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O Oráculo e a Rainha

em Qui Ago 23, 2018 11:43 pm
Era uma procissão de fé.

O caminhar delas, daquelas vestidas inteiramente com um tecido translúcido de tom branco, era acompanhado pelo som seco e rápido das dezenas de patas chocando-se levemente contra as pedras sobre as quais se equilibravam. O som ecoava pelo ambiente, eram muitas. As mulheres eram guiadas pelos myrmidon. Não os temiam, mesmo que as acompanhassem de cima ou das paredes através de suas assombrosas e monumentais formas pithus.

As aranhas guardiãs, os guerreiros da rainha, variavam em coloração, forma e tamanho. Preferiam o simulacro da grande caçadora do deserto. Tom amarelado, patas longas e ventre curto. Grandes mandíbulas e duas patas dianteiras maiores que ajudam-nos a agarrar suas presas. O peso das menores entre elas alcançava uma centena de quilos, enquanto as maiorias tinham o dobro dessa massa. Acompanhavam as mulheres que embrenhavam-se, cada vez mais, naqueles túneis repletos de teias.

O cheiro amorfo do local inebriava aquelas mulheres. Cambaleavam, por vezes, ao respirar mais profundamente aquele ar que continha o toque do sono da rainha. Quando ameaçavam cair durante a caminhada, eram rapidamente amparadas pelos guardiões e suas incontáveis patas, que as erguiam para que continuassem.

Durante seus vacilantes passos, elas entoavam cânticos em línguas antigas a enaltecer a grande rainha. Sorriam, estavam plenas em realização pois a elas caberia a maior das honrarias. Desembocaram, enfim, em uma das inúmeras saídas que davam em um único, oval e gigantesco salão de pedra amarelada. Decididas, todas eram, até encontrá-la.

Ela pulsava. O ventre côncavo se prolongava por dezenas de metros. Inflava e murchava, lentamente. As prolongadas patas estendiam-se pelas pedras amareladas recobertas da intricada teia que a mantinha na parede daquela monumental construção. Os olhos, infindáveis deles, a tudo viam e a tudo engoliam ao vislumbrar os mistérios de ambos os lados.

As mulheres, então, deliravam. Não fugiam como era de se esperar, em temor. Assim como não amedrontavam-se ao lado dos myrmidon, não desesperavam-se ao vê-la. Deliravam sim, somente para que a passagem fosse breve, indolor e justa. Era esta a benção da Rainha que recaía sobre os necessários sacrifícios.

Os guardiões as tomavam por entre suas patas dianteiras, erguiam seus corpos e do ventre dos Damhàn a teia pegajosa começava a envolver o corpo daquelas mulheres. Suas vestes brancas misturavam-se ao fio que deixava a extremidade dos myrmidon e transformavam-se em vestidos cerimoniais que lhes cobriam todo o corpo, com exceção dos olhos. Pois eles, os olhos, manteriam-se abertos para que vislumbrassem a passagem.

Por fim, eram presas ao teto de altura desproporcional daquele templo, no qual as patas imensas Dela as alcançariam. Mesmo os guardiões, no alto de seus duzentos quilos, eram apenas pequenas aranhas se comparadas ao Oráculo. Ela era negra, inteiramente, com infindáveis olhos em sua cabeça e patas alongadas e abertas que cobriam a extensão do salão onde repousava. Ela era o salão.

Coletava, um a um, os corpos envoltos em teia dispostos no teto com duas de suas patas dianteiras. Abria-lhes um talho preciso no ventre d'onde o sangue escorria para dentro de suas mandíbulas inquietas. Bebia-as, lentamente.

Sentiam, todos os ananasi, a conexão crescer. Sentiam, onde quer que estivessem, o gosto de sangue escorrer por suas gargantas. Sentiam, em todos os cantos, que Ela os falava.

Convocava a todos que a ouviam. Deveriam rumar à Amarna, aquela que obscureceu Tebas ao tornar-se o centro político religioso das margens do grande rio e agora havia sido esquecida pelos que a ele governam.

Viriam todos os filhos da aranha, pois a Rainha os ordenava.







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