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Interlúdio - Amon

em Dom Jul 15, 2018 6:50 am
A putrefação se espalhava, ainda que muito lentamente, pelo corpo de Ilyias. Mas, como tinham sido maravilhosos aqueles últimos anos! Ainda que Ilyias não fosse o cainita que Amon havia conhecido, que esperava que fosse, seu Senhor havia mudado. A Maldição de Caim era presente nele, mas seus filhos se encontravam em uma espécie de limbo entre o Nada e o Tudo. Anis tornou a dançar, encantando a todos com seus movimentos hipnóticos. Havia escolhido permanecer em Nippur. Havia se reconciliado com Ilyias, depois de uma conversa a portas fechadas que havia durado uma eternidade. Belit-Sheri lia tabuletas e mais tabuletas, o conhecimento se acumulando em sua mente. Sorria com frequência e compartilhava seus achados. Troile, seu irmão mais novo, era a sombra de Ilyias, estando com este onde que que ele fosse. Era amável, doce, prestativo. Mas Troile exibia uma preocupação oculta, tão grande quanto aquela de Amon. Sabia que a noite na qual o seu Senhor deveria deixar o ciclo se aproximava.

Era cada vez mais difícil acessar as Probabilidades. Amon frequentemente se sentia esgotado quando o fazia. Devia empregar muito mais Vitae e Vontade para realizar as tarefas mais simples. Ao mesmo tempo, o presente parecia cada vez mais atraente que o futuro ou o passado. Ilyias estava ali, Ilyias sorria e lutava na Grande Guerra ao lado de seus filhos. Já durava trinta e cinco anos, a Guerra, sem que perspectivas de vitória aparecessem no horizonte. Era somente um vencer e ser vencido, com uma leve vantagem para Nippur. Mas, era irrelevante. Ilyias conduziu Amon até o mar, onde conversaram por noites sob a luz das estrelas. Ilyias falava constantemente do fim, e de como Amon deveria aceitá-lo. De como o papel de seu filho mais velho seria importantíssimo nas noites que viriam e na preservação de Seu Sangue. Ilyias bebia de Amon, o que lhe permitia atrasar sua putrefação. Amon bebia de Ilyias. Ambos compartilhavam tudo, tendo como testemunha somente as estrelas longínquas.

Foi no solstício de verão que Ilyias decidiu que Amon deveria partir. A planície não era o mundo, dizia ele, e Amon deveria seguir o destino que o aguardava. Deveria trazer alguém para a Noite Eterna, se fosse de sua vontade. Deveria encontrar o local onde nasceria a cidade que havia idealizado. Astar e Shalmath aprendiam, enquanto carniçais, sob a batuta de Anis e Belit-Sheri. Um vazio, porém, começava a preencher Amon, que agora sentia demais. E sentia a paixão de suas irmãs por seus aprendizes, a paixão de Ilyias por Troile e de Troile por absolutamente tudo, e a ele faltava algo. Ao mesmo tempo, sentia um chamado. Uma voz feminina que lhe alcançava nos sonhos, juntos ao som de espadas que se chocavam umas as outras. Era cada vez mais forte.

As batalhas na planície haviam chegado a um momento de trégua, eram as festividades do solstício, era quase momento de colheita. Tanto Nippur quanto Mashkan haviam concordado em encerrar o derramamento de Sangue. Amon sabia, intuitivamente, que a trégua duraria alguns razoáveis anos. Seu controle poderia falhar, mas sua intuição continuava impecável. Era hora de partir.
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Re: Interlúdio - Amon

em Ter Jul 17, 2018 12:24 pm
Como era doce viver o tempo em sua plenitude presente, sem possibilidades, sem as típicas preocupações que o arrastaram nos últimos anos. Amon vivera os últimos anos como há muito não o fazia com os seus.

Voltou a andar com Ilyias, não pelas múltiplas possibilidades do tempo, não pelas voltas aos fenômenos passados que o fascinara tanto em sua juventude. Era por admirar as atividades mundanas, numa perspectiva simples e de fácil entendimento. Amon, agora podia sentir.

Seu amor pela vida e pelos mortais cresceu. Junto a Astar e a Shalmash, começou a planejar a cidade que criariam juntos. Todos eles. Todos os descendentes do pai do tempo.

Amon quis aproximar-se de Troile, no entanto, deveria permitir que o mais novo aproveitasse o conhecimento do pai, já que seu tempo entre seus filhos havia sido definido no dia em que interviu na torre negra. Esperaria, quem sabe até o retorno, para se aproximar ainda mais

Ao mesmo tempo, participou das incursões contra Mashkan e também ajudou a diminuir os efeitos da dura guerra entre as duas cidades, auxiliando os mortais e criando novas estruturas em Nippur.

Porém, toda aquela contemplação tinha tempo limitado, e este tempo, seria definido pela trégua erguida por ambas as cidades. Aquele tempo seria usado para fazer a sua viagem, onde rumaria ao desconhecido, em sentido a voz que tanto o chamavam.

Numa noite Clara, sob a luz da lua cheia, Amon despediu-se de sua família, especialmente de Ilyias. Pois, não sabia ao certo se ainda o encontraria quando retornasse.


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Re: Interlúdio - Amon

em Ter Jul 17, 2018 12:46 pm
E quão bela foi a sua caminhada! Quantos povos existiam, dos quais ele não sabia absolutamente nada!

Lembrou-se das palavras de Malkav, que deveriam servir como guia. Ecoavam em sua mente a cada anoitecer.

Pelo Leste, mas não tão distante. Rumo ao Norte, mas se detendo onde não é frio. Mar e ilhas, fogo e montanha. Os frutos não nascem, os animais abundam. Ali, alguém te espera.

E, ainda que não soubesse para onde seguir, era como se a sua intuição, ou a Visão de seu Tio, o guiasse.

Viu várias eras. Montanhas infinitas, planícies férteis e desérticas. Abrigou-se na terra, nas florestas e no coração das montanhas. Viu o mar, profundo. Conheceu tribos infinitas, bebeu deles e aprendeu com eles. Seguia, rumo ao nascer do sol. Participou de festividades e ouviu o pranto dos mortais, que beijavam-lhe as mãos e insistiam em lavar-lhe os cabelos. Bebeu das grandes bestas que vagam na escuridão, mas escutou os passos de outras ainda maiores, seus olhos vermelhos a observá-lo enquanto ele passava pelos seus locais sagrados. Não foi agredido ou ameaçado, apenas acompanhado para o mais distante possível. Amon sabia que era como eles, mas diferente.

Vagou por anos. E, ainda assim, sabia que a terra era muito maior do que o que tinha visto até agora. E ansiava por mais, preenchido por um profundo respeito. Ouvia a sinfonia das estrelas, que eram os olhos, azuis e castanhos, de Malkav.

E alcançou um lugar.

O mar o chamou uma última vez. Amon o viu do alto de uma colina, som a qual se estendia uma planície pedregosa. Lá, distante, estava o mar, reluzindo sob a luz das estrelas. Atrás dele, uma imensa montanha, morada de Deuses, tocava o céu noturno.

Amon sentiu, no ar, o perfume inconfundível da Vitae. E de bronze. Ouviu o clamor das espadas.

Diante do mar, acontecia uma batalha.
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Re: Interlúdio - Amon

em Ter Jul 17, 2018 8:48 pm
O "jardim" do Altíssimo era maior e mais belo do que Amon um dia pôde pensar. Sentia, a cada dia, dentro de si o desejo de conhecer a sua era melhor do que conhecia, ou pressentia, as possibilidades. O desconhecido lhe era fascinante e, não haveria como não ser, pois, Amon, o solitário, conheceria o berço de dezenas de povos e nações. E, de alguma forma, todos eles carregariam um pouco dele em sua história.

Quando viajava sob o céu escuro, sem lua, parava em vilas e acampamentos. Tomava para si a companhia dos mortais e os ensinava, não muito para não interferir em sua linha evolutiva, mas também, aprendia com eles. E muito, principalmente o valor da vida.

Em determinado momento da viagem, encontrou um grupo de nômades. Viajou com eles e se apaixonou intensamente por aquele grupo. Os acompanhou por meses, até que um dia, ao acordar do sono maldito, descobriu estar só novamente. Todo o grupo morreu, vitimado de alguma doença mortal ou intoxicação. Encontrou todos mortos. Todos. E pela primeira vez, desde a sua partida de Nippur, Amon chorou.

Ainda assim, seguiu os conselhos de seu tio e, como se visse seus olhos refletidos nas estrelas, manteve a trajetória. Não satisfeito em andar apenas com os homens, Amon também caminhara ao lado dos animais e das feras, como se fosse uma e aprendeu muito com elas. Nunca havia sentido a necessidade e tampouco a vontade de caçar, contudo, ao lado das feras sentiu o prazer que era caçar. Amon também esteve ao lado dos animais menores, aprendeu como eles sobreviviam aos mais perigosos, como se escondiam. Ainda com os animais, aprendeu sobre as plantas, sobre aquelas que poderiam ser ingeridas ou não. A sabedoria da natureza era perfeita, tal qual a criação.

E então, muitos anos após a partida, após ter compartilhado de seu conhecimento e de sua sabedoria, apesar de não se julgar sábio, de ter compartilhado da presença de homens e mulheres notáveis, dignos de intensas memórias, e de homens e mulheres simplórias, mas não menos dignos de nota, pois, até na simplicidade havia sabedoria. Amon sentiu primeiro o cheiro do mar. Sorriu. Pouco depois, o barulho das ondas, chocando-se contra as pedras no litoral. Vislumbrou a montanha que tocava o céu e sentiu-se pequeno, ínfimo. E enquanto ainda saboreava a sensação de ser apenas uma pequena fração de consciência frente aquele monumento natural, ouviu o clangor das armas.

Como se ainda fosse vivo, Amon sentiu os pelos arrepiarem. As palavras de Shalmash ecoaram em seus ouvidos, como se houvessem acabado de serem ditas. Sem hesitar, caminhou até a borda da colina em que estava e sob a luz prateada da lua, vira o combate que estava acontecendo na praia. Paralisado, de desejo, de paixão, de medo. Nem ele poderia explicar, foi um misto de sensações que culminaram em seu desejo de estar lutando com aqueles homens, pelo que quer que fosse. Pois, por mais que fugisse, a guerra era eterna e Amon já não sentia tanto o pesar, às vezes, ela era necessária para se tirar o melhor que a vida poderia dar. Apenas o melhor.

E sem saber o porquê, Amon gritou, extasiado, esvaindo todo seus sentimentos num poderoso bramido de guerra.


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Re: Interlúdio - Amon

em Qua Jul 18, 2018 1:23 pm
Seu grito de guerra ecoou pelas colinas e varreu as planícies pedregosas. Mas se perdeu antes de alcançar os homens que lutavam diante do mar. As ondas eram como música para os ouvidos de Amon, e o choque de armas, agora ele percebia, parecia não mais estar em seu auge. Alguém venceria naquela noite.

Então, Amon correu.

Seus pés cruzaram velozmente a planície, quase sem se chocar com as rochas. Desde quando corria assim, velozmente? O perfume de Vitae inundava as narinas do cainita, fazendo-o empenhar-se ainda mais. A Besta rugiu, arranhou a superfície da alma de Amon. Estava contida há tanto tempo! Que poder teria a Besta sobre o Homem agora que muito tinha mudado? Tantas interrogações, mas teria tempo. Muito tempo. Sua intuição lhe dizia.

Aproximou-se e viu o campo de batalha. Algumas centenas de corpos jaziam na praia. Estavam vestidos parcamente, com tecidos leves. Suas espadas, porém, eram finamente trabalhadas. Um povo de artífices? Usavam pulseiras e colares. Sandálias trançadas. Alguns poucos homens resistiam, bravamente, mas não por muito tempo. Viram-se derrotados e ajoelharam-se, depondo as armas. Eram jovens, não mais do que vinte e cinco ciclos. Suas faces, amedrontadas, refletiam a luz da lua cheia. Seus olhos refletiam o brilho das espadas dos vitoriosos.

Estes, urraram. Alguns mandaram preces à Lua, outros beijaram as pedras que formavam a praia. Alguns tomaram cantis, dos quais bebiam profusamente. Os vencidos não pareciam violar este momento de alegria com um ataque surpresa. Foram vencidos. Ponto. Havia honra na derrota.

Um único soldado entrou no mar. Abaixou-se e, com um gesto delicado e respeitoso, lavou o Sangue de sua espada no mar escuro. Depois, retornou ao grupo. Não era um homem. Era uma mulher bela, alta e de postura régia. Era, também, uma guerreira, diziam suas pernas fortes. Seus cabelos eram castanho claros, mas estavam escuros, molhados, dando-lhe uma aparência aterrorizante. Eram raspados ao lado da cabeça, e tatuagens haviam sido feitas ali. Vestia um camisão acinzentado, puído e saiotes de couro. Estava descalça. Os olhos pareciam verdes, ou castanhos. Eram pragmáticos. A característica que ela demonstrou quando deu uma ordem aos seus soldados, pois era ela a líder. Amon não entendia a língua. Mas entendeu, claramente, o conteúdo.

"Matem todos".


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Re: Interlúdio - Amon

em Sex Jul 20, 2018 8:33 am
Inexplicavelmente excitado, Amon passou a dar passos lentos em direção ao aglomerado de mortais, que lutavam entre si. Sob a luz da lua, na praia repleta de pedras, onde as ondas formavam uma espuma branca até se desfazerem na areia e nos corpos caídos no combate, avermelhando a água do mar, que insistia em começar a arrastar os corpos para si.

Sem perceber, os passos antes cadenciados, lentos, tornaram-se velozes, urgentes. Venceu um longo percurso em pouco tempo. Não pensou sobre isso, pois, fazia tempo que o tempo não lhe importava, não como antes.

Quando finalmente chegou ao campo de batalha, já haviam vencedores e vencidos. Ele não tentou encontrar a motivação daquela luta ou quem era o certo é o errado. Não. Amon apenas observou com olhos contentes e sorriso nos lábios. Viver o presente lhe parecia cada vez mais surpreendente e então, mais uma vez em poucos instantes, surpreendeu-se com a mulher na água. Bela, altiva, feroz. Um turbilhão de pensamentos e desejos o tomaram e até mesmo a besta que morava dentro de si, a desejou. Por inteiro.

Amon notou que entre os seus, poucos eram mulheres, na verdade, quase nenhum. Enquanto olhava a mulher, lembrou-se de Anis, uma mulher forte, decidida, mas, que ele teve pouco contato, devido a sua divergência com o pai. Todas as figuras representativas de Nippur, com exceção de Arikel, eram homens e ver, aquela mulher ordenar a morte dos derrotados, sem pestanejar ou hesitar, prendeu a sua atenção. Naquele exato momento ele a desejou. Para si. Para o mundo. Para a história. Sem demonstrar desrespeito ou medo, Amon se aproximou dela, não se importando com os corpos que recomeçaram a cair.



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Re: Interlúdio - Amon

em Sex Jul 20, 2018 9:19 am
Ela notou que Amon se aproximava. Não hesitou em manter suas ordens, assim como não mostrou medo.

As lâminas, com movimentos rápidos e precisos, decapitaram os derrotados. O Sangue verteu sobre a terra, carmesim e brilhante. As pedras o absorveram, sedentas, e o mar se encarregou de tomar o resto. Os corpos caíram no chão, um a um, com baques surdos que lembravam troncos de árvores. O mar ainda cantava, sob a luz da lua, e a mulher parecia não prestar atenção nos corpos caídos. Fitava, intensamente, os olhos de Amon.

A carnificina durou alguns minutos. Amon percebeu que os vencidos não apresentaram resistência ou dor. Sequer tremiam quando a execução aconteceu. Os executores também não demonstravam mais alegria ou excitação de vitória. Cumpriam o procedimento com atenção e reverência, em um tom quase religioso. Amon sentiu um calafrio, como se alguma força poderosa estivesse presente ali. Um vento frio soprou na praia quando a mulher, espada embainhada, caminhou em direção ao cainita.

Nos seus olhos, Amon viu fogo. Uma chama forte, idealista. Aquela mulher tinha um propósito, um objetivo. Seu olhar era fanático.

Os homens perguntaram algo à sua líder, pela primeira vez dando-se conta da presença de Amon. O cainita não entendia a língua falada, mas entendeu que ela os dispensou, demonstrando uma profunda segurança. Eles deixaram a praia, em direção à planície rochosa de onde Amon tinha surgido. Não sem olhar para trás, desconfiados.

A mulher se aproximou. Estendeu os braços, beijando a face direita de Amon. Apontou para o mar e para a montanha, passando pela enorme planície. Parecia deixar claro que aquela terra era sua. Não parecia enraivada ou exasperada, realizava a ação como alguém que explica a uma criança uma coisa óbvia. Depois, pronunciou algo que Amon entendeu ser um nome.

- Nikaia.

Fitou Amon. Esperou uma resposta.
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Re: Interlúdio - Amon

em Sex Jul 20, 2018 10:52 am
Nikaia... Repetiu o cainita, com um sorriso que revelava suas presas protuberantes.

O olhar de Amon viajou por toda a região, atento ao que lhe foi dito, tentando entender as palavras, apesar de não precisar delas. Os olhos apaixonados, fanáticos, decididos de Nikaia e os corpos mortos no chão revelavam o que as palavras diziam. Ela amava aquela terra.

Amon pousou a mão direita na face beijada por Nikaia, enquanto a fitava também nos olhos. Aproximou-se como ela fizera e, deu-lhe um beijo, também na face. Apesar de frios e duros, devido a idade, os lábios do cainita transmitiram o afeto e o desejo que tinha por aquela mulher.

Assim que os lábios tocam a sua carne, imagens invadem a sua mente, não de forma agrassiva, mas, gradual. Um nome.

Amon.

Então, mais uma torrente de imagens e intenções são passadas para Nikaia. Amon viajara muito para encontrá-la. Ela seria para ele, a madeira que alimenta a fogueira. Sua paixão seria dele também. Ali eles construiriam uma cidade. A sua cidade.


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Re: Interlúdio - Amon

em Sab Jul 21, 2018 5:58 am
A princípio Nikaia não respondeu.

Pareceu absorver as imagens enviadas por Amon, que se derramavam sobre a sua mente de forma rápida, mas extremamente explicativa. O cainita percebeu que ela parecia absorver tudo com extrema voracidade e, ainda que fizesse uma face de espanto ao início, parecia não se surpreender mais do que um mortal de Nippur com tal demonstração de poder. Seus olhos piscavam velozmente à medida em que via o passado de seu interlocutor. Quando Amon finalmente terminou, afirmando que ali seria construída a sua cidade, a cidade deles, Nikaia sorriu, um sorriso largo, contente. Parecia estranhamente aliviada. Caminhou até a beira do mar e pareceu agradecer aos Deuses, expressando fortes palavras de gratidão. A língua ainda era estranha a Amon mas, diante do seu intelecto superior, as palavras começavam a fazer um certo sentido. Seria questão de tempo até aprendê-la.

Nikaia retornou a Amon. Entendia o que o cainitia havia feito, e apontou para sua têmpora direita, como se desejasse que Amon adentrasse sua mente. O vampiro o fez, e uma torrente de imagens superficiais, aquelas que estavam sendo pensadas por Nikaia naquele momento, invadiram sua consciência.

Nikaia era uma líder. Havia nascido em um dia auspicioso, no solstício de inverno, a noite mais longa do ciclo. O seu nascimento havia quebrado barreiras em sua pequena tribo: era a primeira filha do chefe, nascida sob a Longa Noite, mas era uma mulher. Jamais poderia liderar. Nikaia era adolescente. Em combate justo, derrotou e matou o filho de um usurpador ao cargo de seu pai. Ele era cinco anos mais velho. Nikaia o amava e ele a amava de volta. Mas a eles foi imposta a inimizade, a rivalidade. Ela jamais se perdoou.

Adulta. Liderou sua tribo, não mais pequena, em viagens infinitas ao redor daquela península. Amon tinha, agora, uma vaga noção do território onde se encontrava. Era uma península infinita, recortada por um mar azul e pulsante, que golpeava, há milênios, as rochas. Ali, pouco se plantava, a causa do terreno naturalmente pedregoso. O pastoreio era uma constante, e as tribos residentes aprenderam a lutar para proteger seus animais de outras tribos e de bestas noturnas. Nikaia encontrou aquela planície, que era um pouco mais fértil que o restante da região. Decidiu que ali se estabeleceriam, era chegada a hora de deixar de vagar a esmo pelo mundo. Outras tribos se interessaram pelo local. Vieram os combates, um após o outro.

Medon? O que fazia Medon nas memórias de Nikaia? Ela o havia visto, uma noite. Um vislumbre. Medon acompanhava uma outra tribo, aliada da tribo de Nikaia há gerações. Viviam em outra região, um território muito mais fértil que aquele encontrado pela guerreira. Haviam feito votos de ajudar o povo de Nikaia a encontrar sua própria casa. Nikaia havia prestado adoração a Medon por um tempo.

Nikaia tinha medo. Tinha medo das bestas noturnas, imensas e ferozes, que rondavam a região e buscavam submeter sua tribo. Desejavam impedir que se estabelecessem ali. Atacavam à noite, mas também durante o dia. Nikaia tinha vagas memórias. Altos, muitos pelos. Lobos.

Então, orou. Orou a todos os Deuses que conhecia e que não conhecia para que seu povo fosse ajudado. Para que lhe fosse enviado um sinal, um Avatar, alguém que ajudasse seu povo a sobreviver. Começavam a diminuir em número. E, então, Amon apareceu. E Nikaia sabia que suas preces tinham sido atendidas.

Encarava Amon, com seus olhos profundos. Esperava uma resposta.
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Re: Interlúdio - Amon

em Sab Jul 21, 2018 3:13 pm
Amon estava fascinado por Nikaia e sua trajetória. Quão forte e resistente era aquela mortal. Finalmente a sua procura havia acabado e uma nova jornada se iniciaria naquela noite. Assim como na noite em que nascera, Nikaia teria sua longa noite, a mais longa de todas, hoje. Amon não daria a chance de perdê-la, caso passasse mais uma noite sem trazê-la para si. Ele poderia, tinha o poder para tal, reverter caso necessário, contudo, já não lhe era tão atraente mexer com o tempo. Não quando se pode evitar. Aprendera com Ilyias, ainda que tardiamente, a respeitar a esfera tangível do tempo. Se algo deveria ser feito, que o fosse antes de a possibilidade acontecer.

Surpreendeu-se ao encontrar Medon em suas memórias, no entanto, ficou feliz ao saber, mesmo que inconscientemente, seu primo o havia ajudado. E então, as memórias sobre as feras o sobressaltaram. Assim como ela, tinha pouco convívio e conhecimento sobre elas. Na verdade, só soube delas quando saiu de Nippur, no período em que vivera entre os animais. Ele teria que lidar com aquilo. Fossem o que fossem. Homens. Lobos. Espíritos. Ali seria a sua cidade. A cidade de Nikaia. A cidade de seus sonhos.

A cria de Ilyias entristeceu-se junto com a mortal, ao ver o destino poente de sua tribo. Ela não sabia. Ele sim. Era natural que acontecesse. Muitos surgiram e se foram. Outros muitos surgirão e se irão da mesma forma. E, graças a sua intervenção, aquele povo voltaria a crescer e a desenvolver. Era o momento de iniciar uma nova era entre os mortais e os seus.

Amon deslizou a mão pelo rosto de Nikaia, afastando-se da têmpora. Havia visto o que desejava. Era o momento de ela saber sobre a sua natureza, sobre a sua sede e sobre a noite. Caso ela aceitasse a condição, ele a traria. Desta vez, não houve toque. O cainita ainda se afastou um pouco mais, de costas para ela, enquanto observava a costa e o brilho da lua refletida no mar. Amon suspirou longamente e então, ainda olhando para o mar, mostrou-lhe o que ela ainda não era capaz de ver.

Ele não a polpou de nada.

Havia fome. Havia escuridão. Havia dor.

Tudo que um amaldiçoado era, lhe foi mostrado.

Também havia amor. Havia conhecimento. Havia tempo.

Virou-se para ela, os olhos marejados com lágrimas rubras. Assim como ela havia orado, esperando a sua chegada, ele havia orado nos últimos anos para encontrá-la. Suas preces também haviam sido atendidas. Ele ajudaria seu povo a sobreviver, pois, agora também era seu povo, como Nippur jamais fora o seu.

E numa linguagem que ela poderia entender, ele perguntou:


Está pronta para a noite, minha criança?
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Re: Interlúdio - Amon

em Dom Jul 22, 2018 5:12 am
Nikaia voltou-se em direção ao mar. Amon percebeu instantaneamente que as imagens transmitidas lhe haviam causado um forte efeito. Diante da água, a mulher estacou por um tempo, parecendo pensar sobre o que havia apenas visto. Encarava o céu e as estrelas e, quando terminou, voltou-se para Amon indicando, novamente, a têmpora esquerda. A síntese de sua mensagem era a seguinte.

"Desejo. Mas não posso. Desejo, pois me ofereces a chance de defender meu povo e guiá-los rumo ao futuro. Mas não posso. Não agora."

Amon percebeu que Nikaia era jovem, talvez contando com não mais de vinte ciclos. E, só então, a analisar claramente aquela mulher, percebeu o óbvio.

Nikaia levou as mãos à barriga. Era claro, agora. Aquele perfume que ela exalava, de vida intensa e força inquestionável, um perfume de flores e de leite só poderia significar uma coisa.

E Amon ouviu. Pequeno, tímido, mas intenso. As batidas de um outro coração que lutava para sobreviver, ainda que o mundo ao seu redor já lhe parecesse hostil. Nikaia acariciou a barriga com afeto e devoção. Esperava uma criança.

Aproximou-se novamente de Amon. Sua mente ainda enviava as palavras que não conseguia expressar com a voz.

"Quão triste é a sua existência, Amon. E, ainda assim, quão rica e cheia de possibilidades ela é. Peço que esperes por mim. Mantenha-se aqui e ajude o meu povo a sobreviver. Será honrado e recebido como um de nós. E, então, chegará uma noite na qual eu serei tua. Tenho medo, medo da dor e do sofrimento, das perdas e das tragédias. Contudo, você veio quando meu povo precisou de você. Eu seria egoísta em não retribuir e acompanhá-lo através do tempo."


Esperar. Amon não sabia muito bem o significado daquela palavra. Esperar. Era um Filho de Ilyias, comandava o Tempo e as Possibilidades mas, agora, estava diante de um evento que ele não poderia, ou ao menos não deveria, encurtar. Nikaia continuava a acariciar a barriga, observando-a com ternura. Amon desejou conhecer o que as Possibilidades reservavam para aquela criança, mas o presente era belo, tão belo, que esqueceu o desejo. Ele e Nikaia que se haviam encontrado, que conversavam sem palavras à luz da lua. Sentia um calor estranho no peito. Sentimentos dos quais não mais se lembrava invadiam continuamente o peito de Amon, seu Sangue fervia nas veias, mas não em um senso frenético. Nikaia sorriu.

E Amon esperou.

Viveu entre a tribo de Nikaia. Eram caçadores e agricultores. Haviam aprendido, ao longo dos anos, como fazer a vida brotar mesmo entre as pedras acinzentadas. Cantavam com frequência e discutiam sobre o mundo e sobre os Deuses. Aprenderam a respeitar Amon e a tê-lo como um dos seus, o Sangue que sobrava da caça, quando ainda estava quente era reservado para o Filho de Ilyias. Quando o Sangue dos animais era por demais salgado e ameaçava não sustentar Amon, os mais robustos se ofereciam como doadores. Não temiam o cainita. Amon descobriu que haviam, entre as suas histórias, relatos sobre seus primos. Aparentemente, algumas tribos do sul e do norte haviam sido abençoadas com a presença dos Deuses da Noite, que os protegeriam das agressões das bestas que vagavam pelas planícies. Nos contos, Amon identificou Medon novamente mas, também, Orthia, outra filha de Ventru. Ouviu também sobre o Grande Vidente, que habitava nas cavernas do litoral, e que se chamava Lerterimas. Amon não a conhecia. Haviam também lendas sobre uma enorme mulher serpente chamada de Smenkhara.

Caçavam juntos, pelo menos até o momento em que Nikaia podia realizar suas atividades. Entre os dois não nasceu um amor ou admiração como Amon sentia por Ilyias ou Belit. Ao invés disso, nasceu uma cumplicidade. Os ataques das bestas noturnas não ocorriam. Era como se, diante da presença de Amon, as abominações pensassem duas vezes antes de atacar a pequena tribo, que começava a crescer. A tribo prosperou, mulheres engravidavam e os homens acumulavam cada vez mais ovelhas e terras cultivadas. E, quando Nikaia estava próxima ao momento de dar à luz, uma das tribos vizinhas a visitou, carregando presentes e bênçãos. Dentre eles, estava Medon.

Aparentemente Ventru já havia dito aos seus filhos, anos antes, que se espalhassem pelo mundo. Assim como Amon, Medon havia sentido o chamado daquela terra. O Filho de Ventru não se incomodava com a presença de Amon, pelo contrário, parecia feliz em ter um outro cainita com quem contar no processo de construção daquele mundo particular. Haviam se abraçado e conversavam quando Amon ouviu os primeiros gritos de Nikaia. Sentia-se engraçado, vinculado àquela pequena vida. Amon jamais soube quem era o pai. E, quando estava perto de vir ao mundo, Nikaia exigiu sua presença na tenda. O cheiro de Sangue se fez sentir mas, estranhamente, não despertou nada em Amon que não fosse preocupação pela vida de Nikaia. Amon se sentia mortal novamente, assistindo o ciclo da vida de um outro ângulo, infinitamente mais bonito. Quando o pequeno Amon Apollónius nasceu, foi entregue, depois da mãe, ao seu homônimo. Amon nunca havia carregado uma criança antes. Nikia explicou que o havia chamado assim como uma homenagem, ao Deus da Noite e ao Deus do Sol.

O tempo passou veloz. Entre as idas e vindas de Medon à Nippur, quinze anos se passaram. Nikaia havia se tornado uma mulher, sábia e habilidosa mas, ainda assim, impulsiva e cheia de paixão pelo mundo e pelo seu povo. Mas, segundo as tradições, deveria passar a liderança para alguém mais jovem. Não existia uma sucessão automática para o seu filho, e sim para o guerreiro ou guerreira, uma mudança ocorrida depois da sua liderança, mais capaz. O manto do comando foi passado, pela segunda vez, a uma mulher de nome Eletria. Lerterimas, o misterioso vidente, viajou até as colinas, que à esta altura já contava com as primeiras habitações fixas, para confirmar o veredito. Era tido como um homem santo, e sua opinião era respeitada. Lerterimas era, também, Filho de Malkav. Uma figura vestida em trapos, com cabelos longos, louros e sujos, que dispunha somente do olho esquerdo. Mancava quando caminhava e parecia que tinha mais de sessenta ciclos quando havia sido trazido à Noite Eterna, em constrate com Lamdiel, que parecia ter sido abraçado com não mais de dezessete. Parecia vulnerável. Mas Amon sabia que se tratava de um Filho de Malkav.

Foi o mesmo Lerterimas que, diante de Amon e Medon, explicou que as feras noturnas estavam se preparando há anos para atacar os cainitas daquela terra. Medon deixou claro que prepararia seus homens, assim como Nikaia, em uma aliança entre as tribos que jamais havia existido. Lerterimas recomendou, ainda, que Amon procurasse a mulher serpente Smenkhara, na tentativa de uma aliança. Segundo o vidente, era uma progênie de Zapathasura, o cainita que Amon jamais havia encontrado pessoalmente.

Discutiam a batalha quando Nikaia interrompeu a reunião, solicitando a presença de Amon. Rumaram para a mesma praia onde haviam se conhecido, quinze anos atrás. Àquela altura, Amon já falava habilmente a língua daquele povo.

- Eu estou pronta para caminhar contigo. Meu filho é já um homem crescido. Em breve terá sua esposa e filhos. Eu os guardarei e os protegerei ao longo a eternidade. Mas você precisa de mim muito mais do que ele. Você me ajudou a começar a criar o mundo em que vive o meu povo. E eu desejo continuar a moldar esse mundo junto a ti. Eu estou pronta.

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Re: Interlúdio - Amon

em Dom Jul 22, 2018 8:58 am
Como a vida era magnífica e plena. Pensou o cainita, na frente da mulher que o trouxera até estas terras. Ainda que o motivo fosse urgente, imediato, e o temor da morte o assustasse, haveria ele de esperar o tempo certo. Irônico, pensou mais uma vez. Ainda assim estava feliz. Seria parte de seu aprendizado.

Amon aquiesceu a decisão da jovem e a aguardou, até que todos estivessem prontos. A mulher. O bebê. O povo.

O cainita andou entre os mortais, contou-lhes histórias, ensinou-lhes a construir casas e barcos e a organizar melhor a área de plantio.

Com alegria recebeu Medon, cria de Ventru. Era bom ter a companhia de um igual as vezes. Em todos os encontros, em nenhum deles, Amon falou de Nippur.

Quando chegou o momento do nascimento do filho de Nikaia, ele esteve com ela. Regozijou-se ao ver algo tão frágil e sublime acontecer. Amon chegou a conclusão que só a vontade do altíssimo para que uma raça tão frágil pudesse povoar seu jardim.

Amon os protegeu como prometera. E aí contrário do que fizera em Nippur, não quis um trono ou um título de deus. Não. Ali seriam todos iguais e cada um com a sua devida importância. Seria apenas um guia para um povo em ascensão.

Encontrou seus primos mais algumas vezes e recebeu de Lerterimas o aviso sobre os homens lobo sem surpresas. Era óbvio que estavam aguardando um momento propício. Como aconselhado pelos outros, Amon estava decidido a pedir um apoio da mulher serpente. Na noite em que decidira partir, fora chamado por Nikaia e ouviu as suas palavras.

Sob as luzes das estrelas, na mesma praia em que se conheceram, Amon a observou ternamente. Lembrou-se do primeiro encontro. Sentiu a brisa tocar em seu corpo, sentiu a água fria do mar molhar seus pés. Refletiu por um momento, que para ele foi até longo demais.


Minha amada criança. Seria esta a noite perfeita, onde a traria para mim. Há quinze anos atrás. Minha triste existência clamava por um descendente, por um motivo para continuar seguindo nesta longa noite. E me destes o motivo sem nem ao menos eu transformá-la. Eu aguardei todas as noites por este momento Nikaia.

Amon caminhou para ela, pisando na areia do mar. Seus olhos encontraram os dela e suas mãos a envolveram, puxando para um abraço. Uma onda chocou-se contra eles, molhando-os por completo. O movimento do mar fez Amon se lembrar das idas e vindas do tempo e, propositalmente, fez o tempo retroceder.

A onda que acabara de se chocar contra eles faz o sentido contrário, deixando-os secos novamente e Amon a toca com os lábios, na face direita. Ele a queria, como quis naquela noite. O cainita a deixou com a mesma idade da noite em que a encontrou. Pois, a proposta era que naquela noite ela passasse para a longa noite.

Novamente ele deixa o fluxo do tempo correr e sente a mesma onda o atingir. Desta vez a onda atinge uma Nikaia mais jovem e um Amon mais decidido. Ele a puxa e sem cerimônias, crava os dentes em seu pescoço.


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Re: Interlúdio - Amon

em Seg Jul 23, 2018 4:40 am
Enquanto retornava, enquanto o tempo retrocedia perante sua vontade, Amon notou que uma profunda ferida seca, enegrecida, surgira em seu braço esquerdo. Não doía, não sangrava. Era somente um profundo corte escuro, uma ferida que talvez sempre tenha estado ali. Isto não impediu, contudo, que Amon fizesse o tempo retroceder até a noite em que havia encontrado Nikaia diante do mar e, depois, voltasse ao curso normal dos acontecimentos. E, então, cravou fundo as presas no pescoço de sua futura progênie.

A Vitae invadiu o corpo e os sentidos de Amon. O mundo nublou, em uma espessa névoa vermelha que parecia, mas não era, aquela do Frenesi ao qual sucumbiam os Cainitas. Amon flutuou, com Nikaia nos braços, enquanto a Vitae inundava seu interior. Era de se esperar que uma experiência de tal magnitude ativasse os sentidos de Amon, fazendo com que as Possibilidades se abrissem diante dele. Acontecia sempre que Amon vivia emoções particularmente fortes. Aquela, contudo, por mais significativa que fosse, estava ancorada no presente.

Nenhuma visão. Nenhuma grande sensação a não ser o Sangue. A Vitae de Nikaia era forte, espessa. Amon já havia acessado as memórias da mortal, então nada de novo lhe foi revelado. Contudo, o Sangue de Nikaia parecia diverso, talvez por causa da intenção do vampiro de trazê-la para a Longa Noite. Amon sentia as emoções de Nikaia: idealismo, coragem, vitória. Sentia seus pés fincados na areia, sentia o vento acariciando sua pele. Era incapaz, sequer, de fechar os olhos. Viu a pele do pescoço de Nikaia, suas veias que pulsavam enviando o Sangue na direção do ferimento. Sentiu o perfume da mulher e acariciou seus cabelos. Amon estava controlado. Sentia, dentro de si, o pulsar da Besta, mais como uma companheira do que como uma ameaça.

Bebeu, profusamente, até o quase secar do Sangue de sua progênie. Então, através de um corte no pulso, a alimentou.

E ali o mundo se abriu diante de seus olhos uma vez mais.

Amon viu, do alto, uma grande cidade. Era branca, resplandecente. Imensas estátuas adornavam as ruas e enormes templos repousavam nas mesmas colinas pelas quais o cainita tinha caminhado pelos últimos quinze anos. Havia, também, guerra e dor, e Amon chorava, pois deveria lutar contra seus primos. Era diferente, aquele Amon. Quase irreconhecível. Tinha dentro de si a mesma fúria justa de Nikaia, havia se tornado Nikaia. Era um rei e um tirano, um amigo e um formidável oponente. Ao redor dele o mundo cresceu e floresceu, com enormes impérios surgindo à sua volta. A Visão, contudo, era desfocada, borrada, sem clareza. E então, breve como veio se foi. Amon estava de volta à praia, Nikaia a repousar em seus braços, saciada. O cainita sentiu a Besta dentro de sua progênie crescer e rugir, pois todos os mortais dispunham de uma Besta, embora mais inofensiva que aquela dos cainitas. A de Nikaia, porém, parecia arranhar o interno de sua pele, debatendo-se em busca de liberdade. Era uma visão aterradora e fascinante. E Amon sentiu que Nikaia estava tão longe de Ilyias quanto ele estava de Caim.

Inspirando profundamente, Nikaia abriu os olhos. Permaneceu, ainda, nos braços de Amon. Seus olhos fitavam, fascinados, o céu norturno. Suas narinas se moviam, os perfumes da noite inebriando a cainita recém nascida. Então, pôs-se de pé. Encarou Amon. Levou as mãos à face e a pele, sentindo a própria textura. Tocou a face de seu criador. E então o beijou. Um beijo longo, demorado e amoroso. Ao longo dos anos, Amon havia explicado a Nikaia tudo o que ela precisava saber. Ela estava pronta.
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Re: Interlúdio - Amon

em Seg Jul 23, 2018 8:19 am
O primeiro passo havia sido dado. Nikaia, sua amada, trazida para a longa noite, como há muito sonhava. Junto com ela, os sonhos de um futuro glorioso, carregado de guerra e dor. Não era a primeira vez que Amon previra a guerra, certamente não seria a última. Ainda assim, a existência valeria a pena. Se a guerra fosse o preço, o montante seria pago com sangue. Com o seu. Com o de seus primos. Com o de todos. Assim deveria ser. E para sacramentar, aquela cidade seria erigida sobre o sangue dos lobos que tentariam tomar seus territórios. Amon seria um dos líderes de sua família, ao lado de Troile, Anis e Belit-Sheri.

Satisfeito e pleno, era o momento de compartilhar com seus irmãos a sua decisão. Amon enviou para Nippur um espírito do tempo, um emissário convidando seus irmãos para o que estava por vir. O espírito contaria o que ocorreu nos últimos anos e também o que estava vir. Amon precisava de seus irmãos para erguer a nova cidade. Aproveitaria também, para ver através do espírito, seu amado senhor. Orava para que ele ainda estivesse no mundo.

E então, deixando Nikaia com seu povo, Amon partiu para encontrar a mulher serpente, como indicara o vidente. A resistência precisava ser erguida e a união com seus primos seria necessária. Com o coração tranquilo e a mente aberta, seguiu para o território da serpente.


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Re: Interlúdio - Amon

em Seg Jul 23, 2018 8:40 am
Em Nippur, Belit-Sheri escutou atentamente as palavras de Amon, e comprometeu-se a transmiti-las a Anis, que naquele momento se encontrava em viagem com sua progênie Astar. Demonstrou intenso contentamento pela satisfação de seu irmão, assim como o interesse em conhecer Nikaia. Em seguida, Troile adentrou o salão e Amon viu, pela primeira vez, seu novo irmão. Era imponente, nenhuma sombra do escravo que havia sido ainda residia em seu ser. Os cabelos tinham crescidos e eram de um intenso castanho. Troile ainda não havia manifestado nenhum sinal de barba quando fora Abraçado. Vestia-se elegantemente, com uma túnica branca e adornos de bronze. Saudou Amon com animação, mas informou que Ilyias estava ausente, em mais uma de suas infindáveis peregrinações. Mas, desta vez, o fazia fisicamente. Troile manifestou, assim como Belit, o desejo de juntar-se à Amon. "Breve, irmão" disse, "Estaremos reunidos em tua cidade".

A caminhada do vilarejo de Nikaia até o refúgio da Serpente foi feita com a ajuda de soldados leais a Medon, que conduziram Amon pelas paragens desérticas, serviram de alimento e protegiam seu corpo tórpido durante o dia. Eram homens fortes e capazes, absolutamente fiéis a Medon, ainda que Amon não encontrasse nenhum traço de uso dos Dons de Caim. A viagem durou quatro noites, nas quais Amon entendeu que Medon havia salvado aqueles homens durante uma batalha contra uma tribo inimiga, que quase os havia levado à extinção.

Quando finalmente alcançou o mar, após seguir a leste de onde estava localizado o vilarejo, os homens conduziram Amon até uma espécie de falésia que se recortava diante do mar noturno. Dali apontaram uma caverna pouco acima do nível do mar, escavada na rocha em que estavam de pé. Havia um caminho, e Amon o fez, deixando que os homens esperassem na parte superior da rocha. Seus passos desceram as pedras e adentraram a caverna. Caminhou por poucos minutos, a visão limitada pela escuridão, quando a encontrou.

Foi súbito.

Tudo pareceu mais claro. Passou da caverna rústica a um grande salão decorado. As paredes eram vermelhas e douradas, com detalhes também dourados no teto. Tabuletas estavam empilhadas com esmero em um canto, e do outro se estendia uma grande cama de pedra com feno e plumas servindo de local de repouso. Havia um perfume doce no ar, algo como incenso de flores. As paredes eram rabiscadas com escritos em diversas e estranhas línguas. O piso ainda era o mesmo da caverna, mas o local emanava uma riqueza e, ao mesmo tempo, uma simplicidade notável.

Ao fundo, uma mulher que não estava ali antes observava Amon. Não tinha nenhuma característica de serpente. Ao contrário, era uma mulher comum, de pele escura e olhos incisivos. Os cabelos eram longos, lisos e negros. Estavam trançados. Era magra e de baixa estatura. Tinha um nariz longo, mas diferente daqueles dos povos da Planície. Emanava um ar de Sabedoria e paciência infinita, como o de uma mãe ou avó. Ela sorriu, um sorriso franco e cheio de dentes, diante de Amon, caminhando em sua direção. O saudou, usando a língua de Nippur.

- Eu o saúdo, parente. Imagino que sejas Amon, Filho de Ilyias, se as notícias que me alcançaram forem corretas. Sou Smenkhara, Filha de Zapathasura.
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Re: Interlúdio - Amon

em Seg Jul 23, 2018 12:19 pm
Saudações Smenkhara, prima minha. Estou honrado que tenha me recebido em sua morada e, só não estou mais satisfeito com a visita, devido aos motivos, que em nada são amenos. Amon adentrou o refúgio da cria de Zaphatazura com os olhos atentos aos seus detalhes. Sorriu de volta, de fato, era um evento importante, conhecer a cria de um antigo ao qual não conhecia. Sem dar muito tempo para resposta, continuou.

Temos um problema nas terras que escolhemos como nossa morada, criaturas que assumem a forma de lobos pretendem nos atacar em breve. Nosso parente vidente, sugeriu-me que a procurasse, em busca de auxílio de vossa sabedoria e poder. Sei que não existem, ainda, laços que nos unam, gostaria que pudesse nos ajudar. Além disso, se possível num outro momento, gostaria de saber mais sobre tu e teu criador, já que em todos os anos vividos em Nippur, nunca ouvi nada sobre meu tio, além de seu nome.

Amon se calou. Falara demais. Manteve o silêncio aguardando uma resposta de sua anfitriã.

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Re: Interlúdio - Amon

em Seg Jul 23, 2018 1:03 pm
A mulher se moveu lentamente pelo local. Nada mais fazia Amon recordar da caverna próxima ao mar na qual havia entrado. O salão ao seu redor parecia perfeitamente natural ali, como se não fosse completamente fora do lugar. Pouco a pouco, detalhes surgiam nas paredes. Eram pinturas que retratavam animais e templos de uma terra distante. Tão rápido quanto surgiam, desapareciam. Smekhara se deteve diante de Amon, os olhos do cainita mal compreendendo o movimento que havia levado sua anfitriã até ali.

- Então, a guerra se aproxima.

Convidou Amon a se sentar. Atrás do cainita havia um pequeno assento esculpido em um tronco de madeira que ele não havia visto quando entrou. Sentou-se, prestando atenção no assento e após fazê-lo, observou Smenkhara, que servia duas taças de madeira postas sobre uma mesa de pedra entre os dois - ela também já estava sentada. O odor da Vitae era irrecusável. Algo exótico, com perfumes que Amon jamais havia sentido.

- Elas destruíram minha progênie, anos atrás. Mas, digamos que ele mereceu, pois violou seus espaços sagrados quando nós tínhamos prometido não fazê-lo. Agora, a Família deixa Nippur, rumando para as terras distantes e Elas sentem isto. É melhor exterminar nossa raça enquanto somos poucos, não?

Smenkhara bebeu da Vitae. A sala ao redor de Amon pareceu tremeluzir lentamente. Os olhos de sua anfitriã haviam se tornado verdes. Serpentes ocasionalmente estavam entre os desenhos que apareciam e desapareciam nas paredes avermelhadas.

- Elas destruíram minha progênie, as mulheres-lobo. E isso é o suficiente para me colocar em guerra contra elas, se a guerra chegar. E chegará, pois os mortais crescem com velocidade, ameaçando invadir o solo sagrado que Elas tanto estimam.

Olhou profundamente nos olhos de Amon. O cainita sentiu algo velho e poderoso a chamar seu nome, uma voz que provinha dos olhos azuis de Smenkhara.

- Assumo que tenha vindo também em busca de meu conselho. E o meu conselho para ti é: é necessário evitar o conflito. Podemos vencer, como podemos ser extintos desta parte do mundo. Recomendo prudência, Filho de Ilyias. São criaturas potentes e capazes, movem-se como as sombras e são rápidas como o pensamento. Comandam os grandes espíritos desta Terra, de forma que podem transformar a vida de teus protegidos em uma existência estéril.

Smenkhara pousou a taça. Parecia muito séria enquanto proferia tais palavras.

- Se os eventos levarem a um conflito aberto, estarei ao lado de minha família. Lerterimas não deveria sequer se preocupar com isso. Mas vejo em ti, Amon, uma sabedoria que falta nos outros. Eu insisto: escute-as com respeito e elas escutarão você. Eu, infelizmente, não posso deixar este local neste momento, dado que estas mesmas bestas me amaldiçoaram a aqui permanecer, exceto por um ciclo de sete dias a cada ciclo lunar. Nós não temos boas relações, como é já óbvio.

Smenkhara levantou.

- Se desejar encontrá-las, basta seguir em direção à enorme montanha vizinha à planície pedregosa. É lá que elas vivem. Devo dizer, contudo, que o ódio delas pelos homens em geral talvez impeça que te ouçam usando a razão.

Sorriu, por fim.

- Sobre mim e meu Pai, posso responder quase todas as questões que sejam de sua curiosidade.
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Re: Interlúdio - Amon

em Qua Jul 25, 2018 9:36 pm
Após ouvir as palavras sábias de Smenkhara, Amon se levanta, indicando sua partida. Em seus olhos a expressão de fascinação e respeito por aquela cainita que a tão pouco tempo conhecia.

Sou grato por me receber e por aconselhar-me neste momento delicado. Adoraria ouví-la sobre a sua história é a história de teu pai, que nos foi furtada durante tanto tempo. Espero sinceramente que eu tenha a oportunidade de um novo encontro.

Amon olhou o ambiente a sua volta. Estava realmente surpreso com o que encontrara.

Seguirei para as montanhas agora. Temo que se nada for feito urgentemente, a guerra que se espreita traga morte ao povo que aprendi a amar. Caso não retorne para eles, peço-lhe humildemente que ensine o bom caminho a minha cria e que tire a ideia de vingança de sua cabeça. E se não for demais, caso me faça ausente, avise a minha família em Nippur. Um deles terá que vir aqui para ser o tutor de Nikaia.

Amon se aproxima da anfitriã, toma as suas mãos nas suas e as beija. Sem dizer mais nada, ele sai da caverna rumo às montanhas das mulheres-feras.

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Re: Interlúdio - Amon

em Seg Jul 30, 2018 6:38 am
Smenkhara aceita o beijo de Amon. Ela sorri diante de seu primo, um sorriso franco, ainda que triste.

- Nossa história não foi furtada de vocês, Amon, mas as preocupações de meu Pai e de meus irmãos são outras. Você sempre terá um lugar em minha casa, ainda que Nippur não nos veja com bons olhos, nos acusando de abandonar a cidade à sua própria sorte. Ocorre que somos seres de mudança. Muros não nos detém e jamais nos deterão, assim como as leis rígidas de nossas Ancestrais. Eu o saúdo, Amon, Filho de Ilyias, dentre todos um dos poucos que compreende a necessidade de se livrar das amarras que nos restringem. Não avisarei a tua família, nem me ocuparei de teu povo, pois tu não cairás.

Sorriu novamente. Amon percebeu que Smenkhara parecia, por alguma razão, triste. Era como se falasse um pedaço de si mesma, algo irrecuperável. Sua estatura baixa e comum faziam com que Amon se compadecesse, um sentimento novo para ele. Muitos novos sentimentos e sensações surgiam naquele período. Compadecer-se era como sentir um leve aperto no peito, como se uma pequena mão estivesse esmagando seu coração, acompanhada de uma sensação de impotência.

Smenkhara conduziu seu primo até a entrada da caverna. Antes que ele saísse, porém, ela ainda falou:

- E se a situação se resolver em batalha, Amon, eu estarei ao teu lado na medida do possível.

A subida foi breve, Amon se moveu com graça e agilidade por entre as pedras encharcadas. Os homens ainda esperavam na parte de cima da falésia, e concordaram em acompanhar o cainita até as proximidades da grande montanha. Deixaram claro, porém, que só procederiam até um certo ponto: os seres que viviam na montanha eram hostis às tribos mortais, e mais de um deles já havia sido vitimado somente por aproximar-se demais da região.

A caminhada foi longa. Detiveram-se durante um dia em que Amon dormiu em uma caverna. Estavam já próximos da montanha e os homens fizeram a guarda de seu refúgio. Dormiu tranquilo, embora aquela terra parecesse vibrar com uma energia desconhecida que o relaxava, mas ao mesmo tempo o mantinha alerta. À noite, encontrou os homens que assavam e comiam um grande veado. Estavam diante de uma fogueira que, por sua vez, estava distante da entrada da caverna. A tribo havia aprendido, nos últimos anos, sobre as peculiaridades de Amon e as respeitava. Os homens haviam drenado o sangue do animal, preservando-o em uma tigela de barro para a alimentação do cainita.

Não chegaram, contudo, a realizar outros passos.

Ainda no início da noite Amon sentiu a aproximação de alguma coisa. Quem quer que fosse, não fazia questão de disfarçar sua presença. Os homens também sentiram e, erguendo-se em sobressalto, depositaram sua armas no chão em sinal de boa fé. Embora Amon sentisse a aproximação, não conseguia identificar de onde vinha. Em pouco tempo, percebeu que estavam cercados, havia presenças em todo o perímetro. Somente uma pessoa, contudo, se fez notar.

Era uma mulher alta, com cabelos longos, volumosos e encaracolados que caiam pelas costas. Sua pele era cor de oliva e os olhos intensamente escuros. Vestia-se em maneira simples, com vestes de couro cru e uma algibeira onde parecia carregar alguns pertences. Em seu corpo, inúmeras cicatrizes, majoritariamente nos braços e coxas. Pareciam marcas de garras. Como um todo emanava uma profunda aura de ferocidade mas, ao mesmo tempo, de harmonia com aquele local. As outras presenças eram fúrias contidas somente graças à autoridade daquela diante do cainita. Parecia ser de meia idade, talvez trinta e cinco ciclos ou um pouco mais. Os braços eram fortes para uma mulher, longos, com dedos ameaçadores. Ela não se aproximou de Amon. Os homens pareciam instruir o cainita a respeitar a distância.

- Os espíritos nos avisarem sobre a tua chegada, homem morto. Sou Voz da Montanha. O que tem a nos dizer?
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Re: Interlúdio - Amon

em Seg Jul 30, 2018 8:09 am
O cainita aproveitou a viagem rumo a montanha para conhecer melhor aquela terra e o que ela tinha a oferecer. Deleitou-se da energia que ali fluía e tentou, a seu modo, conectar-se a ela.

Amon bebeu do sangue ofertado por seus acompanhantes, apesar do sabor salgado, estava satisfeito, pois, alimentar-se de sangue animal, evitava ferir os homens.

Com surpresa, vislumbrou a mulher. As mulheres sempre surpreendem-no quando estão numa posição de comando e naquele momento não poderia ser diferente.

Seus olhos a perscrutaram minuciosamente e detinham-se em cada cicatriz, em cada marca.


É com felicidade que a saúdo, voz da montanha. Sou Amon, espírito do tempo. Estava justamente seguindo para tuas terras para tratar com teu povo em nome do povo que me adotou.

Sua voz soava calma, porém firme. Amon em nenhum momento temia por sua existência e sim pela vida daqueles que o acompanhavam.

Os ventos carregam consigo odores de batalha. Tais odores me são desagradáveis, indigestos. Eu tenho estado com este povo que me acolheu e eu prometi lhe proteger. Naquelas terras ergueremos nossa cidade e lá pretendemos crescer. No entanto, tens a rondado, nos observando de perto, como um predador faz com a sua presa.

Tudo o que desejo, voz da montanha, é a paz entre nossos povos, para que possamos viver nossas vidas da melhor maneira, sem temer a todo instante a morte. Quero saber o que as motiva, quero saber até onde podemos ir sem que as ofendamos, quero aprender com vocês a apreciar e respeitar os espíritos que aqui vivem, desde tempos antigos.

Venho até ti de boa vontade, na intenção de preservar a paz. Quero dizer, preservar a vida daqueles que nos importamos. Será que é possível coexistir pacificamente, voz da montanha?


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Re: Interlúdio - Amon

em Seg Jul 30, 2018 8:54 am
Amon senti que aqueles que ele não via se moviam, lentamente, ao redor dele. A mulher mantinha-se imóvel. Encarava Amon sem demonstrar nenhum medo ou receio. Tampouco demonstrava reconhecimento. Apenas um respeito frio, assegurado pela distância entre eles.

- Isto depende de ti e de teu povo. No Sul, os homens violam nossas terras, descumprindo tratados ancestrais. Nós observamos com preocupação o estabelecimento deste povo aqui.

Olhou, por cima dos ombros, ao redor de si mesma. Pronunciou uma ordem em um idioma desconhecido. Amon sentiu que as coisas que estavam ao redor dele se afastaram, contrariadas. A mulher olhou para a Montanha. Depois, voltou-se para Amon.

- Os homens não devem mais pisar no solo da Sagrada Montanha. Estará, para sempre, fora do alcance dos seus. Cumprir tal condição garante vossa sobrevivência. Violar tal barreira fará com que nossa fúria recaia sobre homens, mulheres e crianças, sem piedade. É um acordo que o interessa?

A mulher esperou uma resposta. Amon sabia, porém, que a montanha era um local importante para seu povo, um local que era tido como morada dos deuses e que, portanto, deveria ser cultuado. Ao seu redor os homens tremiam de terror, mas no fundo dos seus olhos havia uma chama. Jamais aceitariam abandonar seu local sagrado.
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Re: Interlúdio - Amon

em Seg Jul 30, 2018 10:34 am
Sim, muito me agrada!

Amon observava atentamente aqueles que o cercavam. Sua voz no entanto, o traía. Apesar do semblante calmo, frio, seu ser se inquietava por dentro, pois, independente do que fosse dito, ele sabia que qualquer decisão seria desagradável ao seu povo. A voz do montante não queria negociar, queria apenas toda a montanha para seu povo. Não queriam dividir "a presença" dos deuses com os mortais. Aquilo ficara claro para Amon.

Infelizmente, voz da montanha, apesar de todo o meu desejo de manter a paz, este acordo só beneficiaria o TEU povo. Havia em Amon, o desejo de não decepcionar aqueles mortais e aquele sentimento era novo, inquietante.

Observe bem voz da montanha. Não podes furtar a presença dos deuses ao meu povo. Nós não adentramos aquelas terras com o intuito de conspurca-la. Assim como vós, todos possuem dentro de si uma chama que é alimentada por algo maior. E mesmo eles, sendo mortais sem quaisquer habilidades superiores, necessitam deste contato especial.

Meu povo, voz da montanha, tem muito a aprender contigo e com teu povo. Porque não o permite a compartilhar do conhecimento do teu povo a forma como tratar a terra? Não é requerido nada além disso. Caso alguém entre os meus, inflija qualquer desonra a montanha, eu mesmo o punirei com a morte.

Peço te humildemente que reconsidere. Há algo que eu possa oferecer a ti e aos espíritos, para que conceda ao meu povo o acesso a montanha?


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Re: Interlúdio - Amon

em Seg Jul 30, 2018 11:29 am
- Você não tem nada a oferecer a nós, homem morto, que não possamos conseguir com nossos esforços.

A mulher olhou Amon de cima a baixo. Tinha uma expressão severa, e expressava um controle muito similar àquele expresso pelos cainitas. Era como se uma grande besta estivesse pronta a rasgar a fina película de pele que a separava da superfície. Amon ouviu uivos, distantes. A montanha o atraía, por alguma razão inexplicável.

- Nós estamos observando tua espécie. Não és o primeiro, o guerreiro do Sul e a mulher serpente já estão aqui. Não nos agrada vossa presença, mas a toleramos. Não pense, porém, que nós devemos fazer quaisquer concessões. No entanto, reconheço alguma verdade em tuas palavras, e a chama que guia os mortais, ainda que muito mais fraca, é semelhante àquela que nos guia.

Os seres que circundavam Amon e os homens não estavam mais ali. Os mortais respiraram, aliviados. A mulher se aproximou de Amon. Tinha um perfume selvagem, cheiro de árvores e de lugares antigos.

- Um dia ao ano. Um dia será permitido ao teu povo peregrinar até a Montanha, homem morto. Um dia onde eles poderão cultuar seus deuses sem ser tocados pelos meus. Os homens ainda engatinham em conhecimento, e há muitas coisas que devem permanecer intocadas, se você desejar o bem de seu povo. Há coisas na montanha que eles não entenderiam. Um dia. E nada mais.

Apertou os olhos quando olhou pra Amon. Tinha um brilho sanguinário nas retinas.

- Obviamente, a guerra é uma solução muito mais prática. Você quer a guerra, homem morto? Se não a desejar, sugiro que aceite a minha proposta.
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Re: Interlúdio - Amon

em Seg Jul 30, 2018 11:39 am
Ainda que tenhas todos os outros dias para ti, acho justo, com uma condição porém.

Amon inspira profundamente, sorvendo todo o perfume feminino que a fera exalava. Em seus olhos, a determinação e a calma que lhe eram características.

Não sabe. Nunca. Se um dia precisarás ou não. No entanto o tempo lhe mostrará mulher. E mais, a guerra seria sim mais prática. Para mim e para ti e talvez, quem sabe, para os mortais também. No entanto, mancharíamos as montanhas de sangue, do meu, do seu e dos homens. Eu me pergunto, será que é este tipo de oferta que tens a oferecer para espíritos antigos? Havia um sorriso de satisfação nos lábios de Amon.

Agora, já que queres limitar meu povo, tenho também a minha condição. Que os espíritos se façam presente para meu povo no dia que eles subirem a montanha e que eles dêem suas bênçãos e sua sabedoria aos meus, para que eles continuem a seguir o caminho da paz.

O que me diz mulher-fera?


Enviado pelo Topic'it
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Re: Interlúdio - Amon

em Seg Jul 30, 2018 12:28 pm
- Tal decisão não cabe a mim, homem morto. Cabe aos próprios espíritos. Será feito o que eles decidirem.

Sem esperar mais respostas, a mulher deu as costas. Desapareceu em meio às sombras das árvores, confundindo-se com o mundo que havia além daqueles troncos. Os homens, recuperados de sua presença, se recompuseram e retomaram as armas, prontos para guiarem Amon de volta ao acampamento. A caminhada levou mais alguns dias. Os homens falaram pouco por todo o caminho, e não mencionavam o que viram e tampouco do acordo feito entre Amon e a mulher-fera. O cainita sabia, em sua intuição, que tal acordo duraria. Mas que, como todas as coisas, não seria eterno.

Foi somente voltando para o acampamento que lhe tomou a sensação de urgência. Intuía que seu Pai o convocava. Tinha pressa. Era quase como se Amon pudesse saber, em seu Sangue, a razão de tal chamado. O Pai gostaria de encontrar seus netos. Gostaria de testá-los, de avaliá-los. Os destruiria, se necessário, e ordenaria que tudo fosse recomeçado. Tal mensagem fluía pelas veias de Amon, enchendo seu coração de ansiedade, que era como ter um buraco em meio ao que seria o estômago. Precisava, ainda, informar aos habitantes do acampamento os termos de seu acordo com Voz da Montanha.

Os moradores estavam reunidos quando o cainita adentrou a aldeia. Diante do fogo, cozinhavam e se alimentavam. Nikaia observava a tudo calada, afastada do calor das chamas. Estava mais bela que nunca, com as estrelas a brilhar em seus olhos claros.
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Re: Interlúdio - Amon

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