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Alamut: O Ninho da Águia.

em Qui Ago 09, 2018 12:59 pm
Descansou.

Um sono sem sonhos, rodeado por suas crias que dormiam em outros pontos do Vão Central. No centro, o Trono Negro de Haqim ostentava a poderosa lança, ainda presa em um dos lados. Descansou, e a única coisa que ouviu foi a voz de seu Pai, que se manifestava através do seu Sangue. E a mensagem era clara.

- A Guerra avança na planície. No entanto, necessito que permaneças onde estás. Os filhos de teu irmão irão ao teu encontro. Os novos não devem morrer pelas batalhas dos velhos.

Acordou, com o eco da última frase em sua cabeça. Parecia mais do que um código pessoal, mas uma recomendação. Manu dormia, inerte. Abam já estava desperto, meditando, os olhos fixos no vazio.

Foram meses de espera. Exploraram cada um dos cantos de Alamut, sua nova casa. E quão grandiosa era! Intrincados túneis conduziam a imensos salões de pedra, com suas paredes que pediam para ser decoradas com a história dos Filhos. Ya'rub via todas as tabuletas que estariam nos salões de estudo, com suas prateleiras harmônicas e espaçosas. Viu o local onde os Filhos repousariam e a câmera onde repousaria o próprio Pai. E, acima de tudo, seu Sangue repousava, esperando pelo Sangue dos outros FIlhos. Manu e Abam depositaram sua Vitae no coração de Alamut. Não deixava de ser curioso, porém, o fato de que Manu era o Ghûl, que agora prestava honra e glória a Haqim.

Ali, conversaram. Havia muito a contar. As experiências de Ya'rub completaram os gêmeos, e eles o fizeram ver detalhes que não compreendia. Os três avançavam juntos. Caçavam nos territórios vizinhos e, quando as experimentações filosóficas eram muito sedutoras, recorriam à habilidade de convocar as Bestas que, surpreendentemente, desenvolvera Abam. Se alimentavam em Alamut, e o Sangue que porventura se derramava no chão desaparecia rapidamente, absorvido pela Terra. Nada era desperdiçado.

Quando chegaram, eram já muitos. Sabiam instintivamente para onde se dirigir e, tendo deixado Nippur ao mesmo tempo, juntos chegaram. Eram dois homens e uma mulher, que foram recebidos por Ya'rub.

A mulher era bela. Tinha uma escura, lábios expressivos e olhos enigmáticos. Movia-se com graça e leveza, vestindo um robe e um manto igualmente coloridos, vivos. Sob as vestes, Ya'rub identificou as armas e a violência em seu espírito, mantido oculto por um sorriso cordial. Tinha o perfume de Nakurtum, seu irmão mais novo. Se chamava Mahi.

O primeiro homem era impressionante. Alto, de porte atlético. O rosto era severo, quase hostil. Vestia-se com vestes coloridas e dispunha de braceletes de cobre nos braços. Exalava uma ferocidade terrível, mais primitiva que aquela da mulher. Mas que era temperada com um senso de justiça sem precedentes. Se chamava Kurush-Ishraqi, e exalava, fortemente, a justiça de Mancheaka.

O segundo era menor, mais magro e mais estranho. Portava uma tatuagem que partia do umbigo até o pescoço. Seus cabelos eram avermelhados e seu rosto coberto de marcas rituais. Era sábio e forte, e Ya'rub se identificou imediatamente com ele. Era filho de Rashadii, e se chamava Assuero.

Observaram, com respeito e reverência o Ancião da Montanha e esperaram suas ordens.


Mahi

Kurush-Ishraqi

Assuero
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Sab Ago 11, 2018 9:01 am
Nas noites que procederam a criação de Alamut, Ya'rub, Abam e Manu exploraram os corredores e salões recém-criados como crianças livres em um grande jardim. Os três sabiam que uma guerra acontecia na distante planície onde estava Nippur, de modo que se preocupavam com Haqim e seus parentes. Mas como o Pai havia ordenado que ali ficassem, aproveitaram a distância para enriquecerem seus corpos e mentes. Mesmo com a guerra contra Mashkan Shapir, a segurança de um novo lar os enchia de esperança para viverem um futuro que se desenhava no horizonte.

Com o passar dos meses, Ya'rub foi se preparando para receber as crias de seus irmãos. O Pai o alertara que viriam. Ainda assim, mesmo com o tempo que teve para aguardá-los de modo apropriado, o Feiticeiro não conseguiu deixar de se surpreender quando viu os três primeiros que chegaram. Quão belos eram! Cada um à sua forma. Cada um representando uma faceta do que eram seus pais-criadores.

Quando Ya'rub os recebeu, foi a primeira vez que se viu sentado no Trono Negro de Haqim. Inegavelmente, era uma posição estranha. Não havia conforto em ocupar aquele lugar. Sentia o peso de Alamut sobre seus ombros. Era como se o Sangue se adensasse em suas veias, ganhando corpo com toda a responsabilidade que cabia à sua Família.

Mesmo assim, Ya'rub não pôde deixar de sorrir. Que assim seja. Que todo aquele que se sentar no lugar que por direito pertence apenas à Haqim nunca se acomode. Que o Ancião da Montanha entenda que ele não é uma autoridade em nenhum dos mundos, mas apenas um representante do Grande Caçador. E como Ele, deverá sempre caçar a Verdade.

Foi com grande júbilo que Ya’rub observou a entrada dos mais novos no salão do Trono. Estendeu-lhes as mãos, com as palmas voltadas para cima - mostrando inclusive a cicatriz que carregaria para sempre - em um generoso gesto de boas vindas. Olhou cada um deles, detendo-se em suas fisionomias e sentindo suas auras. Queria, assim, aplacar um pouco a saudade que tinha de seus irmãos. Enquanto preparava-se para falar, tinha Manu e Abam ao seu lado.

- Sejam bem-vindos, crianças de meus irmãos e Filhos de Haqim. Sejam bem-vindos à nossa casa. Teremos muito o que fazer, mas antes quero que descansem e se acomodem. Sentem-se aqui comigo e digam: que notícias trazem dos lugares de onde vieram? Como estão meus irmãos?

Depois de ouvi-los, Ya’rub detem-se a observá-los por mais um momento. Estavam ali: a astúcia e prestreza de Nakurtum, a nobreza e retidão de Mancheaka, a curiosidade e coragem de Rashadii. Assumindo um semblante mais sério, Ya’rub prossegue.

- Amanhã, após terem descansado, tenho uma missão para vocês. Trata-se de um teste. Obviamente, ele não será condicionante de sua presença aqui. São Filhos de Haqim, escolhidos à dedo por meus irmãos, e isso já os torna dignos de Alamut. Mas preciso testá-los para ver como eu, Ya’rub, irei considerá-los daqui em diante.

- Entendam desde já, minhas crianças, que não há Filho de Haqim superior a nenhum mortal. Não só precisamos deles para sobreviver, como a eles deveremos servir. Protegeremos os Filhos de Set do mal que assola esse mundo. O Sangue nos conecta, pois conecta todas as coisas. É por isso que vocês precisam conhecer os mortais que vivem em nosso entorno. Sem eles, Alamut não sobreviverá por muito tempo. Além disso, devemos observá-los, pois é entre eles que encontraremos os próximos Filhos de Haqim.

Ya’rub se inclina, aproximando o rosto em direção aos três vampiros.

- Sua tarefa será uma missão conjunta. É assim que os Filhos de Haqim deverão agir sempre: somando suas habilidades. Localizem o próximo agrupamento mortal e o façam.

Olhou para Assuero:

- Assuero, filho de Rashadii. Tu deverás compreender as crenças e visão de mundo desse povoado. Entenda-a e respeite-a, ainda que não queira compartilhá-la.

Virou o rosto para Kurush-Ishraqi:

- Kurush-Ishraqi, filho de Mancheaka. A ti cabe compreender as leis do povoado. Descubra quem as segue e quem as viola. Junto, com Assuero, deverá compreender como essas leis se baseiam na visão de mundo dessas pessoas.

Finalmente, olhou Mahi e sorriu:

- Mahi, filha de Nakurtum. Descubra quem são os inimigos dessas pessoas e quais são os seus pecados diante das crenças e leis que decidiram seguir. Àquele que for o maior pecador, traga a morte limpa e rápida.
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Sab Ago 11, 2018 10:47 am
Eram diferentes não só em aparência, mas também em personalidade. Mahi prestava pouca atenção a Ya'rub, não por desrespeito, mas por estar absolutamente encantada com a existência de Alamut. Com os olhos fechados, parecia sentir os rumores e sussurros do Ninho da Águia. Enquanto Ya'rub falava, não hesitou: caminhou até a Fonte de Todo o Sangue e, cortando seu pulso com uma adaga de pedra, depositou sua Vitae no local.

Assuero e Kurush, por sua vez, ouviam e observavam atentamente o Velho da Montanha, recebendo suas ordens e concordando com elas sem nenhum sinal de hesitação. Eram filhos de Mancheaka e Rashadii que, apesar de serem cainitas de natureza diversas, eram extremamente atentos à hierarquia e ordem. O Filho de Haqim, entretanto, percebia que Alamut tinha exigências. E assim que terminou de falar, Kurush se juntou a Mahi diante da Fonte, vertendo sua Vitae. Somente Assuero permaneceu diante de Ya'rub, embora tremesse diante da vontade de Alamut. Respondeu ao seu Ancestral.

- Estamos honrados, Ancestral, diante de tamanha responsabilidade e digo: a cumpriremos sem hesitação e da melhor forma possível, sob a liderança magistral de meu parente Kurush-Ishraqi.

O jovem cainita lambia os lábios nervosamente. Ya'rub percebeu que ele não ousava desrespeitar a Vontade de Alamut, mas tentava testar a sua própria resistência. Assuero era, claramente, um Feiticeiro como Ya'rub havia sido e suas tatuagens, agora, faziam sentidos. Eram as mesmas usadas por tribos rivais dos Bani Qahtani.

- Trago-lhe notícias de Nippur. Notícias que não são boas, mas que indicam que a Guerra ainda é uma realidade para os nossos Ancestrais.

Neste momento Mahi e Kurush retornaram, pondo-se ao lado de Assuero. Ele, por sua vez, não pode mais evitar. Procedeu à Fonte enquanto Mahi, sua voz doce e melódica, assumia o relatório.

- Na Planície a guerra ruge e nossas forças diminuem. Os Filhos da Escultora deixaram a cidade. Obtivemos, contudo, reforços, oriundos da Casa da Besta e do Clã dos Andarilhos. Daharius Sarosh não retornou, assim como Enki. O Pai trouxe alguém para o Sangue, uma formidável donzela guerreira de nome Anath. Entretanto, tivemos duas pesadas baixas. A primeira foi Khanon-Mehr, o Forte, da Casa da Noite. O segundo...

Kurush interrompeu. Foi direto.

- Meu Senhor e teu irmão Mancheaka.
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Dom Ago 12, 2018 6:12 pm
Observando o comportamento dos novos Filhos de Haqim, Ya’rub não pôde deixar de se impressionar com o poder do Alamut. Mesmo sem ter dado a ordem, ou sequer mencionado a existência da Fonte de Todo o Sangue, os jovens Mahi, Kurush e Assuero foram impelidos à depositar sua porção de Vitae. O Sangue os chamava.

Era exatamente como Ya’rub havia imaginado: um coração. Pulsando, ele dava forças ao mesmo tempo em que chamava o Sangue de volta.

Com curiosidade, Ya’rub captava o nervosismo de Assuero. Percebeu o jovem feiticeiro exercendo sua vontade para resistir à força do Coração. Como qualquer indivíduo versado nos mistérios do universo, a cria de Rashadii demonstrava ter personalidade e força de vontade. Era irônico, pensou, que seu irmão tenha escolhido para o Abraço mais um filho do deserto. Em vida, suas famílias eram rivais, lutando pelos preciosos recursos que o deserto lhes fornece. Porém, agora eram iguais. Compartilhavam o mesmo Pai, o mesmo Sangue. Eram Filhos de Haqim, e assim seriam para todo o sempre.

Observava a tudo com curiosidade e deleite, até que Kurush-Ishraqi deu a notícia sobre o fim de Mancheaka.

Ya’rub levanta a mão, sinalizando aos mais jovens que ficassem em silêncio. O Feiticeiro também não disse nada. De olhos fechados, abaixou o rosto e franziu o cenho, como se tivesse sido acometido por uma súbita dor de cabeça.

Mancheaka, o primeiro juíz. Talvez o maior devoto de Haqim que Ya’rub conhecera. Sabia que a guerra tinha um preço e que todo aquele que vive pela espada corre o risco de, cedo ou tarde, morrer pela espada. Ainda assim, pensou, a dor da perda era inevitável.

Quando reabriu os olhos, uma singela lágrima rubra escorreu de cada um. Ainda em silêncio, Ya’rub se levantou do trono e caminhou, gesticulando para que todos o acompanhassem, incluindo Abam e Manu. Devagar, desceu os degraus até a Fonte. Quando estavam ali, na quase escuridão e em torno do poço que guardava o Sangue do Coração, Ya’rub se pronunciou. Seus olhos fitavam o vitae sagrado que ali repousava.

- Alguns dirão que meu irmão caiu antes de conhecer sua casa, pois não teria colocado os pés em Alamut. Mas essa não é a verdade.

Ya’rub apontou para a Fonte de Todo o Sangue e incitou que todos a olhassem diretamente.

- Contemplem, pois ali está o corpo e a alma de Mancheaka! O Sangue do guerreiro corre no Alamut e preenche as veias de cada um de nós. Pois somos uma Família e compartilhamos o mesmo Sangue! Enquanto um Filho de Haqim estiver de pé, Alamut resistirá. Enquanto um de nós existir, todos nós continuaremos vivos. Jamais se esqueçam disso.

Ya’rub os deixa olhando para o poço e começa a caminhar, circulando no entorno. Quando chega até Kurush, o Feiticeiro o toca nos ombros.

- Honre teu criador. Sejas tão forte e justo quanto ele foi.

Sorri para o mais jovem e faz um pequeno cumprimento com a cabeça. Em seguida, Ya’rub retorna ao trono.
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Seg Ago 13, 2018 4:38 am
- Honrado seja o Sangue de meu Senhor, aquele que trazia o terror ao coração do inimigo, com sua lâmina e com suas palavras!

Ishraqi fez uma profunda reverência ao Coração de Alamut. Havia nele uma profunda devoção, Ya'rub notou, por Mancheaka. Naquele momento, Alamut pareceu se contrair para acolher a todos, como um Pai faria diante de uma perda do Filho. Durou apenas um segundo. Depois, retornaram à sala do trono.

Nenhum dos jovens cainitas apresentou oposição ao teste do Ancião da Montanha. Compreendiam a necessidade que os Filhos de Haqim tinham dos mortais, tanto na luta contra os horrores que infestavam a Terra quanto para que seus números aumentassem. Não tardaram a proceder à missão. Organizaram-se velozmente, após discutir, entre eles, os papéis de cada um. Mahi parecia excitada com sua tarefa, tinha um profundo vínculo com os mortais, assim como Assuero. Ainda que ambos tivessem organizado os rumos que deveriam tomar, o comando da operação foi cedido a Kurush-Ishraqi, o guerreiro.

Deixaram Alamut ao anoitecer de uma noite de primavera, quando o sol se escondia por detrás das montanhas distantes. Levaram quarenta noites para retornar.

Naquele meio tempo, Ya'rub permaneceu com Abam e Manu em Alamut. Caravanas oriundas de Nippur alcançaram a montanha naquele intervalo, repletas de seguidores fiéis de Haqim, dentre os quais haviam sacerdotes, poetas, cientistas e cronistas. Eram homens e mulheres que se sentiam mais do que felizes em escapar dos conflitos na planície. Estavam, porém, magros e doentes, o que deu a Ya'rub uma noção da situação no Leste. Traziam com eles tabuletas de argila e artefatos antigos na forma de armas, jóias e peles. Haqim havia enviado estes itens para que fossem guardados em Alamut. Dentre eles, uma belíssima adaga negra de obsidiana manchada de sangue seco e um vaso de argila que, segundo os visitantes, continha o Sangue do falecido Mancheaka, que deveria ser depositado no Coração de Alamut.

Estes mortais se estabeleceram entre os túneis de Alamut, começando ali seus trabalhos. Durante a noite, saiam para caçar, acompanhados de Manu. Em pouco tempo estavam de volta à velha forma, e Ya'rub pode discernir quem eram os guerreiros e quem eram os poetas. Em algumas noites, Abam os aninhava diante do Trono Negro de Haqim e lhes contava histórias sobre o Velho Mundo.

Numa destas noites, em que todos estavam reunidos, os cainitas retornaram. Ya'rub soube já que, surpreendentemente, quando sentado no Trono conseguia ver ao redor de Alamut, em um raio de muitos quilômetros.

Estavam inteiros e em boa saúde, à exceção de Assuero, que exibia algumas cicatrizes de queimaduras não totalmente curadas. Dirigiram-se ao Trono e ali, diante de Ya'rub e dos mortais que os observavam com reverência e curiosidade, relataram sua caminhada. Assuero começou.

- Saúdo o Ancião da Montanha, Filho de Haqim e Primeiro entre os Sábios. Nossa caminhada nos levou ao sul desta região, que os homens chamam de Canaan. Ali caminhamos entre uma grande tribo de mortais, que conta com mil duzentos e sessenta e seis indivíduos. Nos receberam em paz e nos ensinaram sobre suas crenças. Cultuam os deuses do Deserto, mas também deuses que a nós são desconhecidos, a quem chamam coletivamente de Elohim. São de natureza guerreira e belicosa, mas são justos e amorosos com os seus. Compartilharam de seu pão e, ao ver que nada podíamos comer, nos cederam o Sangue do abate de seus cordeiros.

Mahi continuou.

- Mas não são amados pelos demônios que vagam pelo deserto. Aqueles que permanecem do Outro Lado não atingem o vilarejo, pois grande é a Fé de seus habitantes. No entanto, inimigos que fogem da batalha de Mashkan, servos dos Inomináveis, ocasionalmente alcançam aquela região. São, sobretudo, cultistas de natureza mortal, mas munidos de poderes concedidos pelo Inimigo. Roubam, estupram e aterrorizam. A tribo se une para combatê-los, mas tal Inimigo, ocasionalmente, convoca servos infernais para cumprir as tarefas de batalha. O povo do Sul não tem medo, pois seus ancestrais caçavam os Demônios de outros tempos, mas receia que suas forças, com o tempo, sejam devastadas. Nos saúdam e saúdam o Ninho da Águia como um aliado.

Kurush-Ishraqi terminou.

- São observantes das leis e reverentes aos poderes do mundo. Portanto, meu Senhor, posso dizer que pouco pecado existe entre eles que justificasse uma intervenção violenta. Honram seus Deuses e seus Anciões, dando-lhe um local de destaque entre os seus. Alimentam e protegem as crianças. Alguns cometem excessos com a bebida ou as ervas, mas nada de natureza grave. Faz parte da sua cosmogonia: a ebriedade aproxima os homens dos espíritos altíssimos. Punem quem rouba e quem viola entre os seus com uma marca de bronze ardente e por uma determinada quantidade da anos aquela pessoa perde seus direitos entre seus pares.

Fez-se silêncio. Mahi finalizou o relatório.

- Seu Ancião, um homem de forte caráter chamado de Al-Abiel demonstrou interesse em aproximar-se do Ninho. Quando explicamos quem éramos e o que oferecíamos, porém, ele demandou tratar com o nosso Ancião, pois sabia, de alguma forma, que éramos jovens. Al-Abiel gostaria de ter a honra de estar em vossa presença, Ancião da Montanha.
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

em Seg Ago 13, 2018 1:10 pm
Os dias se passaram e Ya'rub se enchia de empolgação ao ver que Alamut crescia e prosperava. Os mortais que chegavam eram devidamente abrigados e instruídos nas regras que passaram a reger a fortaleza. Ali, reproduzia-se muito do que viveram nos Túneis de Haqim, sob a tutela de seu Pai. Nenhum Filho de Haqim deveria ser adorado ou reverenciado como um deus. Havia sim uma hierarquia, mas todos tinham seu lugar nela, com plena consciência de sua importância. Guerreiros, poetas, trabalhadores e eruditos. Alamut só funcionaria se todos exercessem seu papel.

Entre vampiros e mortais havia respeito. Qualquer violação dos éditos ali criados seria devidamente punida, fosse o culpado vivo ou morto-vivo.

Aos olhos de Ya'rub, Alamut era um microcosmos que reproduzia o funcionamento correto do universo. O Feiticeiro se esforçava cara construir o Ninho da Águia como um projeto a refletir sua visão de mundo.

Os artefatos que eram trazidos pelos mortais eram devidamente armazenados na Grande Biblioteca. Ali eles seriam estudados e serviriam de foco para que a história dos Filhos de Haqim jamais fosse esquecida. Os mais novos aprenderiam com os vestígios deixados pelos mais velhos.

E, percorrendo, alimentando e dando liga à tudo isso, estava o Sangue. A Força Primordial que dava vida ao Alamut e o conectava ao mundo.

Em uma noite, Ya'rub desceu ao Coração, acompanhado de Abam e Manu. Solenemente e em silêncio, ele depositou no poço o Sangue de seu falecido irmão, que lhe fora trazido em uma jarra de barro. Quando o vitae terminou de cair, o Feiticeiro proferiu uma prece, pedindo a Mancheaka que desse sua força e dedicação aos seus irmãos e descendentes. O Sangue dos Filhos de Haqim sempre retornaria ao Alamut.

Quando Assuero, Kurush e Mahi retornaram, após quarenta noites, Ya'rub os recebeu sentado no Trono Negro. Ouviu-os com atenção e deleite. Tinham cumprido sua missão com diligência, agilidade e perfeição. Enquanto os escutava, sorria efusivamente, ainda que em silêncio. Deixava claro aos mais jovens que estava contente com seu desempenho. Ya'rub só se pronunciou quando Mahi terminou de falar.

- Muito me agrada ouvi-los. Vocês cumpriram com seus deveres tal como eu esperava. Provaram que são, de fato, filhos de seus pais e dignos de carregarem o Sangue de Haqim.

Assumiu um ar mais sério, abandonando o sorriso.

- A única coisa que me entristece em seus relatos é a confirmação de algo que não me surpreende, no final das contas. A corrupção de Mashkan Shapir escorre pela ferida aberta que é aquela cidade. Milênios se passarão até que possamos dizer que o mal ali liberado foi extirpado destas terras... Se é que algum dia poderemos fazer tal afirmação.

Ya'rub ficou alguns segundos em silêncio, relembrando os momentos que passou enquanto esteve na cidade de Nergal. Aguardava, do fundo de sua alma, a vitória daqueles que haviam ficado em Nippur. Mais do que isso, aguardava o derradeiro fim de Nippur, na esperança de que seus irmãos e seu Pai retornassem ao lar que nunca conheceram. Enfim, continuou seu discurso.

- Suas palavras me convenceram do valor da tribo que encontraram em Canaan, minhas crianças. Será minha a honra de encontrar este que chamam de Al-Abiel. Em respeito ao lugar que ele ocupa diante de seu povo, eu irei pessoalmente encontrá-lo e ouvirei o que tem a dizer.

Olhou primeiro para Abam e em seguida para Manu.

- Meus filhos me acompanharão nessa breve jornada.

Sorriu e olhou então para Kurush-Ishraqi. Chamou-o para mais perto com o dedo indicador.

- Na minha ausência, o mais velho, Kurush-Ishraqi, filho de Mancheaka, Filho de Haqim, será responsável por Alamut.

Ya'rub se levanta do trono. Iria se aprontar para partir imediatamente.
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

Ontem à(s) 4:52 am
- Assumo a tarefa, Ancião, com honra e dedicão.

Ishraqi esperou que Ya'rub se levantasse do Trono antes de se aproximar dele. Sentou-se com reverência, embora parecesse visivelmente nervoso em razão da pouca idade e da grande responsabilidade. Mahi e Assuero o circundaram, como se quisessem dar a entender que estariam ali para apoiá-lo. Havia uma bela cumplicidade e apoio entre os três mas, especialmente, entre Mahi e Ishraqi, entre os quais parecia que existia algo a mais.

Abam e Manu realizaram os preparativos, guiados por Ya'rub. Alguns mortais, homens fortes e guerreiros comandados por um indivíduo corpulento e cheio de cicatrizes chamado Daresh, se ofereceram para servir de alimento durante a longa viagem, assim como para proteger os cainitas durante o sono diurno. Partiram de Alamut em número de nove, munidos de cavalos e armas.

Cavalgaram com velocidade, segundo as instruções geográficas de Kurush-Ishraqi. Foram necessários vinte dias para alcançar o vilarejo, menos do que o tempo usado pelos outros cainitas, que haviam caminhado por regiões mais ao Norte antes de rumar sentido Sul. Abam e Manu acompanhavam o movimento dos pássaros e das estrelas, informando Ya'rub sobre mudanças no tempo e no destino. Em uma das noites, Manu falou e Abam traduziu.

- Batalha.

- As estrelas, segundo minha irmã, falam sobre um encontro tranquilo entre nós e Al-Abiel, mas falam também de uma batalha que deverá ser enfrentada por nós.

Naquela mesma noite, Ya'rub sonhou com Mancheaka. Estava vestido em branco e dourado, acompanhado de uma luz difusa que não permitia a visão completa de seu rosto.

- Você deve selar o Mal, irmão. Você deve selar o Mal.

Ocasionalmente, Ya'rub também via o Homem Morto, parado em certos pontos da viagem, a encará-lo com austeridade mas, também, com confiança.

Alcançaram o vilarejo antes que a lua atingisse o zênite, no vigesimo dia. O local se estendia por uma planície pedregosa, onde nada nascia. De fato, Ya'rub notou que aquele era um povo de pastores: inúmeros animais descansavam em seus cercados. As residências eram não mais que barracas de pele com estruturas de madeira, mas que pareciam maiores do que as normalmente encontradas entre os povos nômades, assim como melhor organizadas em torno de uma praça central, onde ardia uma grande fogueira. Ao redor dela, homens, mulheres e crianças bebiam e se alimentavam do que pareciam ser grandes cordeiros. Havia música e alegria, mas havia, também, uma certa tensão no ar. O céu estava limpo e repletos de estrelas, e a constelação do Grande Caçador estava visível no céu. O acampamento se estendia por toda a planície. Era numeroso, aquele povo, além de semi-nomade. Ya'rub calculou que eles deveriam estar ali já há algum tempo, dadas as estruturas bem desenvolvidas.

O vento frio do deserto soprou à medida em que um cavaleiro solitario deixava o acampamento, rumando em direção aos cainitas e aos mortais que os acompanhavam. Aproximou-se com velocidade, mas com cautela. Quando finalmente alcançou o destino, desceu do cavalo e caminhou, lentamente, em direção aos cainitas. Nada disse. Observou a todos atentamente até fixar o olhar em Ya'rub. Caminhou até o Ancião e, retirando da cintura um cantil de couro, derramou vinho aos seus pés, ao mesmo tempo em que fazia uma prece direcionada ao céu escuro. Era um homem de uma certa idade, aparentava cerca de sessenta ciclos. No entanto, seu corpo era ainda forte e musculoso, mesmo que fosse baixo de estatura. Os cabelos brancos estavam trançados e os olhos eram ternamente azuis. A face era um mapa de todas as suas experiências de vida.

Ainda assim, nada disse. Com a mão fez sinal para que os viajantes o acompanhassem. Aos mortais, indicou o centro do vilarejo, onde foram recebidos pelo povo, que lhe ofereceu comida, bebida e descanso. Aos cainitas, indicou uma cabana de couro marrom, distante do centro. Quando entraram, o perfume de incenso de flores atingiu os sentidos, inebriando-os. Era um local simples, mas confortável. O chão era forrado com peles de ovelha e a luz vinha de pequenas velas de cera de abelha. Havia uma mesa com frutas e carne seca, além de cerveja. Era acolhente e confortável. Ya'rub notou uma grande pele de vaca suspensa na "parede", na qual inúmeros nomes estavam escritos. O homem os convidou a sentar. Falou algo, mas Ya'rub não compreendeu as palavras. Abam, cujos olhos brilhavam estranhamente, foi quem traduziu.

- Bem vindos à minha casa, senhores do Deserto. Eu me chamo Al-Abiel, e ofereço a minha hospitalidade. Espero que esta noite auspiciosa veja o nascer da aliança entre a minha tribo e a vossa.
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

Ontem à(s) 8:22 am
Por vinte dias, Ya’rub cavalgou com sua caravana, rumo à Canaan. Seguiam o caminho indicado por Kurush-Ishraqi, sempre pedindo ajuda às estrelas, para manterem-se na direção correta. Quando começaram a viagem, já fazia algum tempo sem que Ya’rub não montava em um cavalo para percorrer longas distâncias no deserto. E como era bom sentir o vento noturno em seu rosto, os grãos de areia se chocando em sua pele e ouvir apenas os som dos cascos abafados nas dunas ou ecoando na terra dura. O deserto era belo. Ali, os espíritos se sentiam ainda mais a vontade para fazerem-se presentes, pois o Véu era mais fraco. O deserto, pensava Ya’rub, assim como Alamut, era um retrato vivo de como o resto do universo deveria ser.

Obviamente, a razão de se afastar pouco do Alamut era o cuidado com o lar. Pessoalmente, sentia uma pontada de preocupação em deixar o Ninho da Águia aos cuidados de alguém tão novo. Ainda assim, deveria fazê-lo como uma espécie de teste a ser realizado por Kurush, mas também um teste para si mesmo. Era preciso confiar uns nos outros, e Ya’rub sabia que, cedo ou tarde, poderia chegar o momento onde não haverá um membro de sua geração presente para orientar os caminhos do Ninho. Que Kurush-Ishraqi honrasse os Filhos de Haqim nesse breve período de liderança. E que o amor de seus primos o ajudasse...

Ya’rub sorri, imerso em seus pensamentos. Especialmente o amor de Mahi.

Na dia em que ouviu o recado de Manu e sonhou com seu falecido irmão, Ya’rub acordou sorrindo. Sabia que os muitos meses que passara em paz, ocupado com a construção do Alamut, teriam seu fim em breve. Finalmente, sentia-o mais uma vez. Percorrendo sua espinha e alojado na base de sua nuca, lá estava ele. O Medo.

Quando o percebeu no início daquela noite, o cumprimentou em voz alta, sem dar nenhuma explicação para aqueles que o ouviam.

- Olá, velho amigo. É bom tê-lo de novo.

Com os olhos, buscou o Homem-Morto. Fez-lhe uma respeitosa reverência, sinalizando que em breve precisaria de sua ajuda. Buscou Manu e Abam, informando-os com poucas palavras.

- Meu irmão Mancheaka me visitou em meu último sono. Ele disse que eu deverei selar o Mal. Ainda não sei o que isso significa, mas peço que estejam atentos.

Ao final da jornada pelo deserto, chegaram no povoado em Canaan. Atento aos detalhes, Ya’rub percebeu que aquela tribo havia acabado de passar por uma transição. Em um passado recente, foram como os Banu Qahtani: nômades. Mas seu número e as características de suas casas mostravam indícios de sedentarismo. Muito em breve, cidades se ergueriam ali.

No momento em que viu o homem que pensava ser Al-Abiel, Ya’rub assumiu uma postura respeitosa, mantendo-se em silêncio o tempo inteiro. Observava cada movimento, cada olhar. Estavam sendo recebidos como hóspedes e era sua obrigação tratar o líder daquele povo com o mais absoluto respeito. Com seus dons, Ya’rub perscruta a alma do homem, como fazia de praxe sempre que se deparava com um novo interlocutor.

Foi somente quando foram levados à tenda principal onde se sentaram, e após ouvirem a apresentação inicial de Al-Abiel, que Ya’rub se pronunciou. Esperava que Abam traduzisse as palavras, mas enquanto falava, olhava o velho mortal nos olhos.

- Inicialmente, Venerável Al-Abiel, peço minhas humildes desculpas por não falar a língua de seu povo. Se venho às suas terras e não falo em seu idioma, entendo isso como uma pequena falta de respeito à sua hospitalidade. Prometo que, nas próximas noites, me empenharei em aprendê-lo. Por ora, meu filho Abam, que tem o dom das línguas, irá me ajudar.

Ya’rub sorri humildemente, enquanto aguarda a tradução de Abam. Continua em seguida.

- Meu nome é Ya’rub Bani Qahtani, e hoje represento os Banu Haqim. Minha Família é nova nesta região, mas aqui temos interesse em nos estabelecer em paz. Para isso, precisaremos do apoio das grandes tribos que também chamam este lugar de lar. Venho propor uma aliança entre os Banu Haqim e esta tribo de Canaan. Nos ajudem, e todas as gerações futuras em Canaan estarão protegidas por toda a eternidade.

Em silêncio, Ya’rub escuta as palavras traduzidas por Abam. Ele faz um sinal de que iria continuar, antes de passar a palavra para Al-Abiel.

- Evidentemente, sei que alianças são feitas mediante a troca de favores. Sei também que sua tribo vem enfrentando dificuldades. Por isso, me coloco à disposição para ajudá-los da melhor forma que estiver ao meu alcance.
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

Ontem à(s) 9:29 am
*O diálogo é já traduzido por Abam*

O velho sorriu. Sua aura exibia tons alternados, mas prevaleciam aqueles que denotavam uma profunda felicidade. Havia, também, o Medo. Não o mesmo de Ya'rub, mas o Medo mortal, aquele contra o qual pouco pode-se fazer. O homem tinha medo pelo seu povo. Havia visto coisas. Havia enfrentado coisas que marcaram sua pele, mente e aura. Não obstante, tinha um sorriso cordial e verdadeiro.

- Eu o saúdo, Ya'rub dos Banu Haqim. É uma honta ter a ti e aos teus em minha humilde morada.

Serviu-se de chá quente. Curiosamente, não ofereceu aos visitantes. Olhou para Ya'rub como se conhecesse sua natureza e aquilo fosse justificativa para não fazê-lo.

- Não é nenhuma vergonha não saber a nossa lingua. Eu não conheço a tua. Nenhum homem pode conhecer tudo. Nenhum homem vivo, ao menos.

Sorriu.

- Nõ há animosidade entre as nossas tribos, e isto é bom. De fato, nós sentimos vocês, sentimos a vossa chegada. A terra tremeu e a terra verteu Sangue em nossas paragens. Nossos Ancestrais falavam da montanha que não existia, e de como o povo que ali viesse a habitar seria aliado do nosso povo. Por isso, Ya'rub, lhe dou as minhas boas vindas e as boas vindas dos meus ancestrais.

Um vento frio entrou na cabana. Algumas velas se apagaram.

- Sim, temos problemas. Nossas terras vem sendo assoladas por homens e mulheres solitários ou em grupos, de má indole. Roubam as crianças e matam os homens. São fortes e resistentes. Nossas armas não lhes causam dano. As bestas respondem ao chamado deles, e seus dentes dilaçeram a carne de nossos guerreiros. Comandam as chamas do submundo, que usam para queimar nossas parcas plantações. Exigem tributos, como reis estrangeiros. Exigem culto e adoração. Meu povo está em perigo, Ya'rub.

Levantou-se. Colocou-se diante da pele de vaca com inúmeras inscrições.

- Nós rastreamos alguns destes indivíduos. Usam cavernas ao Sul como refúgio, marchando em direção à nossa aldeia especialmente em noites de lua nova. Não temos, porém, a força necessária para atacá-los.

Olhou para Manu e Abam. Parecia a Ya'rub que o homem, à sua própria maneira, tentava ler os visitantes.

- Vocês também tem problemas. Veja, a montanha que não existe, se eu e meus ancestrais estivermos corretos, deve ter surgido em uma região de grande poder, há muito disputada por espíritos de poder monstruoso. Houve uma guerra, Ya'rub, milênios atrás. Assim contam os Ancestrais, então é verdade.

Sentou-se no chão. Parecia ter vencido uma certa desconfiança, pois o fez mais próximo de seus interlocutores.

- Conta-se que há era atrás dois espíritos lutaram pelo domínio da região ao Norte de nossa aldeia. Um deles foi derrotado, aquele a quem meus ancestrais chamavam de "O Homem Morto". O outro, batizado pelo meu povo como A Grande Fera, venceu, mas a energia exigida em batalha o colocou em um estado de sono inquieto. Temo que se o teu povo se estabelecer na montanha que não existe, vossa presença poderá levar ao despertar desta Fera que, ciumenta e possessiva, tentará destruir os teus.

Havia uma estranha energia no ar. Alguém de grande poder se aproximava.

- A nós, povo do Sul, foi confiado o local onde dorme a Grande Fera. A nós foi dado o dever de destruí-la, quando o momento correto chegasse, pois sua existência, ainda que adormecida, faz adoecer nossos rebanhos e mata nossas colheitas. O momento chegou, pois meu filho, aquele que destruirá a Besta com suas mãos, completou seu quadragesimo ciclo. Você já entendeu a minha proposta, Ya'rub dos Banu Haqim. Nossos povos só tem a ganhar com uma colaboração.

E então, um outro mortal entrou na tenda. Cumprimentou o velho com um beijo na testa antes de se voltar para Ya'rub.

Era majestoso. Não fisicamente, pois sua estatura era mediana. Era magro e pouco impressionante de corpo. No entanto, sua alma resplandecia com um brilho intenso, quase cegante. Estar em sua presença era como estar na presença de um espírito majestoso e antigo, cheio de conhecimento e autoridade. Mesmo Manu e Abam, espíritos velhos e experientes, pareciam encantados com o recém chegado. Tinha cabelos escuros compridos até a altura dos ombros. O rosto era fino e pontudo, com um queixo pronunciado. Os braços eram cobertos de tatuagens tribais, com símbolos e palavras escarificadas. Era imberbe, apesar da idade e sua pele era pálida como a lua em comparação ao restante da tribo. Os olhos eram escuros e profundos, como um céu sem estrelas. Ele estendeu a mão para Ya'rub, Al-Abiel o apresentou e Abam traduziu, sem tirar os olhos do homem.

- Este é meu filho Al-Ashrad.
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

Ontem à(s) 8:00 pm
Era com deleite e uma legítima curiosidade que Ya'rub escutava a história contada por Al-Abiel e traduzida por Abam. Assumia uma expressão calma, com um sorriso sincero. Tinha o olhar fixo no ancião, mas vez ou outra observava Abam e, principalmente, Manu. Tentava perceber neles pequenas reações aos detalhes que eram fornecidos por aquela história.

Mesmo diante da grave revelação sobre a disputa que se deu onde hoje está o Alamut, Ya'rub manteve-se sorrindo. Sem dúvida, tratava-se de uma problema. Mas que problema fantástico! Em seu âmago, abraçou o Medo que começou a rastejar em seus braços quando soube que a Grande Fera repousava naquela região. Estaria ali a raíz da batalha sobre a qual Manu lhe alertou? Seria aquele o Mal a ser selado, alertado por Mancheaka? Os pontos começavam a se ligar e uma sombria tempestade se avolumava no horizonte...

Enquanto Al-Abiel falava, Ya'rub acendeu seu cachimbo. Absorvia o kalif conforme se perdia na harmonia que se dava entre as vozes de Al-Abiel e Abam. Imagens se formavam em sua mente, na medida em que a fumaça se espalhava pela tenda. Em meio à densa névoa, vislumbrou o Homem-Morto. Olhou-o nos olhos e sorriu, enviando-lhe um pensamento que esperava atravessar o Véu:

- Precisaremos conversar muito em breve. Tens muito a me ensinar.

Foi quando a conversa estava em seu metade que Ya'rub percebeu uma estranha movimentação entre os espíritos. Eles iam e vinham, como se estivessem ansiosos com algo. Ou com alguém. Aos poucos, sentiu uma vibração. Era como se uma pedra magnética em sua testa apontasse para algo que vinha em sua direção. Seus sentidos começaram a se confundir, e Ya'rub ouviu um cheiro dourado tomar sua pele. Faíscas com o aroma da rosa do deserto faziam-se ouvir no ar da tenda.

Até que ele entrou. Al-Ashrad.

Ya'rub pensou ouvir um poderoso trovão e, por um milésimo de segundo, sua visão foi cegada, como se um relâmpago caísse na sua frente. Não sabia se todos ali viam o que ele via. Mas era magnífico. Al-Ashrad era um iluminado caminhando em terra. Ao seu redor, os espíritos pareciam um cardume, nadando em uma harmoniosa coreografia. Aqueles que eram espíritos de luz, tal como foi o Djinn, o admiravam. Os da escuridão, da mesma natureza do Ghul, o temiam. Mas todos o respeitavam.

Olhou-o nos olhos e imediatamente soube que Al-Ashrad se tornaria imenso, quaisquer fossem os caminhos que decidisse tomar. Com apenas quarenta ciclos, aquele ser já tinha um domínio invejável sobre as teias que conectam o universo.

Ainda inebriado pela presença de Al-Ashrad, Ya'rub se levanta. Não conseguia tirar os olhos do místico, mas conseguiu falar, para que Abam traduzisse para quem pudesse ouvir. Sua voz era baixa, falada em um ritmo lento, como se houvesse um grande esforço para buscar e ordenar as palavras

- Está decidido. Os Banu Haqim irão se aliar à tribo encarregada de destruir a Grande Fera. Iremos enfrentar seus inimigos e prosperaremos lado a lado.

Com os dons da mente, Ya'rub envia palavras à Al-Ashrad, sabendo, mesmo sem evidência alguma, que ele as compreenderia.

- Al-Ashrad Ibn Al-Abiel. O Formidável Filho de Abiel. Lutaremos lado a lado. Cabe a você escolher se queres fazer isso vivo, morto ou movido pelo Sangue.
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Re: Alamut: O Ninho da Águia.

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