Compartilhe
Ir em baixo
avatar
Admin
Mensagens : 338
Data de inscrição : 25/11/2017
Ver perfil do usuáriohttp://terturiumdigital.forumeiros.com

A Teia do Colecionador

em Dom Ago 26, 2018 10:08 am
Sentiu o gosto doce, com toques frutados, do sangue em sua boca. Ouviu ecoar no mais profundo âmago de seu ser as palavras doces Dela. Tinha sido convocado, o Oráculo o aguardava.

Deixar o porto de Gedal em um de seus navios e deslizar pelas águas profundas do mediterrâneo era um ato comum para Addir. No entanto, visitar Amarna - A cidade da Rainha - e encontrar os seus era uma oportunidade poucas vezes apreciada. Ainda mais raro era receber o chamado. Saber que haveria uma mensagem específica da mãe aranha destinada a si o excitava como não experimentava há muito tempo.

Raso de emoções, excêntrico e comedido. Analítico e frio, o Damhàn sentia um sopro de emoção em seu frio coração.

A viagem transcorreu sem grandes interferências. Os homens do mar sob seu comando eram hábeis e vividos, conheciam àquelas águas tão bem quanto o colecionador o fazia com as armas que lhe apeteciam. Foi informado que há alguns ciclos uma ordem náutica se estendeu pela costa do Egito, toda embarcação deveria atracar em Port Said ou Salum, dois dos portos mais movimentados do período, para que prestassem contas de sua carga e interesses. Instituíram, também, uma taxação acerca do volume de especiarias e demais itens transportados que deveria ser pago com um décimo da carga.

Addir ouviu rumores de que nas terras ao longo do grande rio um evento terreno interferiu profundamente no mundo espiritual. Sabia que os filhos do lobo haviam sido expulsos de suas terras por uma grande serpente e que os filhos dela governavam o Egito e tudo que nele reside. Amarna era uma exceção, um centro de poder ananasi que parecia sobreviver às mudanças políticas e sociais daquela região. Os detalhes de tal relação ainda lhe escapavam.

Foi na oitava noite de viagem que o navio desceu âncoras em Port Said. Gritaram, os homens, indicando a necessária parada que se deu a seguir. Ouviu o barulho inconfundível das cordas afrouxando-se e das velas dobrando-se e caindo. As âncoras afundavam velozmente segurando o ímpeto do navio fenício e os homens preparavam-se para a contagem vindoura de sua carga.

Addir os supervisionava, sabia que mais de uma vez - em sua ausência - a ganância preenchera o coração dos homens que o serviram e parte de sua carga fora desviada para propósitos diversos. Desta vez, ele estava presente e acompanharia o novo processo contábil instituído naquele porto.

Foi uma pequena embarcação à remo que aproximou-se. As águas escuras não permitiam vê-lo até que estivesse muito próximo, não havia uma luz sequer naquele pequeno barco. Quando aproximou-se, Addir vislumbrou dois homens a remar e, para a sua surpresa, uma mulher de pé na embarcação a observá-lo. Não era comum que as mulheres se envolvessem nos negócios do mar, menos ainda que fossem elas as responsáveis por vistorias de cargas e embora essa fosse uma prática nova naquelas águas, era uma surpresa que isso acontecesse.

Conforme aproximava-se, era possível vê-la em detalhes. Sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha. Mesmo à distância o olhar dela era um tanto invasivo, como se pudesse ver mais do que seu corpo físico. Sua pele era negra, os olhos castanhos que simulavam o brilho do ouro. Usava um turbante com pedras verdes brilhantes, além de um colar do mesmo material. Suas vestes eram escuras, um tanto transparentes, revelando suas belas e precisas curvas. Havia algo a mais nela para além da suntuosa aparência. Algo que transcendia a carne.

O barco aproximou-se o suficiente para que sua voz fosse ouvida e então, ela o disse surpreendentemente em seu idioma natal.


- As areias e as águas o saúdam, visitante. Sou Ashayt, sua anfitriã. Solicito a gentileza de subir em vossa embarcação.

avatar
Mensagens : 4
Data de inscrição : 25/08/2018
Ver perfil do usuário

Re: A Teia do Colecionador

em Dom Ago 26, 2018 9:34 pm
Addir saiu de Gebal em direção ao Egito, como muitas vezes já o fizera. O navio também ia carregado, como era de costume. Em seus porões, trazia azeite e vinho produzidos em diversas cidades do Mar Egeu, além de um pequeno estoque de lanças, longas e curtas, de origem fenícia. Já tinha seus compradores de praxe mas, ao contrário de outras viagens, dessa vez não era o comércio que o impelia.

O chamado de sua Rainha ainda ecoava em sua mente. Era como uma música cadenciada, harmônica e repetitiva. Uma marcha inspiradora que o convocava. Ao modo de sua raça, Addir ansiava pelo encontro que reuniria a todos os Damhàn. Tratava-se de uma ansiedade fria, sentida e interpretada como uma vontade cega de obedecer sua Mãe.

Todo o seu esforço, toda a sua riqueza, absolutamente tudo o que havia acumulado, era em razão Dela e colocado à serviço Dela. Ananasa.

Além da mercadoria, o grande navio fenício carregava quatro cabeças de gado. Estas não seriam vendidas, pois eram suas. Seu principal alimento. Addir era capaz de se sustentar com quase todo tipo de comida, mas era o sangue que lhe dava forças.

Quando estavam prestes a atracar em Port Said, o Damhàn se alimentava de uma pasta de azeitonas banhada em azeite. Ao contrário da maior parte do povo-aranha, Addir era incapaz de digerir qualquer alimento de consistência muito sólida. Para acompanhar, bebia uma taça do doce sangue bovino. O fazia de modo discreto, para não assustar os homens que trabalhavam para ele.

Terminou a refeição rapidamente, pois queria estar no convés para acompanhar a chegada no Egito. Addir era um profundo admirador da natureza e engenhosidade humana, de modo que a cultura dos egípcios o fascinava. A arquitetura, a língua e as crenças daquele povo faziam toda viagem àquelas terras serem aproveitadas em qualquer momento.

Foi com uma certa curiosidade que observou a bela e estranha mulher que se aproximava de seu navio. Quando ela requisitou autorização para subir, Addir esboçou um sorriso mecânico e acenou afirmativamente com a cabeça. O modo como sorria havia sido treinado com tamanha exaustão que apenas um observador muito astuto perceberia o quão frio era.

Vestia os melhores trajes que a Fenícia poderia produzir. Sua túnica e calças largas eram feitas de uma estranha seda tingida de negro, adornada em bordados dourados e jóias fixadas no tecido. A barba era meticulosamente bem cuidada. Tudo no Damhàn era simetricamente alinhado. Foi somente quando estava frente a frente com a mulher que Addir respondeu:

- É um prazer tê-la abordo, Ashayt. Sou Addir de Gebal e estar nessas terras é sempre um motivo para maravilhar-me. Entendo que há agora um procedimento para que um mercador como eu possa prosseguir com seus negócios. Pois bem, este navio está aberto para ser vasculhado.

Addir continuava sorrindo, ainda que percebesse que havia algo estranho em Ashayt.
avatar
Admin
Mensagens : 338
Data de inscrição : 25/11/2017
Ver perfil do usuáriohttp://terturiumdigital.forumeiros.com

Re: A Teia do Colecionador

em Dom Ago 26, 2018 11:25 pm
Os homens içaram a pequena embarcação através das cordas apropriadas. O barco subia lentamente e Ashayt olhava diretamente para Addir sem desviar o olhar por um só momento. Era estranho, ela parecia procurar algo nele, em seu corpo e para além de sua carne. O Damhàm sentia-se prescrutado, tinha a nítida sensação de que aquela mulher analisava-o para além do que ele pretendia demonstrar. Conforme a proximidade dela aumentava, a sensação aumentava. Era como estar despido, completamente, diante dela.

A expressão de Ashayt era imutável. Se Addir era meticulosamente calculado em suas ações e expressões, a bela e exótica mulher era simplesmente indiferente. Quando subiu a bordo e ouviu as palavras do navegante, apenas assentiu e seus homens se encaminharam para vistoriar as cargas. Era um protocolo estranho, aquele. Não possuíam tabuletas contábeis ou qualquer outro instrumento para avaliar e pesar os objetos à bordo. Sabia Addir que os instrumentos criados e utilizados pelos egípcios, aplicados em suas construções, métodos agrícolas e contábeis de grãos e especiarias, eram fascinantes. Aqueles homens, ausentes de quaisquer um deles, apenas caminhavam e observavam o navio, como se buscassem algo.

Era um clima tenso. Alguns momentos de perturbador silêncio se prolongaram e durante todo o tempo ela manteve os olhos fixos em Addir e, somente quando os homens retornaram e sussurraram algo em uma língua estranha para o fenício, ela o respondeu.


- O tributo para ti, filho da Rainha, será dispensado. Os teus permanecem nas areias que a Typhon pertencem pois assim desejamos. És bem-vindo, és agraciado, pois a ti é confiada a entrada das areias e negada apenas a passagem ao D'uat. Irrevogáveis são ambas, permissão e proibição. Cumpra-as.

Silenciou. Os olhos não eram mais castanhos, brilhavam em um dourado intenso. Os homens de Addir continuavam seus afazeres como se não tivessem a ouvido, ou melhor, como se ela sequer estivesse na embarcação. Não fez menção, ainda, de deixar o navio.
avatar
Mensagens : 4
Data de inscrição : 25/08/2018
Ver perfil do usuário

Re: A Teia do Colecionador

em Ter Ago 28, 2018 6:02 pm
Addir estava desconfiado. Tudo naquela cena era demasiadamente estranho. O olhar invasivo de Ashayt era obviamente mais do que um simples olhar. Ela o perscrutava até a alma. Também estranhou o procedimento. Já havia navegado e parado em diversos portos, do Mar Egeu aos Pilares de Héracles, e muitas vezes teve fiscais e inspetores em seus porões. Mas algo ali era usual. Os homens não portavam nada, nenhum instrumento. Não tomavam notas. Era como se a única coisa a ser realmente inspecionada ali era... ele próprio.

Ainda assim, Addir não esboçou nenhuma reação. Ficou ali, olhando Ashayt em silêncio. Sua expressão era absolutamente neutra e, de braços cruzados, pouco se movia. Apenas suas roupas balançavam junto ao vento que ocasionalmente soprava no convés do navio.

Foi somente quando a mulher mencionou expressamente o nome da Rainha que o Damnhàn percebeu que não estava diante de uma pessoa qualquer. Ela sabia o que ele era. Sabia a quem ele servia. Inicialmente, Addir não reagiu. Esperou um momento até que abriu um sorriso e fez uma reverência breve. Finalmente falou, em um tom amistoso:

- Eu soube que muitas coisas mudaram em Khemet. O procedimento que realizaste aqui me parece ser apenas uma pequena evidência dessa nova realidade. Não sei exatamante o que buscava aqui, mas fico contente que não tenha encontrado nada que comprometa meu povo e a realização de nossos negócios.

Sob a luz da lua, Addir caminha devagar até uma grande garrafa de barro. Ele pega uma taça simples, feitas do mesmo material, e serve o conteúdo. O aroma do sangue bovino invade suas narinas. Todos os movimentos são simples, sem floreios, porém extremamente precisos. Era como se cada músculo de seu corpo movesse apenas o necessário, sempre. Dá um pequeno gole na taça, enquanto caminha de volta à frente de Ashayt.

- Estarei apenas de passagem em Khemet, mas agradeço a hospitalidade de seu povo. Existe alguma forma com a qual eu possa retribuir?
avatar
Admin
Mensagens : 338
Data de inscrição : 25/11/2017
Ver perfil do usuáriohttp://terturiumdigital.forumeiros.com

Re: A Teia do Colecionador

em Dom Set 09, 2018 9:44 am
Os olhos dourados de Ashayt não se moviam. Seus homens retornaram ao bote içado e o aprontavam para recolocá-lo na água. Houveram alguns instantes de silêncio perturbador após as palavras de Addir.

A mulher, enfim, parecia olhar para o Damhàn de forma natural. O brilho dourado deixou-a e seus olhos tornaram ao castanho comum, embora belo. Addir não pôde deixar de notar o colar em seu pescoço. Vibrava e cintilava em um verde profundo. Tinha algo de ameaçador naquela jóia. Algo que ele costumava enxergar nas armas que colecionava.


- Nada podes oferecer. Nada podes retirar. As areias de ti nada cobrarão, filho da rainha. Ela já paga o devido tributo.

Sorriu. Era malicioso aquele sorriso.

-Permanecerás intocado e seguro ao prosseguir conforme as minhas instruções. Prossigas, sem quaisquer interrupções, até Amarna. Tua caravana não deverá ser maior que dez mortais. Isto posto, prossigas.

Ela caminhou, sem aguardar respostas, até a sua pequena embarcação. Os homens começaram a descê-la lentamente quando as últimas palavras por ela foram ditas.

- És interessante, Addir de Gebal. Tua obsessão é clara. O consumirá até que encontres o que não buscas.

O bote se foi nas águas escuras daquele porto. Sabia Addir que a viagem adiante, por terra, ainda seria longa. Deveria preparar-se para tal. Um de seus homens de confiança - Jarbas - aproximou-se. Era um experiente homem do mar com uma longa barba escura e parcos cabelos. Navegou há muito com o pai de Addir e permaneceu servindo a família nobre de Gebal.

- Meu Senhor, devo fazer os preparativos para prosseguirmos por terra?

Addir sentia, em seu íntimo, que a voz da rainha o alcançaria no momento exato. Era uma pressa contida, precisa, que deveria acontecer em breve mas no momento correto. Não antes, não depois.
avatar
Mensagens : 4
Data de inscrição : 25/08/2018
Ver perfil do usuário

Re: A Teia do Colecionador

em Dom Set 09, 2018 5:55 pm
Addir ouviu as últimas palavras de Ashayt em silêncio, mantendo-se assim mesmo enquanto a estranha mulher partia de seu barco. Da mesma forma, não moveu um músculo durante a despedida. Era como se estivesse congelado no convés do navio, as pernas firmes e os braços cruzados diante do peito. Apenas os olhos se movimentavam, acompanhando a descida e partida do barco dos egípicios.

Quando partiram, Addir saiu do seu transe e caminhou até a amurada, observando o rumo da pequena embarcação. Apoiou uma das mãos na madeira da amurada, seus dedos tamborilando em um ritmo metódico e monótono. As palavras finais de Ashayt o preocupavam. Era evidente que a egípcia enxergava mais do que um mero humano seria capaz. Perguntou-se qual seria o preço que a Rainha pagava para manter-se em paz nas terras de Khemet.

Os pensamentos fizeram com que o Damhàn abandonasse um pouco do seu semblante frio, assumindo uma expressão levemente apreensiva, mas ao mesmo tempo curiosa. Não era nada muito evidente, mas uma diferença sutil. Apenas um observador atento notaria.

Jarbas se aproximou e Addir continuou observando o horizonte enquanto respondia seu empregado. Esforçou-se para manter um tom de voz calmo, que não expressasse seus sentimentos:

- Estas terras têm novos senhores, Jarbas, e eles determinam as regras. Você ouviu as ordens de Ashayt. Selecione nove dos nossos melhores homens de armas para seguirmos por terra. Os demais ficaram por aqui, aguardando na embarcação. Antes disso, use o que trouxemos para o comércio e tente trocar por camelos ou cavalos resistentes. Separe mantimentos suficientes para todos, mas preocupe-se principalmente com água. Iremos seguir pela margem do Nilo, mas nunca se sabe se teremos desvios pelo meio do caminho.

Fez uma pausa antes de continuar:

- Separe duas das vacas que estão guardadas abaixo e garanta que elas também terão alimento e água.

Addir finalmente vira-se para Jarbas. Mantinha a voz calma:

- Essa viagem deixou de ser uma empreitada comercial e se tornou uma peregrinação. Minha peregrinação.
Conteúdo patrocinado

Re: A Teia do Colecionador

Voltar ao Topo
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum