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Interlúdio - Ya'rub

em Dom Jul 15, 2018 7:20 am
Haviam lutado inúmeras batalhas.

As forças de Mashkan-Shapir eram despedaçadas diante da força conjunta da Prole de Haqim. Mancheaka era o grande líder, o representante da vontade do Ancestral no campo de batalha. Sob sua Autoridade, Jamal e Sha'hiri haviam garantido inúmeras vitórias à Cidade Sagrada. Rashadii se encarregava de proteger, com seus dotes místicos, mortais e cainitas que seguiam para o combate. Nakurtum espionava e descobria os planos e fraquezas do inimigo. Funcionavam como uma família, mas também como um exército que, sob o comando do Grande Caçador, garantia que as incursões das forças dos Baali não fossem bem sucedidas. Estreitou laços com a Prole de Saulot, Samiel, O Guerreiro, liderava sua casa nas ausências cada vez mais longas de seu Senhor. Saulot havia decidido que encontraria uma maneira de remediar as consequências de suas ações, ainda que não fossem realmente suas.

Haqim estava sempre presente. Não obstante, Ya'rub sabia que seu Pai havia mudado, avançado rumo a uma existência diferente daquela que havia conhecido até então. O Caçador raramente deixava Nippur, segundo ele suas responsabilidades residiriam ali até que a última noite tivesse chegado. Sabia que Nippur estava destinada a morrer, como morrem todas as coisas. Haqim, no entanto, não permitiria que a Cidade Sagrada morresse pelas mãos do inimigo, ainda que a morte natural, segundo ele, fosse inevitável.

Haqim habitava constantemente em Ya'rub. O Feiticeiro o sentia em seu Sangue e em sua mente. Era um estado contínuo de felicidade e potência, traduzida em uma forte energia para realizar tudo o que seu Senhor desejava. Os textos antigos consumiam a maior parte do tempo de Ya'rub, pois Haqim havia decidido que sua casa acumularia o máximo de conhecimento possível sobre a criação. Nos intervalos entre as leituras, Ya'rub viajava pela planície e além dela. E percebia que o mundo mudava aceleradamente. Mortais deixavam a região para se estabelecer em locais cada vez mais distantes, para misturar-se com outros povos e tribos. Cultuavam novos Deuses, alguns dos quais atendiam pelos nomes dos cainitas de sua geração, outros dos quais desconhecidos. Novos Deuses para novos tempos.

O conhecimento florescia em todas as partes. Nos trinta e dois anos que se seguiram após aquela noite, Ya'rub viajou a Khemet onde aprendeu com Osíris, irmão de Sarosh, sobre a harmonia de Maat. Conheceu o Sansara de seus distantes irmãos do Vale do Indo, e tomou parte em suas batalhas. Até mesmo Canaã conheceu o Feiticeiro, e ele estudou os textos antigos que versavam sobre Lilitu, Mãe de Todo o Mal.

O Djiin e o Ghûl não tinham reaparecido desde aquela noite. Ya'rub rogava às estrelas que apresentasse o caminho para encontrar seus guias.. As estrelas, porém, não respondiam sobre aquilo ou sobre o Ninho da Águia.

Até aquela noite.

Ya'rub despertou, um gosto metálico e terroso na boca. Ouvia nitidamente a morte das estrelas que davam lugar a novos mundos e universos. E foi uma delas que lhe falou, uma voz quase perdida no infinito, que havia demorado milênios para revelar seus segredos. Estavam ali, ao alcance de uma mão.

Bastava somente que Ya'rub abrisse seus Olhos.


Última edição por Regista em Ter Jul 17, 2018 12:22 pm, editado 1 vez(es)
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Re: Interlúdio - Ya'rub

em Seg Jul 16, 2018 7:24 pm
Ya'rub sabia que a guerra ainda acontecia. Sentia a fúria e a eficiência de seus irmãos. Sentia a dedicação de seu Pai. Sentia a vitória se aproximando, mesmo que o custo fosse alto. Ainda assim, sentia que Nippur se aproximava do fim.

Apenas sentia, pois não presenciava a guerra. Esta era uma atribuição de seus irmãos e primos. Para Ya'rub sua missão era mais importante. Enquanto o sangue dos infernalistas era derramado, o Feiticeiro percorria os quatro cantos do mundo conhecido, adentrando por vezes em territórios dos quais poucos ouviam falar. Seguia fielmente a missão da qual seu Pai havia lhe incumbido, buscando conhecimento oculto onde quer que estivesse. Não só buscava conhecimento, mas também fazia questão de tornar-se conhecido. Para Ya'rub era importante que todos soubessem seu nome. Se esforçava para fazer contato e construir aliados, pois só assim a Casa de Haqim iria sobreviver. Cobrou de si mesmo a tarefa de tornar-se um diplomata em o nome da glória que viria a ser Alamut. Dialogaria com reis e rainhas, chefes tribais, líderes de caravanas. Conversaria com espíritos de todos os lugares, para que seu nome fosse conhecido neste mundo e no Mundo Além do Véu.

Enquanto corria o mundo entre seus novos conhecidos, Ya'rub sentia-se sempre acompanhado. Seus espíritos companheiros, o Djinn e o Ghül, não apareciam desde a noite da tempestade. Mas havia Haqim. Haqim estava presente em seu Sangue, de modo que nunca sentia-se afastado do Pai.

Por vezes, pegava-se olhando para o anel que ganhara em suas últimas noites em Nippur. Buscou compreender seus poderes, pois temia o que Moloch poderia fazer com o artefato. E mesmo assim, mesmo com o Medo que o seguia, relembrava do encontro que tiveram nos campos de trigo. Aguardava a noite na qual se reencontrariam para debater e compreender o Universo.

Mas mesmo com todos pensamentos e atividades que lhe ocupavam, Ya'rub se angustiava pelo fato de que ainda não tinha respostas para a localização de Alamut.

Até aquela fatídica noite. A noite em que ouviu a voz de uma distante estrela. E tal como ouviu, Ya'rub obedeceu.

Perdido no meio do deserto, Ya'rub colocou-se em provação. Passou Sede. A Besta agarrando seus calcanhares, pronta para levá-lo à loucura assassina. E mesmo assim, o Feiticeiro usava toda sua Vontade para privar-se do sangue dos animais que cruzavam seu caminho. O único sangue que consumia era aquele que vinha do kalif que tragava.

E foi em um delírio de fome e resistência que Ya'rub abriu os Olhos.
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Re: Interlúdio - Ya'rub

em Ter Jul 17, 2018 12:08 pm
Voou.

Mais alto do que já havia voado antes.

Do alto, via toda a Criação como um quadro pintado por mãos habilidosas. Os rios se abriam à sua passagem e as montanhas, num eterno formar e destruir, se desmanchavam para fazê-lo passar. O mundo inteiro pulsava, conectado como em uma teia de aranha, todas as fontes de conhecimento estavam disponíveis.

Mas algo o chamava. Em um canto esquecido do mundo, onde tribos nômades se moviam em eterno contínuo, alguma coisa o chamava.

Era um canto doce, da terra, com cheiro de lar. A princípio, não sabia por onde prosseguir. Foi somente quando o Grande Caçador, aquele que está no céu, e não Haqim, disparou sua flecha, ele enxergou o caminho. Moveu-se velozmente, mas veloz que o vento. Sabia que era o chamado de casa, de Alamut. Daquela que estava destinada a se tornar a maior fortaleza jamais vista, de onde Haqim, sentado em seu trono, organizaria a sua família.

Estava quase lá. Mas se deteve.

No mesmo caminho que deveria seguir, porém intuitivamente antes do destino final, sentiu-os. Sentiu-os pois as pessoas se prostravam diante deles, e entoavam cânticos em seus nomes. Era um rapaz e uma moça, disso tinha certeza. Estavam sentados diante de uma pequena multidão, em meio ao acampamento de uma das tribos. Eles, porém, não pertenciam àquele povo. Viajavam pelo deserto, sozinhos, com a missão de levar o conhecimento ao mundo. Tinham pinturas ritualísticas no rosto, e flores na cabeça. Vestiam-se de carmesim, e seus pés não tocavam o chão. Diante deles, leite e mel, bronze e incenso. E, quando abriram suas bocas, simultaneamente, para espalhar sua Sabedoria, o Universo fluiu de suas gargantas, corpos gigantes e minúsculos, luas e sóis.

Ya'rub retornou, arrastado por aquela onda. Retornou ao seu corpo físico.

Tinha fome. Mas, um segundo depois, ela desapareceu.

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Re: Interlúdio - Ya'rub

em Qua Jul 18, 2018 12:10 pm
Estava de volta. Ao seu redor, apenas as dunas do deserto. O forte vento soprava em seus ouvidos, jogando grãos de areia em sua face. Ali, sentado em solitude, Ya'rub sentia-se conectado com todas as teias ligam o Universo. Era como se o Sangue que fluia em suas veias mortas seguisse como um rio, vertendo do solo, passando por seu corpo e desaguando nas estrelas. O Sangue era a liga que sustentava o firmamento e dava vida à Existência.

Levantou-se. De pé, percebeu a fome desaparecendo. Pois com o Sangue que circulava entre Ya'rub e o Universo, porquê haveria de ter fome?

Ya'rub mirou as estrelas que o observavam e sorriu. Queria abraçá-las. Sabia que podia abraçá-las. Abriu os braços e falou com elas:

- Obrigado! OBRIGADO!

As estrelas lhe mostraram Alamut. A flecha do Grande Caçador que reside nos céus lhe apontou a direção de Casa. Onde a flecha fincou, lá os Filhos de Haqim construirão seu império. E mais... as estrelas lhe mostraram muito mais. Quem era o casal que espalhava a Sabedoria do Universo? Precisava ter com eles, aprender com eles! Queria ouvi-los, tê-los ao seu lado.

Ao continuar pensando naquele homem e naquela mulher, Ya'rub franziu o cenho. Pois também precisava ensiná-los. Colocar-se em posição de adoração é o primeiro passo para a perdição. Primeiro vem o orgulho. Depois vem a ilusão de que se ocupa um lugar diferente daquele que se deve ocupar no Universo.

Eles lhe pareceram ser jovens. Pareciam saber muito, mas não há ser que caminhe nessa terra que saiba tudo. Ya'rub poderia ensiná-los algo, assim como aprenderia muito com eles.

Ya'rub decidiu-se: encontraria-os no caminho de Alamut. Sabia onde estavam. Bastava apenas chegar lá.

Caminhou solitário pelo resto da noite. O vento frio do deserto castigava seu corpo, obrigando-o a cubrir metade do rosto com sua velha roupa de tecidos negros. Enfim, alcançou o local almejado: um pequeno oásis perdido em meio às areias. Não havia nenhuma vegetação alta no entorno, apenas pequenos arbustos que aproveitavam a umidade das terras molhadas. Algumas rochas vermelhas também circundavam o pequeno olho d'água.

Ya'rub aproximou-se da água. Observou seu reflexo, produzido pela luz da Lua. Sorriu novamente naquela noite, pois lembrou-se de seu primo Enki, o Senhor do Abzu. Alguns povos do Crescente Fértil acreditavam que todos os rios e lagos se conectavam a um vasto oceano de água doce, o Abzu. O gentil Enki sentia-se conectado a este oceano subterrâneo.

Como saber a Verdade? Como atingir o vasto oceano subterrâneo? Talvez ele não exista aqui, nesse mundo limitado de carne e poeira, mas ali, do Outro Lado. Além do Véu...

Ya'rub mentalizou Enki, seu primo. Fechou os olhos e visualizou sua pele translúcida, seu sorriso peculiar, seus cabelos sempre úmidos. Olhou-o nos seus olhos sempre abertos. Sentiu novamente seu cheiro de água doce. Pediu sua ajuda, para que seus espírito o guiasse por aqueles que são seus domínios. E desejou, do fundo de sua alma mortal, que onde quer que esteja, Enki estivesse bem. Em seguida, abriu novamente os olhos. Pegou uma pequena lâmina e vez um corte no próprio pulso. Uma densa gota de seu sangue cai lentamente na água, espalhando-se em um padrão que só Ya'rub conseguia enxergar.

Devagar, o Feiticeiro coloca os pés na água, sentindo a temperatura fria tocando seus calcanhares. Ele vai adentrando o pequeno lago e, conforme afunda, começa a pensar no jovem casal que viu pelas estrelas. Se Enki o guiasse pelo Abzu, chegaria até eles. Emergiria no corpo de água mais próximo...

... E se fossem dignos, Ya'rub lhes contaria sobre a Longa Noite.

Com isso, Ya'rub desaparece nas águas daquele oásis no deserto.

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Re: Interlúdio - Ya'rub

em Qua Jul 18, 2018 2:09 pm
Afundou entre as raízes submersas e para além delas. Tocou a terra úmida e se mesclou com ela, desfazendo seu ser em meio à pura essência do rio. Como estava longe seu irmão Enki! Aliás, a prole de Caim estava espalhada por todo o mundo. Ya'rub os sentia, como numa grande rede formada das infinitas águas. Logo depois, foi expulso violentamente rumo à superfície.

Estava em um outro oásis. Sentiu-se desorientado por um segundo, até sentir o cheiro de deserto. Estava em casa.

Não demorou muito, e seus sentidos divisaram o odor de fumaça, mesclado ao ar. Dali a identificar a iluminação, em meio ao horizonte obscuro, foi um simples passo.

Caminhou, entre as areias que lhe pareceram mais grossas que aquelas do seu deserto natal. Viu os animais noturnos que se aproximavam, somente para se afastar em seguida, amedrontados como eram da sua besta. Somente um chacal se aproximou. Vagou com Ya'rub e recusou-se a partir. Quando o Feiticeiro avistou o que pequeno acampamento, depois de minutos de caminhada, notou que ele ainda estava ali. E que não queria ir embora.

O grupo era de pequeno porte. Três famílias nômades lavavam os pés dos gêmeos com leite de cabra. Eles estavam no centro, circundados por cabanas e cavalos. Diante de uma fogueira. Suas faces eram sérias, voltadas para o céu. Diziam palavras sem sentido para Ya'rub. Não identificava o idioma. Haviam crianças, idosos e adultos, todos em comunhão naquele momento. Ao longe, afastados, três homens sobre cavalos esperavam. Ya'rub intuiu que era a escolta dos dois irmãos.

E como eram belos vistos de perto!

Eram iguais e diferentes. A mulher tinha cabelos escuros e ondulados, que caíam pelas costas. A pele era morena, queimada de sol, e os olhos escuros encantadores. Ya'rub os viu, pois ela se girou em sua direção, mecanicamente. Vestia uma espécie de robe longo, mas de um tecido desconhecido por Ya'rub. O homem não era menos fabuloso. Usava um turbante escuro, feito do que parecia ser lã. Assim como as vestes que endossava. Seus olhos eram também escuros, sábios, e a barba era meticulosamente arrumada. Era mais escuro e, claramente, de um povo diverso. Ya'rub não tinha notado esta discrepância inicialmente. Poderiam ser gêmeos?

O homem também se voltou na direção do viajante. O chacal que acompanhava Ya'rub se adiantou, deitando sobre os pés banhados do homem. A mulher voltou-se novamente ao povo, que não pareceu perceber a presença de Ya'rub. Deu-lhes de comer, retirando grandes pães de uma sacola. De uma outra, retirou ânforas de barro que Ya'rub pressentiu ser uma bebida fermentada. Estava encantado com a mulher. Tanto que só percebeu que o homem se dirigiria a ele segundos antes de acontecer.

- Você é da terra entre os rios. É assim que vocês se comunicam ali. - Parecia estar se esforçando para recordar-se do idioma de Ya'rub - A viagem foi longa? Venha, temos um lugar para você. Temos água e alimentos, que nos foram dados pelos Deuses do Deserto, e gostaríamos de dividi-los contigo.



Ela



Ele
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Re: Interlúdio - Ya'rub

em Seg Jul 23, 2018 11:09 am
Ya’rub emergiu. Foi expelido violentamente do fundo da água, mas ao se dar conta que estava bem, caminhou devagar. A água escorria de seu corpo. Suas vestes estavam ensopadas. Os cabelos colados no rosto. Olhou para os céus e viu que não estava mais no oásis por onde entrou. Sorriu.

Havia funcionado. O ritual havia funcionado perfeitamente! Por um momento, antes de prosseguir, Ya’rub contemplou a água que se mexia devido ao movimento que se próprio corpo gerara. Enki estava certo, afinal. Há uma conexão, uma grande oceano que liga toda a água doce em um só ponto. Onde está esse oceano? O Feiticeiro não sabia. Não fazia ideia, mas por princípio, o feitiço funcionou. Seu Sangue fora poderoso o suficiente para ativar a conexão mística entre as águas. Com o tempo, pensaria mais sobre este ritual. O aperfeiçoaria. Anotaria seus detalhes e o ensinaria para seus... filhos.

Ya’rub voltou a pensar em Haqim e na missão que este havia lhe dado. Era para isso que cruzara o Abzu, afinal. Para encontrar os irmãos que vira enquanto viajava pelas estrelas. Encontrá-los e conhecê-los. A partir daí, não sabia o que poderia acontecer. De uma forma ou de outra, o Feiticeiro sabia que tanto eles quanto a si mesmo aprenderiam algo esta noite.

Caminhou em direção à caravana onde sabia que estavam. A água que escorria de suas veste pingava no chão de areia grossa, deixando um rastro úmido por onde passava. Observou o curioso chacal que também o acompanhava. Não havia medo nos olhos daquela criatura, o que era estranho, de certa forma. Um indício de que estava preste a ter um encontro especial. A presença do animal também o lembrou do Ghül e, consequentemente, do Djinn. Há anos não os sentia, apesar de saber que ainda existiam. Voltariam em algum momento. Ya’rub apenas sabia disso. Sabia também que tinha saudades.

Quando se aproximou e foi convidado pelos jovens a se sentar, Ya’rub já estava encantando com a presença deles. Não tirava os olhos da moça, com sua beleza simples do deserto. Mas podia sentir e ouvir o jovem rapaz, com sua bela voz e sabedoria. Como poderiam ser irmão se eram tão diferentes? Ao mesmo tempo, sabia que havia uma ligação entre ambos. Algo que ainda não conseguia determinar, mas estava lá.

Viu também que havia uma troca ali. As pessoas vinham e ofereciam suas adorações, mas recebiam pães e bebida dos jovens. Interessante, pensou Ya’rub. Talvez as coisas sejam mais complexas do que parecem...

Quando o rapaz lhe dirigiu a palavra, Ya’rub respondeu, porém sem tirar os olhos da mulher:

- Foi uma rápida viagem por um longo caminho, meu rapaz. Vim conhecê-los, pois as estrelas me apontaram onde vocês estavam.

Em seguida, Ya’rub se vira para o homem e sorri:

- Agradeço a gentileza, mas terei que recusar esta parte de sua hospitalidade. Digamos que há muito tempo fiz um voto que me restringe a alimentação.

O Feiticeiro continua sorrindo e faz uma simples reverência para os irmãos:

- Me chamo Ya’rub Bani Qahtani. Tenho a honra de conhecê-los. Qual seria a sua graça e de sua irmã?

Enquanto aguarda a resposta, o Feiticeiro alterna o olhar entre os dois, perscrutando-os para enxergar suas almas e descobrir mais sobre eles.
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Re: Interlúdio - Ya'rub

em Seg Jul 23, 2018 11:32 am
Ao redor de ambos vibrava uma energia azulada, muito semelhante uma a outra. Ao redor desta, lampejos de dourados se insinuavam, sugerindo uma profunda experiência espiritual, fosse naquele momento, fosse em geral. A mulher sustentou, em silêncio, o olhar de Ya'rub. O homem insistiu que o cainita o acompanhasse em direção ao centro do acampamento. Foi bem recebido pelos mortais. Era um situação surreal: ou os mortais desconheciam sua natureza ou ignoravam completamente seu significado. Os homens e mulheres abriram espaço para que ele se sentasse em meio a eles, diante dos dois irmãos. A mulher não tirava os olhos de Ya'rub. Mas foi o homem quem começou.

- Sou Abam. Minha irmã, muito mais sábia do que eu é Manu. Nos encontramos, sob as graças dos Deuses, e espalhamos o conhecimento do que é visível e do que é invisível por entre as tribos do deserto. Todas as línguas são minhas para falar, e todos os pensamentos são claro a Manu.

De fato, Ya'rub sentia como se a mulher estivesse lendo seus pensamentos. Não sabia se isso era sequer possível, mas era uma sensação permanente, sustentada pelo olhar de Manu.

O homem continuou.

- É um prazer. Conhecê-lo, Yarub Bani Qahtani.

A mulher interrompeu. Sua voz era forte, porém calma, e concentrou-se em uma única palavra, dita na língua de Ya'rub.

- Não.

O homem imediatamente corrigiu suas palavras.

- É um prazer reencontrá-lo, Ya'rub Bani Qahtani, pois em outra vida nos conhecíamos e caminhamos juntos.

A mulher passou a olhar em um ponto distante, por cima dos ombros de Ya'rub. De pé, longe do círculo de mortais, estava um homem. Era pálido, mas não como um cainita, mas, verdadeiramente, como um cadáver. Tinha o porte de guerreiro e cabelos escuros e curtos. Estava inteiramente nu e no lado esquerdo do peito, sobre o coração, supurava uma ferida grande, avermelhada, única coisa que destoava de seu monocromatismo. Tinha uma barba escura e também suja de sangue. Os olhos eram castanho esverdeados, donos de um brilho intenso, sobrenatural.

Manu voltou-se para Ya'rub.

- Guia.

Abam traduziu. Era como se cada vez em que ela falasse uma grande verdade fosse, subitamente, visível aos olhos e mente do irmão.

- O que minha irmã quer dizer é que, na ausência dos espíritos que outrora guiavam a ti, Bani Qahtani, o Homem Morto servirá como teu guia e conselheiro de hoje em diante. O Ghûl e o Djiin não retornarão. Ao menos não da forma como você espera que retornem.

A mulher abriu um sorriso, observando Ya'rub. Era um sorriso conhecido. Moveu as mãos e o Feiticeiro notou que as unhas dispunham de pequenas argolas de metal.
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Re: Interlúdio - Ya'rub

em Qua Jul 25, 2018 12:18 pm
Ya’rub ficou alguns segundos em silêncio, embora tenha parecido uma eternidade. Alterava o olhar entre o sorriso de Manu, as argolas de metal em seus dedos e os olhos serenos de Abam. Estava atônito. Lentamente, virou o rosto para observar o perturbador Homem Morto que estava parado logo atrás. E então veio o clique, como se um antigo enigma fosse resolvido na mente do Feiticeiro.

O silêncio foi quebrado pela gargalhada de Ya’rub. Há muito tempo que não ria dessa forma, desde a noite em que Ilyas os presenteara com aquela visão. Novamente, o Universo mostrava a Ya’rub como tudo poderia ser maravilhoso e surpreendente. Não importa quão sábio um homem seja, ou quanto conhecimento ele consiga reunir: sempre haverá o mistério para surpreendê-lo.

Ya’rub começou a se recompor do surto de risos. Levantou-se um pouco, o suficiente para conseguir tocar a face de Abam:

- Mas como é possível? São vocês? Vocês! Depois de todos esses anos em que não apareceram, é aqui que os encontro! Isso é... isso é incrível! Eu os sentia. Sabia... sabia que estavam por perto. E o motivo pelo qual não estavam comigo era tão simples... tão singelo... Vocês estavam vivendo e crescendo!

De pé, Ya’rub caminha de um lado ao outro, não conseguindo conter sua empolgação.

- E vejam o que se tornaram! Vejam que preciosas criaturas vocês são! Pois não haveria de ser diferente, não é verdade? Almas tão antigas...

Ele para. Fecha os olhos. Devagar, volta-se para Manu e senta em frente a ela:

- Por favor... digam-me como. E digam-me porquê! Por que seguiram esse caminho? O que aconteceu para que decidissem tomar forma nesta terra tão... tão... limitante? O que pretendem fazer nesse breve momento de tempo que terão para caminhar entre os mortais?

Então, Ya’rub se levanta novamente. Como uma criança curiosa e um pouco assustada, caminha lentamente em direção ao seu novo companheiro, o Homem Morto.

- E tu? Quem és tu? Por que decidiste me guiar?
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Re: Interlúdio - Ya'rub

em Qua Jul 25, 2018 12:40 pm
Os irmãos não responderam. Ya'rub voltou-se para o homem morto, que o encarava solenemente. Diante da pergunta do Feiticeiro, seus olhos esmeraldas se tornaram vermelhos. Ele abriu a boca lentamente, e a ferida sobre seu coração pulsou funesta, vertendo sangue que pareciam rios. Não. Eram rios. Todos os rios do mundo confluindo em uma única poça de Sangue. Um trovão cortou a planície, os gêmeos não estavam mais ali. Ninguém estava. Somente Ya'rub e o homem morto que, com uma naturalidade angustiante, falou:

- Eu venho pois trago a morte.

E, algum lugar do mundo, alguma grande montanha se rompeu, libertando uma força ancestral e desconhecida. Ya'rub flutuava no nada, mas as montanhas choravam copiosamente ao seu redor, alimentando os rios com sua lágrimas carmesim. Os membros de Ya'rub foram estendidos no firmamento, e seu ventre foi aberto. Abaixo dele, Haqim bebia o Sangue de suas entranhas, e vomitava-o, depois de digerido, na boca de um pequeno falcão escuro, sem penas, como se tivesse sido carbonizado. E as nações do mundo, que existiam e que viriam também choravam, pois seriam destruídas sob a Garra do Falcão.

Ya'rub sentiu que seu próprio Sangue alimentava o Falcão e que por isso o Falcão era também uma parte dele, assim como Jamal era parte dele, pois estavam ligados por Haqim. E o Falcão falava obscenidades e blasfêmias, enquanto bebia o Sangue do crânio da Prole de Haqim sentado em seu trono escuro.

Diante de Ya'rub. Os gêmeos. O homem morto estava ao seu lado. O povo tinha partido, pois uma fina chuva começava a cair. Ya'rub teve a impressão de que os céus choravam sangue. Manu cortou o silêncio.

- Ciclo.

Seu irmão traduziu.

- Nós fomos destruídos quando a morte tocou a tua raça, pois o mundo dos mortos foi sacudido violentamente. Mas nós optamos por retornar, pois você necessita de nós. Não pergunte como. Um chamado, uma voz que nos retirou do turbilhão. Um homem. Laodice.

Ela olhava fixamente para Ya'rub. Havia um ódio escuro mas um profundo respeito em seus olhos.

- Homem.

- O Homem Morto pôs-se ao teu lado pois tu deves ser protegido. Obviamente, ele tem interesses próprios e, assim como nós, tentará estar próximo de você para ter acesso à carne. Você é como um portal, Ya'rub. - Traduziu o irmão.

Em seguida, foi a vez do Homem Morto falar. Sua ferida tinha deixado de pulsar. Os olhos eram novamente verdes.

- Você viu. Você viu a batalha que virá. Você não tem aliados, tua família não lhe dará ouvido. O que farás? Seus únicos aliados somos nós. Traga cada um de nós para a Noite Eterna. Só assim terás teu exército para enfrentar o Pastor de Haqim, quando for chegada a hora.




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Re: Interlúdio - Ya'rub

em Seg Jul 30, 2018 5:49 pm
Após ouvir as respostas, Ya’rub manteve os olhos fechados. Estava sério. Não sorria. De tudo aquilo que acabara de ver, ouvir e sentir, era uma frase que mais o perturbava.

Você não tem aliados, tua família não lhe dará ouvidos.

As palavras do Homem Morto giravam de modo contínuo em sua mente. Por que? Por que sua família o abandonaria? O que poderia fazer de tão errado, após seguir fielmente os pedidos de seu Pai, que o colocaria como um pária diante dos seus irmãos? E Haqim? Por que Haqim o deixaria de lado e permitiria que tal calamidade viesse a acontecer?

Foi então que Ya’rub lembrou-se das palavras de seu Pai, quando estavam em meio ao turbilhão que foi a visão proporcionada por Ilyias no Trono Negro

Aconteça o que acontecer eu confio em ti para liderar a minha casa. Em ti. Somente, exclusivamente em ti.

Aconteça o que acontecer... Ya’rub sabia que deveria confiar em Haqim. Deveria seguir com aquilo que lhe foi ordenado, porque somente o Pai teria autoridade para julgá-lo. Ainda não sabia quem era o Falcão. O Pastor de Haqim. Mas quem seria ele diante do Pai? Ya’rub não precisava de um Pastor para seguir Haqim. Nunca. Ouviu a verdade vinda da boca do próprio Caçador. Canalizara Seu Sangue.

Ya’rub abriu os olhos e, ao fazê-lo, sentiu o Medo invadindo seu corpo. Ainda não estava preparado para aquilo que acabara de ver, mas se prepararia. O Medo o deixaria pronto, como sempre o fez. E quando o Medo o dominasse, tomasse cada fio de cabelo de seu corpo, não haveria nada neste Mundo e em qualquer Mundo por vir que o pegaria desprevenido.

Foi só então que voltou a sorrir. Olhou primeiro para Abam e em seguida para Manu. Com os olhos fixos nela, disse:

- Inicialmente, deixei que as estrelas me trouxessem até aqui pois queria ver se os gêmeos eram dignos de receber a Maldição da Noite. Ao chegar, encontrei muito mais do que imaginei.

Assumiu um tom sério para continuar.

- Quando soube quem eram de fato, hesitei. Vocês, mais do que ninguém, sabem que a maldição vai retirá-los do ciclo. Aqueles que são como eu somos criaturas de êstase e morte. Não reencarnamos e somos detestados pela maioria daqueles que vivem no Mundo Além do Véu.

Ya’rub olhou para o chacal que ainda estava deitado aos pés de Manu.

- Apesar disso, não posso negar que tenho uma imensa curiosidade em saber o que o Sangue de Haqim trará para almas tão antigas. Eu acredito nas palavras do Homem Morto. Sei que aliados como vocês serão imprescindíveis. Porém... - Ya’rub hesita por alguns segundos - Não posso fazê-lo se não for sua vontade. Me recuso. E quero que saibam de todas as consequências que isso poderá trazer.

Gentilmente, Ya’rub toma as mãos dos dois irmãos. Ele as segura com força, porém de modo não agressivo, demonstrando o quão preciosos eram.

- Ademais, nunca fui senhor de vocês. E nunca serei, mesmo que compartilhem do meu sangue. Serão livres. Mas repito: essa deverá ser sua escolha. O que me dizem?
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Re: Interlúdio - Ya'rub

em Ter Jul 31, 2018 6:15 am
Ainda chovia sobre Ya'rub, Manu e Abam quando o Feiticeiro terminou de falar. O Homem Morto estava de pé, mas não se molhava. Os irmãos continuavam sentados, olhos fixos no semblante preocupado de Ya'rub. Abam sorria, um sorriso terno. Manu estava séria. O cheiro de terra molhada teimava em invadir as narinas do cainita e alguns relâmpagos começavam a cortar os céus escuros. Havia música nas barracas, o povo celebrava a chegada da chuva, ainda que não fosse a estação dela. Um dado curioso também para Ya'rub. Foi Manu quem, novamente, rompeu o silêncio.

- Escolha.

Seu irmão foi mais profundo.

- Nós não sabemos a razão de estarmos aqui, neste momento e nesta situação. A única coisa que ouvimos é a voz do homem. Levou muito tempo até que nos reencontrássemos, eu e Manu. Vagamos pelo mundo até o dia em que nossos caminhos se cruzaram. Eu sou o único capaz de entendê-la, de entender suas palavras e pensamentos. Sua Sabedoria é infinitamente superior à minha. Era ela quem te via em memória cinzentas e nubladas, o homem ao qual nós deveríamos encontrar e proteger, como havíamos feito em uma outra vida, agora tão distante.

Manu observava Ya'rub. Sua voz cortava o silêncio como uma faca afiada, uma palavra por vez.

- Futuro.

- Não é uma coincidência que tenhas nos encontrado, assim como não o é o fato de que Manu sonhava constantemente contigo. Nosso tempo como guias etéreos se foi. Devemos estar ao teu lado no futuro que virá pois, por alguma razão, estamos ligados. Pois tu estás ligado aos espíritos, Ya'rub, a muitos deles, que se sucederão como teus guias, quando a função dos anteriores tiver se esgotado. Exatamente como, agora, o Homem Morto se torna nosso sucessor.

Manu finalmente se levantou. O chacal, que parecia não se incomodar com a chuva, levantou-se e deitou-se aos pés de Ya'rub. Manu não era alta, não era particularmente impressionante fisicamente. Emanava, porém, uma aura etérea, como se o Mundo dos Espíritos com ela falasse. De fato, Ya'rub percebeu, a cada vez em que a mulher falava era como se uma enxurrada de conhecimento invadisse a mente de seu irmão, que sofria transes quase imperceptíveis antes de falar.

- Sangue.

- O Sangue que nos oferece nos colocará para sempre em um estado suspenso. Cortará nossa ligação com o mundo. Pouco a pouco, esqueceremos muito do que sabemos, muito do que fomos antes de ser o que somos, enquanto nos adaptamos a uma existência sem fim. Mas muito aprenderemos, Ya'rub. Não se preocupe. O Homem Morto estará aqui para instruir-te, assim como estarão outros depois dele.

Manu se aproximava de Ya'rub. Por detrás da mulher indefesa, o Feiticeiro viu o Ghûl. Malicioso, perverso. Sábio. Necessário.

- Pastor.

Abam levou a mão à cabeça, como se sentisse uma pequena dor, antes de continuar. O Homem Morto pareceu se agitar.

- Nós o vimos. Nós vimos o que virá. Vimos o que há nele, o que ele significa. Teu irmão, o Pastor. A quem Haqim confiou uma grande tarefa, a de unificar o Inimigo e fazê-lo vulnerável. E a ti confiou a missão de impedi-lo, caso as coisas fujam de controle, caso o peso dos séculos se abata sobre o teu Ancestral. Desconfio que Laodice nos chamou sob instruções de Haqim. Pois são os espíritos quem te ajudarão em sua tarefa, Ya'rub. Nós e todos os outros que virão, que se tornarão carne imortal quando seu tempo como guias tiver acabado.

O Homem Morto encarava profundamente Ya'rub. Parecia ansioso. O céu parecia girar sobre a cabeça do Feiticeiro. O nariz de Abam começara a sangrar. Ya'rub sentia que o que quer que estivesse fazendo antes, Haqim tinha terminado. O mundo não era mais o mesmo. Tinha Medo, algo espreitava no horizonte escuro. A última palavra foi de Manu.

- Faça.


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Re: Interlúdio - Ya'rub

em Qua Ago 01, 2018 2:17 pm
Em silêncio, Ya’rub se levantou. Caminhou para fora da tenda, permitindo que a chuva caísse sobre si, molhando ainda mais suas vestes que já estavam ensopadas pela viagem entre as águas. Olhou para os céus, que de tempos em tempos era iluminado por um raio que percorria sua imensidão. Sentia, no fundo de sua alma, que o mundo chorava pelo nascimento de seu mais novo irmão.

O Pastor de Haqim.

Ya’rub havia entendido. Foi tomado por uma sensação estranha. Um misto de medo, raiva e compaixão pelo irmão que ainda não conhecia. Haqim havia designado aos dois, ao Feiticeiro e ao Pastor, duras e difíceis missões. Caberia a Ya’rub acompanhar e avaliar seu mais novo irmão. Caberia a ele exercer com um membro do seu Sangue a mesma incumbência que sua Família recebera na Segunda Cidade: julgar.

Ainda contemplando a chuva que caia dos céus, Ya’rub sorriu. Sentiu uma satisfação legítima. Ao contrário do que havia pensado, o Pai não o abandonara. Tratava-se do oposto: confiara à Ya’rub mais uma importante missão. E, mais uma vez, ele a cumpriria de maneira diligente. Esperava apenas que Haqim tivesse tomado a decisão correta...

Enfim, estava decidido. Retornou à tenda onde estavam Manu e Abam. Subitamente, todos os seus movimentos tornaram-se rápidos, precisos e calculados. Não sorria e seu tom de voz, apesar de baixo e gentil, era revestido de certeza. Virou-se para o Homem Morto:

- Hoje serão eles. Quando você estiver pronto, terá sua vez.

Buscou entre os pertences espalhados na tenda dois grandes recipientes, com volume suficiente para comportar todo o sangue que um homem adulto pudesse carregar. Gentilmente, posicionou Abam e Manu lado a lado, porém deitados de modo confortável. Abaixo do punho esquerdo dele e do direito dela, colocou os recipientes. Virou-se para eles:

- Aprendam uma das principais lições de meu Pai - e em breve Pai de vocês: o Sangue não deve ser desperdiçado. Jamais.

Sacou sua antiga espada e, em dois rápidos movimentos, abriu um talho nos pulsos de cada um dos irmãos. O Vitae escorria em profusão, preenchendo os recipientes que havia preparado. Mesmo saciado, Ya’rub se deliciava com o odor do Sangue que invadia o ambiente. Ele se sobressaia a todos os cheiros: da chuva, das pessoas, do deserto. O cheiro de Sangue era inebriante. Ainda assim, o Feiticeiro resistiu. Já tinha tudo planejado.

Ya’rub aguardou até que as últimas gotas do sangue de Manu e Abam se esvaissem. Olhava-os, atento à falta de cor que suas peles morena e negra, respectivamente, começavam a assumir. Quando o sangue parou de gotejar e os pulmões dos jovens pararam de se movimentar, Ya’rub agiu novamente.

Com as próprias presas, Ya’rub abre pequenos sulcos em seus dois pulsos, levando-os ao mesmo tempo às bocas de Abam e Manu. O Feiticeiro começa a falar, mesmo não estando muito certo se os gêmeos conseguiriam ouvi-lo.

- E agora, quando sentem que suas antigas almas abandonando seus novos corpos, prestes à retornar ao ciclo eterno, eu lhes dou meu Sangue. O Sangue de nosso Pai. O Sangue que é maldição, mas que pode ser tornar benção quando utilizado com sabedoria.

Ya’rub fecha os olhos, como se estivesse proferindo uma prece.

- Como eu disse, nós somos criaturas de morte e estagnação. Estamos alheios ao ciclo. Apenas o Sangue nos conecta com o mundo, pois ele conecta todas as coisas. O Sangue é nossa fonte de poder e o veículo de nossa força. Somos criaturas da morte, mas lembrem-se sempre que o Sangue é a vida. Respeitem-no, e ele lhes entregará parte do seu poder.

Dessa forma, Ya’rub aguarda até que suas novas crias despertem com a fome e a Besta em seus olhos. Estava pronto, pois já havia pensado nisso. Manu beberia do sangue vertido de Abam. Abam beberia do sangue de Manu.

- Despertem, companheiros. Despertem para a Longa Noite que nos aguarda. Vocês agora fazem parte de minha Família. A Família do Grande Caçador, assim chamado pois nunca se cansou de buscar a Verdade. Esta será sua nova missão. Despertem agora como Filhos de Haqim.

Ya’rub sorria, encarando com o respeito o Homem Morto.
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Re: Interlúdio - Ya'rub

em Sex Ago 03, 2018 2:02 pm
A única coisa que Ya'rub viu enquanto derramava seu Sangue nas bocas famintas de Manu e Abam foi Alamut. Ela se erguia diante dele, gloriosa e coroada, a mãe de todas as montanhas. Ya'rub viu uma águia cortar o céu e soube, instintivamente, que quando visse novamente o mesmo fenômeno teria encontrado o Ninho. Alamut que ameaçava todo o mundo com seu vigilância incessante. Que seria temida e invejada. Alamut convidava Ya'rub a avançar e descobrir seus segredos. Por um instante o Feiticeiro se recordou de Mashkan-Shappir. Era, assim como a Montanha, um local com vida e personalidade própria, ainda que opostas.

Fazia calor em Alamut e ao seu entorno. Um calor sufocante, que impediria que muitos inimigos encontrassem o Ninho da Águia. O céu ao redor da montanha parecia ainda mais escuro que o de que costume, ainda que ela brilhasse como um farol, com uma luz que somente os Filhos de Haqim poderiam ver. Ainda assim, pairava uma sombra oculta, que Ya'rub não sabia dizer se já estava ali ou se, eventualmente, alcançaria o local.

O Homem Morto assistiu a todo o processo aparentemente inabalado. Estava a uma distância respeitosa, permitindo intimidade ao Senhor e suas crias. Observava atentamente, contudo, o Sangue. Quando se ergueram, Manu e Abam, eram exatamente os mesmos, ainda que diferentes. Os olhos de Abam se moviam rápido, absorvendo o excesso de informações. Manu mantinha a cabeça baixa, fitava o Sangue nos vasos. Sob a instrução de Ya'rub, beberam, e o fizeram em maneira natural, como se o fizessem há mil anos. Decerto muito haviam observado dos hábitos de Ya'rub em uma vida passada. A Besta, contudo, se insinuou em seus olhos, somente para se perder nos de Abam mas se fixar nos de Manu. Quando terminaram, Ya'rub intuiu que Abam estava saciado. Manu, ao contrário, ainda tinha Fome.

Era possivelmente o momento mais importante de sua existência cainita, e deveria senti-lo em todas as suas nuances. Sua pele se havia arrepiado e era como se o seu coração quase tivesse tornado a bater. Algo corria em suas veias, pulsante e vibrante, forçando passagem pelas gargantas dos gêmeos. O Sangue era Vida, afinal, um segredo do qual só Haqim e seus Filhos entenderiam profundamente. O som baixo e contínuo como um eco, entretanto, continuava em sua mente. Alamut chamava Ya'rub continuamente, e ele sentia no fundo de seu peito uma saudade de um lugar onde jamais esteve. Alamut lhe parecia vizinha. Sabia que alguns dias de caminhada seriam suficientes.

Abam foi o primeiro a se erguer. Seus olhos escuros brilhavam, e as veias ainda pulsavam. A pele era mais brilhante. Dirigiu-se a Ya'rub.

- Aprendemos a respeitá-lo, Ya'rub. Eu vi o teu coração muitas vezes, e jamais me arrependi de guiar-te. Agora, você nos guia. Me parece uma troca justa.

Manu fixou Ya'rub. Seus olhos tremiam, era quase possível ver a névoa avermelhada que se insinuava por detrás deles.

- Guerra.

Abam traduziu:

- E estaremos contigo nas guerras em que lutarás. Ainda que seja irônico que sob o Sangue de Haqim, a quem tanto temíamos. Ainda que seus desígnios sejam inexpugnáveis. Nós ouviremos e aprenderemos, e tentaremos transmitir nosso conhecimento se nos for permitido.

Sentia que o sol ameaçava se levantar no horizonte. O Homem Morto não estava mais ali. Manu se levantou e, com um gesto inesperado, beijou a face de Ya'rub, tendo seu rosto entre as mãos frias.
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Re: Interlúdio - Ya'rub

em Seg Ago 06, 2018 5:04 pm
O coração de Ya'rub voltou a bater, ainda que por pouco tempo. Enquanto o sangue vertia de seus pulsos e era sorvido por suas novas crias, Ya'rub podia sentir a pulsação. Seu coração batia para que o Vitae se movimentasse em suas veias, mas o efeito era muito maior do que isso. Ele emitia um calor que esquentava seu peito, conforme tinha a realização de que não estaria sozinho.

A sensação de conforto aumentou ainda mais quando Ya'rub viu a águia. A visão da ave singrando os céus, como um barco num mar profundo, era o sinal de que estava próximo de casa. A casa que sua Família nunca conheceu, mas que sempre esteve lá para os receber. Alamut. A Montanha conclamava seu Sangue. Era como seu coração, pulsando. Alamut chama para si o Sangue dos Filhos de Haqim. E de lá, também como um coração, o Sangue pulsaria para o mundo. Alamut era o coração de sua Família, o abrigo do seu Sangue.

Ya'rub já sabia que, do alto do Alamut, os Filhos de Haqim observariam o mundo como a águia que lá repousa. Seriam rápidos, certeiros e implacáveis, tal como a ave de rapina. Da Montanha, continuariam desempenhando a tarefa que lhes foi designada pelo Pai. Missão essa que ele mesmo recebera de seus irmãos.

Ouviu, com um sorriso no rosto, as palavras e votos de seus agora filhos. Recebeu o beijo de Manu e o retribuiu com um beijo na testa. Em seguida, dirigiu-se a Abam e fez o mesmo. Voltou seu olhar para Manu, contemplando a Besta que o observava. Era como se o Ghül houvesse encontrado seu novo lugar. Disse, olhando-a, ainda que falando aos dois irmãos:

- Ouçam-me, meus companheiros, pois este é um dos ensinamentos daquele que é nosso Pai. Somos assombrados pela Fome. Ela nos impele a sermos menos do que de fato podemos ser. Algo pouco distinto do que meros animais. Nunca, jamais, sucumbam à Besta e sua fome. Respeitem o Sangue que agora corre em suas veias.

Ya'rub caminha um pouco para fora da tenda, deixando a chuva cair sobre si mesmo. Ele aponta para os mortais que estavam por perto:

- Os descendentes de Set não são como gado. Não devem ser abatidos para aplacar nossa Fome. Tomem apenas o necessário. E os protejam da Besta que controla os demais amaldiçoados. Façam isso, e teremos os mortais como aliados.

O Feiticeiro volta ao abrigo da tenda. Repousa as mãos nos ombros de Manu e Abam.

- Logo o Sol voltará ao firmamento. Assim como nós devemos ser com nossos inimigos, ele é implacável com todos os Cainitas. Busquemos um abrigo contra seu abraço, pois amanhã temos uma nova missão. Iremos para casa.

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Re: Interlúdio - Ya'rub

em Ter Ago 07, 2018 2:53 pm
Repousaram em um pequeno vale escavados entre os montes que circundavam o Norte daquela região, na direção de Alamut. Caçaram juntos e beberam das grandes feras que rondavam a noite, muito mais por insistência de Manu, que desejava ver o que podia fazer, do que pode Sede propriamente dita. Manu se movia como um relâmpago, demonstrando a afinidade do Sangue de Haqim com a velocidade. Abam, por outro lado, era de índole mais pacífica, quase asceta. Pouco bebeu, concentrando-se nos sons emanados pela noite. Seus olhos brilhavam com a Visão.

A noite chegou depressa. Prosseguiram. Ya'rub sentia que estava se aproximando a cada noite em que esse ritual se repetia. Dormir, levantar-se, viajar. Era a intuição de Manu que indicava o caminho a seguir, além do seu conhecimento sobre a região. Seguiram caminhos tortuosos para conseguir refúgios e a demora gerava uma forte ansiedade em Ya'rub. Eram agradáveis, porém, aqueles momentos em que imaginava como seria sua casa.

E então sentiu Haqim. Haqim pulsava em sua veias e elas depositavam o Sangue em uma outra boca. Ya'rub se sentiu seu espírito flutuar novamente, mas no geral a sensação foi muito mais breve do que aquela vivida sob a tempestade. E diferente, nitidamente diferente. Ya'rub sentia uma força feminina a correr no Sangue, diferente daquela de Manu. Se surpreendeu ao perceber que conseguia sentir sua família em suas veias.

A caminhada levou algumas semanas. Por fim, Ya'rub sabia que havia chegado. As estrelas brilhavam forte no céu e a lua estava invisível. Um vento frio soprava. Estava diante de uma vasta planície, limitada, ao fundo, por duas grandes montanhas que pareciam miragens. Era seca e estéril, sem nenhum sinal de vida ou vegetação. Havia uma calma impressionante no ar. Nenhuma sensação mística, nenhum desprendimento de energia. Era a sensação de tornar ao lar depois de uma longuíssima viagem. Pertencimento. Ya'rub percebeu que Abam e Manu pareciam sentir o mesmo. O Sangue de Haqim chamava seus filhos à casa.

Ouviu, então o som que esperava.

Uma águia cruzou os céus escuros. Era majestosa, escura, acinzentada. Ya'rub conseguia ver os olhos amarelados, as garras escuras e afiadas. Acompanhou o voo do animal até que ele diminuiu a altitude, pousando bem diante dos olhos dos cainitas, sobre uma lança extremamente familiar que repousava no chão.

A Lança de Haqim.

Ya'rub sabia o que fazer.


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Re: Interlúdio - Ya'rub

em Qui Ago 09, 2018 11:20 am
As noites iam passando e, em cada uma delas, Ya’rub sentia o Sangue de sua Família pulsando em suas veias. Haqim recrutava novos filhos.

Ya’rub sabia que sua tarefa se tornava mais urgente. Todos eles precisavam de uma casa, pois Nippur não lhes servia mais. Era isso que o impulsionava. Desbravaram o deserto, ele, Manu e Abam, em busca da montanha que abrigaria os Filhos de Haqim.

Foi então que, naquela noite, depararam-se com a insólita cena.

Quando Ya’rub e seus mais novos filhos sentiram o calor do lar em seus corações, foram surpreendidos pela visão: ali, em um horizonte desolado, perdida no deserto pedregoso de terra avermelhada, estava a Lança de Haqim. A mesma que o próprio Feiticeiro havia portado enquanto visitara Mashkan-Shapir. A mesma com a qual havia perfurado Tanith.

A arma o chamava. Era como se pulsasse no mesmo ritmo do Sangue que estava em suas veias mortas. Foi nesse instante que Ya’rub se deu conta: o vitae corria dentro de seu corpo, como se vivo estivesse. Corria como um rio de energia, conectando-o com todas as coisas do universo.
Estendendo os braços para segurar Manu e Abam, Ya’rub os impede se prosseguir. Ali, parados e em silêncio, contemplam por alguns minutos a cena da águia pousada sobre a lança. Apenas o vento noturno se fazia ouvir, levantando poeira e balançando suas vestes.

Com a metade inferior do rosto coberta por tecidos negros, Ya’rub fala para seus filhos, sem desviar seu olhar da águia.


- Aguardem aqui. Não avancem nem mais um passo. – Vira-se para eles antes de prosseguir, sorrindo – E observem.

Lentamente o feiticeiro caminha para o ponto da planície onde estava a lança. O vento vinha em breves lufadas, fortes o suficiente para fazer com que se curvasse e protegesse os olhos da poeira. A cada passo, sentia o Sangue correr ainda mais rápido em suas veias, como se fosse novamente mortal. Um mortal que corria sozinho pelo deserto, esforçando-se ao máximo.

Mas Ya’rub estava morto e caminhava devagar. Era outra coisa que movia seu Sangue. Uma força que estava além do seu corpo, mas que por ele passava. Pois percorria em tudo e em todos.

Abaixou-se, fitando a majestosa águia que também o mirava com olhos profundos. Agachado, Ya’rub estende a mão direita para a ave. Era um gesto estranho e hesitante, como se duvidasse que ela realmente estivesse ali. Subitamente, a águia bica sua mão, abrindo um ferimento profundo em sua palma. Em seguida, ela voa em círculos, deixando o feiticeiro só no chão, tendo apenas a lança à sua frente.

Ya’rub olhava para sua mão ferida. Um grande rasgo rubro a percorria na diagonal. Lentamente, o Sangue vertia e pingava em grossas gotas no chão do deserto. Ali onde caia, uma poça começava a se formar. Tornava-se sobrenaturalmente grande, assim como a quantidade de vitae que escorria de sua mão aberta.

Foi aí que Ya’rub entendeu. O Sangue que jorrava de si não era seu. Era o Sangue de sua Família. O Sangue de seus irmãos, de seus filhos e sobrinhos. De todos os Filhos de Haqim que existiam e viriam a existir. Era o Sangue de Ya’rub, mas também era de Mancheaka, de Nakurtum e de Rashadii. Era o Sangue de Jamal e de Sharhiri. Também era o Sangue do Pastor e da nova irmã que sentira nascendo poucas noites atrás. Acima de todos, era o Sangue de seu Pai que se derramava no solo do deserto.

E Ya’rub sabia que nenhum Sangue deveria ser desperdiçado. Com a mão ferida, ele pega a Lança de Haqim que ainda estava no chão. Levanta-se, olhando para a lâmina que emitia um brilho fraco, refletindo as estrelas e seu próprio rosto. Era estranho, pois só agora Ya’rub percebia que nenhum espírito estava por ali. Pelo reflexo na lança, apenas o Homem Morto olhava por sobre os seus ombros.

Os espíritos não se faziam presentes, mas Ya’rub sabia que estavam a postos para quando fossem convocados. Pois Ya’rub também sabia que o faria em breve.

Ya’rub segura a lança de seu Pai com as duas mãos, deixando a ponta voltada para o solo. O Sangue de sua mão escorria pela haste, rapidamente chegando à lâmina, que se enfeitava com um feixe do líquido escarlate. As gotas continuavam pingando, agora pela ponta da arma em direção à poça que continuava aumentando no chão. Ya’rub ainda observa, parado naquela posição, enquanto três gotas caiam. Então, com um rápido movimento, ele crava a lança de Haqim no solo do deserto, bem ao centro da poça de Sangue.

Silêncio. O próprio vento que corria pela planície estava parado. Nada, em nenhum dos lados do Véu, se movia. Por um momento que pareceu uma eternidade, tudo ficou como estava: congelado. Até que, aos poucos, uma singela fumaça rubra começou a subir da poça de Vitae no solo. Em seguida, o próprio chão começa a vibrar abaixo dos seus pés, levantando pequenas partículas de poeira. Começou devagar, mas logo, não eram mais partículas, e sim grandes pedaços de terra sendo lançados ao céu. Segurando a lança com ambas as mãos, Ya’rub avançava para dentro do solo, a força que emanava da lança movendo-o em direção ao núcleo da terra ao mesmo tempo em tudo ao seu redor era jogado para cima, formando uma grande cratera na planície do deserto.

A força do deslocamento era tamanha que fazia com que seus cabelos e vestes voassem, como se estivesse em meio a uma poderosa tempestade de areia. De fato, pequenos grãos que tocavam em seus braços, pernas e rosto já eram suficientes para abrir pequenos cortes.

A cratera tomava proporções gigantescas, tanto em diâmetro como em profundidade. Ya’rub compreendeu então, que a montanha que seria Alamut não era literal. Alamut era a montanha sobre a qual os Filhos de Haqim observariam todos aqueles que se diziam descendentes do Sangue de Caim. Como as águias que no alto dos picos fazem seus ninhos, eles desceriam em voo rasante, mas para abater os que forem julgados indignos de caminhar sobre a terra.

Alamut não seria um quartel, no qual se abriga um exército. Pois os Filhos de Haqim eram mais do que isso. A guerra a ser travada não seria aberta, mas discreta. Não seria rápida, mas duraria por milênios. Aqueles do seu Sangue destinados à luta seriam como salteadores: poucos e eficientes, surgindo no silêncio e na escuridão para rapidamente eliminarem seus inimigos.

Alamut também não seria apenas uma biblioteca, onde o conhecimento é acumulado. Pois não seriam uma família de meros bibliotecários. O Ninho da Águia será uma casa do saber, onde tudo o que se conhece e ainda virá a ser conhecido sobre o mundo será usado para a compreensão e evolução do todo.

Alamut tornaria-se tudo isso, mas seria, acima de tudo, um lar. O único local em todo o Universo onde os Filhos de Haqim finalmente irão se sentir em casa. Seguros e entre irmãos.

Ao pensar nisso, Ya’rub olhou brevemente por cima do ombro e percebeu que algo estava acontecendo. Sobrenaturalmente, parte da terra e areia que eram deslocados pela força da lança para formar a cratera flutuavam acima de sua cabeça. Era como se, ao mesmo tempo em que Alamut era escavada pela lança, o solo acima de si se fechava. Ya’rub compreendeu que o Ninho da Águia se abria aos Filhos de Haqim, mas já tomava as precauções para se ocultar do resto do mundo. A montanha ficaria abaixo da terra.

Subitamente, a Lança de Haqim parou. O solo flutuando a centenas de metros acima de si terminou-se de fechar, mergulhando Ya’rub na escuridão total. Ele ainda sentia a haste da arma em suas mãos. A poça de vitae continuava sob seus pés. Havia apenas o cheiro de terra e de sangue. Em sua mão direita, a ferida aberta continuava a verter o líquido carmesim, que descia pela lança.

Em silêncio, Ya’rub se ajoelha, molhando com sangue suas vestes empoeiradas. Com a mão ferida, continuava a segura a arma de seu Pai. A mão esquerda, por sua vez, é levantada em direção aos céus que sabia estar acima de sua cabeça. Ele começa a sussurrar algo. Ya’rub sabia que eles estavam ali, prontos para quando fossem chamados. Usando a força de seus dons, o Feiticeiro fala a língua dos espíritos e convoca as estrelas, as nuvens e a terra, propondo um acordo. Aos corpos celestes, ele pede que mantenham sua vigília sobre Alamut, para que Haqim e seus filhos possam sempre manter com eles uma conversa. Às nuvens, Ya’rub pede que nunca interrompam a passagem das estrelas. Por fim, à terra ele pede o maior dos sacrifícios. Mesmo em sua solidez, os espíritos da terra deverão ser como as nuvens, permitindo às estrelas mostrar sua face dentro do Alamut, para todo o sempre. As estrelas, e somente as estrelas do firmamento noturno, terão livre passagem pela terra. Esta, contudo, continuariam exercendo sua força para barrar o sol. Em troca, Ya’rub permitiria à terra alimentar-se diretamente do coração de sua Família.

Ya’rub abaixa seu braço esquerdo, sinalizando a celebração do acordo. Com a conclusão do gesto, a escuridão do subsolo começa a se dissipar, conforme a luz das estrelas vai magicamente iluminando a cratera. Cansado, o Feiticeiro sorri. Aquele seria o vão central do Alamut, ao redor do qual os Filhos de Haqim se organizarão e através do qual os sábios entre os seus irão ler os corpos celestes.

Ele se levanta, apoiando-se na Lança de Haqim tal como se fosse um cajado de andarilho. Esta continuava fincada na terra, com a poça de sangue ao redor da lâmina. Ya’rub fecha os olhos e encosta a testa na haste de madeira. Em sua mente, desenhos começam a se formar, tal como em uma tabuleta de um arquiteto. Ele sussurra, novamente convocando os espíritos da terra. Ya’rub permite que eles acessem seus pensamentos, para que façam em terra, pedra e poeira aquilo que existe apenas em ideia.

Ya’rub não vê, pois mantém os olhos fechados durante o processo. Mas ao longo de algumas horas, o solo sob o deserto como se em um terremoto estivesse, conforme a terra vai ganhando as formas de uma grande estrutura subterrânea. Ali, grandes cômodos vão surgindo, com amplos túneis interligando-os. Câmaras que abrigariam tabuletas, papiros e todas as formas possíveis para se armazenar conhecimento. Abrigos para seus irmãos, bem como para todos os seus descendentes.

Os tremores param e Ya’rub abre os olhos para contemplar a maravilha que havia sido criada. No meio do Vão Central, ele girava, sorrindo como uma criança. Ao redor de si, ali estava: Alamut, o Ninho da Águia. Escavado em rocha e terra pela força de seu Pai, moldado pelos espíritos convocados através de sua vontade. Alamut estava ali, criado para durar para sempre.

Estava exausto, mas ainda havia duas coisas a serem concluídas. Mais uma vez, ele segura a lança de Haqim, mas ao contrário do que fizera antes, exerce uma força contrária. Usando toda a sua vontade e a potência máxima permitida por seu sangue, Ya’rub tenta remover a arma do chão. Ao fazê-lo, Ya’rub percebe que a terra vem junto de sua ponta. O Feiticeiro percebe que a lança não estava fixada em terra, mas em uma rocha negra e vulcânica. Conforme vai levantando a arma, puxando a haste para cima de sua cabeça, a rocha na qual ela está presa vai tomando forma. Um formato de trono. O Trono Negro de Haqim.

Ali, sobre aquele assento, seu Pai comandaria sua Família. E, em sua ausência, tal como sempre o fizeram em Nippur, o mais velho entre seus filhos ocuparia o trono, tornando-se o Ancião da Montanha. A Lança de Haqim continuaria ali, fincada para sempre na rocha negra, até que seu legítimo dono decidisse retirá-la mais uma vez.

Alguns passos à frente do Trono Negro, tal como Ya’rub havia pensado, havia uma escada, onde antes deveria estar a poça do sangue que saia da ferida que ainda estava aberta em sua mão. Os degraus desciam mais fundo no solo. Eram simples, feitos de terra batida, e estreitos. Apenas um homem por vez poderia passar ali. Ya’rub os desceu.

Ao chegar na base da escada, novamente imerso na escuridão, o Feiticeiro sentiu o cheiro do vitae. Um poço estava aberto na rocha e Ya’rub sabia que ali dentro estava todo o Sangue que vertera desde o início da noite. No escuro, ajoelhou-se na borda no poço. Diante de si, sabia ter o local mais sagrado para sua Família. O coração de onde o Sangue de Haqim pulsaria. Todos, absolutamente todos os Filhos de Haqim que visitassem Alamut deixariam ali um pouco de seu vitae, representando a ligação que todos eles tinham desde o momento do Abraço. O Sangue do Coração, vinculando física e espiritualmente todos os filhos de seu Pai. Ali estaria sua força. Ali estaria sua devoção. Pois sabiam que o Sangue é a Vida. E naquele poço estava a vida dos Filhos de Haqim.

Ya’rub levanta a mão direita sobre o poço, deixando uma última gota de sangue cair para juntar-se ao repositório. Foi somente então que o ferimento se fechou, deixando em sua palma uma cicatriz que duraria para sempre. Uma lembrança do esforço despendido em sua criação.

Lentamente, o Feiticeiro sobe os degraus do Sangue do Coração, sentando-se aos pés do Trono Negro de Haqim. Estava exausto de um forma como nunca estivera. Usando de suas últimas forças, envia um pensamento para Abam e Manu, convocando-os. Eles saberiam como chegar ali. E, através do se Sangue, Ya’rub avisa seu Pai que Alamut estava pronta. Quando Haqim soubesse, todos de seu clã saberiam. E as portas do Alamut estariam abertas.

Muitos metros acima de si, na planície do deserto, algo havia se alterado. Sobre o que agora era o Alamut, apenas algumas pedras haviam se movido. Alinhados com as estrelas, os espíritos da terra se posicionaram tal como estavam os astros no momento em que o mortal que seria Haqim nasceu. Ya’rub não sabia disso. Nenhum outro ser viria a saber disso, pois tal conhecimento nunca seria permitido.

Sorrindo aos pés do Trono, Ya’rub sentia a manhã se aproximando. Ele se coloca para dormir. Estava exausto, mas estava seguro. Seguro como nunca estivera. Finalmente, estava em casa.
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Re: Interlúdio - Ya'rub

em Sab Set 29, 2018 6:52 am
Foi durante uma de suas caminhadas pela região do Alamut, e além dela, que Ya'rub sentiu. Uma força. Um chamado gentil e familiar, uma voz há muito não ouvida. Naquela época, os hicsos dominavam o Egito, e era exatamente ali que Ya'rub se encontrava. Era uma sensação frágil e sutil, mas que ecoava na mente do Antigo com um nome que ele esperava escutar já há séculos.

Yima.

As andanças de Ya'rub, guiado por este sentimento, conduziram o cainita até o litoral norte do Egito, uma terra verde e fértil. Mesmo à noite, Ya'rub podia ver o escravos que trabalhavam nas plantações que margeavam o rio. Era um trabalho monótono, repetitivo e cansativo. Seria longo. O Nilo tinha tido uma de suas maiores cheias já registradas. Rica, ao menos por alguns anos, seria a Terra de Khemet.

Permaneceu, ali, em silêncio, tendo como melodia somente os cânticos dos escravos. Eram elegias aos antepassados e aos deuses do Sul, das terras além de Khemet, de onde eles haviam sido retirados para servir no Norte. Ya'rub conhecia o nome de alguns daqueles deuses, pois alguns deles eram membros de sua raça: Belit-Sheri, Obaylo. Os parentes de Amon viviam no coração daqueles homens e mulheres, mas não tinham vindo para garantir-lhes a liberdade.

Era uma noite escura, de lua nova. Quando Ya'rub sentiu a presença física de Yima, ele já estava ali, observando o trabalho dos escravos junto ao Antigo. Permaneceram calados por algum tempo. Yima e Ya'rub se conheciam pouco, mas haviam dividido um momento significativo. E, por mais que o Filho de Absmiliard não pudesse ter ajudado na batalha contra a cria de Lilitu, tinha tentado destruí-la em noites antigas. Dividiam, portanto, um objetivo em comum. Por fim, foi Yima quem quebrou o silêncio. Ya'rub voltou-se na sua direção. Era um belo homem, o Filho de Absimiliard, por mais absurda que esta constatação fosse. Cabelos castanhos na altura dos ombros, olhos igualmente marrons. Pele branca e traços finos; Yima visivelmente não era originário da Planície. Era alto e de físico sólido. Vestia um saiote ao estilo de Khemet, com sandálias amarradas nos tornozelos, mas mantinha o torso nu. Yima não emanava nenhuma sensação de poder ou de autoridade. Pelo contrário. A sua era uma energia intensamente humilde, como a de uma criaça que, observando o mundo, aprende em continuidade.

- Então. Cá estamos, Ya'rub Bani Qahtani. Minha prisão foi aberta, caminho novamente pelo mundo. Me escondo de meu Ancestral, sua fúria contra mim atravessou as eras. Mas não temo. Não temo. Vasto é o mundo, há tanto para se ver. Veja como trabalham. Como o rio reconduz a terra seca à vida. Há sempre uma primavera após o longo inverno. Não concordas?
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Re: Interlúdio - Ya'rub

Hoje à(s) 10:37 am
Quando sente a presença de Yima ao seu lado, Ya’rub fecha os olhos. Com seus sentidos aguçados, escuta a voz harmoniosa do Filho de Absimilliard, que compõe uma paisagem serena junto ao canto dos escravos, ao barulho repetitivo de seus afazeres, ao som do grande rio que cortava Khemet. Também havia os cheiros, o aroma do barro e da água que traziam a vida, da fertilidade que emanava daquelas ricas terras. Khemet era mesmo um lugar abençoado.

Em meio àqueles aromas, o cheiro do kalif começou a aparecer, conforme Ya’rub baforava silenciosamente o seu cachimbo. Estava sentado, com as pernas cruzadas em posição de lótus. Sorria serenamente, na medida em que a erva aguçava as boas sensações. Até que finalmente abre os olhos e responde:

- Quem seria eu para discordar da verdade, Nobre Yima? O Ciclo está aí para todos aqueles que conseguem ver. Esta é a Ordem que rege todas as coisas. É como o Sangue, que circula pelo corpo dos vivos até seu retorno à terra. Que circula também pelos espíritos, em uma forma mais sutil e etérea.

- Estamos todos conectados nesse Ciclo. Mesmo nós, seres suspensos do processo de renovação. Tal fato sempre me fez perguntar: qual nosso papel na Ordem das coisas?

Ya’rub olha para Yima pela primeira vez naquela noite:

- Venho pensando em algo nos últimos anos. Que talvez exista uma remota hipótese... que exista algo que oriente esse Ciclo, algo que dê razão para o fluxo do Sangue. Que talvez não estejamos aqui contemplando “Algo”, mas “Alguém”. Que a Unidade possa ser, na verdade, “Uno”. Alguém acima de tudo. E que é na compreensão desse Ser que descobriremos nossa missão em sua unidade...

O Feiticeiro solta um riso constrangido:

-Heh, ou talvez isso seja apenas uma bobagem para ocupar a mente de criaturas antigas como eu e você!

Ya’rub toca o ombro de Yima. Era estranho tê-lo ali, fisicamente presente, depois de tantos anos tendo-o como companheiro espiritual:

- A questão é que, ainda que não saibamos do nosso lugar, encontramos um propósito, não é verdade? Eu, você e alguns poucos outros que caminham pela noite. Decidimos que iremos combater todos aqueles que se esforçam na tarefa corruptora de perverter essa bela Ordem, não?
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Re: Interlúdio - Ya'rub

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