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Interlúdio - Enki

em Dom Jul 15, 2018 7:41 am
Era estranho que o Estrangeiro tivesse permanecido por tanto tempo em Nippur.

Acompanhou as batalhas, protegeu os exércitos e instruiu seus filhos. Havia completado uma fase essencial, havia avançado para além das amarras que o tinham constrito a si mesmo.

O Estrangeiro era uma Ideia presa em um corpo infinitamente poderoso. Diante dele, nada era constante. Seus olhos de todas as cores explanavam todos os segredos do mundo.

E então, assim como permaneceu, se foi. Não disse adeus e não explicou seu destino. Apenas deixou Nippur, confiando em Gallod para guiar sua família através da guerra. E Gallod permaneceria sozinho, pois o Dracon e Enki também deixariam Nippur. O Senhor do Abzu só não sabia quando.

Vinte e nove anos haviam se passado desde a noite da descoberta, desde quando haviam percebido que a última fronteira havia sido cruzada, que dois seres poderiam fundir-se em um só. E que descoberta havia sido! A prova final das palavras de seu Pai, que dizia que tudo era em constante mudança, que nem mesmo as forças que mantinham na imortalidade a Prole de Caim poderiam resistir à força inexorável representada pela transformação. Não eram poucos em Nippur que tinham medo da mudança. Muitos deles eram estáticos e presos aos próprios conceitos.

Naquela coite, cinco ciclos após a saída d'O Estrangeiro de Nippur, Enki sentiu o chamado.

Era seu irmão. Byelobog, o Deus Negro do Norte.

Era um calafrio, uma presença. Uma ideia contínua de que deveria encontrá-lo. O Dracon não esboçou oposição às observações de Enki, pelo contrário, afirmou que o acompanharia. Gallod não resistiu. Era o seu dever permanecer, era a Voz d'O Estrangeiro na Cidade Sagrada. O Norte parecia convocar Enki e o Dracon, uma força irresistível a comandar seus corpos. Seria uma longa viagem.

Foi às portas do Zigurate que Enki a viu uma outra vez. Estava parada, diante das escadas. Era uma noite fria de inverno e o vento soprava incessantemente, sussurrando antigos segredos. Havia envelhecido muito pouco mas, pelos cálculos de Enki, deveria estar se aproximando do crepúsculo de sua vida. Sua imagem, entretanto, parecia a de uma mulher de não mais de trinta e cinco. Seus olhos escuros fitaram os de Enki quando ela se pronunciou, com sua voz calma e melódica, que era agradável de ouvir. Vestia um robe longo e diáfano, que deixava visível suas formas de mulher. Seu olhar era pesado e difícil de ser sustentado. Enki sentiu-se, imediatamente, vinculado àquela vida.

- Sou Zena, Sacerdotisa do Senhor do Abzu. Venho para guiá-los e protegê-los até que encontrem o Senhor do Norte, sob ordens claras do Senhor da Mudança.

Era ela. A Sacerdotisa que havia salvado da morte no deserto há mais de cinquenta anos atrás.




Zena, Sacerdotisa do Senhor do Abzu.

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Re: Interlúdio - Enki

em Seg Jul 16, 2018 2:58 pm
*A guerra era uma canção própria, que acabava sendo repetitiva, após as primeiras décadas. Enki não era um comandante, não como Sarosh ou Medu, mas lutara. Não era um místico do calibre de Ya'rub ou Japheth, mas também combatia incessantemente as defesas de Mashkan-Shapir. Enki era, acima de tudo, maleável, argila úmida. Onde quer que houvesse uma necessidade, ele possuía talentos para suprí-las.*

*Quando é chegado o chamado de Byelobog, ele fica exultante. Finalmente, ele viajaria com o Dracon com rumo ao seu destino, beberia da fonte de Kupala, encontraria o Quarto que fecharia o ciclo, ele poderia... conhecer mais, como seu Senhor lhe havia recomendado. E ainda assim pensa em Gallod. Sua saída seria um golpe duro no coração do querido irmão, ainda que ele sempre soubesse que o momento chegaria. Na noite de sua partida, ele busca o irmão em meio ao Zigurate de seu Pai.*


-Irmão... Eu não preciso lhe contar porque o procuro hoje.

*Segurando o rosto do irmão entre as mãos, ele lhe beija cuidadosamente a fronte, o rosto e os lábios.*

-Mas preciso lhe dizer algo antes de ir. É da nossa natureza mudar, não só o mundo à nossa volta, como também nós mesmos. Nossos corpos, mentes, personalidades. E em meio a tudo isso, você sempre foi a constância. Ninguém, dentre toda a prole d'O Mais Velho é mais firme no que acredita, em seu propósito, em sua existência. És um rochedo em meio ao mar da mudança.

-E sabe o que isso significa? Significa que cada momento seu acordado, cada gota de seu sangue vive em desafio. Vive em desafio à ordem da natureza, ao destino, à nossa própria natureza como descendentes do Pai Sombrio. Quanto teu coração grita "vais", tu ficas; quando o Pai quer que toda sua progênie se transforme, seja perpetuamente maleável, ficas no mesmo lugar. Ao obedecer ao Pai, desafias o que ele próprio deseja em seus filhos. Talvez, dentre todos nós, seja o que mais representa a mudança, por mais incrível que pareça, pois nenhum de nós jamais será como ti. Espero que veja, amado, que na constância é, e sempre será, o mais inatingível dentre toda a prole de nosso Pai. E espero que saiba que sempre lhe achei o mais sábio dentre todos nós, e sempre será meu mais amado irmão. Eu parto, mas é de nossa natureza nos ligarmos à nossa terra. Lembre-se que Enki sempre estará no Abzu, mesmo que suas cinzas se espalhem aos ventos no futuro.

...


*Na saída do Zigurate, ele a vê. E logo volta à sua mente a última vez que viu Arikel. Como a julgara mal! Suas palavras então eram certas, mas seu pensamento não. Agora podia ver o drama da Escultora. Ao ver a sacerdotisa, a entendia pela primeira vez. Ele queria Zena. Precisava dela. Precisava do cheiro de sua carne, de sentir o gosto de seu sangue, como quando mortal precisara de um gole de água fresca para sua garganta ressecada, ou como um bálsamo para suas feridas, e acima de tudo, sabia que não poderia deixá-la entregue ao ciclo da mortalidade. Ele se lembra daquela noite fatídica no deserto, quando a salvara e escrevera sua marca com gentileza em sua pele. Ele a havia moldado, de certa forma, e agora para guiá-lo e protegê-lo, como dissera, e Enki sabia que nada mais seria o mesmo.*

*Enki se aproxima da sacerdotisa, seus olhos grandes e fixos sempre nela, sua pele tremeluzindo, suas mãos compridas se esfregando nervosamente.*


-Você é. Nos encontramos após tanto tempo, e como pude eu me manter tão distante? E você! Você viceja! Eu sou abençoado por ter tal companhia em minha jornada. E ainda assim, me vejo obrigado a perguntar. És minha sacerdotisa, em uma viagem para qual já sei o caminho. Me guiarás e protegerás quando deveria ser o inverso?

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Re: Interlúdio - Enki

em Seg Jul 16, 2018 4:44 pm
Zena abriu um grande, largo sorriso. Seus dentes eram brancos e alinhados. Os olhos eram maliciosos mas, ao mesmo tempo, inocentes.

- O Senhor do Abzu sabe todos os caminhos, mas somente os caminhos das águas. Mas eu o guio através de outras estradas que o Senhor do Abzu desconhece.

Aproximou-se. Cheirava a leite e mel, à chuva fresca que aumentava o fluxo dos rios e lagos. Ao vento de primavera, carregada de vida e flores. Tomou as mãos de Enki entre as suas e as beijou com respeito. Os pele era coberta de tatuagens de peixes.

Tomou também a mão de Dracon, e a beijou com um respeito quase igual ao concedido ao seu Deus pessoal. Foi seu irmão quem respondeu à pergunta.

- Não duvide que ela é capaz de nos proteger. Há, obviamente, grande poder dentro desta mortal. Não me admira que tenha sido enviada pelo Pai. E, desta forma, será alguém essencial para nós.

Tocou os cabelos escuros de Zena. Olhou para Enki. O Dracon parecia, diante da perspectiva de girar o mundo, inflamado de uma energia poderosa.

- Partamos, irmão. Seguiremos para o norte, onde espera Byelobog. Há tantas coisas que desejo te mostrar neste vasto mundo! Será maravilhoso!


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Re: Interlúdio - Enki

em Ter Jul 17, 2018 9:07 pm
*Enki sorri. Com o Dracon e com Zena. Sua pele treme novamente ao ver o sorriso da sacerdotisa, com o toque de suas mãos e o cheiro de sua carne. Na verdade, a pele treme de maneira que Enki percebe o próprio corpo mudar. A pele de seu rosto derrete, se liquefaz para se formar novamente. Ele não possuía mais a pele translúcida de um cadáver encontrado no rio, os cabelos quebradiços ou as feições de uma criatura aquática. Agora, era um homem simples, ainda que com a pele alva dos que nascem no berço de Kupala. Seu sorriso, porém, segue idêntico.*



-Você vai me perdoar, minha sacerdotisa. Eu deveria, sim, trilhar caminhos na terra seca, e para eles o manto do Senhor do Abzu deverá ficar em Nippur. No futuro... no futuro ele terá um novo dono, mas não mais Enki.

-Sim, eu sinto mais em você. Sinto que é mais, e será mais. E agora, vai me ensinar.

*Com seu novo rosto, ele agarra as mãos do Dracon e de Zena, e as beija de forma passional.*

-Eu vejo o horizonte, e sinto fome. Vamos descobrí-lo, e devorá-lo!
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Re: Interlúdio - Enki

em Qua Jul 18, 2018 1:40 pm
Zena caminhou na frente. O Dracon alcançou Enki. Havia assistido à transformação do irmão. Tocou seu ombro e falou:

- Eu a desejo ardentemente. Mas ela é inteiramente tua.

_______________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

Foram os rios que guiaram Enki, E, quando os rios atingiam as nascentes, e a floresta se abria diante deles, o Dracon movia-se como se estivesse em seu domínio. Todas as feras do mundo pareciam o acompanhar, e aquelas da floresta muitas coisas falavam a ele, sussurrando o segredos escondidos entre os bosques. Quando os rios nasciam novamente, com seus cursos que levariam a mundos desconhecidos, os espíritos saudavam Enki, com admiração e espanto. Mas curvavam-se, somente, à passagem de Zena.

Os ventos também os carregaram. Falavam as direções, explicavam os caminhos. A lua estava sempre presente, parecia ser incapaz de desaparecer. Reluzia sobre o corpo branco de Zena e o pálido do Dracon, formando sombras com as folhas das árvores. Enki ouviu, junto com a chuva, que alguns de seus primos rendiam homenagens a ele. Sentiu o toque carinhoso de Ya'rub na superfície de um lago, que era a sua pele. O mundo era maravilhoso.

Encontraram poucos. Homens santos vivendo nos bosques, de quem beberam e com quem aprenderam. Zena não parecia se importar com os hábitos alimentares dos irmãos. Ouviram as histórias antigas de tribos isoladas, de como seus deuses criaram o Sol e a Lua com um estalo dos dedos. Beberam uma mistura de Vitae e raízes, que lhes deu visões diversas, mas compartilhadas. Enki viu no sonho do Dracon uma grande montanha cinzenta. O Dracon viu, nos sonhos de Enki, um rio de sangue.

Foi somente quando atingiram um determinado ponto da viagem que Zena estacou. Permaneceu de pé por algum tempo, observando os céus. Depois, voltou-se para Enki e o Dracon.

- Vosso irmão, Byelobog, me mostra a sua posição. Sua voz sussurra entre as estrelas, uma voz perdida. Quer encontrá-los. Viajaremos como os mortos: com pressa.

Dito isso, Zena segurou o ar, com as mãos fechadas, como se estivesse retendo dois pedaços de tecido. Afastou o ar, abrindo os braços. Enki sentiu, imediatamente, o momento em que os mortos roçavam sua pele branca. Um calafrio percorreu sua espinha. Era ansiedade e excitação. Quão maravilhoso era o mundo!

- Seguiremos pelos Caminhos dos Mortos.
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Re: Interlúdio - Enki

em Sex Jul 20, 2018 9:43 pm
*Quando o Dracon lhe fala, ele sorri em resposta.*

-Você é um bom irmão. Eu a desejo também, sim. Queima com a força do sol, irmão, e eu não julgava ser possível. Mas é mais do que isso. Você a vê? Vê como ela é muito? Ela deve ser mais, irmão, pois é o mandamento de nosso Pai, ser mais. Seu sangue será delicioso, e a sede que sinto por ele dói em meu corpo. Mas não é o sangue dela que precisa estar em meu corpo. É o meu que precisa estar no dela.

_____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

*Na última vez que havia viajado, era uma casca alquebrada e assustada, carregado pelo Mais Velho em um casulo feito de carne. Se lembrava de pouco, e o pouco que lembrava estava tomado pelo medo e loucura. Agora, podia ver o mundo com toda a clareza trazida por sua nova existência. Se maravilhava com a forma como o mundo natural se abria ao seu irmão, e ao observá-lo, descobre que ele também podia sussurrar para os animais e, por sua vez, entender seus sussurros.*

*Ele observa, aprende e ri. E ao sentir o toque de Ya'rub nos fundos de sua consciência, não pode deixar de sorrir, pois estava certo o tempo todo: o filho de Haqim possuía o mundo na palma da mão, e se aventurava em fronteiras no reino aquático que ele, Enki, jamais alcançaria. Ao se encontrar com os sábios, Enki passa toda a noite em transe, observando o céu e as estrelas deitado no chão, quando se levanta, já no limiar do amanhecer, e com um dedo sangrento, escreve o nome de Zena na testa da própria, apenas para depois se retirar para a segurança de um lago, os raios de sol já ardendo em sua pele.*

*Ele vê a montanha. Coberta de cinzas e rochas, enquanto as outras eram ricas e verdejantes. Um Monte Calvo. Ele sente o Dracon em sua mente, no rio de sangue. "Nade, irmão, e absorva-o".*

*Ele observa Zena quando esta acaricia o ar como se fosse um véu. Fecha os olhos, agora vendo claramente como ela dividia os mundos, e sente o arrepio dos espíritos passando sobre si, alguns curiosos e outros aterrorizados. Ele estende sua mão ao portal aberto, e a sente tremeluzir, sorrindo enquanto adentra.*

*O mundo, de fato, era maravilhoso.*
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Re: Interlúdio - Enki

em Sab Jul 21, 2018 8:46 am
Entraram.

Cinza.

O Mundo dos Mortos era cinza. Era estranho, retorcido, distorcido. Todas as cores que Enki tanto amava, toda a profusão de sentimentos e todas as coisas diversas encontravam o seu fil naquele lugar. Havia solo angústia e uma falta perpétua, mas Enki não sabia exatamente de que coisa. Era como se faltasse um pedaço dele, uma parte que estava necessariamente vinculada aos mortais e à vida. Ainda que Enki fosse um corpo morto animado por um Sangue potente, sua ligação com os vivos era inquebrável. Mas ali, aquela ligação faltava.

Não era, porém, muito diferente do Mundo dos Vivos. Viram árvores, céu, terra e rios. Planícies e montanhas. Mas Enki sabia que não havia animais, folhas, raízes. Eram estruturas artificiais, geradas pela importância que os mortais davam às suas contrapartes no mundo da carne. As montanhas eram Deuses e os rios faziam, em uma certa maneira, parte dos domínios do Senhor do Abzu. Obviamente, nenhuma pessoa foi vista por eles. Nenhum espírito. Mas Enki os sentia, assim como os sentia o Dracon. Eles tentavam aproximar-se, curiosos, cheios de ódio e rancor. Teriam sido suas vítimas? Havia um sentimento de vingança eterna no ar. Se mantinham, porém, afastados. Zena emanava uma luz invisível, as tatuagens em seu corpo, aquelas que honravam Enki mas também outras deidades pareciam brilhar em um tom azulado. Os cabelos da sacerdotisa pareciam se agitar diante de um vento invisível.

Ela liderou a caminhada. O Dracon não parecia particularmente incomodado, nos últimos dias de viagem Enki havia aprendido o bastante sobre seu irmão para perceber que muitos dos sentimentos que ele detinha não eram compartilhados pelo Filho Mais Velho de Loz. Mas, para Enki, era torturante. Zena pareceu perceber isto, e acelerou o passo. Parecia difícil, pra ela, sustentar por mais tempo as proteções que os envolviam. Enki ouviu coisas. Ouviu sussurros. Não eram oriundos dos espíritos mortais, mas de entes muito mais antigos, muito mais incompreensíveis. Faziam promessas. Se Enki os ajudasse a transpor a barreira, todo o conhecimento do mundo seria seu. As promessas pareciam... interessantes. Enki considerou escutá-las com atenção mas, antes que pudesse, retornou ao mundo físico.

Não sabia quanto tempo havia caminhado ali. Mas, quando saiu, o mundo ao seu redor era imensamente diferente.

Erguia-se uma imensa floresta, de árvores escuras, altas como o pináculo dos montes. O chão era branco, gelado. Fazia frio. Zena parecia exausta, se apoiou em um dos troncos nodosos. Enki sentia a presença de água ao redor, sentia a presença de vida animal. Sentia a presença de algo mais.

A lua cheia se insinuava em um céu sem nuvens, parcialmente vista por entre as copas das árvores. Os animais noturnos faziam rumores, até o momento em que não o faziam mais. Zena se recostou na árvore e escorregou lentamente em direção ao chão. Pareceu adormecer. A terra pulsava. Tum, tum. A terra gritava e se remexia em seu sono, mas não era hostil aos visitantes. Era acolhedora, quente. Era como o lar. Tum, tum.

Um segundo antes não estava ali. Um segundo depois, estava.

Tum, tum.

Era um homem alto, longilíneo e extremamente magro. Branco como o gelo que cobria o solo. Vestia um camisão escuro, e só isso. Tinha barbas brancas e cabelos acinzentados, e dois olhos que eram como tempestades monstruosas que se avizinhavam oriundas do Norte. Seu poder era quase visível, emanando em enormes ondas que iam e vinham como os oceanos, mas que eram fixas como a terra. Em seu rosto enrugado, estavam escritos todos os nomes do Estrangeiro, todas as suas formas e todas as suas vidas. Os braços, longos, se distenderam em um abraço em direção aos seus irmãos.

- Eu os dou as boas vindas, irmãos meus. Estão, agora, nos domínios de Byelobog, que são os domínios de Loz e de todos os seus filhos. Que vossa estadia seja pacífica e profícua. Os alerto que na próxima noite, caminharemos juntos pelas mais antigas florestas do mundo. E, quando chegarmos ao nosso destino, encontraremos Kupala.



Byelobog, Senhor do Norte.
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Re: Interlúdio - Enki

em Seg Jul 23, 2018 6:11 pm
*O que era aquela terra dos mortos? Mais, muito mais do que o nome informava. Ele precisava de saber através de Zena, e apenas uma vida não bastaria para tanto...*

*Quando os três voltam ao mundo da carne e sangue, Enki apara Zena com ternura, a reclinando gentilmente em uma árvore para que descansasse.*


-Você vai me perdoar, novamente, por ter duvidado de você em qualquer instante da minha existência. Eu me curvo diante de sua sabedoria, e insisto em ser seu aluno.

*Ele se inclina suavemente até ela, e sussurra em seu ouvido. O ato por si só provoca a sua Besta, e Enki precisa de cada grama de determinação em seu corpo para não lhe cravar as presas naquele exato momento. Quando fala, percebe que suas presas se expandiram contra sua vontade, a ponto de roçarem na orelha de Zena.*

-E se eu voltar, teremos muito a discutir.

...

*Após cuidar da sacerdotisa, ele firma os pés descalços na terra, imerge o rosto nas águas geladas do rio e se diverte como uma criança diante da neve. A presença, a força daquele lugar o deixavam alheio a todo o resto do mundo, e é apenas com o abraço de Byelobog que é retornado à realidade. Após alguns instantes se localizando, Enki retribui o abraço com alegria.*

-Irmão! Meu coração dispararia de alegria se pudesse! Você tem a solidez dos ossos das colinas, e eu humildemente aceito sua hospitalidade. Enquanto eu estiver nesse solo sagrado, e por todo tempo necessário depois, sua dor é minha dor, seus inimigos são meus inimigos e minha alegria é sua alegria.

-Seu território é belo e poderoso, e muito vai me agradar conhecer suas florestas antigas, pois elas são regadas pelo sangue de nosso segundo pai, cuja fonte agora devemos beber.

*Ele sorri e olha para os dois irmãos.*

-Fogo, água e terra. Um de nós ainda falta. Quem há de ser?
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Re: Interlúdio - Enki

em Ter Jul 24, 2018 10:16 am
Byelobog curvou-se diante de Enki e do Dracon, reconhecendo-os como iguais. O Senhor do Abzu jamais havia encontrado seu irmão, mas as histórias sobre ele eram sempre as mesmas: uma criatura de imenso orgulho e capacidade de violência, escondidos sob uma aparência de calmaria. Uma força inigualável somada a uma rigidez de princípios inquebrável. Byelobog era a terra, o imutável. E, ainda sim, perenemente em transformação, embora muito mais lenta que a de seus irmãos. Portanto, era uma honra receber um similar tratamento da parte do Deus do Norte.

- Venham, irmãos meus. Caminhemos.

Procederam em direção ao coração da floresta. Byelobog caminhava a frente, à vontade em seu domínio. Atrás vinham Dracon e Enki, admirados com as imensas árvores milenares. Fazia frio ali, nada que incomodasse os cainitas, mas um frio perpétuo, quase triste.

- O quarto de nós, você pergunta. Fiz a mesma pergunta ao Pai quando esteve aqui. "Virá", ele me respondeu, "o Tocado por Kupala". Debrucei noites e noites a debruçar-me sobre o significado destas palavras, mas não alcancei conclusão razoável, segundo meus métodos de pensamento. É claro que uma visão diversa, uma ótica "do Sul", por assim dizer, pode contribuir melhor na resolução dessa charada.

O Dracon sorria disfarçadamente, observando Enki. Parecia se divertir com a personalidade do irmão. Mais atrás, Zena os seguia. Estavam, agora, subindo uma grande colina de árvores nodosas que balançavam sutilmente, ainda que não houvesse vento.

-...de forma que, de acordo com o que considero correto, somos todos tocados por Kupala. Foi a escolha do Pai consagrar-nos a ele e dividimos este mesmo vínculo. Logo, em teoria, o Pai somente me respondeu que o nosso quarto irmão será exatamente como nós. Ou talvez diferente. Os desígnios do Pai são incompreensíveis às nossas mentes limitadas.

Byelobog continuava a subir a colina sem sequer olhar para trás, perdido em seus próprios pensamentos. Observá-lo era quase enganar-se. Enki sabia o quanto Byelobog poderia ser monstruoso se desejasse. Suas habilidades na alteração do próprio corpo eram lendárias, além de ser um Feiticeiro de imensa proficiência.

Alcançaram o topo da colina. Diante dela, se abria uma imensa planície coberta de neve branca. Alguns casebres, aglomerados como se quisessem se proteger do frio, abrigavam algumas dezenas de mortais. Algumas terras cultivadas eram visíveis, mas não havia sinal de animais domesticados. O céu estava escuro, trágico. As nuvens caminhavam com pressa, somente para deterem-se diante de uma grande montanha que dominava o horizonte. Byelobog, num tom mais sério, falou:

- Kupala não está aqui. E, ao mesmo tempo, está em todo lugar. Kupala é tudo o que nos circunda e é o que move nosso Sangue. Na montanha, é possível conversar com Kupala, pois sua consciência viaja através das raízes da terra para alcançar os pináculos de rocha. Para lá caminharemos. Mas antes...

Byelobog olhou para o vilarejo. E, então, Enki o viu. Um olhar bestial, primitivo que tomava conta de Byelobog. Ele era a Terra, mas era também os terremotos, a seca, a destruição. Dava, e retirava com a mesma facilidade.

- Antes, nos banquetearemos. É inverno. A Terra precisa ser banhada de Sangue para que a primavera renasça.
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Re: Interlúdio - Enki

em Qua Jul 25, 2018 11:08 pm
*Byelobog conseguia ser ainda mais contraditório, e formidável, do que Gallod. Enki via mais do que a terra nele. Via seu sangue flamejante, que cursava lentamente muito abaixo do solo. Lento, oculto, mas de uma fúria inigualável. Dentre toda a prole do Mais Velho entre eles, Enki via um aspecto de seu Pai mais forte do que em todos seus irmãos juntos: os Moldadores eram perigosos, e todos que lhe cruzassem o caminho deviam ter ciência disso. E a placidez de Byelobog era como um poço de areia movediça, ou como um dos grandes répteis que viviam nos rios das terras de Khemet: um engodo, uma máscara para toda a ferocidade que jazia por baixo.*

*Mas mesmo com essa sensação, não pôde deixar de sorrir com a resposta daquele que era senhor do norte e arauto da terra.*


-Sim, posso reconhecer meu pai na resposta que deu... Virá. Quando procuras por uma resposta do Sul, acho que já a conseguiste, irmão.

*O olhar de Enki, como sempre sem piscar, engloba os dois irmãos.*

-Aqui não somos só Terra, Água e Fogo, também somos Norte, Leste e Oeste. Ele virá, sim, do Sul. Cavalgando nas costas dos ventos, se me atrevo a dizer, e não será em absoluto semelhante a nós. E ainda assim, nós o reconheceremos como um irmão. Nosso Pai fala pouco, menos ainda que podemos compreender, mas devemos nos contentar com a simplicidade desta sentença - virá, tocado por Kupala. E se Kupala o tocou, sabemos que ele virá. Todos nós ouvimos sua canção, e sabemos que cedo ou tarde, ela leva a seu leito. Se o amado Amon ou outro da família de nosso tio Ilyas estivesse aqui, lhes perguntaríamos sobre nosso destino. Mas não estão, por isso digo que estamos vinculados. Virá, o Pai disse, e isso me basta.

...

-Em Nippur, cidade onde aqueles antes de nós decretaram que deuses andariam entre os homens, os rios fluem em abundância, como o sangue. Tudo que nos é requisitado, é dado de bom grado.

-Mas eu sinto a sua terra, irmão. Dura, e fria. Aqui, o alimento é coletado de um solo inclemente. E vejo que o sangue deve ser da mesma forma. Coletado, para que ao solo volte. Um ciclo cruel, mas que não deve ser quebrado. Não se o senhor da terra assim o exige.

*Enki passa alguns instantes olhando para o vilarejo abaixo. E se vira para Zena.*

-Fique aqui, criança. E veja tudo. Quando voltarmos, quero que me conte como viu.

*Alguns momentos a mais de contemplação, e Enki caminha vale abaixo, usando sua lança de ossos como um cajado.  Seus movimentos são lentos, mas calculados, e o Moldador sente o sangue cursando, mais e mais forte conforme avança; mostraria àqueles abaixo nada a menos do que todo o terror que poderia trazer, mesmo na forma humana. Ele é como uma represa, e quando o primeiro aldeão o vê, as barreiras arrebentam e a correnteza é libertada.*  



*A primeira morte pertence a Byelobog, senhor e mestre daquelas terras, e em seguida Enki avança sobre o primeiro que vê, rápido como um relâmpago, e antes que esse terminasse de lançar um suspiro de surpresa, seu último, já estava no chão, morto e ressecado. Com todos os outros presentes, quatro destinos se apresentavam: os que fugiam, eram caçados e sugados, para saciar sua sede, sua Besta e o solo de seu irmão; os que conseguiam fugir, conquistaram o direito às suas vidas, no final; os que se erguiam para lhe enfrentar, eram incapacitados e mutilados de forma dolorosa, mas mantidos vivos; os que mostravam reverência ou temor, tinham os membros removidos através das artes de seu sangue, mas não eram feridos e eram mantidos em segurança. E o banquete dos Moldadores seguia, como uma dança, um culto extático que trazia horror e loucura para quem o visse.*

*Terminado o banquete, saciada a sede, Enki arrebanha os sobreviventes, e espera o julgamento de Byelobog.*


[Antes de descer para a vila, Enki gasta os Pontos de Sangue necessários para elevar todos os seus Atributos Físicos até o limite de 9.]
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Re: Interlúdio - Enki

em Seg Jul 30, 2018 8:14 am
A quantidade de vidas ceifadas e poupadas naquela noite jamais seria conhecida por Enki. Muitos fugiram e tantos outros foram mutilados. O Sangue de uma outra parte banhou a terra e a pele de Enki, banhou o solo e manchou de carmesim a neve. Ao fundo, a montanha assistia, imersa nas nuvens, ao espetáculo. De adoração tiveram suas cotas, e aqueles que não eram feridos agradeciam aos deuses pela piedade. Byelobog poupou todas as crianças, mas levou os anciões, exceto por um casal. Estes últimos se davam de bom grado ao Fogo, Água ou Terra, seus espíritos sendo libertados pelas forças místicas que rondavam aquela terra. Ninguém se opôs ao próprio destino. Era a vontade do Deus da Escuridão que fosse daquela maneira.

O perfume da Vitae se misturava ao odor da terra escura. Tum, tum. O Dracon, uma besta que cumpria os rituais de seu irmão, bebia profusamente, seu corpo vermelho como seus cabelos. Nos olhos, duas chamas. Enki era como um abraço gentil e, ao mesmo tempo, furioso, como só as águas infinitas podiam ser. Byelobog era o pai, acolhedor e inflexível, movendo-se pesadamente mas sem que nada o pudesse impedir.

Tum, tum.

Byelobog não deu explicações enquanto aquela gente recolhia seus mortos, enquanto os limpavam com panos úmidos, sem lágrimas no olhos. Era harmônico, aquele todo, uma utopia em que os cainitas eram os senhores do mundo. Enki jamais soube quantas vidas haviam sido ceifadas. A Terra disse uma única sentença:

- Alegrem-se. A vocês foi permitido continuar sobre esta terra.

O Deus do Norte se afastou do vilarejo, caminhando em direção à montanha e convidando seus irmãos a fazer o mesmo. Instruiu para que Zena os esperasse próximo ao vilarejo, aquele lugar era exclusivo a eles. A Sacerdotisa obedeceu sem questionar, embora seus olhos fitassem Enki de maneira intensa. Seguiram, os três, adentrando a pequena planície branca que separava o vilarejo da montanha. O vento era frio, única coisa a quebrar o silêncio onipresente. Byelobog seguia na frente.

Tum, tum.

Enki sentia que a montanha emanava uma forte ressonância. Era, sem dúvidas, um lugar sagrado para aquele povo que ali escolhera viver. E exatamente por isso era possível a presença de Kupala ali, tão longe de onde ele realmente deveria estar. E Enki ouvia Kupala no vento e nos grãos de areia, uma voz conhecida pelo seu Sangue a chamar pelo seu nome e por todos os outros nomes que ele ainda teria, mas que Kupala já sabia quais seriam.

Alcançaram a base da montanha de Byelobog abriu um talho em seu pulso, derramando sangue no chão. Instruiu seus irmãos a fazer o mesmo. O Sangue chiou e borbulhou no solo, fundindo-se com a neve e com a terra abaixo dela. Foi então que um vento soprou. Um vento estranhamente quente, como o hálito de uma imensa criatura. Kupala estava ali, em meio a eles, embora não fosse visível. Enki não sabia se ouviria sua voz através de palavras ou como um eco no seu Sangue. A dúvida, porém, foi respondida rapidamente, com impressões que teimavam em surgir em sua cabeça. Percebeu que o mesmo ocorria com seus irmãos, cada um imerso em seus próprios questionamentos.

Tum, tum.

Enki estava pronto para subir a montanha? Estava pronto para ver o segredos terríveis que o local escondia? Era bom o bastante, tinha sido um bom filho e cumprido seu papel para com seu Ancião a ponto de merecer estar na presença de Kupala? Talvez fosse melhor envelhecer, ouvir mais os conselhos do Pai antes de subir aquele local sagrado. Afinal, não sabia quase nada sobre o seu papel nesse mundo e, mais importante, sobre o que o Pai desejava dele. Talvez não estivesse pronto.

Estava pronto para subir a montanha?

Tum, tum.
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Re: Interlúdio - Enki

em Sex Ago 03, 2018 11:37 pm
*Nenhum sangue jamais fora tão rico. O êxtase místico vivido naquela noite era algo jamais experimentado por Enki. Não sabia dizer se era o fervor religioso das vítimas, seu temor, a proximidade de Kupala, ou mesmo de seus irmãos, mas o banquete daquela noite era o ponto alto de toda sua existência. Em meio ao massacre, Enki dança. Em meio à morte, está exultante. Ele dança com seus irmãos e os abraça, canta com uma felicidade que se algum dia conheceu como mortal, já se esqueceu. Exausto, se senta ao lado de Zena, e sorri para a sacerdotisa. Sorri coberto pelo sangue dos habitantes daquela vila. Enki a observa, intensa e silenciosamente por vários minutos. Se não estivesse plenamente saciado, a devoraria ali, naquele momento. Mas após afagar sua besta, consegue enfim falar.*

-Todos que se submeteram se lembrarão. Saberão que a carne que comem e o ar que respiram é deles apenas pela graça de meu irmão. Os que se atreveram a em algum momento a se opor ao destino traçado para eles, vivenciarão a dor. E também se lembrarão, em quais mãos jaz o poder de vida e morte. Você entende? Quero ouvir o que você viu, o que entendeu.

*Ele escuta com atenção à resposta da mulher, e enfim ouve.*

Tum, tum.

*E ele chora. Chora e agarra Zena com desespero, como um afogado. E olha seus olhos verdes como as folhagens, sabendo que eram sua perdição. E não vê mais o Senhor do Abzu, ou o novo lorde que agora viajava, com sabedoria na companhia do irmão enquanto conhecia e desbravava o mundo. Ela vê medo e sofrimento. Vê o escravo de Mashkan-Shapir, vê quase uma criança, o medo do desconhecido. E talvez ninguém mais em toda a Criação teria algum dia o privilégio, ou fardo, de ver Enki daquela forma.*


-Eu não estou pronto. Eu não posso estar aqui, não posso ser quem eu sou. Não vivi o bastante, não senti o bastante. EU NÃO SOU DIGNO DE PISAR NESTA MONTANHA!

...

-Mas a subirei. O curso de meu rio me trouxe aqui, e não posso abandoná-lo agora.

*Ele estica uma mão e acaricia de leve o rosto de Zena. Enki é infinitamente gentil, infinitamente vulnerável, infinitamente sábio. É infinito, e nada.*

-Eu não sei quando voltarei. Não sei se voltarei. Mas se voltar, não andarei sozinho pela eternidade. Quero que durma aqui hoje, que aninhe sua cabeça nas raízes de uma árvore, rodeada por um círculo de terra, de frente a uma fogueira e um jarro de água. Quero que adormeça ouvindo o farfalhar do vento nas folhas das árvores. Quero que deposite uma gota de seu sangue no solo, e quero que sonhe. Da próxima vez que me ver, me contará seu sonho, e com sua resposta, lhe farei uma pergunta. Se eu não voltar, lembre-se sempre do amor do Abzu, acima de tudo.

*Enki se ergue, a dignidade retomada. Se ergue, de forma quase régia. E se dirige aos irmãos.*

-A estrada se aproxima do fim. Ou de um novo começo. Prossigamos, irmãos.
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Re: Interlúdio - Enki

em Dom Ago 05, 2018 9:13 am
Por alguns segundos, Zena somente observou o semblante de Enki. Seus olhos passearam pelo corpo do vampiro, coberto em sangue fresco que parecia ainda pulsar nas veias de seus antigos donos. Foram segundos que pareceram uma eternidade, até o momento em que a sacerdotisa rompeu o silêncio.

- Eu vi muitas coisas. Eu vi a Morte, mas também vi júbilo e continuidade. Sangrentos são os deuses que caminham pela noite, e muitas coisas exigem daqueles que os seguem. Sangrentos são, no fim das contas, todos os Deuses.

Pareceu pensar por um instante. Elevou a face em direção ao firmamento, somente para continuar em seguida.

- A vida e a morte repousam nas mãos daqueles que tem poder para controlá-las. Mas tal poder não vem sem contrapartida. É função de teu irmão Byelobog garantir que aqueles que se submetem a ele tenham vida próspera e tranquila. É esse o preço do poder, do comando. Não há e jamais haverá poder que se desloque desta esfera e, se existir, deverá ser extinto sumariamente. Dito isto, nada do que vi me afeta mais do que o que eu já tenha visto anteriormente, e o que vi me causa menos indignação do que outras ações perversas. O que eu vi, Senhor do Abzu, foi a força do Ciclo que se abria à renovação.

Pousou a mão carinhosa na fronte de Enki e pareceu dedicar-lhe uma benção em uma língua desconhecida ao cainita.

- Não compreendo o que vive aqui. Não é hostil, mas não se guia segundo as minhas nem tampouco segundo as tuas lógicas e preocupações morais. Desta forma, conclamo os poderes desta terra, aqueles que não estão sob comando de Byelobog, para que protejam a ti e aos teus.

Foi neste momento que Enki ouviu a pulsação da terra, e abraçou Zena, que o acolheu e o abraçou de volta. Ela ouviu as instruções do Senhor do Abzu, e concordou com elas. Dormiria e sonharia, esperando que Enki retornasse.

Enki alcançou, então, o Dracon e Byelobog. Percebeu que o Senhor da Terra parecia calmo e tranquilo, enquanto que Dracon tremia vigorosamente, não por medo, mas por ansiedade. Tinha já estado na presença - ou em uma parte infinitesimal dela - de Kupala. Explicou a Enki, contudo, que cada experiência era diferente e única, e que muito se aprendia, ainda que involuntariamente, na presença daquele ser.

Subiram a montanha, uma subida rápida e sem contratempos. A neve se acumulava nos penhascos e o vento rugia furiosamente em seus ouvidos, embora eles não o sentissem em sua pele. Era um vento distante, um chamado perdido em um canto do mundo. O chamado de seu irmão, que ainda não havia surgido.

Tum, tum. A terra pulsava em magia. Enki se sentia mais forte do que nunca, capaz de mover todas as águas da Terra para si mesmo. Havia cânticos ancestrais, entoados pelas próprias pedras. Eram vozes indistintas, suaves mas gloriosas. Cantavam todas as coisas da criação, revelando segredos que permaneceram escondidos nas sombras desde o momento em que Aquele Acima ordenou que a Luz fosse feita.

Não subiram muito. Em pouco tempo, seus passos os levaram até uma caverna escondida entre as sombras das escarpas. Lá dentro as paredes eram esverdeadas, quase vítreas. O solo era pavimentado de pequenas pedras escuras, que faziam rumor à medida em que os vampiros avançavam. O ar se tornava mais pesado e emitia um zumbido contínuo, quase como se estivesse carregado de energia invisível. O caminho os portou até uma escada escavada diligentemente na rocha. Desceram, envolvidos pelo silêncio sepulcral. Na mais profunda escuridão Enki conseguia ver como se estivesse sob a luz do dia. E, quando finalmente chegou ao fim da escada, notou a presença de um único ser vivo.

Uma rosa.

Elevava-se das pedras ao redor, impondo sua força ao mundo que teimava em ser mais grandioso que ela. Não dispunha de espinhos, mas de pétalas avermelhadas como a primeira Vitae que Enki havia visto, a Vitae de seu criador. Pulsava, lentamente. Tum, tum.

Estava no centro de um salão semi-circular, do qual não existia nenhuma outra saída. Enki sentiu-se desorientado, não tendo certeza se havia caminhado minutos, dias ou meses nas entranhas daquela montanha. As paredes ali ainda eram esverdeadas e, subitamente, Enki se recordou de onde havia visto muros semelhantes: nos zigurates de Mashkan-Shappir. Ao redor, ninguém. Byelobog e Dracon não estavam visíveis. Teriam vindo realmente até ali? Não importava. A flor chamava-o pelo seu nome de batismo, intimando-o a fazer perguntas, tanto as que permitissem que ele conhecesse seu anfitrião quando as que possibilitassem que Enki conhecesse a si mesmo.
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Re: Interlúdio - Enki

em Seg Ago 06, 2018 1:37 am

*Enki se despede de Zena com um toque afetuoso, mas quase mecânico. Subir a montanha naquele momento exigia a energia de cada fibra de seu ser. Se parasse para explicar o quanto a resposta o agradava, temia fugir daquele local com ela e não parar de correr até sentir as águas do oceano nos pés.*

*A determinação que a escalada exigia não era física, ou mesmo mental. Pelo contrário, sentia-se melhor do que nunca, por um momento chegando até a ter a impressão de que, por um breve momento, seu coração pulsara novamente. Tampouco era medo, pois a excitação por descobrir Kupala superava qualquer medo pelo desconhecido. Era a atração, inexorável e invencível que o deixava inquieto. Após entrar na montanha, nada mais seria igual.*

*E nada mais era. Se encontrava sozinho, na presença de uma rosa mais bela do que qualquer coisa que pudesse ser criada por Arikel, e ele chora novamente. Era hora.*

*Lentamente, ele desenha duas linhas no chão de terra, cruzando-se entre si, e faz um desenho rudimentar em cada ponta: terra ao norte, fogo no oeste, água ao leste e ar no sul, com o espírito no centro. Em cada ponto, deixa uma oferenda de sangue que cai de suas mãos, sem nenhum corte aparente em sua pele, até que enfim se senta no meio, junto ao espírito, e encara a flor.*


-Chega enfim a noite. O Mais Velho dentre nós me escolheu para esta hora, este momento há muito, quando eu era nada. E mesmo não mais sendo nada, ainda sou uma coisa disforme. Me foi fadada a mudança, e por isso sou ao mesmo tempo moldador e escravo. Mas após viver e sonhar com meu segundo Pai abaixo da Montanha, enfim à sua casa chego. Meu sangue é uma oferenda inadequada, mas é o que os espíritos da terra sempre me pediram, então novamente o cedo de bom grado.

-A flor me observa. É olho, ouvido e boca de Kupala sobre a terra, e para ela faço minhas perguntas. Quatro são as energias que Kupala provê a quem lhe escuta, as energias que compõem a criação. Fogo, ar, terra e água. E quatro serão as perguntas.

-O vento a tudo vê, pois está em todas as terras. Então ao vento pergunto o que ninguém mais foi capaz de responder: quem vem eu seu nome? Quem é digno de caminhar do sul trazendo em si as dádivas do ar?

-Água é meu sangue, meu cerne e quem eu sou. Minha vida é um rio cujo curso me trouxe até aqui, mas suas águas são enlameadas e turvas. À água pergunto: de quem é o nome que a rosa sussurra? Aonde está a nascente daquele chamado de Enki, que teve toda sua vida pregressa lavada diante de si numa enxurrada. Quem ele foi, me conte, para que ele saiba quem deve se tornar.

-O fogo ilumina, e a luz que traz consigo mostra as coisas mais horríveis e as mais belas, mas sempre verdadeiras. Ao fogo, eu peço que ilumine meu caminho, para que veja a estrada que seguir. Pois uma estrada iluminada é uma aonde se vê todas as armadilhas.

-E para a terra… que sustenta o mundo, que enterra tudo aquilo que é esquecido e desconhecido, eu pergunto: quem é Kupala, aquele sob a montanha…



E como ele se diferencia do que é acorrentado e cultuado abaixo de Mashkan-Shapir e Assur?
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Re: Interlúdio - Enki

em Seg Ago 06, 2018 2:06 pm
Sentado, diante da Flor, Enki ouve as palavras de Kupala. Não ecoavam em sua mente como sons de uma garganta, mas como impressões, ideias vagas trazidas pelo vento. A Flor balançava, lentamente, ao sabor da brisa. A caverna parecia encolher-se ao redor do cainita, não de forma ameaçadora, mas acolhedora. Kupala era a montanha e as terras ao redor, e bebia todo o Sangue que era derramado em seu nome, como o de Enki e o dos aldeões antes dele. Acima de tudo, Enki sentia que Kupala tinha Fome. Uma fome similar à sua, ancestral, imensa e incontrolável. Mas Enki sentia, também, que algo era exigido de Kupala. E, para realizar o que era necessário, consumia muito, dando pouco em troca. Pouco, mas o suficiente.

Enki sabia que aquele que comandaria o Vento não seria progênie de Loz, seu Pai e Mestre. Não, seria progênie dele, de Byelobog ou de Dracon. Talvez dos três ao mesmo tempo. Talvez de nenhum deles. Fosse como fosse, o Sangue de Loz não correria diretamente em suas veias. Enki o reconheceria através da Marca em sua fronte, com auxílio de um presente que Kupala entregaria a ele antes que ele se fosse. Isto é, se tivesse a coragem de usar. A única certeza é que nasceria homem, este indivíduo, em um tempo não tão próximo deles, pois Kupala precisava de tempo para maturar suas escolhas. Byelobog, Enki e Dracon eram, cada um à sua própria maneira, obras primas, difíceis de repetir. Kupala não desejava errar e Loz já havia sido absolvido de suas tarefas. Fogo, Terra e Água deveriam vigiar até o momento em que o Vento soprasse forte pelas colinas.

Enki sentiu um calor intenso ao mesmo tempo em que seu corpo parecia estar sendo purificado. Exatamente quando, afundando no solo de Mashkan-Shappir, havia passado pela água antes de ver a Árvore.

Seus olhos se fecharam.

Viu-se diante de um imenso Zigurate. Estava em Mashkan-Shappir. Em suas mãos, tabuletas de argila. Em sua cabeça, ideias. Escravos iam e vinham, carregando imensas pedras. Construíam o Zigurate enquanto morriam de fome e de maus tratos. Clamavam por piedade mas Gashan, dominado por sua visão e pela esperança de que suas criações desafiariam o tempo, os incitava a trabalhar mais e mais. De onde haviam vindo aquelas rochas esverdeadas que compunham o Zigurate? De longe. Exatamente da caverna onde Enki se sentava agora. Mashkan-Shappir pulsava com a vida e a magia de Kupala. Mas quem era Kupala?

gashan sabia que os Deuses da Cidade o observavam. Que desejavam seu Sangue e sua Alma, e aquilo dava prazer a ele. Quando Nergal, o Obscuro, se aproximou com promessas de poder e de Sangue, Gashan as escutou atentamente. Nergal, em suas memórias, era somente uma sombra com face de coruja. Aquela foi a última vez que ele viu o Senhor de Mashkan, e seu Sangue jamais correu em suas veias. Pois, quando os escravos se rebelaram e destruíram o corpo e a face de Gshan, foi Loz quem o resgatou, quem reconstruiu seus ossos, músculos e rosto. O resto, como dizem, é história.

Mas mesmo Kupala não conhecia Enki. Kupala mostrava o que as rochas, conduzidas pelos escravos, puderam ver.

Viu uma grande cortina de Fogo que não ameaçava nem ele nem a sua Besta. Estava diante dele. Atrás das chamas, uma sombra humanoide. As chamas se abriram, subitamente. Uma linha escura marcou a terra e o lamento de mil anjos pode ser sentido. Diante dele, estava Kupala.

Belo.

Um manto escuro cobria-lhe as formas. A Flor não mais existia, era um rubi do tamanho de um olho que pulsava em suas mãos. Tinha barbas longas e castanhas, olhos profundos, marcas de expressão na face encovada. Kupala tinha um ar de inalcançável Sabedoria. Kupala emanava Amor por toda a Criação. Emanava, também, ódio. Kupala não era Um. Era Dois. Amor continha o Ódio, numa combinação que só poderia ter sido pensada por uma mente superior. Kupala não exigia que Enki se curvasse ou o adorasse. Queria somente que Enki o compreendesse, entendesse sua dualidade. Quem era Kupala? A pergunta ecoava na caverna. Kupala era mortal. Era divino. Era cainita. Era demasiadamente belo. Enki desejou o Amor de Kupala, o Amor de Pai para Filho e o Amor dos Amantes.

Quem era Kupala?

Tum, tum.

Foi ele mesmo quem respondeu. Uma voz rouca, mas firme. Sem emoções. Ou repleta delas, em conflito, como as ondas do mar revolto, um terremoto, um tornado ou um vulcão em erupção. Conflito, mas harmonia.

- Eu sou. Sou a Serpente, engolida pelo Dragão. Fui, antes disso. Estive presente quando a Verdade começou. Eu não posso morrer. E isso é bom.

Kupala caminhou. Estendeu a mão esquerda, com o Olho, em direção a Enki.

- Sou um dos Quatro Arcanjos que seguram o Véu. Sou a Serpente que bane os males do Mundo.

Kupala era extremamente familiar. Não em aparência. Mas no Sangue de Enki. O Sangue de Enki tinha vindo de Kupala. Ou, ao menos, de uma parte dele.

- Os frutos são parte da planta mas, ainda assim, são outra coisa.

Kupala se aproximava. Aquela não era a face de Kupala. Era a face de outra pessoa. Da outra parte. Pois Kupala era uma força e, assim sendo, não tinha forma. Mas quem era aquele diante de Enki?

Era uma Besta. Não no sentido figurado. Era, realmente, uma Besta como a que Enki tinha dentro de si. Uma Besta sem corpo, já que o cainita que a detinha não mais existia. Uma Besta que fora vomitada no próprio solo e, amalgamando-se com as energias do Mundo, as utilizava para manter de pé um Véu que impedia que alguma coisa entrasse. Uma Vingança ancestral.

Ay Bahari Lilitu, Enki sentiu ecoar em seus ossos.

- Eu sou a Árvore.

Diante de Enki, estava Ynosh. Diante de Enki, estava Kupala.
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Re: Interlúdio - Enki

em Qui Ago 09, 2018 3:46 am
*Ele sorri, se levanta. Fecha os olhos enquanto o fogo o limpa, e depois os abre. E quando os abre, não era só Enki que ali estava. Era Gashan, o construtor, Gashan, com seu corpo destruído, O Senhor do Abzu e suas feições piscianas, e ele mesmo, Enki, afogado, morto, renascido. Os quatro moldadores encaravam o que era Kupala, o que era Ynosh.

-Belo

-Horripilante

-Divino

-Profano

-Um

-Dois

-Mais

-Menos

-Vida

-Morte

-Tudo

-Nada

*Enki, o verdadeiro, dá um passo à frente.

-Eu não posso entendê-lo, não completamente, pois estamos distantes demais. Mas a mim e aos meus foi fadado mudar e entender a Mudança, então posso vê-lo de forma diferente, de forma que nunca me será estranho, não totalmente. Sou sua obra, Kupala, e agora vejo com mais clareza.

-Não pode morrer, e isso é bom. Me mostrou meu nome verdadeiro, e isso também é bom. Um nome, um primeiro nome é algo que dá poder, por isso ninguém mais o saberá. Não pode morrer, e isso é bom pelo que não é vivo quando você não morre. Ay Bahari Lilitu, ouço em meus pesadelos, e lá gostaria que a frase ficasse.

*Todas as outras facetas de Enki se desfazem retornando à água, e ele anda de um lado para o outro, fascinado com o que via à sua frente.*

-Eu o vejo. Eu ouvi, de meu irmão, a história de como o Mais Velho não nasceu mortal como eu e você, mas foi expurgado por alguém tão sábio, e tão tolo que julgava capaz de retirar todas as impurezas do corpo. O que saiu, porém, era bom, e foi aprovado. Ao ser aprovado, ingressou à Família, e começou a sua própria.

-Entende o que aconteceu naquela noite? O que você fez? Tamanho poder, gerar uma vida por si só, dessa maneira? Algo nunca antes concebido foi posto na terra, e toda a Criação tremerá. Eu vejo agora como o que chamam de Estrangeiro nasceu do maior controle sobre a matéria que jamais foi concebido, e o resultado é terrível. O resultado é que ninguém mais tem e terá controle sobre seu corpo, sangue e frutos como o Mais Velho. E ele lhe mostrou isso.

-Eu perguntei a diferença, venerado Kupala, entre seu nome e dos que jaziam sob as entranhas de Mashkan-Shapir e agora sei. Meu pai e mentor seguiu seu principal ensinamento: fez de você algo mais. O que quer que fosse Kupala antes, Loz queria trazer à Longa Noite, mas era impossível. Mas Loz também foi a Besta de seu Senhor, sua Besta, e sua carne maleável não esquece. E tamanho foi seu controle que mesclou uma Besta sem corpo a um corpo sem espírito. Você é Kupala. Você é Ynosh.

-Eu o vejo. Minha mente muda e se transforma para compreendê-lo. Mas acima de tudo, eu preciso de você. É meu pai mais do que Loz será. Sou seu deus, seu hierofante ,arauto e sacerdote. Preciso do Olho em sua mão. É como um ovo, fonte infinda de vida, e ele pulsa sussurrando meu nome. E eu preciso de sua benção para buscar as outras pontas do Véu, para que o que é bom, siga como bom.

-Me guie, me banhe, me queime e me ilumine. Brote em mim a flor da samambaia. Me dê sabedoria para reconhecer o conhecimento quando o ver.

*Ele não se ajoelha. Ajoelhar é um gesto de submissão e naquele momento Enki é apenas amor. Ele segura o rosto de Kupala/Ynosh entre as mãos e sussurra.*

-Sou seu instrumento. E você não é uno, mas dual. Então sabe que não sou só seu fruto. Sou também sua raiz.
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Re: Interlúdio - Enki

em Qui Ago 09, 2018 6:29 am
Kupala sorriu.

- Duas vezes. Por duas vezes fostes meu filho. E serás pela terceira vez, antes que o primeiro ciclo se complete.

Ynosh sorriu.

- Por duas vezes. Pois de mim nasceu e a mim foi consagrado, corpo e espírito.

Caminhou pela sala. Ainda tinha o pequeno rubi na mão esquerda. O mundo parecia se dobrar à passagem de Kupala. A realidade não era nada, nenhuma força tinha. Kupala era a fusão de duas forças monstruosas, vinculado à Terra, ao Sangue e ao Espírito.

- O que dorme sob Mashkan lá deve permanecer. Seu nome não é para ser conhecido por ninguém, nem mesmo por ti, pois seu nome é Catástrofe. Mashkan-Shappir deve cair, o que foi roubado daqui e levado até lá deve ser destruído. Há força na terra e nas pedras, Enki. E tal força não deve ser usada levianamente.

Ynosh se aproximou. Era Kupala. Tomou o rosto de Enki com a mão direita e, com os dedos indicador e médio da esquerda, retirou o globo ocular esquerdo do cainita. Não houve dor ou sofrimento. Era como retirar um adereço para colocar outro. Kupala impõs o rubi no globo ocular vazio de Enki, ao mesmo tempo em que o olho retirado se transformou em uma pequena safira azulada.

- Retiro teu olho e lhe concedo o olho desta Terra. Nenhum inimigo de Kupala se ocultará perante teu olhar. Todas as línguas, antigas e novas, serão tuas para entender. O futuro será um livro aberto mas lembre-se: vislumbrá-lo em excesso acarreta um preço frequentemente pesado.

Ynosh completou.

- Este é o meu presente para ti, Enki, Filho de Loz, Filho Meu e de Cagn.

Kupala interrompeu.

- O que è bom deve seguir como bom. As outras pontas do véu estão, agora, seguras, mas isto não durará para sempre. Será a tua função vigiá-las, e eu o direi quando isto deverá ser feito. Você parte, agora, sabendo que nos encontraremos num futuro breve. Meu tempo aqui se esgota. Adeus, Enki.

Subitamente, desapareceu. Enki sentiu toda a energia do local se esvair como um rio seguindo seu curso. Intuía que Kupala estava muito distante de onde realmente estava, e que mesmo para um ser como ele era difícil mover-se entre a Criação. O olho esquerdo latejava mas, fora isso, nenhuma sensação de estranheza. Na água, Enki viu seu reflexo: o olho esquerdo era de um intenso castanho avermelhado. Enki sabia que aquela parte do seu corpo jamais poderia ser alterada por seus dons. Mas não lhe parecia, ao momento, realmente importante.

Byelobog e Dracon estavam ao seu lado. Foi a Terra quem interrompeu o silêncio.

- O Pai nos chama. E nós atenderemos o chamado.
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Re: Interlúdio - Enki

em Qui Ago 09, 2018 8:57 pm
*Magnífico. Magnífico. Não podia pensar em nada mais para dizer a Kupala, e tampouco teve a chance. Logo estava novamente junto de seus irmãos, e mais sábio. Oh, infinitamente mais sábio, com um propósito maior. Ele passa alguns instantes olhando Byelobog e ao Dracon, com seu olho antigo e o novo, antes de dizer.*

-Atenderemos. Acima de tudo, precisamos voltar. Me pergunto se ouviram o mesmo que eu. Se sabem o que deve ser feito a Mashkan-Shapir. Porque não poderei fazê-lo sem a ajuda de ambos.

-Retornaremos a Nipur, mas há algo que preciso fazer antes.

...

*Após um tempo caminhando, Enki encontra Zena. Estranhamente, não precisou de esforço algum para isso. Era como se "visse" o caminho até ela pelo olho de Kupala, mas não era nada físico, nada que conseguia explicar. Mas encontra a sacerdotisa após seu sono revelador. Sem maior cerimônia, Enki se senta ao seu lado, enquanto sente o cheiro da floresta ao seu redor, e observa as estrelas no céu. Aquele momento, em meio a tudo mais, era um oceano de calmaria. E ele sabia que não iria durar.*

-Me agradaria ouvir sobre seus sonhos. Aprendi muito enquanto estive fora, e novas ideias me vêm à mente agora.

*Ele aguarda a resposta e ouve sua sacerdotisa com atenção.*

-Falaremos mais sobre isso, mas antes, temos outro assunto a discutir. A noite, a noite na qual vivo, é longa, negra e cheia de terrores; uma estrada árdua e longa, e uma que não desejo mais trilhar sozinho, desejo que algo de mim povoe o mundo.

-Portanto Zena, sacerdotisa do Abzu, quero que caminhe na noite comigo. Não lhe é surpresa, pois estávamos fadados a isso desde aquela noite no deserto. Nossos destinos são entrelaçados, e assim devem ficar. Mas não imporei tal escolha a você. Talvez pela última vez em minha jornada, eu esteja dando o presente da escolha a um Filho de Set. Seu destino será seu, basta apenas me dizer. Apenas lhe advertirei que, caso aceite, isso lhe custará muito. Receberá algo em troca, mas há quem considere pouco. Mas não importa o quão pouco considere, será o suficiente.

*Enki mira Zena com seus olhos desiguais. Sua voz não havia sido afável ou melíflua, como em Nipur. Sua fala era seca, mas carregada de verdades inegáveis.*

-Ouvi seu sonho. E ouvirei sua resposta.

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Re: Interlúdio - Enki

em Sex Ago 10, 2018 4:47 am
Foi Byelobog quem respondeu.

- Nós provavelmente ouvimos coisas diferentes. Mas a essência é exatamente a mesma.

Aproximou-se, então, de Zena. A Sacerdotisa estava sentada sob uma árvore estranhamente alongada. Observava a montanha e a vila, e acompanhou Enki com o olhar enquanto este se aproximava.

- Eu sonhei... - Começou.

Zena não parecia nervosa ou assustada. Diante da proposta de Enki era visível que tinha uma resposta previamente preparada.

- Eu sonhei com aquela primeira noite, no deserto, quando você me resgatou. Os detalhes eram vividos e intensos, detalhes dos quais não me recordava. Teus braços que me carregavam e teus olhos amorosos. Vi o espírito de minha falecida mãe naquela noite. Ela me disse para estar tranquila, que tu naõ me farias nenhum mal, mas disto eu já sabia.

Levantou-se. Como era bela, aquela mulher. Era dona de um senso de independência notável, mesclado a uma ligação profunda com todas as coisas. Zena era uma religiosa e, para ela, as mínimas coisas tinham um profundo significado espiritual. Observou as árvores que dançavam ao vento. Observou a vila, enquanto os moradores limpavam seus mortos com tecidos úmidos e preparavam uma grande fogueira que levaria seus corpos à morada dos Deuses.

- Sonhei, também, com um tempo estranho, onde os homens eram terríveis e sanguinários, e estavam muito longe do que deveriam ser. E o mundo sofria com isso. Tua raça, que não é parte da humanidade mas vive em simbiose com ela, provocava tais conflitos somente por prazer e egoismo. E se destruía no processo. Eu vi você, Enki, com profundo sofrimento em teus olhos, triste por causa do caminho que tua Casa havia tomado. E, no fundo do meu sonho, uma voz me incitava. "Proteja-o", me dizia. "Ame-o, pois ele precisa".

Aproximou-se de Enki. Seu olha era amoroso e compreensivo.

- Fostes meu Pai, Enki, antes mesmo deste momento. Você me salvou. Permita-me caminhar contigo para que num futuro próximo eu possa fazer o mesmo por ti.

Expôs o pescoço branco e nu. As veias pulsavam, obscurecendo o raciocínio de Enki com um desejo incontrolável.

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Re: Interlúdio - Enki

em Dom Ago 12, 2018 6:29 am
*Enki queria dizer a Zena como ela havia passado em cada um de seus testes, pequenos, mas numerosos. Queria passar suas impressões, informar sobre seu novo povo, mas quando vê o pescoço alvo e desprotegido em meio à forma estonteante de Zena, não consegue pensar em mais nada. Enki vê apenas a carne alva, a pele sedosa, fareja o mel e leite. Enki vê apenas a Fome.*

*O Moldador se atira diante do pescoço que lhe fora exposto, cravando-lhe as presas. Zena fica estática, indefesa, e Enki segue por todo o seu corpo, alisando, cheirando, lambendo e por fim mordendo. Enki siga o sangue de Zena por vários pontos de seu corpo: pescoço, coxas, pulsos, seios, até que a sacerdotisa se encontre drenada e sem vida. E morta, Enki pode começar o seu trabalho; ele põe sua mão na boca da sacerdotisa e logo o sangue começa a escorrer através de seus dedos até sua boca [Vicissitude 5].*

*Enquanto o sangue escorre, Enki ouve, Enki sente os ecos em sua mente. Começara, ou melhor, continua a Jyhad. Uma sensação horrível, de fratricídio, inquietude e caos. Ele rapidamente pega o bracelete dado por Sutekh, e foca sua visão nos grandes corpos d'água do mundo. Ele precisava ver o que seus irmãos e primos faziam, e ainda sim usa o Bracelete. E Zena... Zena continua a beber-lhe, com Enki distraído demais com os eventos à sua frente para controlar seu fluxo de sangue. A alimentação segue, e como Enki não intervém, segue alimentando sua cria até que ela pare por vontade própria, arriscando a sua existência em nome daquele momento misto de curiosidade e luxúria.*

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Re: Interlúdio - Enki

em Dom Ago 12, 2018 7:24 am
Havia algo estranho sobre o Sangue de Zena. Era intenso, cheio de vida, como poucas vezes Enki havia provado. Pulsava com a força da terra e queimava as entranhas do cainita como fogo líquido. Por mais de uma vez Enki teve de parar de beber, consumido pelo prazer que o ato lhe trazia, somente para continuar depois, mais ávido do que antes. Aquele momento durou uma eternidade, na qual Enki deixou sua casca física e flutuou pelo Universo que abria seus segredos ao escrutínio do vampiro.

Zena estava deitada no chão quando Enki começou a verter seu Sangue na sua boca. O corpo morto de Zena se reanimou, agarrando as mãos do vampiro e lambendo-lhe os dedos, dos quais escorria a Vitae amaldiçoada. O prazer que o ato dava a Enki era inigualável, mais forte do que qualquer coisa que ele já tivesse experimentado. No entanto, o Filho de Loz estava preocupado com os ecos que rondavam a sua mente e, num ato de profunda força de vontade, retornou à consciência, ativando o bracelete que lhe havia entregado Sutekh.

Sua Visão afundou-se no solo, entre as raízes, viajando por estas até pontos recônditos do mundo.

No Leste, milhares de demônios escapavam das entranhas da terra, mas encontravam um exército de opositores. Homens e mulheres com múltiplos braços e cabeças de animais desconhecidos, que dançavam sob a chuva de Sangue que vertia das entranhas demoníacas. Atrás deles, um homem extremamente grande lançava os céus com as mãos nuas contra os inimigos. Tinha dez cabeças e doze rostos, todos eles repletos de fúria.

No Sul, Daharius Sarosh tinha suas feridas limpas e fechadas por uma criança, tendo ao seu entorno uma salão subterrâneo repleto de pequenas estatuetas de argila que se moviam lentamente. A criança entoava cânticos e nomes estranhos, e o corpo inerte e empalado de Daharius sofria espasmos velozes e violentos.

No extremo Norte ele viu Sutekh, cujos braços fortes terminados em mãos hábeis arrancavam as cabeças de enormes feras semelhantes a lobos bípedes, cujo sangue era derramado na terra coberta de neve branca.

Voltou a si quando Zena largou o seu braço. Sentia-se fraco, débil e tonto. A Sacerdotisa permaneceu deitada sobre a relva por alguns segundos, arfante e com as mãos sobre o ventre. Tentava gritar, mas sua voz morria antes de deixar sua boca. Agarrou a terra escura com as unhas e elevou o corpo, permanecendo imóvel em seguida, até o momento no qual piscou os olhos rapidamente e encarou Enki, ainda deitada. Levantou-se com dificuldade. Observou o mundo ao redor, prestando atenção aos sons da noite. Atrás de Enki, Byelobog e o Dracon observavam, atentos.

- Está feito, irmão. - Começou o Dracon - Tua filha, agora, caminha pela Noite Eterna. Terás todo o tempo do mundo para explicar-lhe o necessário mas, agora, precisamos retornar. O chamado do Pai se torna mais e mais intenso.

Zena encarava Enki. Aproximou-se e tocou a face de seu Criador, munida de uma gentileza e amor imensos. Abraçou-o, em seguida. Os olhos da Sacerdotisa haviam se tornado verdes como as folhas das árvores que os cercavam. Algo, porém, havia mudado. Zena não demonstrava mais sua expressão etérea, como a de quem escuta a canção das esferas. Zena estava morta e, substancialmente, era a outra pessoa, ainda que fosse a mesma. Dirigiu-se a Enki.

- Eu escuto o grito da Terra, demandando piedade e o fim da Guerra. É hora de voltar.
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Re: Interlúdio - Enki

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