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Alamut: O Ninho da Águia.

em Qui Ago 09, 2018 12:59 pm
Descansou.

Um sono sem sonhos, rodeado por suas crias que dormiam em outros pontos do Vão Central. No centro, o Trono Negro de Haqim ostentava a poderosa lança, ainda presa em um dos lados. Descansou, e a única coisa que ouviu foi a voz de seu Pai, que se manifestava através do seu Sangue. E a mensagem era clara.

- A Guerra avança na planície. No entanto, necessito que permaneças onde estás. Os filhos de teu irmão irão ao teu encontro. Os novos não devem morrer pelas batalhas dos velhos.

Acordou, com o eco da última frase em sua cabeça. Parecia mais do que um código pessoal, mas uma recomendação. Manu dormia, inerte. Abam já estava desperto, meditando, os olhos fixos no vazio.

Foram meses de espera. Exploraram cada um dos cantos de Alamut, sua nova casa. E quão grandiosa era! Intrincados túneis conduziam a imensos salões de pedra, com suas paredes que pediam para ser decoradas com a história dos Filhos. Ya'rub via todas as tabuletas que estariam nos salões de estudo, com suas prateleiras harmônicas e espaçosas. Viu o local onde os Filhos repousariam e a câmera onde repousaria o próprio Pai. E, acima de tudo, seu Sangue repousava, esperando pelo Sangue dos outros FIlhos. Manu e Abam depositaram sua Vitae no coração de Alamut. Não deixava de ser curioso, porém, o fato de que Manu era o Ghûl, que agora prestava honra e glória a Haqim.

Ali, conversaram. Havia muito a contar. As experiências de Ya'rub completaram os gêmeos, e eles o fizeram ver detalhes que não compreendia. Os três avançavam juntos. Caçavam nos territórios vizinhos e, quando as experimentações filosóficas eram muito sedutoras, recorriam à habilidade de convocar as Bestas que, surpreendentemente, desenvolvera Abam. Se alimentavam em Alamut, e o Sangue que porventura se derramava no chão desaparecia rapidamente, absorvido pela Terra. Nada era desperdiçado.

Quando chegaram, eram já muitos. Sabiam instintivamente para onde se dirigir e, tendo deixado Nippur ao mesmo tempo, juntos chegaram. Eram dois homens e uma mulher, que foram recebidos por Ya'rub.

A mulher era bela. Tinha uma escura, lábios expressivos e olhos enigmáticos. Movia-se com graça e leveza, vestindo um robe e um manto igualmente coloridos, vivos. Sob as vestes, Ya'rub identificou as armas e a violência em seu espírito, mantido oculto por um sorriso cordial. Tinha o perfume de Nakurtum, seu irmão mais novo. Se chamava Mahi.

O primeiro homem era impressionante. Alto, de porte atlético. O rosto era severo, quase hostil. Vestia-se com vestes coloridas e dispunha de braceletes de cobre nos braços. Exalava uma ferocidade terrível, mais primitiva que aquela da mulher. Mas que era temperada com um senso de justiça sem precedentes. Se chamava Kurush-Ishraqi, e exalava, fortemente, a justiça de Mancheaka.

O segundo era menor, mais magro e mais estranho. Portava uma tatuagem que partia do umbigo até o pescoço. Seus cabelos eram avermelhados e seu rosto coberto de marcas rituais. Era sábio e forte, e Ya'rub se identificou imediatamente com ele. Era filho de Rashadii, e se chamava Assuero.

Observaram, com respeito e reverência o Ancião da Montanha e esperaram suas ordens.


Mahi

Kurush-Ishraqi

Assuero
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Sab Ago 11, 2018 9:01 am
Nas noites que procederam a criação de Alamut, Ya'rub, Abam e Manu exploraram os corredores e salões recém-criados como crianças livres em um grande jardim. Os três sabiam que uma guerra acontecia na distante planície onde estava Nippur, de modo que se preocupavam com Haqim e seus parentes. Mas como o Pai havia ordenado que ali ficassem, aproveitaram a distância para enriquecerem seus corpos e mentes. Mesmo com a guerra contra Mashkan Shapir, a segurança de um novo lar os enchia de esperança para viverem um futuro que se desenhava no horizonte.

Com o passar dos meses, Ya'rub foi se preparando para receber as crias de seus irmãos. O Pai o alertara que viriam. Ainda assim, mesmo com o tempo que teve para aguardá-los de modo apropriado, o Feiticeiro não conseguiu deixar de se surpreender quando viu os três primeiros que chegaram. Quão belos eram! Cada um à sua forma. Cada um representando uma faceta do que eram seus pais-criadores.

Quando Ya'rub os recebeu, foi a primeira vez que se viu sentado no Trono Negro de Haqim. Inegavelmente, era uma posição estranha. Não havia conforto em ocupar aquele lugar. Sentia o peso de Alamut sobre seus ombros. Era como se o Sangue se adensasse em suas veias, ganhando corpo com toda a responsabilidade que cabia à sua Família.

Mesmo assim, Ya'rub não pôde deixar de sorrir. Que assim seja. Que todo aquele que se sentar no lugar que por direito pertence apenas à Haqim nunca se acomode. Que o Ancião da Montanha entenda que ele não é uma autoridade em nenhum dos mundos, mas apenas um representante do Grande Caçador. E como Ele, deverá sempre caçar a Verdade.

Foi com grande júbilo que Ya’rub observou a entrada dos mais novos no salão do Trono. Estendeu-lhes as mãos, com as palmas voltadas para cima - mostrando inclusive a cicatriz que carregaria para sempre - em um generoso gesto de boas vindas. Olhou cada um deles, detendo-se em suas fisionomias e sentindo suas auras. Queria, assim, aplacar um pouco a saudade que tinha de seus irmãos. Enquanto preparava-se para falar, tinha Manu e Abam ao seu lado.

- Sejam bem-vindos, crianças de meus irmãos e Filhos de Haqim. Sejam bem-vindos à nossa casa. Teremos muito o que fazer, mas antes quero que descansem e se acomodem. Sentem-se aqui comigo e digam: que notícias trazem dos lugares de onde vieram? Como estão meus irmãos?

Depois de ouvi-los, Ya’rub detem-se a observá-los por mais um momento. Estavam ali: a astúcia e prestreza de Nakurtum, a nobreza e retidão de Mancheaka, a curiosidade e coragem de Rashadii. Assumindo um semblante mais sério, Ya’rub prossegue.

- Amanhã, após terem descansado, tenho uma missão para vocês. Trata-se de um teste. Obviamente, ele não será condicionante de sua presença aqui. São Filhos de Haqim, escolhidos à dedo por meus irmãos, e isso já os torna dignos de Alamut. Mas preciso testá-los para ver como eu, Ya’rub, irei considerá-los daqui em diante.

- Entendam desde já, minhas crianças, que não há Filho de Haqim superior a nenhum mortal. Não só precisamos deles para sobreviver, como a eles deveremos servir. Protegeremos os Filhos de Set do mal que assola esse mundo. O Sangue nos conecta, pois conecta todas as coisas. É por isso que vocês precisam conhecer os mortais que vivem em nosso entorno. Sem eles, Alamut não sobreviverá por muito tempo. Além disso, devemos observá-los, pois é entre eles que encontraremos os próximos Filhos de Haqim.

Ya’rub se inclina, aproximando o rosto em direção aos três vampiros.

- Sua tarefa será uma missão conjunta. É assim que os Filhos de Haqim deverão agir sempre: somando suas habilidades. Localizem o próximo agrupamento mortal e o façam.

Olhou para Assuero:

- Assuero, filho de Rashadii. Tu deverás compreender as crenças e visão de mundo desse povoado. Entenda-a e respeite-a, ainda que não queira compartilhá-la.

Virou o rosto para Kurush-Ishraqi:

- Kurush-Ishraqi, filho de Mancheaka. A ti cabe compreender as leis do povoado. Descubra quem as segue e quem as viola. Junto, com Assuero, deverá compreender como essas leis se baseiam na visão de mundo dessas pessoas.

Finalmente, olhou Mahi e sorriu:

- Mahi, filha de Nakurtum. Descubra quem são os inimigos dessas pessoas e quais são os seus pecados diante das crenças e leis que decidiram seguir. Àquele que for o maior pecador, traga a morte limpa e rápida.
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Sab Ago 11, 2018 10:47 am
Eram diferentes não só em aparência, mas também em personalidade. Mahi prestava pouca atenção a Ya'rub, não por desrespeito, mas por estar absolutamente encantada com a existência de Alamut. Com os olhos fechados, parecia sentir os rumores e sussurros do Ninho da Águia. Enquanto Ya'rub falava, não hesitou: caminhou até a Fonte de Todo o Sangue e, cortando seu pulso com uma adaga de pedra, depositou sua Vitae no local.

Assuero e Kurush, por sua vez, ouviam e observavam atentamente o Velho da Montanha, recebendo suas ordens e concordando com elas sem nenhum sinal de hesitação. Eram filhos de Mancheaka e Rashadii que, apesar de serem cainitas de natureza diversas, eram extremamente atentos à hierarquia e ordem. O Filho de Haqim, entretanto, percebia que Alamut tinha exigências. E assim que terminou de falar, Kurush se juntou a Mahi diante da Fonte, vertendo sua Vitae. Somente Assuero permaneceu diante de Ya'rub, embora tremesse diante da vontade de Alamut. Respondeu ao seu Ancestral.

- Estamos honrados, Ancestral, diante de tamanha responsabilidade e digo: a cumpriremos sem hesitação e da melhor forma possível, sob a liderança magistral de meu parente Kurush-Ishraqi.

O jovem cainita lambia os lábios nervosamente. Ya'rub percebeu que ele não ousava desrespeitar a Vontade de Alamut, mas tentava testar a sua própria resistência. Assuero era, claramente, um Feiticeiro como Ya'rub havia sido e suas tatuagens, agora, faziam sentidos. Eram as mesmas usadas por tribos rivais dos Bani Qahtani.

- Trago-lhe notícias de Nippur. Notícias que não são boas, mas que indicam que a Guerra ainda é uma realidade para os nossos Ancestrais.

Neste momento Mahi e Kurush retornaram, pondo-se ao lado de Assuero. Ele, por sua vez, não pode mais evitar. Procedeu à Fonte enquanto Mahi, sua voz doce e melódica, assumia o relatório.

- Na Planície a guerra ruge e nossas forças diminuem. Os Filhos da Escultora deixaram a cidade. Obtivemos, contudo, reforços, oriundos da Casa da Besta e do Clã dos Andarilhos. Daharius Sarosh não retornou, assim como Enki. O Pai trouxe alguém para o Sangue, uma formidável donzela guerreira de nome Anath. Entretanto, tivemos duas pesadas baixas. A primeira foi Khanon-Mehr, o Forte, da Casa da Noite. O segundo...

Kurush interrompeu. Foi direto.

- Meu Senhor e teu irmão Mancheaka.
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Dom Ago 12, 2018 6:12 pm
Observando o comportamento dos novos Filhos de Haqim, Ya’rub não pôde deixar de se impressionar com o poder do Alamut. Mesmo sem ter dado a ordem, ou sequer mencionado a existência da Fonte de Todo o Sangue, os jovens Mahi, Kurush e Assuero foram impelidos à depositar sua porção de Vitae. O Sangue os chamava.

Era exatamente como Ya’rub havia imaginado: um coração. Pulsando, ele dava forças ao mesmo tempo em que chamava o Sangue de volta.

Com curiosidade, Ya’rub captava o nervosismo de Assuero. Percebeu o jovem feiticeiro exercendo sua vontade para resistir à força do Coração. Como qualquer indivíduo versado nos mistérios do universo, a cria de Rashadii demonstrava ter personalidade e força de vontade. Era irônico, pensou, que seu irmão tenha escolhido para o Abraço mais um filho do deserto. Em vida, suas famílias eram rivais, lutando pelos preciosos recursos que o deserto lhes fornece. Porém, agora eram iguais. Compartilhavam o mesmo Pai, o mesmo Sangue. Eram Filhos de Haqim, e assim seriam para todo o sempre.

Observava a tudo com curiosidade e deleite, até que Kurush-Ishraqi deu a notícia sobre o fim de Mancheaka.

Ya’rub levanta a mão, sinalizando aos mais jovens que ficassem em silêncio. O Feiticeiro também não disse nada. De olhos fechados, abaixou o rosto e franziu o cenho, como se tivesse sido acometido por uma súbita dor de cabeça.

Mancheaka, o primeiro juíz. Talvez o maior devoto de Haqim que Ya’rub conhecera. Sabia que a guerra tinha um preço e que todo aquele que vive pela espada corre o risco de, cedo ou tarde, morrer pela espada. Ainda assim, pensou, a dor da perda era inevitável.

Quando reabriu os olhos, uma singela lágrima rubra escorreu de cada um. Ainda em silêncio, Ya’rub se levantou do trono e caminhou, gesticulando para que todos o acompanhassem, incluindo Abam e Manu. Devagar, desceu os degraus até a Fonte. Quando estavam ali, na quase escuridão e em torno do poço que guardava o Sangue do Coração, Ya’rub se pronunciou. Seus olhos fitavam o vitae sagrado que ali repousava.

- Alguns dirão que meu irmão caiu antes de conhecer sua casa, pois não teria colocado os pés em Alamut. Mas essa não é a verdade.

Ya’rub apontou para a Fonte de Todo o Sangue e incitou que todos a olhassem diretamente.

- Contemplem, pois ali está o corpo e a alma de Mancheaka! O Sangue do guerreiro corre no Alamut e preenche as veias de cada um de nós. Pois somos uma Família e compartilhamos o mesmo Sangue! Enquanto um Filho de Haqim estiver de pé, Alamut resistirá. Enquanto um de nós existir, todos nós continuaremos vivos. Jamais se esqueçam disso.

Ya’rub os deixa olhando para o poço e começa a caminhar, circulando no entorno. Quando chega até Kurush, o Feiticeiro o toca nos ombros.

- Honre teu criador. Sejas tão forte e justo quanto ele foi.

Sorri para o mais jovem e faz um pequeno cumprimento com a cabeça. Em seguida, Ya’rub retorna ao trono.
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Seg Ago 13, 2018 4:38 am
- Honrado seja o Sangue de meu Senhor, aquele que trazia o terror ao coração do inimigo, com sua lâmina e com suas palavras!

Ishraqi fez uma profunda reverência ao Coração de Alamut. Havia nele uma profunda devoção, Ya'rub notou, por Mancheaka. Naquele momento, Alamut pareceu se contrair para acolher a todos, como um Pai faria diante de uma perda do Filho. Durou apenas um segundo. Depois, retornaram à sala do trono.

Nenhum dos jovens cainitas apresentou oposição ao teste do Ancião da Montanha. Compreendiam a necessidade que os Filhos de Haqim tinham dos mortais, tanto na luta contra os horrores que infestavam a Terra quanto para que seus números aumentassem. Não tardaram a proceder à missão. Organizaram-se velozmente, após discutir, entre eles, os papéis de cada um. Mahi parecia excitada com sua tarefa, tinha um profundo vínculo com os mortais, assim como Assuero. Ainda que ambos tivessem organizado os rumos que deveriam tomar, o comando da operação foi cedido a Kurush-Ishraqi, o guerreiro.

Deixaram Alamut ao anoitecer de uma noite de primavera, quando o sol se escondia por detrás das montanhas distantes. Levaram quarenta noites para retornar.

Naquele meio tempo, Ya'rub permaneceu com Abam e Manu em Alamut. Caravanas oriundas de Nippur alcançaram a montanha naquele intervalo, repletas de seguidores fiéis de Haqim, dentre os quais haviam sacerdotes, poetas, cientistas e cronistas. Eram homens e mulheres que se sentiam mais do que felizes em escapar dos conflitos na planície. Estavam, porém, magros e doentes, o que deu a Ya'rub uma noção da situação no Leste. Traziam com eles tabuletas de argila e artefatos antigos na forma de armas, jóias e peles. Haqim havia enviado estes itens para que fossem guardados em Alamut. Dentre eles, uma belíssima adaga negra de obsidiana manchada de sangue seco e um vaso de argila que, segundo os visitantes, continha o Sangue do falecido Mancheaka, que deveria ser depositado no Coração de Alamut.

Estes mortais se estabeleceram entre os túneis de Alamut, começando ali seus trabalhos. Durante a noite, saiam para caçar, acompanhados de Manu. Em pouco tempo estavam de volta à velha forma, e Ya'rub pode discernir quem eram os guerreiros e quem eram os poetas. Em algumas noites, Abam os aninhava diante do Trono Negro de Haqim e lhes contava histórias sobre o Velho Mundo.

Numa destas noites, em que todos estavam reunidos, os cainitas retornaram. Ya'rub soube já que, surpreendentemente, quando sentado no Trono conseguia ver ao redor de Alamut, em um raio de muitos quilômetros.

Estavam inteiros e em boa saúde, à exceção de Assuero, que exibia algumas cicatrizes de queimaduras não totalmente curadas. Dirigiram-se ao Trono e ali, diante de Ya'rub e dos mortais que os observavam com reverência e curiosidade, relataram sua caminhada. Assuero começou.

- Saúdo o Ancião da Montanha, Filho de Haqim e Primeiro entre os Sábios. Nossa caminhada nos levou ao sul desta região, que os homens chamam de Canaan. Ali caminhamos entre uma grande tribo de mortais, que conta com mil duzentos e sessenta e seis indivíduos. Nos receberam em paz e nos ensinaram sobre suas crenças. Cultuam os deuses do Deserto, mas também deuses que a nós são desconhecidos, a quem chamam coletivamente de Elohim. São de natureza guerreira e belicosa, mas são justos e amorosos com os seus. Compartilharam de seu pão e, ao ver que nada podíamos comer, nos cederam o Sangue do abate de seus cordeiros.

Mahi continuou.

- Mas não são amados pelos demônios que vagam pelo deserto. Aqueles que permanecem do Outro Lado não atingem o vilarejo, pois grande é a Fé de seus habitantes. No entanto, inimigos que fogem da batalha de Mashkan, servos dos Inomináveis, ocasionalmente alcançam aquela região. São, sobretudo, cultistas de natureza mortal, mas munidos de poderes concedidos pelo Inimigo. Roubam, estupram e aterrorizam. A tribo se une para combatê-los, mas tal Inimigo, ocasionalmente, convoca servos infernais para cumprir as tarefas de batalha. O povo do Sul não tem medo, pois seus ancestrais caçavam os Demônios de outros tempos, mas receia que suas forças, com o tempo, sejam devastadas. Nos saúdam e saúdam o Ninho da Águia como um aliado.

Kurush-Ishraqi terminou.

- São observantes das leis e reverentes aos poderes do mundo. Portanto, meu Senhor, posso dizer que pouco pecado existe entre eles que justificasse uma intervenção violenta. Honram seus Deuses e seus Anciões, dando-lhe um local de destaque entre os seus. Alimentam e protegem as crianças. Alguns cometem excessos com a bebida ou as ervas, mas nada de natureza grave. Faz parte da sua cosmogonia: a ebriedade aproxima os homens dos espíritos altíssimos. Punem quem rouba e quem viola entre os seus com uma marca de bronze ardente e por uma determinada quantidade da anos aquela pessoa perde seus direitos entre seus pares.

Fez-se silêncio. Mahi finalizou o relatório.

- Seu Ancião, um homem de forte caráter chamado de Al-Abiel demonstrou interesse em aproximar-se do Ninho. Quando explicamos quem éramos e o que oferecíamos, porém, ele demandou tratar com o nosso Ancião, pois sabia, de alguma forma, que éramos jovens. Al-Abiel gostaria de ter a honra de estar em vossa presença, Ancião da Montanha.
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Seg Ago 13, 2018 1:10 pm
Os dias se passaram e Ya'rub se enchia de empolgação ao ver que Alamut crescia e prosperava. Os mortais que chegavam eram devidamente abrigados e instruídos nas regras que passaram a reger a fortaleza. Ali, reproduzia-se muito do que viveram nos Túneis de Haqim, sob a tutela de seu Pai. Nenhum Filho de Haqim deveria ser adorado ou reverenciado como um deus. Havia sim uma hierarquia, mas todos tinham seu lugar nela, com plena consciência de sua importância. Guerreiros, poetas, trabalhadores e eruditos. Alamut só funcionaria se todos exercessem seu papel.

Entre vampiros e mortais havia respeito. Qualquer violação dos éditos ali criados seria devidamente punida, fosse o culpado vivo ou morto-vivo.

Aos olhos de Ya'rub, Alamut era um microcosmos que reproduzia o funcionamento correto do universo. O Feiticeiro se esforçava cara construir o Ninho da Águia como um projeto a refletir sua visão de mundo.

Os artefatos que eram trazidos pelos mortais eram devidamente armazenados na Grande Biblioteca. Ali eles seriam estudados e serviriam de foco para que a história dos Filhos de Haqim jamais fosse esquecida. Os mais novos aprenderiam com os vestígios deixados pelos mais velhos.

E, percorrendo, alimentando e dando liga à tudo isso, estava o Sangue. A Força Primordial que dava vida ao Alamut e o conectava ao mundo.

Em uma noite, Ya'rub desceu ao Coração, acompanhado de Abam e Manu. Solenemente e em silêncio, ele depositou no poço o Sangue de seu falecido irmão, que lhe fora trazido em uma jarra de barro. Quando o vitae terminou de cair, o Feiticeiro proferiu uma prece, pedindo a Mancheaka que desse sua força e dedicação aos seus irmãos e descendentes. O Sangue dos Filhos de Haqim sempre retornaria ao Alamut.

Quando Assuero, Kurush e Mahi retornaram, após quarenta noites, Ya'rub os recebeu sentado no Trono Negro. Ouviu-os com atenção e deleite. Tinham cumprido sua missão com diligência, agilidade e perfeição. Enquanto os escutava, sorria efusivamente, ainda que em silêncio. Deixava claro aos mais jovens que estava contente com seu desempenho. Ya'rub só se pronunciou quando Mahi terminou de falar.

- Muito me agrada ouvi-los. Vocês cumpriram com seus deveres tal como eu esperava. Provaram que são, de fato, filhos de seus pais e dignos de carregarem o Sangue de Haqim.

Assumiu um ar mais sério, abandonando o sorriso.

- A única coisa que me entristece em seus relatos é a confirmação de algo que não me surpreende, no final das contas. A corrupção de Mashkan Shapir escorre pela ferida aberta que é aquela cidade. Milênios se passarão até que possamos dizer que o mal ali liberado foi extirpado destas terras... Se é que algum dia poderemos fazer tal afirmação.

Ya'rub ficou alguns segundos em silêncio, relembrando os momentos que passou enquanto esteve na cidade de Nergal. Aguardava, do fundo de sua alma, a vitória daqueles que haviam ficado em Nippur. Mais do que isso, aguardava o derradeiro fim de Nippur, na esperança de que seus irmãos e seu Pai retornassem ao lar que nunca conheceram. Enfim, continuou seu discurso.

- Suas palavras me convenceram do valor da tribo que encontraram em Canaan, minhas crianças. Será minha a honra de encontrar este que chamam de Al-Abiel. Em respeito ao lugar que ele ocupa diante de seu povo, eu irei pessoalmente encontrá-lo e ouvirei o que tem a dizer.

Olhou primeiro para Abam e em seguida para Manu.

- Meus filhos me acompanharão nessa breve jornada.

Sorriu e olhou então para Kurush-Ishraqi. Chamou-o para mais perto com o dedo indicador.

- Na minha ausência, o mais velho, Kurush-Ishraqi, filho de Mancheaka, Filho de Haqim, será responsável por Alamut.

Ya'rub se levanta do trono. Iria se aprontar para partir imediatamente.
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Ter Ago 14, 2018 4:52 am
- Assumo a tarefa, Ancião, com honra e dedicão.

Ishraqi esperou que Ya'rub se levantasse do Trono antes de se aproximar dele. Sentou-se com reverência, embora parecesse visivelmente nervoso em razão da pouca idade e da grande responsabilidade. Mahi e Assuero o circundaram, como se quisessem dar a entender que estariam ali para apoiá-lo. Havia uma bela cumplicidade e apoio entre os três mas, especialmente, entre Mahi e Ishraqi, entre os quais parecia que existia algo a mais.

Abam e Manu realizaram os preparativos, guiados por Ya'rub. Alguns mortais, homens fortes e guerreiros comandados por um indivíduo corpulento e cheio de cicatrizes chamado Daresh, se ofereceram para servir de alimento durante a longa viagem, assim como para proteger os cainitas durante o sono diurno. Partiram de Alamut em número de nove, munidos de cavalos e armas.

Cavalgaram com velocidade, segundo as instruções geográficas de Kurush-Ishraqi. Foram necessários vinte dias para alcançar o vilarejo, menos do que o tempo usado pelos outros cainitas, que haviam caminhado por regiões mais ao Norte antes de rumar sentido Sul. Abam e Manu acompanhavam o movimento dos pássaros e das estrelas, informando Ya'rub sobre mudanças no tempo e no destino. Em uma das noites, Manu falou e Abam traduziu.

- Batalha.

- As estrelas, segundo minha irmã, falam sobre um encontro tranquilo entre nós e Al-Abiel, mas falam também de uma batalha que deverá ser enfrentada por nós.

Naquela mesma noite, Ya'rub sonhou com Mancheaka. Estava vestido em branco e dourado, acompanhado de uma luz difusa que não permitia a visão completa de seu rosto.

- Você deve selar o Mal, irmão. Você deve selar o Mal.

Ocasionalmente, Ya'rub também via o Homem Morto, parado em certos pontos da viagem, a encará-lo com austeridade mas, também, com confiança.

Alcançaram o vilarejo antes que a lua atingisse o zênite, no vigesimo dia. O local se estendia por uma planície pedregosa, onde nada nascia. De fato, Ya'rub notou que aquele era um povo de pastores: inúmeros animais descansavam em seus cercados. As residências eram não mais que barracas de pele com estruturas de madeira, mas que pareciam maiores do que as normalmente encontradas entre os povos nômades, assim como melhor organizadas em torno de uma praça central, onde ardia uma grande fogueira. Ao redor dela, homens, mulheres e crianças bebiam e se alimentavam do que pareciam ser grandes cordeiros. Havia música e alegria, mas havia, também, uma certa tensão no ar. O céu estava limpo e repletos de estrelas, e a constelação do Grande Caçador estava visível no céu. O acampamento se estendia por toda a planície. Era numeroso, aquele povo, além de semi-nomade. Ya'rub calculou que eles deveriam estar ali já há algum tempo, dadas as estruturas bem desenvolvidas.

O vento frio do deserto soprou à medida em que um cavaleiro solitario deixava o acampamento, rumando em direção aos cainitas e aos mortais que os acompanhavam. Aproximou-se com velocidade, mas com cautela. Quando finalmente alcançou o destino, desceu do cavalo e caminhou, lentamente, em direção aos cainitas. Nada disse. Observou a todos atentamente até fixar o olhar em Ya'rub. Caminhou até o Ancião e, retirando da cintura um cantil de couro, derramou vinho aos seus pés, ao mesmo tempo em que fazia uma prece direcionada ao céu escuro. Era um homem de uma certa idade, aparentava cerca de sessenta ciclos. No entanto, seu corpo era ainda forte e musculoso, mesmo que fosse baixo de estatura. Os cabelos brancos estavam trançados e os olhos eram ternamente azuis. A face era um mapa de todas as suas experiências de vida.

Ainda assim, nada disse. Com a mão fez sinal para que os viajantes o acompanhassem. Aos mortais, indicou o centro do vilarejo, onde foram recebidos pelo povo, que lhe ofereceu comida, bebida e descanso. Aos cainitas, indicou uma cabana de couro marrom, distante do centro. Quando entraram, o perfume de incenso de flores atingiu os sentidos, inebriando-os. Era um local simples, mas confortável. O chão era forrado com peles de ovelha e a luz vinha de pequenas velas de cera de abelha. Havia uma mesa com frutas e carne seca, além de cerveja. Era acolhente e confortável. Ya'rub notou uma grande pele de vaca suspensa na "parede", na qual inúmeros nomes estavam escritos. O homem os convidou a sentar. Falou algo, mas Ya'rub não compreendeu as palavras. Abam, cujos olhos brilhavam estranhamente, foi quem traduziu.

- Bem vindos à minha casa, senhores do Deserto. Eu me chamo Al-Abiel, e ofereço a minha hospitalidade. Espero que esta noite auspiciosa veja o nascer da aliança entre a minha tribo e a vossa.
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Ter Ago 14, 2018 8:22 am
Por vinte dias, Ya’rub cavalgou com sua caravana, rumo à Canaan. Seguiam o caminho indicado por Kurush-Ishraqi, sempre pedindo ajuda às estrelas, para manterem-se na direção correta. Quando começaram a viagem, já fazia algum tempo sem que Ya’rub não montava em um cavalo para percorrer longas distâncias no deserto. E como era bom sentir o vento noturno em seu rosto, os grãos de areia se chocando em sua pele e ouvir apenas os som dos cascos abafados nas dunas ou ecoando na terra dura. O deserto era belo. Ali, os espíritos se sentiam ainda mais a vontade para fazerem-se presentes, pois o Véu era mais fraco. O deserto, pensava Ya’rub, assim como Alamut, era um retrato vivo de como o resto do universo deveria ser.

Obviamente, a razão de se afastar pouco do Alamut era o cuidado com o lar. Pessoalmente, sentia uma pontada de preocupação em deixar o Ninho da Águia aos cuidados de alguém tão novo. Ainda assim, deveria fazê-lo como uma espécie de teste a ser realizado por Kurush, mas também um teste para si mesmo. Era preciso confiar uns nos outros, e Ya’rub sabia que, cedo ou tarde, poderia chegar o momento onde não haverá um membro de sua geração presente para orientar os caminhos do Ninho. Que Kurush-Ishraqi honrasse os Filhos de Haqim nesse breve período de liderança. E que o amor de seus primos o ajudasse...

Ya’rub sorri, imerso em seus pensamentos. Especialmente o amor de Mahi.

Na dia em que ouviu o recado de Manu e sonhou com seu falecido irmão, Ya’rub acordou sorrindo. Sabia que os muitos meses que passara em paz, ocupado com a construção do Alamut, teriam seu fim em breve. Finalmente, sentia-o mais uma vez. Percorrendo sua espinha e alojado na base de sua nuca, lá estava ele. O Medo.

Quando o percebeu no início daquela noite, o cumprimentou em voz alta, sem dar nenhuma explicação para aqueles que o ouviam.

- Olá, velho amigo. É bom tê-lo de novo.

Com os olhos, buscou o Homem-Morto. Fez-lhe uma respeitosa reverência, sinalizando que em breve precisaria de sua ajuda. Buscou Manu e Abam, informando-os com poucas palavras.

- Meu irmão Mancheaka me visitou em meu último sono. Ele disse que eu deverei selar o Mal. Ainda não sei o que isso significa, mas peço que estejam atentos.

Ao final da jornada pelo deserto, chegaram no povoado em Canaan. Atento aos detalhes, Ya’rub percebeu que aquela tribo havia acabado de passar por uma transição. Em um passado recente, foram como os Banu Qahtani: nômades. Mas seu número e as características de suas casas mostravam indícios de sedentarismo. Muito em breve, cidades se ergueriam ali.

No momento em que viu o homem que pensava ser Al-Abiel, Ya’rub assumiu uma postura respeitosa, mantendo-se em silêncio o tempo inteiro. Observava cada movimento, cada olhar. Estavam sendo recebidos como hóspedes e era sua obrigação tratar o líder daquele povo com o mais absoluto respeito. Com seus dons, Ya’rub perscruta a alma do homem, como fazia de praxe sempre que se deparava com um novo interlocutor.

Foi somente quando foram levados à tenda principal onde se sentaram, e após ouvirem a apresentação inicial de Al-Abiel, que Ya’rub se pronunciou. Esperava que Abam traduzisse as palavras, mas enquanto falava, olhava o velho mortal nos olhos.

- Inicialmente, Venerável Al-Abiel, peço minhas humildes desculpas por não falar a língua de seu povo. Se venho às suas terras e não falo em seu idioma, entendo isso como uma pequena falta de respeito à sua hospitalidade. Prometo que, nas próximas noites, me empenharei em aprendê-lo. Por ora, meu filho Abam, que tem o dom das línguas, irá me ajudar.

Ya’rub sorri humildemente, enquanto aguarda a tradução de Abam. Continua em seguida.

- Meu nome é Ya’rub Bani Qahtani, e hoje represento os Banu Haqim. Minha Família é nova nesta região, mas aqui temos interesse em nos estabelecer em paz. Para isso, precisaremos do apoio das grandes tribos que também chamam este lugar de lar. Venho propor uma aliança entre os Banu Haqim e esta tribo de Canaan. Nos ajudem, e todas as gerações futuras em Canaan estarão protegidas por toda a eternidade.

Em silêncio, Ya’rub escuta as palavras traduzidas por Abam. Ele faz um sinal de que iria continuar, antes de passar a palavra para Al-Abiel.

- Evidentemente, sei que alianças são feitas mediante a troca de favores. Sei também que sua tribo vem enfrentando dificuldades. Por isso, me coloco à disposição para ajudá-los da melhor forma que estiver ao meu alcance.
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Ter Ago 14, 2018 9:29 am
*O diálogo é já traduzido por Abam*

O velho sorriu. Sua aura exibia tons alternados, mas prevaleciam aqueles que denotavam uma profunda felicidade. Havia, também, o Medo. Não o mesmo de Ya'rub, mas o Medo mortal, aquele contra o qual pouco pode-se fazer. O homem tinha medo pelo seu povo. Havia visto coisas. Havia enfrentado coisas que marcaram sua pele, mente e aura. Não obstante, tinha um sorriso cordial e verdadeiro.

- Eu o saúdo, Ya'rub dos Banu Haqim. É uma honta ter a ti e aos teus em minha humilde morada.

Serviu-se de chá quente. Curiosamente, não ofereceu aos visitantes. Olhou para Ya'rub como se conhecesse sua natureza e aquilo fosse justificativa para não fazê-lo.

- Não é nenhuma vergonha não saber a nossa lingua. Eu não conheço a tua. Nenhum homem pode conhecer tudo. Nenhum homem vivo, ao menos.

Sorriu.

- Nõ há animosidade entre as nossas tribos, e isto é bom. De fato, nós sentimos vocês, sentimos a vossa chegada. A terra tremeu e a terra verteu Sangue em nossas paragens. Nossos Ancestrais falavam da montanha que não existia, e de como o povo que ali viesse a habitar seria aliado do nosso povo. Por isso, Ya'rub, lhe dou as minhas boas vindas e as boas vindas dos meus ancestrais.

Um vento frio entrou na cabana. Algumas velas se apagaram.

- Sim, temos problemas. Nossas terras vem sendo assoladas por homens e mulheres solitários ou em grupos, de má indole. Roubam as crianças e matam os homens. São fortes e resistentes. Nossas armas não lhes causam dano. As bestas respondem ao chamado deles, e seus dentes dilaçeram a carne de nossos guerreiros. Comandam as chamas do submundo, que usam para queimar nossas parcas plantações. Exigem tributos, como reis estrangeiros. Exigem culto e adoração. Meu povo está em perigo, Ya'rub.

Levantou-se. Colocou-se diante da pele de vaca com inúmeras inscrições.

- Nós rastreamos alguns destes indivíduos. Usam cavernas ao Sul como refúgio, marchando em direção à nossa aldeia especialmente em noites de lua nova. Não temos, porém, a força necessária para atacá-los.

Olhou para Manu e Abam. Parecia a Ya'rub que o homem, à sua própria maneira, tentava ler os visitantes.

- Vocês também tem problemas. Veja, a montanha que não existe, se eu e meus ancestrais estivermos corretos, deve ter surgido em uma região de grande poder, há muito disputada por espíritos de poder monstruoso. Houve uma guerra, Ya'rub, milênios atrás. Assim contam os Ancestrais, então é verdade.

Sentou-se no chão. Parecia ter vencido uma certa desconfiança, pois o fez mais próximo de seus interlocutores.

- Conta-se que há era atrás dois espíritos lutaram pelo domínio da região ao Norte de nossa aldeia. Um deles foi derrotado, aquele a quem meus ancestrais chamavam de "O Homem Morto". O outro, batizado pelo meu povo como A Grande Fera, venceu, mas a energia exigida em batalha o colocou em um estado de sono inquieto. Temo que se o teu povo se estabelecer na montanha que não existe, vossa presença poderá levar ao despertar desta Fera que, ciumenta e possessiva, tentará destruir os teus.

Havia uma estranha energia no ar. Alguém de grande poder se aproximava.

- A nós, povo do Sul, foi confiado o local onde dorme a Grande Fera. A nós foi dado o dever de destruí-la, quando o momento correto chegasse, pois sua existência, ainda que adormecida, faz adoecer nossos rebanhos e mata nossas colheitas. O momento chegou, pois meu filho, aquele que destruirá a Besta com suas mãos, completou seu quadragesimo ciclo. Você já entendeu a minha proposta, Ya'rub dos Banu Haqim. Nossos povos só tem a ganhar com uma colaboração.

E então, um outro mortal entrou na tenda. Cumprimentou o velho com um beijo na testa antes de se voltar para Ya'rub.

Era majestoso. Não fisicamente, pois sua estatura era mediana. Era magro e pouco impressionante de corpo. No entanto, sua alma resplandecia com um brilho intenso, quase cegante. Estar em sua presença era como estar na presença de um espírito majestoso e antigo, cheio de conhecimento e autoridade. Mesmo Manu e Abam, espíritos velhos e experientes, pareciam encantados com o recém chegado. Tinha cabelos escuros compridos até a altura dos ombros. O rosto era fino e pontudo, com um queixo pronunciado. Os braços eram cobertos de tatuagens tribais, com símbolos e palavras escarificadas. Era imberbe, apesar da idade e sua pele era pálida como a lua em comparação ao restante da tribo. Os olhos eram escuros e profundos, como um céu sem estrelas. Ele estendeu a mão para Ya'rub, Al-Abiel o apresentou e Abam traduziu, sem tirar os olhos do homem.

- Este é meu filho Al-Ashrad.
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Ter Ago 14, 2018 8:00 pm
Era com deleite e uma legítima curiosidade que Ya'rub escutava a história contada por Al-Abiel e traduzida por Abam. Assumia uma expressão calma, com um sorriso sincero. Tinha o olhar fixo no ancião, mas vez ou outra observava Abam e, principalmente, Manu. Tentava perceber neles pequenas reações aos detalhes que eram fornecidos por aquela história.

Mesmo diante da grave revelação sobre a disputa que se deu onde hoje está o Alamut, Ya'rub manteve-se sorrindo. Sem dúvida, tratava-se de uma problema. Mas que problema fantástico! Em seu âmago, abraçou o Medo que começou a rastejar em seus braços quando soube que a Grande Fera repousava naquela região. Estaria ali a raíz da batalha sobre a qual Manu lhe alertou? Seria aquele o Mal a ser selado, alertado por Mancheaka? Os pontos começavam a se ligar e uma sombria tempestade se avolumava no horizonte...

Enquanto Al-Abiel falava, Ya'rub acendeu seu cachimbo. Absorvia o kalif conforme se perdia na harmonia que se dava entre as vozes de Al-Abiel e Abam. Imagens se formavam em sua mente, na medida em que a fumaça se espalhava pela tenda. Em meio à densa névoa, vislumbrou o Homem-Morto. Olhou-o nos olhos e sorriu, enviando-lhe um pensamento que esperava atravessar o Véu:

- Precisaremos conversar muito em breve. Tens muito a me ensinar.

Foi quando a conversa estava em seu metade que Ya'rub percebeu uma estranha movimentação entre os espíritos. Eles iam e vinham, como se estivessem ansiosos com algo. Ou com alguém. Aos poucos, sentiu uma vibração. Era como se uma pedra magnética em sua testa apontasse para algo que vinha em sua direção. Seus sentidos começaram a se confundir, e Ya'rub ouviu um cheiro dourado tomar sua pele. Faíscas com o aroma da rosa do deserto faziam-se ouvir no ar da tenda.

Até que ele entrou. Al-Ashrad.

Ya'rub pensou ouvir um poderoso trovão e, por um milésimo de segundo, sua visão foi cegada, como se um relâmpago caísse na sua frente. Não sabia se todos ali viam o que ele via. Mas era magnífico. Al-Ashrad era um iluminado caminhando em terra. Ao seu redor, os espíritos pareciam um cardume, nadando em uma harmoniosa coreografia. Aqueles que eram espíritos de luz, tal como foi o Djinn, o admiravam. Os da escuridão, da mesma natureza do Ghul, o temiam. Mas todos o respeitavam.

Olhou-o nos olhos e imediatamente soube que Al-Ashrad se tornaria imenso, quaisquer fossem os caminhos que decidisse tomar. Com apenas quarenta ciclos, aquele ser já tinha um domínio invejável sobre as teias que conectam o universo.

Ainda inebriado pela presença de Al-Ashrad, Ya'rub se levanta. Não conseguia tirar os olhos do místico, mas conseguiu falar, para que Abam traduzisse para quem pudesse ouvir. Sua voz era baixa, falada em um ritmo lento, como se houvesse um grande esforço para buscar e ordenar as palavras

- Está decidido. Os Banu Haqim irão se aliar à tribo encarregada de destruir a Grande Fera. Iremos enfrentar seus inimigos e prosperaremos lado a lado.

Com os dons da mente, Ya'rub envia palavras à Al-Ashrad, sabendo, mesmo sem evidência alguma, que ele as compreenderia.

- Al-Ashrad Ibn Al-Abiel. O Formidável Filho de Abiel. Lutaremos lado a lado. Cabe a você escolher se queres fazer isso vivo, morto ou movido pelo Sangue.
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Qua Ago 15, 2018 6:25 am
"Permanecerei entre os meus, Banu Haqim. Mas sinto-me honrado com a tua proposta."

Foi a única resposta de Al-Ashrad, que falou diretamente à mente de Ya'rub. As palavras vieram acompanhadas de um sorriso franco.

Al-Abiel se levantou. Bebeu mais um gole de seu chá e dirigiu-se aos três cainitas.

- Se está decidido meu papel aqui acabou, assim como o vosso. - Olhou para Manu e Abam - A Grande Fera é um assunto que deve ser resolvido por Ya'rub dos Banu Haqim e Al-Ashrad, aquele que me sucederá quando a Morte vier ao meu encontro.

Convidou Manu e Abam para que deixassem a tenda. Os gêmeos dirigiram um olhar a Ya'rub mas obedeceram a ordem de seu anfitrião. Somente o cainitas e o futuro chefe da tribo permaneceram ali. Do lado de fora, ouviam-se risadas e Ya'rub percebeu que os homens que o haviam acompanhado tentavam aprender a língua dos seus anfitriões. O vento frio tinha cessado e os espíritos pareciam estar em paz. Al-Ashrad era uma presença magnífica, dono de um poder imenso que era mantido adormecido somente porque ele assim desejava.

- É uma honra conhecê-lo, Ya'rub, Filho de Haqim.

Sentiu-se diante do cainita. Sua voz era rouca e impessoal, parecendo mais um eco esquecido de tempos passados. Falava a língua de Nippur.

- Eu caminhei pela tua cidade uma única vez. Quão grandiosa era Nippur! Me recordo que a visão das enormes construções fez meu coração exultar em alegria diante do que somos capazes de alcançar.

Bebeu do chá que antes tinha bebido seu pai.

- Recusei a tua proposta pois há muito o que fazer por este povo. Meu ciclo entre eles ainda não acabou. Talvez, num futuro incerto, eu pense novamente sobre o assunto. Neste momento, porém, é essencial que eu permaneça como estou. Segundo meus ancestrais não será fácil acessar a passagem que separa a Grande Fera do mundo físico. E isto só poderá ser feito através da força conjunta de um mortal e um imortal.

Sorriu. Ya'rub viu, de relance, o Homem Morto do lado de fora da cabana. Percebeu que Al-Ashrad também o via quando o mortal encarou fixamente o espírito, que o encarava de volta. Al-Ashrad voltou-se para Ya'rub.

- A montanha que não existe no mundo físico existe no mundo espiritual. E é para lá que precisaremos viajar, se quisermos encontrar e derrotar a Grande Fera. Nossas lendas falam de uma arma, uma adaga de obsidiana negra que poderia ferir profundamente o inimigo. Tal objeto, porém, jamais foi encontrado.

Bebeu outro gole do chá. O olhar de Al-Ashrad tinha elementos perturbadores mas, ainda assim, extremamente atraentes para Ya'rub. Eram como dois vórtices de conhecimento que o cainita desejava mergulhar. Mais ainda, o Sangue do mortal tinha um perfume absurdo, intenso. Ya'rub tinha dificuldades em se controlar.

- Portanto, nossa tarefa não será simples, mas o percurso já está mais ou menos desenhado. Eu abrirei a passagem, mas será a tua Sabedoria que nos guiará até o inimigo. Não pense, nem por um segundo, que será uma tarefa fácil. Nossas próprias almas estarão em risco de serem consumidas, assim como as almas de todos os Banu Haqim se por acaso falharmos.

Levantou-se. Ya'rub percebeu que Al-Ashrad tomava coragem para uma pergunta.

- Se não for um questionamento muito íntimo, gostaria de saber mais sobre o teu Ancestral, Haqim, pois é um nome que sinto ecoar em minha mente desde muito pequeno, sussurrado pelos espíritos da terra.

Por fim, se aproximou de Ya'rub. O poder de Al-Ashrad era palpável, quase visível.

- Esta noite tu e os teus são meus convidados para aqui restarem. Partiremos com o próximo anoitecer.

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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Qui Ago 16, 2018 12:54 pm
A resposta de Al-Ashrad ecoou em sua mente. Ya'rub apenas sorriu e assentiu com a cabeça.

Quando Al-Abiel deu as ordens para que todos se retirassem da grande tenda, Ya'rub olhou para seus filhos e enviou-lhes uma mensagem:

Não se preocupem. Comecem a observar o povo de Al-Abiel e aprendam com eles. Eu estarei aqui.

Ya'rub voltou a se sentar. Observava e ouvia Al-Ashrad. Era como se estivesse um pouco fora de si, envolvido pela estranha voz daquele homem, que se movia em meio à fumaça do kalif. Sorria enquanto o escutava, pois era possível sentir as sutis alterações que Al-Ashrad causava no ambiente. Não era mais a explosão que sentira quando entrou na tenda, mas sabia que o poder ainda estava ali. Controlado.

- Eu entendo sua recusa e não me ofendo com ela. Para além de sua obrigação junto ao seu povo, tomar o caminho do Sangue é sempre uma escolha difícil para aqueles que são como eu e você. O Sangue nos dá uma trilha promissora para desbravar os mistérios do universo, mas nos impede de seguir por todas as outras. Meu Pai não me deu essa escolha, mas faço questão de colocá-la para todos.

Ya'rub se perde um pouco, revivendo as nubladas imagens que ainda tinha do seu Abraço. Logo, as palavras de Al-Ashrad trazem Nippur à sua mente.

- Conhecestes Nippur, então? Provavelmente estiveste lá quando a guerra já estava em curso. Eu mesmo já havia abandonado aquela cidade para não mais retornar. Por eras Nippur pode ter parecido um monumento a algo grandioso... Mas no fim, estava fadada a decair. Sinto que Nippur não existe mais. Já não existia quando lá você pisou, Al-Ashrad. O que vistes era apenas um amontoado de madeira, pedra, sangue e ego.

Percebeu, ao dizer aquilo, que não sentia saudade alguma de Nippur. Já não nutria nada além de indiferença pela cidade, mas após conhecer Alamut, Nippur parecia um mero acampamento de caça.

Pela primeira vez desde que Al-Ashrad entrara na tenda, Ya'rub tira os olhos dele. O feiticeiro volta a analisar o ambiente, em especial a pele de vaca que estava em uma das paredes. Que espécie de escrita era aquela?

- Em toda a minha existência, nunca adentrei o mundo espiritual, apesar de me julgar capaz de fazê-lo. Talvez não consiga perfurar o Véu com a mesma habilidade que você...

Ya'rub se levanta e vai na direção da pele. Ainda fumando seu cachimbo, ele a toca, sentindo as palavras ali inscritas.

- Eu tenho a adaga de obsidiana que mencionaste. Ela está na residência de minha Família e me foi trazida de Nippur pelos mortais que decidiram nos seguir...

Ele olha para Al-Ashrad, sorrindo:

- Iremos pegá-la no caminho, e você terá a oportunidade de conhecer Alamut, a maior obra dos Banu Haqim.

Ya'rub se volta ao local onde estava sentado, aproximando-se novamente de Al-Ashrad.

- Por fim, me perguntaste sobre meu Ancestral. Irei lhe contar o que sei, mas alerto que muito da Verdade sobre Haqim está escondido de todos os seres. Entre os que se movem pelo Sangue, meu Pai é um dos que melhor domina a arte de esconder do Mundo aquilo que não deve ser revelado.

- Entre aquilo que está oculto, temos o seu nome verdadeiro, pois Haqim não é apenas o modo como ele se fez conhecer. Conta-se que ele era um nobre caçador e guerreiro que corria o deserto, talvez o maior entre estes que o mundo já viu. Ainda quando respirava, percebeu-se cansado de matar e combater, pois nunca o fizera por prazer. Percebeu enfim, que o a vida adquiria mais significado quando se buscava o conhecimento sobre as coisas. Aprendeu a ler e escrever, e além de caçador e guerreiro, tornou-se um erudito.

O feiticeiro fica em silêncio por alguns segundos. Em seguida, solta um riso abafado antes de continuar.

- A vinda de Haqim para o Sangue é uma história curiosa, ao menos da maneira como se conta em Nippur. Acho irônico o fato de que muito da história oral de Nippur ser baseada nos mitos e lendas do povo destas terras, Canaan. Eu mesmo sempre duvidei dessas versões, mas veja só: cá estou eu, contando essa história para um cananeu! Pois bem, darei alguns passos atrás...

- Conta-se em Nippur que o primeiro a carregar a Maldição do Sangue foi Khayyn. Sim, o agricultor fratricida. Em sua solidão, ele criou alguns filhos, compartilhando com eles seu Sangue amaldiçoado. A versão mais comum é que estes foram três, posteriormente assassinados por seus próprios filhos...

Ya'rub se interrompe mais uma vez. Estava indo longe com essa história. Não daria mais detalhes do que isso, mas queria observar as reações de Al-Ashrad.

- Essa é uma outra história, que terei o prazer de lhe contar em algum momento. O que deve saber agora é que um dos filhos de Khayyn - uma filha na verdade - encantou-se com o guerreiro-caçador que se tornou sábio. Não sabemos exatamente o que ela viu nele, mas decidiu trazê-lo para a Noite Eterna.

- Uma vez trazido para residir na cidade dos Filhos de Khayyn, todos se impressionaram com a capacidade e retidão de caráter de Haqim. Sua palavra era inquebrável, sua nobreza de alma inquestionável. Tanto era assim que ele foi escolhido para ser o juíz, defensor e executor das primeiras cidades de Khayyn, incluindo Nippur. Agora, imagine você o quão difícil era essa tarefa, tendo em vista que Haqim vivia em meio a indivíduos que se acham deuses caminhando na terra.

- Entre as muitas alcunhas de Haqim, aquela que mais gosto e tendo a achar que melhor o define foi dada por uma de suas irmãs: Ennoia. Ela o chamava de o Grande Caçador. Sendo Ennoia mesma uma temível predadora, já seria uma honra receber dela este título. Mas o que ela quis dizer não se resumia ao fato de que Haqim sabia como rastrear e abater uma presa. Ennoia dizia que a grande presa que Haqim buscava era uma só: a Verdade.

Ya'rub sorri, após dar uma última baforada no kalif

- Foi por isso que, quando decidiu criar seus filhos, Haqim não buscou os guerreiros em primeiro lugar. Ele buscou os sábios. Pessoas como eu... e pessoas como você, Al-Ashrad.

- Enfim, nós, os Filhos de Haqim, viemos ao mundo para continuar a missão de nosso Pai: buscar a verdade e julgar aqueles que não são dignos de portar o Sangue. Trata-se, no primeiro caso, da missão que o Pai escolheu para si, e, no segundo caso, da missão que Haqim prometeu cumprir.

Finalmente, Ya'rub fica em silêncio, agora olhando para a fumaça que saia de seu cachimbo. Responderia qualquer outra pergunta de Al-Ashrad, mas pensou já ter falado o suficiente para que o mortal tivesse algo para pensar. Depois de um tempo, apenas disse:

- Descansemos então. Amanhã começaremos a nossa caçada.

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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Sex Ago 17, 2018 4:48 am
Al-Ashrad escutou com atenção as palavras de Ya'rub. Em um dado momento, acendeu também ele um cachimbo repleto de ervas que eram diversas das do cainita. Estava sentado, diante do Filho de Haqim, e acompanhava o movimento deste quando se levantava. Ya'rub podia dizer que Al-Ashrad tinha uma curiosidade imensa sobre o Universo, explícita em seus olhos faiscantes. Evitou fazer comentários ou julgamentos antes que o visitante terminasse. Quando finalmente aconteceu, o mortal falou por entre as baforadas de fumo.

- Eu sinto muito pela tua cidade. Era bela, Nippur, ainda que estivesse destinada à ruína. Fico imensamente satisfeito, porém, que a Adaga esteja em tuas mãos, embora não imagine como isso seja possível. Certamente devemos agradecer aos espíritos, que tudo organizaram. Mesmo este encontro.

Deu um trago profundo no cachimbo. As pálpebras tremeram por um instante. Seu Sangue ainda estava ali, onipresente, invadindo as narinas de Ya'rub.

- Interessante também a história sobre o teu Ancestral. Te contarei uma sobre os meus.

Levantou-se e se dirigiu à pele de vaca suspensa. Alisou-a com as mãos nuas e uma grande carga de devoção.

- Aqui estão escritos os nomes dos meus antecessores. Uma linhagem que segue, porém, até determinado momento, quando uma guerra civil se abateu sobre esta tribo. Veja, sempre fomos sobreviventes, existindo nesta região árida e dura. Aqui nada se planta. Prosperamos com a caça e a criação de animais, e o nosso sucesso e crescimento chamou rapidamente a atenção dos seres que, como você, caminham pela Noite Eterna.

Serviu-se de cerveja que estava contida em um jarro de argila. Depois, olhou para Ya'rub. Pareceu pensar por alguns instantes, antes de sorrir consigo mesmo. Caminhou em direção a um cesto de palha, de onde retirou uma adaga de bronze. Continuou a falar enquanto brincava com a mesma, passando-a entre as duas mãos.

- Eu era jovem, mas me recordo. Nos visitou uma certa noite um homem chamado Tanith. Exigiu adoração e culto aos seus Deuses e seus Ancestrais, mas nós nos recusamos. Nossos deuses são muito bem definidos, Ya'rub, ou melhor, os deuses de minha tribo, já que eu não acredito neles.

Sorriu. Retirou do mesmo cesto uma caneca de argila. Al-Ashrad fez um profundo corte na palma da mão e deixou que o Sangue preenchesse a caneca. Ya'rub sentiu cada fibra do seu ser tremer, quase em convulsão.

- Fato é que parte da tribo defendia que todos os caminhantes da noite eram malignos, obras de uma divindade ressentida e caprichosa, que visava atormentar a humanidade. E exatamente por isso, todos deveriam ser punidos. Uma segunda parte, liderada pelos meus Ancestrais, defendia que dentre vós existem aqueles que são dignos de apreço e consideração. Que podem ser companheiros e mestres. Hoje vejo que meus avós não estavam equivocados.

Ofereceu a caneca a Ya'rub. O Sangue tinha a aparência de fogo líquido.

- O resultado foi a separação. Os outros viajaram para o Oeste, em busca de distância de Nippur, Assur e Mashkan-Shappir e do que elas significavam. Nós permanecemos, pois estas são nossas terras ancestrais. Eventualmente eu quis ver com meus próprios olhos o que acontecia em Nippur, portanto fui até lá. Mas a Guerra já havia devastado aquele lugar, e o resultado foi um tanto decepcionante. Vi poucos de vocês, mas pude notar que existia muita força e decisão no combate àqueles que realmente nos impedem de progredir, que nos amarram na servidão e na escravidão. Não que os teus não façam o mesmo. Vi que existiam templos em Nippur, e que alguns de sua raça se proclamam Deuses viventes. Nada mais distante da verdade.

Quente, espesso, perfumado e inebriante. Havia toques sutis de fumo e álcool que se insinuavam no paladar de Ya'rub. A mão de Al-Ashrad não exibia nenhuma cicatriz.

- Não conhecia este mito de origem do qual me falou. É interessante ainda que, na minha opinião, seja inteiramente falso. Não imagino que vocês tenham sido fruto de um castigo imposto a um homicida. Penso que sejam um fenômeno como qualquer outro. Inúmeras raças povoam esta terra, e cada uma delas é apenas uma variação do que são os homens. A minha teoria é que a vossa raça foi criada a partir da fusão entre carne e espírito. Talvez um espírito que vagava Do Outro Lado, e encontrou em um homem, ou alguns homens, uma passagem ao mundo físico. Mas estar aqui exigia uma espécie de âncora, que é o corpo. Quando vocês morrem e são trazidos de volta, talvez vossos corpos flutuem por um segundo no Mundo dos Mortos. Tempo o suficiente para que a fusão se repita. Vossa sede de Sangue nada mais é do que a Sede de um espírito que anseia pela Vida.

Sorriu.

- Mas pode ser que eu esteja completamente errado. Se estiver correto, porém, carne e espírito que deram origem ao teu Ancestral deveriam ser de imensa honra e Sabedoria. Você fala com paixão, Ya'rub, mas também com respeito e senso de dever. Admirável. Eu, no lugar dele, estaria muito orgulhoso.

- Talvez, um dia, discutiremos novamente a possibilidade de que eu entre para a tua Família, pois o teu discurso explicitou tal desejo, de forma não tão velada. Hoje, porém, estou a serviço de minha tribo.

Aproximou-se de Ya'rub. O Sangue na caneca ressonava diante do seu dono.

- Meus homens levarão a ti e a teus filhos até um local onde poderão descansar. Partiremos amanhã. Tenho ansiedade para conhecer a Montanha Que Não Existe.

E assim foi feito. Os homens de Al-Ashrad conduziram os cainitas até uma pequena gruta às margens de um Oásis, pouco antes do amanhecer. Ali foram montadas tendas para os seguidores mortais de Ya'rub. Manu e Abam defendiam que a tribo era fortemente marcada por uma poderosa energia mística que circulava entre seus membros. Eram sábios e antigos, tendo caminhado pela Terra por milhares de anos, talvez tanto tenpo quanto a Prole de Khayyn. Adormeceram tranquilamente, guardados pelos homens que se revezavam do lado de fora.

Ao despertar, os cainitas perceberam que Al-Ashrad os esperava, em meio aos homens de Alamut. Riam alto, bebiam e fumavam. Os homens pareciam estar diante de uma espécie de transe, olhos fixos em Al-Ashrad, que fazia perguntas sobre Nippur e sobre Alamut. O Feiticeiro voltou-se para Ya'rub e seus Filhos quando estes deixaram a gruta. Sorria, um sorriso franco e hipnótico. Os homens pareciam ter voltado a si, mas continuavam a beber e fumar, talvez excessivamente.

- Teus homens são espirituosos. Me pergunto se não seria interessante deixá-los aqui. Podem extrair ensinamentos importantes do meu povo e, ao mesmo tempo, protegê-los de uma eventual ameaça. O que me diz?

Os homens, por alguma razão, pareciam inclinados a ficar.

Cavalgaram, rumo ao Norte, rumo ao Alamut. Ya'rub liderava a viagem em um deserto calmo e adormecido, seguido por Manu e, posteriormente, por Al-Ashrad e Abam, que pareciam imersos em discussões intensas sobre a natureza das coisas. Al-Ashrad eventualmente informou que deveriam, após recuperar a Adaga, rumar novamente para o Sul, onde encontrariam o Vale de Gei Ben-Hinnon, onde teoricamente repousaria a Grande Fera. Assegurou, também, que a viagem em direção ao Vale seria muito mais rápida. E dispensaria cavalos.

Fizeram o caminho com pressa, parando somente diante da iminência do amanhecer. Era curioso como sempre encontravam uma gruta ou caverna, guiados por eventuais desvios de rota propostos por Al-Ashrad. O Feiticeiro também protegia seus corpor durante o dia, e Ya'rub teve, mais de uma vez, a sensação de que a entrada das cavernas era selada por poderosos encantamentos. De fato, bastava dar apenas um passo em direção ao interior do local e a luz externa cessava completamente.

Quinze dias depois estavam diante da Planície do Alamut. Um vento quente soprava e Ya'rub teve duas sensações: a de que a Guerra rasgava a Planície de Nippur pela ultima vez e a de que um de seus irmãos estava em casa.
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Dom Ago 19, 2018 8:51 pm
Enquanto Al-Ashrad falava, o silêncio de Ya’rub só era quebrado pelo som das baforadas em seu cachimbo. O kalif continuava afetando sua percepção e sensibilidade, de modo que observar e escutar o feiticeiro cananeu era quase que uma experiência onírica e multissensorial. As palavras se transformavam em imagens e o poder que emanava de seu interlocutor era sentido como uma maré suave, que tocava sua pele.

Quando Al-Ashrad gesticulava, Ya’rub observava as veia que se destacavam nos braços pálidos do mortal. Era como se conseguisse escutar o Sangue que corria ali, atiçando-lhe levemente a Fome. Qual não foi sua surpresa quando, enquanto contava a história de seus ancestrais, Al-Ashrad abriu um corte em sua mão e serviu o líquido em uma caneca. O aroma do vitae invadiu o ambiente, capturando quase que todos a atenção de Ya’rub. Quando o mago lhe entregou a caneca, o cainita ficou alguns segundos segurando-a sem tocar no líquido. Ao mesmo tempo que, deliberadamente, queria colocar seu auto-controle à prova, queria também apreciar o Sangue de Al-Ashrad com calma. Queria sentir o aroma complexo, olhar sua cor e, ao colocar o vitae em sua boca, absorver cada nota com prazer...

Tal como Al-Ashrad fez enquanto Ya’rub falava, o Feiticeiro aguardou que o mortal terminasse sua história antes de falar. Ainda estava embriagado com o Sangue, de modo que sua voz saia em um tom baixo, em ritmo lento:

- A história de seu povo é... fascinante. Acredite em mim... há algumas décadas atrás... tive Tanith em meus braços... totalmente vulnerável.

Ya’rub fecha os olhos e suspira, relembrando a noite em que entregou Tanith à Moloch. Ele continua, ainda de olhos fechados:

- Mas você já deve saber... Al-Ashrad... pois assim como eu... você usa sua vontade... para mudar o mundo: muitas vezes... o momento pede que nossa vontade não se realize... Cada acontecimento tem seu momento para acontecer nos fios... da realidade.

O Feiticeiro suspira. Abre os olhos e seu tom de voz vai voltando ao normal:

- Não fosse por Tanith, não estaríamos tendo essa conversa agora. De toda forma, os seus ancestrais que partiram não estavam de todo errados. Eu não confiaria em todos os meus primos e tios. Nippur não é muito diferente de Mashkan-Shapir, afinal...

Ya’rub se levanta, colocando ambas as mãos nos ombros de Al-Ashrad e olhando-o profundamente nos olhos:

- Eu lhe agradeço pelo Sangue que gentilmente me cedeu. Sei que é um homem que sabe muito - e talvez já saiba o que lhe direi - mas entenda, essa é a única forma digna em que alguém como eu pode se alimentar de alguém como você: recebendo o Sangue que lhe é entregue livremente. O Sangue tomado à força não nos torna diferente das bestas que caminham sobre a terra. Esse não é o modo como os Banu Haqim se alimentarão e é somente através da dádiva que nos alimentaremos do Sangue de seu povo. Qualquer outro da prole de Khayyn que tomar de vocês enfrentará a ira do meu povo! E se algum Bani Haqim tomar do Sangue de tua Família à força, ele será punido em nome de nosso Pai, pois esta é a Lei dele.

Enfim, Ya’rub sorri.

- Quanto à sua teoria a respeito da origem de minha raça... bem, este é um assunto sobre o qual eu gostaria de discutir durante mais tempo que um simples mortal pode viver. Minha oferta ainda está de pé, Al-Ashrad, para quando estiver pronto.

Ya’rub se prepara para sair da tenda. Quando chega à porta, vira-se uma última vez para Al-Ashrad.

- Agradeço pelas gentis palavras. Será um prazer viajar e lutar ao seu lado, nas noites que virão.

***
Antes de partirem em viagem, Ya’rub concordou com a sugestão de Al-Ashrad e deixou seus homens entre os cananeus. Lhes faria bem viver entre a tribo de Al-Abiel, e este poderia ser o início da aliança entre seus povos.

Após dias de cavalgada, chegaram à planície sob a qual estava o Ninho da Águia. Antes de entrarem no Alamut, Ya’rub sentiu um vento quente cortando a planície. Trazia um cheiro distante de morte, aço e cinzas. Parou onde estava e fechou os olhos. A última batalha da guerra entre Nippur e Mashkan-Shapir começava. No meio do deserto, proferiu uma prece silenciosa, levando seu pensamento até seu Pai, irmãos e primos queridos. Desejava-lhes boa sorte. Sabia que, no fim, Nippur sairia vitoriosa. Mas queria que aqueles que amava sobrevivessem.

Subitamente, sentiu a presença de Sarosh. O Príncipe tinha Ya’rub em seus pensamentos, de modo que o Feiticeiro sorriu em meio às suas preces. Imaginava que a liderança da batalha estaria nas mãos de Ventru, mas sabia que o filho de Laza teria um papel decisivo. Mentalmente, Ya’rub disse:

Traga-lhes o Abismo, primo meu.

Em seguida, sente o aroma do Sangue. Não aquele do vitae derramado, mas o cheiro típico de sua Família. Ya’rub é tomado então por uma onda de ansiedade. Finalmente, um de seus irmãos estava em casa! Mal podia esperar para abraçá-lo e mostrar-lhe Alamut...

Ainda montado em seu cavalo, Ya’rub abre um corte em sua mão, deixando o sangue cair no chão de terra. O solo rapidamente absorve o líquido que lhe era oferecido, não deixando nenhum vestígio. O Feiticeiro indica então para que o resto da comitiva, incluindo Al-Ashrad, o siga. Eles caminham pela planície como se estivessem perdidos, até que em uma rocha, não muito mais alta que uma pessoa, vislumbram a entrada de uma caverna.

Por ali adentram, pedindo passagem aos espíritos da terra.

Após sentirem uma leve sensação que lhes parece um choque elétrico percorrendo o corpo, se deparam com uma passarela não muito larga, que dava passagem à apenas uma montaria ou homem por vez. Em seu lado direito, a passarela se escorava na rocha bruta. Porém, era em seu lado esquerdo que a visão impressionava. Dali, observavam o Vão Central do Alamut em toda a sua magnitude, iluminando o Ninho da Águia com a luz das estrelas.

Ya’rub pede que Manu e Abam o acompanhem, juntamente com Al-Ashrad. Rapidamente, ele se dirige ao salão do Trono Negro de Haqim, na esperança de lá encontrar seu irmão.
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Seg Ago 20, 2018 8:04 am
Sentado no Trono Negro, Rashadii sorriu diante da visão de Ya'rub, para depois expressar uma face curiosa quando notou a presença de Al-Ashrad. Ficou óbvio para Ya'rub que o Feiticeiro mortal atraía também a Rashadii, como uma Mariposa é atraída pela luz. Sendo mais velho que Ya'rub, Rashadii era o Ancião da Montanha mesmo em sua presença, e parecia ter sido instruído sobre o significado da posição pelos seus descendentes que ali estavam. No entanto, levantou-se e abraçou seu irmão, com uma alegria extremamente mortal.

Alamut, do alto de sua magnificência, também recebia Ya'rub de volta. O Ancião se sentiu acolhido e protegido nas entranhas da Montanha e sentiu, intuitivamente, que Rashadii já havia depositado seu Sangue no Coração da Montanha. Al-Ashrad vinha atrás de Ya'rub, olhos curiosos atentos aos mínimos detalhes. O mortal podia ser um grande Feiticeiro, mas a grandiosidade do Ninho da Águia visivelmente o impressionava. Ya'rub percebeu que Al-Ashrad fez uma breve prece, como se abençoasse o lugar. Rashadii dirigiu-se ao irmão sem retirar, porém, os olhos do mortal.

- Meu irmão, Sangue do meu Sangue! É com imensa alegria que o Alamut o recebe de volta.

As inúmeras tabuletas e artefatos que haviam sido trazidos pelas tribos mortais não estavam mais no vão central, provavelmente haviam sido distribuídas nos locais adequados. O local servia de residência a mais mortais do que antes, aparentemente outras tribos haviam escapado da guerra na planície e migrado para Alamut. Al-Ashrad, no entanto, parecia inquieto. Era como se ouvisse vozes que o faziam girar a testa de tanto em tanto. Em dado momento, seu olhar recaiu sobre os túneis que davam acesso ao Coração de Alamut.

- Em Nippur a guerra destrói tudo o que construímos, irmão meu. Neste momento nossa Família marcha para um último ataque. Temo os resultados do conflito, mas tenho Fé em nossos parentes.

Voltou-se em direção ao Trono. Ya'rub percebeu que ali, ao lado da Lança de Haqim, repousava a Adaga de Obsidiana. Rashadii tomou-a entre as duas mãos, com uma grande reverência, antes de dirigir-se a Ya'rub. Estendeu-a em direção ao irmão.

- Não sei a que te servirá, Ya'rub, mas o Pai foi muito claro antes que eu deixasse Nippur. Esta Adaga provou de Sangue poderoso, mais especificamente aquele de Saulot. O Pai ordenou que eu a entregasse a ti, instruindo que ela deverá ser banhada no Coração da Montanha antes que seja usada.

A Adaga ainda exibia sangue seco em sua lâmina. Era um objeto simples, sem decoração, mas que emanava uma aura magica quase tangível. Após entregá-la, Rashadii retornou ao Trono Negro. Al-Ashrad vagava pelo vão central, tentanto, em vão, descobrir onde estava o local que parecia convocá-lo.

- E este mortal, irmão? De quem se trata? Vejo algo grandioso nele, um temperamento contemplativo e curioso.
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Seg Ago 20, 2018 12:08 pm
Foi com entusiasmo e carinho que Ya'rub retribuiu o abraço de Rashadii. Sorrindo, falou para todos que pudessem ouvir:

- Não tens ideia de como me alegra vê-lo de volta, irmão meu, são e salvo.

Em seguida, Ya'rub dá dois passos para trás e faz uma breve reverência.

- E é uma honra tê-lo como Ancião da Montanha, Sangue do meu Sangue.

Ya'rub parou um pouco para contemplar Rashadii naquela posição, diante do Trono Negro. Olhava com uma certa curiosidade para o irmão que agora liderava Alamut, mas também não podia deixar de sentir um alívio ao perceber que aquele peso saia de seus ombros, ao menos por enquanto. Ao mesmo tempo, pensou que, quando mais de seus irmão estiverem ali, deveriam estabelecer um regime de governança para o Ninho. A ideia era que o mais velho sempre se sentasse como Ancião, mas uma vez que todos de sua geração finalmente se reunissem no Alamut, talvez fosse necessário deliberar quem estaria mais apto a representar Haqim diante de seus Filhos.

Soltando um longo suspiro, Ya'rub comenta com Rashadii sobre o conflito entre Nippur e Mashkan-Shapir:

- Mesmo longe, pude sentir a maré da guerra se chocar nas areias e rochas dos lugares por onde caminhei, irmão meu. Sei que muito do que foi construído irá se perder, mas creio que nosso Pai já se precavia. Alamut é o nosso novo começo. Nippur não será nada comparado ao que faremos a partir de agora.

Sorria, mas seu sorriso logo foi substituído por um ar pesado.

- Lamento apenas que tenhamos perdido nosso mais nobre irmão... mas Mancheaka será lembrado pra sempre. Ele está vivo em nossas veias, Rashadii.

- Também tenho Fé, principalmente na capacidade de nosso Pai...

Ao dizer isso, Ya'rub olha para a Adaga de Obsidiana. Ele a recebe com a mesma reverência que Rashadii lhe entrega. Com atenção, contempla os reflexos das estrelas que se refletem na lâmina negra. O Feiticeiro fala, meio que para Rashadii, meio que para si mesmo:

- Então essa é a Adaga... não lhe dei muita atenção quando a recebi antes de partir. Haqim sabia... ele sabia desde o início por onde meus pés iriam caminhar...

Com uma das mãos e com extremo cuidado, Ya'rub passa os dedos por sobre o sangue seco que marcava a lâmina. Nenhum Sangue deve ser desperdiçado, pensou. O que dizer então, do Sangue de Saulot?

Ele olha para seu irmão, como se estivesse saindo de um transe, ainda com a adaga em mãos.

- O mortal? Bem, ele está aqui pelo mesmo motivo que esta Adaga, irmão meu... apesar de eu ainda não entender plenamente as teias que trouxeram todos até aqui. Me ausentei do Alamut para conhecer os mortais que chamam essa região de lar e com eles estabelecer uma aliança. Trata-se da tribo do ancião Al-Abiel. Suas lendas são interessantes, pois contam sobre uma Grande Fera enterrada mais ao Sul. Uma Grande Fera que precisa ser eliminada, veja você, por membro de seu clã ao lado de um Banu Haqim...

Ya'rub fixa seus olhos nos de Rashadii, mostrando-lhe a adaga:

- E o instrumento para tal feito, irmão meu, é uma Adaga de Obsidiana!

Sorri. Um sorriso quase maníaco. Ya'rub estava fascinado só por pensar nas possibilidades que se encontravam.

- O mortal é Al-Ashrad, filho de Al-Abiel. É ele que está destinado a caminhar ao meu lado nesta missão.

Ya'rub menciona o nome de Al-Ashrad em voz alta, para que este o escute. Ainda assim, continua falando com Rashadii.

- É meu desejo que ele receba o Sangue de Haqim, Rashadii. Imagine o que uma alma como essa poderá fazer tendo uma eternidade ao nosso lado? Mas não, eu não o farei até que isso seja a vontade dele.

Ya'rub sorri para Al-Ashrad e coloca-se a caminhar em sua direção. Ele toca o feiticeiro nos ombros.

-Eu sei o que você está sentindo. O Coração da Montanha o chama. Infelizmente, trata-se do único lugar onde você não poderá entrar aqui. Não enquanto caminhar entre os vivos.

Na sequência, Ya'rub vai em direção ao Coração. Iria cumprir a ordem de seu Pai: banhar a Adaga no Sangue de Haqim. Antes porém, a curiosidade o venceu. Tal como fizera com a Lança de seu Pai, Ya'rub abre um pequeno corte em seu dedo, usando o vitae que vertia para desenhar um pequeno símbolo na lâmina de obsidiana. Proferindo uma prece, ele leva a adaga com seu Sangue até a testa, Comungando com a Lâmina e descobrindo tudo o que podia sobre seu passado e suas capacidades.

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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Seg Ago 20, 2018 12:47 pm
A lâmina se abriu, seus segredos sendo desvelados diante da mente de Ya'rub. Antes disso, porém, um inquieto Al-Ashrad aquiesceu à proibição do Filho de Haqim. Não ousaria proceder em direção ao Coração de Alamut, ainda que cada fibra de seu ser desejasse fazê-lo. Pouco a pouco a figura pálida de Al-Ashrad desapareceu da visão do Ancião, e sua mente abriu-se a uma história ainda não contada.

A Adaga havia sido forjada, por um homem. Viu quando a pedra escura foi talhada com cuidado por braços fortes e queimados de Sol. Golpe após golpe, e cada um deles tinha a força para derrubar mil montanhas, a pedra foi lapidada. As mãos eram firmes e experientes. O homem se debruçava sobre a pedra bruta, seus olhos escuros fixando o material. Tinha um rosto alongado e ossudo, com profundas orelhas. Era careca. Vestia-se de forma simples e de preto.

A Adaga foi passada, então, a mãos delicadas, femininas. Ya'rub não viu o rosto, mas notou os cabelos de um vermelho intenso.

- É um presente para ti, irmã. Sera útil a ti e, quem sabe, aos teus descendentes.

Podia ferir os espíritos em uma maneira decisiva. Mais que isso, ansiava por destruir e devorar as grandes bestas que vagavam pela Noite Eterna, que eram presas frágeis diante de sua dona.

Ya'rub viu Arishat, Serva de Nergal, golpear Saulot com a Adaga em riste. O Antediluviano morreu, pois parte dele era um espírito potente, e depois renasceu.

Era caprichosa, inteligente. Não malevola, mas não inocente.

Voltou a si. Al-Ashrad o observava, encantado.

Desceu os túneis. Ali, no centro espiritual de Alamut, o Coração da Montanha pulsava, chamando-o pelo nome. Sentiu, novamente, Mancheaka. Ajoelhou-se em reverência e mergulhou a arma no Sangue imóvel. Nada de sobrenatural ocorreu. Quando a retirou, porém, verificou que o Sangue de Saulot não estava mais ali. O Coração da Montanha estava em silêncio.

Refez a breve caminhada de volta ao Trono Negro. Diante dele, estava Al-Ashrad, que conversava com seu irmão Rashadii. Este último dirigiu-se a Ya'rub.

- Entendo suas razões, irmão meu, para desejá-lo tanto. Um homem como este somente poderá portar Honra e Glória aos Banu Haqim. As estrelas me dizem que, em breve, suas opiniões mudarão. Ele está destinado a ser um de nós, e nenhuma força nesta terra sera capaz de impedir este fato. Mais que isso, ele está destinado a ser teu, Ya'rub.

Al-Ashrad observava Rashadii, com os olhos apertados, como se tentasse entender de onde o Ancião retirava aquelas informações. Era um Feiticeiro nitidamente poderoso, mas Ya'rub sabia que certas coisas escapavam ao conhecimento de Al-Ashrad. Os Banu Haqim, em suas variadas personalidades, entendiam o Universo de forma ampla e complementar, e cada adição à Família era uma nova peça no quebra cabeças da Eternidade. Al-Ashrad, porém, era uma peça enorme, indispensável para a compreensão do todo.

O mortal dirigiu-se a Ya'rub.

- Este lugar é um lugar de poder. Os espíritos congregam aqui há muito, muito tempo, antes mesmo que você sonhasse com a Montanha Que Não Existe. E continuam a congregar-se, atraídos pela mesma coisa que me atrai. Aqui vivem Imortais. Aqui vivem Cainitas. Mas falta a ti decidir se os Espíritos poderão fazer morada neste local.

Sorriu.

- De qualquer forma, precisamos partir. Nosso tempo é curto. Faremos uma viagem perigosa, por dentro do Mundo dos Mortos e dos Espíritos, onde os inimigos, guiados pela inveja da nossa materialidade, estão sempre à espreita. Deixe-me guiá-lo. Apenas me informe quando estiver pronto.

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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Ter Ago 21, 2018 1:52 pm
Abriu a boca para responder Al-Ashrad. Mas se interrompeu, ao olhar para as paredes.

Sangue.

Muito, muito Sangue. Jorrava das paredes, em borbotões, como se o deserto tivesse sido alagado após uma chuva de Vitae e agora o líquido entrasse, em torrentes furiosas, inundando o Alamut. As paredes gritavam e tremiam, imploravam por piedade. Gritavam e gritavam, milhares de vozes sobrecarregando os sentidos de Ya´rub. Alamut estava inundada, o Sangue alcançava os tornozelos de Ya´rub que, após levantar novamente a cabeça, viu um Al-Ashrad rígido, a cabeça girada para o teto. Os olhos eram inteiramente brancos, com veias azuladas que pulsavam.

O Pastor está vindo! Alamut chora, pois o Pastor está vindo!

Ya'rub tentou reagir. Mas não havia mais Sangue. Nada. Somente Alamut, em seu silêncio eterno. Rashadii estava ainda sentado ao Trono, como se nada houvesse acontecido. Ya'rub percebeu que suava Sangue. Assim como Al-Ashrad, que o observava com um olhar perturbado.
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Ter Ago 21, 2018 7:23 pm
Em um movimento devagar, retirou a lâmina que encostara na própria testa. As imagens que viu, contudo, continuavam ressonando em sua mente. Desconhecia o criador e a primeira portadora da adaga, mas sentia que eram antigos. Talvez ainda mais antigos que Haqim. Tratava-se de um presente, um regalo entre irmãos. Ya’rub acreditava na possibilidade daquela arma ter cruzado milênios antes de chegar nas mãos de Arishat e perfurar o peito de Saulot.

Com uma certa surpresa, retirou a Adaga de Obsidiana do Coração da Montanha. Não imaginava que tudo aconteceria de modo tão... calmo. A Fonte de Todo o Sangue simplesmente absorveu o vitae de Saulot sem esboçar nenhuma reação. Agora só havia uma estranha certeza de que, de alguma forma, seu tio fazia parte de Alamut. As consquências disso ainda eram imponderáveis para Ya’rub.

Ya’rub retornou ao Trono e recebeu as palavras de Rashadii com um sorriso e uma breve frase:

- Então oremos para que as estrelas estejam certas, como sempre. Para mim seria uma imensa honra trazer Al-Ashrad para nossa Família, mas já ficarei satisfeito que nosso Sangue corra em suas veias através da ação de um de meus irmãos.

Em seguida, Ya’rub volta-se para Al-Ashrad. Pensou, por um momento, no que ele acabara de falar a respeito dos espíritos. Abrir o Ninho para os mortos que não descansam era mais uma questão cujas consequências poderiam ser imponderáveis.

Ya’rub refletia sobre os possíveis impactos de suas ações futuras no Alamut quando foi tomado pela visão.

Era como se todo o Sangue derramado na guerra entre Nippur e Mashkan estivesse escorrendo pelas paredes e inundando o Ninho. Não, mais do que isso. Era todo o Sangue derramado em todas as guerras lutadas pela humanidade, desde o início dos tempos. Era a lei de seu Pai, ditando que nenhum Sangue deveria ser desperdiçado, cobrando sua dívida e entregando o pagamento diretamente no Vão Central do Alamut. E Al-Ashrad estava ali, envolto em no transe, como se fosse ele o epicentro de algo muito grande.

Foi então que Ya’rub ouviu as palavras. Um terror súbito invadiu seu ser. Algo muito mais forte do que o Medo que o fortalecia. Era a mesma sensação que teve quando soube, também por meio de uma visão, que o Pastor fora colocado neste mundo.

Tão rápido quanto veio, o Sangue desapareceu da visão de Ya’rub. Subitamente, não havia nenhuma evidência do que acabara de presenciar. Ele olha para Al-Ashrad igualmente assustado, levando a mão à face e percebendo que seu sangue escorria. Conseguiu apenas murmurar para si mesmo, em sua antiga língua:

- Raei Haqim... o Pastor de Nosso Pai se aproxima...

Ya’rub ignora Al-Ashrad e se vira para Rashadii, correndo na direção do irmão. Ele se ajoelha e toma as mãos dele:

- Diga-me irmão meu, diga-me por favor: quais eram os planos de nosso Pai para essa última batalha? Quem foram os últimos que Haqim trouxe para nossa Família? Diga-me! Preciso saber, pois - que os espíritos me castiguem caso eu esteja errado - acho que o Pai cometeu um erro...
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Qua Ago 22, 2018 5:25 am
Rashadii reagiu como se não compreendese a urgência manifestada por Ya'rub. Tomou as mãos do irmão entre as suas, numa tentativa de fazê-lo se acalmar.

- O que te aflige, irmão? Vejo uma sombra em teus olhos.

Inclinou-se em direção ao irmão.

- Você estava presente quando o Pai trouxe Sha'hiri e Jamal para o Sangue. Durante a preparação para a batalha, porém, o Pai desapareceu por algumas semanas, antes de retornar com Anath, uma gloriosa e eficiente guerreira das tribos da Planície que foi, também, trazida para o Sangue. E isto é tudo.

Al-Ashrad parecia extremamente inquieto. Era um sentimento conhecido por Ya'rub. Era Medo.

- Irmão, se algo o preocupa compartilhe comigo. Posso buscar informações com as estrelas sobre nossas cabeças, que são sempre generosas com os augúrios. Vi que tu e o mortal viram alguma coisa, estão inquietos e hesitantes. Mas não desejo atrapalhar tua tarefa. Siga para onde deves seguir, e assim que as estrelas me disserem algo, compartilharei contigo.

Al-Ashrad interrompeu.

- Creio seja mais prudente se seguirmos a pé para o Vale. Algo está mudando rapidamente no Mundo dos Mortos, começou nos últimos minutos. Me parece demasiadamente perigoso transitar ali. Os Espíritos gritam de pavor, estão hostis e violentos.

Ya'rub, de fato, sentiu o que sentia Al-Ashrad. Era como se uma grande comoção tivesse tomado conta do Mundo Além do Véu. Como se os espíritos se afastassem, temendo a passagem de alguma coisa.

Seguiram, portanto, a cavalo. A viagem seria longa e cansativa, mas Al-Ashrad se comprometeu a proteger Ya'rub durante as horas diurnas. E assim o fez. Seguiram a maior parte do trajeto em silêncio, o mortal nada mencionou sobre o que tinha visto em Alamut. Estava taciturno e analitico. Até que, quase no meio da viagem, enquanto passavam por uma região com grandes montanhas recortadas por trilhas antigas, resolveu falar.

- Vi muitas coisas no curso destes anos, Ya'rub. Mas nada como aquele homem que se aproximava, trazendo fumaça e destruição. Ele falou à minha mente, e sua voz era oriunda do centro da Terra. Ele carrega o mesmo Sangue que correm em tuas veias. Sinceramente, temo o que este indivíduo possa significar para ti e a tua Família. Jamais esquecerei aquela voz.

Continuaram a cavalgada que, no total, se arrastou por algumas dezenas de dias. Ya'rub se alimentou das feras do deserto e, ocasionalmente, Al-Ashrad cedia-lhe seu proprio Sangue, que tinha o poder de fazer, ao menos por alguns minutos, com que Ya'rub esquecesse de profecias horríveis e presenças funestas. Nestes momentos, o Sangue era tudo o que importava. Mas bastava sentir-se saciado para que inúmeros pensamentos invadissem sua cabeça.

Quando finalmente chegaram ao norte de Canaan, uma região seca e pedregosa, quase sem sinais de vida, Ya'rub sentiu estar próximo ao Vale. E, de fato, a planície na qual cavalgavam foi subitamente interrompida por uma profunda depressão que se alongava por vários quilômetros. Ali embaixo a terra era mais escura, quase cinzenta, e a lua foi repentinamente coberta por nuvens pesadas, diminuindo a iluminação natural. Dentro da planície, porém, figuravam inúmeras rochas imensas, escarpadas, como lâminas irregulares que se prolongavam do solo morto. O vento soprava lentamente por entre elas, compondo uma sinfonia natural, porém estranha. Segundo Al-Ashrad, Gei Ben-Hinnon era um local amaldiçoado, onde nada nascia. Sua tribo evitava o local, pois alguns dos videntes e profetas sinalizavam que ali se daria uma grande tragedia, que marcaria a pele do próprio Mundo.

Havia uma energia que fluia no Vale. Era um sensação constante de peso nos ombros, de cansaço físico, exaustão mental e morte espiritual.

E ali, próximo à descida que dava acesso às partes mais baixas do Vale, se encontrava um homem, de pé, sozinho.

Um homem não. Uma criança.

Não esperou que Ya'rub descesse. Virou-se e começou a escalar a descida que o separava do cainita e do mortal. À medida em que se aproximava, Ya'rub sentia um pavor primal, irracional tomar conta de seu ser. Não era incontrolável, não desejava fugir. Mas era um sensação de brutal desespero, de que tudo chegaria ao fim mais cedo ou mais tarde.

O Homem Morto estava na parte mais baixa do Vale. Olhava, atentamente, para Ya'rub.

A criança se aproximou. Era baixa e magra, não mais de um metro e quarenta de altura. Era horrivelmente deformado, queimado e, em certos pontos de sua carne, os ossos amarelados estavam expostos. Vestia-se com um robe bege, sujo e maltrapilho. No pescoço, um colar de pequenos ossos que pareciam dedos humanos. Não tinha olhos. Tinha, no lugar destes, duas horríveis cicatrizes, como se tivessem sido queimados, mas de dentro para fora. Veias escuras se interrompiam do nada, sem encontrar os globos oculares. Ele, no entanto, continuava a marcha encarando diretamente Ya'rub, que sentia como se seu coração estivesse inchando. Não era, talvez, mais poderoso que o Primeiro Vizir. Mas sua presença - e seu poder - eram sufocantes, uma sensação similar àquela do afogamento. Quando falou, sua voz era composta da cacofonia das raízes que se movem no subsolo.

- Eu o saúdo, Ya'rub Bani Qahtani, Filho de Haqim e Primeiro dentre os Sábios. Teu Pai me envia até aqui, para que eu posso romper o Selo que o separa de tua missão, pois a mágica do mortal que o acompanha é de qualidade inferior. O Sangue de Teu Pai corre em minhas veias. Me chamo Shulgi, da cidade de Ur. Sou um Pastor.
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Qua Ago 22, 2018 4:47 pm
Uma sensação de urgência quase sufocante invadiu Ya’rub, enquanto seu irmão tentava acalmá-lo. Mesmo não mais respirando, era como se seus pulmões fossem comprimidos por um peso descomunal. Ainda em tom de súplica, ajoelhado diante de Rashadii, revela o que sabia à Rashadii:

- Venho sendo acometido por visões terríveis, irmão meu. Essas visões me mostram o nascimento de um ser de poder imenso que trará desgraça e destruição à nossa Família. Esse ser... é cria de nosso Pai. Haqim o trouxe para o Sangue com a missão de unificar o inimigo na guerra que travam em Mashkan-Shapir, mas creio que isso foi um erro...

Ya’rub percebeu a dificuldade que tinha em transformar as imagens em palavras. Revivê-las era doloroso e cansativo.

- Por que o Pai traria uma criatura tão terrível para o Sangue, Rashadii? Pergunte às estrelas. Rogo a elas que eu esteja errado...

As palavras de Ya’rub ecoam pelo salão do Trono, até o silêncio se instaurar. Um silêncio que só existia no mundo material, porque Além do Véu era possível escutar os espíritos em fuga. Eles estavam com Medo.

Acatou a sugestão de Al-Ashrad e partiram em viagem para o Vale de Gei Ben-Hinnon. Afastavam-se do Alamut, mas a sensação de urgência raramente abandonava Ya’rub. Era um quase pânico causado pela certeza de que, cedo ou tarde, algo terrível aconteceria.

Quando chegaram no Vale, as sensações só se fizeram aumentar. Apenas uma palavra lhe vinha à mente enquanto contemplava a grande ferida na terra que era o Vale: desolação. Cansado, corria a vista pelo solo negro que se estendia abaixo de si. Não havia nada ali, absolutamente nada. Ao longe, só conseguia distinguir a estranha figura do Homem Morto.

Foi quando percebeu a criança. Conforme ela começou a se mover e caminhar em sua direção, Ya’rub viu-se incapaz de nomear suas sensações. O poder que ela emanava o lembrava da primeira vez que viu Al-Ashrad, mas com uma diferente polaridade. Era uma força entrópica, quase corrupta. Ya’rub não era mais vivo, mas sentia que a vitalidade que o Sangue lhe dava era sugada por aquele pequeno ser. Ele se aproximava e, conforme a distância diminuia, era como se o Feiticeiro se apequenasse. Novamente, era como se o ar saísse de seus pulmões, ainda que não precisasse respirar.

E logo ele estava ali, próximo. À distância de um toque. Sua voz se fazia ouvir. Shulgi, nativo de Ur.

Ur-Shulgi...

Ya’rub estava impressionado. Tudo o que sentira ainda estava ali. Todas as visões ainda estavam frescas em sua mente. E, ainda assim, olhando para a frágil e tenebrosa figura de Ur-Shulgi, sentiu uma espécie de compaixão. O corpo do Pastor era uma evidência de que havia passado por um sofrimento extremo. E Ya’rub sabia que - assumindo que Abam e Manu estavam corretos - Ur-Shulgi fora encarregado de uma terrível missão...

Outra coisa lhe chamou atenção: a criança não chamara Haqim de Pai, ainda que o Sangue tivesse o cheiro de sua Família. Ao contrário, Ur-Shulgi referia-se a Haqim como o Pai de Ya’rub. Era como se ele fizesse questão de colocar uma distância entre o Sangue e si mesmo.

Lentamente, Ya’rub se abaixa, para ficar na mesma altura que o Pastor. Olhou-o no que deveriam ser seus olhos, tentando ignorar o quão perturbador era. Estende a mão, em um gesto que era algo entre amistoso e desconfiado, tal como quando se encosta em um corpo para ter-se certeza de que está morto. Mas Ya’rub pousa a mão no frágil ombro queimado de Ur-Shulgi.

- Eu previ sua chegada, Ur-Shulgi. Não imaginava, contudo, que o encontraria aqui. Eu sinto o cheiro do Sangue de Haqim em você...

De soslaio, Ya’rub olha para Al-Ashrad. Volta-se então para o Pastor.

- O Pai o enviou para abrir um caminho, mas creio que não foi somente para isso que ele o trouxe para a Noite. Conte-me, Pastor, como Haqim o encontrou e por que o escolheu.
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Qui Ago 23, 2018 4:31 am
Ur-Shulgi sorriu. Ou pareceu sorrir. Sua face se deformou em uma máscara estranha, exageradamente enrugada e que deixava a vista as manchas escuras das queimaduras, mesmo na face. Os dentes eram curtos, como os de uma criança, apodrecidos em alguns pontos.

- Haqim encontrou-me enquanto eu morria. Matou-me outras duas vezes antes que eu pudesse estar aqui hoje. Haqim retirou o mal que habitava em mim, expurgando-o com chamas sagradas e grande força de espírito. E eu sirvo a Haqim, agora, como agradecimento por sua... gentileza.

Olhava diretamente para Ya'rub. Era exasperante encarar um figura sem olhos.

- Haqim escolheu-me em razão das minhas capacidades. Minha magia é vastamente superior a de qualquer outro que caminhe sobre esta Terra. Haqim não confia nos Feiticeiros de nenhuma das outras casas. A minha tarefa é ensinar. Formar as gerações de Banu Haqim que virão, para que seu Sangue seja forte e capaz. Sou um Pastor, Bani Qahtani, mas um Pastor de Almas.

Shulgi expressou o nome tribal de Ya'rub com uma entonação diferenciada. Era quase como se desejasse que Ya'rub soubesse que ele conhecia, por alguma razão, os Bani Qahtani. Havia um ligeiro sentimento de desprezo. Olhou para Al-Ashrad, medindo-o de cima a baixo. Depois, retornou o olhar para Ya'rub.

- Haqim me enviou até aqui pois eu conheço a natureza do que está selado no barro deste lugar, em cada uma destas escarpas. Sua destruição, porém, é tarefa do construtor da Morada Sagrada, Bani Qahtani. Meu auxílio diz respeito somente a dar-te o acesso necessário.

Ur-Shulgi deu as costas para Ya'rub e passou a observar o Vale. Fora esse giro, tinha se mantido imóvel durante todo o tempo, como uma estátua devastada após um grande incêndio. Ele levantou a mão direita, como em um sinal em que uma pessoa pede que outra pare. E então, Ya'rub notou que Shulgi avistou o Homem Morto. E algo quase imperceptível aconteceu.

Ur-Shulgi tremeu.

Mas, com celeridade, recuperou seu estoicismo. Ya'rub ouviu um som alto, que ecoou por todo o Vale. Era como se uma grande porta de pedra se tivesse desprendido das estruturas que a mantém de pé e tivesse caído no chão, revelando o que estava do outro lado. O Vale, contudo, permanecia exatamente igual ao que era antes. O Homem Morto continuava ali, de pé, alternando seu olhar entre Ya'rub e Ur-Shulgi.

Este último girou-se, e por um longo tempo encarou Al-Ashrad. Depois, retornou o olhar para seu irmão.

- Você pode caminhar, agora, pelas terras amaldiçoadas em que foi selada a Grande Fera. Eu devo realizar, contudo, um alerta.

Aproximou-se de Ya'rub. Era um grande gato, um predador terrível. Movia-se de forma muito semelhante à Haqim. Calculada e metódica. Passados os segundos iniciais, Ya'rub não sentia mais a sensação de sufocamento. Acontecia exatamente o contrário. Alguma mudança havia acontecido em Ur-Shulgi e, agora, era o poder e a presença de Ya'rub que parecia incomodá-lo, quase assustá-lo. E, como todos os animais assustados, Ur-Shulgi parecia ligeiramente mais perigoso.

- É perigoso realizar acordos com os espíritos, Bani Qahtani. É difícil compreender suas motivações. Por vezes mesmo os espíritos mais bem intencionados podem nos impedir de cumprir a missão para a qual fomos escolhidos. Eu não estou disposto a permitir que ninguém, vivo, morto ou em um estado intermediário me impeça de cumprir os designios de Haqim. Seria sábio se você agisse da mesma forma.

Permaneceu ali, parado como uma estátua, à espera da resposta de Ya'rub. Al-Ashrad, o cainita sabia, estava extremamente tenso, restando passoas atrás do encontro. Ur-Shulgi parecia agitado, ansioso para deixar aquele lugar. Atrás dele, diante do Vale, se agitava uma espécie de Véu translúcido. Ya'rub sabia que, agora, podia cruzá-lo, dando prosseguimento à sua missão. O Homem Morto não estava mais à vista.


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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Sex Ago 24, 2018 1:27 pm
Diante da menção que Ur Shulgi fez de seu nome tribal, Ya'rub, que ainda mantinha-se abaixado para ficar na mesma altura que a criança, se levanta. Nunca fora uma figura fisicamente imponente, mas frente à pequena e frágil compleição de seu irmão mais novo, o Feiticeiro fez questão de colocar-se numa posição na qual olharia Ur-Shulgi de cima para baixo.

Ya'rub ficou ali, observando-o em silêncio, com uma das sobrancelhas arqueadas, demonstrando um tom de incredulidade e desconfiança. Esperou então que Ur-Shulgi cumprisse com a missão para a qual fora direcionado até ali. Escutou e esboçou um sorriso, quando o som de algo se abrindo reverberou por todo o Vale.

Alternava também o olhar entre seus dois companheiros, Al-Ashrad e o Homem Morto, esforçando-se para transmitir um semblante de confiança. Sim, seu irmão lhe assustava. Sim, as visões eram alertas de que estavam diante de alguém perigoso. Alguém em qual Ya'rub jamais confiaria plenamente. Mas estava fazendo o possível para transformar seu terror em Medo. O Medo faria com que Ya'rub estivesse preparado.

Foi quando percebeu que Ur-Shulgi também temia alguém... ou algo. Percebeu a aura de poder de seu irmão recuar, como se assumisse uma postura defensiva. Ouviu seu último recado, que aos ouvidos de Ya'rub pareceu contaminado de um certo medo e rancor. Ainda era assustador, mas havia algo a mais... Uma certa fragilidade real, ainda que perigosa.

Por fim, Ya'rub falou, em um tom neutro:

- Não irei duvidar do julgamento de meu Pai, ao escolher a ti por suas capacidades superiores na compreensão e domínio de forças místicas. Não, não duvido que seja mais poderoso do que qualquer um que caminhe sobre esta terra. Contudo...

Sorri, enquanto observava o Véu que balançava como se um vento soprasse:

- ... Este mundo é muito pequeno para alguém se vangloriar de algo que aqui conquistou.

Ya'rub sussurra algo na língua nos espíritos. Claramente, o fazia como demonstração de poder em uma afronta direta ao que seu irmão acabara de falar. Porém, ao mesmo tempo, queria testar a força do Véu ali. Queria ver se algum espírito responderia. Ele se vira novamente para Ur-Shulgi.

- Você pode ser mais poderoso do que qualquer um, Ur-Shulgi. Mas você é apenas um. Uma criatura solitária, presa neste mundo.

Caminha até Al-Ashrad e toca-lhe o ombro, sinalizando com um aceno de cabeça que deveriam prosseguir para cruzar o Véu. Antes, porém, vira-se uma última vez para o irmão.

- Ao contrário de você, Pastor de Almas, eu não estou sozinho. Eu sou um meio para muitos.

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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Sab Ago 25, 2018 8:19 am
- E, portanto, muitos têm poder sobre você, e muitos podem causar tua ruína, Bani Qahtani.

Ur-Shulgi sorriu, um sorriso doentio, que o levava de volta à sua forma agressiva e que inspirava pavor. Fixou o olhar em Ya'rub sem, porém, esboçar particular sentimento. Media seu irmão mais velho, assim como era medido por ele. Ya'rub sentia que, lentamente, o poder de Ur-Shulgi tornava a se manifestar. Havia uma tensão no ar, quebrada somente pelas últimas palavras de Ur-Shulgi antes que atravessassem o Véu.

- Eu o esperarei em Alamut. Irmão.

Um vento súbito e forte soprou, envolvendo Ur-Shulgi em uma cortina de poeira que girava somente ao redor dele. Em seguida, o Pastor desapareceu.

*

Desceram a depressão, entrando no Vale através de um terreno pedregoso. Os espíritos haviam respondido a Ya'rub. Eram poucos, em sua maior parte espíritos humanos que pareciam imersos em uma profunda agonia. Enquanto se aproximava do Vale, sentiu odor de carne queimada, além de gritos de horror. Durou somente um instante, mas era forte o suficiente para atestar que coisas horríveis tinham acontecido ali.

- Este era um lugar de sacrifício. - Explicou Al-Ashrad - Até que foi abandonado pelos que aqui congregavam. Nunca se soube a razão, mas o Vale é desabitado desde então. Os mortos, como podes ver, permanecem.

Aproximava-se do local onde flutuava o estranho Véu translúcido. Pouco a pouco, o Vale se tornou um borrão indistinguível, enquanto o Véu ganhava definição. Quando estavam diante dele, Al-Ashrad pediu que Ya'rub esperasse, e caminhou à frente do cainita. Ao passar pelo Véu, desapareceu. Ya'rub fez o mesmo, e quando se viu do outro lado, a vista era aterrorizante.

Montanha infinitas, de cor avermelhada, se erguiam até tocar o céu igualmente carmesim. As terra era morta, estéril e enegrecida. Haviam caminhos por entre as montanhas, estreitos e perigosos. Os espíritos estavam presentes, se amontoavam sem se aproximar, mas observavam com ódio e inveja os visitantes, em especial a Al-Ashrad, que ainda era vivo. Ao mesmo tempo, sentiam-se atraídos pelo Feiticeiro e, em maior escala, por Ya'rub. O cainita notou que eles não tinham face. Eram manchas escuras, borrões na Criação, sem força para realizar nada, sem personalidade. Ocasionalmente, seus "corpos" se retorciam de uma forma impossível, mesclavam-se e formavam novas criaturas, que logo brigavam entre si e se separavam, absorvendo outros no processo. Era um ciclo infinito. O ar era pesado, quente, como o de uma fornalha, e repleto de agonia e desespero.

O Homem Morto estava mais adiante, vislumbrando as montanhas avermelhadas.

Não haviam outros caminhos. Aquele lugar era fechado. Deixar as imediações delimitadas pelo Véu faria com que, provavelmente, Ya'rub retornasse ao Mundos dos Vivos. Aquilo era um microcosmo do Vale de Gei Ben-Hinnon, um inferno de pequenas dimensões onde aquelas almas amaldiçoadas estariam presas para sempre. Em determinado momento, Ya'rub notou duas coisas.

A primeira era que um enorme touro de bronze fumegante havia surgido do nada. Os mortos esqueceram dos vivos. Aglomeraram-se ao redor da estátua, adorando-a, beijando-a, lambendo-a. Esfregavam o local onde deveriam estar seus orgãos genitais no touro, tentavam se cortar para banhar o animal, mas ali o Sangue não vertia.

A segunda coisa era que uma das montanhas diante dele, a mais alta delas, lentamente tinha seu cume coberto por nuvens alaranjadas.

Al-Ashrad encarava, horrorizado, a Dança dos Mortos. O Homem Morto encarava, sem piscar, a Montanha.
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Sab Ago 25, 2018 11:30 am
Pensou nas últimas palavras de seu irmão, antes de cruzar Véu. Ele tinha razão. Ya’rub também tinha razão. A verdade é que ambos estavam corretos, dentro de seus próprios paradigmas. Poder e solidão podem levar ao orgulho em demasia, ao mesmo tempo afastando qualquer resquício de humanidade. E Ya’rub nunca ouviu da boca de seu Pai que seus FIlhos deveriam se afastar dos mortais.

Por outro lado, abrir-se às influências dos espíritos pode ser perigoso. De fato, pode ser difícil saber até onde alguém consegue manter sua independência, ao invés de se transformar num mero instrumento nas mãos de criaturas muitas vezes incompreensíveis.

Ya’rub sorriu. Apesar das divergências e da animosidade que construiam entre si, guardaria aquelas palavras de Ur-Shulgi com carinho. No entanto, perguntava-se, silenciosamente, se o irmão também teria a humildade de escutar o conselho que Ya’rub havia lhe dado.

*

Cruzaram o Véu. Al-Ashrad ia na frente, desbravando o único caminho que se apresentava diante dos dois. Ali, Ya’rub parou para contemplar a terrível visão que era o Vale de Gei Bei-Hinnon. Um microcosmo de dor e sofrimento eterno. A agonia das almas se fazia palpável na atmosfera, como se fosse parte integrante do clima local. Era um cenário terrível e, ao mesmo tempo, fascinante.

Ya’rub fechou os olhos e forçou seus pulmões mortos, fazendo-os funcionar mais uma vez. Queria sentir o ar pesado em seus pulmões. Queria que a experiência de estar além do Véu, especificamente naquele local maldito, fosse plena.

Quando se pôs novamente a enxergar, percebeu o touro de bronze que atraia a atenção profana daquelas almas. Era um espetáculo aterrorizante. Lembrou-se, imediatamente, dos notórios instrumentos de tortura e sacrifício de Assur. Artefatos medonhos que os assurianos usavam para assar pessoas vivas. Conforme gritavam, seus urros de dor e agonia eram convertidos em mugidos de boi, um feito que só era possível graças ao artifício de seus cruéis artesãos, que projetaram aquela coisa. Tudo isso para agradar os deuses inferiores de Assur.

Ya’rub pensou em Moloch. Onde estaria o Baali agora? Instintivamente, sentiu pesar em um de seus muitos bolsos o anel que recebera do infernalista. Um presente que nunca usara, mas que mantinha sempre consigo.

Contemplou as almas que dançavam em torno do animal de metal e que chamavam a atenção de Al-Ashrad. O que seriam aqueles mortos perdidos? Vítimas de sacrifícios passados, que agora aguardavam em festa a chegada de mais uma? Um sacrifício acontecia em Assur ou qualquer outro local profano, de modo que seus ecos repercurtiam no plano espiritual de Gei Ben-Hinnon?

Lentamente, voltou o olhar para o Homem-Morto, que encarava a montanha que parecia estar em chamas. Aproximou-se dele, finalmente:

- Chegou o momento, Espírito Antigo. Diga-me sua ligação com este local. Diga-me para onde e como deveremos proceder.
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

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