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Cnossos - A Alvorada

em Sab Ago 25, 2018 5:14 pm
"Os primeiros raios do Deus-sol surgiam por cima do Egeu. O Mar clareava passando de um azul escuro e profundo para um tom mais claro e quase cristalino quando tocava as areias daquela praia. Estavam em festa.

Os homens e mulheres saudavam o alvorecer, o nascimento do sol, com entusiasmo. O faziam pois aquele era o dia em que se completava o nono ciclo para as mulheres tocadas pelos escolhidos da mãe criadora. Era o fim de uma espera longa e ansiosa pelo nascimento de suas crianças e das bençãos que trariam.

Nas areias à beira do mar, se punham à adorar o touro. O animal estava ao centro, sem amarras, e era louvado com óleos especiais e flores jogadas a seus pés. Tambores mantinham-se em açoite leve e compassado enquanto os homens banhavam suas mulheres com leite de uma das vacas que ali também estavam. Outros homens usavam o couro de touros há muito mortos - naturalmente pela idade ou doenças provenientes da mãe-terra - além de usarem seus crânios como máscaras ritualísticas.

Os tambores cessaram quando ele se aproximou. Era o escolhido, o homem-touro, a presença da divindade que traria para a vida àquelas crianças que aguardavam para nascer. Ele passou por entre as mulheres e seus esposos, tocou em suas barrigas infladas que guardavam a semente da vida e a cada uma determinou dia e horário para que a vida se fizesse acontecer.

Apenas uma deveria dar à luz ali, naquele local, e assim foi. Os tambores e cânticos se ergueram quase ensurdecedores. A mulher gritava em dor, mas mantinha um largo sorriso na face. Era Ele, o escolhido, que guiava o recém-nascido para o novo mundo. Empurrava, com força, aquela mulher. Até que a criança deixou o seu corpo nas mãos do homem-touro que a ergueu e os raios do Deus-Sol a tocaram. Chorou, pois toda a vida cobra um preço. Chorou, mas seu choro foi motivo de alegria para todo aquele povo"

As crianças arregalavam os olhos ao ouvirem aquela história. Bianor era um velho homem que possuía o dom da palavra. Naquele vilarejo de casas de pedra construídas sobre um monte que permite a visão do mar egeu, ele era tomado como um sábio e um contador de histórias. Um homem que havia viajado pelas águas e pela terra. Caminhava, sem nada requerer, pelos vilarejos a levar-lhes as notícias dos arredores. Em suas andanças, angariava amigos, impressionava crianças e despertava amores. Estava velho, agora, e precisava assentar-se.

Assim ele chegou a Cnossos, a maior das cidades da civilização minóica. Lá, ele procurava um dos seus que jamais havia encontrado mas para o qual tinha destinado uma importante notícia.

Vagou por dias até encontrá-lo. Estava sentado aos pés de um riacho enquanto observava os mais velhos ensinarem as crianças a pescar. Muitos daqueles garotos foram instruídos por ele, pois seus pais os deixaram no nascimento para seguir os seus caminhos de guerra, sangue e busca. Eram parentes, filhos de Feras e Lobisomens que já não caminhavam por Creta. Jamais voltariam, pois aquelas crianças não estavam destinadas a mudar. Seriam, para o resto de suas vidas, humanos e por isso tinham sido abandonados.

Para aqueles, Rugas era um tutor, um guia. As mulheres de Cnossos abraçavam os orfãos e os levavam para o convívio de suas famílias. Aquele era um santuário da vida e da educação.


- RUGAS! O BALUARTE! FINDO ENCONTRAR-TE, ALEGRO-ME POR AINDA TER VIDA AO FAZÊ-LO!

A voz o retirou dos pensamentos sobre aquelas crianças. Era uma voz embargada, daquelas que carregam o peso da idade. Ao olhar na direção em que ela se propagava, viu um homem alto e corpulento, com cabelos e barbas grisalhas a sorrir em sua direção. Caminhava apoiado em um bastão de madeira desgastado e escurecido. Suas vestes eram nada mais que um manto maltrapilho cinza, de um irreconhecível tecido ao olhos de Rugas.

Quando aproximou-se, seu cheiro era inconfundível. Não lembrava-se há quanto tempo não o sentia. Creta era diversa, mas os Auroques ali não possuíam mais representantes além dele mesmo. Era um local imaculado e com uma profunda ligação com a mãe-criadora, ainda sim havia somente um caern habitado por uma tribo garou e feras dispersas que íam e vinham.

Ali estava ele, outro Auroque. Abriu os braços em cumprimento, esboçando um abraço. Era sorridente, aquele homem.


- Chamaram-me após a mudança de Voz-do-Saber, aquele que espalha as novas que se sucedem pelo mundo. Sou Bianor e o saúdo, Rugas, pois a ti devo entregar a mensagem que à mim foi confiada.
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Re: Cnossos - A Alvorada

em Seg Ago 27, 2018 3:19 pm
*Era uma boa tarde. Os meninos e meninas se destinavam a pescar, e mesmo Rugas tinha uma vara fincada na terra, um último relaxamento do dia e, com sorte, a garantia do jantar. Ele se pega, mais uma vez, olhando para as crianças. Podia ver toda uma geração futura… E Cinésias. O garoto era promissor, uma mente afiada, bom para as letras, nascido durante o dia - todos os presságios indicavam que ele passaria pela Mudança, e Rugas rezava, à Gaia, Hélios, Luna, ao totem da Vaca, a grande Mãe, para que isso se tornasse realidade. Mirrina era o grande amor de sua vida, mulher firme, complacente e que trazia leveza para um mundo de preocupações, mas infelizmente apenas Cinésias havia sobrevivido à primeira infância. Uma grande ironia, talvez, de que um dos Ápis tivesse medo e receio quanto à sua progênie, mas tal era a natureza da vida. Eles eram a Raça dedicada ao futuro, e isso era bom. O passado continha dores demais para contemplá-lo sempre.*

*A voz, trovejante e vigorosa, o tirou de seus pensamentos. Não conhecia seu dono, mas sua origem era inconfundível, e o Baluarte sente imensa alegria ao ouví-la. Era um velho, sim, mas mesmo assim cada um do Povo que ainda vivia era uma benção. Ele abraça o velho Bianor, com alegria genuína e força.*


-NÃO O CONHEÇO, MAS É BOM VÊ-LO, BIANOR! Tenho interesse em ouvir as palavras de Voz-do-Saber, e como anda o mundo para além das ilhas. Já faz uma primavera que não piso em um barco. *Ele olha para as crianças ao redor com um sorriso* Mas encontrei ocupação enquanto isso. Mas venha! Minha casa é sua pelo tempo que estiver aqui!

*Enquanto guia o mais velho para seu lar, um pensamento cruza a cabeça de Rugas e seu sorriso invariavelmente diminui um pouco. A presença de outro Ápis, por mais bem-vinda que fosse, invariavelmente significaria uma demanda. E sua ausência do lar.*
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Re: Cnossos - A Alvorada

em Dom Set 09, 2018 9:08 am
Chegaram à casa de pedra no meio de uma pequena vila que oferecia, com simplicidade, o necessário para que Rugas cuidasse de sua família. Era ele o guia daquela comunidade. Por muitos sóis viu a vida se fazer presente e esteve ao lado das mães, daquelas que trazem à luz da nova vida ao mundo. Predizia e inspirava o desejo do nascer em um dos vilarejos que compunha Cnossos.

O jantar foi servido por Mirrina, um guizado de legumes que cheirava muito bem. Bianor comeu com satisfação e em visível excesso. A longa viagem da qual ele falava durante a refeição parecia ter sido ser dura e capaz de privar-lhe até mesmo de alimento.

Foi ao fim das conversas triviais e dos sorrisos fáceis que Bianor conseguia arrancar da família do Baluarte com suas anedotas oriundas de todo o mundo que ambos os homens caminharam, a sós e para a conversa que lhes pertencia, pelo monte que circundava a casa de Rugas.

Bianor mantinha um objeto de madeira no canto da boca, era arredondado na ponta e alongado na haste. Nele haviam ervas de cheiro chamativo e a fumaça se prolongava conforme ele tragava do objeto. A luz puljante de Luna, como as lobas lideradas por Alcmena acima do monte costumam chamá-la, era crescente. Noite após noite ganhava contornos maiores nos céus. Sob a iluminação prateada dela, Bianor começou a falar-lhe.


- Sinto profundamente, Rugas, por caber a ti o que virá. Alegro-me apenas por saber que não haveria um outro mais capaz dentre os nossos. O touro me visitou, sob a benção da Mãe, e me disse o que lhe direi agora.

Ele tragou uma vez mais aquele cachimbo em sua boca e a fumaça ganhou os céus. Era estranho, mas parecia à Rugas que a fumaça subia alto ao ponto de juntar-se com as nuvens.

- Uma criança nasceu longe dos olhos dos auroques. Nenhum a previu. Nenhum a sentiu. Ela se fez viva diante dos mortos. Caminha por entre os vivos e carrega a benção e a mácula, juntos, em cada passo que dá. Ela será a salvação ou a destruição de muitos, Rugas. Ela precisa ser encontrada e guiada. O touro disse-me teu nome, O Baluarte de Cnossos, e a ti eu vim buscar.

- Estou velho, já não disponho da força de outrora. Minha viagem até as tuas terras quase me tira a vida e, por isso, sei de minha incapacidade de prosseguir a seu lado. À mim foi destinada a mensagem e para ti, Rugas, a viagem.

- A criança caminha pelo centro do mundo. Seus pequenos passos levaram dor e morte à uma vilarejo nas savanas da origem da vida. África, Rugas. Eu vi um mapa em meus sonhos. Um mapa desenhado nos pontos das estrelas e o tornei desenho neste pergaminho.


De suas vestes, ele retira uma pele de cordeiro marcada com uma espécie de tinta vermelha. Cheira à sangue. Nele, há um desenho simplório do mar, da terra e suas linhas contornadas pela água e três palavras que começam próximas ao desenho do mar e sobem em direção à terra.

Warri. Akure. Ogbomosho.

- Jamais caminhei por aquelas terras. Desconheço o significado destas palavras mas intuo que são os nomes das terras pelas quais deve caminhar. O mar é o acesso, o grande mar.

Ele silenciou e olhou os céus, antes de prosseguir.

- A criança, Rugas, a criança pode salvar a todos ou cobrir os céus de sangue.

O Baluarte sabia que os navios de Cnossos eram controlados pelos parentes garou. Alcmena detinha o controle naval das ilhas com mãos de ferro, pois segundo ela, a proteção das ilhas lhe cabia e a ninguém mais.
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Re: Cnossos - A Alvorada

em Dom Set 09, 2018 11:46 pm
*O jantar, simples mas delicioso, foi um dos momentos mais agradáveis dos últimos meses que o Auroque podia se lembrar. O Povo não era mais numeroso como antes, com presença em poucos lugares além do Khemet e no Leste, portanto, desfrutar da companhia de Bianor era desfrutar do Povo. Em verdade, ele nem mesmo consegue se sentir triste com a notícia de uma demanda iminente, com o perigo implícito e a perspectiva da ausência de sua família. O Povo vivia, e se a Mãe das Mães e o Touro lhe dava atenção, era sinal de que havia esperança. E havia um trabalho a fazer.*

*Do lado de fora de sua casa, pode ver o Touro agora, brilhando no céu, e se sente estranhamente bem, reconfortado. E quando ouve sobre a criança desgarrada sabe que, mais do que qualquer coisa, ele era necessário.*

*Ele observa o mapa do ancião enquanto alisa a barba, pensando nas palavras estranhas e naquela terra que conhecia tão pouco.*


-Eu não conheço a língua, e também conheço pouco da terra de grama alta e dourada que é a África. Vivi em Mênfis por um tempo, e conheci o resto do Khemet, mas aquelas terras ainda são um mistério para mim. Mas se é de lá que vem a vida, talvez seja de lá que venha a nossa renascença, chegou a pensar nisso?

-Mas uma criança sozinha, um canal para a Fúria dentro de si, sem uma voz para acalmá-la, uma mão paciente para guiá-la... Mais do que tudo, este é um pecado enorme. E eu não posso ficar parado depois de ouvir sobre isso... Me fale mais dela, e sobre como posso encontrá-la.

*Ele dá um suspiro profundo e estica as pernas compridas pelo chão e pensa novamente. Fica por longos minutos em silêncio, apenas brincando com um pedaço de capim na boca enquanto Bianor alterna entre suas bravatas e silêncio contemplativo. Até que Rugas ergue a cabeça, tendo aparentemente tomado uma decisão.*

-Acho que vou ter que te pedir algo em troca, meu velho. Sua falta será sentida no Continente? Se não for, gostaria de lhe pedir que descansasse seus velhos ossos aqui. Cnossos pode se beneficiar de alguém com mais idade e sabedoria do que eu, e eu dormiria mais tranquilo sob as estrelas se soubesse que minha família está protegida. E as Fúrias... As Fúrias precisam de uma voz de paz em seu meio, e talvez a nossa seja a única dentre os homens que elas realmente escutem... às vezes...

-Pela manhã, eu irei ao lar das lobas e negociarei com a líder deles, a Loba de Ferro Alcmene. Ela pode ser... difícil, mas nós nos entendemos. Vou lhe pedir passagem em um navio para fora da ilha, e que... não se oponha para que fique em meu lugar, se te interessar. Parte de mim desconfia que ela ficará aliviada em me ver longe.

(...)

*Depois da resposta do ancião, e de mais um pouco de conversa, Rugas se retira para dentro da casa. Mirrina precisava saber que se ausentaria, e porque isso era importante. Ele termina a noite sabendo que talvez fosse a última que passaria com ela por um tempo, portanto se despede da melhor maneira que um marido pode se despedir de sua mulher.*

*Chegada a manhã, o Apis se dirige até o caern sagrado das Fúrias Negras. Consigo, leva apenas uma armadura de couro velha e surrada, mas dedicada e um escudo de bronze, virado para baixo, para mostrar que marchava em paz.*
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Re: Cnossos - A Alvorada

em Dom Set 23, 2018 12:53 pm
Bianor entregou-lhe o mapa e o mais sincero dos sorrisos.

- Nada me agradaria mais, Rugas, do que servir meus últimos dias nesta bela comunidade.

O velho auroque tocou a testa do Baluarte. Foi um gesto desavisado e leve. Gargalhou após fazê-lo.

- Vá, meu mais novo amigo! Vá para a sua casa e boas novas virão.

Naquela noite Rugas despediu-se de Mirrina - sua esposa - com efusividade. Parecia-lhe como nas primeiras noites, havia um laço a uni-los tão grande quanto aquele forjado após o casamento. Ao amanhecer, no último toque de despedida, o marido teve a plena certeza.

Mirrina estava grávida.

Deixou-a, então, buscando os montes para além das vilas que abrigavam o lar dos lobos. Era uma longa caminhada que culminava na passagem por uma floresta repleta de altas e densas árvores que divisavam a vida comum da população de Cnossos e as terras sagradas e imaculadas defendidas por Alcmena. No início há uma trilha que logo se encerra quando a vegetação ganha altura e as árvores se tornam mais juntas. Rugas sabe que a partir daquele ponto nenhum estrangeiro é bem-vindo e todo aquele que ousa prosseguir jamais encontra a saída. Não com vida.

O Baluarte, no entanto, parlamentou vezes outras com a líder das Fúrias Negras por necessidades diversas. Conhecia o tortuoso caminho e os riscos de tal. Aquele era um santuário e conforme se embrenhava na mata ouvia mais e mais dos habitantes dele. Animais em profusão e diversidade por ali caminhavam. Desde pássaros e inúmeros insetos às Kri-Kris, as características cabras selvagens de Cnossos. Um ou outro chacal também foi visto cruzando a vegetação. Todos, no entanto, mantinham-se em unidade com o ambiente e desdenhavam da presença de Rugas.

Caminhando sobre os galhos caídos e abaixo das frondosas copas das árvores, não tardou a ser interpelado. Ouviu um zunido próximo à sua face e estacou diante de uma flecha que fincou-se no chão logo à frente de seus pés. A ponta dela emitia um brilho prateado.


- Digas a que vem, Baluarte. És reconhecido mas tal condição não o torna bem-vindo.

Era uma voz feminina que brotava do topo de uma das árvores, manteve-se ainda encoberta pelos galhos e folhas desta.
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Re: Cnossos - A Alvorada

em Seg Set 24, 2018 8:52 pm
*Naquela manhã, Rugas deixa sua casa com um sorriso no rosto. Estava triste, era verdade, por não saber em quanto tempo estaria de volta. Não veria seu novo fruto germinar no ventre de Mirrina. Talvez nem o visse nascer. Mas também estava feliz ao saber que teria mais um filho. Mais uma peça para seu legado, e mais uma esperança para o Povo.*

*Era com esse otimismo que ele adentrava no território das Filhas do Pégaso. Estava feliz a ponto de não se sentir intimidado pelo silêncio que se abatia na terra, e a sensação só vai embora quando vê a flecha cravada à sua frente. E é só quando ao perceber o brilho na ponta que pragueja em voz baixa. Por que, ele se perguntaria até o fim de seus dias, Luna e Hélios haviam despejado aqueles tesouros terríveis na face de Gaia? Eles faziam pouca coisa além de espalhar medo e desunião entre seus filhos. Ele suspira, resignado, e para, o escudo ainda virado de cabeça para baixo.*


-Eu venho em paz... Venho com um pedido para a Rainha de Ferro de Creta. E notícias que talvez ela fique feliz em ouvir.

-Eu estou desarmado, e não vim falar com uma flecha, ou o topo de uma árvore...
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Re: Cnossos - A Alvorada

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