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Re: Interlúdio - Amon

em Seg Ago 06, 2018 4:41 am
Amon viajou em silêncio, refletindo sobre o acordo feito com a voz da montanha. Durante a viagem pensou e chegou a conclusão: "Sim, aquele era um bom acordo, apesar da periodicidade da visita ser longa, seria um momento especial para o povo, além de gerar um respeito ainda maior aos espíritos que ali habitavam, espíritos estes que Amon ansiava também em conhecer. Teriam eles conselhos a dar para ele, um homem morto?"

Ao chegar no acampamento, teve a certeza de que o acordo era bom, pois, ver aqueles mortais reunidos, crescendo em número e em sabedoria, guiados por sua criança, era algo especial e a mínima possibilidade de perdê-los, lhe era inconcebível.

Tomado pelo desejo de Ilyias em vê-lo, caminhou até o centro do acampamento. Deveria dar a notícia do acordo e também avisá-los que passaria um tempo longe, junto com Nikaia. Amon ergueu sua voz entre os homens, para que todos pudessem ouvi-lo.


Hoje venho até vós, após uma curta viagem, para dizer-lhes que obtivemos a permissão das mulheres-feras para visitar a montanha. Entretanto, estas visitas só poderão acontecer uma vez a cada grande ciclo e, quando este momento chegar, tanto eu quanto Nikaia os guiaremos até o alto da montanha. Amon calou-se, observando-os antes de continuar. Quando o grande dia chegar, será um dia de festa e júbilo. Será um dia para descansar e reverenciar aqueles que se foram e aqueles que estão por vir. Ofereceremos aos grandes espíritos as honrarias que lhe são devidas e lhe pediremos conselhos.

O cainita caminhou até a sua cria e compartilhou seu sentimento. Meu pai deseja conhecê-la Nikaia. Partiremos ainda esta noite para Nippur. Deixaremos nosso povo sob os cuidados de Eletria e quando voltarmos, erigiremos nossa cidade. Não viveremos mais sob tendas. Mais uma vez Amon caminhou entre o povo e deteve-se ao lado de Eletria, a líder dos mortais. Hoje, eu e Nikaia viajaremos até a terra onde habitam os antigos, em breve voltaremos. Deixarei o meu espírito entre vós e, se caso algo aconteça, estarei ciente.

Amon virou-se para sua cria.

É chegada a hora, partamos o quanto antes. Enquanto partia, Amon invocou o espírito do tempo e, naquele exato momento, ele decidira que não ensinaria o dom do tempo a Nikaia, por mais que desejasse, pois, aquele poder altamente destrutivo começara a desagradá-lo. Caminhando, orou em silêncio aos espíritos da montanha, esperando que o dom não se desenvolvesse em sua criança.

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Re: Interlúdio - Amon

em Seg Ago 06, 2018 2:22 pm
A notícia foi recebida de maneira dúbia. Amon viu a sombra da guerra e do conflito baixar nos olhos dos homens e mulheres. Tal sentimento foi abreviado pelas palavras de Eletria, que conclamava o povo a dançar e celebrar. Eles tinham medo, muito medo das Vozes da Montanha. Portanto, viajar até seu santuário com a permissão delas, ainda que somente uma vez ao ano, era de bom tamanho. Agradeceram Amon, depositando leite e mel na Terra diante dele. Olhavam para Nikaia e agradeciam em silêncio pela sua Sabedoria em sua aliança com os Espíritos. Amon, segundo os aldeões, era o espírito guia daquele povo. Assim como Nikaia também o era.

Em meio aos festejos e danças, Nikaia aceitou a proposta de Amon. Viajaria para Nippur com seu Senhor, e conheceria a Fonte de seu Sangue. Eletria comprometeu-se a cuidar daquele povo com a sua própria vida, se necessário. O Espírito do Tempo se deslocou do corpo de Amon, assumindo sua posição no centro da cidade, invisível aos olhos de todos, exceto aos dele e de Nikaia. Mas algo mais deixou o corpo do cainita. Um Torpor antigo, uma frieza não desejada. Desta vez, Amon não sentiu seu corpo murchar em agonia. Sentiu, contudo, que uma nova barreira se rompeu dentro dele. Amava a tudo. Excessivamente.

Nikaia, sentia Amon, era já diferente dele. Nikaia era uma ideia. Nenhum sinal de Ilyias existia naquela mulher. Era uma força, uma tempestade. Nikaia seguiria Amon até os confins do mundo, pois seu Amor era grande.

Caminharam por meses. Nikaia se movia como o vento, em uma maneira que Amon não sabia ser possível ao seu Sangue. O retorno foi exatamente como a viagem inicial, com Amon conhecendo novas tribos, novos costumes, povos e crenças. Mas, desta vez, Amon tinha alguém com quem partilhar tudo o que via, sentia, cheirava e ouvia. Como era belo não estar sozinho! O amor entre os dois crescia, Amon jamais havia sentido algo como aquilo. Ao mesmo tempo, sentia um aperto no peito quando pensava que encontraria Ilyias. Era uma sensação boa. Nikaia explicou ao seu Senhor que aquilo se chamava saudade.

Estacaram diante dos portões de Nippur. O ar estava pesado, carregado, como se uma grande onda estivesse a ponto de arrebentar-se na praia. A cidade estava vazia, os mortais tinham se recolhido. O Templo de Ilyias se desenhava contra o céu escuro. Amon sentiu a presença de seu Senhor, como uma chama fraca que tremeluzia ao vento. Sentiu também Belit-Sheri, Anis e Troile, além de Astar e Shalmath. Sua família havia crescido e o esperava.

Amon estava em casa.
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Re: Interlúdio - Amon

em Seg Ago 06, 2018 8:26 pm
Amon rendeu-se, finalmente, ao prazer de amar. Passara praticamente toda a sua não-vida tentando, incessantemente, conhecer a natureza do amor que os mortais fazem naturalmente, como caminhar.

Ao lado de Nikaia, viajou redescobrindo o mundo, com olhos menos frios, menos analíticos, vivenciando cada experiência de forma única. Ensinou e aprendeu pelos povoados e povos que passou. Ouviu em silêncio quando necessário e inflamou-se quando algo em que acreditava fora confrontado.

Apreciou genuinamente os dons desenvolvidos por sua cria e, dentro de si, apesar de toda a paixão e fúria que agora nele existiam, estava em paz, pois, os espíritos o haviam escutado.

Parado com Nikaia, às portas de Nippur, sentiu o cheiro daquela terra e dos mortais que ali habitavam. Sentiu a presença de sua família e notou que de fato sentia a falta deles, e como sentia.

Parecendo uma criança insegura ou temerosa frente a um grande obstáculo, segurou a mão de Nikaia, para que entrassem juntos. O toque frio da pele de sua amada cria o acalmava. Estava nervoso, se ainda fosse vivo, certamente estaria com as mãos úmidas de suor.

Caminharam pela cidade, apreciando cada detalhe, até que enfim avistou o templo. Sorriu de felicidade. Definitivamente, estava em casa, pois, estava com os seus.

E sem receios ou temores, adentrou o templo ao lado de um dos amores de sua vida, encontrar os outros amores que há tanto tempo não via.


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Re: Interlúdio - Amon

em Seg Ago 20, 2018 11:32 am
Nada.

Escuridão. Um zumbido.

Quanto tempo?

Não importava.

Nada.

Um espasmo. Seus dedos se contraíram.

Um perfume. Vitae.

Pulsava. Se aprofundava pelas raízes, banhava a terra. Ensopava a terra.

Cada fibra do seu ser tentou se mover. Não reagia. Tinha sede.

Uma gota. Pingou, a terra era excessivamente úmida de Sangue para absorver mais. Pingou, diretamente, sobe os lábios secos de Amon.

Sonhava. Mashkan-Shappir estava ali, deveria ser destruída. Estava na sacada do Templo com Iliyas. Seu Senhor sorria, observando o nascer do Sol. Mais de uma vez tinha ouvido sua progênie, Nikaia, implorar por sua ajuda. Mas Nikaia não sabia onde ele estava. Nikaia estava longe, muito longe, em busca dele. Não. Nikaia não o acordaria. Anis tinha dito de não fazê-lo. Nikaia sofria, os inimigos eram muito mais poderosos que ela. E, com o tempo, o ressentimento de Nikaia atingiu as veias mortas de Amon. Era amargo como o bronze de mil espadas.

A lingua esticou-se para fora. Sangue. Doce e quente.

Os braços se moveram. Escavaram a terra, direcionando-se à superfície. Era o perfume da Vitae que o chamava e o conduziu. Escavou, mais velozmente. E à medida em que ressurgia, ouvia o som das espadas que se chocavam, dos gritos dos caídos e dos vencedores mas, acima de tudo, o Sangue que o convocava.

Nuvem Rubra. Nada.

Estava de pé. Arfava. Sua pele, branca e ressequida, retornava à coloração natural. Era uma clareira, aquele lugar. Amon sentia o cheiro de sua casa, das terras onde havia conhecido Nikaia. Sentia o perfume de sua cria, disperso no ar.

Ao seu redor, Morte.

Drenados, secos, mutilados. Pescoços destruídos por presas. Braços separados de corpos. Expressões de horror, congeladas eternamente nas faces mudas. Haviam corpos nas árvores. Corpos no chão. Sob o pé direito de Amon, a traquéia arrebentada, um garoto. Tinha não mais de dezesseis anos. Teria a vida pela frente, se sobrevivesse à batalha. Seus olhos azuis fitavam Amon. Pediam piedade. Seu Sangue e memórias fluiam no corpo do Antigo. Ele queria construir barcos, aquele rapaz.

Amon estava ensopado de Sangue, nu, em meio à clareira. Dois pequenos exércitos jaziam, mortos, ao seu redor. Um deles era, sua intuição lhe dizia, assim como os detalhes das faces, olhos, cabelos e corpos mortos, pertencente ao povo que o havia recebido como um Deus. O povo de Nikaia.

A batalha havia terminado.

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Re: Interlúdio - Amon

em Ter Ago 21, 2018 9:08 am
Amon abaixou-se e envolveu em seus braços o corpo inerte no jovem. Lágrimas escorreram por sua face. Gritou e urrou, tentando recordar como fizera aquilo. Como tivera coragem de ceifar tantas vidas, ainda que estas vidas dispostas a morrer. Olhou para as mãos, trêmulas, sujas de sangue e fezes e sentiu vontade de não ter acordado.

Levantou-se e caminhou pela terra lavrada de sangue e corpos. Homens pendurados em árvores, atravessados por espadas, parcialmente enterrados. Dilacerados. O rastro de morte era imenso, intenso, imersivo. Por um tempo, ignorou tudo a sua volta, sequer se recordava de quem era, devido a culpa que sentia. Quantos anos seriam necessários para que ele esquecesse? Urrou dezenas de vezes, lamentando a sua sorte.

Andou incessantemente, ainda nu e coberto de sangue. Seus pés firmes marcavam o solo. A culpa o invadia a todo instante, centenas de desejos e sonhos, tomados inconscientemente de seus donos. Apesar da fúria primal em que estava, era ele o culpado.

Ao longe, vislumbrou tochas acessas. Era uma cidade. Mashkan-Shapir, Nippur. Onde estava? Quanto tempo havia passado? Dois séculos. Era tempo demais. Sua família havia ficado sem ele por tanto tempo assim? Nikaia. Pensou em sua amada cria. A guerra, será que havia acabado? Sua insolência com o tempo havia causado grandes perdas?

Caminhou resignado em direção a cidade, abandonando os corpos mortos para as feras e os saqueadores. Sobre sua cabeça, o céu estrelado indicava sua posição. Era a hora de retornar. Sua casa o esperava.


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Re: Interlúdio - Amon

em Ter Ago 21, 2018 9:44 am
Caminhou por entre a mata, ainda sem roupas. Fazia frio, pois era inverno. Um vento cortante soprava, e Amon ainda sentia em sua pele e em sua boca o gosto do Sangue dos mortais que haviam caído. Sentia-se desnorteado, sua mente funcionava devagar, seus músculos pareciam granito. Por vezes, lhe ocorriam flashes. Anis em seus braços, a colina em Mashkan-Shappir. Amon havia visto o homem com face de coruja, seu olhar doentio estava impregnado na mente. Seriam seus primos capazes de vencê-lo?

As luzes trêmulas da cidade o atraiam. O territorio pouco havia mudado. Deixando o bosque, encontrou a praia onde havia encontrado Nikaia, dois séculos atrás. Era tanto, tanto tempo...

Na areia branca, alguém observava o mar, de pé. Quando Amon se aproximou, a pessoa se girou para encará-lo. Era um homem.

Tinha cabelos escuros e encaracolados, na altura dos ombros. Um bigode bem aparado, mas sem barba. A face pálida era alongada, com um nariz longo e bem desenhado, exatamente como era característica do povo de Nikaia. Os olhos eram de um verde intenso, como o do mar sob a luz do sol que Amon não via há séculos. Vestia-se elegantemente: linho branco com detalhes em dourado. Estava descalço. Ao aproximar-se, Amon teve a sensação de escutar música. Uma elegia triste e antiga, cheia de tragédias. A música, porém, era o odor do Sangue daquele vampiro.

Falou, se aproximando de Amon.

- Eu sou Amphion, Cria de Arikel. Você deve ser o Antigo que dormia nestas terras, a quem o povo da região chama, em suas lendas, de Amós, o Espírito Duplo.

Era jovem, aquele cainita. Seus movimentos eram graciosos e apressados, típicos dos mortais. Tinha dúvidas, porém, em se aproximar em demasia do cainita recém desperto. Tremia. Por fim, decidiu manter uma distância segura. Amon sabia que se Amphion estivesse ali há algum tempo, possivelmente teria ouvido ou ao menos sentido a carnificina ocorrida em meio às árvores.

- Permita-me conduzí-lo até Athenoi.

Athenoi. Era este o nome da cidade.

Amphion tomou a frente, dirigindo-se às luzes da cidade. Andava um passo apressado, não por pressa pura e simples, mas parecia temer estar de costas para um cainita tão antigo. Subitamente, Amon lembrou-se de algo. Se duzentos anos haviam se passado, ele havia completado um milênio de existência. Um milênio. Seria tempo em demasia para que alguém caminhasse pela Terra?

Antes de chegar à cidade propriamente dita, Amphion fez um desvio. Amon notou, mesmo à distância, que Athenoi havia crescido. Suas construções de pedra e madeira agora avançavam em direção ao mar escuro. Seus sentidos, ainda ligeiramente fora de controle, identificava vozes e cheiro de comida.

- Se fala que sois o Criador de Nikaia. Imagino se tudo o que falam sobre ti é verdade. Contam histórias de um tempo em que você os teria salvo da guerra.

Caminharam pela planície externa à cidade. Sobre eles um céu sem luas ou estrelas. Ali o terreno era pedregoso. O vento soprava incessante. Amphion se deteve diante de uma minúscula colina, de onde podiam ter uma visão privilegiada de Athenoi. Estava ao sul da cidade. No meio da colina, havia uma entrada similar a uma pequena caverna. Diante desta entrada, oferendas. Flores, leite e mel. Armas e escudos. Armaduras de couro. Sangue.

- Este é o local de repouso de Nike, a Deusa da Vitória para os mortais. É também o seu local de adoração. Nós, porém, a conhecemos como Nikaia.

Amphion, de uma certa forma, parecia sentir o sofrimento emanado por Amon. Era um cainita simpático, abraçado muito jovem, talvez com dezessete anos. Tinha uma expressão demasiadamente humana, repleta de sentimentos. Mas havia, também, uma escura sombra em seus olhos. Amon reconheceu-a: Arrependimento.

- Deixarei você e Nikaia a sós. Retorno a Athenoi. Minha Senhora me espera. Imagino que ela terá um grande prazer em conhecê-lo.

Se foi, colina abaixo, em direção à cidade, com seu passo ligeiro. A música que Amon ouvia diminuiu até desaparecer.

Amon não precisou avanças muito dentro da caverna. Cerca de duzentos metros depois da entrada, o túnel se abriu em um salão oval escavado na pedra bruta. No centro deste, parte do chão era de terra batida. Flores foram planatadas ali, e deixavam no ar um perfume maravilhoso, que se confundia com o perfume de Nikaia.
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Re: Interlúdio - Amon

em Ter Ago 21, 2018 10:49 am
Não temas jovem Amphiom, nenhum mal farei a ti. Leve-me até Nikaia.

Antes de adentrar a cidade, Amon correu em direção ao mar e mergulhou, para tirar todo o sangue seco que cobria seu corpo e o fazia lembrar da carnificina que realizara horas atrás. Lavou-se nas águas frias e escuras e, satisfeito, saiu das águas purificadoras

Caminhou atrás da cria de Arikel, observando toda a cidade, espantado com seu crescimento. Seus sentidos captavam todos os sons e cheiros da cidade, enquanto cruzava a sua extensão.

Ao chegar no alto da colina, na entrada da caverna, observou a bela cidade erguida por sua criança. Na verdade, já não era mais uma criança e ele sequer teve a oportunidade de ver a sua evolução. Hesitou em entrar na caverna.




Sou grato por me guiar até aqui Amphiom. Visitarei tua criadora o quanto antes.


Amon finalmente entrou na caverna e, inevitavelmente, lembrou de Smenkhara. Perguntou-se se Hazimel havia conseguido liberta-la de sua prisão imposta pelas mulheres-feras.

Seus olhos percorreram todo o interior da caverna, procurando detalhes que lhe dissessem mais sobre Nikaia. Ao notar seu cheiro, virou a procura de sua amada cria.[/b]

Minha criança, acordei do sono que mortifica. Sei exatamente quanto tempo se passou e não há e nem haverão palavras que possam amenizar a falta que fiz a ti e a nosso povo. Estar novamente em sua presença me alegrará, como sempre.

Amon abriu os braços, esperando um abraço de Nikaia. Quando o abraço não chegou, ele enfim percebeu. Estava numa cripta. Ajoelhou-se no chão frio e bateu com ambas as mãos no solo batido. Amaldiçoou a sua existência.


Tão nova e já forçada ao sono profundo. Irei tirá-la daí minha amada. Caminharemos juntos mais uma vez.

Ao contrário do que fez horas atrás, Amon cavou a terra, de fora para dentro até achar o corpo de sua cria. Retirou o tecido que a envolvia e a colocou em seu colo. Limpou sua face e alisou seus cabelos. A abraçou com força junto a seu peito. Amon abriu a boca de Nikaia carinhosamente. Em seu pulso, fez um talho com as presas e derramou seu sangue, que vertia lentamente entre os lábios de Nikaia.

Acorde minha criança, estou de volta. É hora de guiarmos juntos nosso povo.
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Re: Interlúdio - Amon

em Ter Ago 21, 2018 2:05 pm
Amon derramou sua Vitae, forçando-a pela garganta de uma Nikaia esquelética, com pele fina e cabelos ressecados. A mão de sua cria, porém, agarrou seu pulso quase que de imediato. Reteve-o sobre a boca, os olhos recuperando a antiga cor, fixos nos de Amon. O cainita percebeu o esforço de Nikaia para deixá-lo ir, mas somente depois que seu sistema começava a demonstrar sinais de cansaço. Sua cria fechou os olhos, lambendo os lábios sujos de Sangue. Não apresentou, porém, a típica confusão pós despertar. Pelo contrário, ao focar sua visão e perceber que se tratava de Amon, agarrou-se ao seu pescoço, como uma criança agarra a um Pai que retorna da colheita.

Para depois socar o rosto de seu Senhor com uma força que, provavelmente, havia adquirido ao longo dos duzentos últimos anos. Amon sentiu o impacto, caindo sentado no chão úmido.

Nikaia retornava ao normal. A pele se tornava corada enquanto as veias bombeavam o Sangue em direção a diversas partes do corpo. Quando finalmente pode falar, sua voz saiu seca e arrastada, como um instrumento sem uso.

- Você abandonou a todos nós. Você é um bastardo de merda, um imbecil. Quase morremos aqui quando Hazimel libertou Smenkhara e causou a fúria das mulheres-lobo. Não fosse por... não fosse por Arikel e seus FIlhos, teríamos já sido obliterados desta terra.

As veias do rosto e do pescoço estavam saltadas. Amon reconhecia a Névoa Vermelha.

Nikaia respirou fundo.

- Até que cansei de te esperar e me entreguei ao Sono. Não sei há quanto tempo atrás.

Se aproximou de Amon com passos rápidos. Tinha o braço direito erguido, como se desejasse socar a face de seu Senhor. Por fim, optou por dar-lhe um longo beijo.

- Eu perdoo você.

Amon, então, sentiu. Havia uma presença do lado de fora. Alguém esperava na entrada da caverna, um poder monstruoso, irreal. Maior do que qualquer coisa que Amon já tivesse sentido. Nikaia, entretanto, parecia extremamente tranquila.

- Ela está aqui.

Deixaram a gruta. Sem caminhar muito, Amon visualizou uma figura solitária de pé no acesso à planície pedregosa. Era alta e esguia. Vestia-se inteiramente em branco. Nenhuma parte de seu corpo era visível, exceto as mãos brancas e aparentemente frágeis. O rosto era coberto por um véu. Quase, quase translúcido, mas que, ao mesmo tempo, ocultava tudo perfeitamente. Toda ela, aliás, era translúcida, como um fantasma. Quase como o Espírito do Tempo de Amon.

- Saudações, Amon. Saúdo teu retorno. Posso deixar tua cidade, agora. Ela não precisa mais de mim para protegê-la.
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Re: Interlúdio - Amon

em Qua Ago 22, 2018 3:37 am
Ainda caído no chão, Amon manteve a expressão séria. Admirado pela força de Nikaia, que neste momento parecia ser superior a sua, ficou satisfeito. Levou a mão ao rosto, onde tomara o golpe e com a outra se apoio para levantar. Encarou-a.

Tive êxito, ao menos temporário, como filho, salvando Anis da destruição final, no entanto, falhei como pai. Meu dever era protegê-los também. Lamento muito minha criança, mas, não me arrependo. Se eu não tivesse feito nada naquele campo de batalha, provavelmente hoje eu seria uma criatura amarga e triste. Sou imensamente grato a Arikel por sua atitude generosa. Eu sabia que não deveria usar tal poder, agora será custoso demais reverter certas situações.

Calou-se. Ouviu os passos do lado de fora, ao mesmo tempo que Nikaia anunciava a visita. Caminhou ao lado de sua cria e observou a antiga, que se mantinha sob um manto branco. Seu perfume, como sempre, inebriante, mexia com seus sentidos e com os mais profundos instintos. Após ouvir suas palavras, com aquela voz que lembrava a mais alta e bela cachoeira, com suas águas potentes em queda livre e também lembrava a calmaria da brisa que corta as árvores lentamente. Era uma mistura de beleza e poder. Ele nunca esquecera disso.

Arikel, serei grato pelo que fizera por minha família e meu povo. Eu, que havia recebido de Ilyias a tarefa de ajudá-la, sofri justamente o oposto. Peço-te humildemente que se mantenha na cidade por mais algum tempo. Permita que eu e minha criança desfrutemos de sua presença um pouco mais. Tenho muito a aprender, hoje sei disso, como não soubera no passado. Eu que me julgava um sábio, fui um tolo por não aproveitar a presença dos antigos.

Amon inclinou a cabeça, numa demonstração de respeito e humildade. Aguardava a resposta da mais bela entre todos os cainitas.

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Re: Interlúdio - Amon

em Qua Ago 22, 2018 4:28 am
Arikel sorriu, sob o véu. E o mundo se iluminou como jamais havia se iluminado antes. Amon tinha certeza que tinha vivido nas mais absolutas trevas até o momento em que viu aquele sorriso. A Mãe das Rosas parecia-lhe diferente, mais calma e mais sábia.

- Eu aceito o teu convite, Amon, Filho de Troile e de Ilyias. É bela, a tua criação. E tudo o que é criado me pertence espiritualmente. Permanecerei em tua cidade, te aconselharei se assim me for pedido. Eu resido em Creta, agora, junto ao meu filho Beshter, que você conheceu como Mi-Ka-Il. Meu espírito desaparecerá de Athenoi, mas meus olhos estarão sobre a cidade. Venha a Creta quando desejar.

E, como havia dito, desapareceu. A última coisa a sumir foram os olhos cinzentos, que Amon consegiu ver, enquanto aparentemente flutuavam no nada, por debaixo do véu.

*

Caminhou, acompanhando Nikaia em direção a Athenoi. Sua progênie ainda parecia dividida entre a raiva e o perdão. Mas Nikaia, Amon sabia, era incapaz de guardar rancor. Havia sido uma mãe, e compreendia certas dores e escolhas. Antes de adentrar Athenoi, segurou a mão de Amon para que entrassem, juntos, na cidade.

E que cidade era.

Não tinha as dimensões de Nippur. Mas era bela, estruturada sobre o mesmo promontório que possibilitava uma visão magnífica do mar. Cercadas de árvores antigas, erguiam-se as casas, que agora eram feitas com as mesmas pedras de cor clara que podiam ser facilmente encontradas na região. Havia luz e música. Nikaia evitou passar pelo centro da cidade, onde um grande número de mulheres cozinhava e cantava canções com tons de saudades.

- Nós temos um grande problema em Athenoi. Faltam homens. E, depois do teu despertar desastrado que pude ver através do teu Sangue, me parece que tal situação tenha piorado. Perdemos muitos de nossos combatentes em conflitos recentes com as mulheres-lobo. Mas vencemos, pois Arikel interviu na batalha, dizimando a todas. A Montanha é, mais uma vez, deste povo. Ao menos até que venha a vingança das mulheres-lobo...

Subiram um segundo promontório, que se colocava acima do nível da cidade. Amon pensou como era um local ideal para um Templo ou uma Fortaleza. Ali, Nikaia se sentou no chão, diante das luzes das tochas que iluminavam Athenoi. O mar estava calmo e o céu claro. Os cânticos das mulheres alcançavam o ouvido dos cainitas. Era, de fato, o paraíso.

- Acredito que você deva explicações a eles pelo seu desaparecimento. Os mais velhos se lembram de ti, através de histórias contadas pelos seus pais e avós. Te chamam Amós, agora. Creem que sejas uma manifestação do Tempo e de suas nuances.

Nikaia suspirou. Amon podia ver, em seus olhos, seu amor por Athenoi.

- Quando Hazimel libertou Smenkhara e fugiu com ela, foi necessario aliar-se com outros para garantir nossa permanência. Medon marchou novamente, vindo do Sul, da cidade que fundou e que se chama Lacedemonia, para nos auxiliar. Foi também neste momento que Amphion surgiu, e se tornou uma espécie de Conselheiro meu. Vencemos na virada da maré, quando Arikel veio ao Norte. Ela não me pediu nada. Disse somente que lutava em teu nome. Eu é que requeri que Amphion ficasse aqui. É um grande Cainita, Amphion.

Havia algo nos olhos de Nikaia quando ela repetia o nome do Filho de Arikel. Um brilho.

- Quando a Paz veio, deixei que ele tomasse conta da cidade e parti em viagem pelo mundo. Encontrei Anis em Larsa. Passei por onde deveria estar Nippur, mas ali não existe nada. Absolutamente nada. É como se jamais houvesse existido... Bem, após a batalha de Mashkan-Shappir, Anis carregou teu corpo até aqui. Disse-me que te havia colocado em repouso, mas que não me revelaria o local, para que eu não te acordasse. Segundo ela, você fez algo extremamente belo, porém perigoso, e deveria ter seu descanso respeitado. Contrariada, aceitei, e esperei que o tempo passasse.

Fez uma pausa. Contemplava o mar escuro. Havia sons de risadas mortais no ar, um som que Amon não ouvia há séculos.

- Anis vive ali, com Astar e a cria deste, um Pensador chamado Zatura. Ao que me parece, aquela região ainda é povoada por muitos cainitas que não conseguem se desvencilhar de suas origens. Troile progride, em uma região vizinha a nós, mais ao Sul. O visitei uma vez. Sua personalidade se tornou extremamente contemplativa, diria eu. Parece que envelheceu milênios em poucos séculos...

Nikaia passava uma pequena flor branca, que havia arrancado da terra, de mão em mão. Falava com Amon, mas continuava a observar o mar.

- Visitei mais vezes Belit-Sheri. Ela se estabeleceu em sua terra natal, ao Sul de Khemet, terra dominada pelo Ministério de Sutekh e dirigida também por Karotos do Clã da Noite. Ali ela convive em meio às tribos locais, que começam a opor-se ao dominio da Corte de Fogo, como se chamam os Filhos de Sutekh. Shalmath também está ali, assim como uma outra progênie de Belit, um Ferreiro chamado Obaylo.

- E eu, bem, depois de caminhar por todo o mundo, retornei a Athenoi. E a falta que sentia de ti era tamanha que resolvi não mais sentí-la. Isso foi há... - Fez uma pausa - vinte e cinco ciclos e quarenta e sete dias atrás.

Nikaia arregalou os olhos por um instante. Em seguida girou-se, encarando Amon.
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Re: Interlúdio - Amon

em Qua Ago 22, 2018 8:21 am
Amon gargalhou, surpreso com a exatidão da contagem do tempo que Nikaia fizera. Como havia uma expressão de surpresa na face de sua criança, supôs que aquilo era fruto de seu sangue, que alimentara seu despertar. Havia um amor profundo no olhar de Amon. Finalmente encontrara a paz. Suspirou longamente, enquanto observava o mar calmo.

Foi um dia terrível.. Começou ele. Ao relembrar da batalha de Mashkan-Shapir, seu sorriso desaparecera. Foi uma luta sanguinolenta, de ambas as partes. Havia equilíbrio, não seria possível definir naquele momento, quem seria o vencedor. Até que ele surgiu.Amon fez uma pausa, para se concentrar na figura que descreveria. Era uma criança, uma abominação. Dela, fluíam sentimentos vis, medonhos, destrutivos. Seu poder era tamanho que, somente com seu surgimento, dezenas dos nossos caíram. Seus olhos marejaram com lágrimas de sangue, que teimavam em cair.

Foi quando Anis, que protegia nosso amado tio Saulot, foi envolvida por chamas devoradoras, que tinham como alvo nosso tio. As chamas a dizimaram imediatamente, incinerando-a. Eu fiquei sem reação por alguns instantes e soube, naquele momento, que eu enlouqueceria se a permitisse partir, ainda mais que ela havia me chamado. Não hesitei minha amada Nikaia. Transgredi a um desejo meu e de forma irresponsável, submeti o tempo à minha vontade. Viajei de volta instantes antes das chamas atingí-la e a trouxe para mim.

Ainda vi meu pobre tio ser envolvido nas mesmas chamas que haviam destruído Anis, porém, a sua resistência era superior e ele ainda contou com o auxílio de um dos irmãos de Sarosh. E então, caí, meu corpo foi vitimado por uma reação de tamanho poder, que é sorte minha estar aqui contigo, após tamanha afronta.

Espero não precisar fazer mais isso, apesar de acreditar, minha doce criança, que nosso futuro não será diferente de Nippur. Ainda assim, não devemos não tentar.

Iremos erguer um templo aqui, onde os espíritos possam ser reverenciados. Pediremos a eles que guiem nosso povo.


Amon olhou para Nikaia.

Fico extremamente feliz que tenha encontrado Amphiom. Ele me pareceu ser alguém bom, apesar da tristeza que sente e que lhe dilacera a alma. Serei grato a ele e a Arikel, graças a eles, a tenho aqui comigo hoje. Me perdoe por estar distante tanto tempo. Irei novamente me apresentar ao nosso povo.

Assim que fazê-lo, os outros saberão que acordei e virão ao meu encontro, precisamos nos reunir. Creio que Astar saiba como nos auxiliar, em relação a falta de homens. Façamos nosso povo crescer minha amada. Em cultura e em força marcial. Se faltam homens, nossas mulheres serão nossas guerreiras.

Quando a conheci, lutavas bem com espadas Nikaia. Preciso aprender mais como lutar e desta vez serás tu a minha tutora. Dediquei quase toda a minha há existência a contemplação e ao conhecimento, no entanto, pressinto que devo saber lutar, para defender aqueles que jurei prometer, há duzentos e trinta e sete ciclos e noventa e três dias.


Amon sorriu e se levantou. Venha, precisamos voltar ao povo. Eu precisarei de uma túnica. Devo realizar um pequeno feito, para que os mortais lembrem de mim. Peça para que os mais velhos se reúnam na praça, um deles voltará aos bons tempos. Amon a tomou subitamente em seus braços e a abraçou. Passado um grande tempo, onde palavras não eram necessárias, começou a andar pela cidade, para admirá-la.

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Re: Interlúdio - Amon

em Qua Ago 22, 2018 8:47 am
Nikaia liderou o caminho, conduzindo Amon colina abaixo, em direção a Athenoi. Quando adentrou a cidade, se maravilhou. Era infinitamente mais simples que Nippur, porém mais arejada, organizada, mais branca. As pedras da região davam aquela coloração às casa humildes. A cidade tinha uma grande, enorme área central, que parecia ser uma zona de convivência dos moradores. As casas partiam, dali, em círculos concêntricos, lentamente se alçando em direção às pequenas colinas circundantes. Uma delas, a mais alta, era onde Nikaia e Amon haviam conversado minutos antes.

Amon sentiu cheiro de mar, cheiro de peixa fresco. Diante do mar, aquela era a principal dieta daqueles mortais. Intuiu que naquela praça também se formava, ocasionalmente, uma espécie de mercado onde os poucos gêneres que eram retirados da terra eram trocados por carne de ovelha e frutos do mar. Havia música e alegria, Amon percebeu que Amphion tocava um estranho instrumento, composto de múltiplas cordas presas a um arco de madeira que mantinha entre as pernas. A habilidade do Filho de Arikel era memorável, e os mortais estavam tão absortos por suas habilidades que só perceberam Amon e Nikaia muito depois.

Havia templos. Um número razoável destes, o que indicou a Amon que aquele povo adorava vários deuses. Nenhum deles, porém, se parecia com os deuses da planície. O cainita percebeu uma estátua media, feita de feno e madeira, de um homem de meia idade sentado em um trono também de madeira. Aos pés dele, leite e peixes.

Era belo, aquele local. O barulho das ondas, em seu vai e vem interminável geravam em Amon uma paz que há muito, muito tempo ansiava.

Amphion parou de tocar. Os mortais se giraram e viram ele e Nikaia. Eram muitas, muitas mulheres e crianças, alguns idosos e quase nenhum homem em idade de combater. As mulheres foram as primeiras a levantar, correram em direção a Nikaia e a abraçaram, beijando suas mãos. Exclamavam, com empolgação, o nome "Nike".

Olhavam, porém, para Amon com uma certa desconfiança, até o momento em que um velho homem de barbas e cabelos muito brancos e profundos olhos azuis se aproximou. Nikaia sussurrou, na lingua de Nippur que havia aprendido na ausência de seu Senhor, que ele havia sido um líder militar da cidade no passado, um homem com imensas conquistas e glórias na sua história. Agora, andava com a ajuda de um bastão, curvado, os joelhos tremendo sobre o peso do corpo. Ainda segundo Nikaia, se chamava Ítalus.

- Enfim, retornas. Meus avós não estavam errados.

E, virando-se para seu povo.

- Entre nós caminha Amós, Espírito do Tempo.
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Re: Interlúdio - Amon

em Qua Ago 22, 2018 9:32 am
Amon estava, no melhor das palavras, maravilhado com a cidade que idealizara, mas, não construira. Era mais bela e mais organizada do que ele seria capaz de fazer.

O som do mar, somado ao sim do estranho instrumento de Amphiom, o levava a uma paz transcendental. Caminhou entre os mortais sem que notassem a sua presença sobrehumana. Quando foi notado enfim, sorriu para todos os mortais ali presentes. Sua voz ergueu-se entre homens e mulheres, crianças e idosos, uma voz calma e marcante, rouca, mas, não menos poderosa. Cada frase dita por ele, era pausada e clara, para que todos pudessem entender.


As histórias contadas por seus antepassados superestimam a minha existência. Sou menos do que se acredita, ainda assim, sou aquele que esteve convosco durante todo o tempo, mesmo não estando fisicamente aqui.

De onde estava, senti sua alegria e sua dor. Senti, com pesar, a morte de cada um de vós, como senti a alegria pela concepção de uma nova vida.

Paguei um preço, até baixo, para salvar a existência de uma pessoa amada. O tempo me ensinou, da forma mais penosa, que todas as ações são passíveis de um preço.

Então lhes digo: Sejam pessoas boas, as melhores que puderem ser, sem querer receber algo em troca. O tempo os recompensará! Ser bom não significa que não devam lutar pelo que é certo ou pelo que acreditam. Evitem uma luta ao máximo, porém, não se desvencilhem quando a luta vier. Lutem com todas as forças, combatam a opressão, combatam as injustiças e a fome.

Honrem aqueles que lutaram por vós e protejam aqueles que ainda não podem se proteger ou ainda estão em seus abençoados ventres.

Seremos vítimas da cobiça dos outros povos, no entanto, daremos o melhor para nossas terras e para os deuses que nos guiam e nos protegem há tanto tempo.

Aprendam a amar, mas também, aprendam a direcionar sua fúria para aqueles que se levantarão contra vós.

Tempos de crescimento chegaram a Athenoi, seremos grandiosos. Mas, a grandiosidade sem caridade, torna-se soberba e os soberbos tem em seu futuro apenas uma coisa. O fim.


Amon caminhou até Italus e o carregou no colo, como se fosse um bebê e o colocou sentado, aos seus pés. Virou-se de costas para a grande multidão e ficou de frente para o idoso, que o observava com seus olhos cansados.

Amon abaixou-se e pegou um punhado de terra com a mão direita. Levou o pulso esquerdo aos lábios e fez grandes furos com as presas. Enquanto o sangue caía sobre a cabeça do velho, Amon clamava aos velhos e novos deuses que atendessem o seu pedido.

Ergueu a mão direita e começou a soltar lentamente a areia, representando a passagem do tempo. Após toda a areia cair e uma quantidade absurda de sangue já havia banhado todo o homem, deixando toda a sua pele sob seu sangue escuro, Amon impôs a sua vontade sobre o corpo, tirando todo o peso que a idade impunha sobre aquele homem.
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Re: Interlúdio - Amon

em Qua Ago 22, 2018 12:49 pm


E então, sentiu o tempo parar.

Não retrocedeu. Apenas parou, suspenso no infinito. Diante de Amon, uma multidão congelada, faces boquiabertas com a demonstração do Espírito do Tempo. Ítalus, sob ele, tinha os olhos fechados, face voltada para cima, dedos entrelaçados em um gesto estranho. Amon percebeu. Aquele era um gesto, uma espécie de glifo dedicada a ele. Aquele homem acreditava, piamente, que Amon era um Deus e que olhava pelos seu povo. E estava estampada na sua face a felicidade. Após anos, anos de batalhas sem fim, de mortes e de doença, aquele homem tinha tido a sua recompensa. Estava diante de sua Divindade. E havia sido recompensado por ela com mais tempo sobre a terra, para que pudesse dedicar ao seu serviço.

Amon, mesmo sem querer, viu a aura do homem. Era de uma radiância exuberante, tons de felicidade profunda, de epifania espiritual, de lealdade profunda e voluntária. Aquele homem havia dedicado sua vida à guerra mas, também, a um sacerdócio em nome de um Deus Ausente. Tudo isso sem pedir nada em troca. Tendo profunda gratidão pelas coisas simples da vida, como desabrochar de uma flor ou o som eterno das ondas. Havia matado muito, aquele homem. E jamais havia pensado que fosse a vontade de seu Deus, pois ele conhecia o que defendia Amon. Estava escrito em fogo em sua alma. Aquele homem, Ítalus, amava seu povo, mas amava também o conjunto da humanidade.

E então, o Tempo voltou a retroceder, após haver revelado a Amon, mais uma vez, o quanto era bela a Criação.

O Sangue secou, rapidamente, entranhando-se na pele do homem. A pele clareou, perdendo as manchas escuras causadas pela idade. Cicatrizes desapareceram, pelos voltaram a crescer. O corpo como um todo aumentou de massa, até atingir um porte grandioso, de guerreiro. Os cabelos, lentamente, assumiram uma cor negra como a noite, deixando para trás os fios brancos. Se tornou ereto, dono de uma barba escura e espessa que lembrava a de Ilyias.

Aliás, aquele homem se assemelhava muito a Ilyias.

A única diferença eram os olhos. Os dele eram azuis, com tons de laranja e amarelo.

Quando o homem abriu os olhos, a população não sabia o que tinha ocorrido. Não haviam percebido. Um simples instante no meio de todas as coisas e todas as coisas haviam mudado. Urraram, gritaram de alegria. Avançaram em direção a Amon, e se ajoelharam aos seus pés, tecendo odes ao seu nome. O homem continuava de pé, a olhar as mãos e a tocar o rosto e os cabelos. Chorava, silenciosamente. Depois, olhou no fundo dos olhos de Amon e se curvou perante o Antigo.

- Eu agradeço. Passei todos os dias da minha vida sob o teu serviço. Passarei todos os outros.

Mas o Tempo, com suas surpresas eternas, pregou uma outra peça.

Amon fechou os olhos. Se estivesse correto, sentiria toda a fúria da Normalidade a destruir seu corpo novamente. Normalidade versus Possibilidade. Era disso que se tratava, afinal. Permaneceu, contudo, intacto. Mas, diante de seus olhos e dos olhos de todos os presentes, o tempo acelerou sem o seu consentimento ou vontade. E dos pés de Ítalus, uma planta começou a desabrochar do solo seco com enorme velocidade. Em poucos segundos tornou-se uma árvore adulta, com ramos fortes, folhas verdes e pequenos frutos redondos. Amon jamais havia visto uma planta do tipo.

- É uma oliveira. - O ensinou Nikaia.

Ítalus se ergueu, permanecendo sob a árvore. As folhas, verdes, pareciam formar uma coroa em sua cabeça.




Ítalus.
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Re: Interlúdio - Amon

em Sex Ago 24, 2018 10:17 am
Amon ficou paralisado. Se ainda fosse mortal, certamente suas pernas cederiam ao peso de seu corpo e ele cairia no chão. Sua mente pareceu falhar, apenas o silêncio e a escuridão o envolviam.

Até que novamente a figura de Ilyias, a sua frente, o trazia para a luz. Ao longe, o som das ondas voltaram a preencher seus ouvidos. A brisa fria, vinda do mar, carregada daquele típico aroma marinho, o inundou. Ele voltava a si. Lágrimas verteram por sua face. Aquele não era Ilyias. Não poderia ser. Aquele homem era Ítalus, um grande homem entre os seus.

Ainda perturbado por tamanha semelhança e tomado por uma forte sensação de saudade, daquelas que agoniam o coração e quebrantam a alma, Amon o abraçou e sussurou em seu ouvido. - "Eu o quero para a eternidade." - Ele olhou para Nikaia e, numa transmissão rápida de pensamento, disse-lhe que se ausentaria por algumas horas. Era hora da família crescer. Pois, assim como ela era uma representante de seu povo, em força e vontade, aquele homem era a representação da fé e da devoção de um povo. Ambos, juntos, seriam os pilares desta cidade.

Como se nunca estivesse pisado ali, Amon partira, carregando Ítalus numa velocidade absurda. Ele só parou de correr quando já estava na praia, no mesmo local onde encontrara Nikaia e posteriormente a abraçara.

Seus pensamentos, confusos, tentavam achar uma lógica, uma explicação para aquela situação, para aquele momento, no entanto, não possuía conhecimento suficiente que explicasse. Conjecturou sobre renascimento, sobre viagem no tempo, sobre possessão, ainda assim não obteve resposta.

Amon sabia que, ao abraçar Ítalus, passaria os restos dos seus dias numa situação ambígua de sensações, pois, ver aquele homem, tão parecido com seu senhor e não o sê-lo, lhe traria imensa tristeza, mas também, profunda felicidade, já que aquele homem acreditava nele e fora um exemplo a ser seguido pelos seus.

Amon afastou-se de Ítalus para que pudesse observa-lo mais uma vez e, tomado pela emoção e pela paixão por seu senhor, que nunca acabara, não hesitou.

Crendo que aquele momento fora previsto por Ilyias, o sábio e atemporal senhor, segurou com força o pequeno recipiente, em forma de colar, que lhe fora dado, um recipiente onde havia uma pequeníssima parcela do precioso sangue do antigo senhor do tempo.

Ignorando tudo a sua volta, Amon aproximou-se novamente de Ítalus e sem aviso, o abraçou, envolvendo-o num abraço apertado. Ao sentir o irresistível cheiro de sua pretendida cria, acariciou os lábios em seu pescoço, roçando suas presas, agora expostas, próximo a artéria.

Num sussurro Amon disse algumas palavras, antes de cravar as presas no pescoço do ainda mortal guerreiro.


Eu o amo pelo que tu foi, pelo que tu és e pelo que ainda serás.

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Re: Interlúdio - Amon

em Sab Ago 25, 2018 7:58 am
Bebeu. E voou.

Ítalus tinha um sabor diferente do de NIkaia. Tinha gosto de mar, de sal e de sargaço. A Vitae entrou em profusão no corpo do Antigo, e o sentido das coisas desapareceu mais uma vez. Não havia nada diante de Amon, exceto pela escuridão. Sentia-se em um túnel, um espaço apertado mas que, apesar disso, era também acolhedor. Estava parado, não sabia se de pé ou se flutuava. Depois, ouviu um rumor. Era como se inúmeros grãos de areia atingissem uma superfície de metal, um rumor contínuo e irritante. Depois, as luzes. Eram de todas as cores e passavam, velozes, pelo corpo de Amon, por dentro de sua alma. O túnel se iluminava pouco a pouco e quando finalmente se abriu novamente, Amon viu uma grande cidade. A sua cidade.

Estava, porém, em chamas.

Um sem número de homens corria pelo local, incendiando tudo aquilo que encontravam. Assassinavam homens e crianças, e violavam as mulheres que ali estavam. Eram homens de pele escura, muito parecidos com os povos nativos da Planície de Nippur. Atrás deles, um infinito de navios estavam atracados naquela mesma praia onde ele se encontrava agora. As naus vomitavam centenas de homens que, com os dentes cerrados e com expressões demoníacas, avançavam incendiando as florestas ao redor.

Depois, passou.

Amon estava novamente de pé na areia da praia. Ítalus jazia em seus braços, inerte, os olhos semicerrados voltados em direção ao céu escuro. Não respirava.

O Antigo, então, abriu o pequeno recipiente onde estava retida a lágrima de Iliyas. Com cuidado, mas ainda perturbado pelas visões que lhe haviam acometido, derramou o líquido nos lábios ressecados do mortal. A língua se moveu, respondendo ao estímulo, mas Ítalus não continuou a se mover. Amon o manteve, ainda, em seus braços, esperando os efeitos típicos do Abraço. Ítalus não se movia.

Súbito, os olhos do mortal se abriram. Eram mais azuis do que antes, intensos, congelados em uma expressão assustadora. Moviam-se lentamente, como se acompanhassem a passagem das Eras. Ítalus segurou, com força, nos braços de Amon. Depois, gritou.

Um grito profundo, gutural. Gritou e gritou continuamente, como se sua mente estivesse sendo esmagada por uma força invisível. Não se movia, não se debatia, apenas gritava, sua voz ecoando no vazio do bosque. Quando finalmente parou, se manteve ali, parado, os olhos arregalados fitando o céu. Lentamente, se tornou mais pálido. Aos olhos de Amon, sua barba pareceu mais espessa, mais escura, exatamente como a de seu Senhor. Os olhos brilhavam mais do que o considerado normal para os cainitas, lembrando duas grandes estrelas.

Esforçando-se, livrou-se do abraço de Amon e colocou-se de pé. Arfava, mas não era o arfar da Besta. Aliás, Amon notou que Ítalus parecia profundamente saciado, sem expressar a fúria típica do retorno da Morte. Fitou Amon por longos segundos, antes de finalmente falar. Quando o fez, sua voz era profunda, uma voz de séculos atrás. A voz de alguém que acumulou toda a Sabedoria de uma vida mortal inteira, retornou à juventude e, então, foi trazido à Noite Eterna. O corpo de Ítalus seria jovem para sempre, mas o espírito que o habitava era um espírito velho e experiente.

- Eu os vi. Na praia.

Olhou rapidamente para a cidade, como se para se certificar de que ela ainda estava lá. Pareceu tranquilizar-se ao confirmar que sim. Depois, tornou a olhar para Amon.

- Vi tudo do alto de uma montanha, a nossa montanha. Havia um homem parecido comigo ao meu lado. Ele me disse que eu deveria defender meu povo até as últimas consequências. Havia, também, uma grande besta de três cabeças que comandava os homens nos navios. Em cada uma de suas bocas ela mastigava um de nós. A mim, a ti e a Nikaia.

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Re: Interlúdio - Amon

em Sab Ago 25, 2018 8:27 am
Amon paralisara com a visão medonha de seu povo sendo chacinado. Sabia porém, que seu povo seria moldado pela guerra, como lhe foi profetizado tempos atrás em Nippur.

Eu também os vi.Respondeu gravemente.A guerra será nossa maior inimiga Ítalus e também nossa grande companheira. Estamos fadados a lutar pelo que acreditamos, por toda eternidade.

Seus olhos analisavam o recém abraçado. Como era belo em sua normalidade e como era tão parecido com Ilyias. Amon sorriu. O homem que vistes, é o meu criador. Na verdade, o nosso. Eu usei seu sangue para trazê-lo para noite eterna. Só não sei o que significa o monstro de três cabeças. Conheço duas pessoas que podem desvendar este mistério.

Vamos, tenho coisas para mostrar, caminhe comigo pela noite. A partir de amanhã, devemos preparar nossa cidade para a guerra e você, meu irmão, junto a Nikaia, me ensinarão a lutar. Nossa cidade crescerá. Ofertaremos o sangue de nossos inimigos aos deuses.


Sem pressa, Amon começou a caminhar ao lado de Ítalus, explicando sobre a sua nova natureza.

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Re: Interlúdio - Amon

em Sab Ago 25, 2018 9:38 am
Havia caminhado até os confins do mundo.

Sentiu o perfume do mar durante toda a viagem, pois a fez circundando o litoral. Como era imenso o mundo! Séculos haviam se passado, e sua presença não era mais necessária para proteger suas crianças. Eram velhos. Poderosos. Sabiam se defender sozinhos. Nikaia continuava em Athenoi, a grandiosa cidade que Amon havia idealizado. Athenoi havia crescido, se expandido rumo ao mar e ao interior do território. As dezenas de mortais deram origem a centenas, que deram origem a milhares, seguindo o ciclo natural das coisas. Construiam e combatiam, eram navegadores experientes e guerreiros ferozes.

Ao menos era o que Amon se recordava.

Suas andanças duravam, agora, anos, décadas. Com a idade veio o desejo de descobrir todas as terras que existiam. Compreendia cada vez mais as prolongadas ausências de Ilyias, que durante séculos caminhava pelo mundo, característica que parece ter sido passada a Ítalus. Na verdade, era Ítalus quem arrastava Amon para as andanças. Era um espírito inquieto e havia se tornado um grande cainita, dono de uma força física assustadora e de um controle das Possibilidades surpreendente. Nikaia era vinculada à Athenoi, mas não deixava de impulsionar seu Pai e seu Irmão quando eles decidiam viajar.

Haviam seguido o litoral, transposto inúmeras praias, bosques e florestas. Eram Senhor e Cria, mas eram também amigos, sempre envoltos em profundas discussões filosóficas. E foi durante uma destas discussões, sobre a natureza das maldições d'Aquele Acima, d'Aquele Abaixo e do próprio Caim, que ouviram.

Era uma noite quente e abafada. Diante deles, uma praia parecia se estender ao infinito, intocada e vazia, não fosse um grupo de pessoas que, sentadas na areia branca e circundadas de tochas ardentes escutavam com atenção a uma mulher que falava alto e gesticulava intensamente. A língua não era conhecida, mas pareceu a Amon que estavam diante de uma espécie de lição. Aproximaram-se. O grupo era compostos majoritariamente de homens, nenhum deles com porte de guerreiro ou combatente. Estavam hipnotizados pela mulher. Ela tinha uma pele bronzeada, era magra e não muito alta, com longos cabelos encaracolados que lhe caiam pelas costas estreitas. Vestia somente um vestido marrom, simplório. Estava descalça. Quando girou-se, e seus olhos encontraram os de Amon e de Ítalus, ela sorriu, um sorriso franco e sincero. Estendeu a mão direita ao círculo onde estavam os outros, convidando-os a sentar-se.
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Re: Interlúdio - Amon

em Qua Set 05, 2018 4:10 am
O tempo passou a se arrastar lentamente para Amon. Estar fixado em Anthenoi, o deixava entediado, apesar de amar aquele povo. Seu sonho de construir uma cidade, onde os homens e mulheres pudessem conviver em harmonia será certo, aí da assim, lhe faltava algo, mesmo com a presença de Nikaia e de Ítalus. Talvez não superara a ausência de Ilyas, que por sinal, estava sempre em seus sonhos e visões. Amon conversava constantemente com Ilyas, como se ele ainda estivesse ali.

Finalmente, ao entender que seu estado de tédio era um reflexo de sua falta de aprendizado, decidiu viajar pelo mundo. Nas primeiras viagens, partiu sozinho, caminhando pelo mundo, sem uma direção e local definidos.

Numa de suas viagens, decidira abandonar completamente sua civilidade e, como já havia feito, caminhou entre as feras, as conhecidas e também as desconhecidas pela jovem humanidade. Com elas, aprendeu mais sobre a sua natureza e como sobrepujar, através de seus dons, a natureza feérica.

Viajou também pelo mundo espiritual. Conheceu espíritos antigos e espíritos novos. Aprendeu também com eles. Tudo para Amon era motivo para aprendizado.

Caminhou por vales, montanhas, florestas e desertos. Caminhou sozinho, caminhou acompanhado por caravanas de homens.

Quando sentia a solidão, retornava para a sua amada cidade, para o seio de seus filhos. E a cada retorno, via com alegria o desenvolvimento da cidade.

Depois de algumas viagens, passou a acompanhar Ítalus, e então, as viagens passaram a ser ainda mais interessantes. Ele era formidável, um espírito sábio encarnado num corpo imortal. Debatiam sobre suas naturezas e a natureza dos mortais. Observavam juntos o mar e as estrelas. Observavam o nascimento de e o fim de vários povos.

E então, em sua última viagem, ele a viu e novamente seu coração bateu acelerado. Como era bela em sua simplicidade e em sua sabedoria. Estava a frente de um grupo de homens e lhes falava com propriedade. Sua voz o fascinava a tal ponto, que ele sequer notou quando ela o convidou para sentar-se junto aos outros.

Ali, naquele momento, sob as estrelas, Amon a desejou para si, como havia desejado Nikaia e Ítalus. Mesmo não entendendo sua língua, ele a escutou, captando suas intenções através do dom da percepção, tocava levemente seus pensamentos superficiais, para que pudesse compreender. E então, sem pressa e sem urgência, sentou-se junto a Ítalus e a escutou, como um filho escuta as sábias palavras da mãe.


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Re: Interlúdio - Amon

em Qui Set 06, 2018 4:38 am
As ligeiras rugas ao redor de seus olhos verdes e entorno à boca pequena demonstrava que o Tempo havia passado para ela. Amon sabia que aquela mulher contava quarenta e sete ciclos. E que aqueles ensinamentos na praia se repetiam continuamente, talvez uma forma de ela contar o tempo para si própria. Era quase como se o cainita pudesse ver, seguidamente, os momentos em que ela discursou ali, tendo a companhia de homens e mulheres de diferentes idades e antecedentes. Há vinte e cinco anos ela o fazia, disse Ítalus a Amon. A progênie parecia tão fascinada quanto o senhor.

Eram poucos naquela noite. Amon sentou-se entre sete homens e duas mulheres. Suas faces eram ligeiramente alongadas e com narizes grandes. Tinham cabelos muito escuros, haveria de ser uma característica daquela região. Eram pessoas simples, vestidas com pouca ostentação, descalços. Somente um dos homens parecia possuidor de mais riquezas. Usava joias de bronze e cobre, cobertas de pedras preciosas. Mas sentava-se ao chão e repartia o pão e o pouco vinho com todos os outros.

Amon roçou sua consciência naquela da mulher, buscando entender a síntese de seu pensamento. Notou que Ítalus fazia o mesmo. A mulher se movia por entre as pessoas, movendo as mãos harmonicamente. Tinha cheiro de fruta e especiarias, um perfume que sobrepujava o cheiro do mar e da areia. Ocasionalmente olhava Amon e Ítalus e sorria novamente, estreitando os olhos quando o fazia.

"O tema, curiosamente, era o Tempo. Havia o tempo de plantar e o tempo de colher, o tempo em que era preciso se retirar para contemplar o mundo e as mudanças que ele sofria e o tempo em que era necessário enfrentar as circunstâncias. Altamira via o mundo como um lugar de experimentação e busca. Não tinha ideais e defendia que aquelas pessoas nada tivessem de duradouro na mente. Dogmas, leis, regras, reis e rainhas, nada daquilo tinha valor para ela. Nada. Pois o tempo, inexorável como era, demolia todas as certezas. As suas. E demoliria também as daquelas pessoas. A única possibilidade de entender o mundo e estar satisfeito com a vida era entendendo a transitoriedade de tudo. Nada deveria ser permanente. E nada era permanente exatamente em razão da existência do Tempo. Cabia, então, aos homens e mulheres experimentar. Pois, no vácuo de vazio deixado pela passagem do Tempo, todos eles tinham a oportunidade de construir algo novo. Que, por sua vez, seria eventualmente destruído. A vida, portanto, é uma sucessão de criações e de ações, cujas consequências finais, acumuladas, selarão o destino de cada um deles uma vez que alcancem o Outro Mundo."

Fez-se silêncio por um instante. Em seguida, ainda em silêncio, as pessoas sentadas começaram a levantar-se. Abraçaram Altamira como se agradecendo àquela importante lição. Um a um se retiraram, Amon percebeu, então, que as pessoas eram servas daquele rico homem, mas que ele não negava a elas educação e pensamento crítico. Foram embora juntos, montados em cavalos, como iguais.

Altamira voltou-se para o mar e inspirou profundamente. Não se dirigiu a Amon ou Ítalus, esperou que eles o fizessem. Seus cabelos escuros estavam esvoaçantes sob a brisa noturna. Os olhos fitavam o infinito.



Altamira.
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Re: Interlúdio - Amon

em Qua Set 12, 2018 9:53 pm
Amon sorriu, mais para si do que para Ítalus. Ele achou um ponto comum em sua história. Sempre que sentia o desejo de abraçar, o mar estava ali, próximo a ele. Foi assim com Nikaia, com Ítalus e agora com Altamira.

O cheiro do mar, misturado ao perfume frutal que vinha da mulher, o hipnotizava. Além disso, a inteligência e a sabedoria dela o encantaram. Em sua singela e breve existência, ela conseguiu compreender sobre o tempo, enquanto ele levara centenas de anos para compreender.

Ele caminhou e parou ao seu lado, inundando-a com imagens, esperando que ela pudesse entendê-lo. Arriscou usar sua linguagem, mesmo que rudimentarmente. Amon sempre teve facilidade com os idiomas.


Tens razão em tudo o que diz Altamira, no entanto, seu conhecimento sobre o tempo pára justamente num ponto onde ainda não conheces. Hoje eu e Ítalus,assim como outras dezenas de seres como nós, ignoramos a pericividade do tempo. Há centenas de anos venho acompanhando a humanidade e em alguns casos, até passeio por ele, de uma forma que nenhum outro possa fazer, apesar de seus riscos.

O tempo é, para mim, algo dimensional, como o espaço, altura, largura e profundidade. Ele também pode ser moldado, mas, não deve sê-lo. E agora, minha encantadora sábia, quero saber se deseja ver o tempo de outra maneira. Se deseja ver o tempo através de uma nova forma, através de uma percepção imutável, eterna.


Ele estava nervoso, como sempre fica quando o desejo do abraço o toca. Ele temia que ela recusasse a sua oferta.

Desejo lhe dar tempo e compartilhar contigo todo o conhecimento que possa buscar, sem pressa e sem medo de partir. Um aprendizado constante, através de olhos que poderão observar, ou interferir, como desejar, as vicissitudes da vida.

Ele ficou em silêncio, observando-a atentamente.

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Re: Interlúdio - Amon

em Qui Set 13, 2018 3:58 am
Por um breve segundo Altamira se manteve calada. Continuou a fitar o mar que se refletia, ainda que fosse noite, em seus grandes e expressivos olhos verdes. Depois, sorriu. Antes de se voltar na direção de Amon, porém, encarou por um breve segundo os bosques que circundavam a praia, como se tivesse visto alguém ou alguma coisa. Sorriu, novamente, desta vez demonstrando mais afeto. Em seguida, ainda olhando o bosque, fez um aceno de positivo com a cabeça e murmurou algo em sua língua natal. Pareceu uma prece. Um agradecimento. Ou ambos.

- Eu sabia que virias, Amon. Me foi dito pelo meu guia, um Eco entre os mundos que insiste em ecoar. Ele disse que guiaria teus passos até mim e que você estaria aqui em uma noite de lua cheia, na noite em que minha tarefa para com este povo tivesse terminado.

Altamira falava, fluentemente, o idioma da Planície. Mais do que isso, falava utilizando as palavras e expressões típicas de Nippur.

- Muita coisa aprendi com o meu Guia. Ele falou-me sobre a sua e a tua história. Me disse, me pediu que eu cuidasse de você, da maneira que ele sempre desejou cuidar mais que não lhe foi permitido dadas as circunstâncias. Ele constrói uma Família para ti, Amon. Ele não quer te deixar sozinho.

A mulher se girou e se aproximou. As rugas ao redor de seus olhos pareciam mais acentuadas, mas isto não a tornava menos bela. Ao contrário. Todos os que Amon havia conhecido, todos os descendentes de Ilyias, foram Abraçados muito jovens. Troile não tinha mais de dezessete anos, assim como Anis. Belit e Nikaia estavam na casa dos vinte. Ítalus, dos trinta. Mas aquela mulher tinha tido o Tempo ao seu favor.

- Eu, pessoalmente, senti grande Amor e Devoção dele por ti. Um Amor tão grande que mesmo após a morte parte daquele espírito não pode descansar, mantendo-se vinculado à Terra e ao Tempo somente para agir em teu favor. Se tal coisa não é a maior das demonstrações de Amor, o retorno da Morte e do Esquecimento em favor de quem se ama, eu não sei qual seria. E eu fui prontamente contagiada por este Amor, que cresceu em mim, e me vi ansiosa em conhecer-te. Agora, cá estás, diante de mim. E não há nada que eu possa fazer a não ser conhecer, pela Eternidade, o homem que eu aprendi a amar e respeitar ainda que eu não o conhecesse pessoalmente.

Sorriu. Estava separada de Amon por poucos centímetros. O cainita sentia o perfume da pele aveludada e frágil, a respiração se tornando ligeiramente ansiosa. O pulsar do Sangue. O cheiro do Sangue.

- Eu estou aqui, Amon, despida de mim mesma. Eu estou aqui com uma missão dada por Ilyias, que é aquela de amar-te, guiar-te e proteger-te, valendo-me das experiências que você nunca teve. Eu sou tua.
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Re: Interlúdio - Amon

em Qui Set 13, 2018 4:33 am
Lágrimas brotaram nos olhos cansados, porém vívidos, de Amon. A menção do nome de Ilyas e do amor que ele sempre desejou ter de seu criador, era tão palpável e tão real quanto o tempo. Ainda que a morte o houvesse levado, o amor ainda se fazia presente, mesmo que a maldição do primeiro o levasse para um caminho exatamente oposto.

Virou-se para o bosque, como se o eco ainda passeasse pelas árvores, folhas e raízes e sorriu, mesmo com a face molhada de sangue. Uma vez mais em sua existência, Amon odiou profundamente o primeiro, aquele que indiretamente afastara seu mestre, com a maldição do sangue.

Seus olhos pousaram na bela Altamira e a admiraram. O tempo fora benevolente com ela, não pela forma física que se encontrava naquele instante e sim pela sabedoria adquirida.

Amon ergueu a mão direita e a tocou no rosto, deslizando a mão até a parte de trás da cabeça, trazendo para si, sem força, sem imposição. Apenas desejo. A princípio não era um desejo carnal, aquela mulher lhe inspirava o conhecimento, o amor e a sabedoria.

Amon encostou a testa na dela e ficou seu olhar no dela. Sorria sob a luz da lua. Com o braço esquerdo a envolveu pela cintura, puxando-a para si. O perfume frutal, misturado ao perfume de sangue o inebriaram. Colou seus lábios no dela. Como era doce a sensação.

Amon beijou seu rosto, seus belos olhos verdes, suas bochechas e enfim, parou os lábios em seu pescoço. A mão direita ainda lhe a acariciava a nuca, onde descia aquela vasta e bela cabeleira. As presas arranharam de leve a pele de Altamira e então, subitamente, Amon a tomou para si, cravando as presas em seu pescoço.

Não havia violência, foi um ato carinhoso, ele desejou que não fosse dolorido, nem mesmo traumático para ela.

Após beber de seu sangue, Amon afastou os lábios e lhe disse ao pé do ouvido.
Comungue de meu sangue e seja uma comigo. Com a unha, Amon abriu um pequeno furo em seu pescoço e conduziu os lábios de sua bela Altamira até ele. Enquanto ela bebesse dele, ele faria o mesmo e beberia dela, para que pudessem juntos, aprender mais um sobre o outro e, diferente de sua outra cria, fossem ainda mais ligados.

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Re: Interlúdio - Amon

em Qui Set 13, 2018 5:28 am
Tomou-a.

Nenhuma sensação mística, nenhuma epifania, nenhuma revelação final.

Somente Amor.

Havia o Amor de Altamira por Amon, que era grande, pois Ilyias, de alguma forma, havia ensinado à mulher tudo sobre sua progênie. E ela o amava profundamente, embora tivesse medo de decepcioná-lo.

Havia, porém, mais forte, mais familiar a infinitamente mais intenso, o Amor de Ilyias. Ilyias vivia em Altamira através das palavras que havia dito a ela, assim como vivia em Ítalus em razão da semelhança física entre eles. Assim como vivia em Nikaia, numa sua versão furiosa e guerreira, Ilyias, aquele que esmagava o inimigo com suas mãos potentes. Todos eles eram uma fração de Ilyias. Face, Fúria e Palavras.

Nenhuma revelação. Exceto por uma. Uma impressão. Uma face.

Altamira passaria milênios sozinha. Milênios sem gerar uma progênie. Até que surgisse aquele homem, um homem do Leste, de uma terra fria e arrasada por tiranos e reis injustos. Um homem que com suas palavras tentaria mudar o mundo inteiro. Um homem. Amon não entendia seu nome, aquele idioma ainda não existia. Era uma língua estranha e complicada. Amon, porém, conseguiu reproduzir em sua mente os sons que poderiam significar aquele nome.

"Dmitri."

Bebeu e permitiu que Altamira bebesse de seu Sangue por um momento indefinido. A uma distância respeitosa, Ítalus observava e chorava de contentamento, ao ver a felicidade de seu Senhor. Ao ver aumentar sua família.

Altamira morreu naquela noite, e ressurgiu como cainita. Seus olhos verdes eram ainda mais brilhantes, sua pele pálida era ainda mais branca à luz do luar. O Abraço de Altamira não foi doloroso. De fato, ela pareceu não sentir as dores da morte e do renascimento. Quando se ergueu, somente abraçou Amon. De forma longa e demorada. Pela primeira vez o Matusalém, aquele cainita de três mil anos, se sentiu protegido, muito mais protegido do que nas raras vezes em que era abraçado por Ilyias. Sua Progênie enxugou suas lágrimas, lambendo-as. Depois, terminou com um beijo na fronte de seu Senhor.

- Para sempre. - Murmurou ela em seu ouvido.
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Re: Interlúdio - Amon

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