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Ipakupa - A Lua de Sangue

em Qui Ago 23, 2018 9:22 pm
Krak...

Krak...krak.

krak...


O som se propagava pela noite e atingia, ao longe, os ouvidos temerosos daqueles que buscavam abrigo por entre as árvores. Suas ile, feitas em palhas diversas secas ao sol e trançadas cuidadosamente haviam sido destroçadas. De suas moradas restavam apenas memórias e lágrimas. Perderam sua terra, seus filhos, suas vidas. Ainda sim, ele mantinha a crença inabalável que o guiava.

"Ọlọrun Jagunjagun, Fipamọ wa! Fipamọ wa!"

Um sussurro ao vento, um quase cântico a ser entoado pela criança  que se colocava por detrás das árvores e encoberta pela vegetação alta. Os pequeninos joelhos tocavam o chão enquanto os olhos fitavam os astros brilhantes acima de si. Sua face ébano, pequena e delicada, refletia a luz da maior das luas que cobria os céus. Desviava o olhar do que acontecia a seu redor.

"Ọlọrun Jagunjagun, Fipamọ wa! Fipamọ wa!"

Aumentava a voz como se tentasse alcançá-lo. Ouvia tambores, ao longe, muito longe em um ritmo que acompanhava a sua voz. Eram abafados, os tambores, pelo ressoar daquele som constante que lhe fazia tremer.

Krak...krak.

Estava mais próximo. Ouvia-o mas não silenciava. Resoluto, o menino que trajava apenas uma tanga de couro cru, mantinha seu cântico. Um grito agudo e exasperado ecoou e dele outros se sucederam. Incontáveis. Manteve, ainda sim, a sua voz branda e a soluçar presente.

Depois dos gritos, silêncio. Absoluto e perturbador. Nem mesmo os insetos noturnos se fizeram ouvir. E, então, ele veio. Ouviu a respiração ofegante, pesada, que arfava dos grandes pulmões que ele possuía. Era quente, aquele ar, e tocava-lhe a pequenina face. Estava acima do menino, que mantinha-se de joelhos sobre a relva que quase o cobria.

Pingou sobre sua testa e escorreu por sua face. Sangue.


Krak...krak.

Alto e ensurdecedor, era o som quando partiu-se em dois e caiu diante da criança. A face sem vida parecia encará-lo com o desespero da dolorida partida no olhar. Tratava-se do torso de uma mulher negra, pertencente à sua tribo, que fora mastigado e triturado de forma que as costelas retorceram-se e partiram-se caindo diante dele. Ainda sim, manteve os cânticos. Tremia e temia. Balbuciava e sentia a vontade de chorar. Ainda sim, manteve os cânticos.

Sentiu o ar aquecer ainda mais ao lado de sua face. O sentiu farejá-lo. Buscá-lo diante de si e, mesmo com tamanha proximidade, não encontrá-lo.

A criança olhava para cima, ainda, buscando conforto nas estrelas quando o viu saltar sobre o seu pequenino corpo e desaparecer na escuridão da floresta. Possuía os pelos rubros e afiados, salivava um misto de sangue e baba esbranquiçada de sua terrível mandíbula. Era descomunal, apavorante. Era um lobo.


"Ọlọrun Jagunjagun, Fipamọ wa! Fipamọ wa!"

Desvaneceu, em sono, com a certeza de que ele o ouviu e dele cuidou. O lobo jamais o encontrou.


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