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Interlúdio - Sarosh

em Dom Jul 15, 2018 6:28 am
Trinta anos.

Desde aquela fatídica noite no Grande Salão, trinta anos haviam se passado. A Guerra prosseguia, as forças de Nippur disputavam palmo a palmo a planície com os enviados de Mashkan-Shappir. Por vezes, a Cidade dos Deuses infligia pesadas derrotas ao inimigo, somente para ser derrotada em seguida. Cidades como Ebla, Mari e Lagash haviam caído sob a influência de Mashkan, somente para serem liberadas em seguida. Quando Mashkan-Shapir abria sua bocarra para vomitar obscenidades, era difícil vencê-la. Abominações caminhavam com frequência pela planície, ameaçando vilarejos e cidades, as forças de Nippur caçando aquelas bestas onde quer que se escondessem. As defesas místicas de Mashkan-Shapir nunca estiveram tão poderosas.

Trinta anos.

Nos quais Sarosh ocupou sua mente, estreitou laços de combate e de solidariedade com seus primos. Sarosh era, frequentemente, o comandante das incursões de Nippur, a Guerra oscilando em um equilíbrio precário. Sua casa estava em paz, mas seu Senhor Laza, era cada vez mais ausente, deixando o comando de sua Família nas mãos de Karotos. Por fortuna, seu irmão mais velho era um cainita equilibrado e dotado de grande capacidade de comando. A Casa de Laza marchava à frente das forças de Nippur, juntamente aos Filhos de Saulot e aos de Haqim.

Foram trinta anos nos quais a guerra mostrou sua face pavorosa, a mortandade assolando a planície. As orações nunca foram tão intensas, a chegada dos enviados de Nippur festejada por aqueles que se encontravam sob o jugo de Mashkan-Shapir. De quantos combates havia participado Sarosh? Inúmeros, havia perdido as contas. Ainda assim, se lembrava de todas as vidas que havia tirado em campo de batalha, pois se existe uma maldição que atinge toda a Prole de Caim é a maldição de lembrar.

Expulsou os inimigos de Ebla com sua armadura de sombras, caminhou pelos subsolos de Mari caçando as abominações dos que, agora, se faziam conhecer coletivamente como Baali. Foi queimado e mutilado, e sobreviveu com a força de seu Sangue e de sua Vontade. Aquela primeira cicatriz sobre o ombro, contudo, fruto do primeiro combate entre ele e as forças do inimigo, jamais desaparece totalmente, uma mancha escura que maculava sua pele morena. O nome de Sarosh passou a ecoar na planície, tanto entre os mortais, que passaram a considerá-lo o Avatar da Guerra de Laza Omri Baras, o Deus do Rio das Trevas, quanto entre os inimigos, que o amaldiçoavam constantemente, e cuspiam diante da menção de seu nome.

Parte dos filhos de Laza se haviam espalhado pelo mundo. Tubalcain e Tepelit não eram vistos há uma década. Khanon-Mer, contudo, se recusava a deixar a planície. A fúria de seu irmão era lendária e quando ele abria as montanhas, tanto literal quanto metaforicamente, para achar o esconderijo dos inimigos de destruir seus cultos, banhava-se em seu Sangue e regozijava-se em sua destruição. Khanon era a Besta da Escuridão, segundo o inimigo, um oponente tão cruel, tão formidável que Mashkan-Shapir tremia diante dele.

Os anos se passaram assim. Pareciam repetir-se em uma dança infinita entre as duas grandes cidades da planície. As forças de Nippur não ousavam se aproximar de Mashkan-Shapir, os encantamentos de Nergal eram poderosos. Mais de um trégua temporária foi necessária, ou a população de ambas as cidades morreria de fome sem uma colheita que fosse capaz de sustentá-los. Uma vez alimentados e recuperados, retomavam o conflito. Sarosh intuía que o final da guerra não tardaria a chegar. Contudo, faltava alguma coisa, um pedaço que conhecimento que permitisse a Nippur sobrepujar a força de Mashkan-Shappir.

Foi em uma destas noites, uma particularmente escura e sem estrelas, que Sarosh foi convocado à Torre de Laza. Aparentemente, seu Senhor havia retornado de uma de suas longas viagens. Se falavam cada vez mais raramente, Laza imerso em pesquisas esotéricas e em imersões cada vez mais demoradas no Abismo. Desde aquela fatídica noite, Laza era outro. Seu poder era imenso, desproporcional. Suas reações eram frias, regidas por um intelecto que parecia observar o resultado de cada ação através dos séculos. A Escuridão era de Laza e Laza era a Escuridão.

Sarosh avançou pela Torre, passos largos e decididos, fino a encontrar seu Senhor sentado em seu Trono Obscuro. Estava sozinho. Seus olhos eram orbes escuras profundas, sem vida e sem sentimentos. Sua pele era branca como a lua, e emitia um leve fulgor azulado. Diante dele, a única reação possível era ajoelhar-se a adorá-lo até o Fim dos Tempos. Laza, contudo, há muito havia eximido Sarosh de prestar adoração. Não importava tanto assim, afinal. Laza não pertencia mais àquele mundo e, assim sendo, honrarias temporais eram desnecessárias.

Sua boca fina e cruel se abriu quando Sarosh estava diante dele. Seus olhos, porém, continuavam a vislumbrar o Infinito. O rosto estava levemente voltado em direção a um buraco no teto, que permitia a ele observar as estrelas.

- Você está de partida, para Khemet. Teu irmão, Osíris, necessita de ti. Há uma discordância entre ele e meu irmão Sutekh que pode evoluir para um conflito aberto, ele te dará maiores detalhes. Eu interviria, mas não posso. Minha mente passeia distante, buscando os conhecimentos necessários para derrubar as defesas de Mashkan-Shapir. Você partirá imediatamente e Khanon-Mer assumirá teu posto como comandante de minhas forças.

Laza interrompeu seu discurso. Voltou-se mecanicamente para um canto de seus aposentos, a cabeça se movendo enquanto o corpo continuava imóvel. Sussurrou palavras à Escuridão. Sarosh sentiu que algo monumental se movia no Abismo. Laza voltou o rosto ao filho. Seus olhos voltaram ao normal, escuros como a noite, mas brilhantes como a aurora. Sua voz se tornou mais humana, menos divina.

- Você levará Kurush-Amir contigo. Ele conta com trinta anos, é um líder reconhecido e um guerreiro capaz. Sua descendência já foi assegurada. É hora de trazê-lo para a Noite Eterna. É hora que você se torne um Criador.
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Re: Interlúdio - Sarosh

em Seg Jul 16, 2018 8:43 am
Trinta anos de Guerra, sacrifício e espera.

Enki, o filho do Estrangeiro, fora sábio em suas palavras direcionadas à força da natureza quase incontrolável que se tornou a Escultora naquela noite. A dor os molda. Talvez o descendente de Loz não possuísse a plena consciência de que a dor, a verdadeira dor, não era o flagelo da perda, dos açoites, das humilhações. Não.

A verdadeira dor era a Eternidade a martelar em suas cansadas mentes, noite após noite, o que foi e o que poderia ser.

Trinta anos e Sarosh havia sido moldado por aquela noite. Não pela guerra, não pela dor, não pela morte mas sim pelo que foi e por tudo que poderia ter sido.

Mashkan-Shappir, a Fortaleza da Dor, mostrou-se um inimigo formidável. Daharius era o líder de maior parte das incursões que confrontava o inimigo e o derrotava nas areias das planícies de cidades menores ao longo do crescente fértil somente para que fossem derrotados em outra noite. Sentiu, em seu íntimo, que aquela Guerra não cessaria com aquelas ações bélicas. Não de forma breve como um conflito humano se daria.

Assim como a verdadeira dor a reger e moldar o mundo, aquela guerra persistiria pela eternidade. Os Filhos de Saulot, os Outros, eram igualmente poderosos e formidáveis. Daharius Sarosh aprofundou-se na guerra e na morte. Apreciava-os. As noites nas quais o inimigo encarava sua lâmina e seus prolongamentos de escuridão os esmagava eram fáceis, agradáveis. Eram, em verdade, uma fuga daquelas as quais estava como tornou-se após aquela noite.

Solitário.

Sorria para seus irmãos, mas era vazio. Ouvia e dialogava com o seu pai - cada vez mais frio e distante - mas mantinha-se no silêncio de seus próprios pensamentos. Rodeado por tantos, estava só.

Ao adentrar na Torre de Laza, o Segundo Filho da Escuridão ouviu atento as palavras de seu pai. Sarosh manteve o torso nú, exibia a cicatriz da primeira noite de confronto propositalmente. Não para os outros, mas para si próprio, para lembrar-lhe do quão são frágeis apesar de toda a monumental força que possuem. Lembrou-se de Amarantha, Mancheaka e das cinzas a preencherem o salão. Eram, acima de tudo, mortais suspensos em uma eternidade amaldiçoada.

Após o decreto do Rei das Trevas sobre Khemet, nada disse. Silêncio e os olhos escuros como a noite foram as respostas dadas a seu Ancestral. Somente quando a revelação de que Amir, que agora contava trinta anos, seria seu, finalmente seu, foi que os trinta longos anos ganharam um sentido maior. Sentiu-se, em um ínfimo de tempo, completo novamente.

Uma vez mais, não o respondeu. Meneou levemente a cabeça pois a ele foi ensinado a não curvar-se, jamais. Embora tenha escolhido fazê-lo para aqueles que julgou merecimento. Um merecimento que estava além do sangue, do poder e da idade. Estava nas ações e no significado delas.

Caminhou, deixando a torre no mais profundo dos silêncios. Estava ansioso por vê-lo, por encontrá-lo e observá-lo. Estava, enfim, tomado pelo desejo de viver esta noite.
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Re: Interlúdio - Sarosh

em Seg Jul 16, 2018 9:37 am
Deixou a Torre e caminhou pela Cidade Sagrada. Era uma noite de festa. Apesar do crescente número de refugiados da guerra que adentrava a cidade, tinham tido uma excelente colheita naquele ano, e Nippur estava tomada de música, dança e vinho. De fato, nem parecia que estavam em guerra. Um alívio em meio àqueles anos difíceis, em que as colheitas eram magras e os primeiros sinais de rebelião começavam a surgir. Andou pela cidade, por suas ruas e mercados, templos lotados e, com uma certa distância, fogueiras acesas.

E foi ao redor de uma deles que ele o viu. Estava sentado, muito próximo ao fogo. Era alto e com músculos bem dotados, mas era também longilíneo. Exatamente como um grande felino. A pele era olivastra, com um sinal de nascença no alto ventre. Estava sem camisa e somente com uma calça de linho, descalço. Os cabelos caiam em grossos cachos negros pelo pescoço e pela face, que era também recoberta por uma barba escura e espessa.

Ao seu redor, crianças. Mostrava a lâmina de uma belíssima espada curva para quatro meninos. Parecia contar histórias do passado, batalhas gloriosas - exemplificadas nas cicatrizes nas costas - vitórias memoráveis. Sorria com frequência, gargalhava aliás. Parecia extremamente feliz, satisfeito.

Até que os seus olhos cruzaram com os de Sarosh.

Por entre o fogo, que os separava.

Eram de um azul profundo como o mar da noite. Tempestuosos, negavam sua face de alegria. Fixaram-se por um segundo, antes que ele voltasse os olhos para as crianças, continuando suas histórias.




Kurush-Amir
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Re: Interlúdio - Sarosh

em Seg Jul 16, 2018 1:40 pm
Daharius estacou junto as sombras das tendas próximas. Interrompeu seu caminhar e pôs-se somente a observá-lo.

Ali, diante de seus olhos negros, estava aquele que o fortaleceu e possibilitou a vitória no primeiro enfrentamento contra o inimigo. O amava, profundamente. Sequer o conhecia, mas o amava.

Um passo adiante, fitando as chamas da fogueira que os separava. A besta encolheu-se, urrou dentro de si. Sarosh não recuou, não poderia. Aguardara trinta longos anos. Não! Talvez a sua espera tivesse durado todos os séculos de sua existência até aquela noite. Avançou, passos curtos porém firmes.

Era ele, afinal, o Arauto do Abismo.

A brisa tornou-se gélida e as chamas tremularam tal qual o monstro em seu interior. Havia ali uma disputa. O irracional medo de sua maldição contra o desejo incontido de avançar por aquele homem. Já tinha avançado antes, em meio às chamas infernais, avançaria perante as labaredas mundanas. As trevas eram sua força e sua força percorria a escuridão. O Arauto, com sua mera presença, fazia as pequenas chamas tremularem e apagarem-se e, embora diante de si houvesse uma fogueira, avançou.

Demorou-se  pois vencer a si mesmo é difícil e doloroso, mas demorou-se também porque aguardou que as histórias contadas às crianças se encerrassem. A dispor do amor e da luta, Daharius conhecia as limitações de sua natureza. Avançou até sentir o calor da fogueira, ameaçadoramente, aquecer-lhe a pele do torso nú e então limitou-se a ficar naquela distância. No limiar entre o desafio e a morte que sabia, desde a noite em Nippur, que seria mais breve e possível do que acreditavam nos séculos anteriores.

O amava, mas não o conhecia. Teria a força necessária para privar-lhe da vida fugaz e feliz da qual desfrutava? Somente as noites a seguir e o conhecimento de sua alma, do verdadeiro Amir, responderia aos seus questionamentos.

Quando as crianças o deixaram, o Arauto se fez ouvir. Sua voz era grave, bela, de um timbre encantador. Soava baixa, em altura agradável para a distância na qual o diálogo se iniciava.


- Kurush-Amir, eu o saúdo.

Fitou-o nos olhos azuis, penetrando-os com os seus próprios escuros e profundos.

- Sabes quem sou?
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Re: Interlúdio - Sarosh

em Seg Jul 16, 2018 4:35 pm
Estendeu a mão e convidou Sarosh a sentar-se diante dele. Indicou uma das pedras ligeiramente distante do fogo. Esboçou um certo sorriso ao fazê-lo.

Nada disse. Retirou das vestes uma flauta e começou a executar uma melodia. Era triste, melancólica. Tinha um um tom de saudade, de perda. Mas de algo que não era conhecido, que existia somente nas ideias, ou num sonho longínquo e borrado.

Quando terminou a melodia, pousou lentamente a flauta no chão pedregoso. Alçou o olhar para Daharius e respondeu.

- Conheço tua face. Dos meus sonhos.

Sorriu.

- Meu Pai me contava histórias sobre o Avatar da Guerra do Deus Laza. Pai jamais esqueceu aqueles olhos e os descrevia, todas as noites, para que eu dormisse.

Baixou o olhar antes de alçá-lo de novo.

- E cá estás, diante de mim.
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Re: Interlúdio - Sarosh

em Ter Jul 17, 2018 7:49 am
Daharius caminhou fitando as chamas, encarando-as em um transe no limiar entre o pavor e a admiração incitados por sua besta interior. Sentou-se sobre a pedra mais longínqua e a luz tremula do fogo refletia-se em seus profundos olhos negros, tornando-os ainda mais destacados.

Silenciou durante a melodia, a ouviu enquanto seus pensamentos vagavam. Lembrava-se da face no mar, escuro e infinito em seu ir e vir. Lembrou-se do pranto incontido que ainda não viveu, mas do qual foi trazido de volta somente por aquela voz que o respondeu em seguida. Sorriu, levemente, ao constatar como os mortais o conheciam.


- "Avatar da Guerra do Deus Laza."

Sussurrou e Silenciou. Somente alguns instantes depois, com um semblante pesaroso, o respondeu.

- Houve um tempo, Amir, que tal alcunha traria-me orgulho e honra. Um tempo no qual representar Laza - que não é um Deus - mas é meu Pai, meu Criador, significava absolutamente tudo para mim. Nestas noites, ser reduzido à um Avatar Dele, que trava a Guerra em Seu Nome, me entristece.

- A reputação que nos precede é um símbolo do que fazemos, jamais do que somos. Somos sempre mais do que os olhos desatentos enxergam na superfície.

- A Guerra, em noites tão tempestuosas quanto as últimas, precisa ser lutada. E sempre que o for, lá eu estarei, Kurush-Amir. Pois sou O Guerreiro, aquele que já foi Príncipe e Rei de seu povo. Mas sou, também, o Místico e o Arauto do Abismo. Sou o Filho, o Aprendiz e o Mestre.

Sorriu, fraternalmente. Estava em paz. Enfim, após os últimos trinta anos de conflito intenso e infindável, estava em paz.

- Os sonhos que te alcançam, há muito me procuraram. Teus olhos antes de existirem já figuravam em frente aos meus. Tua voz, antes de tornar-se grave com os anos adquiridos, já retirava-me das mais escuras sombras que enfrentei. Eu busco a ti, Kurush-Amir, para que sigas uma jornada a meu lado.

Encarou-o, os olhos negros aprofundaram-se em sombras nas quais as estrelas acima refletiam, vívidas e brilhantes.

- Quem sois vós, Kurush-Amir, para além da reputação que o precede?
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Re: Interlúdio - Sarosh

em Ter Jul 17, 2018 12:19 pm
Kurush abaixou a cabeça. Tornou a levantá-la antes de responder.

- Eu? Sou o Filho do Grande Sábio. Aquele que herdou sua Sabedoria e o dever de transmiti-la às gerações que virão. Sou o Caçador, trago fartura ao meu povo. Sou seu Líder e Protetor. Sou um Deles.

Sorriu outra vez. Seus olhos azuis eram penetrantes. Ali, Sarosh via a forte tempestade.

- E não sou nada disso. Sou homem, mortal como meus pais e meus avós. Areia. Barro com sopro divino.

Ele levantou-se. Deu alguns passos, aproximando-se de Sarosh. Estava de pé diante o Arauto.

- Eu compus aquela canção para você. Ela ainda não tem palavras, mas seguramente falará dos seus olhos tristes e desiludidos. Mas também falará de todas as suas funções, inclusive as que você insiste em rejeitar. Por orgulho.

- Eu não sei exatamente a razão de te dizer estas palavras. Mas, ouvindo as histórias do meu pai sobre você, me sinto íntimo, familiar. O pai me contava de como você derrubou as grandes bestas e convocou a escuridão para lutar em Teu nome, durante a Grande Guerra dos Deuses, que prossegue até hoje. E, depois de anos, eu acho que consigo dizer exatamente o que está sob a superfície. Eu o conheço há anos, Daharius Sarosh. E meu pai tinha certeza de que você viria por mim um dia.

Suspirou. Parecia, de alguma forma, tão feliz quanto Sarosh.

- E onde nos levaria a tua jornada?
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Re: Interlúdio - Sarosh

em Sex Jul 20, 2018 2:18 pm
Levantou-se, colocando-se diante daquele homem que habitava seus anseios passados e futuros. Sarosh era ligeiramente mais alto que Amir, embora fosse mais longilíneo e  menos definido fisicamente que o primeiro.

Os olhos negros, ainda que felizes, fixaram-se em uma palavra: orgulho.

Sorriu, mas desta vez era um sorriso triste, vazio como o Abismo que habita em seu interior.


- Orgulho é um sentimento que carrega a maior das dualidades, Amir. Por ele, podemos nos sentir grandiosos e invencíveis e, também por ele, podemos rejeitar tudo aquilo que nos cabe. Através dele, podemos subir os degraus do mais alto zigurate ou decair, veloz e violentamente, dele. Orgulho...tal palavra não me cabe há trinta anos.

- Para além disso, cabe-me apenas o Dever.

Sorriu, desta vez verdadeiramente.

- Devo muitas coisas, à mim cabem inúmeras tarefas implícitas a quem sou. O único fato que me torna livre de todos os deveres é a vossa existência.

Ergueu a mão esquerda, segurando o queixo do mortal à sua frente e fitando-lhe os olhos. Era fraternal, mas a escuridão que habitava a sua face o avaliava. O media. O Julgava.

- A jornada à sua frente, caso escolhas percorrê-la, é uma caminhada de longa e tortuosa perda.


Havia uma melancolia profunda naquelas palavras, estava claro que o Arauto não falava de Amir, mas dele próprio.


- As primeiras noites lhe serão de êxtase. As capacidades, o aprendizado, o amor pelo Criador. E, acima de todo o resto, o Sangue. Acreditará que a tua existência ganhou um significado maior e grandioso. Se sentirá poderoso, invencível, glamoroso. Sentirá Orgulho.

Sorriu.

- E, breve como uma vida mortal, a tudo perderá.

- Primeiro, perderá todos os seus amores mortais. Pois são breves, passageiros. Os verá decair e perecer ao tempo que não o atingirá. Depois, perderá o orgulho daquilo foi. Não haverá quem recorde de Kurush Amir e dos seus feitos entre o seu povo. Logo, não haverá mais seu povo.

- Em seguida, breve como uma brisa quente, perderá o desejo pelas coisas mundanas. O ecoar do aço a chocar-se contra o inimigo, as conquistas de amores banais ou terras que o circundam. Tudo será pequeno, irrelevante. Perderá, conforme o tempo avança sob seus pés cansados, a vontade de continuar em frente.

- Perderá o brilho nos olhos e a chama da fogueira a acalentar as noites frias em vosso coração. Todas as noites lhe serão frias.


Aproximou-se, encostando sua face na dele, ainda mantendo a mão em seu queixo. Falava-lhe ao ouvido.


- Talvez, após uma longa noite de perdas, encontre tudo novamente em uma outra existência como eu achei na tua e, então, terás que decidir se o condenará a perder tudo e a todos por egoísmo disfarçado de amor, profundo e incontido.

As presas ficaram expostas, roçaram o pescoço de Amir a ponto de arranhá-lo. Daharius conteve a besta com um esforço monumental, apenas para questioná-lo.


- Sabes, até esta noite, tudo que ganhou. Cicatrizes, gloriosas batalhas, amantes, efêmera sabedoria. Sabes, contudo, o que perdeu? A perda avaliza o caráter do homem, Amir, portanto responda-me com a escolha que lhe concedo, pois, a minha já está feita.

Segurava-o pelo queixo, com sua cabeça recostada em seu ombro e as presas a deslizarem por seu pescoço. Uma resposta e a decisão final - que cabia somente a Daharius Sarosh - se concretizaria.
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Re: Interlúdio - Sarosh

em Sab Jul 21, 2018 6:23 am
Amir se afastou de Sarosh, com delicadeza. Depois, observando as estrelas e as estradas de Nippur, convidou.

- Caminhe comigo.

Na mente de Sarosh, um aviso. Não eram palavras, mas uma sensação iminente, quase como uma ordem intransponível: Amir não deveria ser trazido à Longa Noite dentro dos muros de Nippur.

Caminharam, sem rumo, por entre as casas de teto baixo e pelas vielas estreitas que levavam aos refúgios dos Deuses da Cidade. A princípio, Amir se manteve em silêncio. Depois, respondeu às palavras proferidas por Sarosh.

- Imagino que não seja uma impressão, aquela que eventualmente me acometerá. Sobre as primeiras noites. Sobre ter a impressão de que a existência ganhou um significado, uma razão. Toda existência tem a sua, e é somente conhecendo-a que podemos nos tornar completos. Meu pai cumpriu o seu papel. Era o oitavo filho de um grande líder. Ainda assim, assumiu o manto de meu avô. Eu era o sexto filho, o primeiro da terceira das mulheres de meu pai. E cá estou eu, liderando este povo.

Parecia falar do passado com uma certa deferência, mas com uma ligeira entonação de pesar.

- Eu não escolhi meu papel, mas ele me foi imposto por uma sucessão de fatos. E não tenho o mínimo orgulho do peso que carrego. Faço-o menos por dever e mais por amor.
Dito isso, não sei se a minha existência jamais teve significado. Cumpro um papel que não é o meu. Que não era do meu pai. Estou preso entre o que eu poderia ser e o que eu devo ser. Logo, a única coisa que tenho a perder é a minha própria existência. Se eu cair, alguém assumirá meu lugar, e carregará o fardo muito melhor do que eu. Alguém que sinta orgulho da sua tarefa.

Parou. Estavam próximos à uma das saídas de Nippur. Parecia que os passos de Kurush, inconscientemente, os haviam guiado até ali.

- Eu sou um Deles mas, ao mesmo tempo, não sou. Eles precisam de mim e, ao mesmo tempo, eu os limito. Não sou o líder que eles merecem. Fui escolhido arbitrariamente para sê-lo. Contudo, aparentemente, você escolheu a mim. E você não é uma aleatoriedade do Destino, você é bem real. Você é, provavelmente, a primeira escolha da minha existência. E, portanto, o meu Dever será para contigo. Não me amedrontam as perdas mundanas, pois de nada disponho. Te havia dito: sou feito de areia. Depois de tê-lo visto, a única coisa que poderia amedrontar-me é não vê-lo novamente, não tê-lo ao meu lado.

Tocou a face de Sarosh. Sua mão era quente, macia. Seu Sangue chamava, clamava pelo de Sarosh, que desejava beber dele, comungar com ele. A Besta se agitava de Sede, ainda que Sarosh estivesse saciado. Era uma sede por Amir, uma luxúria, um desejo. Sarosh jamais havia experimentado aquilo antes. Imaginou se Laza teria sentido isso por cada um dos seus filhos. Sabia que a resposta era não.

- Meu Dever será fazer com que você tenha orgulho de mim. E que volte a ter orgulho de si mesmo.

Abraçou Sarosh. Falou em seu ouvido. Seu hálito era quente. Sarosh mal podia se controlar. Tremia.

- Eu não sei onde a sua jornada nos levará. Mas eu caminharei ao teu lado. Até o fim dos tempos, se necessário.
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Re: Interlúdio - Sarosh

em Sab Jul 21, 2018 9:27 am
Caminhou ao lado de Amir enquanto o ouvia e deu-se conta de que nem mesmo os séculos vividos o apresentaram todas as possibilidades de um viver pleno. Amir estava pronto, destinado, obstinado. Quem verdadeiramente não o estava era o Príncipe da Noite.

Sarosh estava à frente de sua primeira criação. Seria aquele homem a carregar o seu sangue pela eternidade e, com ele, seu próprio legado. E isso o fazia tremer.

O que a sua descendência representaria? Seriam capazes, justos e honrados ou tornariam-se tiranos incompreensíveis e assassinos que habitam na escuridão? Seriam ambos e, ao mesmo tempo, nenhum? A partir daquela escolha o seu mundo se transformaria. Deixaria de ser a segunda Cria de Laza para tornar-se o Criador e neste ato possuiria, finalmente, uma razão para continuar.

Sorriu. Sentiu-se excitado como em suas primeiras noites. Regozijou-se da sensação a percorrer-lhe o corpo. Estava pronto, assim como Amir sempre esteve.

Percorreu os últimos dois passos que o colocavam fora dos limites de Nippur e a encarou. Ergueu os olhos escuros que fitaram a majestosa Cidade dos Deuses. Aqueles passos deixavam os portões para trás mas essencialmente significavam muito mais. Naquele momento, Daharius Sarosh ganharia o mundo, sua própria prole e seria guiado apenas por suas próprias decisões.

Era hora de deixar Nippur.

Estendeu a mão para Amir, convidando-o a sair. Havia um singelo sorriso em sua face. Quando a mão do ainda mortal tocou a sua, foi para que nunca mais se separassem. Trouxe-o junto ao corpo e abraçou-o, aproximando os lábios de seu pescoço e, antes do ato, disse-lhe.


- Caminhes ao meu lado, Filho Meu. Torne-se meu Filho, meu Amante. Compartilhe de meu Sangue e da escuridão que em mim habita. Saibas e sempre lembre-se que o amo profundamente e já o amava antes que nascesse.

Sua voz tornou-se um tanto mais grave, densa. Lembrou-se de palavras ditas a outro e as proferiu uma vez mais.

- Saibas que a dispor do amor que nos une, não tolerarei nada menos que o absoluto melhor de meu filho. O testarei, o desafiarei e o destruirei se falhares em carregar o meu sangue.

Não houve tempo para resposta. Cravou as presas profundamente em seu pescoço e envolveram-se em prazer mútuo.

Sarosh estava em êxtase. As sombras revoltaram-se a seu redor e os abraçaram à frente dos portões de Nippur em um símbolo de que o próprio Abismo os assistia naquele momento. Dançaram ao redor dos corpos entrelaçados obscurecendo a luz das estrelas que não mais testemunharam o ato. Daharius bebeu e continuou a beber de seu vitae até que nada mais houvesse. Tomou o corpo, inerte, em seus braços e depositou-o sobre as sombras que ergueram-se do chão.

Amir levitava apoiado na escuridão projetada por Sarosh. O Arauto mordeu o próprio pulso e o colocou na boca do recém-morto. Deixou gotejar. Deixou que a não-vida preenchesse o corpo de Kurush-Amir. Tornou-o a escuridão, o monstro, o guerreiro, o místico. Tornou-o seu filho.
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Re: Interlúdio - Sarosh

em Sab Jul 21, 2018 2:56 pm
Não era Sangue aquele líquido que escorria do corpo e da alma de Kurush-Amir.

Era um néctar.

Tinha sabor de fruta e de brisa marítima. Fazia com que Sarosh se lembrasse de algo que nunca viveu, de alguém que nunca conheceu profundamente. Tinha sabor de esperança e força, mas sem tons de orgulho. Sarosh viu um pequeno Amir que corria pelas ruas lamacentas de Nippur, que orava aos Deuses da Torre Escura. Viu o Amir, caçador, que matava grandes animais para alimentar sua tribo e os outros habitantes da cidade. Viu o Amir que chorou sobre o corpo do pai morto, e que jurou a ele que encontraria seu próprio caminho. Viu Amin que o observava quando ele caminhava pela cidade, ocupado com suas tarefas militares. Sentiu o amor que, durante anos, Amir tinha depositado nele, primeiro como uma ideia, depois como um Deus, em seguida como Mestre e, por fim, como Homem.

Sarosh desejou permanecer ali por todo o sempre, vivendo a vida de sua progênie. O Sangue, porém, se esgotou depois de algum tempo. Amir jazia em seus braços, desacordado.

Fez um talho em seu pulso e deu de beber ao mortal que, em pouco tempo, deixaria sua mortalidade para trás.

Ali o prazer foi ainda maior. O mundo desapareceu em um pequeno círculo de luz azulada para depois explodir, em toda a sua glória. O prazer era absoluto, o maior que Sarosh já havia experimentado. O Sangue parecia fluir de suas veias com uma vontade própria, inundando o interior de Amir, que se agarrou ao braço de seu Criador e bebeu profusamente. Sarosh arfava, nada mais tinha importância, nenhuma batalha, nenhuma guerra. Nada. Ele sabia que Amir, naquele momento, comungava de suas memórias, medos e anseios. Não tinha certeza se isso se repetiria com outras crias, nem mesmo se efetivamente teria outras crias. Mas aquele momento, em que os dois eram um diante dos portões de NIppur, permaneceria em sua mente pelo restante da Eternidade.

De pé, numa das muralhas da cidade, Laza observava a tudo, em silêncio.

Aproximou-se quando Amir, saciado, havia parado de beber. Sarosh notou que os olhos de sua progênie nublavam, em tons de vermelho. A Besta ameaçava tomar conta de sua alma. Só então seu Senhor se aproximou. Laza parecia grandioso em sua palidez lunar, os cabelos eram feixes de grossas tranças escuras. Os olhos, agora, eram de um intenso azul. Havia algo diferente em seu Senhor, Sarosh já sabia disso. E talvez essa diferença, assim como todas as outras, os tenha afastado. Mas não havia negativa possível. O Senhor da Escuridão era magnânimo, grandioso, infinito.

Estendeu a palma da mão em direção à testa de Amir. A Besta desapareceu dos olhos do Cainita recém nascido. Laza o observou por parcos segundos, como se o analisasse. Nada disse durante este momento. Voltou-se, porém, para Sarosh.

- Teu filho será forjado na Guerra, pois é uma outra guerra que temos diante de nós. Não há tempo para lições e ensinamentos. Ambos partem imediatamente para Khemet, ao encontro de Osíris e sua progênie, Khetamon. Eu sinceramente espero que tua progênie sobreviva às primeiras noites. Se não for assim, é irrelevante. Não terá merecido o meu Sangue.

Laza não esperou a resposta de Sarosh. Mas o Arauto do Abismo viu, escondido, no fundo dos olhos de seu Senhor enquanto ele convocava a Escuridão que os engoliria e os levaria até Khemet, que ele estava orgulhoso. Muito orgulhoso.

A Escuridão os envolveu.

A Maestria de Laza era tanta e tão grande, que a viagem pareceu durar um segundo. Sarosh sequer viu o Abismo diante de si. Pareceu a ele que, após piscar os olhos, um imenso salão se descortinava diante de si. Amir tremia, observava a tudo com olhos atentos, mas mantinha uma postura calma, equilibrada. Segurou a mão de Sarosh. Sussurrou, mais para si mesmo que para seu Criador.

- Somos um, agora.

O salão estava no alto. Sarosh via a noite e infinitas estrelas se estendendo pelas férteis e densamente habitadas margens de um caudaloso rio. Havia cheiro de fartura naquele lugar, mas havia também o perfume da ameaça. O salão era imenso, de teto alto, mais grandioso do que o Trono Negro de NIppur. Suas paredes eram alaranjadas, feitas de barro, com desenhos estranhos que se espalhavam do teto ao chão. Não dispunha de móveis, à frente dos dois somente um longo corredor, do qual se ouviram passos. Eram duas pessoas que se aproximavam. Quando giraram e entraram no corredor, eram majestosos em beleza e realeza.

Um deles vinha à frente. Parecia levemente mais jovem. Vestia-se em verde, com o torso à mostra. No torso, repousavam diversos colares que pareciam ter um forte significado, dado que expressavam uma profunda autoridade. O corpo era tonificado, como o deu um guerreiro. Os cabelos eram longos, com grossas tranças, que lhe caiam pelos ombros. Eram escuros como os olhos e as sobrancelhas. Caminhava com altivez e resolução, mas emanava uma aura de inexperiência.

O outro, que se aproximava atrás do primeiro, era majestoso. Vestia-se com um saiote branco e jóias azuis que pareciam pesadas, mas que não retardavam seu movimento. Nele, Sarosh sentiu o cheiro de seu Pai. Como eram parecidos, aqueles dois! Exatamente como Sarosh e Amir. O segundo homem passou à frente, braços abertos em direção a Sarosh. Emanava uma calma contagiante o que, em conjunto com aquele grandioso lugar, parecia transformar Khemet em um oásis de paz em meio às guerras que rugiam do lado de fora. Ao se aproximar, o homem que Sarosh sabia ser Osíris, se pronunciou.

- Eu o saúdo, Daharius Sarosh, meu irmão e Sangue de meu Sangue. - Olhou para Amir, curioso - E saúdo também vossa progênie. Bem vindos a Mênfis, a maior cidade do mundo. Eu os ofereço a minha hospitalidade e o meu alimento, o meu amor e a minha limitada Sabedoria para que, juntos, cresçamos.



Khetamon


Osíris
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Re: Interlúdio - Sarosh

em Sab Jul 21, 2018 7:07 pm
Ah, como era doce.

O néctar que vertia em forma de sangue, o ato de profundo e incompreensível - até este momento - prazer em gerar uma amada cria. Ainda mais doce era o sabor da liberdade.

Daharius pisava nas areias fora de Nippur, livre das obrigações que o acorrentaram à elas durante todos os séculos de sua não-vida. Guerra. Dever. O olhar atento e exigente de Laza. A ordem imposta poo Karotos e até mesmo a impulsividade de Khanon-mer que o obrigava a estar alerta em todos os momentos. Os amava, profundamente, mas era a hora de seguir o seu caminho e isto lhe parecia doce, tão doce que permitiu-se saborear por alguns instantes.

Para Amir, apenas um olhar profundo que assentia à sua frase. Sim, eram como um só e assim seriam até as últimas noites. Quando um fraquejasse, o outro lá estaria. Daharius sentia-se completo, pleno de suas capacidades e repleto de desejo.

Não pôde deixar de pensar em como estava errado.

Não era apenas a cria a experimentar o profundo êxtase em suas primeiras noites. O Pai, tal qual o filho, renascia a partir do mesmo ato. Sarosh preencheu-se de esperança, de determinação e de vontade de alcançar os séculos futuros ao lado de Kurush Amir. Havia uma razão, um elo inexplicável e inquebrável.

Foi então que o viu, sobre as muralhas de Nippur. Sorriu, ao constatar que estava errado uma vez mais. Não era inquebrável, o tempo e os erros tratariam de tornar aquele tão belo laço entre Pai e Filho em uma frágil e conturbada relação. Ainda o amava, sempre o amaria. A chama alimentada pela admiração é que se extinguira.

Ouviu suas palavras e notou o quão grandioso Laza tornava-se noite após noite. Conteve a besta no interior de sua Cria sem o menor esforço, quando Daharius preparava-se para domá-lo como deveria ser feito. Era o Rei das Trevas e alçava um domínio absoluto sobre a escuridão. Era grandioso e magnânimo e, ainda sim, não o admirava. Sorriu pela terceira vez ao notar que o poder, puro e simples, é insuficiente para quebrar algumas barreiras.

Segurou Amir com firmeza, a Criança da Noite experimentaria - de imediato - uma incursão pelo Abismo. Era precoce. Preparou-se para ampará-lo e notou que não havia necessidade, Laza era absoluto em suas habilidades e logo estavam em seu destino, antes de experimentarem a travessia em sua completude.

E como era belo. O salão era amplo, magnífico. De cor alaranjada que refletiam-se nas peles coradas de Sarosh e Amir. Sorriu, pela quarta vez, ao notar como a sua percepção do mundo estava mais viva, mais pulsante. Não enxergava apenas os tons frios da guerra e do dever, passara a enxergar a beleza das construções e os mistérios do desconhecido com atenção e carinho. Estava ávido por conhecimento, estava ansioso para ver o mundo.


Quando as figuras aproximaram-se, sorriu pela quinta vez. Jamais havia visto Osíris. Nunca deixara Nippur e suas obrigações e não pôde conhecer seu próprio irmão ou suas terras férteis e prósperas como as notícias o faziam saber. Saudou-os, de igual forma.

- Que auspiciosa é esta noite. Eu o saúdo, irmão meu. É inebriante encontrá-lo finalmente e, melhor ainda, longe da Guerra que assola Nippur. O saúdo e alegro-me em vê-lo em prosperidade e amor.

Olhou para a cria de Osíris, com um sorriso sincero na face. Em seguida olhou para Amir, apresentando-o.

- Vos apresento Kurush-Amir, Sangue de meu Sangue e, agora, parte de nossa família.

Seu semblante tornou-se mais austero, ao continuar.

- Devo interromper a alegria de nosso encontro para rumar direto ao assunto de minha vinda. Gostaria de aqui estar por outras razões, Osíris, mas as ordens de nosso Pai são para que o auxilie e avalie as tensões que ocorrem entre vosso povo e o nosso tio, a Tempestade do Deserto, Sutekh.

Não questionou as razões, não naquele corredor. Aguardou que seu irmão tomasse a dianteira no assunto de forma que achasse prudente.
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Re: Interlúdio - Sarosh

em Dom Jul 22, 2018 5:53 am
- Venha. Discutamos o assunto enquanto Khetamon conduz Amir em uma caminhada. Talvez possam trocar experiências relevantes.

Khetamon entendeu a mensagem e ofereceu o braço direito a Amir em gesto de amizade. O filho de Sarosh o tomou, e ambos seguiram uma direção oposta diante de um corredor bifurcado: a deles levava a uma rampa que levava aos andares inferiores. A de Sarosh portava a um balcão externo, que se debruçava sobre Mênfis. Era estranho a Sarosh que sua progênie, apenas Abraçada, se afastasse dele. Osíris tratou de dar confiança ao irmão.

- Não se preocupe, nenhum mal acometerá teu filho. Khetamon é habilidoso com as palavras e com as histórias. Contará a Amir o que ele precisa saber sobre a sua nova existência. Por aqui.

O balcão se descortinava em uma planície enorme, arenosa, repleta de pequenas residências em argila. As ruas eram bem organizadas, largas e ventiladas. Mortais se acumulavam nelas, um próspero mercado havia nascido ali. De tudo se trocava: tecidos, peixe e frutas secas, armas. O povo de Osíris era de pele mais escura que aqueles da planície, e eram também mais robustos. Vestiam-se, em sua maior parte, com simples saiotes de algodão. Falavam um língua estranha, enquanto Osíris se dirigia a Sarosh com o idioma de Nippur. Falava perfeitamente, como se tivesse vivido ali por muito tempo. No balcão haviam dois assentos de pedra, onde se sentaram para observar a cidade. A grande faixa de estrelas era belíssima no céu, e o perfume do rio, que estava a uma certa distância, chegava às narinas de Sarosh. Um cheiro similar àquele da planície onde viveu.

Laza uma vez havia dito que aquele seria o maior império do mundo.

E talvez tivesse razão. A construção onde estavam era muito alta, com enormes colunas a sustentar a estrutura. Era diferente dos zigurates e torres de Nippur, assumindo uma forma ligeiramente mais linear, quadrada. A prosperidade era visível, parecia aos olhos de Sarosh que a cidade perduraria por milênios. Osíris dirigiu-se a um servo, que trouxe dois copos de barro preenchidos de Vitae fresco. "Doado", fez questão de explicar Osíris, pois o seu édito proibia aos cainitas residentes de beber diretamente dos mortais. Isso, segundo Osíris, era uma das razões do desentendimento com os Filhos de Sutekh.

- Sabes que fui Faraó, o que vocês da planície chamariam de Rei, destas terras. Meu povo, ao Sul, uniu-se através de casamento e alianças aos povos do Norte. Juntos, erguemos Khemet e somente juntos Khemet continuará a sobreviver.

Osíris bebeu um gole da taça de barro. Sarosh percebeu que não havia nele qualquer luxúria ou prazer. Apenas obrigação. Parecia estoico e concentrado ao fazê-lo.

- Khemet é governada por Narmer. É um homem capaz e habilidoso, além de muito sábio. Poderia portar Khemet à grandeza. Não fosse a resistência dos nossos primos, filhos de Sutekh. Liderados por Maatkare, a Preferida de Sutekh, ameaçam romper Khemet em duas, como fomos no passado. Desejam governar o Norte, região mais fértil, sem submeter-se às duas coroas de Narmer. Para isso, encorajam revoltas abertas e recusam-se a pagar os tributos necessários ao Norte.

Pelas ruas da cidade, Khetamon caminhava com Amir. Sarosh percebeu que os habitantes não se curvavam ao jovem cainita, ainda que fosse filho de Osíris. Amir parecia calmo, sem sinais de ser afetado pela Besta, mas observava, cheirava e tocava a tudo como um recém-nascido. Khetamon o acompanhava, apontando para locais da cidade, para as estrelas e para o próprio palácio. Tinha uma índole de professor. Khetamon o fazia recordar de Karotos.

- Nosso filhos se dão bem, e serão grandes aliados no futuro, Daharius. Mas, tornando ao assunto. Há rumores sobre uma espécie de seita ou grupo formado pelos descendentes diretos de Sutekh. Ao menos aqueles que tem uma índole menos tolerante, mais... fanática. Se intitulam Corte de Fogo. Nas ausências do Senhor das Tempestades, que têm se tornado cada vez mais prolongadas, clamam governar a parte norte de Khemet. A situação está, lentamente, fugindo do controle de Narmer. E é por isso que precisamos intervir, em nome da manutenção da autoridade não só de Khemet Unificada mas da Casa de Laza. Nossos primos dever retornar à razão e perceber que podemos, juntos, levar esta terra à glória eterna.

Osíris bebeu novamente. Novamente mecânico, sem paixão. Parecia suspenso no ar, como se não pertencesse àquele mundo. Seus olhos escuros eram fixos. Pareceu a Sarosh que todas as palavras e movimentos de seu irmão eram rigidamente calculados.

- Infelizmente Sutekh, como disse, não está presente em Khemet há quase trinta anos, e seu paradeiro é desconhecido. Eu e ele tivemos nossos...problemas, de forma que, para mim, é impossível negociar com a Corte de Fogo. Imagino que tenha sido por isso que o Pai tenha te enviado. Gostaria de escutar suas opiniões sobre o assunto, amado irmão, para que juntos possamos encontrar uma solução para este impasse.
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Re: Interlúdio - Sarosh

em Dom Jul 22, 2018 9:10 am
Daharius impressionava-se com as majestosas e harmônicas estruturas daquelas terras. Como eram grandiosas e belas. O Arauto parecia desfrutar dos pequenos detalhes daquele lugar com um interesse ímpar.

A perfeição das construções, a fertilidade em meio à uma terra arenosa e o cheiro do grande rio. A simplicidade do povo e o caminhar pelas ruas largas e organizadas. Sarosh estava mais altivo, mais presente no agora que o cercava. Estava como se fosse possível, mais vivo.

Seus olhos escuros passearam buscando a presença de Amir. Sabia que era a existência dele a torná-lo mais completo. Confiou-o à Cria de Osíris, era o primeiro dos seus gestos de boa vontade para com o seu irmão e seus modos.

Ouviu atentamente as palavras do Faraó da Noite acerca das progênies de Sutekh. Lamentou a ausência da Tempestade, com o qual pretendia dialogar sobre o assunto. Ponderou por alguns instantes, enquanto apreciava o vitae fresco no copo de barro, pois até mesmo o sangue lhe parecia mais saboroso nesta noite.

Sarosh era, naturalmente, uma presença impositiva mas naquele momento atuava como um ouvinte paciente. Somente depois de um silêncio pensativo, o respondeu.


- Caro irmão, em Nippur os filhos dos antigos debandam pelo mundo. Colhem a liberdade conquistada durante os duros debates no Salão do Trono Negro, que sequer existe mais. A segunda cidade terá sido, eu diria, a última experiência na qual os filhos de nossos pais conviveram em harmonia mesmo com suas individualidades e  disputas veladas.

A visão do caminhar no tempo suspenso por Ilyas o tornava, como um açoite em sua mente. Jyhad.

- Somos dominadores, conquistadores. Por natureza a besta dentro de nós grita sempre por mais. Mais poder, mais conquistas e mais sangue.

- Tenho um vislumbre raso da situação à nossa frente. Me falta conhecimento sobre Khemet. A descendência da Tempestade me parece buscar um reino para se assentar pois não desfruta de nenhum. Podemos culpá-los? Perceba que as duas coroas, Sul e Norte de Khemet, residem sobre a cabeça de Narmer e, sobre ele, a influência da Casa de Laza. Se fosse eu um filho de Sutekh  e o meu pai tivesse desbravado estas terras, assim como a Corte de Fogo o faz, eu marcharia sobre as suas terras após as falhas nas tratativas.

- Ainda assim, as razões para tal conduta me parecem exacerbadas. Ainda cabe o diálogo, embora a minha presença aqui indique que o tempo para ele se encurta.


Seus olhos escuros fitavam os de seu irmão, eram fraternais, apesar do discurso pragmático e livre de emoções.

- Vejas, Osíris, irmão meu. Laza enviou aquele ao qual chamam de Avatar da Guerra do Deus da Noite para auxiliá-lo nas tratativas. Ele poderia ter escolhido aquele que possui uma conduta professoral, Karotos. Ou, ainda, o que compreende melhor as possíveis razões místicas para o apego dos filhos de Sutekh à estas terras, Tepelit. Ainda sim, ele enviou o seu líder militar. Isto, Sangue do meu Sangue, significa que as próximas noites serão difíceis.

- Gostaria que me contasse, em profundidade, a história sobre o início de Khemet. Sobre a chegada e a influência de Laza sobre estas terras e, igualmente, a participação de Sutekh. Após inteirar-me de todo o certame, com vossa permissão pois estamos em suas terras, sentarei-me com a Corte de Fogo para tratar do assunto como um mediador entre a vossa Corte e a dos filhos da Tempestade.
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Re: Interlúdio - Sarosh

em Seg Jul 23, 2018 4:09 am
Osíris observou o horizonte por alguns segundos. Abaixo, na cidade, Khetamon e Kurush-Amir continuavam a caminhada. A progênie de Sarosh ouvia atentamente às palavras de seu primo. Voltando-se a Sarosh, Osíris respondeu.

- Esta é a terra natal de Sutekh. Foi aqui que ele nasceu e cresceu, antes de tomar os caminhos que o levaria até a Nippur e até a Longa Noite. E é baseado neste discurso que a Corte de Fogo reivindica a autoridade total sobre Khemet e sobre seus recursos, em especial as grandes populações mortais e os enormes centros místicos do reino que, para uma família de inclinações místicas como a família de Sutekh, é de vital importância.

Fez uma pausa.

- Contudo, a influência de Laza neste local é tão ou mais antiga que a presença dos filhos da Tempestade. Eu mesmo fui trazido para a Noite Eterna há muitos séculos atrás, antes mesmo que Sutekh tivesse retornado de Nippur. Pode-se dizer que sou o segundo cainita, apenas atrás do Deus das Tempestades, a fazer refúgio nestas areias. Eu sou mais velho do que qualquer cria de Sutekh e, em um certo senso, detenho autoridade sobre este reino. Nosso Pai Laza, abençoado seja Seu nome, sempre deixou claro que a minha prioridade era conduzir Khemet como um conselheiro dos Faraós que viriam depois de mim, que os guiasse rumo à glória que espera este reino. Quando minha família mortal reinou sobre o Alto Khemet, e quando eu o fiz ainda quando mortal, não tínhamos pretensões de expansão rumo ao Norte. Eventualmente minha dinastia chegou ao fim, sendo substituída pela Casa de Narmer. Este homem, de imensa habilidade política, procedeu à unificação do país.

Osíris se levantou e caminhou algum tempo pela sacada. As estrelas reluziam no céu de uma maneira impressionante. Pareceu à Sarosh que Khemet estava no centro do mundo. As ruas começavam a esvaziar-se; Khetamon e Amir retornavam lentamente ao encontro de seus senhores.

- Fato é que os descendentes de Sutekh surgiram em algum ponto entre o fim da minha dinastia e o início daquela de Narmer. Sutekh jamais se posicionou contra a unificação, pelo contrário, deu indícios de que uma Khemet unida seria uma Khemet poderosa. Seus filhos, contudo, se recusam a submeter-se ao Alto Khemet e às Duas Coroas. O desenvolvimento da unificação, contudo, foi extremamente rápida e, em muitas situações, fora do controle da nossa família e da família de Sutekh. Eu não me opus. Tenho claras em mente as minhas ordens. Contudo, é essencialmente um movimento comandado por mortais, do interesse de mortais.

- Houveram tentativas de negociação. Aos Filhos de Sutekh foi concedido o domínio absoluto sobre os grandes centros místicos, onde realizam seus cultos e celebrações. O édito que impede a caça aos mortais, contudo, permaneceu por uma única razão: no momento em que nos alimentaremos indiscriminadamente dos mortais, reduzimos suas forças e seus números. E um reino sem mortais não pode avançar.

Osíris deu um gole no conteúdo da taça.

- É uma outra decisão que eles não aceitam. A Corte de Fogo espera poder caçar livremente e sem restrições. A culminância da crise entre as duas cortes se deu quando um dos meus enviados para negociação, um servo de grande sabedoria e com anos de serviço foi mutilado brutalmente e reenviado à minha corte. Me ocorre que, na ausência de Sutekh, seus filhos agem com impulsividade e desrespeito, regozijando-se na sua condição de cainitas, ofendendo nossa raça e as outras famílias. E é aqui que você chega.

Khetamon e Amir adentraram o salão e, após a autorização silenciosa de Osíris, procederam rumo à sacada onde os dois mais velhos se encontravam. Kurush colocou-se ao lado de Sarosh e Khetamon fez o mesmo em relação ao seu Senhor.
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Re: Interlúdio - Sarosh

em Dom Jul 29, 2018 10:48 pm
Ouvia com atenção as palavras de seu irmão. Atenção e tristeza.

Debruçou-se sobre a balaustrada do salão e fitou o horizonte repleto das harmônicas construções daquelas terras. Via os homens irem e virem, pacíficos, gozando de um governo próspero. Enxergou a força de caráter de Osíris durante o seu discurso, assim como a fraqueza estrutural daquela situação. Colapisariam, muito em breve, se nada fosse feito. As disputas veladas e simplórias de Nippur estavam escancaradas e à beira de uma guerra aberta em Khemet. Quando falou, foi ainda antes da entrada dos mais jovens.

- Solicite uma audiência com a Corte de Fogo. Sentarei-me com eles como aquele que representa a casa de Laza, pois foi também nesta condição que ele me enviou. Buscarei uma solução viável para a já complexa situação, irmão meu. Contudo, ouça-me com atenção.

Ergueu  o corpo e colocou os braços para trás, cruzados, em um gesto que se tornara comum todas as vezes que racionalizava sobre questões de difícil prosseguimento. As discordâncias eram políticas, territoriais e mesmo comportamentais quanto à conduta em relação aos mortais. A situação era mais densa e grave do que imaginava.

- O cheiro da batalha invade minhas narinas ao sentir a brisa de tua cidade. A dispor das tratativas diplomáticas, a guerra se avoluma no horizonte.

- Prepare suas forças para o pior e, diria eu, inevitável. Teus homens devem estar prontos para a guerra. Tua cidade, fortificada. Proteções específicas contra nós, vampiros, devem ser preparadas em pontos estratégicos de acesso à cidadela, aos grãos e às famílias de maior renome e importância política, como os da linhagem Narmer. Use o fogo como arma e proteção.


Caminhou pelo salão e foi neste momento que sua Cria e o filho de Osíris adentraram. Depositou uma das mãos no ombro de Amir, enquanto continuou.

- Dito isso, prepararei-me para o encontro com a Corte de Fogo. É necessário que o diálogo seja extenuado em suas possibilidades. Conheço as demandas daqueles que discordam dos teus termos, irmão, e os ouvirei pessoalmente.Se me permitires, levarei a vossa palavra - além daquela de nosso Pai - para que os filhos de Sutekh compreendam que estão a lidar com todo o nosso sangue.

- Visto que uma negociação se fará necessária, pergunto-lhe: O que estás disposto a ceder em nome da paz?


Daharius analisaria a resposta de Osíris, pois ela lhe diria tudo o que precisava saber sobre seu irmão.
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Re: Interlúdio - Sarosh

em Seg Jul 30, 2018 6:17 am
Osíris observou, por alguns segundos, Kurush-Amir. Sarosh percebeu que os olhos de seu irmão brilharam com uma luz estranha, emanando uma onda de calmaria infinita. Osíris parecia analisar Amir e, em seguida, desviou o olhar do cainita e dirigiu-o à sua própria cria, Khetamon. O outro vampiro fez um aceno positivo com a cabeça, quase imperceptível. Osíris sorriu diante da resposta silenciosa. Depois, responder a Sarosh.

- Nós já estamos preparados, Daharius. Nossas forças militares, que não são poucas, protegem pontos importantes das cidades do Sul e, em especial, protegem a família de Narmer. Concordo contigo, uma guerra se avoluma no horizonte, apenas a primeira de tantas que deveremos lutar no curso dos séculos. Me desagrada tal discordância entre nossa família e a família de Sutekh, mas isto é somente um exemplo dos conflitos que virão no futuro. É parte da nossa natureza. Em ausência de nossos Senhores, tendemos a fazer o que achamos correto, ainda que isto nos leve a consequências desastrosas.

Osíris também se ergueu. Aproximou-se da sacada e observou Mênfis. Era notável o amor que o Filho de Laza parecia ter por Khemet. De algum ponto da cidade, soava música. Uma melodia cerimonial triste e intensa. A escuridão do deserto ameaçava cobrir tudo, sendo impedida somente pelas luzes da cidade. Poucos mortais iam e vinham. Kurush alternava os olhares entre seu Senhor e Osíris.

- Como havia dito, reconheço as inclinações místicas dos Filhos de Sutekh, e estou disposto a permitir que eles prossigam com seus cultos e seus experimentos nos locais que, para eles, tem significância. Eles são o Clã da Fé, Daharius, e a eles jamais poderá ser negado o exercício de tal característica. No entanto, sou intransigente no que tange ao bem estar dos mortais em meu reino, que devem ser protegidos das nossas depredações e excessos que, infelizmente, vêm se tornando tão comuns. Dito isto, não abro mão da alimentação somente em bases voluntárias. Não podemos secar Khemet, se é que me compreende.

Osíris girou-se. Seus olhos castanhos eram como o sol. Estava calmo. Sarosh chegou a se perguntar se seu irmão dispunha de uma Besta, como todos os outros cainitas. Não era visível nenhuma sombra de sofrimento ou rancor. Osíris, contudo, não era resignado ou pessimista. Tampouco estoico. Era como se as coisas do mundo não o afetassem mais do que o necessário. Sarosh sabia que Osíris, apesar de ser um grande governante, jamais fora um grande homem de guerra. Talvez a falta de experiência no campo militar não o permitisse ver a gravidade da situação.

- Enviarei emissários à Corte de Fogo. É muito provável que eles o recebam ainda na próxima noite, irmão meu. Até lá, Khetamon conduzirá a ti e a Kurush a um local onde poderão descansar durante o dia. Sinta-se livre para caminhar por Mênfis e apreciar a cidade, se desejar. Lhe informarei a resposta da Corte assim que possível.

Osíris cumprimenta Sarosh e Kurush antes de se retirar. É Khetamon quem guia os dois cainitas em direção às partes mais baixas do enorme palácio, repleto de colunas e pinturas. Passam por longuíssimos corredores e escadas de porte majestoso, antes de alcançarem as catacumbas. Ali, Khetamon move, sem nenhuma dificuldade, uma grande pedra que tapava a entrada de uma caverna esculpida na rocha. Ali dentro, dois leitos de metal esperavam, cobertos por feno. Nas paredes, inscrições que Sarosh não conseguia decifrar, mas que emanavam uma mística de proteção.

- Esta câmera os protegerá da luz do dia e de invasores. Não que seja possível invadir o palácio. Mas todo cuidado é pouco nestas noites. Temo, Sarosh, que meu Senhor tenha a tendência em acreditar excessivamente na diplomacia e na boa vontade dos Filhos de Sutekh. Rogo para que ele esteja certo. Kurush-Amir conhece a saída do palácio. São mais que bem vindos para conhecer Mênfis e seus costumes. Estou à vossa disposição em qualquer eventualidade.

Khetamon se curva diante de Daharius e cumprimenta Kurush com um forte aperto de mão. Depois, deixa cria e Senhores a sós.
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Re: Interlúdio - Sarosh

em Ter Jul 31, 2018 1:45 pm
Manteve-se em silêncio após todas as palavras de seu irmão. Não emitiu nenhum juízo de valor quanto as condições pré-estabelecidas e resumiu-se a respondê-lo.

- As condições serão tratadas em diálogo com a Corte de Fogo desta forma, sem a inclusão ou retirada de nenhum item. Que a próxima noite nos traga as beneficies do improvável, pois a minha avaliação já aponta para o que se seguirá.

- Até a próxima noite, Irmão meu.

Acompanhou Khetamon até os aposentos que lhe foram destinados. Admirava, fascinado, as pinturas nas paredes. Eram belas e detalhistas, diversas em muito da cultura que o formou enquanto mortal e mesmo dos demais povos que conheceu em sua imortalidade. Eram únicos os habitantes de Khemet e a unidade também deveria ser o curso a ser seguido por eles, embora os indícios sejam contrários.

Cumprimentou o filho de Osíris e despediu-se. Quando estavam a sós, Amir e Sarosh, os olhos do Príncipe da Noite se tornaram mais escuros e seu semblante mais denso.


- Percebas, Filho Meu. Laza, nosso Ancestral, é o maior estrategista dentre dos antigos. Seus intricados planos habitam as sombras do saber e alcançam os objetivos traçados unicamente por ele e para fins de seu exclusivo e obscuro interesse.

- Dito isso, espero que tenha notado que estamos à beira de uma Guerra nestas terras e que tê-lo trazido para a noite e para Khemet às vésperas dela é parte da avaliação de Laza para os que descendem de seu sangue.


Sarosh caminhou, impassivo, por aquele salão.

- Dos meus não espero nada menos que o absoluto melhor. Sempre. Tu não serás poupado, afastado ou protegido. És jovem e carece de poder e conhecimento e, exatamente por isso, será testado no conflito a seguir.

- Limite-se ao que lhe for capaz, sobressaia-se no que for possível e vença os desafios que se apresentarem. Não sejas afoito, estúpido e apressado. Não desrespeite o meu sangue. A longa noite não abre espaços para heroísmos vazios  e protagonismos desleixados. Somos o que somos e devemos ser sábios ao estender nossas sombras sobre o inimigo e mesmo sobre os aliados.

- Avalie Khetamon, assim como ele o fez durante o vosso passeio. Avalie o povo, as defesas, as brechas. Avalie e reporte. Na próxima noite, provavelmente, irei ao encontro dos Filhos de Sutekh e tu ficarás aqui. Serás meus olhos e ouvidos e a ti confio a avaliação das defesas das terras de Osíris.


Seus olhos que antes transbordavam de amor para com o seu filho, agora emanavam dever acima de quaisquer outros sentimentos mundanos.
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Re: Interlúdio - Sarosh

em Qui Ago 02, 2018 3:32 pm
- Eu não tenho nenhuma necessidade de ser protegido.

Assim como Sarosh havia mudado sua postura, percebeu que Amir tinha feito o mesmo. A expressão do jovem cainita era menos encantada com o que simbolizava seu Senhor, com a Sua presença após anos de espera, tornando-se mais concentrada e mais analítica. Sarosh sabia que aquela não era a primeira guerra que Amir veria, havia nascido e crescido durante os conflitos com os servos de Mashkan-Shapir. Contudo, seria a primeira na qual estaria ativamente envolvido. Kurush não parecia, porém, nervoso.

- Caminhei com meu primo Khetamon. Há tanto para ser visto! No entanto, minhas primeiras impressões sobre esta terra são muito simples: nossa raça prospera se prosperam também os mortais. E, neste sentido, compreendo perfeitamente as proibições de Osíris.

Aproximou-se. Tocou o rosto de Sarosh com a mão esquerda.

- Não se preocupe, Pai. Eu não o decepcionarei. E, sobretudo, não decepcionarei o Ancestral. Quero que saibas, porém, que se chegar o momento em que eu deva escolher entre Ele ou a ti, estarei ao teu lado.

A noite se passou velozmente. Sarosh dormiu um sono tranquilo durante o dia, talvez por saber que estava tão distante do conflito de seus Ancestrais. Não sonhou, não sentiu absolutamente nada. Um sono profundo, interrompido somente quando, na noite seguinte, Khetamon adentrou a câmera onde estavam ele e Kurush. Amir já estava desperto e, sentado, observava Sarosh enquanto este dormia. Segundo Khetamon, todos os preparativos haviam sido realizados. A Corte de Fogo havia concordado em receber Daharius Sarosh, enviado de Laza Omri Baras. Viajariam através do Abismo, com Khetamon liderando a Travessia.

Amir despediu-se de seu Senhor. Faria um giro por Mênfis, observando tudo aquilo que lhe fora comandado a observar, esperando que Sarosh retornasse para que pudesse passar suas impressões. Sem muitas delongas, Khetamon comandou a Escuridão para que envolvesse a si e a seu Ancestral. As sombras comandadas pelo Filho de Osíris eram estranhamente silenciosas, portando a uma Travessia particularmente calma. Era diferente de qualquer experiência que Sarosh tinha feito antes.

Retornaram ao plano material em meio ao deserto. Era frio e seco, um vento constante assobiava nos ouvidos de Daharius. A lua estava baixa no céu, com uma coloração alaranjada. Não haviam nuvens, e as estrelas se apresentavam em toda a sua glória. Sarosh quase podia ouvir, em meio ao profundo silêncio, o som dos animais noturnos. Diante deles, um pequeno declive, e na parte plana após este, erguia-se um templo de características quase simplórias.

Tinha um formato retangular, longo mas de teto baixo. Era construído inteiramente com argila, com duas colunas ligeiramente tortas a servirem como estrutura principal. Ali não haviam pinturas ou inscrições, era rústico em essência. Mas emanava algo poderoso, intenso, quase palpável. Khetamon não disse nada, mas Sarosh intuiu que estava diante de um centro de poder alocado sobre uma região de poder. Aquele templo se erigia sobre poderosas energias.

Uma passagem escura levava ao interior da construção. Ali, de pé, havia um homem. Era magro e de pele escura, com vestes de tecido sem coloração. Os lábios eram grossos e o nariz terminava em uma enorme cicatriz que lhe alcançava a testa. Diante da aproximação dos cainitas, se curvou. Apontou para o interior o templo e tomou a dianteira, conduzindo-os.

O local em nada refletia a grandiosidade do palácio de Osíris. Cheirava a mofo e areia, e era estranhamente úmido. Sarosh conseguia sentir água em alguma parte, mas não identificava onde. O corredor, porém, parecia muito mais extenso do que a estrutura externa insinuava. Passou por colunas, desta vez retas e calculadas misteriosamente, mas era só. Em certos pontos, abaixou a cabeça para passar pelo teto excessivamente baixo. E então, como havia começado, o corredor terminou, desembocando em um pequeno salão iluminado com tochas de coloração avermelhada em pontos estratégicos, distantes de onde eles estavam e de onde estava o anfitrião.

Ao redor de Sarosh, à esquerda e direita, haviam quatro tronos de junco. Eram belos e extremamente simples. Estavam perfilados, mas vazios. Diante deles havia um corpo de água e, dentro dele, nadavam criaturas que Sarosh jamais havia visto. Eram como grandes lagartos com pele dura e espessa, bocas imensas e dentes afiados. Estavam, porém, em repouso. Eram quatro ou cinco.

Atrás do corpo de água, na mesma altura dos tronos de junco se erguia um trono de obsidiana, similar ao Trono Negro de Caim, embora menor. Nele se sentava um homem. Diante de toda a simplicidade do local ele era magnífico. A pele era extremamente escura. Os olhos eram castanho avermelhados, como o poente. Era careca, sem tatuagens, com uma expressão austera e terrível. O corpo era coberto de cicatrizes nos braços, peitos e pernas. Estava nu. Não era particularmente forte, mas atlético. Sarosh reconheceu, imediatamente, alguém de seu nível de poder. Sua aura, contudo, emanava uma autoridade diversa, nascida da força e dos feitos. Era uma nobreza não de nascimento, mas uma nobreza que tinha sido agarrada com as mãos nuas.

Ele, contudo, sorriu diante dos visitantes. Sorria para Sarosh, não para Khetamon, a quem dirigiu um olhar indiferente.

- Eu lhe dou as boas vindas à minha casa, Daharius Sarosh, filho de Laza Omri Baras, Rei da Escuridão. És meu hóspede, e nada de mal acometerá a ti enquanto o for. Eu o ouço com atenção e dedicação, na esperança de encontrar uma solução para o impasse entre nossas famílias. Sinto muito que o resto da Corte não esteja presente, mas os afazeres de nossas famílias se multiplicam. Sou Nakthorheb, Primeiro Filho da Tempestade, Hierofante de Sutekh na sua forma de Apophis.



Nakthorheb, Hierofante de Sutekh.
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Re: Interlúdio - Sarosh

em Seg Ago 06, 2018 11:04 pm
Para Amir, nada disse. Tocou-lhe o rosto e sorriu gentilmente após as suas bem-vindas palavras. Ele havia entendido.

Quando as sombras os guiaram rumo a seu destino, o místico não deixou de observar a maestria e diversidade do dom empregado por Khetamon. O filho de Osíris demonstrava uma capacidade que o agradava. Os mais jovens a carregar o sangue de Laza eram promissores. Deveriam ser e o próprio Daharius garantiria que o fossem.

A chegada às terras da Corte de Fogo denotaram a diversidade daquele embate ideológico. Simplicidade, areia e mofo. Caminhou, em silêncio, conforme foi guiado pelo guardião até a presença de seu anfitrião.

Desta vez, foi o Guerreiro a observar aquele que o falava. Seu porte, cicatrizes e sobretudo o olhar lhe diziam que aquele cainita conhecia a guerra e a morte de perto. Eram, para além de sucessores dos primeiros dos seus, semelhantes. O ouviu, em silêncio e de pé, após observar com curiosidade as criaturas que repousavam naquele espelho d'água. Quando encerrou, tomou a palavra.

Sua grave e bela voz ecoou no tom ideal. Não era alto além do necessário, tão pouco era baixo a ponto de não ser firme. Alcançava os ouvidos do filho da Tempestade na medida correta.


- Sou grato por vossa recepção, Nakthorheb. Me agrada parlamentar com o Primeiro dos Filhos de Sutekh e embora minha ignorância não me permita reconhecer os títulos que citastes, creio que sejam de relevância para os teus.

Deu um passo à frente e seus olhos pareceram sobrenaturalmente mais escuros.


- É preciso que eu deixe claro que aqui ocupo a posição de porta-voz da Casa de Laza quanto as tensões crescentes entre a assim chamada Corte de Fogo e o meu irmão, Osíris. É imprescindível que a clareza da minha posição lhe alcance, não estou aqui para falar unicamente por meu irmão ou suas crenças particulares. Aqui estou para encerrar ou acirrar as animosidades entre as casas de Laza e Sutekh, com todas as consequências que virão.

- Dito isto...


Destinou um pesado olhar sobre Khetamon.

- Retire-se, sobrinho. Neste debate não haverá espaço para a sua voz e o conhecimento sobre o determinado chegará aos vossos ouvidos no tempo adequado.


Aguarda que o filho de Osíris os deixe e, após isto, continua.


- Conheci as terras de Osíris. Ouvi os seus anseios, suas crenças e a sua visão sobre o governo das terras e dos mortais. Ouvi, também, que um emissário dele foi sumariamente executado pelos seus.

Novamente os olhos escurecem-se para além da normalidade e, de forma sutil mas sensível, o local torna-se mais escuro.

- Tal violência para com os nossos - mesmo os servos - é completamente inaceitável. A casa de Laza não tolerará um novo desrespeito.


Seu semblante era imutável, impassível. Continuou.


- Contudo, antes de emitir quaisquer juízos de valor, estou aqui para ouví-lo Nakthorheb. Supondo que falas pela Corte de Fogo como o Primeiro dos Filhos da Tempestade. Gostaria de ouvir as razões dos teus para que haja tal animosidade, discordância e tensões para com um filho do Rei da Escuridão.

- Tenho o propósito claro de encerrar esta disputa e espero que a resolução se dê em nosso diálogo.

Estava de pé e imóvel, apenas com o saiote negro a lhe cobrir a parte de baixo do corpo. Era alto, longilíneo e definido. Era como um grande predador em repouso. Passivo, mas notavelmente perigoso. Seu semblante, apesar da escuridão a lhe percorrer os olhos, era calmo. Ouviria com atenção e dedicação as palavras que se seguiriam.
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Re: Interlúdio - Sarosh

em Ter Ago 07, 2018 1:53 pm
O Filho de Sutekh pouco se movia em seu assento enquanto Sarosh falava. Se mostrava interessado, fixando atentamente a face de Daharius, como se as palavras que saiam de sua boca pudessem ser vistas. Sob o pedido do Arauto, Khetamon deixou o salão, não sem antes expressar alguma preocupação. Nakhtorheb o acompanhou com o olhar, antes de voltar os olhos para Sarosh, ouvi-lo e respondê-lo.

- Tenho estima pelo teu Criador, Daharius. Nos encontramos milênios atrás, quando tu não caminhava entre os mortos. Foi breve, mas me recordarei para sempre daquele momento. Teu Senhor é uma força a ser reconhecida. No entanto, não pode dar ordens fora da casa dele.

Se levantou. Se Sarosh era um felino, Nakhtorheb era um urso. Alto, impressionante. Os membros eram longos e fortes, o tórax largo. Tinha algo de estranhamente cruel em Nakhtorheb. Quase inumano.

- Curioso. Vejo pouco dele em ti.

Sorriu. Colocou as mãos para trás, de maneira muito semelhante ao que fazia o próprio Sarosh.

- Entenda. Os assuntos de Khemet são, ou eram, um assunto de família. Osíris é incapaz de reinar e de manter a integridade do Império nos anos que virão, quando a grande Diáspora atingir Nippur. Teu Senhor escolheu mal, Daharius Sarosh, pois o espírito de Osíris é fraco e complacente. Na ausência de competência de Osíris, Sutekh governa. Ou deveria ter sido desta forma, não fosse a intromissão de teu Senhor em fazer de Osíris um imortal, intrometendo-se em um terra que não compreende, com a qual não tem vínculos e na qual não reside. Teu irmão, Osíris, é um mero representante de teu Senhor. Isto Sutekh não aceitará sob nenhuma hipótese. Pois foi ele o primeiro de seus irmãos a deixar a casca vazia da Segunda Cidade, retornado à sua terra ancestral, Khemet. De suas mãos nasceu um império. Um império que teu Pai tenta usurpar, pois é incapaz de construir. Mas não é a primeira vez, não é mesmo?

Começou a caminhar, lentamente, em direção ao centro do salão, aproximando-se de Sarosh.

- A razão pela qual tiramos a vida do emissário é muito simples. Ele ousou profanar os Mistérios de Sutekh, rindo de nossas crenças, cuspindo sobre nossos símbolos. Enviamos a cabeça dele a Osíris, e mil outras enviaremos cada vez que nossa Fé for desrespeitada. Teu irmão não pediu desculpas pela arrogância de seu emissário. É tão simples como parece.

Parou, a meia distância de Sarosh. Não parecia hostil.

- Eu também desejo que este imbróglio se resolva com as nossas palavras. Sim, falo pela Corte de Fogo, cujos membros estão ausentes somente em matéria, mas que escutam os resultados desta reunião. E em nome da Corte de Fogo eu proponho uma simples solução. Que seu Senhor abdique, de boa vontade, de suas pretensões sobre Khemet, personificadas na forma de Osíris. Este último é bem vindo a permanecer, mas submetendo-se à autoridade políticas, mas não religiosa, de Sutekh.

Observava Sarosh igualmente sério. A proposta que fazia não lhe parecia absurda, ao contrário, parecia a consequência natural e lógica do curso dos eventos. Esperou a resposta.
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Re: Interlúdio - Sarosh

em Ter Ago 07, 2018 8:40 pm
Daharius ouviu e viu o cainita diante de si em silêncio e imóvel. Apenas os globos sobrenaturalmente escuros que formavam suas íris o acompanhavam, passo a passo. Quando este encerrou, foi a vez do Filho de Laza caminhar pelo local, observando sua estrutura e destinando a curiosidade de seu olhar para as criaturas em repouso na água.

Sua voz mantinha-se imutável, no exato tom necessário. Nada acima, absolutamente nada abaixo de altiva, firme e, ainda assim, agradável.


- Curiosa escolha de palavras, Nakthorheb. Lembrou-me à mim mesmo, na inocência de minhas primeiras noites.

- Entristece-me não poder dialogar com o próprio Sutekh. Seria um debate mais aprazível e...

Sorriu levemente.

- Igualitário.

- Aparentemente tua ausência em Nippur durante os séculos, com todo o aprendizado do convívio de todas as noites com os antigos em sua diversidade e grandeza, o privaram de uma educação apropriada. Relevarei tuas falhas mais leves em virtude disso.

-  Embora tenhas encontrado o Rei da Escuridão, nada apreendeu da experiência. Isto me entristece. Não nos cabe, os mais velhos de nós, mergulharmos em tamanha tolice. Vejas, caro primo, onde houver uma sombra e em qualquer canto por onde a escuridão se faça presente, haverá uma ordem de Laza. Tuas assim aclamadas terras não são exceção. Percebida esta falha de avaliação, das muitas que cometeu, prossigamos.

- Quanto à Osíris e a suposta falha na escolha de meu Pai, não poderias estar mais equivocado. Primeiro porque se coloca em uma posição capaz de avaliar as intenções e desejos de meu Pai, tarefa que lhe advirto ser difícil e que para a qual claramente não estás capacitado. Segundo porque avalias Osíris sob a ótica de tua desavença e tua falha - até então - de assegurar qualquer domínio dos seus nestas terras. A disputa obscurece a tua avaliação.

- Khemet floresce. O Reino de meu irmão é grandioso, belo e promissor. A conduta e a forma de reinar sobre os mortais gerida por Osíris é bem-sucedida até o momento, com o único impecilho da assim chamada Corte de Fogo. Logo, são os teus enclausurados nestas construções deploráveis com cheiro absorto de mofo que parecem não ter capacidade de gerir os próprios domínios. Uma aliança seria o caminho sábio para a construção do maior dos impérios neste local, ao invés disso, os teus agem como crianças da noite sedentos e descontrolados por sangue.


Levantou um dos dedos.

- Não me tomes como um tolo. O poder que emana deste local é palpável. Há uma energia a percorrer o ambiente, a areia e o próprio ar que mortais respiram. Desconheço vossa fé, mas é notório que se tem relação com a terra, com o local, com o que quer que aqui esteja. É claro que não deixarão este oásis que amana poder ancestral para trás.

- Ainda que tenhas faltado com o devido respeito quanto à mim, em relação a Osíris - meu irmão - e de forma tão leviana com o próprio Laza, eu respeito a convicção de homens que lutam pelo que acreditam. Vossa fé não precisa ser esmagada, embora caminhe apressadamente para isso se continuar a ser levianamente intransigente.


Colocou os braços para trás, como de costume e como curiosamente seu interlocutor havia feito.

- O Império que se desenha em Khemet tem em sua fundação a orientação de Osíris e da casa Narmer. Não há nenhum resquício da gestão dos seus no processo. Aparentemente os usurpadores do que já foi construído caminham entre os seus, não entre os meus. Avalias mal, uma vez mais. A não ser que fosse desejo de Sutekh ter trazido Osíris para a sua casa e vê-lo sob um sangue mais adequado ao seu porte real o afete tanto.

- Interessante ter notado, sob a sua particular ótica, uma distinção entre meu Pai e eu. Sabes, Nakthorheb, os Pais escolhem os filhos pautados em seus próprios e exclusivos objetivos e, tendo eu vivido entre a maioria dos antigos e de suas crias, posso lhe garantir que a maioria deles o fez buscando características que lhes faltavam ou que jamais poderiam alcançar. Buscavam o diferente e decepcionavam-se profundamente se encontrassem apenas o comum, o trivial.

- Assim, a maioria de nós é único e a grandiosidade exige personalidade. Talvez por isso teu nome tenha sido esquecido nos debates de Nippur, por meu Pai e pelo teu próprio, em todos os momentos mais cruciais de tantos séculos passados. Novamente, relevarei tamanha falha de caráter em virtude de teu isolamento. Aprendestes pouco no citado milênio que disses possuir. Tomarei as tuas falhas como uma lição para que os meus não as cometam.


Alinhou o corpo diante do Filho da Tempestade, à meia distância, encaravam-se de frente. Apesar de não possuir uma postura ameaçadora, Sarosh era o assim chamado Avatar da Guerra, o conflito e a batalha residiam em seu sangue e brotavam de seus escuros olhos.

- Quanto ao emissário, embora desconheça vossa fé que é uma questão central em nossa discussão e fazes questão de não elucidá-la, não lhe cabe o direito sobre a vida ou não-vida dos nossos. Estas cabem apenas a nós.

- Por isso, creio não ter sido claro. Portanto, assim serei.


O ambiente, como um todo, escureceu abruptamente. Retornando sua parca luz conforme as palavras se seguiam.

- Se qualquer um dos teus tocar nos que estão sob a nossa casa - dos que portam nosso sangue e se estendendo aos que nos servem - a próxima cabeça que rolará por estas areias será a tua.

Houve uma pausa, um silêncio sepulcral a preencher aquele ambiente, somente quebrado pelas próximas palavras de Sarosh.

- Obviamente tua proposta é indecente e irreal.

- Realmente prefiro acreditar que és um estrategista, e não um tolo, ao tentar usar esta postura e tais palavras de forma a levar-me à alguma ação, um pretexto qualquer para que tomes as rédeas do que acha ser possível realizar esta noite. Advirto-lhe, não é. Perecerás se tentares e não será a tua morte final um pilar para qualquer realização.

- O único império erguido em Khemet está sob o domínio de Osíris. Se torna grandioso e único. Os teus, além da fé e de parcas terras, nada mais tem. Procures ser realista e coerente.

-  Ainda assim, garanti que relevaria vossas falhas primárias em prol do andamento deste diálogo. Assim sendo, antes que possa propor uma solução viável para ambas as famílias - pois é este o meu intento - me proponho a ouvir sobre a sua fé, Nakthorheb, com respeito e dedicação, para compreender os anseios da Corte de Fogo na ausência do próprio Sutekh. Somente após isto, proporei um acordo.

- Abaixe vossa agressiva guarda dialética e prossigamos com o diálogo, a dispor do dito, talvez haja um ponto de possível acordo entre os Filhos de Sutekh e a Casa de Laza.


Daharius mantinha-se de pé e a poucos passos de seu interlocutor. Seus olhos escuros e profundos fitavam o cainita diante de si. Emanava autoridade, ainda que estivesse longe daquilo que conhece como lar. Emanava uma firmeza talhada na guerra e nos debates acirrados no antigo e já destruído salão do Trono Negro. Sarosh era um cainita esculpido para o domínio e para a guerra, para a liderança e para a tomada de decisões.

Analisava o Filho de Sutekh. Seu corpo imortal, regido pelo sangue ancestral em suas veias, permanecia imóvel mas pronto para quaisquer ações. Era um predador. Estava sempre pronto.
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Re: Interlúdio - Sarosh

em Qua Ago 08, 2018 5:08 am
Nakthorheb tornou a sentar-se em seu assento de pedra. Não parecia nervoso ou contrariado. Tinha escutado as palavras de Sarosh com atenção e cautela, manifestando-se somente após o o Filho de Laza. Abriu a boca para responder, mas Sarosh notou que algo o interrompeu. Parecia ouvir palavras soltas no ar. O Arauto lembrou-se das palavras de seu anfitrião, quando havia dito que a Corte de Fogo estava ali, presente. Só então, falou. Estava mais sério do que antes.

- A Corte de Fogo também se entristece que não possas dialogar com Sutekh. Dada sua infinita paciência ele seria um ouvinte mais adequado a ti. A Corte de Fogo não responderá teu argumento sobre o poder de teu Ancião que, segundo você, está em todos os lugares, pois tal demonstração de prepotência não é digna de nossa atenção. A Corte tampouco responderá às tuas percepções sobre os nossos sagrados Templos e sobre o nosso estilo de vida. E eu, pessoalmente, não lhe devo satisfações sobre a minha escolha de não pisar em NIppur. Ignoro tua ameaça à minha existência. Se achas que aquela cidade te deu alguma coisa é em razão do mundo exterior ser totalmente desconhecido a ti. Nos apegamos às coisas que conhecemos, afinal.

Sorriu levemente.

- Aliás, se meu nome foi esquecido nos debates de Nippur, devo dizer que estou imensamente satisfeito.

O Filho de Sutekh apoiou as duas mãos nos braços da poltrona. Encarava Sarosh com um olhar de alguém que sentia uma profunda pena.

- Não faltei ao respeito para contigo e tampouco para com o teu irmão. Apenas fiz uma leitura politica de suas capacidades. Se Osiris permanecer no trono veremos, num futuro próximo, como Khemet cairá perante forças externas. Osiris dedica toda a sua energia a controlar a sua Besta interior e exige que todos os outros sigam o mesmo caminho. Seu desinteresse para com Khemet é notável. Se o Império avança é muito mais pela obra dos mortais do que dele. Os Filhos de Sutekh não são sanguinolentos e excessivos. Apenas não mascaramos a nossa natureza por detrás de uma frágil cortina de autocontrole que, quando for aberta, causará muito mais danos do que o que nós causamos com a nossa alimentação. Nenhuma Besta é controlada para sempre, Daharius Sarosh.

Recostou-se no trono.

- A Corte de Fogo não falará de nossa Fé para contigo, pois isto não é relevante. E, certamente, não falaremos de nossa Fé após vossas ofensas. Nós não necessitamos de tuas garantias, conselhos ou recomendações. A única coisa que te diremos é que este reino predata Osiris, e até mesmo Sutekh. Osiris usurpou o comando de seu irmão durante a sua ausência, de maneira traiçoeira, típica dos "cainitas" de Nippur. Para isso, contou com o auxílio de teu Senhor. Osiris não foi sagrado Rei, não foi aceito pelo povo de Khemet, que sempre preferiu um guerreiro a um burocrata. Impôs-se como Faraó eterno somente para viver em profundo arrependimento, incapaz de controlar a si mesmo e controlar um Império. Impôs uma Unificação não por escolha daqueles que aqui habitam, mas por desejo do teu Senhor, sempre insatisfeito dianate daquilo que tem em mãos. E, por fim, sem os atributos de um Rei, preferiu concentrar-se em suas diatribes mentais, meditações infinitas e sermões no deserto. Diferente de Sutekh que, destruindo e devorando o Coração Negro de Apophis tornou-se o soberano de Khemet, livrando-a da Escuridão verdadeira. Mesmo tu, Sarosh, deverá reconhecer que não são características de um Monarca.

Sorriu novamente. Afastou os joelhos e inclinou-se na direção do Arauto.

- Se Khemet prospera é em razão do nosso consentimento.

Levantou-se.

- No entanto, somos razoáveis. O teu engano em dizer que nada temos é apenas mais um e, portanto, o ignoraremos. No lugar de uma resposta imediata a Corte de Fogo concederá três dias para que Osiris abdique de suas pretensões e se encaminhe para o Du'at, em um exílio que deverá durar pela eternidade. Khetamon deverá deixar Khemet, assim como quaisquer descendentes de tua família que aqui resida. Isso inclui a ti. Esta é a vontade da Corte de Fogo, que personifica a vontade de Sutekh Apóphis e Sutekh Jormungandr. Tal medida, se aceita, impedirá que as consequências da guerra pesem sobre Khemet. Somente após isso poderemos discutir uma colaboração entre nossas Famílias.

- Diante de tuas palavras e convicções, nenhum diálogo ou acordo sera possível. Sejamos realistas e coerentes.

Sorriu.

- Três dias. Após a expiração de tal prazo e em descumprimento das ordens da Corte de Fogo, a propria Khemet se levantará contra ti e os teus. Perceba que não disse Nakhtorheb, Sutekh ou a Corte de Fogo. Eu disse Khemet. E Khemet, quando se levanta, é implacável.
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Re: Interlúdio - Sarosh

em Qua Ago 08, 2018 10:04 am
Manteve-se de pé, imóvel, durante o discurso do Filho da Tempestade. Ao final deste, sorriu levemente.

- Minha curiosidade me impulsionou a vir até os seus domínios, Nakthorheb. Curiosidade acerca de vossa postura.

- Perguntava-me se o teu interesse era o mesmo que o meu e, de fato, é.

- Se houvesse uma saída diplomática para a questão, eu não estaria em Khemet. Outro estaria. A Guerra é meu domínio. Da mesma forma, recebeste-me somente para avaliar o vosso rival enquanto o visitei com aspirações semelhantes.

- A nossa diferença reside no fato de que não estás disposto a um acordo, a ceder em prol deste. Eu, por outro lado, pretendi estender o diálogo em respeito a Sutekh, com o qual convivi.


Os braços mantinham-se para trás, cruzados.

- Que fique registrado para os que nos ouvem que me propus a ouvir sobre a tua fé - razão central desta disputa - e que escolheu negar o diálogo. Não houveram ofensas a sua crença, pelo contrário, me predispus a conhecê-la. Avaliei tua postura e as palavras, de forma pragmática e direta sem qualquer engodo. É o que é, simples assim.

- Osíris não deixará a posição que ocupa, assim como a casa de Laza não deixará estas terras. Elas já estão profundamente marcadas pela nossa presença.


Sorriu

- A Corte de Fogo não confere Ordens aos filhos de Laza. Teus três dias, assim como palavras, são irrelevantes.

- Em benevolência concedida e para não desperdiçar o tempo que destinei para vir até este local, trago o acordo que proponho.

- Osíris e a casa Narmer reinarão como já o fazem, continuarão a erguer Khemet a níveis cada vez mais altos e impossíveis para que os seus o façam. De forma a reconhecer a vossa presença e respeitar a sua fé, os teus locais sagrados continuarão e lhes pertencer e dentro deles - somente dentro deles - a tua caçada aos mortais acontecerá conforme a sua vontade. Em todo o restante de Khemet, a autoridade política de Osíris é inabalável e suas leis serão mantidas.


- Avaliem.

Dirigia-se aos que ouviam, pois já considerava seu interlocutor incapaz de decidir.

- Aceitem e haverá trégua e uma Khemet próspera. Neguem e a Guerra virá, consumirá os teus e tudo que representam.

O Arauto do abismo mantinha-se impassivo. Sua voz ecoou no mesmo tom do início do diálogo até o presente momento, sem exaltar-se. Havia escuridão em seus olhos e, em seu íntimo, um desejo pelo que viria a seguir. Uma palavra de sua visão ao caminhar com Ilyas lhe percorria a mente.

Jyhad
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Re: Interlúdio - Sarosh

em Qua Ago 08, 2018 11:08 am
Nakhtorheb continuava sentado, em seu trono, a fitar Sarosh. Não exibia, ainda, sinais de exasperação. Sarosh sentia claramente, após ter-se dirigido aos outros presentes mas não visíveis, que outros cainitas o observavam com atenção.

- Você é um não crente, razão pela qual não falaremos sobre a nossa Fé. E, ao contrário do que você disse, eu estou disposto a um acordo. Nada tenho contra vossa Família. Os problemas do Ministério de Sutekh é apenas com vosso irmão e sua progênie.

Foi interrompido por uma segunda voz. Era calma, quase etérea, mas claramente infantil e feminina. Não parecia vir, porém, de lugar nenhum e de todos os lugares.

- Me chamo Neferu, Daharius Sarosh. Falo em nome e Autoridade de Sutekh Ningishzida, que escuta as tuas palavras com atenção e me orienta de responder.

Fez uma pausa, como se escutasse algo ou alguém antes de falar.

- A Casa da Tempestade negociaria se o afastamento de Osíris e Khetamon fossem aceitos. Na impossibilidade de chegar a um acordo sobre isso, apreciamos o teu apreço por Sutekh, mas rejeitamos a tua oferta. Que venha a Guerra, então. Ainda assim, em respeito à nossa palavra, a Casa da Tempestade agirá dentro de três noites, e antes do sol raiar no quinto dia, os teus estarão fora de Khemet. Até lá, prepare-se ou ataque como desejar. Proceda como desejar. Tuas ações serão irrelevantes. Khemet não se submete a estrangeiros.

Nakhtorheb, em seu trono, sorria. Parecia satisfeito. Por um breve instante, Sarosh se reconheceu no cainita diante dele. Eram radicalmente diferentes, mas fundamentalmente iguais. Eram Avatares da Guerra.
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Re: Interlúdio - Sarosh

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