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Babilônia: A Rainha do Mundo

em Qui Set 13, 2018 6:43 am
Quão grande e gloriosa era a Babilônia de Curus, O Grande, de seu Filho Cambises e, agora, de Dariûsh, O Grande!

Que Ishtar, Enlil e Ereshkigal abençoem, para todo o sempre, a Babilônia e os Aquemênidas!

Era imensa, Babilônia. Era uma ideia. Um conceito. Dezenas de idiomas eram falados ali. Homens e mulheres de todas as partes do mundo ali se congregavam. Babilônia era a encruzilhada do Mundo. Suas ruas largas, seus Zigurates e infinitos templos, seus mercado e suas estradas floresciam sob o céu escuro. O tempo da guerra era somente uma lembrança vaga na mente dos mortais. Mitos surgiram, envolvendo a raça cainita em mistérios e informações equivocadas. Neste cenário, a prole de Caim também floresceu. Se tornou grande. O Império criado por Curus abrigava a todos que, unidos em uma única ideia de glória eterna, harmonia e beleza, esqueciam suas diferenças.

A Planície poderia ter muitas cidades. Ectabana, Nínive e Sussa eram gloriosas. Mas nenhuma cidade na Terra poderia competir com a Babilônia e seus jardins, seus campos cultivados, seus canais de irrigação. Nada podia competir com o por do sol visto do alto dos Zigurates, com a música e a alegria que reinavam ali, com a riqueza que circulava em suas praças amplas e ventiladas. Babilônia era uma obra de arte de engenharia. O centro de um Império que se estendia da Bactria, no extremo Leste até a Síria e Egito no Oeste, passando pela Macedônia e Trácia. Somente a Héllas permanecia fora do controle direto dos Aquemênidas. Mas eram, de qualquer forma, vassalos nominais, pagando pesados tributos que contribuíam para a riqueza do Império.

Aquele era o centro do Mundo. E na cidade mais bela do maior Império jamais construído se sentava Daharius Sarosh, Senhor de Curus e Kurush-Amir, Progênie de Laza Omri Baras.

Daharius estava satisfeito. Muito daquele lugar era fruto de seu pensamento, de suas ideias e de suas convicções. Sob seu punho forte, o Império era a maior força militar dos mundo. Nada poderia resistir à sua força. Daharius guerreou, novamente, contra a Corte de Fogo, assinando com estes Tratados de submissão. Encontrou seus primos distantes do Vale do Indo e delimitou o alcance do Império, não invadindo as terras de Zapathasura e seus Filhos. Encontrou com os Filhos de Haqim, que decidiram não intervir na expansão imperial, embora não de forma unânime, contanto que sua autonomia fosse respeitada. Nenhum cainita havia criado algo de tamanha beleza e eficiência quanto Daharius Sarosh.

Que, porém, não havia criado tudo sozinho.

Inúmeros cainitas, por saudosismo ou senso de oportunidades, havia feito do Império a sua morada. Sarosh parlamentava com eles, escutando-os e tentando colocá-los em posições que atendessem às suas ambições. Até então havia funcionado bem. Dois deles, porém, estavam em pé de igualdade com Daharius no que dizia respeito à autoridade.

Em Nínive, reinava Mithras, o Deus Sol, Senhor da Guerra e dos Soldados. Era um Filho de Ventru. Força, determinação e desejo de ordem profunda e inquestionável eram as suas assinaturas.

Em Ectabana reinava Urlon, Filho de Ennoia, nascido em Uruk. Era quase tão velho quanto Sarosh, e comandava, sozinho, um terço das forças militares do Império reunidas na não menos gloriosa cidade que habiatava. Urlon era a personificação da violência e do desejo de conquista, um homem que havia nascido no Império antes mesmo que este o fosse.

Em seu Zigurate particular, centro de adoração da Deusa da Escuridão Ereshkigal, que tinha um número grande de devotos oriundos dos Filhos de Laza e dos carniçais que os serviam, se sentava Daharius. Ali recebia visitantes e petições, recebia dignatários mortais do Império e das províncias submetidas. Recebia cainitas estrangeiros que desejavam se estabelecer em Babilônia. Nada acontecia ali que Daharius não soubesse. Seus homens patrulhavam a cidade. Seu Filho mais novo, Curus, os comandava. O mais velho, Kurush-Amir, havia se estabelecido em Tarso, na Cilícia, de onde observava e monitorava os navegantes do Mar Interno e conduzia os comerciantes da Fenícia e de Héllas em direção à Babilônia de seu Pai.

Era difícil não encarar Daharius Sarosh como um Deus Vivo. Adoração era feita em seu nome e ele sabia que um culto secreto, que tinha mais informações, ainda que equivocadas, sobre a sua natureza imortal se havia erguido em seu nome no coração da Babilônia.

Foi em uma noite de verão particularmente abafada que Daharius soube que emissários de Nínive adentravam Babilônia. Eram recebidos com festa e alegria, Nínive era um centro cultural importante, sede dos Jardins Suspensos, maior obra de engenharia do mundo, e local para onde a aristocracia da Babilônia enviava seus filhos para que aprendessem sobre astronomia, arte militar e diplomacia. Em Nínive também eram treinados e instruídos a maior parte dos Sacerdotes que operavam no Império.

Em Nínive, se sentava Mithras. E era Mithras quem avançava pelas ruas largas da Babilônia em direção à Daharius Sarosh naquela noite.
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Re: Babilônia: A Rainha do Mundo

em Sab Set 15, 2018 10:13 pm
Quatro mil anos.

Estoico era o olhar a encarar o globo escuro como a noite, reflexivo e maleável, que levitava sobre a palma da sua mão direita. Através dele todo o Império revelava-se aos olhos de Daharius Sarosh.

Via a Pérsia erguida por grandes homens como Aquemênes e seu filho Teispes de Anshan, Ciro, o primeiro e seu sucessor Cambises e, finalmente, Curus, o Grande. O Segundo Ciro foi àquele a conquistar e unificar as terras naquele que se tornou o maior dos impérios de toda a história da humanidade. Todos foram guiados, instruídos e levados à ação pela mão sombria de Daharius Sarosh.

Haviam outros, valorosos aliados como Mithras de Nínive e outros instáveis mas necessários como Urlon de Ecbatana. Os via, também, em suas cidades de domínio.

Via, em todos os lugares, a beleza arquitetônica se estender e se perder no horizonte. Via os homens formarem imensos e imparáveis exércitos. Via riquezas e fartura. Via, no mar, incontáveis embarcações que o pertenciam e foram forjadas através dos vassalos fenícios e egípcios.

Era belo, o que via. Ainda sim, permanecia estoico. O sabor da conquista e da realização diminuía a cada noite. Tudo era lúgubre, opaco e sem vida. Não deixava o salão de petições no qual recebia os vampiros que buscavam audiências diversas há longas noites e pouco - ou nada - importava-se com os cultos crescentes em seu nome.

A humanidade o enxergaria como desejassem. Seria um Deus, um Demônio ou uma força inconcebível da natureza que os arrebata em crença e temor conforme o desejo no coração dos mortais clamasse. Para ele, era irrelevante. Apenas o dever da coesão se fazia presente.

Seus braços sombrios alcançavam o mundo agora. Os olhos escuros vasculhavam a vastidão das terras conquistadas em uma incessante, e cada vez mais desinteressante, busca pela necessidade de intervenção.

Moldou centenas de jovens vampiros através do domínio, da dor e da perda. Os deu também vitória, esperança e conquista. Transformou frágeis pacifistas em homens de valor e fibra. Deu-lhes uma razão pela qual se tornarem mais.

Fomentou guerras que criaram grandes nomes. Mithras, o Deus dos Soldados e filho de Ventru, era um deles. Lhe retirava do marasmo vislumbrar a aproximação dele. O jovem vampiro era um modelo daquilo que talvez já tenha sido Sarosh, milênios atrás. Era impetuoso, firme e de presença marcante aquele filho do Rei dos Reis. Era como deveria ser e como Daharius garantiu que o fosse, agindo das sombras que guarnece.

Estava sentado em um trono de pedra escura, quase obsidiana, que lembrava parcamente aqueles de Nippur. Ou talvez fosse completamente diferente. Não mais se lembrava da segunda cidade, era um borrão passado que jamais retornaria.

Em seu colo jazia uma das sacerdotisas do Deus da Noite. Pensou tê-las ouvido falar sobre tal alcunha. Era irrelevante, novamente. Bebia de seu pulso esquerdo enquanto o corpo em êxtase da mulher mexia-se sobre o seu até cessar. Estava morta. Perdeu-se em pensamentos e bebeu além do necessário nesta noite. Irrelevante, uma vez mais.

Levaram o corpo para uma enterro ritualístico em júbilo e gratidão. Tinha se tornado hábito. Encaravam o sacrifício como uma benção e uma passagem para o império da noite, ainda maior e mais glorioso que aquele no qual viviam. Sarosh permanecia estoico a observar o círculo de trevas que tudo lhe mostrava.

Foi então que o Deus dos Soldados se fez presente e Sarosh levantou-se de seu Trono, para que parlamentassem em igualdade. Enxergava no jovem aquilo que poderia ainda ser, não fossem pesados os milênios.

Trajava vestes de tecido escuro com adornos dourados, de riquíssimos entalhes, que lhe caíam sobre o corpo como um manto. Algumas jóias adornavam seus dedos. Seus olhos eram cada vez mais escuros e sobrenaturais. Nenhuma luz puljante durava próxima à Sarosh. Tornavam-se parcas e lúgubres. Sua expressão era fria, imutável, como a de alguém que não pode ser surpreendido e não se apega a emoções já vividas. Elas, as emoções, são lembranças frágeis de outros tempos.

Possuía uma presença que esmagaria, inconsciente e naturalmente, os fracos de espírito. Não se importou pois sabia que diante de si estava um outro de semelhante porte.

Quando falou, sua inconfundível e sobrenaturalmente bela voz chegou ao filho de Ventru, saudando-o. Era genuíno, embora fosse frio e estático.


- Mithras, Filho de Ventru. Deus dos Soldados e Regente de Nínive. A ti estão abertos os portões da Babilônia e com eles a minha hospitalidade se faz presente.



Última edição por Sarosh em Dom Set 16, 2018 6:22 am, editado 1 vez(es)
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Re: Babilônia: A Rainha do Mundo

em Dom Set 16, 2018 6:21 am
Esperou que Mithras cruzasse as estradas de Babilônia antes de adentrar o antigo Zigurate no qual se refugiava. Seus sentidos, ampliados graças aos seus Dons, lhe permitiam ver o avanço do cainita mais jovem pelas ruas pavimentadas. Ali, em Babilônia, o Culto de Mithras era forte, e os soldados costumavam realizar o sacrifício de enormes bovinos para aplacar a sede de sua Divindade e garantir o seu favor durante as batalhas. Mithras atendia tais pedidos, cavalgando em batalha com sua espada em riste, pronto para despedaçar o Inimigo. Era um guerreiro, aquele cainita, e Sarosh intuia que ele dificilmente permaneceria sentado em Nínive enquanto os exércitos persas estivessem em campanha. Era inspiradora a sua presença em campo de batalha, e mais de uma vitória tinha sido creditada à sua atuação decisiva.

Quando adentrou, Sarosh se levantou para recebê-lo. A passos lentos e respeitosos, Mithras adentrou o longo corredor que separava a entrada principal daquela sala do Trono em que se sentava. Era repleta de altíssimas colunas que sustentavam um teto igualmente alto. Espalhadas estavam tapeçarias e troféus de batalhas perdidas, além de alguns mortais que serviam ao Senhor da Babilônia. O salão era desprovido de janelas, mas dispunha de algumas pequenas fissuras por onde entravam a luz da lua. O Trono se localizava em uma pequena elevação no fundo do salão, possibilitando que os visitantes tivessem de caminhar por alguns segundos antes de alcançar Daharius, segundos preciosos para que ele os avaliasse e descobrisse suas intenções.

Avaliou Mithras, como se fosse a primeira vez.

Era um homem impressionante. A pele era morena, como se queimada pelo sol e imune à palidez típica da idade. Os olhos eram escuros, com sobrancelhas bem desenhadas e uma barba igualmente bem feita. Era quase tão alto quanto Daharius, com um porte físico de guerreiro: ombros largos, pernas poderosas. Vestia-se de forma leve, com tecidos finos que se tornavam esvoaçantes ao seu caminhar. Por debaixo das vestes brancas, se podia ver uma armadura leve, de cor dourada. Nos pés, sandálias típicas da Pérsia.

A presença de Mithras, embora não tão potente quanto a de Daharius, era particularmente intensa. Não dispunha da aura de mistério e de escuridão que circundava Sarosh. Era exatamente o contrário: Mithras era radiante como o sol, parecia quase brilhar. Sua presença parecia inspirar cada pessoas ao seu redor a ser o melhor possível, o mais competente possível. Mithras era o Sol que brilhava ao meio dia, que portava os homens à luta, ao trabalho e à criação. Além de tudo, era belo. Uma beleza clássica, masculina, humana. Caminhava como Ventru, altivo, quase arrogante. Suas mãos lembravam as de Ventru, fortes e longas. Seu Sangue cheirava ao de Ventru. Ventru, a quem Daharius não via há milênios, tornava a ocupar os pensamentos do Arauto do Abismo.

Mithras, enfim, aproximou-se do Trono. Flexionou o joelho esquerdo quando ouviu as palavras de Sarosh. Não o fez por submissão, o fez por respeito. Sarosh sabia que Mithras o admirava intensamente, se espelhava, de certa forma, nele. Quando Daharius terminou, o Filho de Ventru respondeu às boas vindas.

- Tua hospitalidade me encanta, Daharius Sarosh, Senhor de Babilônia, Rei da Noite Eterna. Sou grato por ela, e pela dádiva de estar em vossa presença.

Olhou fixamente para Daharius. Havia admiração, mas havia, também, algo mais.

- Venho, meu Senhor, em nome de Nínive e do Império. Forças começam a se movimentar. Murmúrios nos Templos e Palácios. Questionam uma nossa subserviência aos gregos. Exigem que o Império reforce seu controle sobre a Hélas. Nos impelem à Guerra e estão se preparando para ela.

Caminhou pelo salão, em silêncio, por alguns segundos.

- Ainda que os gregos nos paguem os tributos devidos, sua insistência em permanecer como províncias quase autônomas, na opinião de alguns, é um sinal de fraqueza do Império. Somente Tebas se submete formalmente aos Aquemênidas, enquanto todas as outras cidades, segundo boatos, tramam nas sombras para se livrar da nossa autoridade. A situação é potencialmente explosiva. Venho, portanto, beber de vossa Sabedoria e conhecimento, de forma a construir um posicionamento que seja o melhor possível para o Império.



Mithras, Senhor de Nínive.
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Re: Babilônia: A Rainha do Mundo

em Seg Set 17, 2018 11:02 pm
Vê-lo o encantava.

Mithras era uma das escolhas acertadas de Ventru. Daharius lembrou-se quando, três milênios atrás, prometeu ao Rei da Segunda Cidade que avaliaria seus filhos e garantiria que eles se tornassem o que deveriam ser. O Senhor de Nínive era tudo aquilo que Daharius Sarosh vislumbrava para os filhos de Ventru. Talvez, fosse mais.

Sorriu genuinamente pela primeira vez em décadas.


- Tens muito de teu pai, Mithras. Posso vê-lo através de ti.

Caminhou lentamente pelo salão e passou ao lado de Mithras, pensativo. Era natural que as sombras serpenteassem e ganhassem formas diversas nas paredes e no chão com sua passagem. Era quase orquestrado e, ainda sim, era absolutamente natural. Não se moviam em excesso como se estivessem fora de controle e também não se detinham. Abriam passagem para o arauto e o acompanhavam em seguida, como um cortejo sombrio.

- Nomeie-os.

Virou-se em sua direção, estava há alguns passos do filho de Ventru.

- Quem questiona uma absurda subserviência do maior império já visto aos gregos? Quem nos impele à guerra e movimenta-se para tal?

Seu tom de voz era baixo e absolutamente calmo. Sarosh movia-se e falava com pouca paixão. Como alguém que se esforçava para demonstrar um interesse que talvez já o tenha deixado. Colocou ambos os braços para trás e continuou, antes que Mithras iniciasse sua resposta.

- Forjamos homens incapazes de manter-se em paz, Mithras. Transformamos a conquista em hábito. A batalha em uma glória necessária e o avanço em um ato tão comum quanto o respirar dos mortais.

- Não há surpresa na insatisfação dos homens quanto aos tempos de paz. E, certamente, não haverá surpresa quanto a sua resposta às minhas perguntas. Antes que as elucide, contudo, lhe direi sobre os gregos.

- Pagam-nos o devido tributo mas encolhem-se em seus modos e crenças. São um povo que desfruta da liberdade de seu pensar e agir, por hora. São guiados por alguns de nós. Alguns que já caminharam a meu lado. Por eles tenho respeito e talvez por eles os tenha permitido uma liberdade filosófica. São, a dispor disto, vassalos de Pérsia. E assim continuarão a ser.

- Talvez tenha chegado o momento de levantar-me de meu trono empoeirado e caminhar pela Grécia. Há muito não vejo a extensão do Império com meus cansados olhos e há muito não parlamento com os que guiam o povo da Hélas. Agora, Mithras, responda-me. Dê-me o nome que já aguardo.
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Re: Babilônia: A Rainha do Mundo

em Qua Set 19, 2018 5:35 am
Mithras escutou com atenção as palavras de Sarosh. Sua presença física era, de fato, reconfortante. Daharius teve a impressão, por um segundo, de ver Ventru no lugar de sua cria mas era somente isso, uma impressão. Mithras continuava ali. Quando Daharius terminou de falar, pedindo um nome, o Filho de Ventru sorriu, um sorriso franco, que iluminou a sala em beleza infinita.

- Meu Senhor, na última vez em que o vi há duzentos anos atrás, me disse de mandar a ti seu amor e sua esperança de encontrar-te novamente.

Havia passado a mensagem. Imediatamente após fazê-lo, sua postura mudou. Tornou-se rígida, militar. Política. O queixo era ligeiramente mais elevado, as mãos imóveis. Caminhou, com passos firmes e decididos enquanto falava.

- Não posso afirmar nada por enquanto, Daharius. No entanto, grande parte da insatisfação parte de Ectabana, cidade de Urlon. Mercadores mortais reunidos naquela cidade questionam a liberdade de comércio que o Império dá aos gregos, e fazem questão de lembrar que eles já possuem diversas colônias na Asia Menor, na região de Khemet e mesmo nas partes mais ocidentais do mundo. Questionam quanto tempo tardará até que o poderio grego ameace o Império e suas rotas comerciais sufoquem nossa riqueza e glória.

Não era possível, naquele momento, nem mesmo para Sarosh, determinar qual era a opinião de Mithras. Sua fala era um relatório sem emoção, puramente técnico.

- É fato que demos aos gregos liberdades. Mas o temor geral, que começa a alcançar Nínive, é que façam uso desta liberdade para tentar declarar uma independência perante ao Império, e os efeitos de tal ato nas outras satrápias. Além disso, uma separação dos gregos nos enfraqueceria economicamente em uma maneira particularmente perigosa.

Mithras, agora, não olhava para Sarosh. Observava Babilônia através da janela aberta.

- Eu não posso dizer que Urlon tem alguma consciência ou interesse nesta movimentação. Não posso acusar. Mas me parece improvável que grupos radicais se organizem em sua cidade e ele não tenha ciência. Ou interesse. Intuo que discutir tal questão signifique, necessariamente, discuti-la com Urlon. O quanto tais ideais si infiltraram no exército ainda não é de meu conhecimento. Me parece uma posição defendida, substancialmente, pela nobreza e pelos sacerdotes. Justamente as duas forças mais perigosas do Império.

Tornou a olhar para Sarosh. Mithras sequer piscava os olhos.

- Trago esse tema à sua atenção considerando que os cainitas que vivem na Grécia, ao menos a maior parte delas, são tão velhos quanto você é, de forma que é possível que relações existam. Nos falta ciência sobre o papel destes, por exemplo, já que venho ouvindo rumores de que, de fato, existem movimentações em território grego que questionam o Império. Reitero minhas palavras: suas ações e pensamentos terão grande peso sobre as minhas decisões.
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Re: Babilônia: A Rainha do Mundo

em Qua Set 19, 2018 8:34 am
Houve um momento de profunda paz. Uma calmaria que o atingiu como há séculos, talvez milênios, não acontecia. Ouviu sobre ele.

Durou apenas um lapso, veloz mas memorável, de tempo. Seus olhos escuros permaneciam a fitar o filho de Ventru enquanto falava e a expressão ainda era um tanto estoica. Não por desatenção ou desinteresse, era nítido à Mithras que Sarosh desprendia de toda a sua vontade para ouvir, apreender e compreender os anseios do cainita mais jovem. Era, simplesmente, difícil se apegar ao mundano.

A situação política, contudo, o guiava de volta à tomada de decisões e ações. isto acendia, mesmo que apenas um pouco, a chama da vontade no milenar cainita. Caminhou uma vez mais, com os braços voltados para trás.


- Sou grato por ter vindo à mim antes de um necessário debate formal do triunvirato, meu caro. Isto me dá a oportunidade de explicar-lhe um panorama político que tenho elaborado nos últimos anos, de forma que possas me auxiliar com tua visão e ideias na tentativa de colocá-lo em prática.

- O quadro desenha duas resoluções práticas: a guerra ou a política. A tendência de uma parcela dos nossos, por razões que explicitei anteriormente, é conferir uma guinada à primeira antes de exaurir as possibilidades da segunda. Eu, por outro lado, creio que nosso poderio militar e a conquista já realizada precisa ser fortalecida no âmbito político, onde ainda somos frágeis em uma análise rápida.

Parou. Não movia-se mais enquanto continuou a falar. Apenas a mão direita veio à frente, na altura do queixo mas um pouco afastada desse. Passava o polegar sobre um anel em seu dedo indicador, conforme avançava no discurso. Era quase um tique físico para lembrar-lhe de focar a mente que costumava dividir-se em várias tarefas ao mesmo tempo.

- Expandimos de forma que nenhum outro império o fez. Nossas fronteiras são longínquas e a cultura que permeia nossas terras são tão diversas quanto os inúmeros povos conquistados. Somos, em profundidade, descentralizados politicamente. A espinha de nossa estrutura precisa sofrer interferências estratégicas, a meu ver.

- Este quadro possibilita e incentiva revoltas ideológicas e econômicas, como a que surge em Hélas. Como sabes, é de meu domínio o campo da navegação pelo qual o comércio se estende e se firma. A diminuição, e mesmo inexistência, de nossa ação comercial das colônias gregas mais distantes de nosso centro de controle não me passaram desapercebidas.

- Somos dependentes da presença física, massiva, dos nossos para impor controle. Isto é uma falha. É necessário que um sistema ideológico e de tributação fiscalizada por cainitas e mortais imbuídos de poder Persa se torne realidade.


Virou-se, lentamente, para o filho de Ventru. Sarosh continuou a falar, inicialmente explanava o quadro de forma técnica como se buscasse uma distância de sua própria proposta para que a analisasse mais profundamente. Só então, começou a emitir o seu juízo de valor.

- Governantes de terras conquistadas sentem a justa necessidade de se manter em um controle, mesmo que apenas nominal, de suas terras que escaparam-lhe pelos dedos. A tributação das terras é uma questão que precisa também ser avaliada caso a caso. Nestas noites, cobramos pesos em mercadorias e riquezas de forma linear que não compreende as possibilidades de algumas terras que nos pertencem e são irrisórias para outras dentro de nosso domínio. É preciso avançar.

- Elaborei um conjunto de determinações imperiais para uma discussão convosco e com Urlon. As principais delas dizem respeito à uma mudança profunda em nossa estrutura de domínio.  Penso em selecionar e atribuir à homens e cainitas capazes um cargo político de poder para fiscalização e manutenção do poder persa em terras distantes atuando em consonância com o governo atual local. Cainitas estes oriundos destas próprias terras e atraídos por uma estrutura militar robusta como a nossa, que garantirá a funcionalidade de seu governo. Os mortais seguirão o mesmo panorama, sob o olhar daquele imortal que indicarmos para a função.

- Esta estrutura nos possibilitará uma aproximação com as terras distantes que pouco visitamos e que, de fato, fogem ao nosso controle. Uma presença cainita imbuída de poder do império cria também uma relação política com os imortais destas citadas terras. É fácil e prático livrar-se apenas de mortais incômodos, que hoje representam nosso poder em alguns pontos. Isto é raso e frágil. No entanto cria-se uma relação muito mais profunda se houverem nossos cainitas envolvidos e presentes. Crias trazem senhores por trás de suas ações e duas vezes pensarão os que buscarem se opor abertamente à elas.

- Tal prática será implementada em toda terra vassala de Pérsia. A começar pelos centros políticos do oriente. Fortaleceremos nossas bases internas para que lidemos com a questão dos gregos, de igual forma.

- Estes cainitas fiscalização o comércio, a sociedade e o poder militar de cada terra que a nós pertence. Fornecerá relatórios de suas ações e reforçará nossas determinações. O império terá presenças físicas e atuantes nas terras que possui, para além da simples e não menos importante ameaça de nossas numerosas tropas.

- Com a influência política presente e estabelecida, o comércio será ampliado, os tributos avaliados caso a caso e, o que é de suma importância, também necessidades das terras distantes serão avaliadas uma à uma. Perceba que busco, em amplo caso, fortalecer e ampliar tudo aquilo que possuímos. Avaliar e auxiliar as necessidades das terras dominadas é também dever nosso e esta avaliação têm sido deixada de lado.

- Sem atuar por aqueles que dominamos, de forma a fazê-los crescer, minamos o nosso próprio controle. As terras dominadas tornam-se Pérsia e a Pérsia precisa ser forte em todas elas.

- Haverá a necessidade de diálogo com os cainitas das Hélas, é claro. É preciso que fique claro que em unidade a nós aquelas terras crescerão em todos os sentidos. Esta negociação é fundamental, mas somente se dará se a proposta a qual começo a dissecar junto a ti avançar dentro de nossos próprios muros.


Interrompeu-se, deixou um espaço para que Mithras avaliasse o dito até então. Daharius começava a portar-se com mais intensidade, mais presença vívida. Parecia começar a sair de uma casca imóvel que o segurou por muitos séculos de inércia nas sombras.
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Re: Babilônia: A Rainha do Mundo

Ontem à(s) 5:36 am
Mithras se sentou nos degraus que conduziam ao Trono de Sarosh. Ocasionalmente, o cainita tinha reações particularmente mortais, explicitadas em sua linguagem corporal. Mithras levou o punho fechado ao queixo e permaneceu em silêncio, enquanto Daharius se movia e expunha suas ideias e estratégias. O Deus dos Soldados não mudou de expressão em nenhum momento, mas era visível a sua concentração absoluta nas palavras de Sarosh. Ao fim deste, Mithras se recostou nos degraus, apoiados nos cotovelos. Só então respondeu.

- Como resposta às tensões que surgem você propõe, então, um aumento do controle direto do império sobre as áreas dominadas. Eu não tenho nenhum desacordo, acredito que seja a estratégia mais adequada. Contudo, eu imagino que seja exatamente isto que os gregos esperam de ti. Um motivo, uma razão para rebelar-se. E nada poderá ser mais ultrajante aos gregos do que o estabelecimento de uma autoridade estrangeira dentro de seu próprio território.

Mithras parecia pensar antes de falar, mas não tinha, aparentemente, nenhum receio em discordar de Sarosh.

- A aristocracia grega é vaidosa e orgulhosa, Daharius. Estiveram contentes, durante anos, em pagar tributos ao império enquanto mantinham um controle nominal sobre suas terras. Agora, o instinto colaborativo se reduz rapidamente. Obviamente quando falo sobre isso, falo em relações ao mortais. Não conheço pessoalmente os cainitas da Hélas, e sei pouco de suas histórias e de suas influências. Introduzir autoridades nossas na casa do inimigo é um convite à rebelião. E uma rebelião que terá como força principal os estados gregos, que se unirão contra nós assim que encontrarem um motivo razoável. Neste momento, contudo, são isolados por suas próprias diferenças, e é com base nisto que devemos nos organizar.

Se levantou. Caminhou até estar próximo de Daharius antes de continuar.

- Você faz diferença entre a guerra e a política, mas eu te digo: a primeira é somente o prosseguimento da segunda através de outros meios. Na minha opinião, o que os gregos precisam é se lembrar quem somos. E a razão de se submeterem a nós. E isto só pode ser feito através de uma demonstração militar. Nós somos o maior império do mundo, e o somos baseados na força, não na diplomacia. Além disso tenha em mente uma coisa que discutimos no início: é difícil construir um império baseado na guerra e na conquista e em seguida recusar-se a usar estes instrumentos. Há forças dentro do nosso exército que exigem a guerra, exigem o conflito. Ectabana e Urlon fazem parte destas forças. Obviamente, seguirei tuas instruções, que me parecem mais sábias do que aquelas do Selvagem. Mas penso que leve em consideração os elementos que levantei. Tenha em mente também que meus informantes sugerem que tal insatisfação na Hélas tem foco em Micenas, cidade dominada pelo Clã da Rosa. Talvez esmagar Micenas antes que as outras cidades se aliem a ela seja um movimento mais sábio.
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Re: Babilônia: A Rainha do Mundo

Ontem à(s) 8:32 am
Sarosh ouviu, atenciosamente, todas as palavras de Mithras. Sorriu ao final delas. Era um sorriso tenro, carregado de saudosismo.

- É curioso como os papéis se invertem. Houve uma vez na qual eu falava como vós e o teu pai usava de minhas palavras. É curioso também como sendo filho dele lembras tanto à mim mesmo, em um passado distante.

Sentou-se nas escadarias a seu lado. O tratava como um igual, a dispor da idade que distanciava os dois.  Sarosh tinha um genuíno respeito por Mithras, por aquele cainita forjado nas guerras persas. Quando começou a falar, tinha um ar professoral, estava preocupado em explanar de forma clara o seu pensar para que não houvessem dúvidas de seu intento.

- Tens razão. A guerra é uma ação política e não tenho desacordo para tal. Contudo, é preciso ser hábil para distinguir o momento de agir com a força ou com a diplomacia. Tenho uma visão, Mithras. Uma visão de Império que se constrói, noite após noite, nesta minha inquieta mente.

- Já conquistamos o mundo e ele conhece a nossa força. A guerra foi e sempre será necessária para estabelecer alguns limites e avançar sobre eles. Agora, que observamos de cima o conquistado, devemos pensar em como ele deve ser gerido e sustentado.


- Quando proponho governantes imperiais nas terras conquistadas, sugiro também que sejam oriundos destas próprias terras. Pergunto-lhe, um Império levanta-se e rebela-se, gratuitamente, contra si mesmo?

Sorriu. Parecia mais importante à Sarosh naquele momento tentar transformar sua visão em uma aspiração conjunta à do filho de Ventru do que transformá-la em realidade, de fato, neste momento.

- Os gregos, nestas noites, não possuem um sentimento de pertença ao império. São dominados, conquistados e nada mais. Este é um quadro que gerará rebeliões indefinidamente. Esmagar Micenas pode aplacá-los por algum tempo, mas por quanto? O ressentimento da perda de suas terras e de seus próximos tende a ser maior que o medo de nosso avanço com o passar do tempo.

- Um Império de medo se cria, mas não se sustenta, Mithras.

- Minha visão é mais simples do que parece. Indicando e abraçando os líderes locais transformando-os em nossos porta-vozes, munidos de nossa força militar, atraídos por segurança e tendo sua economia avaliada e fortalecida por intervenção de um império do nosso porte, perceberão que as terras e o povo crescerão economicamente como nunca antes.

- Na primeira geração de mortais haverão focos de resistência. Serão contra a união dos povos e a gestão Persa sobre suas liberdades individuais, mesmo que geridos por alguém de seu próprio povo. Estes sim, deverão ser esmagados total e completamente. Na segunda geração, estarão já miscigenados culturalmente o suficiente para encarar com naturalidade a política vigente. Na terceira geração, não haverão mais "Os Persas e os Gregos". Haverá um único e sustentável Império.

- Os cainitas das Hélas são conhecidos por mim. Micenas deve abrigar Arikel, a matriarca do Clã da Rosa, e alguns de seus filhos. Talvez Mi-Ka-Il e, sem dúvidas após tanto tempo passado, alguns mais. Em Atenas está um antigo e próximo aliado. Talvez não mais. Amon, o filho do perdido Ilyas. Filhos de Ventru também caminham naquelas terras, como sabes. Dialogar com eles - com a maioria deles - faria parte de minha visão.

Colocou a mão sobre o ombro do filho de Ventru, estavam sentados lado a lado.

- A guerra precisa, sempre, ser um meio Mithras. Sempre. Jamais a torne um fim em si mesma. Tens a minha resposta e, com ela, minha total confiança em vossa ação.

Sorriu, levemente, pela última vez antes de voltar a assumir uma expressão um tanto estoica, levantar-se e concluir.


- Talvez não estejamos preparados, ainda, para pôr em prática este tipo de Império. Portanto, Mithras, convoquemos o triunvirato. Urlon deve ser ouvido e a determinação sobre o avanço se dará em conjunção às nossas palavras, com a minha já determinada.

- A minha determinação é de que Mithras, Deus dos Soldados, decidirá sobre o avanço ou não de nossas forças.
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Re: Babilônia: A Rainha do Mundo

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