à Hélas, em razão de problemas pessoais. O mesmo aconteceu com Troile, que informou seu irmão sobre sua incapacidade, além de dizer-lhe sobre os intensos conflitos que começavam a se desenhar na região da Fenícia. Segundo a missiva que havia escrito, alguns grupos mortais ameaçavam insurgir-se contra a dominação imperial se os impostos não fossem baixados. A situação era particularmente intensa, e Troile havia requisitado o auxílio de outros cainitas da região para discutir o assunto, de forma que deveria permanecer na Síria. Anis, que vivia no coração da Pérsia, também não compareceu pessoalmente, mas enviou seu descendente Zatura, também este um filósofo, mas muito mais interessado na política do que em abstrações teóricas. Ele e Critias eram os grande pensadores entre os filhos de Ilyias, indivíduos muito semelhantes, ainda que diferentes fisicamente. Zatura era visivelmente persa, de cor morena e nariz grande e expressivo.

Amon se viu, finalmente, diante da parte de sua família que pode atender seu chamado. Encontraram-se em uma noite de outono, no templo que se erguia sobre Atenas. Estavam concentrados e em silêncio, à exceção de Menele, que parecia agitado. Esperaram, atentamente, pelas palavras do mais velho da Casa dos Filósofos.
Conteúdo patrocinado

Re: Atenas: A Casa dos Deuses

Voltar ao Topo
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum