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Re: Interlúdio - Enki

em Qua Set 19, 2018 5:15 am
A reação empolgada de Enki fez com que Kosczecsyku se levantasse quase que imediatamente. Onde antes havia uma expressão sisuda e pouco amistosa, surgiu um sorriso acompanhado de olhos arregalados. O mortal se aproximou rapidamente de Enki, a passos largos, visivelmente interessado na proatividade e pela possibilidade de discutir com uma criatura de tamanho poder e idade. Aparentemente, havia se acostumado com a indiferença e frieza de Yorak e, diante de uma abertura, toda a sua curiosidade havia alcançado a superfície.

- É interessante, não é? Sempre achei. Não, não estão irritados ou incomodados pela minha resistência. É somente que alguns deles me acompanham, fornecendo-me informações úteis. Quem é Zena? É um belo nome, esse. Muito do Sul, aliás. Enfim, meus ancestrais ficam inquietos quando na presença de um dos cainitas que estavam presentes naquela noite. Foi o mesmo quando, em viagem com Yorak, conheci Byelobog. Na verdade, alguns deles até louvam seus nomes. Outros permanecem quietos, observando. Mas nenhum deles deseja vingança contra o que foi feito. É o ciclo, não é? Coisas devem morrer para que coisas renasçam. É assim que surge a energia do mundo.

Kosczecsyku estava, agora, muito próximo de Enki. Encarava o cainita nos olhos, sem medo ou receios. Enki sentia uma curiosidade infinita emanando daquele homem. Se lhe fosse dado tempo, descobriria todos os segredos do Universo com aqueles olhos grandes e analíticos. Kosczecsyku era muito menor e infinitamente mais frágil que Enki. O cainita tinha medo de quebrá-lo se o tocasse com demasiada força. O homem, agora, sorria intensamente. Estava contentíssimo.

- Yorak me falou sobre o Senhor. Disse-me como as águas do mundo respondem ao seu comando. Sempre as achei fascinantes, as águas do mundo. Tenho uma teoria, mas não sei se é de seu interesse escutá-la. Enfim, tens todo o tempo do mundo, não é? Eu encontrei, uma vez, espíritos estrangeiros que viviam num rio aqui próximo, um grande rio, o maior da região. Isso me faz pensar o quanto as águas do mundo estão interligadas. Exatamente como o fogo, aliás. Já vi montanhas que cospem fogo em diversas partes do mundo. Talvez mesmo elas sejam frutos da mesma força. Do vento e da terra nem se fala, são unos. Mas preciso trabalhar melhor sobre essa teoria. Preciso fazer mais observações.

Yorak retornava, caminhando lentamente. Kosczecsyku retornou ao seu lugar, sentado no chão, mas antes se dirigiu a Enki. Voltou a baixar a cabeça, com um olhar resignado.

- Me desculpe por ter lhe dirigido a palavra, meu Senhor. São apenas divagações de um velho...

Yorak havia surgido na porta da gruta. Ignorava Kosczecsyku, olhando diretamente para Enki. As profundas bolsas de gordura abaixo dos olhos eram inquietantes.

- Sigamos, irmão meu?
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Re: Interlúdio - Enki

em Sex Set 21, 2018 12:24 pm
*Era divertido, o velho homem. Enki tinha a sensação que mesmo se tivesse a sua idade, ele jamais cessaria suas buscas. .Era um tipo de fogo que não se apagava. Talvez se desse bem entre a família de Laodice. Ou não...*

*Ele observa o monólogo apenas com um meio sorriso no rosto, mas em silêncio. Quando Yorak volta, Enki sorri e acena com a cabeça.*


-Mas é claro. Siga em frente, irmão.

*E, ao cruzar com Kosczecsyku, lhe encara nos olhos e finalmente lhe dirige a palavra.*

-Uma benção para você, homem curioso: quatro perguntas, quando eu voltar. Pense nelas com cuidado, pois elas moldarão seu futuro.
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Re: Interlúdio - Enki

em Sab Set 22, 2018 5:12 am
Kosczecsyku aquiesceu às palavras de Enki, demonstrando algum contentamento contido diante de Yorak. O arquiteto, então, abriu o caminho, penetrando na escuridão da montanha seguido por Enki. A entrada se desenvolvia em uma passagem estreita e baixa, forçando Enki a baixar a cabeça enquanto passava. Havia um forte odor asséptico, como se todo o lugar tivesse sido limpado continuamente até resultar na ausência de qualquer odor distinguível. Nem mesmo as pedras ou a terra tinham perfume ali. Caminharam, no escuro completo, por longos minutos. Estavam em silêncio, somente os sons dos próprios passos os acompanhavam.

E então, começou.

Tum, tum.

Era uma sensação familiar. A terra pulsava, como se fosse vida, seguida das paredes do túnel que pareciam se contrair e expandir, como num movimento mecânico de respiração. Ao fim do túnel, um leve brilho avermelhado podia ser visto. A passagem se alargava rapidamente, até o momento em que desaguou num impossivelmente imenso vão em meio à montanha. Àquele ponto, meia hora os separavam do mundo exterior. O vão permaneceu ligeiramente obscurecido por um tempo, mas Enki sabia que havia algo ali. Então, como numa revelação esotérica, as paredes começaram a emanar mais da iluminação avermelhada, revelando o que estava contido naquela caverna.

Era uma construção enorme, na forma de um zigurate clássico.

Tinha as proporções aproximadas do Zigurate menor de Mashkan-Shappir, aquele onde havia sido guardada a tabuleta roubada de Rashadii. Era perfeitamente simétrico, com uma grande base quadrada servindo de apoio para andares menores, que repousavam uns sobre os outros. Era, porém, ligeiramente diferente dos zigurates da planície no sentido em que parecia um monumento em forma de escada. No alto, somente uma pequena câmara repousava, e era ela quem permitia o acesso à construção.

Que era inteiramente feita de carne, tendões, músculos, ossos e dentes.

Enki não sabia como aquilo era possível. Ou Yorak havia acumulado uma quantidade absurda de carne ou havia estendido, moldado aquela à sua disposição de forma impossível. As paredes principais eram feitas de músculos enegrecidos, com a visível sustentação de inúmeras espinhas dorsais, humanas e de animais, nos ângulos do zigurate e na base do mesmo. Haviam faces, olhos e bocas retorcidos que ocasionalmente se moviam, expressando juízos desconhecidos em línguas já mortas. Seus olhos estranhos buscavam os de Enki. Alguns riam, em evidente zombaria. Outros observavam o cainita com respeito. À medida em que o zigurate avançava rumo ao teto da caverna, surgiam os tendões. Impossivelmente esticados, cobriam vastas áreas da construção, como remédio aos locais onde faltaram músculos, o que dava ao zigurate, nas partes mais altas, uma cor ligeiramente mais avermelhada que na base. Interagindo com o brilho avermelhado das paredes, faziam com que a atenção se concentrasse na parte mais alta. Ao todo, eram seis andares, quatro deles formados de tendões, emitindo um brilho mais intenso e doentio.

Enki ouvia vozes e sussurros, uma infinidade deles. Não conseguia discernir as palavras, mas tinha a impressão clara de que se tratava, apesar dos inúmeros discursos, de uma consciência única. Os sussurros ecoavam na caverna como animais que se moviam na escuridão, ou como insetos que se movimentavam coletivamente. Os dois últimos andares do zigurate eram onde se localizavam a maior parte dos ossos: crânios e vértebras, ossos da perna e dos braços, unidos nos ângulos dos zigurates, fundidos na forma de grandes pilares que buscavam alcançar o teto da caverna. Vez ou outra Enki escutava uma voz mais alta, mais grossa, como uma consciência que buscava dominar as outras. Por vezes era masculina, por vezes feminina. Estava tão absorto que ouviu a voz de Yorak e os passos de Kosczecsyku entrando na caverna somente muito depois.

- Ela ainda não está pronta, irmão. Ela jamais estará pronta.

Yorak falava com um certo tom, entre o desapontamento e o orgulho. Faces se moviam pelo zigurate, escorregando entre os andares e atraindo a atenção das outras para a presença de Enki. Era enervante o fato de o local não ter absolutamente nenhum odor, toda aquela massa de carne suspensa no seu processo de apodrecimento. Além disso, não havia sinais de sangue. Era um local de reverência e pureza. Yorak avançou na direção do zigurate. Enki não pode deixar de notar que, apesar de ser um trabalho grandioso, o zigurate apresentava irregularidades na sua estrutura. Não eram, contudo, fruto de um erro ou do desleixo de Yorak. Existiam em razão da mudança. O zigurate se transformava, assumindo, lentamente, uma nova forma, construindo a si mesmo com o material que era entregue por Yorak. O cainita havia sido apenas o idealizador do projeto. O zigurate construía a si mesmo.

Havia uma clara hierarquia entre os seres fundidos ali. O material de origem animal formava as partes mais baixas do monumento e, à medida em que se elevava em altura, era substituído por material humano. Os rostos mortais transitavam nos andares mais altos, e no único acesso poucos rostos eram visíveis, todos eles sérios e contemplativos. Aquela parte da construção era feita de pele, esticada para formar muros e repletas de tatuagens arcanas na sua extensão. A única entrada tinha infinitos dentes fundidos em si mesmos, e repousava no alto, como uma boca obscena que ameaçava engolir o mundo. O zigurate emanava uma aura de demência e de crueldade, mas emanava também uma profunda sabedoria sobre as coisas deste mundo. Os risos ocorriam com menos e menos frequência enquanto Yorak a observava em reverência. Kosczecsyku havia entrado, restando parado ao lado de Enki, Observava o Zigurate sem emoção particular. Um dos rostos no topo observava intensamente a Enki, com uma expressão particularmente curiosa.

- Se fosse exigido de ti abandonar a tua vida para cuidar desta obra, o farias? Onde achas que a sua Metamorfose a conduzirá? Onde a tua Metamorfose te conduzirá? Onde a minha Metamorfose me conduzirá?

Era a voz de Kosczecsyku. Havia feito as quatro perguntas. Estava o lado de Enki, rosto erguido em direção ao zigurate.

- É bela, não é irmão meu? É um presente. Um monumento à grandeza do Mais Velho e aos seus dons, transmitidos aos seus filhos graças a sua imensa generosidade.

Girou-se. Observou Kosczecsyku. Enki entendeu imediatamente.

- E neste momento, te faço ver o que acontece quando ela constrói a si mesma.

Yorak nada disse. Apenas fez um aceno com a mão direita, convocando o mortal, e este começou a caminhar, aproximando-se do zigurate. Os dentes no último andar pareceram agitar-se lentamente, como se convidassem o homem a entrar. As faces esculpidas riam de excitação e alegria, e as vozes se tornaram uníssonas em um canto estranho e religioso que adentrava pelos ouvidos de Enki e se alojava em seu cérebro. Um canto que ele jamais esqueceria enquanto existisse.
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Re: Interlúdio - Enki

em Dom Set 23, 2018 1:10 am
*Magnífica. Magnífica. Deveras, o legado do Mais velho viveria para sempre na Catedral. Enki, Yorak e todos de sua geração poderiam perecer, mas a Catedral permaneceria. E a cada noite seria diferente. Ela não seria controlada, ou domada. E quem não entendesse isso aprenderia a um duro preço...*

*Enki caminha maravilhado pelos corredores da Catedral. Acaricia suas paredes, sorri junto com seus rostos, confabula com os mais sérios, chora, de tristeza e alegria. Canta.*

*E se vira, espantado, ao perceber que Kosczecsyku os seguira. Ele havia dito ao velho que voltaria, e ainda assim ele o desobedeceu. Isso era bom? Ruim? Enki não sabia. Sabia apenas que sua curiosidade o atraía para aquele homem. Que seu potencial era muito maior do que rastejar pela poeria de Yorak até servir de argamassa para a bela Catedral. Enki não o repreende, porém. Apenas começa a circulá-lo, ambas as mãos nas costas, o rosto sempre voltado para seu interlocutor, por vezes ficando em uma posição antinatural.*


-Não. Meu propósito é outro.

-Eu não sei.

-Eu não sei.

-Eu não sei. E caberá a ti descobrir.

*Ele para, seu pescoço novamente na posição normal. E se volta para Yorak.*

-É sublime, irmão. Talvez nem mesmo o Mais Velho fizesse igual.

*Quando Kosczecsyku se move, Enki ergue o braço e o coloca na frente do mortal. Estava entre ele e Yorak.*

-Mas terei de pedir seu perdão. Ele me foi dado como presente, e eu cuido melhor de meus presentes do que você de seus.
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Re: Interlúdio - Enki

em Sab Set 29, 2018 6:39 am
A princípio, Yorak nada responde. Parece ponderar, pensar sobre as últimas palavras de Enki. Por fim, dá de ombros.

- Ele é teu para que faças dele o que desejar, irmão. Somos, nós dois, fundamentalmente diferentes. A curiosidade, o desejo de mudança de Kosczecsyku me irrita profundamente, me desestabiliza, tira o meu foco para as tarefas importantes. Até hoje não havia entendido a razão de mantê-lo vivo. Entendo, agora. O mantive em vida para ti. Ele é teu, irmão, para que faças dele o que desejar.

Yorak voltou-se, então, para as paredes da Catedral. Observava sua obra, ignorando seu irmão e o mortal que havia parado de caminhar.

Enki sentia. Sabia. Enki intuía que a Catedral jamais absorveria Kosczecsyku. Pois ela era viva e consciente, entendia do passado e do presente, mas não do futuro. Mas desejava fazer parte dele. E desejava que Kosczecsyku fosse agraciado com o Sangue de Loz.

O mortal parecia imerso em seus próprios pensamentos, enquanto digeria as respostas de Enki. Por fim, olhou de soslaio para Yorak e para a Catedral, voltando o olhar para Enki no final.

- Descubramos juntos, então?
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Re: Interlúdio - Enki

em Dom Set 30, 2018 3:20 am
*Quando Kosczecsyku se dirige a Enki, este o responde com um sorriso quase beático.*

-Juntos? Suas descobertas não são meu trabalho, criança.

*Sua mão dispara de dentro da capa, quase rápida demais para os olhos verem.  Enki golpeia o peito de Kosczecsyku com a ponta dos dedos, um toque aparente leve, mas o mortal, dando apenas um meio suspiro cai morto no chão, seu coração dilacerado pelo próprio tórax.*

*Após observar o corpo, que começava a sangrar pela boca, por alguns momentos, Enki se volta ao seu anfitrião.*


-Não tenho dúvidas de que lhe devo um agradecimento, irmão. Eu vejo em Kosczecsyku o que seria de mim se não fossem os fardos que o Mais Velho colocou sobre minhas costas. No seu tempo certo, ele fará por merecer seu lugar na Longa Noite.

-Até lá... Irmão, haverá um dia em que todos de nosso Sangue buscarão alguém a seguir. Nosso Pai prefere andar pelo mundo e tomar o que lhe é de direito quando lhe convém, tendo pouca paciência para um séquito de filhos curiosos, então é inevitável que um líder surja desta prole. E talvez os seguidores se perguntem: por que não escolhermos aquele que lutou ao lado d'O Mais Velho na Segunda Cidade? O que carrega o Olho do próprio Kupala, o Construtor? Aos que me disserem isso, lhes responderei que nosso Pai era um oráculo, portanto seu líder deve ser um sacerdote... Um com sua própria Catedral.

-E agora eu imploro por sua licença, irmão. Tenho sangue para beber, e sangue para conceder.

*Enki se curva diante do velho mortal, e começa. A maior comunhão que o Pai Negro legara à sua prole. Kosczecsyku estava dessangrado, e agora novamente com sangue correndo sobre suas veias. E a Noite lhe dava boas vindas.*
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Re: Interlúdio - Enki

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