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Babilônia: A Rainha do Mundo

em Qui Set 13, 2018 6:43 am
Quão grande e gloriosa era a Babilônia de Curus, O Grande, de seu Filho Cambises e, agora, de Dariûsh, O Grande!

Que Ishtar, Enlil e Ereshkigal abençoem, para todo o sempre, a Babilônia e os Aquemênidas!

Era imensa, Babilônia. Era uma ideia. Um conceito. Dezenas de idiomas eram falados ali. Homens e mulheres de todas as partes do mundo ali se congregavam. Babilônia era a encruzilhada do Mundo. Suas ruas largas, seus Zigurates e infinitos templos, seus mercado e suas estradas floresciam sob o céu escuro. O tempo da guerra era somente uma lembrança vaga na mente dos mortais. Mitos surgiram, envolvendo a raça cainita em mistérios e informações equivocadas. Neste cenário, a prole de Caim também floresceu. Se tornou grande. O Império criado por Curus abrigava a todos que, unidos em uma única ideia de glória eterna, harmonia e beleza, esqueciam suas diferenças.

A Planície poderia ter muitas cidades. Ectabana, Nínive e Sussa eram gloriosas. Mas nenhuma cidade na Terra poderia competir com a Babilônia e seus jardins, seus campos cultivados, seus canais de irrigação. Nada podia competir com o por do sol visto do alto dos Zigurates, com a música e a alegria que reinavam ali, com a riqueza que circulava em suas praças amplas e ventiladas. Babilônia era uma obra de arte de engenharia. O centro de um Império que se estendia da Bactria, no extremo Leste até a Síria e Egito no Oeste, passando pela Macedônia e Trácia. Somente a Héllas permanecia fora do controle direto dos Aquemênidas. Mas eram, de qualquer forma, vassalos nominais, pagando pesados tributos que contribuíam para a riqueza do Império.

Aquele era o centro do Mundo. E na cidade mais bela do maior Império jamais construído se sentava Daharius Sarosh, Senhor de Curus e Kurush-Amir, Progênie de Laza Omri Baras.

Daharius estava satisfeito. Muito daquele lugar era fruto de seu pensamento, de suas ideias e de suas convicções. Sob seu punho forte, o Império era a maior força militar dos mundo. Nada poderia resistir à sua força. Daharius guerreou, novamente, contra a Corte de Fogo, assinando com estes Tratados de submissão. Encontrou seus primos distantes do Vale do Indo e delimitou o alcance do Império, não invadindo as terras de Zapathasura e seus Filhos. Encontrou com os Filhos de Haqim, que decidiram não intervir na expansão imperial, embora não de forma unânime, contanto que sua autonomia fosse respeitada. Nenhum cainita havia criado algo de tamanha beleza e eficiência quanto Daharius Sarosh.

Que, porém, não havia criado tudo sozinho.

Inúmeros cainitas, por saudosismo ou senso de oportunidades, havia feito do Império a sua morada. Sarosh parlamentava com eles, escutando-os e tentando colocá-los em posições que atendessem às suas ambições. Até então havia funcionado bem. Dois deles, porém, estavam em pé de igualdade com Daharius no que dizia respeito à autoridade.

Em Nínive, reinava Mithras, o Deus Sol, Senhor da Guerra e dos Soldados. Era um Filho de Ventru. Força, determinação e desejo de ordem profunda e inquestionável eram as suas assinaturas.

Em Ectabana reinava Urlon, Filho de Ennoia, nascido em Uruk. Era quase tão velho quanto Sarosh, e comandava, sozinho, um terço das forças militares do Império reunidas na não menos gloriosa cidade que habiatava. Urlon era a personificação da violência e do desejo de conquista, um homem que havia nascido no Império antes mesmo que este o fosse.

Em seu Zigurate particular, centro de adoração da Deusa da Escuridão Ereshkigal, que tinha um número grande de devotos oriundos dos Filhos de Laza e dos carniçais que os serviam, se sentava Daharius. Ali recebia visitantes e petições, recebia dignatários mortais do Império e das províncias submetidas. Recebia cainitas estrangeiros que desejavam se estabelecer em Babilônia. Nada acontecia ali que Daharius não soubesse. Seus homens patrulhavam a cidade. Seu Filho mais novo, Curus, os comandava. O mais velho, Kurush-Amir, havia se estabelecido em Tarso, na Cilícia, de onde observava e monitorava os navegantes do Mar Interno e conduzia os comerciantes da Fenícia e de Héllas em direção à Babilônia de seu Pai.

Era difícil não encarar Daharius Sarosh como um Deus Vivo. Adoração era feita em seu nome e ele sabia que um culto secreto, que tinha mais informações, ainda que equivocadas, sobre a sua natureza imortal se havia erguido em seu nome no coração da Babilônia.

Foi em uma noite de verão particularmente abafada que Daharius soube que emissários de Nínive adentravam Babilônia. Eram recebidos com festa e alegria, Nínive era um centro cultural importante, sede dos Jardins Suspensos, maior obra de engenharia do mundo, e local para onde a aristocracia da Babilônia enviava seus filhos para que aprendessem sobre astronomia, arte militar e diplomacia. Em Nínive também eram treinados e instruídos a maior parte dos Sacerdotes que operavam no Império.

Em Nínive, se sentava Mithras. E era Mithras quem avançava pelas ruas largas da Babilônia em direção à Daharius Sarosh naquela noite.
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Re: Babilônia: A Rainha do Mundo

em Sab Set 15, 2018 10:13 pm
Quatro mil anos.

Estoico era o olhar a encarar o globo escuro como a noite, reflexivo e maleável, que levitava sobre a palma da sua mão direita. Através dele todo o Império revelava-se aos olhos de Daharius Sarosh.

Via a Pérsia erguida por grandes homens como Aquemênes e seu filho Teispes de Anshan, Ciro, o primeiro e seu sucessor Cambises e, finalmente, Curus, o Grande. O Segundo Ciro foi àquele a conquistar e unificar as terras naquele que se tornou o maior dos impérios de toda a história da humanidade. Todos foram guiados, instruídos e levados à ação pela mão sombria de Daharius Sarosh.

Haviam outros, valorosos aliados como Mithras de Nínive e outros instáveis mas necessários como Urlon de Ecbatana. Os via, também, em suas cidades de domínio.

Via, em todos os lugares, a beleza arquitetônica se estender e se perder no horizonte. Via os homens formarem imensos e imparáveis exércitos. Via riquezas e fartura. Via, no mar, incontáveis embarcações que o pertenciam e foram forjadas através dos vassalos fenícios e egípcios.

Era belo, o que via. Ainda sim, permanecia estoico. O sabor da conquista e da realização diminuía a cada noite. Tudo era lúgubre, opaco e sem vida. Não deixava o salão de petições no qual recebia os vampiros que buscavam audiências diversas há longas noites e pouco - ou nada - importava-se com os cultos crescentes em seu nome.

A humanidade o enxergaria como desejassem. Seria um Deus, um Demônio ou uma força inconcebível da natureza que os arrebata em crença e temor conforme o desejo no coração dos mortais clamasse. Para ele, era irrelevante. Apenas o dever da coesão se fazia presente.

Seus braços sombrios alcançavam o mundo agora. Os olhos escuros vasculhavam a vastidão das terras conquistadas em uma incessante, e cada vez mais desinteressante, busca pela necessidade de intervenção.

Moldou centenas de jovens vampiros através do domínio, da dor e da perda. Os deu também vitória, esperança e conquista. Transformou frágeis pacifistas em homens de valor e fibra. Deu-lhes uma razão pela qual se tornarem mais.

Fomentou guerras que criaram grandes nomes. Mithras, o Deus dos Soldados e filho de Ventru, era um deles. Lhe retirava do marasmo vislumbrar a aproximação dele. O jovem vampiro era um modelo daquilo que talvez já tenha sido Sarosh, milênios atrás. Era impetuoso, firme e de presença marcante aquele filho do Rei dos Reis. Era como deveria ser e como Daharius garantiu que o fosse, agindo das sombras que guarnece.

Estava sentado em um trono de pedra escura, quase obsidiana, que lembrava parcamente aqueles de Nippur. Ou talvez fosse completamente diferente. Não mais se lembrava da segunda cidade, era um borrão passado que jamais retornaria.

Em seu colo jazia uma das sacerdotisas do Deus da Noite. Pensou tê-las ouvido falar sobre tal alcunha. Era irrelevante, novamente. Bebia de seu pulso esquerdo enquanto o corpo em êxtase da mulher mexia-se sobre o seu até cessar. Estava morta. Perdeu-se em pensamentos e bebeu além do necessário nesta noite. Irrelevante, uma vez mais.

Levaram o corpo para uma enterro ritualístico em júbilo e gratidão. Tinha se tornado hábito. Encaravam o sacrifício como uma benção e uma passagem para o império da noite, ainda maior e mais glorioso que aquele no qual viviam. Sarosh permanecia estoico a observar o círculo de trevas que tudo lhe mostrava.

Foi então que o Deus dos Soldados se fez presente e Sarosh levantou-se de seu Trono, para que parlamentassem em igualdade. Enxergava no jovem aquilo que poderia ainda ser, não fossem pesados os milênios.

Trajava vestes de tecido escuro com adornos dourados, de riquíssimos entalhes, que lhe caíam sobre o corpo como um manto. Algumas jóias adornavam seus dedos. Seus olhos eram cada vez mais escuros e sobrenaturais. Nenhuma luz puljante durava próxima à Sarosh. Tornavam-se parcas e lúgubres. Sua expressão era fria, imutável, como a de alguém que não pode ser surpreendido e não se apega a emoções já vividas. Elas, as emoções, são lembranças frágeis de outros tempos.

Possuía uma presença que esmagaria, inconsciente e naturalmente, os fracos de espírito. Não se importou pois sabia que diante de si estava um outro de semelhante porte.

Quando falou, sua inconfundível e sobrenaturalmente bela voz chegou ao filho de Ventru, saudando-o. Era genuíno, embora fosse frio e estático.


- Mithras, Filho de Ventru. Deus dos Soldados e Regente de Nínive. A ti estão abertos os portões da Babilônia e com eles a minha hospitalidade se faz presente.



Última edição por Sarosh em Dom Set 16, 2018 6:22 am, editado 1 vez(es)
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Re: Babilônia: A Rainha do Mundo

em Dom Set 16, 2018 6:21 am
Esperou que Mithras cruzasse as estradas de Babilônia antes de adentrar o antigo Zigurate no qual se refugiava. Seus sentidos, ampliados graças aos seus Dons, lhe permitiam ver o avanço do cainita mais jovem pelas ruas pavimentadas. Ali, em Babilônia, o Culto de Mithras era forte, e os soldados costumavam realizar o sacrifício de enormes bovinos para aplacar a sede de sua Divindade e garantir o seu favor durante as batalhas. Mithras atendia tais pedidos, cavalgando em batalha com sua espada em riste, pronto para despedaçar o Inimigo. Era um guerreiro, aquele cainita, e Sarosh intuia que ele dificilmente permaneceria sentado em Nínive enquanto os exércitos persas estivessem em campanha. Era inspiradora a sua presença em campo de batalha, e mais de uma vitória tinha sido creditada à sua atuação decisiva.

Quando adentrou, Sarosh se levantou para recebê-lo. A passos lentos e respeitosos, Mithras adentrou o longo corredor que separava a entrada principal daquela sala do Trono em que se sentava. Era repleta de altíssimas colunas que sustentavam um teto igualmente alto. Espalhadas estavam tapeçarias e troféus de batalhas perdidas, além de alguns mortais que serviam ao Senhor da Babilônia. O salão era desprovido de janelas, mas dispunha de algumas pequenas fissuras por onde entravam a luz da lua. O Trono se localizava em uma pequena elevação no fundo do salão, possibilitando que os visitantes tivessem de caminhar por alguns segundos antes de alcançar Daharius, segundos preciosos para que ele os avaliasse e descobrisse suas intenções.

Avaliou Mithras, como se fosse a primeira vez.

Era um homem impressionante. A pele era morena, como se queimada pelo sol e imune à palidez típica da idade. Os olhos eram escuros, com sobrancelhas bem desenhadas e uma barba igualmente bem feita. Era quase tão alto quanto Daharius, com um porte físico de guerreiro: ombros largos, pernas poderosas. Vestia-se de forma leve, com tecidos finos que se tornavam esvoaçantes ao seu caminhar. Por debaixo das vestes brancas, se podia ver uma armadura leve, de cor dourada. Nos pés, sandálias típicas da Pérsia.

A presença de Mithras, embora não tão potente quanto a de Daharius, era particularmente intensa. Não dispunha da aura de mistério e de escuridão que circundava Sarosh. Era exatamente o contrário: Mithras era radiante como o sol, parecia quase brilhar. Sua presença parecia inspirar cada pessoas ao seu redor a ser o melhor possível, o mais competente possível. Mithras era o Sol que brilhava ao meio dia, que portava os homens à luta, ao trabalho e à criação. Além de tudo, era belo. Uma beleza clássica, masculina, humana. Caminhava como Ventru, altivo, quase arrogante. Suas mãos lembravam as de Ventru, fortes e longas. Seu Sangue cheirava ao de Ventru. Ventru, a quem Daharius não via há milênios, tornava a ocupar os pensamentos do Arauto do Abismo.

Mithras, enfim, aproximou-se do Trono. Flexionou o joelho esquerdo quando ouviu as palavras de Sarosh. Não o fez por submissão, o fez por respeito. Sarosh sabia que Mithras o admirava intensamente, se espelhava, de certa forma, nele. Quando Daharius terminou, o Filho de Ventru respondeu às boas vindas.

- Tua hospitalidade me encanta, Daharius Sarosh, Senhor de Babilônia, Rei da Noite Eterna. Sou grato por ela, e pela dádiva de estar em vossa presença.

Olhou fixamente para Daharius. Havia admiração, mas havia, também, algo mais.

- Venho, meu Senhor, em nome de Nínive e do Império. Forças começam a se movimentar. Murmúrios nos Templos e Palácios. Questionam uma nossa subserviência aos gregos. Exigem que o Império reforce seu controle sobre a Hélas. Nos impelem à Guerra e estão se preparando para ela.

Caminhou pelo salão, em silêncio, por alguns segundos.

- Ainda que os gregos nos paguem os tributos devidos, sua insistência em permanecer como províncias quase autônomas, na opinião de alguns, é um sinal de fraqueza do Império. Somente Tebas se submete formalmente aos Aquemênidas, enquanto todas as outras cidades, segundo boatos, tramam nas sombras para se livrar da nossa autoridade. A situação é potencialmente explosiva. Venho, portanto, beber de vossa Sabedoria e conhecimento, de forma a construir um posicionamento que seja o melhor possível para o Império.



Mithras, Senhor de Nínive.
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Re: Babilônia: A Rainha do Mundo

em Seg Set 17, 2018 11:02 pm
Vê-lo o encantava.

Mithras era uma das escolhas acertadas de Ventru. Daharius lembrou-se quando, três milênios atrás, prometeu ao Rei da Segunda Cidade que avaliaria seus filhos e garantiria que eles se tornassem o que deveriam ser. O Senhor de Nínive era tudo aquilo que Daharius Sarosh vislumbrava para os filhos de Ventru. Talvez, fosse mais.

Sorriu genuinamente pela primeira vez em décadas.


- Tens muito de teu pai, Mithras. Posso vê-lo através de ti.

Caminhou lentamente pelo salão e passou ao lado de Mithras, pensativo. Era natural que as sombras serpenteassem e ganhassem formas diversas nas paredes e no chão com sua passagem. Era quase orquestrado e, ainda sim, era absolutamente natural. Não se moviam em excesso como se estivessem fora de controle e também não se detinham. Abriam passagem para o arauto e o acompanhavam em seguida, como um cortejo sombrio.

- Nomeie-os.

Virou-se em sua direção, estava há alguns passos do filho de Ventru.

- Quem questiona uma absurda subserviência do maior império já visto aos gregos? Quem nos impele à guerra e movimenta-se para tal?

Seu tom de voz era baixo e absolutamente calmo. Sarosh movia-se e falava com pouca paixão. Como alguém que se esforçava para demonstrar um interesse que talvez já o tenha deixado. Colocou ambos os braços para trás e continuou, antes que Mithras iniciasse sua resposta.

- Forjamos homens incapazes de manter-se em paz, Mithras. Transformamos a conquista em hábito. A batalha em uma glória necessária e o avanço em um ato tão comum quanto o respirar dos mortais.

- Não há surpresa na insatisfação dos homens quanto aos tempos de paz. E, certamente, não haverá surpresa quanto a sua resposta às minhas perguntas. Antes que as elucide, contudo, lhe direi sobre os gregos.

- Pagam-nos o devido tributo mas encolhem-se em seus modos e crenças. São um povo que desfruta da liberdade de seu pensar e agir, por hora. São guiados por alguns de nós. Alguns que já caminharam a meu lado. Por eles tenho respeito e talvez por eles os tenha permitido uma liberdade filosófica. São, a dispor disto, vassalos de Pérsia. E assim continuarão a ser.

- Talvez tenha chegado o momento de levantar-me de meu trono empoeirado e caminhar pela Grécia. Há muito não vejo a extensão do Império com meus cansados olhos e há muito não parlamento com os que guiam o povo da Hélas. Agora, Mithras, responda-me. Dê-me o nome que já aguardo.
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Re: Babilônia: A Rainha do Mundo

em Qua Set 19, 2018 5:35 am
Mithras escutou com atenção as palavras de Sarosh. Sua presença física era, de fato, reconfortante. Daharius teve a impressão, por um segundo, de ver Ventru no lugar de sua cria mas era somente isso, uma impressão. Mithras continuava ali. Quando Daharius terminou de falar, pedindo um nome, o Filho de Ventru sorriu, um sorriso franco, que iluminou a sala em beleza infinita.

- Meu Senhor, na última vez em que o vi há duzentos anos atrás, me disse de mandar a ti seu amor e sua esperança de encontrar-te novamente.

Havia passado a mensagem. Imediatamente após fazê-lo, sua postura mudou. Tornou-se rígida, militar. Política. O queixo era ligeiramente mais elevado, as mãos imóveis. Caminhou, com passos firmes e decididos enquanto falava.

- Não posso afirmar nada por enquanto, Daharius. No entanto, grande parte da insatisfação parte de Ectabana, cidade de Urlon. Mercadores mortais reunidos naquela cidade questionam a liberdade de comércio que o Império dá aos gregos, e fazem questão de lembrar que eles já possuem diversas colônias na Asia Menor, na região de Khemet e mesmo nas partes mais ocidentais do mundo. Questionam quanto tempo tardará até que o poderio grego ameace o Império e suas rotas comerciais sufoquem nossa riqueza e glória.

Não era possível, naquele momento, nem mesmo para Sarosh, determinar qual era a opinião de Mithras. Sua fala era um relatório sem emoção, puramente técnico.

- É fato que demos aos gregos liberdades. Mas o temor geral, que começa a alcançar Nínive, é que façam uso desta liberdade para tentar declarar uma independência perante ao Império, e os efeitos de tal ato nas outras satrápias. Além disso, uma separação dos gregos nos enfraqueceria economicamente em uma maneira particularmente perigosa.

Mithras, agora, não olhava para Sarosh. Observava Babilônia através da janela aberta.

- Eu não posso dizer que Urlon tem alguma consciência ou interesse nesta movimentação. Não posso acusar. Mas me parece improvável que grupos radicais se organizem em sua cidade e ele não tenha ciência. Ou interesse. Intuo que discutir tal questão signifique, necessariamente, discuti-la com Urlon. O quanto tais ideais si infiltraram no exército ainda não é de meu conhecimento. Me parece uma posição defendida, substancialmente, pela nobreza e pelos sacerdotes. Justamente as duas forças mais perigosas do Império.

Tornou a olhar para Sarosh. Mithras sequer piscava os olhos.

- Trago esse tema à sua atenção considerando que os cainitas que vivem na Grécia, ao menos a maior parte delas, são tão velhos quanto você é, de forma que é possível que relações existam. Nos falta ciência sobre o papel destes, por exemplo, já que venho ouvindo rumores de que, de fato, existem movimentações em território grego que questionam o Império. Reitero minhas palavras: suas ações e pensamentos terão grande peso sobre as minhas decisões.
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Re: Babilônia: A Rainha do Mundo

em Qua Set 19, 2018 8:34 am
Houve um momento de profunda paz. Uma calmaria que o atingiu como há séculos, talvez milênios, não acontecia. Ouviu sobre ele.

Durou apenas um lapso, veloz mas memorável, de tempo. Seus olhos escuros permaneciam a fitar o filho de Ventru enquanto falava e a expressão ainda era um tanto estoica. Não por desatenção ou desinteresse, era nítido à Mithras que Sarosh desprendia de toda a sua vontade para ouvir, apreender e compreender os anseios do cainita mais jovem. Era, simplesmente, difícil se apegar ao mundano.

A situação política, contudo, o guiava de volta à tomada de decisões e ações. isto acendia, mesmo que apenas um pouco, a chama da vontade no milenar cainita. Caminhou uma vez mais, com os braços voltados para trás.


- Sou grato por ter vindo à mim antes de um necessário debate formal do triunvirato, meu caro. Isto me dá a oportunidade de explicar-lhe um panorama político que tenho elaborado nos últimos anos, de forma que possas me auxiliar com tua visão e ideias na tentativa de colocá-lo em prática.

- O quadro desenha duas resoluções práticas: a guerra ou a política. A tendência de uma parcela dos nossos, por razões que explicitei anteriormente, é conferir uma guinada à primeira antes de exaurir as possibilidades da segunda. Eu, por outro lado, creio que nosso poderio militar e a conquista já realizada precisa ser fortalecida no âmbito político, onde ainda somos frágeis em uma análise rápida.

Parou. Não movia-se mais enquanto continuou a falar. Apenas a mão direita veio à frente, na altura do queixo mas um pouco afastada desse. Passava o polegar sobre um anel em seu dedo indicador, conforme avançava no discurso. Era quase um tique físico para lembrar-lhe de focar a mente que costumava dividir-se em várias tarefas ao mesmo tempo.

- Expandimos de forma que nenhum outro império o fez. Nossas fronteiras são longínquas e a cultura que permeia nossas terras são tão diversas quanto os inúmeros povos conquistados. Somos, em profundidade, descentralizados politicamente. A espinha de nossa estrutura precisa sofrer interferências estratégicas, a meu ver.

- Este quadro possibilita e incentiva revoltas ideológicas e econômicas, como a que surge em Hélas. Como sabes, é de meu domínio o campo da navegação pelo qual o comércio se estende e se firma. A diminuição, e mesmo inexistência, de nossa ação comercial das colônias gregas mais distantes de nosso centro de controle não me passaram desapercebidas.

- Somos dependentes da presença física, massiva, dos nossos para impor controle. Isto é uma falha. É necessário que um sistema ideológico e de tributação fiscalizada por cainitas e mortais imbuídos de poder Persa se torne realidade.


Virou-se, lentamente, para o filho de Ventru. Sarosh continuou a falar, inicialmente explanava o quadro de forma técnica como se buscasse uma distância de sua própria proposta para que a analisasse mais profundamente. Só então, começou a emitir o seu juízo de valor.

- Governantes de terras conquistadas sentem a justa necessidade de se manter em um controle, mesmo que apenas nominal, de suas terras que escaparam-lhe pelos dedos. A tributação das terras é uma questão que precisa também ser avaliada caso a caso. Nestas noites, cobramos pesos em mercadorias e riquezas de forma linear que não compreende as possibilidades de algumas terras que nos pertencem e são irrisórias para outras dentro de nosso domínio. É preciso avançar.

- Elaborei um conjunto de determinações imperiais para uma discussão convosco e com Urlon. As principais delas dizem respeito à uma mudança profunda em nossa estrutura de domínio.  Penso em selecionar e atribuir à homens e cainitas capazes um cargo político de poder para fiscalização e manutenção do poder persa em terras distantes atuando em consonância com o governo atual local. Cainitas estes oriundos destas próprias terras e atraídos por uma estrutura militar robusta como a nossa, que garantirá a funcionalidade de seu governo. Os mortais seguirão o mesmo panorama, sob o olhar daquele imortal que indicarmos para a função.

- Esta estrutura nos possibilitará uma aproximação com as terras distantes que pouco visitamos e que, de fato, fogem ao nosso controle. Uma presença cainita imbuída de poder do império cria também uma relação política com os imortais destas citadas terras. É fácil e prático livrar-se apenas de mortais incômodos, que hoje representam nosso poder em alguns pontos. Isto é raso e frágil. No entanto cria-se uma relação muito mais profunda se houverem nossos cainitas envolvidos e presentes. Crias trazem senhores por trás de suas ações e duas vezes pensarão os que buscarem se opor abertamente à elas.

- Tal prática será implementada em toda terra vassala de Pérsia. A começar pelos centros políticos do oriente. Fortaleceremos nossas bases internas para que lidemos com a questão dos gregos, de igual forma.

- Estes cainitas fiscalização o comércio, a sociedade e o poder militar de cada terra que a nós pertence. Fornecerá relatórios de suas ações e reforçará nossas determinações. O império terá presenças físicas e atuantes nas terras que possui, para além da simples e não menos importante ameaça de nossas numerosas tropas.

- Com a influência política presente e estabelecida, o comércio será ampliado, os tributos avaliados caso a caso e, o que é de suma importância, também necessidades das terras distantes serão avaliadas uma à uma. Perceba que busco, em amplo caso, fortalecer e ampliar tudo aquilo que possuímos. Avaliar e auxiliar as necessidades das terras dominadas é também dever nosso e esta avaliação têm sido deixada de lado.

- Sem atuar por aqueles que dominamos, de forma a fazê-los crescer, minamos o nosso próprio controle. As terras dominadas tornam-se Pérsia e a Pérsia precisa ser forte em todas elas.

- Haverá a necessidade de diálogo com os cainitas das Hélas, é claro. É preciso que fique claro que em unidade a nós aquelas terras crescerão em todos os sentidos. Esta negociação é fundamental, mas somente se dará se a proposta a qual começo a dissecar junto a ti avançar dentro de nossos próprios muros.


Interrompeu-se, deixou um espaço para que Mithras avaliasse o dito até então. Daharius começava a portar-se com mais intensidade, mais presença vívida. Parecia começar a sair de uma casca imóvel que o segurou por muitos séculos de inércia nas sombras.
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Re: Babilônia: A Rainha do Mundo

em Sex Set 21, 2018 5:36 am
Mithras se sentou nos degraus que conduziam ao Trono de Sarosh. Ocasionalmente, o cainita tinha reações particularmente mortais, explicitadas em sua linguagem corporal. Mithras levou o punho fechado ao queixo e permaneceu em silêncio, enquanto Daharius se movia e expunha suas ideias e estratégias. O Deus dos Soldados não mudou de expressão em nenhum momento, mas era visível a sua concentração absoluta nas palavras de Sarosh. Ao fim deste, Mithras se recostou nos degraus, apoiados nos cotovelos. Só então respondeu.

- Como resposta às tensões que surgem você propõe, então, um aumento do controle direto do império sobre as áreas dominadas. Eu não tenho nenhum desacordo, acredito que seja a estratégia mais adequada. Contudo, eu imagino que seja exatamente isto que os gregos esperam de ti. Um motivo, uma razão para rebelar-se. E nada poderá ser mais ultrajante aos gregos do que o estabelecimento de uma autoridade estrangeira dentro de seu próprio território.

Mithras parecia pensar antes de falar, mas não tinha, aparentemente, nenhum receio em discordar de Sarosh.

- A aristocracia grega é vaidosa e orgulhosa, Daharius. Estiveram contentes, durante anos, em pagar tributos ao império enquanto mantinham um controle nominal sobre suas terras. Agora, o instinto colaborativo se reduz rapidamente. Obviamente quando falo sobre isso, falo em relações ao mortais. Não conheço pessoalmente os cainitas da Hélas, e sei pouco de suas histórias e de suas influências. Introduzir autoridades nossas na casa do inimigo é um convite à rebelião. E uma rebelião que terá como força principal os estados gregos, que se unirão contra nós assim que encontrarem um motivo razoável. Neste momento, contudo, são isolados por suas próprias diferenças, e é com base nisto que devemos nos organizar.

Se levantou. Caminhou até estar próximo de Daharius antes de continuar.

- Você faz diferença entre a guerra e a política, mas eu te digo: a primeira é somente o prosseguimento da segunda através de outros meios. Na minha opinião, o que os gregos precisam é se lembrar quem somos. E a razão de se submeterem a nós. E isto só pode ser feito através de uma demonstração militar. Nós somos o maior império do mundo, e o somos baseados na força, não na diplomacia. Além disso tenha em mente uma coisa que discutimos no início: é difícil construir um império baseado na guerra e na conquista e em seguida recusar-se a usar estes instrumentos. Há forças dentro do nosso exército que exigem a guerra, exigem o conflito. Ectabana e Urlon fazem parte destas forças. Obviamente, seguirei tuas instruções, que me parecem mais sábias do que aquelas do Selvagem. Mas penso que leve em consideração os elementos que levantei. Tenha em mente também que meus informantes sugerem que tal insatisfação na Hélas tem foco em Micenas, cidade dominada pelo Clã da Rosa. Talvez esmagar Micenas antes que as outras cidades se aliem a ela seja um movimento mais sábio.
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Re: Babilônia: A Rainha do Mundo

em Sex Set 21, 2018 8:32 am
Sarosh ouviu, atenciosamente, todas as palavras de Mithras. Sorriu ao final delas. Era um sorriso tenro, carregado de saudosismo.

- É curioso como os papéis se invertem. Houve uma vez na qual eu falava como vós e o teu pai usava de minhas palavras. É curioso também como sendo filho dele lembras tanto à mim mesmo, em um passado distante.

Sentou-se nas escadarias a seu lado. O tratava como um igual, a dispor da idade que distanciava os dois.  Sarosh tinha um genuíno respeito por Mithras, por aquele cainita forjado nas guerras persas. Quando começou a falar, tinha um ar professoral, estava preocupado em explanar de forma clara o seu pensar para que não houvessem dúvidas de seu intento.

- Tens razão. A guerra é uma ação política e não tenho desacordo para tal. Contudo, é preciso ser hábil para distinguir o momento de agir com a força ou com a diplomacia. Tenho uma visão, Mithras. Uma visão de Império que se constrói, noite após noite, nesta minha inquieta mente.

- Já conquistamos o mundo e ele conhece a nossa força. A guerra foi e sempre será necessária para estabelecer alguns limites e avançar sobre eles. Agora, que observamos de cima o conquistado, devemos pensar em como ele deve ser gerido e sustentado.


- Quando proponho governantes imperiais nas terras conquistadas, sugiro também que sejam oriundos destas próprias terras. Pergunto-lhe, um Império levanta-se e rebela-se, gratuitamente, contra si mesmo?

Sorriu. Parecia mais importante à Sarosh naquele momento tentar transformar sua visão em uma aspiração conjunta à do filho de Ventru do que transformá-la em realidade, de fato, neste momento.

- Os gregos, nestas noites, não possuem um sentimento de pertença ao império. São dominados, conquistados e nada mais. Este é um quadro que gerará rebeliões indefinidamente. Esmagar Micenas pode aplacá-los por algum tempo, mas por quanto? O ressentimento da perda de suas terras e de seus próximos tende a ser maior que o medo de nosso avanço com o passar do tempo.

- Um Império de medo se cria, mas não se sustenta, Mithras.

- Minha visão é mais simples do que parece. Indicando e abraçando os líderes locais transformando-os em nossos porta-vozes, munidos de nossa força militar, atraídos por segurança e tendo sua economia avaliada e fortalecida por intervenção de um império do nosso porte, perceberão que as terras e o povo crescerão economicamente como nunca antes.

- Na primeira geração de mortais haverão focos de resistência. Serão contra a união dos povos e a gestão Persa sobre suas liberdades individuais, mesmo que geridos por alguém de seu próprio povo. Estes sim, deverão ser esmagados total e completamente. Na segunda geração, estarão já miscigenados culturalmente o suficiente para encarar com naturalidade a política vigente. Na terceira geração, não haverão mais "Os Persas e os Gregos". Haverá um único e sustentável Império.

- Os cainitas das Hélas são conhecidos por mim. Micenas deve abrigar Arikel, a matriarca do Clã da Rosa, e alguns de seus filhos. Talvez Mi-Ka-Il e, sem dúvidas após tanto tempo passado, alguns mais. Em Atenas está um antigo e próximo aliado. Talvez não mais. Amon, o filho do perdido Ilyas. Filhos de Ventru também caminham naquelas terras, como sabes. Dialogar com eles - com a maioria deles - faria parte de minha visão.

Colocou a mão sobre o ombro do filho de Ventru, estavam sentados lado a lado.

- A guerra precisa, sempre, ser um meio Mithras. Sempre. Jamais a torne um fim em si mesma. Tens a minha resposta e, com ela, minha total confiança em vossa ação.

Sorriu, levemente, pela última vez antes de voltar a assumir uma expressão um tanto estoica, levantar-se e concluir.


- Talvez não estejamos preparados, ainda, para pôr em prática este tipo de Império. Portanto, Mithras, convoquemos o triunvirato. Urlon deve ser ouvido e a determinação sobre o avanço se dará em conjunção às nossas palavras, com a minha já determinada.

- A minha determinação é de que Mithras, Deus dos Soldados, decidirá sobre o avanço ou não de nossas forças.
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Re: Babilônia: A Rainha do Mundo

em Sab Set 22, 2018 12:25 pm
Mithras continuou a escutar de forma respeitosa. Tinha os olhos fixos em Sarosh enquanto este caminhava pela sala do Trono. Ao final das palavras, sorriu.

- Compreendo tua visão. Mas acredito que os gregos rejeitarão tal inovação, ainda que os responsáveis pela Hélas sejam escolhidos por nós. Veja, Daharius, que a oposição entre nós e eles continuará existindo pois é a razão de ser dos próprios gregos. Sua identificação como povo passa pela rejeição de todos os que não são eles. Não evoluíram, ainda, para um consciência comum, mas isto parece estar mudando. E mudará na mesma velocidade em que nos tentamos nos agarrar ao poder que exercemos sobre eles.

Fez uma pausa.

- Contudo, tens razão em certos aspectos. Tenho buscado ser uma via de meio entre ti e Urlon, mas não tem sido fácil. Não é a minha intenção criar um império baseado no medo. Aliás, nunca foi. O que propus como solução, que era esmagar Micenas com um golpe rápido e poderoso, diz respeito somente à falta de solidariedade entre os próprios gregos. É possível que eles sequer se importassem. Entretanto, na medida em que identificarem em nós o oponente, tal estado de coisas mudará. Não temos ciência, por enquanto, da existência de eventuais alianças entre eles.

Sorriu novamente. Havia terminado suas considerações, mas havia uma última a fazer.

- Algo começou no Oeste, Sarosh. E será extremamente difícil para nós deter o avançar deste sentimento de indignação. Seguiremos, porém, a tua visão, que por enquanto me parece mais razoável que aquela de Urlon. Devo deixar claro que no momento em que a guerra for necessária, minha postura mudará de imediato.

Fez menção de sair. Deteve-se diante da porta que levava à sala do Trono.

- Sim, convocarei o Triunvirato assim que Urlon retornar de Jerusalém. Me parece que seguiu até lá para comunicar-se com os Banu Haqim.
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Re: Babilônia: A Rainha do Mundo

em Sab Set 22, 2018 3:41 pm
Caminhou em direção ao trono negro. Estava satisfeito com a postura de Mithras, não esperava nada menos do filho de Ventru.

- Excelente. É de meu interesse sua observância sobre os meus modos e àqueles de Urlon. É de minha expectativa que retires o melhor dos dois mundos.

Sorriu.

- Devo salientar que não sou e jamais fui um pacifista, Mithras. A humanidade é bélica e através da guerra construíram sua identidade e avançaram em seus saberes. Assim continuará a ser. Caminhei por guerras e atravessei breves interlúdios de paz. Me sinto completo no campo de batalha. Sou e sempre serei um guerreiro.

Sentava-se naquele local de onde observou o avanço do Império por tanto tempo.

- No entanto, é dever dos reis ser mais que simples guerreiros. É nosso dever agir com estratégia. É o primeiro passo de cada guerra que determina a razão pela qual lutaremos. Se Micenas for reduzida à cinzas por nós à luz de meros boatos de rebeldia, por mais fortes que sejam, estaremos nós lutando por tirania e única afirmação de poder. Seremos o inimigo que unificará os estados gregos. Daremos todos os motivos para as demais terras das Hélas unirem-se contra nós, pois seremos uma sombra de ameaça ao seu livre pensar.

- Se, por outro lado, Micenas fizer o primeiro movimento assassinando nossos mercadores e sacerdotes que caminham dentro de seus muros ou afundando nossos navios que circulam livres por aquelas águas, estaremos nós lutando para extinguir a rebeldia e a violência descabida daqueles que privaram a Hélas de um possível diálogo conosco. Neste momento os esmagaremos total e completamente ao mesmo tempo em que estenderemos a mão à todas as terras vizinhas como uma demonstração de bom grado sob a estratégia que lhe explicitei nesta sala. Nos darão o motivo de que precisamos para alterar a estrutura de governo vigente.

Inclinou o corpo para frente, apoiando os braços sobre o trono.

- No momento em que a guerra se fizer necessária, Mithras, serei o primeiro a cavalgar à frente de nossos homens. De ti, não espero nada menos.

- Quanto a Urlon, interessante e impetuosa escolha. Estimo que ele tenha a sabedoria necessária para parlamentar com os filhos de Haqim e, ainda mais importante, tenha a plena consciência de suas limitações quanto a tomada de decisões do Império Aquemenida.


Saudou-o antes de sua saída e em seguida concentrou-se. Sua mente vagou por terras e mares até encontrar a visão deles. Buscava seus filhos, Amir e Ciro, e os convocava à sua presença.
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Re: Babilônia: A Rainha do Mundo

em Qui Set 27, 2018 11:29 am
Mithras ouviu, com calma, todas as palavras de Sarosh. Suas respostas, porém, foram breves. Começou a falar enquanto começava a retirar-se.

- Urlon tem mais sabedoria do que o que é necessária para parlamentar com os Banu Haqim. Mas talvez não o bastante para compreender suas próprias limitações.

As palavras deixavam a boca de Mithras quase como se fossem uma opinião casual. Uma opinião que ele desejava que Sarosh fosse consciente.

- Compreendo, também, tua avaliação do cenário. Acredito que tenhas razão no método, mas que não obterá os resultados que talvez almeje. Este Império, afinal, está destinado a cair. A morrer, como morrem todas as coisas.

Saudou Daharius com um forte aperto no pulso direito, à moda de alguns soldados do Império. Mithras era, de fato, a personificação da nobreza na guerra, dos mais altos ideais que uma força militar poderia ter. Em seguida, deixou o salão.

*

A mente de Sarosh, então, vagou pela imensidão do Império buscando por seus filhos. Amir foi o primeiro a sentir. Sarosh o sentia em um local isolado, repleto de ventos fortes. Era alto, aquele lugar. E frio, muito frio. Diante da convocação de seu Senhor, Amir não hesitou sequer um segundo. Deslocou-se de onde estava, Sarosh pôde sentir, até a satrápia da Cilicia, onde encontrou-se com Ciro. Era o adequado a ser feito pois Ciro, muito novo, não havia ainda dominado certas artes. E parecia que não as dominaria tão cedo, dada sua predileção pela influência mental.

Todo o movimento não durou sequer cinco minutos. Passados o tempo necessário, Amir surgiu no salão do trono de Sarosh. Fez uma breve mesura para seu Senhor. Estava de torso nu, com os cabelos molhados e descalço. Havia envelhecido, Amir. Havia se tornado sábio, quase esotérico, embora pesquisasse muito mais as grandes questões espirituais do que a magia propriamente dita. Ciro, por outro lado, estava completamente vestido, com joias nos pulsos, orelhas e pescoço. Vestia-se em branco imaculado e dourado divino. Foi ele quem interrompeu o silêncio.

- Nos convoca, Pai, e cá estamos. O que é requerido de mim e de meu irmão nesta noite?
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Re: Babilônia: A Rainha do Mundo

em Qui Set 27, 2018 1:41 pm
Retribuiu o aperto firme de Mithras sobre o seu pulso, fazendo o mesmo. Seus olhos denotavam uma genuína curiosidade acerca do filho de Ventru. Previa grandeza, embora ainda pudesse ensinar-lhe algo.

- Não somos nós a antítese da certeza sobre a morte? A ascenção do Império cumpriu o seu propósito. A queda, caso aconteça embora não esteja ainda determinada, cumprirá também sua parte. Alguns homens e cainitas alcançam a grandeza somente na perda, Mithras.

Despediu-se com um sorriso. De fato, o jovem era o vislumbre de seu pai. Amá-lo era uma consequência e não uma escolha.

Vislumbrou e aguardou a chegada de suas crias. Saudou-os, embora permanecesse sentado no trono negro.


- Filhos meus, saúdo vossas presenças. A urgência do assunto me leva a reuni-los e falar-lhes com brevidade.

Olhou, primeiro, para Ciro.

- A Guerra virá. A certeza dela é um fato e não uma probabilidade.

- Rebeldes e revoltas se levantam contra o Império e ações devem ser tomadas. Os ouvirei, acerca de vosso conhecimento sobre tal e em relação às minhas requisições a seguir. Antes, contudo, ouçam com atenção.

- Existem duas frentes fundamentais para o conflito que se desenha, a Aristocracia e os Cainitas que residem nas poles Gregas. Isto posto, solicito de ambos as seguintes ações.


Permanecia imóvel sentado no assento acima das escadarias.

- Ciro, dadas as suas habilidades notáveis no campo do controle da mente, a ti caberá buscar a nobreza mortal grega. Os Aristocratas sempre buscam mais. Possuem a ganância que é típica de sua posição social. Parlamente com os abertos para tal, ofereça-lhes redução de tributos, apoio militar e terras para além das que já possuem com a condição explícita de apoiarem o Império na guerra que virá. Ofereça-lhes cargos de destaque e controle no Império após o nosso triunfo. Descubra suas insatisfações com sua atual situação e ofereça-lhes mais e melhor para um futuro ao nosso lado. Eles sabotarão os esforços dos gregos em nos confrontar de dentro de suas entranhas. Àqueles que não cederem às ofertas e ao diálogo, deverão sucumbir ao seu domínio da mente. Use servos, senhores. Use a todos. Convença-os ou incite-os a crer que a escolha mais sábia é atuar do nosso lado, pois só terão a ganhar e multiplicar o que já possuem.

- É tua função destruir a Grécia de dentro, em uma imensa e indetectável rede de intrigas e tramas, enquanto nossos exércitos o fazem de fora.

Passou os olhos escuros sobre Amir.

- Kurush, é teu o dever de buscar os cainitas das Hélas com exceção daqueles que vivem em Micenas, pois de lá provém a rebeldia. Busque inicialmente os que aparentam maior proximidade ao império e estenda-lhes as palavras da Pérsia. Reúna-os em um conclave no qual eu participarei. Leve a ideia que o Império os ouvirá para entender as razões e reivindicações. Envio a ti para tal tarefa pois é hábil com as palavras e possui os meios necessários para viajar com velocidade, presteza e mesmo urgência se isto se fizer necessário. Serás um diplomata e farás um convite para o conclave.

- Parlamente e escolha um local de neutralidade e, então, eu conduzirei a reunião.


Sua cabeça girou, levemente, buscando um ponto de visão que centrasse ambos os filhos.

- Isto deverá ser feito com brevidade e sem a possibilidade de falha.

Após as determinações, sua expressão tornou-se menos estoica e mais convidativa.

- Agora, os ouvirei sobre a guerra, sobre os gregos e sobre o Império.
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Re: Babilônia: A Rainha do Mundo

em Sab Set 29, 2018 6:07 am
Ouviram as instruções de Sarosh com atenção, sem interrompê-lo. Ciro foi o primeiro a responder, sua voz grossa e potente ecoando pelo salão.

- Vejo muito estando na Cilícia, Pai. Vejo que os gregos, de fato, começam a movimentar-se, com foco em Micenas, onde se senta Helena. Ali as tensões contrárias ao Império se desenvolvem com mais força e encontram um terreno fértil. O mesmo acontece, em menor grau, em Atenas, em razão da presença de Menele, filho de Troile. Isto me faz pensar o quanto as rebeliões na Fenícia, lar de Troile, não estão em consonância com a Hélas. Devo lembrar-lhe da proximidade geográfica entre ambas as satrápias. Uma união entre elas seria um desastre completo.

Caminhou pela sala. Seu manto branco e dourado arrastava pelo chão, atraindo a atenção de Sarosh. Ciro era belo e potente, certamente uma grandiosa escolha.

- O restante da Hélas hesita. Esparta não confia em Atenas como Artemis não confia em Menele. Menele, por sua vez, desconfia do interesse de Micenas em liderar uma rebelião, tornando-se o centro da Hélas em caso de uma improvável vitória. Desconfia, pois tem graves problemas com Helena. Tebas permanece incólume, fiel as suas prestações ao Império, assim como Creta permanece neutra. De fato, a situação nos é ainda favorável: os gregos não tem unidade ou um projeto comum. Ou atuamos agora, antes que disponham de uma visão comum, ou nossos problemas se agravarão. Teus desejos, Pai, e a tua intervenção segue uma linha adequada. É necessário manter a desconfiança entre os gregos, mantê-los inimigos uns dos outros.

Foi interrompido por Amir. Ciro deu um passo atrás, nitidamente reconhecendo a autoridade de seu irmão. Tinham uma relação complicada, personalidades opostas, mas um imenso respeito mútuo.

- Pai, espero que penses nos cainitas que governam a Hélas. Será difícil para ti se opor a alguns deles, que foram nossos companheiros em antigas batalhas. Medon, Amon, Artemis Orthia. Estou de acordo com a tua convocação, levarei tua palavra até a península, mas peço que compreenda que, talvez, será necessário agir contra antigos aliados se o teu objetivo for a sobrevivência do Império. Enquanto falavas, cheguei à conclusão de que o melhor local para conduzir este conclave será a Ilha de Creta, onde se senta Mi-Ka-Il, agora Beshter.

CIro retornou a falar, sob o olhar de Amir.

- Eu, em teu lugar, teria esmagado a todos eles. No entanto, compreendo minhas limitações causadas pela pouca idade e desconheço o teu vínculo com aqueles cainitas. Sigo tuas ordens sem pestanejar, acreditando que a tua diplomacia seja mais adequada neste momento.

Sarosh se preparava para responder mas, antes de fazê-lo, notou que Mithras havia retornado. Caminhava a passos rápidos e saudou Ciro e Amir enquanto se aproximava de Daharius. As crias retribuíram o cumprimento, Amir de forma neutra, Ciro de forma apaixonada.

- Acabei de receber uma mensagem problemática, Daharius. Há dois dias os egípcios, ou parte deles, declararam a separação do restante do Império. Rebeliões explodem em Mênfis, Tebas e Luxor. Nossos mercadores e funcionários imperiais estão sendo massacrados. Nossos navios ancorados no Mar do Meio foram afundados. Segundo as minhas ainda parcas informações, a Corte de Fogo mudou radicalmente de orientação após um de seus membros despertar do Torpor. Um cainita chamado Nakhthorheb.
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Re: Babilônia: A Rainha do Mundo

em Ter Out 16, 2018 8:35 am
O antigo ouviu as palavras de seus filhos em profundo silêncio. Só então levantou-se e, ao passar por Ciro, disse-lhe de forma pragmática, quase mecânica.

- Os esmagaria? Não ordenei que deves fazê-lo? Destrua-os por dentro, em uma rede de intrigas indetectável. Mostre-me tua determinação.

Aproximou-se de Amir e ainda portava-se como um corpo suspenso, desprendido de emoções. Não era convidativo estar na presença do Arauto quando naquele estado. Era frio, inexpressivo, inumano.

- Não há dificuldade na oposição à personalidades quando em prol de uma ideologia. As faces são sempre menores que as ideias, Amir. Prossiga com a reunião dos indicados para o conclave.

Neste momento, um cheiro reconhecível à Daharius inebriou o salão. Era o odor do deserto, era a marca de Haqim. Pareceu a todos que aquele local aquiesceu por um breve momento e em seguida lá estava, sobre o braço obscurecido do trono de Sarosh, um pergaminho.

Retornou a seu assento enquanto seus olhos escuros e profundos reforçavam a urgência na tarefa de seus filhos. À eles, nada mais disse, esperava precisão no cumprimento das tarefas que cabiam a cada um deles. Tomou o papiro em mãos e ao tocá-lo sentiu de imediato a assinatura mística de Ya'rub, vislumbrou, através do toque do espírito, o mesmo enquanto o escrevia com sua notória feitiçaria e embora o filho de Haqim fosse absolutamente admirável em suas habilidades mágicas, Sarosh vislumbrou ao seu lado o maior feiticeiro do mundo, aquele que em vida foi capaz de ser fundamental para o aprisionamento de Mekhet.


Aquele era o ideal, todo o resto eram apenas ferramentas.

Urlon, de fato, cruzava uma fronteira ideológica do triunvirato expressamente demarcada. Desafiou, com este ato, a ordem dos Três. Para além disso, infernalistas dão sinais de sua presença no Império, cumprindo assim uma de suas funções: atrair o inimigo e destruí-lo antes de sua organização.

Mithras adentra e traz mais uma revelação de conflito. Nakhthorheb despertou e com ele os acordos com a Corte de Fogo parecem ter se esvaído. Antes de respondê-lo, o ambiente ganhou um tom opaco e sem vida enquanto a sombra de Daharius Sarosh dividia-se em três e serpenteava pelo chão desaparecendo nas trevas que circundam o salão. Cada uma a carregar uma mensagem.

A primeira delas vagou até Urlon, guiada pelo vislumbre de Sarosh de sua exata posição através de sua percepção sobrenatural. Apresentava-se como uma figura sombria que imitava a aparência de Sarosh. Sua voz era distorcida e grave, ecoando como muitas. Não se demorou, levava uma mensagem e traria uma resposta.


"Urlon de Ecbatana, Daharius Sarosh - Senhor de Babilônia e Mithras - Senhor de Nínive, o conclamam para uma reunião do Triunvirato. A guerra é o assunto. Teu avanço em desconformidade conosco não passou desapercebido, retorne, planeje e ataque em conformidade com o Império após a reunião. Tua negativa será entendida como um desafio a autoridade dos outros dois que compõem o domínio do Império, enfraquecerá nossa posição e nos dividirá de forma irremediável."

A segunda delas ganhou o abismo e surgiu nas terras férteis próximas ao Nilo. Encontrou o recém desperto Filho de Sutekh. Novamente, como um reflexo abissal de Sarosh, levou uma mensagem e traria a resposta.

"Nakhthorheb, finalmente ergue-se de tua prisão por mim imposta. Os levantes do Egito contra o Império são uma declaração aberta da guerra que representa o teu despertar. Delimite onde e quando, temos um assunto inacabado a tratar"

A terceira vagou pelos ermos, cruzou mares e céus através da escuridão abissal e surgiu diante de Amon, Filho de Ilyas.

"O mais sábio dos filhos de Ilyas, aquele ao qual chamei de irmão. Há um assunto de urgência absoluta a tratar convosco e não se resume à iminente guerra entre o Império e a Hélade. Precisamos parlamentar, ainda esta noite"


Diante de Mithras, sentenciou.

- A guerra se faz necessária, é hora de mudarmos de posição, Mithras. Organize vossos homens e reúna os exércitos. Urlon já foi convocado.

Sua mente, ao mesmo tempo, viajou com urgência em busca de Neferu, aquela que tratou os termos entre a Corte de Fogo e o Império. Demandava urgência, embora nada dissesse antes que a filha de Sutekh permitisse a entrada em seu pensar.
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Re: Babilônia: A Rainha do Mundo

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