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Okan ti igbo - O Coração da África

em Sab Ago 25, 2018 2:39 pm
Àquele era o centro. As estrelas, a lua e as árvores sabiam. As cabanas que abrigavam as tribos circunvizinhas sabiam. Os bastet, todos os outros, também sabiam, embora em solidão ou rebeldia - as duas faces que compõem os demais gatos - não se curvassem como deveriam. Era, aquela clareira, o centro de um poder ancestral que cobria todo o horizonte pelo qual o poderoso rugido ecoou.

A terra tremeu e os pássaros alcançaram os céus em revoada. Responderam, todos aqueles que a natureza pertencem. Temeram, todos aqueles que a ela ofendem.

A savana era composta por uma dourada e infindável vegetação que alcançava a cintura da maioria dos homens e escondia os hábeis e cruéis grandes caçadores que a habitavam enquanto buscavam suas presas. As árvores eram espaçadas, não ofereciam esconderijo ou abrigo para os que caminhavam por ela. Ali, cada pedaço de terra e grama amarelada pertencia à ele. E não havia nenhum outro capaz, ou com coragem o suficiente, para desafiá-lo pelo reinado.

Tribos humanas também caminhavam por aquelas terras. Suas cabanas de palha ou de barro batido ocupavam as imediações da grande clareira sob a benção e permissão Dele. Eram auspiciosos aqueles homens e mulheres tribais, pois haviam nascido com a marca do grande caçador em seu sangue. Não dispunham da maior das bençãos abaixo do Orun e acima do Aye, pois a eles não era permitido vestir a pele do Caçador. Ainda sim, era daquele povo que as esposas Dele eram escolhidas, em rituais de honra e gratidão por sua proteção.

O rugido era, além da afirmação de sua presença e autoridade, um chamado. Reuniram-se, todos.

Quando rugia em convocação, sabiam todos que ordens viriam àqueles que compõem a sua casa, o seu reinado. Reuniram-se no centro das cabanas sobre o chão de terra batida livre da savana que os circundava. Sabiam, também, que as mulheres, idosos e os oluwa - os videntes - não haviam sido convocados.

Os homens, os guerreiros da tribo que compunham a proteção de sua terra, aproximaram-se e iniciaram o rito comum de chocar suas lanças contra os longos e afilados escudos de madeira que portavam. O som era compassado, musical e preciso. As pinturas corporais diversas e em tom branco, como cal, sobre as peles negras denunciavam a preparação para a guerra. Os Grandes Caçadores logo se fizeram presentes. Dois deles deixaram a savana dourada em suas formas naturais, eram leões imensos de cores que variavam de amarelo claro à marrom. Passaram por entre os homens das tribos que inclinavam-se e mostravam seu pescoço em respeito e devoção aos Simba.

Outros dois caminharam, como homens de corpos firmes. Dentre eles, Okan-Kiniun. O mesmo rito respeitoso  por parte dos aborígenes se seguiu.

Silenciaram, subitamente.

Do centro da clareira, no qual algumas cabanas dispersas abrigavam os sagrados oluwa e as intocáveis iyawo, ele caminhou deixando a savana. O grande leão dourado aproximou-se e como era majestosa aquela fera. Ergueu-se em duas patas e transmutou-se para caminhar como os homens. O corpo poderoso que alçava os quatro metros em sua forma animal condensava-se em pernas e braços poderosos, um torso nú e firme e uma face majestosa. Sua pele negra sob a luz das estrelas as refletia. Os olhos eram castanho-avermelhados, desafiá-los era  encontrar a própria morte e isto não é uma metáfora.

O Rei, que antes possuía cabelos crespos trançados e caídos sobre o ombro que lembravam mesmo em sua forma humana uma majestosa juba, os havia raspado. O fazia, sempre, em tempos de guerra. Era um sinal de que o rei se lançaria ao sangue da batalha quando o momento chegasse. Ele era também um impiedoso líder de seu povo. Suas ordens eram soberanas e inquestionáveis. Seu reinado era de imposição e ordem. Era admirado ou odiado por seus iguais e rivais. Seja qual fosse o sentimento, era sempre extremo, o máximo que se poderia sentir por ele. Reinava porque poderia fazê-lo. Era, acima de tudo, um cruel e imbatível guerreiro, como mais de um petulante bastet descobriu ao longo dos anos.

Era um descendente de Amadu, o grande Leão, e era como se o próprio estivesse diante de seu povo.

As cicatrizes são troféus para um grande guerreiro. Ainda assim, o Rei dispunha de apenas uma que lhe cortava o olho esquerdo e se prolongava até o queixo. O resto de seu corpo era imaculado, pois nenhum outro inimigo - para além daquele - foi capaz de ferí-lo tão profundamente.

Os homens e bastet entoavam, em tom baixo e contínuo, o cântico do Rei.


"Ọba ti Ile-iṣẹ ti Agbaye, Black Ehin. Ọba ti Ile-iṣẹ ti Agbaye, Black Ehin."


Black Ehin, o Dente Negro. Rei da Savana, Rei do Centro do Mundo. Assim era conhecido aquele que centralizava a comoção tribal. Seu olhar passeou pelos presentes antes de sua voz rouca e grave tomar a savana e ecoar como se o próprio orun despejasse suas ordens sobre o aiye.


- Oluwa vislumbrou o sangue cobrindo oṣupa e ensopando a savana. Guerra virá. Sangue virá. Nele, nos banquetearemos sobre os corpos daqueles que ousarem invadir minhas terras.

- Yorubás! Awọn ologun ọba! Caminhem e percorram as outras tribos. Convoquem-nos, pois Black Ehin os convoca. Tragam-nos, pois a força da savana é a força de seu povo e de seu líder.


Imediatamente, os guerreiros tribais chocaram as lanças contra os escudos uma vez mais, deixando a presença do Rei e dos Grande Caçadores. Restavam os quatro Simbas, para além de Black Ehin, no centro da clareira. Ele continuou.

- Feku iku e Apaniyan, caberá a vocês convocarem os bastet e levarem minha palavra aos demais gatos. Imponham a urgência e o peso de minha voz. Retornem quando oṣupa completar seu ciclo.

Ambos os leões deram dois passos atrás, com a cabeça baixa, antes de desaparecem pela relva dourada que voltou a escondê-los sob a noite.

- Okan-Kiniun e Ọgbọn ti Ìrora, a vocês será entregue a tarefa de impor o domínio de Black Ehin sobre os Ajaba. À meus ouvidos chegaram as notícias de um massacre nas terras Igbos. A tribo nos presta devoção e a ela a nossa proteção é estendida. Àquelas terras divisam suas árvores com os Ajaba que por lá caminham. Levem a palavra e a ordem de Ọba ti Savannah para o povo-hiena. Descubram as razões para o ocorrido. Deem o exemplo e façam a ordem se cumprir.  Matem-nos, se necessário.


Ọlọgbọn era um simba em idade avançada. Os cabelos curtos e crespos apresentavam traços brancos, a pele negra era enrugada pelo peso do passar dos anos. Trajava apenas um saiote de couro cru e possuía pinturas diversas espalhadas pelo corpo. Seus olhos eram castanhos claro, muito claros e esbranquiçados. Era o sábio, o guia, àquele que levava o diálogo antes da violência. Okan era o mais jovem, porém o mais promissor. Foi a ele que Black Ehin se dirigiu a seguir.


- Caminhe comigo, Okan-Kiniun. Caminhe comigo à cabana de Oluwa. Um de seus vislumbres lhe pertence.



Black Ehin, Ọba ti Savannah.
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Re: Okan ti igbo - O Coração da África

em Seg Ago 27, 2018 8:30 am
Atendeu, sem demora, ao chamado do Rei.

Caminhou sobre o Centro do Mundo em sua forma humana. Alto, imponente. Hostil, quase. Sua face era séria, seus movimentos calculados. Atendeu o chamado pois reconhecia o Rei, ainda que em seu íntimo certas dúvidas fizessem morada. Atendeu, pois lealdade e compromisso eram valores a ele caros. Mais ainda considerando os augúrios que se insinuavam no céu escuro, noite após noite.

Ouviu os rugidos, mas não apressou o passo. Era dever de um Rei, também, esperar o tempo de seus aliados. Caminhou, admirando a relva e o povo, consciente de que eles formavam um todo. O Aiye era a casa tanto dele quanto de todos os outros e, apesar de ser um homem da guerra e do conflito, marcado pelo que sua vida tinha sido até então, não amava a Morte e não comia em sua companhia. Sabia da natureza instrumental da guerra, e jamais lutaria em uma que não fosse um meio para atingir um fim.

E este fim, sabia ele, deveria sempre estar em concordância com o Orun e com suas forças. Sabia disso pois era Filho do Senhor da Guerra.

Quando os homens mostraram seus pescoços, ele reagiu com firmeza, pois reconhecia que aqueles haviam cumprido seu dever, mas também com respeito e honradez. Não gostava da submissão. Bem, talvez às vezes, mas esta era uma face perigosa, que ele tentava manter sob controle a qualquer custo. Ainda que se tornasse mais difícil dia após dia. Compreendia. Quando finalmente compreendeu que era ele aquele descrito nas histórias de seu Baba, compreendeu também o seu papel e as duras escolhas que deveria fazer. Desde então, aprendeu sobre controle.

Mostrou-se perante Black Ehin. Admirou o Rei, mas o avaliou ao mesmo tempo. Cada dia passado sob o céu era um dia a menos no reinado de qualquer homem ou fera. Observou seus irmãos enquanto eles deixavam a clareira para seguir as ordens que lhes foram dadas. Somente quando permaneceu sozinho com o Rei, e ouviu o convite que este lhe dirigiu, assentiu com a cabeça, mas sem dizer uma única palavra. Esperou que o Rei abrisse o caminho e o seguiu.
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Re: Okan ti igbo - O Coração da África

em Dom Set 09, 2018 8:35 am
Okan notava um arfar constante do Rei. Seus olhos fitavam o horizonte e seu semblante estava inquieto. Os pensamentos daquele que é igualmente respeitado e temido na grande savana vagavam ao longe, era fácil notar.

Caminharam pelo vilarejo até a cabana de Oluwa. A entrada era uma cortina de palha com pequenas pedras esbranquiçadas dependuradas que anunciavam os visitantes conforme sua passagem. O Rei entrou primeiro, sinalizou para que o mais jovem leão aguardasse do lado de fora. Alguns poucos instantes e ele deixou a cabana com um olhar ainda mais pesaroso do que aquele que portava antes da entrada. Acenou positivamente com o fronte permitindo a passagem de Okan-Kiniun e permaneceu fora da tenda sagrada de Oluwa.


- Quando Oluwa falar, somente tu deverás escutar. A ti, e somente a ti, pertencem as palavras através de Oluwa serão ditas.

Passou pela cortina de palha e ouviu os guizos ecoarem. Sentiu o corpo mais frio. O calor da savana que os circundava não alcançava aquela tenda. Haviam dezenas de objetos feitos em ossos e pedras dependurados pelas paredes da cabana. Alguns simulavam animais e homens, outros eram grandes colares de ossos e pedras. O frio o deixou conforme o ar tornava-se mais quente, cheirou e viu a fumaça.

Ela saía de um dos cantos, de onde finalmente o viu. Oluwa.

Não era um homem, tampouco uma mulher. Caminhava entre dois mundos. Não era vivo, tampouco morto. Caminhava entre dois mundos. Não era a certeza, tampouco a dúvida. Sabia sobre os dois mundos.

A face era jovial, quase infantil. A cabeça raspada continha as kuras características daqueles que são meios para que os espíritos se façam presentes. O corpo era franzino, coberto por um tecido branco imaculado. Haviam alguns colares de pedra no entorno de seu pescoço e braços. Seus olhos eram de um castanho muito claro que lembravam o amarelo dourado das savanas.

Oluwa.O corpo no qual muitos habitam.

A fumaça, em grande quantidade, se prolongava de um chumaço de palha enrolado em sua boca aceso com fogo.

Tal qual sua aparência, sua voz transitava entre o homem e a mulher. Não possuia o tom grave dos guerreiros e não se atenuava no agudo das mulheres das estepes.


- Okan-Kiniun. Ọmọ Ogun.

Quando ergueu os olhos, Okan sabia que já não era Oluwa a lhe falar. Era outro, do outro lado, a comunicar-lhe.

- Ọba yoo ṣubu. Ọba yoo ṣubu. O Rei que deve ser encerrará o Rei que já não mais o deve. Fraqueza, dúvida, dor. Guerra, morte, amor. Será a hiena a convidar e o lobo a entrar. Será a morte a caminhar pela savana quando na noite escura o brilho de oṣupa se fizer grande no ọrun. Será a aranha, curiosa e obcecada, a abrir as portas para a morte. Será o bisão a encontrar a criança. Será a criança, àquela que não pode ser tocada, a renovar a esperança. Cabe ao Rei, ao que deve ser, guiar a criança.

Abaixou a cabeça e tragou o chumaço em sua boca. Mais fumaça se ergueu e a cabana esquentou. O frio o deixou. Sentia, novamente, o ar quente das savanas ao seu redor. Okan sabia que diante de si agora estava Oluwa e apenas Oluwa.

- Deves ir, Okan, deves ir e decidir se cumprirá o que a ti é predestinado. A escolha será sempre tua, mas o destino virá e cobrará o preço. Uma pergunta e uma resposta. Estou cansado. Uma pergunta e uma resposta, é tudo que consigo oferecer.


Oluwa
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Re: Okan ti igbo - O Coração da África

em Sex Set 14, 2018 5:23 am
Antes de entrar na tenda de Oluwa, e ainda em silêncio, Okan aquiesceu às palavras do Rei. Com feição séria e passos firmes adentrou a morada do Sagrado, mas deteve-se, antes, tocando a própria fronte e, em seguida, tocando o chão do local. Falou pela primeira vez naquela noite, e suas palavras não poderiam ser outras. Falou baixo, quase que como para si mesmo, pois sabia que suas palavras e ações, mesmo aquelas escondidas em sua alma, eram de plena ciência do Orun.

- Káwó Kábíẹ̀sí Ilẹ̀, Oluwa ti aiye. Eu saúdo o Senhor da Terra e da Criação, e agradeço por aqui estar.

Só depois entrou.

Manteve-se em silêncio. Sentiu o frio e o calor. Quando surgiu a fumaça, inspirou-a profunda e ruidosamente, permitindo que esta entrasse em cada célula de seu corpo. Não olhou diretamente para Oluwa mas quando estava diante dele tocou, novamente, a fronte e em seguida os fez menção de tocar os pés de Oluwa. Mas não o fez. Não era puro o suficiente.

Ouviu, em silêncio. As palavras. Okan era jovem, mas era Sábio. Aqueles vaticínios lhe possibilitavam diversas interpretações. Memorizou as palavras, cada uma deles, e quando lhe foi dada a oportunidade de falar falou baixo, com os olhos voltados para o chão.

- Okê Oluwa, dono de todos os mundos! Venho em paz e ouço tuas palavras, pois são as palavras do Orun. Peço a Olorun que o abençõe e lhe dê muitas primaveras para que continue a guiar-nos.

Só então levantou o olhar. Mas manteve-o na altura da boca de Oluwa. Era o que importava, o canal entre o Ayê e o Orun.

- Uma pergunta. Uma única que determinará a minha missão. Meus guias. O que eles esperam de mim?
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Re: Okan ti igbo - O Coração da África

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