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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Dom Ago 26, 2018 4:59 am
- Eu morri aqui. Muitas eras atrás. Parte do meu espírito foi destruído e devorado pela Fera que aqui vive. Eu sou, como podem ver, incompleto. Eu estou em casa.

O Homem Morto apontou para o grande ferimento que carregava. Continuava a manter os olhos fixos na montanha.

- Era aqui que os primeiros cultistas que hoje infestam as cidades da Planície realizavam seus sacrifícios. Este lugar está infestado de pessoas que sequer sabem que estão mortas, condenadas a permanecer no mesmo ciclo de sofrimento eterno, sem entender a razão deste mesmo ciclo. Não pense em termos de Moloch ou Nergal. Os cultos da planície são muito mais antigos. Realizavam sacrifícios à Mãe Sombria, à Mãe de Todos os Monstros. Lilitu. E, quando os sacrifícios foram o bastante, de seu Ventre obscuro nasceu a Grande Fera, que é alheio a ela e é parte dela. Como todas as outras que vagam ou dormem próximo aos Pilares que sustentam o Véu.

Virou-se para Ya'rub. Por um instante, fixou o olhar no bolso em que o Antigo carregava o anel dado por Moloch.

- Eu a combati e falhei. Vocês vencerão.

O Homem Morto sorriu, pela primeira vez. Ya'rub notou que, apesar de ter a maioria dos dentes perfeitamente alinhados e brancos, que lhe davam um sorriso mecânico, lhe faltavam alguns.

Quatro caninos.

- Você decidirá, Ya'rub Bani Qahtani. Na última montanha diante de nós reside a Grande Fera, que deve ser destruída. Mas o Vale sobreviverá, sua maldade e monstruosidade sobreviverão, atraindo viajantes que, enlouquecidos, continuarão a alimentar o ciclo de sacrifícios. Quando estes tiverem sido suficientes, a Grande Fera despertará e destruirá Alamut, o Ninho da Águia, e tomará aquela terra como sua. A menos que libertes estas almas inquietas, impedindo-as de continuar a sua dança.

Fez uma pausa. Ya'rub notou que Al-Ashrad olhava fixamente para os espíritos ao redor do Touro de Bronze. Talvez com demasiada atenção.

- Eu sei pois eu cacei a Grande Fera e falhei, e conheço os seus planos.

Pareceu, por um instante, que o Homem Morto estava perdido em memórias. Seu corpo estremecia. Sentia algo. Ya'rub sentiu também. Havia algo enterrado ali, que não era a Grande Fera. Alguém fazia daquele lugar, ainda que involuntariamente, sua morada.

- Falhei, apesar de... apesar de... sim. Era isso. O Grande Caçador, o maior de todos. Seu Sangue... apesar de... Eu o vejo, agora. Eu não estou morto. Eu nunca estive realmente morto.

O Homem Morto parecia não ter consciência do que havia apenas dito. Eram como lapsos de consciência, lembranças que assolavam sua mente e que ele sequer se dava conta de como deixavam sua boca em uma torrente de palavras. Uma coisa era certa. O que quer que estivesse enterrado ali ressonava na mesma frequência do Homem Morto. Era como se buscassem uma reunião, o momento em que estariam juntos novamente. Ya'rub percebeu que Al-Ashrad começou, lentamente, a caminhar em direção ao Touro de Bronze.
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Seg Ago 27, 2018 1:30 pm
Ya'rub ouviu o Homem-Morto. Escutava suas palavras e as colocava, mentalmente, em um mosaico. Muitas peças ainda estavam perdidas mas, aos poucos, uma imagem começava a se formar.

Uma que imagem representava os pecados de Khayyn.

Ya'rub estava ali, no Vale de Gen Ben-Hinnon, diante do Homem-Morto, mas ao mesmo tempo estava de volta à Nippur, no Salão do Trono Negro. Estava novamente naquela noite em que Ilyias levou alguns em uma viagem...

Ge-Hinnon.

As lembranças voltavam. Vinham em detalhes.

Ay Baharii Lilitu.

Ya'rub via as almas perdidas, dançando doentiamente ao redor do touro de bronze. Via também Al-Ashrad caminhando naquela direção, devagar.

Do seu ventre, contudo, continuavam a nascer as Bestas que vagariam pelo Mundo, e outras coisas, e ela regozijou-se na companhia destas Bestas. A Vingança, porém, jamais havia sido esquecida. Os Quatro Arcanjos seguravam as pontas do Véu que a cobria. Não a deixariam escapar. Era uma Estátua e uma Árvore. Um Pilar e uma Estrada.

Seria isso? Estariam ali de pé, próximos a um dos Pilares que mantinham Lilitu aprisionada além do Véu?

O Homem-Morto também mencionou o Grande Caçador. Imediatamente, Ya'rub pensou naquele que, além de seu Pai, já teve essa alcunha. Absimilliard, seu misterioso tio. Irmão direto de Haqim. Aquele que teria ousado iniciar a rebelião contra os filhos de Khayyn e por isso foi duramente amaldiçoado. Mas seria essa a verdadeira história? Seria assim tão simples?

Estavam do Outro Lado do Véu. O Homem-Morto nunca estivera tão... próximo. Lentamente, Ya'rub estendeu as mãos. Tocou-lhe ambos os ombros e o segurou de modo gentil. Era possível sentir sua carne e sentir seu cheiro. Ele tinha um cheiro, mas Ya'rub não se sentia capaz de descrevê-lo.

- Nenhum homem deve se chamar Homem-Morto. Diga-me, companheiro... Diga-me seu nome. Diga-me quem é você e porquê fizeste o que teve que fazer. Diga-me, e irei eliminar a Grande Besta e libertar as almas que aqui estão aprisionadas.

Ya'rub percebe o olhar do Homem-Morto, direcionado ao seu bolso. Ele retira uma das mãos do ombro do espírito e, devagar, pega o anel que lhe fora dado por Moloch, levando-o a frente de seus olhos.

- O que devo fazer com isso?

Sem esperar uma resposta e ainda sentindo uma de suas mãos no Homem-Morto, Ya'rub se vira para Al-Ashrad. Se ali todo espírito era carne, talvez o contrário fosse verdadeiro... Usando de sua vontade, o Feiticeiro murmura palavras na língua dos espíritos. Subitamente, Ya'rub grita, emitindo um comando que percorreu seu corpo e buscava tocar a alma de Al-Ashrad.

- Al-Ashrad, pelo poder que me é dado pelas forças que regem os céus e a terra, Eu Ordeno Que Não Se Mova.

Uso de disciplina:
Ya'rub usa Dur-An-Ki Trilha "Lei de Salomão (Manipulação de Espíritos)" Nível 3: Voz de Comando.
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Ter Ago 28, 2018 8:12 am
- O meu nome...

O Homem Morto parecia se esforçar, imensamente, para recordar-se de si próprio. Num outro ponto, Al-Ashrad estacou violentamente. Todo o seu corpo tremia compulsivamente, mas ele se mantinha de pé. Próximo ao Touro de Bronze, os espíritos dançavam. Vomitavam e defecavam sobre a estátua avermelhada, espalhando seus excrementos sobre o Touro com as mãos nuas. Depois, lambiam o frio metal, assim como as próprias fezes. O Touro parecia encarar Ya'rub, uma expressão raivosa, como a de quem desafia alguém por estar em um lugar que não deveria. Al-Ashrad suava.

O céu estava mais vermelho do que estivera antes. Relâmpagos cortavam o Vale. Ya'rub sentiu uma leve tontura, como se o mundo estivesse sendo dobrado ao seu redor, numa tentativa de suprimí-lo.

Percebeu, porém, que um dos espíritos não dançava. Era um homem de meia idade, próximo aos quarenta anos. Tinha barbas e cabelos cinza-prateados. Estava nu, como os outros, o corpo coberto de Sangue seco. Tinha uma enorme laceração no pescoço, tão profunda que sua cabeça parecia que se descolaria do tronco a qualquer momento. Os olhos eram intensamente verdes e o corpo era frágil, nitidamente não guerreiro. Olhava, intensamente, para Ya'rub.

- O meu nome... é Yima.

Relâmpago. Ya'rub sentiu que, abaixo do Vale, em uma profundidade absurda, algo se remexia em seu sono. Sentiu, claramente, que era um cainita. Um que desconhecia.

- Eu tentei, tentei. Enfrentei a Grande Fera, para que meu Ancestral tivesse o perdão do Pai Negro. Sozinho. É muito grande a Maldição de Caim sobre os meus irmãos. Tão grande, tão violenta. Destruiu nossos corpos mas, mais ainda, destruiu nossas almas. Para sempre.

O Homem Morto levou a mão à cabeça. Parecia padecer de uma dor inigualável.

- Meu nome é Yima. Eu sou Filho de Absmilliard. Meu nome é Yima. Sou um estudioso de tudo o que existe sobre o Mundo. Me chamo Yima. YIMA! O Avô, comigo, foi generoso. Deveria tê-lo sido com todos nós. Eu tentei, oh Deus, como eu tentei! Mas a Fera é por demais poderosa.

A dor parecia ter passado. O Homem Morto abaixou a cabeça. Uma lágrima pingou no chão seco do Vale. Não era Vitae. Era, de fato, uma lágrima. Ya'rub não pode deixar de notar, agora que a verdade havia sido revelada, que Yima não apresentava as deformidades de seu Criador.

- Meu nome é Yima. E Yima será grato a ti, Ya'rub Bani Qahtani, enquanto houver consciência em mim. Eu protegerei a ti e aos teus. Yima. É este o meu nome. Não permita que eu o esqueça novamente.

Olhou para o Touro. Uma mulher havia montado nele. Copulava com um dos chifres de bronze. Sangue esvaía de suas partes íntimas, mas ela não parecia preocupada. Os outros espíritos saltavam e aplaudiam, com imensa alegria. Al-Ashrad vomitava Sangue.

- O anel é feito do mesmo material do Touro. Expulse-os. Liberte-os.


E, então, Yima desapareceu. Ya'rub sentiu que algo havia despertado no subsolo e começava a sua lenta, porém inexorável ascenção à superfície.
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Ter Ago 28, 2018 5:43 pm
Ya'rub quase não acreditava naquilo que ouvia. O Homem-Morto tinha um nome afinal: Yima. Mas não era isso o mais impressionante. Não era seu nome que despertava incredulidade. Ya'rub não conseguia acreditar em quem Yima afirmava ser seu pai: Absimilliard.

Até onde havia ouvido falar, seu tio nunca produzira progênie. Sua natureza destrutiva e o orgulho doentio nunca o permitiria trazer um Filho ao Sangue. O que dizer então de alguém tão... imaculado na aparência e no espírito como Yima.

O Feiticeiro arregalava os olhos conforme escutava Yima. Tudo era inacreditável, porém Ya'rub havia aprendido há muito séculos que a realidade, apesar de concreta, é mais misteriosa e cheia de meandros do que nos fazemos acreditar. Tinha diante de si um filho imaculado de Absimilliard, que, aparentemente e por um desconhecido motivo, teve seu espírito deslocado de um corpo ainda ativo... Sorriu consigo mesmo. Estava contagiado com as inúmeras possibilidades que imprevistos que o Universo abria diante dele. A Realidade, como sempre, era fantástica...

Antes que Yima desaparecesse, Ya'rub o tocou uma última vez. Em um tom gentil e com olhos ternos, assegurou seu primo:

- Primo meu... foi uma honra tê-lo ao meu lado, mesmo que por tão pouco tempo. Teu nome é Yima, e nem eu nem o Mundo o esquecerá.

Observou Yima desaparecer, e virou-se para Al-Ashrad e os espíritos inquietos. Sentia o Vale tremendo sobre seus pés. Abaixou-se e tocou a terra enegrecida que tornava aquela paisagem ainda mais triste. Sorriu.

Ao levantar-se, fitou o estranho espírito que o observava de longe. Com um olhar decidido, Ya'rub retira o anel de seu bolso e o coloca na mão esquerda. O vislumbra por algum momento. Moloch... os Baali... o quanto de sua alma estava completamente perdida e o quanto ainda pertencia ao Sangue de Saulot? Eram infernalistas, de fato. Realizavam pactos com criaturas inferiores e maculavam suas almas no processo. Se fossem filhos de qualquer outro, Ya'rub diria que não haveria salvação. Mas eram do Sangue do Mais Nobre, o favorito de Khayyn, o mais amado entre e por todos os irmãos. Moloch ainda era um Filho de Saulot e Ya'rub acreditaria, ao menos neste momento, que fora um Filho de Saulot que lhe entregou aquele presente.

Ya'rub caminha em direção ao Touro de Bronze, com o anel. Aperta o passo, para ultrapassar e ficar à frente de Al-Ashrad. Andava, e ao mesmo tempo segurou o cabo da Adaga de Obsidiana. Iria limpar o Vale de Gen Ben-Hinnon. Iria libertar os espíritos.

****

O Feiticeiro estacou quando estava a poucos passos do Touro. As almas lhe lançavam olhares, mas não paravam em nenhum momento de seguir com sua dança-ritual depravada. Apenas o estranho homem com um profundo corte no pescoço não fazia nada. Apenas observava Ya'rub, que também o encarou por um tempo.

Voltou a contemplar a perversão das almas que riam, urravam e se deleitavam com a estátua... Era mesmo uma estátua? Em vários momentos, Ya'rub podia jurar que o touro de bronze o o acompanhava pelo canto do olho. Suspirou, pois lamentava o estado no qual aqueles espíritos haviam chegado. Quem teriam sido aqueles homens e mulheres enquanto vivos? Qual seria a história de cada um deles? O que teriam construído? Ya'rub pensou que, diante dessas perguntas, pouco importavam as respostas. Pois de que adiantaria viver uma vida de glórias, se a eternidade seria passada em uma macabra dança, cujo sentido estava perdido no tempo.

Pouco importava se foram nobres ou plebeus, pessoas de fé ou incrédulos, santos ou assassinos. No momento em que foram oferecidos em sacrifício à Lilitu, suas almas foram condenadas a permanecer naquele estado de falso êxtase. Condenadas a perpetuar o sacrifício para o qual se entregaram ou foram entregues, até que a Grande Besta caminhe novamente. Naquele momento, Ya'rub mais uma vez teve a certeza que aquilo que fazemos no plano dos vivos pode ser completamente irrelevante quando compreendemos a vastidão e a eternidade dos muitos planos da existência.

Todos ali dançando estavam além da salvação. Para aquelas almas, pensou Ya'rub, só havia uma única opção, além daquela na qual já se encontravam: Destruição e Esquecimento. Essa seria sua única liberdade.

O barulho que faziam tornava-se cada vez mais insuportável. Era uma mistura de gritos e urros de dor e prazer. Ya'rub se irritava cada vez mais com aquela cena. Sentia que o momento daquelas pessoas já havia se passado. Elas dançaram ao redor do Touro por mais tempo do que deveriam.

Ya'rub abaixou a cabeça e cerrou os olhos.

E o silêncio se fez presente.

As almas continuavam em sua dança, mas não havia mais barulho. Suas bocas se moviam e ainda batiam palmas e os pés no chão de terra. Mas nada, absolutamente nada, emitia um som. Algumas delas esboçavam reações de estranhamento, percebendo que havia algo estranho, mas logo ignoravam o silêncio e continuavam se movendo.

Havia usado os dons que aprendeu com seu Pai, utilizando o Sangue para privar o mundo ao seu redor de qualquer som. Mas Haqim havia lhe ensinado algo diferente. Haqim sabia que os dons de Ya'rub necessitavam de palavras de poder. E por isso Haqim lhe mostrou como roubar os sons, mas exercer sua vontade para ser o único a profanar o silêncio.

Ya'rub levanta a mão esquerda até o centro do peito. Seu polegar tocava o dedo mínimo, fechando um círculo. Os dedos indicador - que vestia o anel de Moloch - médio e anelar estavam estendidos. Sentiu que o anel emitia calor, mas sua Besta não se amedontrava. Não era fogo. Era apenas o poder ali contido. Abriu os olhos e começou a falar, sua voz sendo o único som que reverberava pelo silêncio.

- Meu nome é Ya'rub Bani Qahtani, e a ti eu lhes dou meu nome, pois não os temo.

O Feiticeiro dá um passo à frente. Mantinha sua mão na mesma posição. Algumas almas o olhavam com mais atenção.

- Meu nome é Ya'rub Bani Qahtani, Bani Haqim, o Primeiro Ashipu de Nosso Sangue.

Ya'rub dá mais um passo. Mais almas paravam o que estavam fazendo para observá-lo. Algumas já se mostravam inquietas, apontando-o e amaldiçoando-o, mas delas não vinha nenhum som.

- Meu nome é Ya'rub Bani Qahtani, Bani Haqim, Mestre do Céu e da Terra. Eu conclamo o Poder de Anu, Enlil e Ninshiku, Senhores dos Três Céus.

A voz de Ya'rub trovejava no silêncio imposto por seu Sangue. Todas as vinte almas ali presentes, com exceção do estranho homem que o observava desde o início, se esforçavam para gritar contra o Filho de Haqim.

- Meu nome é Ya'rub Bani Qahtani, Bani Haqim. Eu conclamo o Poder de Marduk, Ninnurta, Nergal, Ishtar e Nannu, Senhores das Estrelas.

O calor que emanava do anel já era forte o suficiente para cobrir toda a sua mão. As almas davam passos lentos, mas decididos, na direção de Ya'rub.

- Meu nome é Ya'rub Bani Qahtani, Bani Haqim. Eu conclamo o Poder de Anshar e Kishar, de Nammu e Tiamat, Senhores da Terra.

As almas continuavam se aproximando. Ya'rub sorriu.

- Meu nome é Ya'rub Bani Qahtani, Bani Haqim, e pelo poder que me é concedido, Eu Ordeno Que Venham a Mim e Me Destruam.

Ya'rub concentra todo o seu poder, ativando seu Sangue para exercer sua Voz de Comando.

E as almas vieram. Vieram com ódio e luxúria. Com dor e uma alegria profana. O destruiriam, se ele assim o deixasse.

Mas Ya'rub não permitiu. Sorria. E quando todas elas se aproximaram, prestes a tocá-lo, Ya'rub abriu os dedos que estavam fechados em círculos, ao mesmo tempo em que estendia sua mão, mantendo a palma aberta. O poder concentrado do anel se expandiu, provocando uma onda de calor explosiva, que tinha o Feiticeiro como epicentro.

E tão rápida quanto veio ela se dissipou. Um flash de luz que cegou a todos por um microssegundo. Quando Ya'rub voltou a enxergar, dezenove das 20 almas não estavam mais ali. Haviam desaparecido, sem deixar nenhum vestígio. Foram completamente obliteradas. Eliminadas dessa e de todas as esferas da existência. O Touro de Bronze jazia destruído no solo profano do Vale de Gen Ben-Hinnon.

Apenas o velho homem continuava ali, impassível.
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Sex Ago 31, 2018 6:30 am
O velho homem encarava o Feiticeiro. Havia, em seu olhar, uma mistura notável de medo e respeito, além de uma profunda curiosidade. Estreitou os olhos, ainda encarando Ya'rub, antes de pronunciar as primeiras palavras. Ao seu redor, o chão estava ainda mais enegrecido pela demonstração de poder do Bani Haqim. O Touro, ou o que restava dele, fumegava no chão. Os pedaços de bronze derretiam velozmente, mas eram rejeitados pela Terra. Uma fumaça escura, que partia deles, se elevava rumo ao céu avermelhado.

- Quem é você? Tua aura me atrai e me dá repulsa. Me intriga e me afasta. Quem é você, Feiticeiro? Não importa. Eu o seguirei, e descobrirei sozinho.

E então, antes que Ya'rub pudesse responder ou perguntar as mesmas coisas ao Espírito, este desapareceu.

Al-Ashrad havia desabado no chão. Ainda tremia um pouco, estava pálido e olhava ao redor, confuso. Levou algum tempo para se recuperar, levantando-se com uma certa dificuldade. Pigarreou, limpou as vestes cobertas de poeira e se dirigiu a Ya'rub. Seus olhos brilhavam.

- Não pude resistir ao chamado. Era mais forte que eu. Sou grato pela tua presença, Ya'rub. Sem ti, provavelmente, eu seria um deles neste momento.

Al-Ashrad observava, com atenção, o anel no dedo de Ya'rub. A peça de bronze estava quente, mas não machucava o Feiticeiro. Seus pensamentos, antes, se haviam voltado a Moloch e ao fato de ele ser Filho de Saulot. Apesar das dúvidas concernentes a Moloch, Ya'rub não conseguia detectar nenhuma malícia na joia. Tampouco colaboração ativa. O objeto era completamente indiferente ao Feiticeiro e parecia-lhe que, se tivesse uma consciência, esta preocupava-se somente em cumprir o seu Dever. A Adaga de Obsidiana, por outro lado, parecia vibrar na cintura de Ya'rub. O Feiticeiro reconheceu que a arma tinha tido um papel fundamental em canalizar seu poder e libertar os espíritos. Mas, enquanto o anel era indiferente, a Adaga tinha intenções muita claras. Havia identificado aquelas almas como inimigas, e havia se alegrado com a decisão de Ya'rub de obliterá-las.

Al-Ashrad respirava fundo, tentando recobrar o controle sobre si mesmo. Quando finalmente o fez, dirigiu-se novamente ao Filho de Haqim.

- Cumpristes o teu papel. Agora cabe a mim fazer o mesmo. Enquanto mortal, te dou acesso a Montanha dos Mortos. A ti, que não se encontra em nenhum lugar, preso entre a Vida e a Morte.

Al-Ashrad sentou-se no chão. Com a mão direita, reteve um punhado da areia escura do Vale. Fechou os olhos e, lentamente, se balançava para frente e para trás em um ritmo continuo. Em seguida, começou a cantar.

Ya'rub não conhecia aquela lingua, era a mesma usada pelo pai de Al-Ashrad. Intuia, entretanto, que se tratava de uma prece, ou invocação. Sentiu um frio que se manifestava dentro de seus ossos, embora nenhum vento soprasse. Sem se levantar, Al-Ashrad retirou da cintura uma bolsa de couro. Dela retirou um punhado de cinzas. O cheiro lembrava a Ya'rub ervas exóticas, sal e Sangue. Misturou-as com a terra escura que tinha em mãos e em seguida, com a ajuda de uma pequena lâmina, cortou o dedo indicador e pingou do próprio Sangue dentro da bolsa de couro. O frio se acentuou, e Ya'rub notou que não estava mais no Mundo dos Mortos. Tampouco naquele dos vivos. Estava em algum lugar intermediário, inacessível para a maioria dos espíritos e inacessível, também, ao Deuses. Somente ele e Al-Ashrad tinham permissão para caminhar ali. O mortal se levantou e untou as mãos com um pouco do unguento que tinha preparado. Sem cerimônias, esfregou a mistura nos dois olhos de Ya'rub, e fez o mesmo consigo.

O Feiticeiro viu, com surpresa, que as inúmeras montanhas avermelhadas que haviam no centro do Vale haviam desaparecido, como fastasmas que perdem substância. Somente uma permanecia, próxima a eles. Era alta e imponente, seu cume se perdendo por dentre as nuvens cor de chumbo. Olhava, atento, a elevação quando se deu conta que, nos limites entre o Vale e o local onde havia encontrado Ur-Shulgi, algo acontecia.

Uma massa de Escuridão amorfa, como as típicas manifestações da Casa da Noite, se fez visível. Era silenciosa e movia-se lentamente, em uma maneira hipnótica e elegante, formando mandalas e espirais antes de recuar, também lentamente, e deixar à mostra dois de seus primos. Daharius Sarosh, Arauto do Abismo e Enki, Senhor do Abzu. A despeito da presença dos dois, foi outra coisa que chamou a atenção de Ya'rub e, visivelmente, também de Al-Ashrad. Quem quer que tenha comandado tal manifestação, não dispunha da assinatura mística de Laza, Senhor de Sarosh. Era fruto de um poder muito mais antigo, muito maior e profundamente ambiguo.
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Dom Set 02, 2018 5:39 pm
Ya’rub perdeu-se por um breve momento. Contemplava, admirado, a mudança pela qual o Vale havia passado. Sabia que não fora o local que se transformava, mas sua própria percepção e vibração. Através do poder de Al-Ashrad, haviam atravessado mais uma barreira e agora estavam em um não-lugar, perdido no espaço e no tempo.

Sabia também que a libertação dos espíritos fora apenas o começo. Talvez apenas a tarefa mais simples que deveria desempenhar naquela noite. O mais difícil viria agora. Levantou as mãos diante dos olhos para simultaneamente admirar o anel de Moloch e a Adaga de Obsidiana. Eram, juntos com Al-Ashrad, seus únicos aliados no combate contra a Grande Besta. Sorriu para os objetos, como se estes fossem capazes de perceber sua gratidão...

E foi exatamente neste momento que a massa de Escuridão surgiu e tomou sua atenção. Era, sem sombra de dúvidas, uma manifestação de poder típica de Laza e seus filhos. Ainda assim, era diferente... nunca havia observado um fenômeno com aquela assinatura. Não era Laza, nem nenhum dos descendentes que conhecia. Cerrou os olhos para tentar compreendê-la e, surpreso, viu surgir Sarosh e Enki.

Não pôde deixar de sorrir e soltar um riso leve. Era, de fato, um momento mais do que oportuno para que aparecessem ali, ainda que as circunstâncias que o direcionaram até ali eram misteriosas.

Virou-se para Al-Ashrad e apontou para seus dois primos:

- Contemple, Al-Ashrad, dois dos mais admiráveis descendentes de Khayyn. Talvez as estrelas estejam mesmo sorrindo para nós.

Percebeu que os dois cainitas não eram capazes de vê-lo. Seus espíritos não estavam vibrando na mesma frequência que o Vale. Ya’rub foi caminhando na direção em que estavam, ao mesmo tempo em que tentou enviar, sem saber se seria bem sucedido, palavras para suas mentes. Primeiro para Sarosh e, logo em seguida, para Enki. Seu tom era gentil, pois não queria que se sentissem invadidos. Mesmo assim, fez questão de imprimir um tom de urgência

Amado primo, como é bom vê-lo aqui. Acalmem-se, e permitam-me trazê-los para Além do Véu.

Ya’rub posicionou-se diante de Sarosh e Enki. Concentrou-se e usou de sua vontade, pois imaginava que não seria fácil fazê-los atravessar a barreira entre os mundos. Fechou os olhos e estendeu as mãos, procurando tocá-los nos braços. A sensação era muito próxima daquele que tinha quando mergulhava no Yam ha-Melah, o mar de sal que existia nas terras dos cananeus. Era como se uma força líquida, muito mais densa que seu corpo, o empurrasse no sentido contrário. Mas Ya’rub se esforçou.

E em um só movimento, puxou seus primos para dentro.
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Ter Set 04, 2018 12:36 pm
*Após o choque de se encontrar com um dos membros da Segunda Geração, já o segundo na existência de Enki, ele experimenta... o que quer que tenha acontecido agora. A surpresa, porém, diminui um pouco quando vê Ya'rub o recebendo naquele vale.*

-Ah, então era você o filho de Haqim que deveríamos encontrar. Isso certamente tornou a escolha de Sarosh mais fácil.

*Mesmo com a urgência que a situação demandava, Enki não consegue deixar de absorver o ambiente à sua volta. O mundo que era ao mesmo tempo opaco, translúcido... mas real. Nem mesmo todas as vezes em que viu o mundo através dos olhos dos espíritos foi capaz de tamanha imersão.*

-Diga-me, amado, é dessa forma que você vê o mundo? É magnífico...

*Após alguns segundos mais de distração, Enki sacode o braço, como que para indicar que a resposta não importava, não no momento.*

-Não sei o quanto você sabe, ou o quanto tempo temos para falar, então tentarei ser breve: você enfrentará uma ameaça indescritível agora, e será destruído no processo, pois está com uma arma poderosíssima ao seu dispor - *Um olhar rápido até a Adaga presa na cintura do filho de Haqim* - mas é a arma errada. Sarosh possui a certa, e acredito que devam trocar entre si. E juntos, temos uma chance.

*Um de seus olhos dá um rápido lampejo vermelho*

-E temos um dever.
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Qua Set 05, 2018 7:45 am
Diante do vale e da sua imensidão, o arauto buscava o filho de Haqim ao passear seus olhos negros pelo horizonte. Sentia-o, mas não o via.

Foi então que seu corpo deixou a inércia e atravessou algo frio, tangível, levando-o ao outro lado daquele local. Jamais havia caminhado para além do físico e do abismo. Sabia que havia mais, pois destinou longas noites em diálogos com Japhet sobre os mistérios do oculto. A sensação, no entanto, era inexplicável.

Tudo era mais opaco, lúgubre, um tanto sem cor e frio. Era como se o abismo pudesse ganhar as formas das planícies e deixar sua escuridão para trás. Era estranho, era fascinante. A urgência, no entanto, não o permitiu contemplar mais que alguns parcos e imperceptíveis instantes. Alegrou-se, ao saber que aquele ao qual buscava atendia pelo nome de Ya'hub.

Sem demora, ergueu e palma de sua mão direita até a altura da cintura e sobre ela estava a pedra obsidiana, com uma mancha de sangue. Sua voz grave se fez ouvir brevemente, não havia tempo a ser perdido.


- A criatura que está prestes a enfrentar, caso desconheças, Ya'hub, é uma das crias de Lilith. Àquela que descobrimos ser responsável pela criação, através da manipulação de Saulot, dos Baali. Não temos tempo, em síntese devemos guardar a existência de tais criaturas que desejam consumir a todos os filhos de Cagn, de Set, e tudo que caminha na terra durante o processo.

Olhou a adaga em posse do Feiticeiro dos filhos de Haqim e continuou.

- A adaga pertenceu à Irad, meu ancestral, que em suas últimas palavras demanda que esteja sob a guarnição da minha casa. Assim como esta pedra deve permanecer sob a guarda dos filhos de teu Pai e, creio, que caberá a vós portá-la.

- Juntos, os guardiões devem enfrentar e expulsar - ou destruir - a criatura que buscas. Em meio à inevitável Jyhad, deveremos transpor diferenças e limitações, primos, pois a nós coube um dever maior que a todos os demais.


Somente no final notou o homem ao lado de Ya'hub. Por um breve momento suas tatuagens sombrias deslizaram sobre sua pele em direção ao homem. Pareciam buscá-lo, pois buscavam o antinatural. Daharius Sarosh o observou, curioso, mas focou-se no Filho de Haqim que possuía mais informações sobre a criatura e sua localização. Manteve a pedra disposta e aguardou a troca pela adaga.
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Qua Set 05, 2018 12:59 pm
Com seu notório sorriso, Ya'rub escuta as revelações que seus primos recém-chegados lhe contavam. Enquanto os ouvia, balançava a cabeça afirmativamente, como se concordando com absolutamente tudo o que era dito.

Quando falou, dirigia-se a todos, mas olhava diretamente para Al-Ashrad, como se fosse o mortal que estivesse aprendendo uma lição.

- Veja o quão maravilhoso é estar conectado com todas as coisas do mundo, consciente de nosso lugar na ordem universal. Ao final, eu não estava caminhando para a Morte, pois o Universo faria, invariavelmente, que meus primos estivessem aqui. As coisas são o que são, nobre Al-Ashrad. E serão sempre aquilo que devem ser.

Ele volta a olhar para Sarosh e Enki.

- Sim, estamos prestes a nos encontrar com uma Cria de Lilitu. Uma Grande Besta, tal como se referem a ela no lugar de onde vim.

Ya'rub retira a Adaga de Obsidiana da cintura. Volta a observá-la por um momento. Então fora Irad e Zillah que viu quando comungou com a Lâmina. Solenemente, entrega-a para o Filho de Laza.

- É um objeto de personalidade. Ela se alegra quando percebe que seus inimigos são destruídos. Foi construída por Irad, que a deu de presente à Zillah em algum momento perdido no passado. Um presente para que ela se protegesse daqueles que quisessem seu mal.

Com um misto de curiosidade e receio, Ya'rub pega a pedra que Sarosh o entregava. Tal como fez com a adaga, observa aquele artefato com uma certa paciência, como se não houvesse nenhuma urgência naquele momento. De repente, como que saindo de um transe. Ele diz:

- Permitam-me apresentar-lhes... - Ya'rub aponta para Al-Ashrad - Este é Al-Ashrad. O Maior Feiticeiro deste Mundo. Ele é o elo vivo que nos permite andar nesta pequena prisão detrás do Véu.

Ya'rub se vira e contempla a montanha em chamas.

- Sigamos então, primos meus. Enfrentemos o fruto de mais um dos muitos pecados do agricultor fratricida.
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Qui Set 06, 2018 5:46 am
Trocaram os objetos, e isto não foi uma ação sem significado. A Enki, que estava de fora daquele ato, tudo pareceu muito claro. Ya'rub e Daharius, por sua vez, tiveram suas percepções limitadas pelo papel que executavam.

Quando tomou a Adaga das mãos de Ya'rub, foi notória para Sarosh a sensação de estar, novamente, na presença de Irad. Foi vaga e fugaz, mas notória. Além disso, sentia de maneira clara que aquela arma dispunha de uma personalidade. Estava calada e quieta, mas era uma presença constante, uma vibração intensa em sua nuca, que falava com ele, embora sem palavras audíveis.

Quando Ya'rub, por sua vez, pousou sua mão na pedra, sabia que se tratava de muito mais do que um simples pedaço de rocha. As manchas de Sangue sumiram imediatamente diante dos olhos do Feiticeiro. Ya'rub percebeu, então, que havia um grito feminino de dor e pavor que ecoava em seu subconsciente desde o momento em que Enki e Sarosh haviam chegado àquele local. Era mais um sensação que um rumor propriamente dito mas, no momento em que a Pedra passou ao seu controle, o grito, o eco cessou. Restou, somente, o silêncio.

Brilhando avermelhado, o Olho de Kupala a tudo via. Al-Ashrad encarava Enki com atenção, como que sentindo a poderosa energia que fluía pelas veias do Filho de Loz.

A montanha, a única e última montanha do Vale de Gei Ben-Hinnon estava diante deles. Começaram, portanto, a caminhar.

*

A passagem foi veloz. Ao redor deles, o Vale outrora avermelhado e seco tomava a forma de um lugar pantanoso e cinzento. Ao redor dos cainitas, simulacros de árvores escuras e retorcidas se insinuavam na paisagem. Jamais haviam sido vivas, aquelas árvores. A montanha parecia cada vez mais próxima, imensa e desafiadora. Havia o silêncio. Nenhum vento soprava, nenhuma pedra rolava. Os espíritos não mais existiam ali, tendo sido libertados por Ya'rub. O Filho de Haqim intuía que aquele lugar não estava localizado no Mundo dos Mortos, que haviam deixado para trás junto aos resquícios do Touro de Bronze, mas tampouco estava no Mundos dos Vivos. Aquilo era um não-lugar, um reflexo de algo que há muito havia deixado de existir, mas que pertencia a somente uma pessoa, tendo sido construído por ela.

Lilitu.

Era uma presença de poder, a dela. Subitamente, ficou claro a todos que caminhavam em seus domínios, ou onde teria sido parte de seus domínios. Era um poder sem assinatura, sem sentimentos. Estava ali, somente, um atestado da presença de uma criatura de poder incompreensível. Emanava de forma neutra, um eco. A única coisa que parecia exigir era um sacrifício. Mais um sacrifício. Al-Ashrad caminhava na frente.

A planície cinzenta se prolongou até os pés da Montanha. Atrás dos cainitas, nada mais existia, a não ser uma planície infinita e intransponível, onde não era dia nem noite. A Montanha se erguia sozinha, não natural, como um dente que se elevava do solo. Pararam, diante dela. Sabiam que Al-Ashrad não poderia prosseguir. O mortal parecia muito calmo, como se estivesse diante de um momento para o qual havia se preparado durante toda a sua vida. Sem consultar os presentes, sentou-se no chão diante da Montanha. E, com a ajuda de uma adaga, abriu um corte profundo em seu pulso esquerdo. O Sangue molhou a terra úmida, e um forte som pode ser ouvido, algo como o ressoar de um poderoso trovão. Como uma serpente, o Sangue de Al-Ashrad seguiu em direção à montanha, e invadiu os sentidos de Sarosh e de Enki, que não puderam deixar de desejar experimentar aquela Vitae. Era forte e cheia de vida, cheia de Magia.

- Aqui, se for da vontade do Universo, eu morro para garantir que o Universo viva.

Um segundo e último véu se agitou entre os cainitas e a Montanha, parecendo cair. Era óbvio a todos a gravidade da situação: Al-Ashrad deveria permanecer ali, sangrando, de forma a permitir que seus acompanhantes tivessem acesso à Montanha. Os olhos do mortal estavam, agora, completamente brancos e ele não parecia sentir dor ou incômodo. Preparavam-se para escalar a elevação, quando perceberam que ela não mais existia. A planície se estendia, novamente, em direção ao infinito mas, entre eles e o Fim do Mundo havia um esquife.

Era um grande objeto de pedra escura, largo o suficiente para abrigar, talvez, dois corpos. Não dispunha de adereços ou inscrições. Estava ali, parado em meio ao nada, parecendo esperar para ser aberto. Era nítido que havia algo dentro dele. O Sangue que escapava das veias de Al-Ashrad, lentamente, escorria na direção do esquife, mas ainda não o havia alcançado. Sentiram, contudo, uma presença. Era algo alienígena e, ao mesmo tempo, familiar. Era infinitamente hostil e violenta, sem senso de piedade mas com forte senso de honra. Era forte, fisicamente e espiritualmente. Dormia, mas se remexia em seu sono. E a cada vez que o fazia, os ecos de seu movimento se dirigiam ao mundo físico. Toda aquela hostilidade tinha um alvo claro: Alamut, o Ninho da Águia, mas isto somente Ya'rub conseguia sentir, pois somente ele conhecia a Montanha Que Não Existe.

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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Qui Set 06, 2018 4:47 pm
*Com a apresentação de Ya’rub, e o próprio interesse do mesmo, Enki não pode deixar de fitar Al-Ashrad. Ele, de fato, pulsava de poder, de maneira similar à Zena, mas ao mesmo tempo, completamente diferente. Mesmo após se voltar a Ya’rub e Sarosh, o Olho passa mais alguns segundos observando o mortal, qualquer resquício de cor castanha sumido, lampejando num puro vermelho carmesim. E quando o mago derrama seu sangue no chão, Enki sabe que precisa de cada grama de sua determinação para não devorá-lo ali e agora, e condenar a todos nos processo.*

*Mas ainda assim, o Moldador precisa de algo do mago. Enki se aproxima de Al-Ashrad e pega… seus cantis. E enquanto seus companheiros fazem os próprios preparativos, ele percorre a área em volta do esquife, deixando os cantis em três pontos diferentes, e, conforme anda, deixando um rastro de sangue atrás de si, embora não tenha nenhum corte aparente.*

*Quando Enki termina a volta, algo acontece. Com um gesto, ele levanta a lança e faz um arco, como um cajado, e o sangue derramado começa a converger em direção aos três cantis, e a água destes começa a transbordar e tomar forma. Três serpentes saem dos recipientes, feitas inteiramente de água, e se dirigem a Enki, circulando seu criador. Ele não diz nada, apenas observa o sangue, e sua trajetória ao esquife.*



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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Dom Set 09, 2018 10:10 am
Conteve-se ao desejar o sangue do mortal. Conteve-se pois, naquele instante do inexorável tempo, o dever que lhe foi imposto e aceito com honra era maior que a própria maldição que carregaria pela eternidade.

A adaga obsidiana ressoava em suas mãos, amargurada, talvez. Aquele objeto carregava uma parte da história cainita desconhecida à todos os mais jovens. Seria ele, também, a guardá-lo. Deu um passo à frente, colocando-se diante de Enki e Ya'hub. Daharius sabia que dentre os três era o único guerreiro, aquele que suportaria o peso da mão agressiva do filho de Lilitu para que os feiticeiros pudessem atacá-lo.

As sombras serpentearam e deixaram os corpos de Ya'hub e Enki por um instante, deslizaram junto as tatuagens sombrias de Sarosh enquanto a armadura de placas se formava a seu redor. Uma fina camada translúcida era vista acima da armadura, tornando seu aspecto como o de um diamante negro e reflexivo. Em sua mão direita, a adaga obsidiana vibrava aguardando o inimigo. Também ela foi revestida pelas místicas sombras do abismo.

Daharius ergueu uma das mãos e fez com que os braços de Ahriman brotassem, revestidos no aço negro criados pelo estudo do misticismo. Cinco deles se ergueram e alçaram os quase três metros de altura, colocando-se diante dos guardiões, protegendo-os do que viria inicialmente. Observou o sangue se prolongar e aproximar-se do esquife e com sua voz abafada pelo elmo sombrio, disse aos irmãos de guerra.


-  O sangue do maior feiticeiro vivo se estende até o esquife. Em sua sabedoria e sacrifício, ele nos permite adentrar aos domínios de Lilitu e enfrentar o seu filho. Me parece que o sangue dele é também o meio pelo qual a criatura deve despertar e, talvez, possa ser destruída. Que aprendamos a lição da mortalidade e que, no fim, aos mortais o todo pertence.

- Preparem-se, pois somos nós os guardiões e a criatura não deve passar deste ponto.


Assumiu uma postura de combate, com a lâmina da adaga - agora sombria - levemente abaixada. Sarosh era a visão do abismo, da escuridão e da guerra. Sarosh era um dos guardiões.
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Dom Set 09, 2018 10:42 am
Ya’rub assistia aos preparativos de Al-Ashrad e de seus primos com profunda admiração. Cada um, à sua forma, eram detentores de imenso poder.

Viu Enki usar da pouca água que tinham para transformá-la em servos elementais. Ya’rub já ouvira falar da conexão que alguns filhos de Loz tinham com os quatro elementos, mas não se lembrava de presenciar aquele feito. Maravilhado, contemplava as serpentes fluídas que circundavam a grande caixa de pedra. Com atenção, elas observavam o Senhor do Abzu com olhos translúcidos, prontas para obedecer seus comandos.

Os poderes de Sarosh, por sua vez, lhe eram mais familiares. O domínio que os Filhos de Laza tinham sobre o Abismo eram notórios. Mas era impossível não admirar a cada vez que o Arauto do Abismo demonstrava sua força, circundando-se de trevas tão sólidas - e ao mesmo tempo líquidas - enquanto tentáculos tenebrosos surgiam do chão. Ya’rub sorriu. Sabia que Sarosh e suas sombras seriam a linha de frente no combate que se aproximava.

Finalmente, olhou para Al-Ashrad. O mortal estava em transe, conforme o sangue que derramava serpenteava em direção ao esquife. Em sua mente, pensou que Sarosh de fato estava certo: era o sacrifício de Sangue do mago que despertaria a Grande Besta, deixando-a vulnerável para um ataque final.

Caminhou para perto de Al-Ashrad e tocou-lhe no ombro, num gesto que sabia não ser perceptível para o mago, mas que demonstrava ternura e incentivo. De fato, sua admiração por aquele homem só crescia. Al-Ashrad havia se preparado durante toda a vida para aquele momento, e sua sobrevivência era indiferente, contanto que fosse bem sucedido na missão que designara para si. Ya’rub pensou que não havia ato mais digno do que esse. Era, indubitavelmente, algo que se esperava de um Filho de Haqim.

Sorriu. Lentamente, caminhou em direção ao caixão, adiantando-se à frente do fluxo de sangue que vertia de Al-Ashrad. Era a sua vez de sacrificar seu Sangue. Ya’rub colocou-se diante do misterioso esquife de pedra. Com sua velha espada, fez um profundo corte em seu pulso esquerdo. A quantidade de Vitae que deixou jorrar foi considerável. Com o líquido vermelho, começou a desenhar um complexo símbolo na lateral do caixão. Concentrou-se, usando os dons ensinados por seu Pai e, rapidamente, o símbolo desapareceu, como se fosse absorvido pela pedra.

Ya’rub se levanta e caminha para trás, afastando-se do esquife. Estavam prontos.

[b]Disciplinas de Ya’rub[/b]:
Ya’rub usa Toque do Escorpião, na versão dos Feiticeiros (Quietus 2). Ele gasta 10 pontos de sangue, tornando-se capaz de reduzir o vigor do inimigo em 10 pontos, conforme ele violar a área no entorno do selo desenhado por Ya’rub.
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Seg Set 10, 2018 10:16 am
O Sangue de Al-Ashrad, serpenteando pelas fissuras na terra seca, alcançou o esquife.

Somente para, em seguida, recuar rapidamente pelo mesmo caminho que havia feito e, adentrando pelo corte profundo, retornar às veias do mortal. Al-Ashrad se retesou de imediato, o corpo sendo alçado no ar, envergando-se violentamente para trás enquanto o Feiticeiro emitia um rosnado gutural. O esquife continuava imóvel, como testemunha do estranho evento.

Al-Ashrad flutuou por pouquíssimos segundos antes de voltar ao chão. Tinha a cabeça baixa e os punhos cerrados. Os cainitas presentes sentiram, mesmo que não houvesse sinal dos ferimentos no pulso do mortal, o inconfundível cheiro de Vitae fresca.

Al-Ashrad levantou o olhar. Sua aparência era fundamentalmente a mesma, embora um pouco mais pálida, com grossas veias escuras que se destacavam no pescoço e nos lados da face. O olhar, contudo, era outro. Dos seus olhos escorriam, descontroladamente, lágrimas de sangue rubro que encharcavam sua face. Os olhos, outrora escuros, haviam se tornado de um cinza quase branco, repleto de vasos avermelhados. Sua postura havia se tornado ereta, quase ameaçadora, diferente da gentileza típica de Al-Ashrad. Seus olhos se moviam rapidamente entre os presentes, como se pensasse velozmente no que deveria fazer ou como se a mente não estivesse habituada àquela consciência. Emitia uma aura intensa que, após deixar a sua pele, se cristalizava no ar como um muro semi-invisível entre o Feiticeiro e os Cainitas.

De qualquer forma, uma estranha revelação se abateu sobre a mente dos cainitas. Aquela coisa não dispunha de um corpo físico. Não naquele momento. Sentiam, porém, que a casca que abrigava aquele espírito estava ali, diante deles, dentro do esquife negro. Era visível também que sua dominação sobre a mente e o espírito de Al-Ashrad não era absoluta e que suas possibilidades eram, portanto, limitadas.

Então, subitamente, Al-Ashrad sorriu. Um sorriso de alguém que conhece todos os segredos do mundo mas que é, ao mesmo tempo, completamente vazio. Falou, talvez para si mesmo.

- Ay Bahari Lilitu.

Estendeu a mão na direção de Ya'rub. Nenhum clarão, nenhuma chama ou raio. Mas o Feiticeiro sentiu, de imediato, sua pele chiar e encolher sobre os ossos, como se estivesse se atrofiando em uma grande velocidade. Sua cútis enegrecia, com chagas fétidas que iam do pulso aos ombros, passando pelo torso. Todos os seus ossos doíam brutalmente e havia a nítida sensação de que diante daquele inimigo pouco significava sua Imortalidade.


Dano Al-Ashrad:
O Ataque de Al-Ashrad causa dois níveis de Dano Agravado em Ya'rub.
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Seg Set 10, 2018 2:45 pm
*A Criatura se atrevia a tomar o controle de seu guia naquele local estranho. Se atrevia a tentar fugir de suas amarras, se atrevia a pronunciar suas palavras e nomes sujos.*

*Sarosh e Ya'rub sempre viram Enki como uma figura gentil, embora alienígena. Uma entidade vaga, de uma sabedoria efêmera, mas agora conseguem ver fúria nele. Uma espécie de fogo baixo, mas intenso, que parecia queimar dentro dele e transbordar em seu olho direito, que cada vez mais assumia um brilho rubro.*

*Com um aceno da cabeça, direciona seus três elementais. Sua tarefa era abrir o esquife e, caso não fosse possível, destruí-la*

*Quando a Criatura ataca Ya'rub através de Al Ashrad, Enki caminha em sua direção, de forma lenta mas decidida, a boca distorcida num esgar de desprezo. E com um rápido gesto da mão, encosta no rosto do mago, e distorce sua boca, até apagar qualquer traço restante, deixando apenas pele nua no lugar.*


-Não fale mais tolices, criança.

Uso de Disciplina:
Enki usa Moldar a Carne [Vicissitude 2]. Ele possui Destreza 5 e Artesanato Corporal 7
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Ter Set 11, 2018 8:20 am
Daharius observou o sangue fluir em sentido contrário e o corpo de Al-Ashrad erguer-se, dominado, pela criatura que habitava o esquife. Aquele era o sacrifício do feiticeiro mortal.

O Guerreiro em sua armadura sombria mantinha-se em prontidão e estava pronto para golpear o inimigo, mas algumas questões permeavam sua mente. O esquife continuava fechado. Haveria um corpo físico pertencente ao filho de Lilitu? Destruí-lo enquanto ocupa um corpo mortal encerraria a ameaça? Deveria agir rápido, a indecisão poderia lhes custar caro.

Notou a criatura lançar, praguejando o nome de sua mãe sombria, uma maldição sobre o filho de Haqim. Ele parece ter sido capaz de superá-la. Observou, com atenção, Ya'hub desempenhar uma de suas habilidades místicas junto ao esquife e, em seguida, Enki comandar sua serpente d'água para um aparente ataque ao casulo negro. Os guardiões estavam agindo em consonância, mesmo que em silêncio.

Ao mesmo tempo, ordenou mentalmente aos cinco tentáculos sombrios e poderosos que executassem suas ações. Um deles desapareceu no solo e ergueu-se diante do esquife, auxiliando a serpente dágua de Enki à abrí-lo e atacar o que quer que haja em seu interior. Os outros quatro mergulharam na própria escuridão e surgiram das próprias sombras do corpo de Al-Ashrad, serpenteando e prendendo seus braços em um aperto violento e mortal. A tarefa deles era conter os braços do feiticeiro, de forma a dificultar que suas habilidades sejam empregadas.

Sarosh, então, atacou.

As sombras que envolviam o corpo de Sarosh dançavam como chamas negras e foram elas a indicar o ataque. Em sua leveza, ficaram para trás antes de juntarem-se novamente à seu corpo devido ao rápido avanço do guerreiro. A adaga em riste, revestida pelas sombras místicas de Ahriman, buscavam o coração da fera. O Sacrifício de Al-Ashrad não seria em vão. O golpe era violento e contava com toda a força do Arauto do Abismo.


Disciplinas ativas e Sangue Gasto:


Gasta 6 pts de sangue em força e 4 em destreza.

Sarosh está usando aço negro e força sombria nos tentáculos, que ficam assim com força 14 + potência 5

Para o dano, caso acerte, Sarosh a rolagem será de força 10 + 1(adaga) + tenebrosidade 7 + potência 5.

Os prints serão enviados no grupo.
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Ter Set 11, 2018 4:12 pm
Ya’rub sentiu o Medo quando viu o que aconteceu com Al-Ashrad. Na exata medida em que o Sangue do mago fazia o caminho de retorno do esquife ao pulso de onde escorria, Ya’rub sentia um frio percorrer-lhe a espinha, alojando-se na base de sua nuca. Sabia que não era apenas o Sangue que voltava ao corpo de Al-Ashrad. Havia Algo sendo carregado nele. Algo de imenso poder.

A frase proferida por aquele ser que tomara o controle de Al-Ashrad e usava sua boca lhe deu a certeza de que, seja lá o que for que estivesse ali, era forte o suficiente para sobrebujar a vontade do maior feiticeiro que Ya’rub conhecera.

Mas Ya’rub não teve tempo de pensar mais. Imediatamente após a familiar frase dos seguidores de Lilitu ser proferida - a mesma que ouvira na fatídica visão conduzida por Ilyias - o Bani Haqim foi tomado por uma carga entrópica. A força corria-lhe por dentro, como se estivesse cobrando todos os anos que sua imortalidade preservara seu corpo. Ela tentava lhe apodrecer, e a sensação era agonizante. A força de seu Sangue, contudo, foi suficiente para aguentar a entropia agindo em seu corpo.

Percebendo que seus primos se esforçavam, cada um à sua maneira, para neutralizar a Grande Besta, Ya'rub agiu como pôde. Adiantou-se para ficar à frente de Al-Ashrad, olhando a Cria de Lilitu através dos olhos do mortal.

- Eu sou o Mestre do Céu e da Terra. Eu subi degraus que me levaram aos planos mais altos da Existência. Eu aprendi os poderes Daqueles que estão Acima e Abaixo de mim e agora sou EU quem os convoco...

Ya'rub aponta para a criatura, olhando para Al-Ashrad, mas mirando o ser que estava ali dentro. Sabia que estava lidando com uma força desconhecida, mas talvez a mais poderosa que já tenha enfrentado. Ainda assim, usou de sua vontade para exercer a Voz de Comando:

- Eu Ordeno Que Abandone Este Corpo!

Teste de absorção de Ya'rub:
Ya'rub possui Vigor 3 + Fortitude 2. Contra uma dificuldade de 6, ele rola 6,7,1,5,9, resultando em 3 sucessos e absorvendo o dano!

Teste de Disciplina de Ya'rub:
Ya'rub usa a Voz de Comando (Dur An Ki - Trilha "Lei de Salomão" nível 3).

Ya'rub gasta 1 Pto de Sangue e possui Força de Vontade 10. Contra uma dificuldade de 6, ele rola 7, 4, 4, 9, 3, 2, 4, 9, 6, 10, resultando em 5 sucessos.
O espírito deve resistir com sua Força de Vontade, contra uma dificuldade de 10 (Manipulação 5 + Ocultismo 7 de Ya'rub)
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Qua Set 12, 2018 12:54 pm
Enquanto se aproxima de Al-Ashrad - e da criatura que, naquele momento, possuía seu corpo - Enki sentiu como se o ar se endurecesse entre ele e seu alvo. Havia uma espécie de barreira invisível que tentava impedir quaisquer tentativas de aproximação. O cainita teimou e o olho de Kupala pareceu, por um instante, se incendiar dentro de seu globo ocular. Enki não percebeu, mas Sarosh e Ya'rub notaram um breve, mas intenso, piscar de luz avermelhada antes que seu primo se aproximasse do Feiticeiro mortal definitivamente. Com um movimento rápido tocou-lhe a face na altura da boca. Al-Ashrad se contorceu e tentou escapar, somente para ser detido pelos tentáculos de Daharius e restar, imobilizado, diante de Enki.

Embora sua boca estivesse tapada por uma fina camada de músculo, a voz de Al-Ashrad podia ser ouvida, entoando palavras desconexas, nas mentes dos presentes. Não era o suficiente, sabiam todos eles, místicos como eram, para conjurar ameaças às existências dos cainitas mas, ainda assim, podia ser ouvida.

- Ay Bahari Lilitu! A Grande Mãe se erguerá, cedo ou tarde, para consumar sua sonhada vingança! Nenhum da prole do Traidor estará a salvo, pois Sua fúria cairá sobre todos eles. Seja agora, seja no Fim dos Tempos!

Estranhamente, porém, uma segunda voz parecia ecoar por detrás da primeira, como um eco perdido, quase inaudível.

- Libertem-me. Ou destruam-me!

O Filho de Loz permanecia diante do mortal enquanto Sarosh se preparava para atacar, antes disso, porém, a Voz de Ya'rub ecoou em meio ao Nada, convocando as forças dos céus e da terra para que forçassem seu alvo a atender sua ordem. E elas vieram, na forma de um tremor que atingiu todo o corpo de Al-Ashrad. Os olhos do místico se reviraram e os dedos se retorceram em ângulos estranhos. Al-Ashrad voltou o rosto para o céu e abriu a boca no exato momento em que Daharius, aproximando-se rapidamente, golpeou com toda a sua força o coração da Besta. Ao mesmo tempo, atrás de todos eles e depois de algum esforço, as Serpentes invocadas por Enki e os tentáculos de Sarosh levantaram a tampa do esquife, que caiu no chão com um estrondo.

A Voz de Ya'rub continuava a ecoar no local. Mas, junto à dele, uma potente voz feminina gritava, enlouquecidamente, como se fosse uma voz de fundo, abafada somente pelos comandos do Bani Haqim. Era uma voz conhecida. A mesma que chorava copiosamente em Mashkan-Shappir.

Algo aconteceu antes que o corpo de Al-Ashrad caísse, inerte, no chão. Naquele microssegundo algo deixou sua carne e passou velozmente pelos cainitas. Tiveram frio. Muito frio. Uma imensa e pesada sensação de desolação. Não era a desolação da Guerra ou da Morte, mas um sentimento muito mais profundo, mais intenso e perturbador do que qualquer outro que já tivessem sentido.

Al-Ashrad atingiu o chão com um baque surdo. Não se movia.

A Adaga de Obsidiana, como que se movendo sem a autorização de Sarosh, deixou as mãos do Arauto do Abismo, rodopiou no ar, e foi-se fincar no que quer que estivesse dentro do esquife. Antes que pudessem, porém, ver o que fazia morada ali, a tampa também se ergueu sozinha e retornou ao seu lugar original. O cenário ao redor deles desapareceu, retornando ao do Vale que Ya'rub tinha visto antes que Al-Ashrad levantasse o véu e ao que Enki e Sarosh tinham visto quando tinham sido transportados por Irad.

O esquife estava lá, imóvel, diante deles. Agora que estavam mais perto, porém, conseguiam identificar uma palavra escrita na tampa do objeto. Era velha e gasta, quase apagada. O idioma era aquele da Primeira Cidade, Ubar, que havia sido chamada posteriormente de Enoch. Dizia:

"Mekhet".


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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Qua Set 12, 2018 4:10 pm
*Silêncio. O esquife está selado novamente. A adaga cumpriu sua função. E o maior feiticeiro do mundo jazia morto. Pena.*

*Enquanto Enki caminha pelos arredores, seguido pelo deslizar de suas serpentes, ele observa o esquife, o nome que dele surge e, por fim, para diante do corpo de Al Ashrad. O maior feitceiro deste mundo não era mais vivo. Mas talvez seu corpo agora fosse o maior componente arcano deste mundo. Tal era a natureza da mudança, afinal...*

*Enki se ajoelha diante do corpo, e começa a trabalhar. A primeira coisa que faz é retornar a boca ao mago. Mekhet não poderia mais dizer suas blasfêmias por elas, e o que Enki tirara, poderia retornar. Em seguida, com um gesto delicado e preciso, o Moldador retira o olho esquerdo do homem. Azul, da cor do céu que há muito não via. Kupala havia tomado o olho direito de Enki, mas Kupala é uma entidade dual. O esquerdo serviria. Ele se levanta, e observa seus dois companheiros, o olho de Al Ashrad na palma de sua mão, intacto, como se os observasse também.*


-Vocês estão cientes, especialmente Sarosh, de que a Adaga não pode permanecer aqui. Mekhet, o selado, não pode despertar novamente, mas a Adaga é necessária para outras demandas. Assim decretou Irad, o Forte, e assim devemos proceder. E é nesta hora em que talvez devêssemos seguir os exemplos de nossos pais, e criarmos nosso próprio selo. Se temos conosco o maior dos magos, sugiro usá-lo. Como ele, podemos combinar nossa mágica e, com sorte, emular os feitos daqueles que vieram antes de nós.

*Ele caminha até o esquife e põe o olho em cima dele. Logo em seguida seus dedos começam a gotejar sangue, e Enki começa a aspergí-lo em volta do sarcófago, marcando os quatro pontos cardeais, para em seguida banhar o olho e escrever um círculo de runas à sua volta.*

-A Mãe Negra não virá hoje. Talvez não venha nem no final dos tempos, mas não importa o quanto dure, seu filho será vigiado.

-Uma flor desabrocha, regada por sangue. Uma serpente germina da flor. Um dragão emerge do ovo da serpente. Em nome dos três, você é vigiado. O Que Dorme Abaixo da Montanha sempre terá seus olhos sobre você. A terra imóvel sustentará seu selo. O fogo imorredouro alimentará seu selo. A água sempre constante lavará as impurezas de seu selo. O vento tempestuoso garantirá que nenhuma névoa se assente sobre seu selo, mantendo-o à vista, mantendo-o ativo. Isto eu juro pelo Pai Negro, pela linhagem do Sábio, pelo sangue do Moldador, pelo sopro de Kupala.

*Enki se afasta e olha para Ya'rub e Sarosh. Eles saberiam o que fazer.*
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Sex Set 14, 2018 8:29 am
Triunfaram.

A adaga fincou-se para selar aquele que jamais deverá caminhar novamente sobre a terra: Mekhet. Sabiam, Enki e Sarosh, que a arma que foi presenteada à Zillah por Irad deveria ser guarnecida pelo filho de Laza pois, inevitavelmente, chegaria o momento de usá-la novamente. Enki, em sua sabedoria mutável e maleável como as águas que comanda, inicia o ritual necessário para substituir a adaga obsidiana.

Os olhos escuros de Sarosh repousavam sobre o corpo inerte de Al-Ashrad. Era de suma importância notar que foi o sacrifício do feiticeiro, um mortal, a possibilitar que Mekhet fosse aprisionado. Seu martírio, contudo, estava apenas começando.

O místico do abismo caminhou em direção ao feiticeiro caído e tocou-lhe um dos braços. Suas palavras ganharam corpo e o ar, fazendo-se ouvir pelos presentes.


- A escuridão é infindável e eterna. Assim será o selo que guardará Mekhet. Não há fuga, pois não há saída. Não há luz, pois as trevas se alongam infindáveis. O Abismo cobra seu preço. Ahriman cobra seu preço. Tua carne finita e fugaz será devorada pelo abismo e regurgitada. Se tornará para além desta terra, além do mundo dos mortos e além do mundo dos vivos e se tornará eterna. O tempo, mesmo o inexorável tempo, irreleva para o abismo. Nada, absolutamente nada, se impõe contra a escuridão primordial.

Da ponta de seus dedos pequenos prolongamentos de trevas enrolaram-se em um dos braços do feiticeiro e perfuraram-lhe em diversos pontos. Consumiram sua carne até que nada restasse e, em seguida, uma sombra esvoaçou próxima ao esquife e arrancou a adaga devolvendo-a à Daharius. Por fim envolveu a prisão do filho de Lilith fechando-a em um aperto poderoso e eterno. Esfacelou-se, não em um tentáculo, mas em infindáveis prolongamentos que se assemelhavam à uma imensa e sombria teia de aranha. Àquelas sombras eram sanguíneas, como se o abismo fizese fluir o sangue de Al-Ashrad naquele braço de Ahriman que ficaria eternamente selando o esquife de Mekhet.

O Olho alocado por Enki levitou e adentrou às teias sombrias. Tudo observaria. Tudo saberia. Nada escaparia a seu olhar eterno.

O braço de Ahriman feito com a carne de Al-Ashrad continuaria a cobrar o preço. Faltava o sangue e somente o sangue do mago seria aceito. Ele deveria ser alimentado pela eternidade pois Ahriman é insaciável e infindável. Ahriman é o Abismo. Uma vez mais, Daharius destinou o olhar para o feiticeiro.


- Levantarás como um não-vivo. Caminharás como um símbolo. Serás o portador do selo a garantir a prisão daquele confinado no esquife. Estarás enraizado nestas terras, ao ar que nos rodeia e a tudo que ele toca. Serás o Vale de Gei Ben-Hinnon. Serás, em não-vida, o exemplo do sacrifício justo para o triunfo.

- Alimentarás com teu sangue, todas as noites ao despertar, as sombras de Ahriman que guardam Mekhet.

- Não cabe à mim, contudo, torná-lo o bastião eterno desta vitória.

Ergueu o olhar em direção à Ya'rub.

- Nenhum sangue deverá ser desperdiçado. É este o ensinamento de teu Pai. É este o sacrifício de Al-Ashrad. É este o preço de Ahriman. É esta a tua tarefa final, Ya'rub.
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Sab Set 15, 2018 4:28 pm
Com uma curiosidade analítica, Ya'rub observava o ritual que seus primos iniciaram. Mesmo após tudo o que acabara de ocorrer, o Feiticeiro ainda se mantinha atento aos detalhes esotéricos daquele momento. Na verdade, era impossível para alguém como ele não o fazer. Haviam acabado de selar um legítimo filho de Lilitu. Uma criatura cuja natureza ainda lhes era desconhecida. O fizeram usando instrumentos de poder que representavam o sacrifício de seus antepassados. Os lamentos de Zillah ainda ecoavam em sua mente.

Mas agora, o que lhe chamava a atenção era o fato de que ele, Daharius Sarosh e Enki compartillhavam um ritual de banimento e aprisionamento, ainda que partissem de paradigmas que eram absolutamente alienígenas um para os outros. Eram até mesmo contraditórios em alguns aspectos... E apesar das diferenças de suas visões cósmicas, Ya'rub sabia em seu âmago que o ritual daria certo.

Após ouvir a deixa de Sarosh, agiu. Devagar, ajoelhou-se ao lado do corpo inerte de Al-Ashrad. Pousou a mão no peito do mago e fechou os olhos. Ao fazê-lo, Ya'rub sorriu. Percebeu que o espírito de Al-Ashrad ainda estava ali. A essência de seu sangue ainda repousava em seu coração, mas sentia que estava prestes a se esvair, buscando a transcendência. Agora era o momento.

Com sua velha espada, Ya'rub reabriu o mesmo ferimento que Al-Ashrad havia feito em seu próprio braço. Mesmo inerte, mesmo sem um coração pulsando, o Sangue jorrou. Escorria como se Al-Ashrad vivo estivesse. Percorreu o mesmo caminho que percorrera para despertar aquele que agora imaginavam se chamar Mekhet. O Sangue seguiu seu fluxo como se fosse um rio buscando sua foz. E a foz era o esquife.

- O Sangue conecta todas as coisas. É a fonte e o fim de todo o Poder que reside no Universo. Não há nada além do Sangue. Ele é ao mesmo tempo imanência e transcendência. É tudo e está acima de tudo. A vida de cada entidade que existe pode se extinguir, mas o Sangue continua por toda eternidade, percorrendo Seu caminho. Porquê o Sangue É o caminho. O Sangue percorre mundos, podendo abrir e selar passagens. E aqui, nesse não-lugar que existe numa dobra obscura da Existência, somente o Sangue tem poder.

O líquido vermelho atingiu o esquife e começou a percorrer seu perímetro, formando uma poça no entorno. Então, subitamente, ele desapareceu. O Sangue não sumiu como se tivesse sido absorvido pela terra. Ele simplesmente esvaneceu.

- O Sangue de Al-Ashrad, o maior feiticeiro do mundo, será a liga que vai selar a abominação que não deveria existir. Aqui, Al-Ashrad dá seu Sangue para que a Existência continue intocada. Al-Ashrad dá seu Sangue, pois ele nunca foi seu. O Sangue não nos pertence, pois é ele que nos permite existir. O Sangue nos dá ao Mundo.

E então, quando não havia mais o que escorrer de Al-Ashrad, Ya'rub olha para Sarosh e faz um aceno com a cabeça. Em seguida, usa a espada para abrir um corte na palma de sua mão. Ele a levanta sobre a boca do mago, deixando que o vitae caisse dentro dela.

- O Sangue sai de ti Al-Ashrad, mas ele não o abandona, pois sua missão entre os mundos está apenas começando. O Sangue a ti retorna, passando por mim. Passando por Haqim. Erga-se novamente. Erga-se agora para a eternidade.

Ya'rub sorri. Talvez o sorriso mais sincero que tenha estampado seu rosto em centenas de anos. Al-Ashrad estava correto no dia em que se encontraram pela primeira vez. Aquele momento no passado não era o momento o certo. Todas as coisas caminham para seu lugar na Ordem do Universo.

- Erga-se Al-Ashrad Bani Haqim. Seja bem vindo à Bayt Haqim.
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Dom Set 16, 2018 6:49 am
Al-Ashrad gritou.

Um grito gutural e intenso, longo. Durante este grito os mundos se separaram mais do que nunca somente para unirem-se novamente, com um grande estrondo acompanhado de um intenso trovão. O sacrifício daquele mortal havia permitido aos cainitas selarem Mekhet, Filho de Lilitu. Ou ao menos esperavam que assim fosse. E, de fato, com o grito de Al-Ashrad, imóvel no chão, o ritual foi completado. O esquife permanecia ali, estático na planície, como se fosse testemunha do renascer do Maior Feiticeiro do Mundo. No entanto, jamais seria aberto novamente, ao menos não enquanto uma força igualmente poderosa se dedicasse a fazê-lo. E encontrar um poder maios do que os dos três guardiões juntos não seria fácil.

O objeto emitia uma fantasmagórica luz azulada quando Al-Ashrad abriu o único olho de que dispunha. Permaneceu deitado, olhos voltados para o céu escuro. Não respirava, não arfava. Somente manteve-se ali, com leves espasmos atingindo seus dedos. Não exibiu dor ou incômodo com as partes que faltavam do seu corpo. O tempo em que esteve deitado pareceu uma eternidade. Os três cainitas, então, sentiram como se uma torrente de coisas invisíveis, mas importantes, se apoderasse do corpo, agora imortal, de Al-Ashrad. Seu único olho moveu-se velozmente, de um lado para o outro, até se tornar completamente branco. Permaneceu assim por alguns segundos até que retornasse ao normal. Só então, o Feiticeiro se levantou.

A primeira coisa que notou, obviamente, foi a ausência de um olho. Depois, a do braço. Não pareceu se incomodar, embora o local onde o braço deveria estar gotejasse Sangue. Al-Ashrad encarou a ausência por um segundo antes que os cainitas vissem sua proficiência no uso do Sangue, parecia ter sido feito para aquilo. O ferimento se fechou em uma velocidade estonteante. Então, o Feiticeiro caminhou, primeiro em direção à Daharius. Beijou a face do Arauto antes de fazer o mesmo com Enki. Por último, se deteve diante de Ya'rub.

- Você me trouxe de volta, como imaginei que faria. Eu o agradeço. Estou, agora, a serviço dos Banu Haqim. Estou a serviço do Ancestral, Fonte de todo o Sangue. Assim me disseram os espíritos. Assim me disse a canção das esferas. Eu morro, eu vivo, eu mudo. Eu sigo.

Olhou de soslaio para o esquife.

- Este objeto não deve deixar esse Vale. Deve permanecer aqui, esquecido, amaldiçoado. Selado. Pois assim me foi dito, nas visões que tive enquanto estava morto, em todas as revelações que obtive enquanto meu espírito flutuava no Oblívio.

Al-Ashrad caminhou até o esquife. Era possível sentir que, apesar de morto, seu corpo conservava, ainda, elementos de mortalidade. Conservava magia e poder. Al-Ashrad os usaria em um último esforço, um último tributo ao próprio sacrifício. Tocou o esquife com a mão que lhe restava e o empurrou. O objeto, a princípio, pareceu não se mover, somente para depois se afastar do Feiticeiro, em uma velocidade absurda e desaparecer no horizonte.

- No confim entre os mundos, no Nada que existe entre os planos. No esquecimento perpétuo onde não existe o perdão ou a Vontade. É lá que estará. Para todo o sempre.

E enfim, Al-Ashrad, o Maior Feiticeiro do Mundo, morreu. Em seu lugar estava Al-Ashrad dos Banu Haqim.
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Ter Set 18, 2018 8:40 am
Caminharam, longamente, partindo de Khemet e seguindo em direção ao Leste, onde se sentava Alamut, A Montanha Que Não Existe. Conversaram intensamente, como fizeram nas noites de antanho, em que as estrelas e o céu noturno representavam não testemunhas das guerras infinitas, mas mistérios a serem desbravados por mentes inquietas como as deles. Haqim e Ya'rub cruzaram rios, desertos e um mar antes de chegar às terras que abrigavam a Casa dos Banu Haqim.

Era notável como Haqim havia envelhecido. Não que o tempo tenha começado a pesar sobre sua existência, pois o Ancestral tinha, na medida do possível, um espírito jovial e inquieto. Tendo chegado a uma conclusão sobre Lilitu, os Selos e o papel dos Guardiões, a existência havia se tornado, ao menos temporariamente, como antes. Conversações estimulantes se seguiram durante aquela viagem, e Haqim demonstrava seu entusiasmo nas descobertas sobre o Sangue. Podia falar com seus descendentes através dele. Podia ver através de seus olhos e ouvir através de seus ouvidos. Experimentava, com frequência, a alimentação de seus filhos, quando esta era significativa. Haqim era o Sangue e, através dele, era todos os seus descendentes, unidos em uma teia que não encontrava limites na distância. Seu último desafio, contudo, era aprender a sobrepujar o tempo. Era isso o que havia dito a Ya'rub.

Quando alcançaram a planície onde se erguia, ao contrário, Alamut, Haqim estacou. Por um instante, teve reações extremamente mortais. Sentou-se em uma pedra acessível, levou as mãos ao rosto e chorou. Chorou compulsivamente, de forma a causar uma certa estranheza em Ya'rub. Soluçava enquanto o fazia. Depois, se ergueu, revelando a face completamente seca. Sua pele imortal havia absorvido todas as lágrimas. Nenhum Sangue haveria de ser desperdiçado.

- Esta é nossa casa. Esta é minha casa. A única em todos estes milênios. Meu pai mortal era um guerreiro nômade, de forma que sempre estive envolvido em longas travessias pelo mundo. Dele herdei o gosto pelas andanças. Quando ele se foi, eu era já velho e responsável por minha tribo, que eram, também eles, nômades. Por muitos anos a ideia física de um local onde pudesse sentir-me em paz atormentou meus pensamentos. Agora, este antigo sonho se tornou possível graças a ti. Graças à tua lealdade e ao teu Amor. Eu nunca serei grato o bastante, Ya'rub Bani Qahtani.

Empertigou-se. Havia demonstrado, por um segundo, um Haqim que Ya'rub não sabia que existia. O Ancestral jamais havia falado de seus dias sobre o sol. Mas o momento havia passado. Era, novamente, o Deus do Sangue diante de sua primeira e última morada.

- Eu quero que me mostres o que construiu. Quero vê-las, pela primeira vez, através de teus olhos. Entre e a apresente a mim. Eu estarei aqui fora, compartilhando de teus sentimentos e de teu orgulho. Somente após isto eu entrarei.

______________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

Na ausência de Rashadii, imerso em longas viagens pelo Leste distante e de Nakurtum, que girava o mundo sob a Autoridade do Ancestral, era Ya'rub quem se sentava no Trono Negro de Alamut. O Ancestral dormia, um sono profundo e sem sonhos, mas no qual viajava por reinos impossíveis com seu corpo protegido nas entranhas da montanha. Sua presença, contudo, era inegável.

Alamut prosperava. Mesmo estando no território do Império Aquemênida, o norte da Síria não se submetia completamente à Autoridade da Pérsia. Era autônoma, com os Banu Haqim determinando quem poderia passar pela região. Ali eram suas terras ancestrais, que remontavam a tempos nos quais nenhum Império existia. Nada mais natural que sua Autoridade, ali, não fosse contestada. Inúmeros mortais faziam da Montanha sua morada. Artesãos, profetas, sábios e videntes. Guerreiros e Magos. Cultistas, filósofos, artistas. Alamut era um Universo em si, um microcosmo possibilitado pelos Banu Haqim. Restava invisível graças à presença de Haqim, nenhum cainita Persa sabia determinar sua localização. Alamut existia não em razão da permissão de um soberano qualquer, mas existia em razão da força e da unidade da Prole de Haqim.

Milhares de rituais foram escritos dentro daquela montanha. Constelações foram nomeadas e renomeadas, teoria filosóficas debatidas. Alamut era um império da criação que faria corar de inveja os artesãos de Arikel. Sob o Trono Negro, o mundo se abria como um livro de fácil leitura. A paz reinava. Ao menos, até aquela noite.

Ya'rub se sentava no Trono Negro. De pé, em um outro canto do Vão Central, Ur-Shulgi analisava tabuletas da época de Nippur. A presença de seu irmão era aterrorizante pois incompreensível, mas reconfortante em razão de ser extremamente poderosa. Ocasionalmente lançava olhares a Ya'rub, quando havia encontrado algo significativo. Acenava com a cabeça e sorria, um sorriso incinerado em sem olhos. Em seguida, tomava notas em um papiro amarelado. Levantou o olhar somente quando um dos Banu Haqim, Fariq, Progênie de Azif, Progênie de Nakurtum se aproximou do Trono Negro. Era um homem baixo e corpulento, com feições felinas, olhos grandes e amarelados e membros fortes. Não caminhava, marchava. Em vida havia servido o exército dos Medos, quando da conquista da planície. Ya'rub sabia que Fariq tinha uma índole belicosa e intransigente, porém temperada com uma lealdade incondicional. Mais de um presunçoso cainita Persa já havia fugido diante de suas mãos nuas. Fariq colecionava inimigos.

- Ancião da Montanha, trago à tua atenção dois assuntos emergenciais. Serei breve, pois devo deixar Alamut para cavalgar a noite a partir das tuas ordens. Ao sul, na fronteira com as terras dos fenícios, tribos mortais se insurgem contra o Império, suas ações sendo cada vez mais compartilhadas entre as tribos vizinhas. Não intervir significa possibilitar uma instabilidade não desejada.

Fez uma pausa respeitosa. Esperava que o Ancião digerisse as primeiras notícias. Fariq, por alguma razão, fazia com que Ya'rub se lembrasse de Mancheaka.

- Ao mesmo tempo, há indícios de que o Império começa a se mobilizar para reforçar seu poder sobre os gregos. Farão isso, possivelmente, através da guerra, que poderá ser bastante duradoura e violenta. Para fazê-lo, porém, devem obrigatoriamente cruzar as terras do Alamut. Trago, portanto, o pedido de Urlon de Uruk, Senhor de Ectabana, por uma audiência. O ouvi em uma das minhas passagens pela cidade. Ele espera um emissário munido de vossas palavras ou, se possível, deseja estar diante de nossa máxima Autoridade.

Terminou de falar e se manteve parado, quase em posição militar, esperando por uma resposta. Ur-Shulgi tinha interrompido seus trabalhos e agora observava Ya'rub com um meio sorriso estampado na face disforme.



Fariq, Progênie de Azif, Progênie de Nakurtum
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Qua Set 19, 2018 5:26 pm
Ya'rub não se recordava, ao menos nos últimos séculos, de um momento em que estivesse tão feliz quanto aquela viagem que fez ao lado de seu Pai. Por vários dias, era como se todos os problemas do mundo fossem um eco distante, restando apenas os mistérios. Naqueles dias em que cruzaram o deserto, apenas a busca pela Verdade os ocupava. A efêmera, distante, fluída, fugidia - mas ainda assim incontestavelmente existente - Verdade.

Passavam as noites em uma conversa interminável. Por vezes, o silêncio se fazia presente, mas quando isso acontecia, era porque estavam se comunicando por impressões no Sangue. Era uma prosa que se alternava entre o racional de suas mentes inquietas e aguçadas, e as impressões que suas emoções deixavam em suas veias.

Ya’rub contava a Haqim sobre os espíritos que conhecera e o que pensava sobre eles. Apresentava suas teorias sobre o Mundo Além do Véu, esboçando uma metafísica que, aos poucos, tentava dar conta de tudo. Era ambicioso em suas construções, sabia disso. Mas também sabia que tinha a eternidade para testar e refutar suas próprias ideias. Ya’rub e Haqim tinham prazer em ver as ideias serem destruídas, um sinal de que a Verdade ficava mais perto. Uma teoria descartada era um passo a mais na direção do Universo.

O Feiticeiro também tinha muito a perguntar para seu Pai. Aproveitou aquelas noites para inquirir-lhe a respeito da Guerra em Mashkan Shapir, da qual não tinha participado. Perguntou sobre Nergal. Sobre Nippur. Sobre os mortais e imortais que viviam na cidade Baali. Também quis saber sobre o destino de seus tios. Tinha especial interesse nos planos de Laodice e Saulot.

Foram noites felizes, de fato. Mas era inegável que Ya’rub sentia uma pontada de tristeza em seu coração, como se fosse uma espécie de nostalgia antecipada, uma noção muito clara de que aquele era um momento fugaz. Tinha uma infeliz certeza de que aquela viagem seria a última ocasião em que teria Haqim tão... perto.

E, ao final daquela longa caminhada, quando viu as lágrimas de seu Pai pela primeira e última vez, Ya’rub sentiu-se pleno. Eram, finalmente, Pai e Filho. Eram, ele e Haqim, seres pequenos em um Universo vasto e incomensurável. Dois amaldiçoados, nascidos em pequenas tribos nômades perdidas na imensidão do deserto, que por sua vez era apenas um ínfimo grão de areia entre incontáveis mundos de existência. Mesmo com toda a admiração e devoção que sempre expressara sobre Haqim, nenhum momento até então havia sido como aquele. Naquele breve instante, Ya’rub amou seu Pai como nunca o fizera antes. Eram, afinal, iguais.

Quando as lágrimas de Haqim já haviam sido absorvidas por sua pele de obsidiana, foi a vez de Ya’rub chorar. O Sangue escorria de seus olhos, para logo se transformar em uma fina névoa que voava na direção de seu Pai, sendo igualmente sorvida pela pele do antigo.

- Essa é nossa casa, Pai. Ela sempre foi. Sempre esteve aqui. Pois sabes, muito mais do que eu, que o Sangue percorre e atravessa as barreiras do Tempo. Alamut estava aqui desde o momento em que o Universo decidiu que Haqim, o Grande Caçador, exisitiria.

Ya’rub sorriu.

- Não fui eu quem construiu Alamut. Fomos nós. Foi Haqim e cada um dos seus filhos. Aqueles que aqui estão. Aqueles que já partiram. E aqueles que virão a existir. Nós somos unos com o Sangue. É isso que irei lhe mostrar.

Ya’rub entrou então no Alamut. Descia as escadas que levavam ao Vão Central a passos lentos. Contemplava cada detalhe, cada rachadura, cada falha nas rochas. Olhou para o alto e viu as estrelas que se mostravam magicamente, iluminando o Ninho com sua luz que passava gentilmente pela terra. Viu os espíritos naturais, pois queria que Haqim os conhecesse. Eram eles também artífices daquela morada. Com sussuros, cumprimentou os astros, as nuvens e o solo.

Caminhou por toda a dimensão do Ninho da Águia. Foi até a Grande Biblioteca e o Museu. Olhava os papiros que se acumulavam e os artefatos que aos poucos eram ali reunidos. Acompanhou por um tempo o trabalho dos escribas que ali estavam. Olhava-os sobre os ombros, tentando ler o que escreviam, e sorria quando percebiam que ele estava ali.

Foi até um dos alojamentos que abrigavam os mortais. Observou enquanto um velho homem abria um pequeno corte no pulso e depositava seu vitae em uma urna de barro. Ya’rub o conhecia. Chamava-se Sayd. A prestreza com que extraiu o próprio sangue denunciava que era um pleno conhecedor da anatomia humana. Um curandeiro. Abrigou-se em Alamut porque assim o escolheu. Porque via ali a oportunidade para aperfeiçoar seus conhecimentos e devotar sua vida a isso. O Sangue era uma troca.

Ya’rub conhecia cada um dos mortais que vivia ali. Conhecia a todos pelo nome. Todos tinham uma história semelhante a de Sayd. Escolheram Alamut como lar porque eram homens e mulheres devotados à erudição. O Sangue era o que trocavam - e haveria algo mais valioso para trocar? Homens e mulheres que trabalhavam e transformavam o Ninho da Águia em um local dedicado à busca pela Verdade.

O Feiticeiro chegou ao fundo do Vão Central e mais uma vez contemplou as estrelas acima. Abriu os braços e girou, tomado por uma imensa honra de felicidade. Colocou-se diante do Trono Negro de Haqim e, mesmo com ele desocupado, fez-lhe uma grande reverência.

Finalmente, levou seu Pai ao Coração da Montanha. O Coração dos Filhos de Haqim. Fechou os olhos e ficou ali por muito tempo. Não havia lugar, em todos os cantos do Universo, onde Ya’rub se sentia mais em casa do que naquele escuro salão. Junto ao Sangue, Ya’rub sentia-se conectado com cada ponto do Mundo.

Sentou-se na borda do Poço. A luz tênue que chegava até ali deixava que contemplasse um pouco da cor carmesin que vinha do Coração. Ya’rub pega uma adaga e faz um corte na própria mão. Era o mesmo lugar onde estava a cicatriz que carregava desde a noite em que Alamut se fez presente. O Feiticeiro foi tomado por uma onde de poder tão potente quanto aquela que sentira quando deu o Sangue para Jamal. Não... Era ainda mais forte. Era como se seu corpo carregasse mais Sangue do que poderia suportar. E de fato o fazia. O vitae escorreu de sua mão em um pequeno filete, mas o peso que sentia era o de um oceano.

Uma gota de vitae caiu de sua mão no Poço. Ya’rub viu as ondas reverberando no líquido. Fez-se um silêncio imenso, sobrenatural em todo o Alamut. Nada mais se vez ouvir, em nenhum dos planos da Existência que se sobrepunham ali. Cada Filho de Haqim sentiu algo inexplicável. Sentiram-se todos como se fossem um só, compartilhando dores e felicidades. Sentiram Mancheaka, que já não mais caminhava entre os vivos. Sentiram seus filhos que ainda nasceriam. Estavam unos.

Haqim, o Grande Caçador, finalmente estava em casa.

*********

Ya’rub abriu os olhos. Estava sentado no Trono Negro. Diante de si estava Fariq. Revivia, de tempos em tempos, aquele momento que agora estava perdido nos milênios. O momento em que Haqim entrou no Alamut pela primeira vez. O momento em que seu Sangue tocou o Coração da Montanha.

As memórias daquele momento vinham ainda mais fortes, e de modo involuntário, quando se via diante de questões como aquelas que Fariq lhe apresentava. Questões que envolviam a política mortal e Cainita. Questões que tratavam da Guerra entre seus primos e tios, que seu Pai havia pedido que se afastassem ao máximo, pois ela apenas os desviaria da Grande Busca. Em momentos como aquele, Ya’rub pensava o quanto aquele Trono era inapropriado para si. Havia outros muito mais competentes para fazê-lo. Pensou também que em breve chegaria a hora de repensar como governariam a Montanha. Alamut precisaria de um líder mais capaz, que vestiria o título com toda sua responsabilidade.

Quando Fariq terminou de falar, Ya’rub suspirou. Em seguida, acenou afirmativamente com a cabeça. Não queria que o mais jovem pensasse que ele desprezava seu trabalho. De modo algum. Ya’rub respeitava Fariq. Olhou também para Ur Shulgi, que o observava do lado oposto do Vão Central. Com outro gesto de cabeça, pediu que o irmão mais novo se aproximasse.

Voltou-se para Fariq e só começou a responder quando o irmão estava próximo o suficiente para ouvi-los:

- Eu lhe agradeço pelas informações, Nobre Fariq. Como sempre, seu trabalho apenas dignifica essa casa. Sobre as rebeliões entre os Fenícios, faremos o que nos cabe neste momento: Nada.

Ya’rub deixou que suas palavras causassem o impacto necessário e observou as reações.

- São assuntos mortais, que dizem respeito à política mortal. Se isso nos trará instabilidade nos territórios próximos, lidaremos com a instabilidade quando ela nos atingir. Por enquanto, não interferiremos...

- O que não significa que não observaremos.

Apontou para Fariq e falou, em um tom um pouco mais autoritário.

- Você, Fariq, deve partir para os territórios fenícios. Essa não será uma missão diplomática, nem uma missão de guerra. Trata-se de uma missão de inteligência. Observe e reúna mais detalhes. Saiba quais são os nomes daqueles que se rebelam. Descubra seus abrigos e suas rotas de fuga e de recursos. Descubra quem são seus aliados...

Finalmente, Ya’rub sorri:

- E, mais importante de tudo, descubra quais são os Filhos de Khayyn que estão envolvidos em todos os lados dessa contenda. Somente após esclarecermos esses detalhes, é que poderemos pensar em como agir.

- Você fará isso Fariq. E o fará acompanhado de Manu, que lhe dará o suporte necessário.

Ya’rub se vira para Manu, dirigindo-lhe apenas um aceno de cabeça. Em sua mente, contudo, envia-lhe palavras:

Observe-o de perto. Serás os meus olhos. Fariq é um homem leal e devotado, mas temo por sua impulsividade.

Volta-se, mais uma vez, para o guerreiro Fariq:

- Quanto ao segundo assunto, diga a Urlon que eu o encontrarei. Meu único compromisso nesse encontro será o de ouvir o que o descendente de Ennoia tem a dizer. Nos reuniremos em território neutro, pois ele não deverá pisar em nossa casa.

Ya’rub fecha os olhos e suspira mais uma vez. Por fim, ainda de olhos fechados, pergunta para Ur-Shulgi:

- O que pensas disso tudo, irmão meu?
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

Ontem à(s) 7:20 am
Os pés de Haqim pisaram em Alamut, seu Sangue, através de Ya'rub, foi depositado no Coração da Montanha. Alamut estava, finalmente, completa. Os olhos da cria apresentaram o trabalho ao Senhor. Haqim estava satisfeito. Não caminhou pela Montanha, pois a havia visto através dos olhos de Ya'rub, e a conhecia intimamente a partir daquele momento. Passou, contudo, semanas sozinho no Coração da Montanha, incomunicável e em silêncio absoluto. Meditava, pensava. Alamut respondia à presença de seu Senhor, tornando-se mais calma e menos barulhenta, ainda que mais profícua em ideias e criações. Naqueles primeiros dias, Alamut explodia em descobertas. Importantes encantamentos e tratados foram escritos, mortais e cainitas sofrendo de uma profunda onda de inspiração que os levavam a criar coisas grandiosas.

Quando deixou o Coração, Haqim se deteve diante do Trono Negro do Alamut. Observou-o calmamente com os olhos e com o tato. A lança continuava ali, cravada no braço esquerdo do Trono, e lá Haqim a deixou. O Antediluviano não precisava de armas para impor seu poder, mas a Lança de Haqim, mais do que uma arma, era um símbolo. Um símbolo de vontade e comando, e sua presença no trono deveria lembrar aos Banu Haqim um ensinamento muito simples: suas vontades combinadas eram capazes de transformar a realidade.

Haqim explicou a Ya'rub os acontecimentos em Mashkan-Shappir. Ele, Laza e Loz teriam descido até as entranhas da cidade após terem sentido que a presença de seus filhos não podia mais ser sentida em Mashkan. Ali, no Poço Sacrificial de Mashkan-Shappir, enfrentaram Nergal, O Obscuro. Enfrentaram era maneira de dizer, pois não houve combate. Não havia, sequer um Nergal a ser combatido. O Senhor de Mashkan não dispunha de uma forma humana, mas aquela de um imenso verme branco que repousava diante do Poço. Foi necessário um esforço conjunto dos três Antediluvianos para tornar aquela casca vulnerável aos seus ataques, que aconteceram após um enfraquecimento proporcionado por Loz e Haqim e foram guiados pela força física de Laza. Haqim, contudo, foi sincero com Ya'rub: imaginava que Nergal, de alguma forma, não havia sido destruído. O verme branco lhe parecia um simulacro, apenas uma parte da consciência de Nergal que havia sido deixada em Mashkan-Shappir. Havia, além disso, uma assinatura mística naquela coisa, que não era aquela de Nergal. Moloch, que os havia alcançado em seguida, insinuou que a consciência que existia sobre Mashkan não mais se encontrava ali, provavelmente tendo sido movida por Nergal. A presença do Senhor de Mashkan não era sentida em nenhum lugar próximo ou visível. Eram incapazes de alcançá-lo, encoberto como estava. O verme branco, contudo, foi destruído, queimado até as cinzas pelas mãos de Loz e Moloch e, em seguida, teve seus restos aprisionados no Abismo por Laza. Segundo este último, o verme deveria dispor de alguma ligação com Nergal, que seria útil no caso em que precisassem se opor novamente contra ele. Nenhum dos presentes se opôs. Haqim, porém, havia decidido que sua Família rastrearia e encontraria Nergal, pois era demasiadamente perigoso mantê-lo vivo. A Moloch foi concedida uma trégua e um exílio. Se em algum momento suas ações tornassem a ameaçar a Família ou o equilíbrio, seria sumariamente executado. Moloch concordou, deixando-os a sós e partindo para além da Planície. As forças de Nippur, afinal, haviam vencido. Na ausência da consciência de Nergal, as forças de Mashkan restaram sem comando. A cidade foi sitiada e destruída, a terra onde se erigia foi salgada. Loz reconduziu os restos do Zigurate central ao Norte, segundo ele aquelas pedras deveriam retornar ao local de onde teriam saído.

*

Manu aquiesceu às ordens de Ya'rub, preparando-se para deixar o Alamut junto à Fariq. Ambos deixaram a sala do Trono para recolher tudo o que achavam necessário para a viagem. Fariq informou, ainda, que Urlon havia sugerido que, em caso de aceitação do Alamut, se encontrassem em Jerusalém, a cidade dos Hebreus, vizinha à Montanha. O encontro deveria acontecer uma semana após a aceitação do Ancião da Montanha.

Ur.Shulgi, o irmão mais novo, dirigiu-se ao Trono Negro, estacando diante de Ya'rub. O vazio em seus olhos era enervante, mas transmitia alguma coisa de sabedoria. Respondeu à pergunta de seu irmão com palavras simples.

- A Guerra chegará à Síria e aos arredores de Alamut. É inevitável, portanto precisamos nos preparar. Podemos defender a nossa autonomia e nos eximir de maiores intromissões. Podemos, também, nos alinhar com os gregos ou com o Império. Nenhuma destas reações seriam realmente importantes, não fosse por um detalhe que pode determinar nossa decisão: eu vejo, Ya'rub, num futuro próximo, que o Império se tornará fraco e incapaz. E que nossos inimigos, nossos verdadeiros inimigos, se aproveitarão de tal debilidade para firmar suas garras na região, recomeçando um ciclo que já deveria estar superado. Nergal não foi destruído e pode estar longe, muito longe, mas seus cultistas e herdeiros ainda vagam pela escuridão do Império, invisíveis aos nossos olhos. O Alamut precisará assumir uma posição em breve.
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

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