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Re: Interlúdio - Amon

em Seg Ago 06, 2018 4:41 am
Amon viajou em silêncio, refletindo sobre o acordo feito com a voz da montanha. Durante a viagem pensou e chegou a conclusão: "Sim, aquele era um bom acordo, apesar da periodicidade da visita ser longa, seria um momento especial para o povo, além de gerar um respeito ainda maior aos espíritos que ali habitavam, espíritos estes que Amon ansiava também em conhecer. Teriam eles conselhos a dar para ele, um homem morto?"

Ao chegar no acampamento, teve a certeza de que o acordo era bom, pois, ver aqueles mortais reunidos, crescendo em número e em sabedoria, guiados por sua criança, era algo especial e a mínima possibilidade de perdê-los, lhe era inconcebível.

Tomado pelo desejo de Ilyias em vê-lo, caminhou até o centro do acampamento. Deveria dar a notícia do acordo e também avisá-los que passaria um tempo longe, junto com Nikaia. Amon ergueu sua voz entre os homens, para que todos pudessem ouvi-lo.


Hoje venho até vós, após uma curta viagem, para dizer-lhes que obtivemos a permissão das mulheres-feras para visitar a montanha. Entretanto, estas visitas só poderão acontecer uma vez a cada grande ciclo e, quando este momento chegar, tanto eu quanto Nikaia os guiaremos até o alto da montanha. Amon calou-se, observando-os antes de continuar. Quando o grande dia chegar, será um dia de festa e júbilo. Será um dia para descansar e reverenciar aqueles que se foram e aqueles que estão por vir. Ofereceremos aos grandes espíritos as honrarias que lhe são devidas e lhe pediremos conselhos.

O cainita caminhou até a sua cria e compartilhou seu sentimento. Meu pai deseja conhecê-la Nikaia. Partiremos ainda esta noite para Nippur. Deixaremos nosso povo sob os cuidados de Eletria e quando voltarmos, erigiremos nossa cidade. Não viveremos mais sob tendas. Mais uma vez Amon caminhou entre o povo e deteve-se ao lado de Eletria, a líder dos mortais. Hoje, eu e Nikaia viajaremos até a terra onde habitam os antigos, em breve voltaremos. Deixarei o meu espírito entre vós e, se caso algo aconteça, estarei ciente.

Amon virou-se para sua cria.

É chegada a hora, partamos o quanto antes. Enquanto partia, Amon invocou o espírito do tempo e, naquele exato momento, ele decidira que não ensinaria o dom do tempo a Nikaia, por mais que desejasse, pois, aquele poder altamente destrutivo começara a desagradá-lo. Caminhando, orou em silêncio aos espíritos da montanha, esperando que o dom não se desenvolvesse em sua criança.

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Re: Interlúdio - Amon

em Seg Ago 06, 2018 2:22 pm
A notícia foi recebida de maneira dúbia. Amon viu a sombra da guerra e do conflito baixar nos olhos dos homens e mulheres. Tal sentimento foi abreviado pelas palavras de Eletria, que conclamava o povo a dançar e celebrar. Eles tinham medo, muito medo das Vozes da Montanha. Portanto, viajar até seu santuário com a permissão delas, ainda que somente uma vez ao ano, era de bom tamanho. Agradeceram Amon, depositando leite e mel na Terra diante dele. Olhavam para Nikaia e agradeciam em silêncio pela sua Sabedoria em sua aliança com os Espíritos. Amon, segundo os aldeões, era o espírito guia daquele povo. Assim como Nikaia também o era.

Em meio aos festejos e danças, Nikaia aceitou a proposta de Amon. Viajaria para Nippur com seu Senhor, e conheceria a Fonte de seu Sangue. Eletria comprometeu-se a cuidar daquele povo com a sua própria vida, se necessário. O Espírito do Tempo se deslocou do corpo de Amon, assumindo sua posição no centro da cidade, invisível aos olhos de todos, exceto aos dele e de Nikaia. Mas algo mais deixou o corpo do cainita. Um Torpor antigo, uma frieza não desejada. Desta vez, Amon não sentiu seu corpo murchar em agonia. Sentiu, contudo, que uma nova barreira se rompeu dentro dele. Amava a tudo. Excessivamente.

Nikaia, sentia Amon, era já diferente dele. Nikaia era uma ideia. Nenhum sinal de Ilyias existia naquela mulher. Era uma força, uma tempestade. Nikaia seguiria Amon até os confins do mundo, pois seu Amor era grande.

Caminharam por meses. Nikaia se movia como o vento, em uma maneira que Amon não sabia ser possível ao seu Sangue. O retorno foi exatamente como a viagem inicial, com Amon conhecendo novas tribos, novos costumes, povos e crenças. Mas, desta vez, Amon tinha alguém com quem partilhar tudo o que via, sentia, cheirava e ouvia. Como era belo não estar sozinho! O amor entre os dois crescia, Amon jamais havia sentido algo como aquilo. Ao mesmo tempo, sentia um aperto no peito quando pensava que encontraria Ilyias. Era uma sensação boa. Nikaia explicou ao seu Senhor que aquilo se chamava saudade.

Estacaram diante dos portões de Nippur. O ar estava pesado, carregado, como se uma grande onda estivesse a ponto de arrebentar-se na praia. A cidade estava vazia, os mortais tinham se recolhido. O Templo de Ilyias se desenhava contra o céu escuro. Amon sentiu a presença de seu Senhor, como uma chama fraca que tremeluzia ao vento. Sentiu também Belit-Sheri, Anis e Troile, além de Astar e Shalmath. Sua família havia crescido e o esperava.

Amon estava em casa.
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Re: Interlúdio - Amon

em Seg Ago 06, 2018 8:26 pm
Amon rendeu-se, finalmente, ao prazer de amar. Passara praticamente toda a sua não-vida tentando, incessantemente, conhecer a natureza do amor que os mortais fazem naturalmente, como caminhar.

Ao lado de Nikaia, viajou redescobrindo o mundo, com olhos menos frios, menos analíticos, vivenciando cada experiência de forma única. Ensinou e aprendeu pelos povoados e povos que passou. Ouviu em silêncio quando necessário e inflamou-se quando algo em que acreditava fora confrontado.

Apreciou genuinamente os dons desenvolvidos por sua cria e, dentro de si, apesar de toda a paixão e fúria que agora nele existiam, estava em paz, pois, os espíritos o haviam escutado.

Parado com Nikaia, às portas de Nippur, sentiu o cheiro daquela terra e dos mortais que ali habitavam. Sentiu a presença de sua família e notou que de fato sentia a falta deles, e como sentia.

Parecendo uma criança insegura ou temerosa frente a um grande obstáculo, segurou a mão de Nikaia, para que entrassem juntos. O toque frio da pele de sua amada cria o acalmava. Estava nervoso, se ainda fosse vivo, certamente estaria com as mãos úmidas de suor.

Caminharam pela cidade, apreciando cada detalhe, até que enfim avistou o templo. Sorriu de felicidade. Definitivamente, estava em casa, pois, estava com os seus.

E sem receios ou temores, adentrou o templo ao lado de um dos amores de sua vida, encontrar os outros amores que há tanto tempo não via.


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Re: Interlúdio - Amon

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