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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Sex Set 21, 2018 4:11 pm
Em silêncio, Ya’rub escuta o conselho de Ur-Shulgi. Ainda não conseguia definir em uma única palavra o que sentia pelo irmão mais novo. Na maior parte do tempo, sabia que tinha uma desconfiança profunda. Era o Medo segurando-lhe os pulsos, mantendo-o sempre atento e impedindo-o de baixar a guarda. Havia recebido a missão de observar seu irmão, afinal. Observar e, eventualmente, julgá-lo, se preciso fosse.

E Ya’rub não podia negar que temia o dia em que esse julgamento viesse a ser necessário.

Por outro lado, era inegável que, em momentos como esse, era tomado por uma certa ternura para com o irmão. Ur-Shulgi era sábio. Deveras sábio para alguém que fora abraçado ainda em tenra idade - fato este que fazia Ya’rub especular sobre quem ele teria sido em vida. De qualquer forma, sempre em que estiveram juntos no Alamut, Ur-Shulgi nunca negara um conselho valioso ao irmão mais velho.

Ya’rub balançou a cabeça afirmativamente:

- Se falas a verdade, Ur-Shulgi, e não tenho motivos para acreditar que não o faça, tens toda razão para nos preocuparmos e nos prepararmos. Haqim foi claro quando disse que Nergal estava vivo. Foi ainda mais claro sobre nossa missão em eliminá-lo.

Com a mão no queixo, ponderou um pouco antes de continuar.

- As ruínas de um Império gigantesco são abrigo ideal para Nergal e seus filhos. E sabemos muito bem que qualquer império começa a ruir muito antes dos olhos perceberem. Os demônios, no entanto, conseguem farejar a carne morta antes mesmo das moscas. Me pergunto se Daharius Sarosh já percebe alguns indícios... Conversarei com ele quando for o momento.

[bDito isso, Ya’rub se levanta do trono. Iria se preparar para a viagem até a cidade de Jerusalém. Na sua ausência, deixaria Jamal no comando do Alamut. Chamaria Al-Ashrad para acompanhá-lo. Fazendo uso de rituais, chegariam no destino rapidamente. Mas ainda tinham uma semana.[/b]

Ya’rub optou então por seguirem o caminho a pé pelo deserto. As noites serviriam para conversar de debater sobre o Universo. Teriam tempo até se encontrarem com Urlon.
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Sab Set 22, 2018 7:14 am
Jamal havia se tornado o maior dos guerreiros do Alamut. Sua pele obsidiana era constantemente manchada de Sangue seco, pois Jamal matava tanto, fossem animais, fossem mortais que julgava caminhar fora do caminho dos justos, que sua pele tinha dificuldades em absorver a Vitae que caia sobre ela. Era uma máquina de combate, e seu nome era sussurrado com medo e horror pelos ocasionais inimigos de Alamut. Eram poucos, verdade, mas o eram em razão de Jamal não permitir que crescessem em número. Cultistas mortais de Nergal que ousavam profanar a planície eram rapidamente julgados e executados pelo Ancião. Sem demora, desejou a seu irmão uma boa viagem, assumindo o Trono Negro sob o olhar vigilante de Ur-Shulgi.

Al-Ashrad também atendeu ao chamado de seu Senhor. Se em vida era o maior Feiticeiro do mundo, na morte Al-Ashrad era inigualável. Ya'rub sabia que somente três cainitas sobrepujavam o poder mágico e o conhecimento oculto de Al-Ashrad: o Pai, o próprio Ya'rub e seu irmão Ur-Shulgi. Não havia mistério no Universo que permanecia por muito tempo fora do escrutínio de Al-Ashrad. A ausência de um braço não o impedia, assim como a do olho, substituído por uma puríssima safira. Jamais havia tocado no assunto, jamais havia demonstrado rancor pela ausência de seus membros. Seu tom de voz se tornou mais baixo, quase sussurrante, um eco ouvido em todo o Alamut. Quando se juntava a Ya'rub nas pesquisas místicas, os resultados eram notáveis. Nas raras vezes em que trabalharam ele, Ya'rub e Ur-Shulgi, o mundo se abriu diante dos olhos dos três anciões, cujos espíritos estavam frequentemente embebidos em khaffir e filosofia.

Antes de deixar o Alamut, Ya'rub teve seu braço segurado por Ur-Shulgi. Mesmo sem intenção, a força de seu irmão era avassaladora.

- Eles vagam no Império pois aquela é uma terra amaldiçoada, repleta de demônios e desencarnados. Será assim para sempre, e a guerra acompanhará, perenemente, os Impérios que ali surgirem. E onde quer que estejam os demônios, lá estarão os Filhos de Bhaal, Tanith e Nergal. Seu amigo reina sobre uma terra que, fundamentalmente, não é dele. E que não será, jamais, de nenhum de nós. Avise-o enquanto é tempo.

Os buracos escuros que eram os olhos de Ur-Shulgi pareciam conter um pequeno brilho, quase invisível, bem no fundo de seu crânio.

*

Caminharam pelo deserto por noites, Ya'rub e Al-Ashrad, mestres um do outro. Passavam muito tempo juntos. Manu era uma presença inconstante no Alamut, o espírito antigo impondo à carne que vagasse pela noite. Quando retornava, contava inúmeras histórias ao seu Senhor. Ya'rub sabia que Manu era muito feliz com a própria eternidade, dedicando-se a descobrir o que lhe fosse possível. Haviam viajado, juntos, pelas terras ao Sul de Khemet, onde conheceram seus primos distantes. Abam, por outro lado, estava sempre na Montanha, mas seus interesses giravam muito mais em ajudar os mortais que ali viviam a desenvolver novas ideias. Ya'rub e Al-Ashrad, contudo, compartilhavam do mesmo destino: eram ambos caçadores de demônios, assombrados por seus próprios fantasmas e completamente ligados ao Selo de Lilitu.

Depois de noites, Jerusalém se descortinou diante dos olhos de ambos. Ya'rub já havia estado ali outras vezes, mas a sensação ao vê-la era sempre a mesma: sentia que estaria para sempre ligado àquele lugar. A despeito do fato de jamais ter conseguido pisar ali.

As casas amontoadas se erguiam nas colinas, deixando evidentes restos de templos antigos e outros tantos novos em construção. Os muros da antiga cidade tentavam, sem sucesso, proteger um centro urbano que havia crescido monstruosamente desde que Ciro da Pérsia permitiu aos hebreus que ali retornassem. Levas e levas de imigrantes alcançavam a cidade todos os anos, e alguns deles se estabeleciam mais ao norte, no Alamut. Ya'rub observava a cidade distraidamente, do alto de uma elevação, quando notou a aproximação de Urlon. Era impossível não notá-lo.

Subia, sozinho, a elevação na qual se encontravam. Tinha um passo pesado e lento, quase como se estivesse muito cansado. Quando se aproximou o suficiente, Ya'rub pode ver seu rosto. Era largo e grande, abrigando intensos olhos amarelos e uma boca disforme, distendida, como um focinho de animal com grandes presas. Tinha um odor feral, de floresta e de noites esquecidas. Vestia somente pedaços de couro marrom ligados por pedaços de metal. A vasta cabeleira era escura e longa, alcançando-lhe o meio das costas. Os membros eram fortes e troncudos; Urlon não era um homem alto. Ya'rub notou as longas unhas enegrecidas e o ângulo estranho formado pelos tornozelos.

Sabia que Urlon era, junto à Mithras de NÍnive e Sarosh de Babilônia, responsável pela manutenção do Império Aquemênida. Diferentemente de seus cogovernantes, Urlon era intenso e violento, não regido por regras escritas e convenções de civilidade. Era uma força da natureza, ligado à guerra e ao conflito, que encarava como uma missão particularmente natural: os fracos devem servir aos fortes.

Quando falou, porém, sua voz saiu clara e cristalina, extremamente articulada, como se não fosse produzida pelos lábios deformados, mas uma mistura dos sons feitos pela sua traqueia e impressões colhidas no ar pelos dons de Ya'rub.

- Eu saúdo o Senhor da Grande Montanha, saúdo o Filho de Haqim e todos os outros Bani Haqim. Saúdo vossa casa e o céu sobre vossas cabeças. Sou Urlon de Uruk, Senhor de Ectabana, Progênie de Ennoia, A Primeira. Venho em paz solicitar a colaboração de Alamut, conforme a autonomia que foi concedida aos vossos territórios em acordos precedentes.

Fez uma pausa e esperou que Ya'rub respondesse a saudação de maneira apropriada. Depois, foi direto ao assunto.

- Revoltas se tornam mais e mais frequentes na Fenícia, onde soldados e nobres desafiam a autoridade do Império. No Oeste, os gregos se recusam a pagar os tributos que lhe são devidos. Se gregos e fenícios se unirem, podem começar uma rebelião conjunta que não desejamos. Desejamos estabilidade e ordem. Solicito, portanto, a autorização do Alamut para fazer incursões nas terras sob a vossa responsabilidade.
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Sab Set 22, 2018 10:16 pm
Ya’rub escuta, com muita atenção, as últimas palavras que Ur-Shulgi lhe concedeu quando partia de Alamut. Olhou no fundo dos buracos que deveriam ser os olhos do irmão, mirando o brilho sobrenatural que aquele vazio emitia. Não possui nenhuma evidência que corroborasse as informações contidas naquelas palavras. Mas, de alguma forma, sabia que eram verdadeiras.

Com um aceno de cabeça, Ya’rub se despede do irmão. Ur-Shulgi falava sobre a única guerra que de fato importava. A guerra que não havia se encerrado com a queda de Mashkan-Shapir.

*****

No alto de um dos montes que se erguia no entorno de Jerusalém, Ya’rub observava a chegada de Urlon. Ao lado de Al-Ashrad, o Feiticeiro recebia o Senhor de Ectabana. O vento soprava com força naquela noite em Canaã, fazendo com que as vestes de Ya’rub dançassem no ar. As roupas negras que vestia já estavam desgastadas pelas inúmeras viagens que fazia pelo deserto, de modo que sua própria pele já muito mais escura do que suas vestes. Elas contrastavam com as vestes e a pele igualmente pálidas de Al-Ashrad. Misteriosamente, as circunstâncias particulares do Abraço do maior feiticeiro do mundo fizeram com que ele não carregasse a maldição da Escuridão típica do Sangue de Haqim.

Ya’rub escutou a apresentação de Urlon e prosseguiu:

- Eu, Ya’rub Bani Qahtani, Bani Haqim, também o saúdo, Urlon, Filho de Enóia. Meu Pai e sua Mãe nutriam uma admiração mútua. Foi Enóia quem lhe deu a alcunha de Grande Caçador. Trata-se de um título que ele carrega até as noites de hoje com muito orgulho, tendo em vista que lhe foi dado pela maior Caçadora que já existiu. Em paz o recebo, com o devido respeito que seu Sangue merece.

Após as apresentações, Ya’rub se coloca a escutar as informações e o pedido de Urlon. Só tornou a falar quando o Filho de Enóia encerrou.

- As revoltas que se iniciaram na Fenícia chegaram ao meu conhecimento. Os Banu Haqim já estão tomando as providências que julgamos necessárias para o momento. Também é de meu conhecimento que o Império Aquemênida é regido por um triumvirato, composto por ti, Mithras de Nínive e Daharius Sarosh na Babilônia. Este último um velho conhecido e companheiro, por quem tenho muita estima. Vocês estão livres para atuar nos territórios dos Banu Haqim, desde que suas ações tenham o aval do Triumvirato Aquemênida e não sejam apenas decisões tomadas de modo independente.

Ya’rub pausa. Sua voz assume um tom sério, ainda que calmo.

- Há também uma segunda condição. Enquanto estiverem nessas terras com seus exércitos, nenhum cainita, em qualquer posição que ocupe, terá permissão para aqui caçar. Os mortais estão sob nossa proteção. O único Sangue que poderão tomar será aquele dos inimigos que tombarem nos combates necessários ao cumprimento dos objetivos do Império.

- Qualquer cainita que desrespeitar essa condição será punido sumariamente pelos Banu Haqim. Serão condenados e considerados indignos do Sangue.

- Por favor, Urlon, Senhor de Ectabana, peço que não entenda isso como uma ameaça. Trata-se apenas da Lei que regem essas terras. Sua violação implica na punição que acabo de mencionar. E os Filhos de Haqim cumprirão seu papel como guardiões e executores da Justiça. Papel este que exercemos em nome de nosso Pai.

Dito isso, Ya’rub aguarda, com um semblante calmo, a resposta de Urlon.

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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Qui Set 27, 2018 11:15 am
Urlon se aproxima de Ya'rub, embora mantenha uma distância respeitosa. Olhava também, com uma certa curiosidade, para Al-Ashrad. Quando o fazia, estreitava os olhos por um breve instante, como se tentasse enxergar algo que se ocultava de sua visão. Voltava o olhar para Ya'rub de tempos em tempos enquanto respondia. Sua voz continuava perfeitamente audível em algum lugar entre o ouvido e a alma de Ya'rub.

- Nenhum cainita que por esta terra passar tocará um mortal que não seja um inimigo caído. É uma promessa minha e um direito teu, e assim será feito. Respeito os Banu Haqim, sua casa e sua terra.

Deu um passo para trás. Agora encarava diretamente Ya'rub.

- Tal ação não é de decisão conjunta do Triunvirato. É uma decisão minha. Meus pares são resistentes ao enfrentamento físico, preferindo negociar através das artes das palavras. Tais competências requerem, porém, demasiado tempo, um tempo do qual o Império talvez não disponha. Então, eu marcho.

Sem sequer alterar o semblante, esperou uma resposta.
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Qui Set 27, 2018 5:52 pm
Ya'rub se surpreendeu com a resposta de Urlon. Imaginara que sua segunda condição enfrentaria mais resistência por parte do Senhor de Ectabana. Mas não. Urlon estava ciente do dever de poupar os mortais daquelas terras, porém parecia disposto a violar as regras estabelecidas pelo Triunvirato Aquemênida. Quando ouviu isso, procurou não esboçar nenhuma reação além de balançar a cabeça afirmativamente.

Quando Urlon terminou, Ya'rub sorriu. Percebeu que o Filho de Ennoia observava Al-Ashrad.

- Ahh, perdoe-me a terrível indelicadeza. Não fiz as devidas apresentações. dito isso, apontou para seu companheiro - Este é Al-Ashrad Ibn Ya'rub Bani Haqim. Sangue do meu Sangue, mas dizer que é apenas "meu filho" não faz jus às suas capacidades.

Ya'rub suspirou. Sua voz assumiu um tom pesaroso.

- Agradeço sua predisposição em concordar com uma das minhas condições. Mas, com todo o respeito que o Senhor de Ectabana merece, fui claro ao dizer que duas condições precisam estar presentes para que seu pedido seja atendido. Os Banu Haqim não autorizarão a entrada de um exército nessas terras, enquanto esta não for uma decisão do Triunvirato.

- Como eu disse, minha relação com Daharius Sarosh é de longa data. Não o desrespeitarei passando por cima do Triunvirato por ele fundado.

- Ainda que a Guerra venha a ser inevitável, não arriscarei trazê-la antecipadamente a estas terras. Se o Senhor da Babilônia quer seguir por outras vias antes de pegar em armas, que assim seja. Tenho muitos motivos para confiar nas decisões de Sarosh.

Ya'rub fica em silêncio. Sua expressão era séria, apesar de pacífica. Urlon não era seu inimigo. Não havia nenhuma intenção de ofendê-lo. Ya'rub apenas seguia com aquilo que acreditava ser mais correto.

- Essa é a posição dos Banu Haqim.
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Sab Set 29, 2018 6:22 am
Urlon continuava extremamente calmo, apesar de sua aparência inquietante. Ya'rub tinha tido pouco contato com a Prole de Ennoia através dos milênios, mas ouviu, de diferentes vozes, que aquela família havia se tornado violenta e impulsiva. Os boatos não pareciam ser verdade enquanto ele estava diante de Urlon de Ectabana e de sua marcante civilidade.

- Eu compreendo teu voto e teu respeito por Daharius, Ya'rub. Respeito a lealdade. A razão de meu pedido era economizar dias de viagens e diminuir o cansaço de minhas tropas. Mas, se me é vetado proceder através das terras dos Banu Haqim, não desobedecerei tal decisão. Tomarei o caminho mais longo, mas chegarei até a Fenícia, onde tenho uma rebelião para fazer cessar.

O Filho de Ennoia, então, se aproximou. Seus passos era pesados e, ao mesmo tempo, extremamente silenciosos.

- Quero, porém, que tenhas em mente uma coisa. Sou o Senhor de Ectabana. Mas, antes disso, fui Senhor de Uruk por anos ininterruptos. Fui Senhor de Uruk antes mesmo que existisse um império. Eu sei o que é melhor e mais adequado para minha região. Entendo que tu e Sarosh tenham uma história em comum, e que confiem um no outro. Mas vos digo que a hesitação de Daharius custará a sobrevivência do Império. E se o Império cair, nada restará desta terra senão uma guerra civil permanente. Eu não estou disposto a apostar na diplomacia enquanto a sombra da desagregação se lança sobre o Império. Em todo caso, agradeço que tenhas usado teu tempo para escutar-me.

Dizendo isso, fez uma saudação a Ya'rub. Parecia sincero e respeitoso. Cumprimentou Al-Ashrad, tendo ainda nos olhos uma intensa carga de curiosidade. Depois, começou a retirar-se, colina abaixo, na direção de Jerusalém.

Enquanto Urlon descia a colina, a voz de Manu chegou aos ouvidos de Ya'rub.

"Pai, estamos na Fenícia. Algumas coisas já puderam ser identificadas. De fato, existe uma rebelião neste território, uma liderada por comerciantes e aristocratas que não aceitam se submeter aos pesados impostos cobrados pelo Império. Há uma presença cainita associada a estas pessoas, uma Filha da Rosa conhecida como Calida, Progênie de Tammuz, Progênie de Arikel. Há, também, indícios da presença ocasional de Helena de Micenas. Troile dorme o Sono dos Mortos, Biblos está sob comando de uma sua progênie, um cainita chamado Gersakkun, que pouco parece fazer para conter os ânimos. Aguardo tuas instruções."
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Dom Set 30, 2018 11:31 am
Ya’rub observava Urlon. Havia admiração e respeito no seu olhar. Era uma reação ao surpreendente respeito com que o Filho de Ennoia dirigia a ele.

- Eu lhe agradeço o respeito que dirige a mim e aos Filhos de Haqim, obedecendo nossa decisão. Me acalenta a alma perceber a honra e nobreza de caráter de guerreiros como você. Não lhe desejo sorte nem azar, mas peço que as próximas noites sejam gentis, para que Urlon, Senhor de Uruk e Ectabana, cumpra seu papel na Ordem das coisas.

O Feiticeiro escuta o recado final de Urlon e sorri.

- Entendo sua posição, Urlon, Filho de Ennoia. Irei ponderar sobre o que me diz. Mas retribuo-lhe com outro conselho. Não é papel de um simples erudito como eu chamar a atenção de um soldado a respeito do preço que se paga em uma guerra. No entanto, não posso me furtar de lembrá-lo que grandes conflitos não enfraquecem apenas o inimigo. Os custos financeiros e, principalmente, morais e emocionais são sempre altos. E é na fraqueza gerada pela guerra que nossos reais inimigos enxergam uma oportunidade.

Ya’rub fica em silêncio. Continua a falar, dessa vez sem nenhum sorriso no rosto.

- Nossos inimigos não são aqueles que fazem da Hélade seu lar. O Mal que deve ser combatido é aquele que não foi completamente extirpado em Mashkan Shappir. Esse mal ainda se esconde em nossas terras, onde sussurra profanidades para corromper as mentes de nossos irmãos, irmãs e protegidos. Quando o povo do Império estiver cansado de pagar o preço que a guerra irá lhes impor, o Mal estará lá para lhes oferecer um falso consolo. Pondere sobre isso, Urlon de Ectabana.

Quando Urlon já começava a desaparecer na descida da colina, Ya’rub escuta a voz áspera de Manu em sua mente. Silenciosamente, ele responde em seu pensamento:

- Vejo que foi bem sucedida em sua missão, filha minha. Agradeço-lhe pelas informações que me trás. Peço lhe duas coisas: continue aí e tente obter mais informações a respeito deste que chamam de Gersakkun. Quero saber qual sangue corre em suas veias, a qual linhagem pertence e quais são seus planos. Em paralelo, procure Calida. Diga que Ya’rub Bani Qahtani deseja uma audiência com ela, e que ele está disposto a caminhar até a Fenícia para vê-la.

****

Naquela mesma noite, ainda na colina em Jerusalém, Ya’rub tinha uma última tarefa urgente para cumprir antes de iniciar a viagem de regresso ao Alamut.

Sentado sob a luz da lua, ele retira de seus objetos um papiro e uma pena. Contempla, por alguns segundos, este último objeto. Tratava-se da pena da calda de uma águia dourada. A mesma espécie de ave que vira quando o Alamut se construiu. Com uma pequena adaga, Ya’rub abre um corte na palma de sua mão, deixando com que o vitae caísse no papiro aberto diante de si. Usando o próprio Sangue como tinta, ele escreve com agilidade no idioma persa:

Querido Daharius Sarosh, Filho de Laza, Senhor da Babilônia, Arauto do Abismo e Guardião do Selo.

É com pesar e urgência que lhe escrevo. Gostaria que as circunstâncias fossem diversas e que pudéssemos conversar sobre assuntos mais intrigantes, mas o atual momento me impele a ser breve e direto.

Estive com Urlon de Ectabana, que me pediu permissão para passar com seu exército nas terras dos Banu Haqim, rumo à Fenícia, onde ele pretende aplacar uma rebelião e se preparar para enfrentar os gregos. Diante da revelação de que esta não era uma posição consolidada do Triunvirato - algo que eu já imaginava, tendo em vista que conheço a ti e sei que não optaria por esta via sem antes tentar outras - recusei-lhe o direito de passagem. Contudo, sei que ele simplesmente irá desviar o caminho para cumprir com seus objetivos individuais.

Mesmo diante disso, a sede de Sangue de Urlon não é o que mais me preocupa. Tenho motivos suficientes para acreditar que nossos verdadeiros inimigos, os corruptores Filhos de Nergal, Moloch e o Terceiro, fazem do Império seu lar. Eles se escondem nas sombras de suas grandes cidades, esperando o momento certo para começar a agir. Creio, inclusive, que já estão agindo, pois este é seu modo de operar. O meu Medo é que os males advindos de qualquer grande guerra sejam o alimento que precisam para atuar de maneira mais ostensiva. Quando menos esperarmos, o Império Aquemênida já será um corpo doente além da salvação.

Peço, encarecidamente, que mantenha os olhos e os ouvidos atentos. Pediria também que mantenha o espírito forte, mas este eu sei que já lhe é natural. Os gregos não são nossos reais inimigos. Nossa real guerra é pelas almas e pela realidade, e não por um punhado de ilhas.

Confio em ti.

Ya’rub Bani Qahtani.


Ao terminar, Ya’rub enrola o papiro, amarrando-o com um precioso fio de seda. O Feiticeiro se levanta. De olhos fechados, ele sussurra algo na língua dos espíritos. Convocava o espírito da águia e sente que ele estava por perto. Usando de sua vontade e colocando Sarosh em seus pensamentos, ele lança o papiro amarrado aos céus. Uma lufada de vento sopra no topo da colina, e a carta com sua mensagem desaparece como poeira no ar.

Ya’rub sorri. Sabia que, no início da próxima noite, o espírito da águia depositaria a mensagem em lugar seguro e às vistas de Daharius Sarosh.
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

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