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Territórios onde a Águia Dourada não repousa

em Sab Nov 25, 2017 6:52 pm
   

Apesar da expansão romana, há locais nos quais o Império ainda não chegou. Seja por resistência dos povos e tribos locais ou por serem inóspitos e nada estratégicos ao domínio do estandarte romano, alguns territórios se mantém livres, com seus traços culturais, religiosos e costumes intocados.

A maioria desses territórios fica localizado na Germânia ou próximos a ela. Em tempos nos quais o Egito se tornou parte do Império e a Panônia e a Dácia foram também incorporadas, somente os povos mais acima do mapa ainda se consideram "livres". É notícia em todo o império que os povos Bárbaros - como são chamados todos aqueles que não pertencem à Roma e suas leis - têm realizado incursões nas províncias da Dácia e na região dos Alanos.

Todas as cenas que acontecerem fora do Império Romano, serão narradas aqui.
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Re: Territórios onde a Águia Dourada não repousa

em Dom Nov 26, 2017 10:54 am




*Passos pesados e lentos. As botas de pele de carneiro selvagem afundam na camada de neve que alcança os joelhos. As estepes aos pés da montanha, cobertas de gotas d'água que descongelam aos poucos, tornam a subida tão bela quanto rígida. São cerca de vinte homens - e uma mulher - a subir o Ai-Petri.

Com longas barbas comprimidas e esbranquiçadas pela fina camada de neve que as cobre e elmos com longos chifres retorcidos retirados dos touros das estepes e dos carneiros selvagens, os homens entoam cânticos em sua língua materna. Organizam-se em semi-círculo deixando ao centro uma mulher jovem com o corpo pintado em branco e coberto de peles de lobos. Seus olhos possuem marcações em vermelho. Ela é a única do grupo a permanecer em silêncio.

A subida é exaustiva e difícil, mas àqueles homens parecem dominá-la a cada passo. O cume estava próximo. Os ventos gélidos, quase cortantes, denunciavam o fim próximo da jornada. Haviam se passado duas semanas desde o último sacrifício, o inverno não retrocedeu e o povo das estepes geladas clamava pela interseção de seu Deus.

Os homens interromperam a subida ao avistar o ponto mais alto. Marcaram o chão ao redor da jovem mulher com sangue de carneiro e desenharam runas tão antigas quanto aquelas rochas. A mulher, em meio ao frio excruciante, deixou o manto de peles cair e revelar seu corpo nú e inteiramente coberto de tinta branca extraída da seiva das árvores e do pó das pedras mármore.


Um dos homens abriu, lentamente, dois cortes pequenos mas profundos nos pulsos do sacrifício. Ela deu dois passos à frente, com os braços abertos, o sangue verteu lentamente e passou a gotejar o solo coberto de neve. O vitae parecia evaporar ao tocar o gelo, deixando apenas marcas vermelhas diluídas na neve.

Ela sorria, sua vida seria dada por seu povo e para o seu Deus. A longa noite se iniciava.*
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Re: Territórios onde a Águia Dourada não repousa

em Dom Nov 26, 2017 1:37 pm
O odor do Vitae era forte o suficiente para insinuar-se através das rochas e alcançar as narinas do Cainita. Dázbov, sentado no chão frio e úmido, observava as estrelas distantes através das fissuras no teto. Seu corpo descansava, imóvel, em posição de lótus, enquanto sua mente vagava pelos presságios. Vento, folhas, nuvens. Tudo e O Todo lhe diziam alguma coisa.

Levantou-se. A pedra que tapava a caverna foi movida com algum esforço. Girou duas vezes, antes de estacar na parede. O odor do Sangue, agora, era onipresente e a Besta, dentro do Deus da Montanha, se agitou.

Olhou atentamente. Viu seus súditos, homens corajosos e mortíferos. Seu olhar, impávido, forçou os deles ao chão. Diante dele, a virgem, pálida e com os olhos revirados pela perda de Sangue, esperava.

-Venha, criança. Repouse, agora. - Murmurou Dázbov, a voz baixa mas que era facilmente audível a todos, mesmo com o vento incessante do cume do AI-Petri.

Avançou em direção da mulher. Antes de tomá-la, entretanto, baixou a vista para as manchas de Sangue no chão. Formavam um padrão. Dázbov achou ter visto uma Águia Imperial. Sorriu internamente.

Acariciou os cabelos escuros da virgem. Tomou-a em seus braços e sorveu-lhe o Sangue espesso e jovem. Depois, com sua força restaurada, abriu-lhe a caixa toráxica e, sem qualquer dificuldade, retirou o coração que pulsava lentamente. Santificou-o, ofertando-o aos Deuses da Tempestade. Entregou-o, posteriormente, aos homens, que deveriam consumi-lo. Depois, observando seus fiéis e intuindo que haviam notícias, esperou que eles falassem.


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Re: Territórios onde a Águia Dourada não repousa

em Dom Nov 26, 2017 1:56 pm
* Havia um misto de temor, adoração e júbilo naqueles homens e sobretudo na jovem mulher de cabelos negros - mesmo quando seu peito fora aberto e dele sua vida foi extraída , havia um sorriso discreto em seus lábios antes que o corpo caísse inerte ao chão.

As estrelas reduziram seu brilho por um instante e as sombras da montanha deslizaram ao passo do olhar do Deus de AI-Petri ser direcionado a seus adoradores. Um deles, um homem com uma longa barba, coberto por uma veste feita em peles de lobos e com um elmo com grandes chifres retorcidos se aproximou lentamente, com os olhos voltados para o chão. Após comer uma parte do coração, que ainda pulsava lenta e espaçadamente, o entregou aos demais que fizeram o mesmo.

O homem aproximou-se um pouco mais, como se medisse a distância segura entre ele e um grande predador. Sua voz era grave e não havia medo em suas palavras. Havia apenas respeito.*


- Com humildade e devoção subimos à montanha, derramamos sangue e veneramos as sombras e a noite. Com esperança e com o furor da guerra, pedimos a benção e a intervenção divina na batalha que se anuncia. Os Romanos, aos milhares, acampam em nossas fronteiras. O frio diminui e o dia se torna cada vez mais longo. O povo das estepes começa a temer o avanço da Águia.

* Os outros homens mantinham-se olhando para o solo rochoso coberto de neve e gelo, mas já era possível ver a camada branca diminuir e o cinza da pedra ganhar forma. Em algumas semanas, o frio deixaria de ser um aliado daquelas terras.

A lua, cheia e brilhante, derramou sua luz ao longe em um dos cantos rochosos da montanha. Por um breve instante, Dázbov pensou ter visto - e sentido o cheiro - de um homem nú, com pele tão branca quanto a sua, longa barba e cabelos igualmente alvos, a observar todo o ritual. Tão veloz quanto a visão, foi o seu desaparecimento junto ao vento gélido que soprou a seguir.*
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Re: Territórios onde a Águia Dourada não repousa

em Seg Nov 27, 2017 4:58 am
Dázbov, o Deus Branco da Montanha, fitou novamente as estrelas. Depois, girou o rosto lentamente, quase como um autômato, para o ponto onde havia sentido aquela estranha presença. Sabia que haviam outros como ele espalhados pelo mundo. Sabia seus nomes e o nome de suas famílias. Ainda assim, jamais os havia visto. Vivia em solidão extrema, circundado somente de seus seguidores. A presença de um igual ali, em seus domínios, enchia seu coração com um misto de desconfiança, temor e alegria mal disfarçada.

Recompôs-se e observou o homem diante de si. O vento diminuía de intensidade e Dázbov sentia a umidade do ar. Apertou os olhos, como um grande animal pronto para o bote definitivo e prosseguiu:

- Com humildade e devoção vocês subiram a montanha, buscando o vosso Deus e a Sua benevolência. Vos digo: nada temeis. Não somente vos abençoo e lhes dou força para repelir o invasor romano, como marcharei, em pessoa, ao vosso lado.

Dázbov começou a caminhar. Sabia o que deveria fazer para invocar naqueles homens a fé e a crença necessária para garantir seus próprios destinos.

Concentrou-se. Um truque simples, mas efetivo. Comunicou-se com com o seu interior, com a escuridão que há dentro de todos - mas que é muito mais potente entre os de seu Sangue - e evocou um breve *Jogo de Sombras*. As manchas de escuridão aderiram a partes específicas de seu corpo e rosto, dando-lhe uma aparência tigrada, como a de um felino. Os olhos se tornaram escuros e, através de uma sombra cuidadosamente posta sobre a boca, continuou com uma voz profunda e notadamente ancestral.

- Marcharei. O Deus descerá a montanha. O Sangue romano banhará e alimentará nosso solo.
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Re: Territórios onde a Águia Dourada não repousa

em Seg Nov 27, 2017 1:20 pm
*Os homens regozijaram-se com as palavras de seu Deus. Não demonstraram euforia ou emoção, afinal, deveriam ser dignos da força de Dázbov.

Os homens da estepes eram brutos, firmes como a rocha do AI-Petri, banhados no sangue e no calor da batalha desde que a neve cobriu aquelas terras pela primeira vez. Abriram espaço para a passagem de seu Deus, o Deus Branco da Montanha, e o seguiram durante a descida íngreme do monte gelado.

Ao chegar nas estepes, logo abaixo da montanha, Dázbov caminhou por entre as cabanas em madeira, revestidas de peles de diversos animais, e por entre seu povo. Ali, homens e mulheres – porque elas eram guerreiras tão ferozes quanto os homens – enfileiravam-se e se preparavam para o embate vindouro.

Banhavam-se em sangue de carneiro selvagem e búfalo das estepes, vestiam suas peles e usavam elmos com longos chifres curvados. Portavam machados, espadas e escudos. Pintavam suas faces com carvão extraído das montanhas, tornando-os negros como a noite, em alusão a seu Deus. Duzentos guerreiros, talvez mais.

A passagem de Dázbov os incitava, ouvia-se em toda a aldeia gritos de guerra e o nome da divindade sendo repetida várias vezes. Mais uma vez, abriram passagem para o Deus Branco e o seguiram.

Os sons dos tambores e das cornetas de chifres anunciavam que o sangue e a guerra se fariam presentes. A névoa espessa não permitia ver para além de muitos metros. Atrás e ao lado do Deus, estavam os homens prontos para matar e morrer.

Ao longe, para além da aldeia, o Lasombra – através de seus sentidos sobrehumanos – conseguia ouvir o chacoalhar das pesadas armaduras romanas. Muitos, incontáveis talvez.

Entre a névoa espessa e os vindouros soldados de Roma, Dázbov o viu uma vez mais. Corpo parcamente coberto por tecidos desgastados, cabelos e barba brancas, pele alva, quase azulada e uma face que pouco lembrava os humanos. Mesmo a distância, sua presença incomodava e despertava sentimentos adormecidos no Cainita.



Através da nevasca, era possível vê-lo olhando diretamente para Dázbov e, por um momento, o Lasombra jurou tê-lo visto balançando leve e lentamente a cabeça em sinal negativo.

A nevasca se intensifica e a visão se vai, uma vez mais. Apenas os sons dos tambores e gritos de guerra dos homens e mulheres das estepes e o marchar pesado e alto das tropas Romanas são ouvidos, separados pelo  vento branco que carrega gelo e dor.*
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Re: Territórios onde a Águia Dourada não repousa

em Seg Nov 27, 2017 2:47 pm
Diante de uma nova visão do visitante, Dázbov estaca em meio às planícies congeladas. Encara, por longos segundos, o ponto exato onde o estranho visitante havia se tornado visível. Seus pensamentos são confusos. Quem é aquele homem? É um aliado ou uma ameaça ao seu povo?

O meneio negativo da cabeça, por parte do homem, trazia alguma insegurança ao coração de Dázbov. No entanto, negar ao seu povo a possibilidade de fazer a guerra, de derramar o Sangue inimigo quando este invadia aquela terra ancestral parecia quase uma heresia. O Deus Branco da Montanha levantou a mão e seus fiéis interromperam a marcha. Dázbov então se dirigiu a Yulav, seu fiel mais antigo e um dos mais capazes guerreiros que aquela terra já havia hospedado.

- Tu marcharás não em direção aos romanos, mas ao Norte. Alcance as outras tribos esparsas da planície. Informe-lhes que o invasor está à nossa porta, que se não nos unirmos, pereceremos sob a garra da Águia. Informe-lhes que o Deus Branco de Ai-Petri demanda sua presença, ou toda esta terra verterá dor e fogo.

Fez um minutos de silêncio. Caminhou até um dos cavalos e de uma das cestas começou a retirar roupas. Vestiu-se não em razão do frio, mas pela formalidade da ocasião. Era uma toga simples, branca como a neve que os circundava. Apontou, após vestir-se, para um outro homem, jovem, possivelmente um pastor.



- Tu me trarás parte do teu rebanho. Os melhores dentre vós eu tornarei ainda melhores.

Alguns passos avante, na direção do inimigo. Girou-se e encarou seu povo.

- Aguardem-me aqui. Se o inimigo marchar, usem a terra a seu favor. Esta é vossa casa, ninguém a conhece melhor do que vocês. Usem a neve, as árvores e as colinas. Não permitam que o inimigo avance.

Concentrou-se. Sentiu, uma vez mais, a Escuridão dentro de si. Clamava para que todo o mundo fosse apagado, mergulhado de volta no Caos Primordial. De toda essa força, Dázbov utilizou somente uma parte, invocando o *Avatar das Trevas*. Enquanto observava seus fiéis, seu corpo branco e alvo lentamente se obscurecia, pingando na neve uma substância semelhante ao piche, mas infinitamente mais escura. O Deus Branco da Montanha se tornava Chernobog, o Escuro, o Vingativo, o Sanguinário. De fato, os homens percebiam a mudança na expressão e nos olhos de seu Deus. Como se, além dele, estive ali alguma outra coisa.

Antes de abandonar sua carcaça física, porém, o Deus tranquilizou seus fiéis:

- Eu irei, sozinho, até o inimigo - continuou, mesmo após as interjeições de angústia e medo - Mas retornarei, após observá-los.

Quando todo o seu corpo havia sumido e enquanto os homens e mulheres se encolhiam de terror e admiração pela sua Divindade, Dázbov/Chernobog lançou-se nas trevas da noite.
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Re: Territórios onde a Águia Dourada não repousa

em Seg Nov 27, 2017 5:40 pm
* Yulav encarou seu Deus por um breve instante. As tribos estavam dispersas, não havia ligação ou qualquer traço de liderança comum entre elas. Nunca houve.  Ainda mais grave, a maior parte delas não cultuava o Deus de Ai-Petri, tinham suas próprias crenças e seus próprios deuses. Como convencê-los?

O guerreiro das estepes não negaria o pedido de Dázbov, mesmo com dúvidas no olhar, acreditava que a divindade do gelo e da pedra, da noite e do sangue garantiria o triunfo dos povos livres. Montou em seu cavalo e trotou em direção ao norte, veloz como o vento frio que os açoitava.

Ficaram ali, atrás de seu líder cultuado, cerca de duzentos homens e mulheres com seus escudos elevados,  espadas e machados em punho, faces cobertas em negro carvão. Urravam e clamavam gritos de guerra.

Estavam inflamados com o calor da guerra e a sede de sangue, estavam prontos.

Prontamente, o mais jovem dos guerreiros selecionou dentre os seus os mais hábeis, violentos e ferozes lutadores enquanto o jovem pastor trazia também os melhores animais – bisões e lobos de transporte - e os colocar na linha de frente, onde esperariam o retorno de seu Deus, conforme ordenado.

As estrelas perderam seu brilho em súbito ao passo da transformação de Dázbov. Um misto de veneração e medo atingiu seus seguidores para logo em seguida preenchê-los com a certeza de que nada e ninguém poderia derrotá-los enquanto o Sangue, a Escuridão e a Montanha estivessem a seu lado.


O Deus Branco, agora obscurecido pelo mais profundo escuro que há na existência, partiu em direção ao inimigo. Seu vulto rasgou as planícies congeladas e a nevasca obscureceu com sua passagem, tornando o céu negro e o solo branco em uma só visão.

Quanto mais avançava, maior a nevasca se tornava. Os ventos gélidos eram poderosos o suficiente  para deter seus passos ou, ao menos, dificultá-los. Já ouvia claramente o chacoalhar das pesadas armaduras romanas quando, poucos passos a frente, a figura voltou a se fazer presente.

De perto, Dázbov notou o quão alto era aquele ser. Alcançava os dois metros e meio de altura. Sua pele, gélida e inteiramente coberta com entalhes de runas antigas, indecifráveis aos olhos do Lasombra, chamavam atenção.*


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*Manteve-se entre o povo das estepes geladas e os invasores romanos, como deveria ser. O inimigo não avançaria em suas terras, sob o seu vento e acima do seu solo nem mais um passo, pois este não era o seu desejo.

Aguardava, pacientemente, a aproximação do Vampiro de Ai-Petri, pois com ele deveria parlamentar. Ao vê-lo aproximar-se, usando de suas habilidades sombrias, o Demônio Ancestral  se fez presente e há poucos passos do chamado Deus da Montanha.

Os olhos, brancos como a neve, o encaravam diretamente. Quando sua voz ecoou, o próprio vento uivante daquelas terras parecia falar. Mais que isso, até mesmo o solo estalou e ecoou junto às suas palavras.*

- Detenha-se Dázbov, cria da montanha, da noite e das trevas.  Pois além  de onde pisas, tudo será engolido pelas águas e pelo gelo.

* Foi possível ver seus dedos se alongarem, veloz e assustadoramente, em direção ao solo coberto de neve e cravarem-se profundamente.*

- Detenha-se, pois o tempo nos faltará para o muito que precisa ser dito.

*Ouvia-se, ao longe e em direção aos romanos, o chão gélido estalar sucessivamente e os homens gritarem desesperadamente.
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Re: Territórios onde a Águia Dourada não repousa

em Ter Nov 28, 2017 6:59 am
Dázbov observava o visitante com respeito e curiosidade. Ao longe, o som dos gritos romanos eram uma sinfonia que cortava a noite. O Deus da Montanha analisou atentamente seu interlocutor. Era como ele. Mas havia neste Cainita uma aura de poder e sabedoria que Dázbov, mais jovem e inexperiente do que lhe dava prazer recordar, admirava ou mesmo invejava.

Manteve-se a uma distância segura. Não conhecia, a fundo, as ambições do estranho. Enquanto o vento soprava e a noite tornava-se cada vez mais profunda, Dázbov começava a preocupar-se. O estranho havia garantido uma vitória aos povos livres do norte, mas quanto tempo demoraria até que o Império deslocasse suas forças para garantir a anexação daquele território?

Sentia, no seu íntimo, que este seria o tema dos seus afazeres com o visitante.

Concentrou-se e deixou de ser Chernobog para se tornar, novamente, Dázbov. A escuridão que cobria seu corpo desvaneceu, deixando a pele branca do vampiro novamente à mostra. Respeitou a demonstração de poder do ouro Cainita e manteve-se calado, esperando que aquele estranho ser começasse a falar.
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Re: Territórios onde a Águia Dourada não repousa

em Ter Nov 28, 2017 9:48 am
*Sua consciência, em quase estado onisciente, vagava pelas estepes geladas nas quais os invasores ousaram adentrar. Como um pássaro a sobrevoar o acampamento romano, sua visão pairava sobre eles e os via afundar e serem engolidos entre os blocos revoltosos de gelo que se erguiam ferozmente do chão. Gritos, sangue, dor. A recompensa para os homens que adentram sem permissão nas terras sagradas do Demônio do Leste.

Girou, lentamente, a cabeça em direção ao Cainita da Montanha, aquele que os povos deste local chamam de Deus Branco. Sua voz ressoava junto ao vento, sua fala era lenta, buscar entre as palavras humanas o significado do que pretendia transmitir parecia difícil para ele. Talvez tivesse passado tempo demais sem proferir uma só sílaba daquela linguagem mortal.*


- Tu és a Montanha, Dázbov. Eu sou a terra, o vento e os céus no qual a tua montanha repousa.

* Os alongados dedos deixam o solo gélido e retornam ao estado original, ao fundo o som das lamúrias e gritos dos soldados romanos diminuíam*

- Assisti, passivo, o nascer e perecer de alguns Deuses da Montanha. Me recordo do teu criador e do criador antes dele. Todos nasceram e pereceram sobre este solo e abaixo deste céu escuro. Todos se foram em Kupala sob o meu olhar. E assim deve ser.

* O corpo, esbranquiçado e coberto de runas precisamente entalhadas se mantinha imóvel como se fosse parte daquele solo. A face, com aqueles olhos inteiramente brancos e sem pupila, encarava Dázbov de forma inexpressiva.*

- A Águia Dourada ameaça minhas terras, é chegada a hora de deixar a passividade e reunir os Deuses deste solo.

* Um passo à frente em direção ao cainita da montanha. Sua aproximação é ameaçadora por natureza, afinal é um predador maior se aproximando de um predador mais jovem.*

- A terra cobra o seu preço em sangue e guerra, Dázbov. Não se engane, a terra prevalecerá. Não os homens.

* Ergue uma das mãos em direção ao povo das estepes geladas, ao longe e protegidos pela nevasca*

- Os homens passam, sempre passam. A terra e o que ela nos ensina permanece.

- Os homens que seguem a Águia são organizados por habitantes da noite, como nós. Esta guerra não será deixada nas mãos dos homens, pois a terra não deve ser conquistada pela Águia. O longo inverno tende a acabar em poucas noites e o medo das finas camadas de gelo plantado no coração dos Romanos nesta noite, terá fim.

* Encarou o Deus da Montanha uma vez mais e, com sua voz sussurrante guiada pelo vento congelante, sentenciou*

- Será Dázbov, o Deus Branco da Montanha, aquele a reunir os que caminham sobre estas terras para que destrocem o estandarte de Roma que ousar caminhar sobre Kupala. Pois assim quis a terra quando permitiu que subisse a montanha e assumisse o manto do Deus Branco.

* Olhou o cainita como se perscrutasse sua alma*

- Pois assim, eu decreto.
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Re: Territórios onde a Águia Dourada não repousa

em Qua Nov 29, 2017 10:25 am
Enquanto os gritos dos romanos eram sufocados pelas águas gélidas do norte, Dázbov ouvia atentamente as palavras do Deus diante de si. Ouvia-as tão atentamente que era capaz, sobretudo, de entender o que não estava sendo dito, ou de captar o que era explícito somente nas entrelinhas. Sabia exatamente do que se tratava aquela relação, desigual desde o início. Não expressou, no entanto, suas percepções, mesmo se fosse inútil escondê-las, dado que o visitante parecia perscrutar sua alma.

Caminhou lentamente, observando as árvores e o céu escuro, enquanto o estranho falava. Não lhe faltava com o respeito, mas sabia exatamente cada palavra que sairia daquela boca. Quando o autointitulado Senhor daquelas terras terminou seu discurso, Dázbov estava sereno como Ai-Petri.

- Reconheço a Sua autoridade sobre esta terra. Reconheço que o inimigo esteja nas nossas fronteiras. Se os Deuses desta terra devem se unir para escorraçar o inimigo, para isso me esforçarei. Não em razão do Vosso decreto, mas em razão das minhas obrigações com o meu povo e com este lugar.

Não tensionava enfrentar o Demônio. Não tensionava desrespeitá-lo. Mas Dázbov era um Deus, um Cainita e, portanto, Senhor de si mesmo. A ideia de realizar algo ou de se forçado a realizar por causa de um decreto de alguém externo a si próprio era inconcebível. Olhou nos olhos brancos do estranho, esperando uma aprovação ou punição da sua insolência.
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Re: Territórios onde a Águia Dourada não repousa

em Qua Nov 29, 2017 2:05 pm
*Imóvel, ouviu as palavras do Cainita da Montanha. Após sua resposta, com a face gélida e os globos oculares em profundo branco, começou a caminhar em sua direção.

Uma brisa os transpassou naquele instante e Dázbov pôde, como se vivo fosse, sentir frio novamente. Sua voz ecoou uma vez mais*


- Orgulho...

* Aproximou-se, mais e mais. As palavras saíam devagar de sua face inexpressiva, era notoriamente difícil usar as palavras para aquele ser.*

- Empáfia...autoafirmação...

* Há um passos do Cainita de Ai-Petri, continuou*

- O Deus da Montanha ainda é, afinal...

* Mais um passo e o encarava dos olhos, de cima em virte de sua altura descomunal. A esta distância, Dázbov poderia notar que as runas em sua pele pareciam símbolos antigos que também eram encontrados nas cavernas do Ai-Petri. Alguns lembravam o sol, outros, as águas e outros ainda desenhavam o solo e tudo que nele caminha.

Poucos centímetros separado do corpo do Deus da Montanha, ele parecia cada vez mais predatório.*


- Humano.

* Caminhou passando por Dázbov, enquanto falava*

- Tua juventude possui uma função na guerra a frente. Lidarás com homens e vampiros também jovens e, por isso, saberás como liderá-los como eu jamais poderia fazê-lo.

- Ao norte, Deus da Montanha, busque as terras de Damek e e então reúna os que caminham sobre kupala. Antes, encerre as lamúrias dos sobreviventes romanos e banhe o teu povo no sangue deles, a vitória deve ser das estepes e não somente do gelo.


* Caminhava lentamente, o solo gélido parecia prender-se e desprender-se de seu corpo*


- Tens o cheiro dele. Do Criador do teu Criador. Pergunto-me se o sangue ou a terra prevalecerá quando o momento chegar. Pois ele, junto aos demais, criou a Águia.

* Em um sopro, seu corpo se desfez em vento e neve. A nevasca diminuiu, de imediato. *

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Re: Territórios onde a Águia Dourada não repousa

em Qui Nov 30, 2017 11:24 am
O Deus da Montanha se manteve serio e taciturno, mesmo após o julgamento de caráter efetuado pelo Demônio do Leste. Pouco a pouco, as nuances do caráter daquele estranho visitante se tornavam mais e mais claras. Dázbov era uma identidade, uma máscara usada por aquele Cainita. É evidente que ele não era um Deus, embora estivesse muito acima dos mortais comuns. Seu interlocutor, por outro lado, estava um passo adiante dele. Em poder, em idade e, sobretudo, em uma ilusão imposta por si mesmo.

No entanto, uma afirmação do Demônio o colocava em uma situação de tensão. Sabia do envolvimento de seu Clã com o Império, sabia que os Lasombra estavam presentes desde a fundação daquele lugar. Assim havia lhe instruído seu Senhor, de maneira breve e invasiva. Imaginava que as demandas do Clã da Noite eventualmente se fariam presentes em sua vida, e tinha se preparado durante longos anos para este momento.

Naquele momento, no entanto, sua prioridade continuava sendo a mesma: devia lealdade àquele povo que o havia acolhido e que pereceria, sem possibilidade de sobrevivência, perante a máquina militar do Império. A menos que algo fosse feito.

Cumprimentou, com um leve aceno de cabeça, o Demônio do Leste. Observou-o por uma última volta antes de começar o caminho de volta para encontrar seu povo, que lideraria no massacre final contra as forças romanas.
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Re: Territórios onde a Águia Dourada não repousa

em Sab Dez 02, 2017 3:10 pm
* O estranho mas notadamente antigo vampiro se vai e com a ele a nevasca. Dázbov nota, com o passar dos ventos esbranquiçados e gélidos, que está muito próximo ao que fora o acampamento romano e que agora não passa de destroços, corpos e sangue. Ainda que haja ao menos uma centena deles vivos.

Embora as tendas vermelhas estejam engolidas e rasgadas por entre grandes blocos de gelo que se projetam do chão para cima, o cainita percebe o estandarte da Águia Dourada incólume. Cravada naquele solo, o símbolo da ave preso em uma haste dourada com tecidos vermelhos permaneceu de pé mesmo frente a fúria do gelo.

Os homens que estão vivos, alguns feridos, ajudam-se a escapar das fendas geladas e tentam ficar de pé sobre o solo que se tornou extremamente desnivelado, com picos e depressões incontáveis.

A atenção de Dázbov é puxada a seus pés. Ouviu um barulho seco logo abaixo de si e notou a face do legionário romano, com os olhos brancos e sem vida, preso abaixo da camada de gelo sob seus pés. Deu-se conta, logo, que haviam centenas como ele sendo arrastados pela água petrificante abaixo daquela camada de neve, sangue e gelo. Alguns ainda vivos, desesperados, socando inutilmente o gelo e padecendo de frio e da falta de ar.

Atrás de si, o cainita ouviu também o marchar de seu povo. Com a partida da Nevasca, os guerreiros da estepes avançaram e já enxergavam seu Deus e líder à frente. Estavam prontos para a carnificina que viria a seguir - com certa ansiedade e prazer no ato - era possível notar. Os Romanos vivos, tentavam organizar-se, encontrar suas lâminas perdidas no terremoto de gelo que os acometeu e formar uma falange preparando-se para a batalha que se seguiria.

Os homens e mulheres selvagens das estepes, bufando e chocando machados contra escudos, aguardavam apenas o comando do Deus Branco da Montanha.*
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Re: Territórios onde a Águia Dourada não repousa

em Seg Dez 04, 2017 7:42 am
- A terra, através do poder dos Deuses, fez a sua parte. Moveu-se, impedindo que o inimigo nos atacasse. É a vossa fé que mantém esta terra livre a intacta. Mantenham-na, e o vosso futuro será glorioso.

A voz do Deus Branco da Montanha ecoava pela planície e preenchia os ouvidos de seus seguidores, pairando acima dos gemidos e lamúrias dos legionários romanos. Não esperou muito. Caminhou diante do seu povo, concentrando-se ligeiramente para ativar um *Jogo de Sombras*, a escuridão dançando sobre sua pele branca, formando padrões demoníacos e faces monstruosas. Mostrou-se diante dos romanos, aquele ato deveria alimentar a crença e o pavor que os legionários tinham das terras do norte, onde viviam os demônios e os fantasmas do gelo. Com o braço direito, deu a ordem final para que seus seguidores avançassem e destruíssem aquilo que restava, para que pilhassem o escasso tesouro daqueles legionários. O ataque deveria ser, contudo, rápido e invisível, aproveitando-se da árvores e do branco da neve para fazer parecer que os números eram maiores.

Deu ordem, também, para que nenhum sobrevivente fugisse.

O Deus Branco da Montanha estava satisfeito. Não obstante, faltava um elemento importante para a conclusão de seus planos iniciais. Pôs-se a observar a batalha, escrutinando o inimigo para buscar algum guerreiro que atraísse sua atenção. Que, dentro de si, tivesse as qualidades naturais que ele buscava. Que acumulasse habilidade marcial com uma ligeira fúria homicida. Que fosse cheio de moral, mas também capaz de tudo para atingir seus objetivos. Concentrou-se,  *abriu sua mente telepaticamente às impressões oriundas das mentes daqueles homens* e esperou que algum deles chamasse sua atenção.
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Re: Territórios onde a Águia Dourada não repousa

em Ter Dez 05, 2017 9:51 pm
* Naquele solo  coberto de neve e gelo, o branco deu lugar ao carmesim. O chão estava coberto do vermelho pulsante do vitae que jorrava a cada golpe dado com machado ou espada e corpos dilacerados que expeliam sangue e merda dos intestinos abertos daqueles legionários que ousaram invadir o solo sagrado das estepes aos pés do Ai-Petri.

Eram furiosos, os guerreiros das estepes. Balançavam seus largos machados contra seus inimigos e partiam ossos e carne facilmente. Suas espadas de ferro frio cravavam-se nos estômagos romanos por entre os destroços de suas armaduras e as vísceras saltavam de dentro de seus corpos, como se vivas fossem.

Os legionários, a maior força militar do mundo, pereciam velozmente frente à fúria dos guerreiros de gelo que brotavam por entre os blocos de solo congelado que se fez surgir e as árvores. A formação Romana há muito perdeu sua organização.

A visão daquele homem de pele inteiramente branca, coberto por sombras esvoaçantes que desenhavam imagens tenebrosas fazia o mais corajoso dos soldados de Roma gritar em pavor, deixar sua mão trêmula a ponto de derrubar a própria espada e fraquejar perante o inimigo que se aproximava. Não havia razão nos olhos daqueles soldados, apenas pavor e desespero.

Ao abrir sua mente, Dázbov sentiu-se inundado por sentimentos que há muito não vivenciava. Aqueles homens estavam imersos em angústia, dor, fraqueza e, acima de tudo mais, medo. Poucos esboçavam pensamentos dedicados à família ou à seus Deuses. No fim, o medo da morte era maior que qualquer crença ou sentimento mortal.

Eram todos cordeiros em um grande abate. Todos derrotados.

Exceto um.

Metros à sua frente, os sentimentos e pensamentos rasos de um homem atraiu a atenção do Deus da Montanha. O olhar fixou-se naquele legionário assim que sua mente foi invadida pelo cheiro de terra fresca e imagens de uma mulher e duas crianças. E, mesmo acima disso, Honra.

Antes que pudesse prescrutar ainda mais sua alma, Dázbov prendeu-se totalmente à ele ao observar, mais atento, o cenário a sua volta.

Aos pés do Legionário, jaziam onze guerreiros das estepes mortos com cortes limpos e precisos. O décimo segundo caia após a espada do Romano ser arrancada de seu peito aberto.

Era um homem alto, com o físico de um soldado, cabelos cortados ao estilo romano e pele corada. A armadura e a capa vermelha sobre o ombro denunciavam uma posição de comando. Sua espada, com o cabo branco como a neve na qual pisava, cortava o ar com precisão e decepava o braço do décimo terceiro "selvagem" que o encontrou em batalha.*



*Para Dázbov, contudo, não era a habilidade notória em combate daquele homem que prendia sua mente. Eram seus pensamentos.

Honra. Casa. Mulher e filhos. E, sobretudo, a ausência de medo.

Uma sucessão de sentimentos alheios à existência do vampiro mas que, de alguma forma, o faziam sentir-se inspirado a observar aquele homem. Uma flecha atingiu a perna esquerda do legionário enquanto um outro guerreiro das estepes aproximou-se erguendo o machado e no momento exato da morte certa daquele Romano, uma adaga cortou o ar e acertou a jugular do homem das estepes.

O Legionário levantou-se uma vez mais, arrancando a flecha de sua perna após acertar a adaga do pescoço de seu oponente. Estava cercado, todos os os outros caíram, mas ele lutaria. Lutaria até o fim e além se necessário fosse.

Ao seu redor, dezenas de "bárbaros" cobertos de peles de bisões e carneiros das estepes formavam um círculo e se aproximavam.*
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Re: Territórios onde a Águia Dourada não repousa

em Qui Dez 07, 2017 2:07 pm
Dázbov aproximou-se na mesma velocidade em que os homens fechavam o círculo ao redor do legionário. Sua mente poderosa invadiu a mente de Yulav, ordenando que seu servo desse uma ordem para que os homens parassem exatamente onde estavam e permanecessem em silêncio.

Finalizou a aproximação quebrando o círculo e pondo-se diante do legionário solitário. Os pés descalços não pareciam incomodar-se com a neve ao redor e o corpo seminu ignorava o vento pungente que soprava. Fixou os profundos olhos acinzentados na figura do legionário. Permaneceu, escrutinando-o física e mentalmente por alguns segundos. As sombras já haviam desaparecido de seu rosto e de seu corpo quando dirigiu a palavra ao romano. Não fisicamente, mas imprimindo sobre a mente do homem imagens de um diálogo hipotético, onde ambos falavam a mesma língua.

- Qual o teu nome, soldado?
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Re: Territórios onde a Águia Dourada não repousa

em Sex Dez 08, 2017 11:51 am
* O círculo composto pelos guerreiros das estepes geladas estava formado ao redor do Legionário. Eram dezenas de homens e mulheres com seus elmos repletos de chifres e cobertos por peles de animais da região, empunhando machados e espadas e sedentos por sangue do invasor. Suas faces cobertas por carvão, tornando-os ainda mais intimidadores. A aproximação de Dázbov, com seu ar e sua aparência naturalmente ameaçadores, reforçava a crítica situação daquele homem de Roma.

Ele, contudo, mantinha um olhar fixo no céu. Fechou os olhos por alguns segundos enquanto ouvia, em sua mente embora talvez imaginasse ter ouvido palavras comuns, o questionamento do líder daquele povo. Dázbov pôde ver, de forma inquietante, uma majestosa e enorme águia sobrevoar o campo de batalha. Tão grande quanto um lobo das estepes e tão rápida quanto golpes de espadas. Seu grasnar cortou os céus escuros e gelados.

O legionário ergueu o braço coberto por sua armadura e tecidos vermelhos e ela assentou, precisamente, sobre ele. Instintivamente os homens tribais de Ai-Petri deram um passo atrás. A voz do homem se fez ouvir, em alto e bom som.*


- Eu sou Lucius Aellius Sejanus, Filho da Etruria e Comandante da Décima Primeira Legião de Roma.

* Ele encarou o homem branco à sua frente, com a Águia em um dos braços e a espada com haste branca na outra mão. Cravou-a no chão, desarmando-se*

- Meu destino não os pertence - e jamais pertencerá - mesmo que minha vida se encerre sob vossas lâminas. Solicito, de forma honrosa, que antes de vosso ataque me permitam enviar a Águia e a mensagem que ela carregará aos que estão vinculados a meu destino, minha esposa e filhos. Após isso, não tenho mais requerimentos.

* Impressionava, mesmo a Dázbov, a fibra moral e a ausência de medo naquele homem mesmo em situação tão desesperadora.*
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Re: Territórios onde a Águia Dourada não repousa

em Sex Dez 08, 2017 1:17 pm
Dázbov sorriu ao observar a águia no braço do homem. Seria um presságio? A águia que sobrevoava aquelas terras seria a mostra de que Roma estaria destinada à grandeza mesmo ali no norte gélido?

Afastou os pensamentos. Ordenou aos homens, em sua língua natal, que esquecessem daquele homem e fossem cuidar do botim de guerra. Após o afastamento dos seus subordinados, aproximou-se do legionário. Voltou a falar com ele mentalmente, enquanto nem sequer um músculo se movia na sua face. Enquanto emitia suas impressões e comandos, o corpo se movia lentamente ao redor do soldado. A águia, no entanto, lhe desassossegava.

- Escreva a seus queridos, homem. Avise-os que você está vivo, e vivo continuará até quando durar a minha benevolência e a tua sobriedade.

Deu de costas, ignorando o homem. Caminhou, mas se deteve a meia distância, o dedo indicador da mão direita apontando o cume enevoado de Ai-Petri. Enviou uma mensagem mental a Yulav de que aquele homem não deveria ser tocado, pois assim havia decidido aquela terra e os Deuses que nela viviam. Depois, virou-se para o legionário e enviou-lhe uma última mensagem:

- Eu o esperarei no cume daquela montanha. Se esta terra lhe matar antes, os seus queridos serão informados. Se você fugir e não vier ao meu encontro, eu lhe encontrarei. Mas suponho que essa não é uma opção válida para um homem como você, não é?

Não esperou a resposta. Transfigurou-se em uma massa de sombras que envolveu rapidamente o homem, como um vento congelante. Dázbov sufocou-o, de leve, antes de deixá-lo e retornar ao cume de Ai-Petri.
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Re: Territórios onde a Águia Dourada não repousa

em Sab Dez 09, 2017 11:23 am
* O Legionário balbuciou algo ao notar a voz do estranho homem à sua frente ecoar em sua mente sem que houvesse uma só palavra dita. Apertou os olhos  e foi possível para Dázbov notar que ele apertava também uma das mãos, como se verificasse sua lucidez por um breve momento. Após as palavras do Deus da Montanha e de sua demonstração macabra de poder, o homem sufocado e incrédulo das habilidades profanas dos selvagens reuniu sua coragem, enviou sua águia que cortou os céus com um pergaminho atado em sua pata traseira.

Antes que aquela massa de escuridão desaparecesse, o legionário clamou, com uma voz que começou trêmula e ganhou corpo ao fim da frase*


- Tu não tens nenhum poder sobre mim.

* Dázbov retornou ao cume do Ai-Petri e aguardou. Duas noites se passaram e o homem não se fez presente. Na terceira, contudo, era possível vê-lo sobrepujar os últimos obstáculos da íngreme e congelada subida. Seu braço esquerdo sangrando, de forma que não estava antes da subida

Além de suas roupas e armadura, arrastava - com dificuldade - sua capa vermelha embrulhada com algo dentro. Algo que deixava um rastro de sangue pelo caminho.

Subiu em uma das pedras, buscou ar, seu vitae escorria pelo braço e pela espada até respingar o solo gelado da montanha. A noite escura e fria era iluminada por um céu repleto de estrelas.*
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Re: Territórios onde a Águia Dourada não repousa

em Sab Dez 09, 2017 1:42 pm
Sentado, em posição de lótus sobre uma pedra, Dázbov aguardou. Meditava profundamente, mas estava ciente da movimentação do homem em Ai-Petri. O corpo branco, nu sob o céu cor de prata, estava retesado, porém relaxado. Abriu os olhos somente quando sabia que o homem estava ali diante dele. A voz levemente rouca ecoou pela parte alta da montanha. Soava ligeiramente ameaçadora, mas não violenta.

- Você avisou aos seus compatriotas o que aconteceu aqui ou enviou a mensagem somente à sua família? Pense bem antes de mentir para mim, legionário. Posso parecer gentil, mas minha benevolência não é infinita.
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Re: Territórios onde a Águia Dourada não repousa

em Sab Dez 09, 2017 2:22 pm
* O legionário cravou a própria espada no solo coberto de neve, rasgou parte do manto de seu ombro e amarrou o tecido, com o braço direito e a boca, ao redor do braço esquerdo que sangrava contundentemente. O cheiro do vitae fresco invadia as narinas do Lasombra. Não estava com fome, mas o sangue era o seu vício, sua fraqueza e sua fome eterna. O mero cheiro excitava sua besta e trazia o desejo de morte à tona.

Após as palavras do homem branco a sua frente, o Comandante das forças romanas desembrulhou sua capa, revelando o corpo de um leão de montanha, que possuía quase quatro metros de comprimento, morto a golpes de espada.*


- Entre os meus, tudo aquilo que vive nas terras de um homem o pertence. Teus homens mantiveram-se parados durante minha subida, embora o desejo por minha morte estivesse nos olhos de cada um deles. Tuas ordens parecem se cumprir nestas terras.

* Ele caminha, se aproximando*

- Os animais, contudo, parecem não seguir a sua vontade.

* Recolhe a espada cravada no solo e a guarda na bainha*

- Minha solicitação foi escrever à minha esposa e filhos, e assim eu o fiz. Entretanto, Roma saberá do ocorrido pois antes do confronto com vossos homens e logo após o gelo ceder sob nossos pés, eu enviei meus melhores mensageiros de volta.

- Portanto, guarde vossas ameaças e cesse os discursos sobre benevolência. É de teu interesse, por alguma razão, que eu esteja aqui. Sejas direto e claro, pois perguntarei uma só vez.

* Não havia vacilos em sua voz, a expressão dura se mantinha em seu rosto e o medo continuava a lhe faltar.*

- Pergunto-lhe, criatura da montanha, o que és tu? E por qual razão ainda estou vivo?
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Re: Territórios onde a Águia Dourada não repousa

em Ter Dez 12, 2017 5:44 am
Diante das presunçosas inferências do legionário, Dázbov sorriu, o que era raro. Era interessante aquele homem, imerso em sua ignorância sobre o mundo mas que, ainda assim, mantinha sua confiança e altivez. Dázbov observou o cadáver da fera que ele havia assassinado e sentiu no ar o cheiro doce da vitae do legionário. Não levantou-se, manteve-se em posição de lótus enquanto a luz da lua banhava sua pele estranhamente branca.

- O que sou eu, ou os mistérios da minha natureza, não lhe serão revelados agora. Somente quando eu assim desejar. Sua utilidade a mim me impõe a preservar sua vida, por enquanto.

Levantou-se e forçou os pulmões há muito mortos a respirar o ar puro da montanha. Observou as nuvens e os desenhos que o acúmulo de neve deixava no solo rochoso. Achou ter visto uma mulher e uma criança que rezavam a Deuses que Dázbov não conhecia.

- Tenho duas demandas para você, legionário, e de sua resposta compreenderei se continuarei a  permitir que você viva. A primeira demanda é a seguinte: tu me representarás em Roma, serás os meus olhos e ouvidos. Serás fiel a mim e a causa do meu povo, dentro de um império corrupto e assassino, que pouco ou nada se preocupa com os que vivem sob sua bandeira. Em troca, lhe darei força, vitalidade e a possibilidade de viver para sempre, ou ao menos enquanto se mantiver fiel a mim.

Fez uma pausa. O vento soprou mais forte.

- A segunda demanda é muito mais simples. Desejo saber tudo o que você sabe sobre o homem que morreu na Galileia, mais ou menos um século atrás, crucificado por seu povo após se proclamar filho de um Deus único.

Dázbov se sentou casualmente na pedra e esperou que o legionário respondesse.
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Re: Territórios onde a Águia Dourada não repousa

em Qua Dez 13, 2017 11:24 pm
* O legionário circulou a besta abatida no chão gelado. Olhou-a enquanto o estranho homem o falava. E após muito tempo, tanto que nem mesmo se recordava da sensação, sorriu.*

- Esta fera cumpriu o seu papel, até o fim. Defendia um ponto desta montanha, provavelmente seu covil, e minha passagem a atiçou. Após seu avanço e meu golpe, ela poderia ter fugido. Era mais rápida e conhecia o terreno. O leão, contudo, ficou e cumpriu o seu papel. Talvez porque em seu covil haja filhotes ou àqueles que dependiam dele, talvez por puro instinto.

* Lucius se aproxima, desabotoando a pesada armadura que pressionava seu braço esquerdo, ferido. A peça do peitoral caiu ao chão enquanto falava*

- Viver para sempre enquanto o servir? E qual o propósito de viver em eterna desonra e vergonha?

* Antes de qualquer resposta, continuou. Sua expressão era séria, não havia vacilos ou traços de receios em sua voz*

- Falas de Roma como se a conhecesse. Não há corrupção e assassinatos na ideia Romana, há nos homens que a controlam. Alguns são tomados pela cobiça, pela inveja, por fraquezas de caráter que habitam em todos os homens. Conheci muitos, vi muitos se perderem em luxúria e riqueza, mas vi também homens como meu Imperador Marco Aurélio. Justo, Dígno, honrado. Quiseram os deuses que, infelizmente, ele tivesse que lidar com as cobras do Senado em um Império sem fronteiras que ocupa todo o mundo e continua a expandir-se. É um fardo por demasiado pesado para um só homem, mesmo que este homem se torne Deus.

* Ele observa o estranho homem em posição de Lótus*

- Tu, no alto desta montanha, jamais compreenderia a complexidade de Roma e dos deveres de nós, homens do Império. Não o culpo, em verdade, o invejo. A vida simples de teus homens é um vislumbre do que a minha poderia ter sido, em um futuro após meus anos nas Legiões.


* Ele olha para o céu estrelado e, uma vez mais, sorri*

- Estou em paz, homem da montanha, e devo-lhe gratidão. Os que compartilham de meu destino, minha esposa e filhos, foram avisados de minha morte nestas terras e guiados por minha escrita sobre o futuro que devem tomar. Estou, sem nenhum pesar, em paz.

- Cumprirei meu dever até o fim. E, em honra da permissão que me foi concedida, responderei sobre o homem de Jerusalém. Direi aquilo que acredito sobre o assim chamado Messias.

* Ele se abaixa, toca o chão e balbucia algumas palavras que não escapam aos ouvidos aguçados de Dázbov*

"Marte, Senhor das Armas, peço que soe as trombetas em minha partida. Belona, Matriarca da Guerra, acolha-me como um filho da batalha. Cibele, Mãe de toda a vida, guie vossa graça aos meus onde quer que eles vão após a minha partida. Tártaro, permita a minha livre passagem e ascensão."

* Ergue-se novamente e continua a falar*

- Jesus de Nazaré, o autoproclamado filho de Deus, um único Deus. Fora julgado por um dos nossos e encontrou a cruz como punição ao sacrilégio cometido por ele. Ao meu ver, o homem era um político de grande oratória e poder de convencimento. Agregou multidões e pregou o que chamou de amor. Amor que incitou rebeliões e guerras. Ainda o faz e presumo que fará por muitos anos a seguir. Um homem de raro porte e presença, voz cativante e atos humildes, ainda sim era apenas um homem. Um líder tão poderoso quanto perigoso, como um verdadeiro líder deve ser.

- Sua morte o engrandeceu ainda mais. O martírio tem o perigoso poder de tornar homens em Deuses.

* Ele desembainha a espada. Seu torso está coberto apenas por um manto vermelho ensanguentado. O braço esquerdo, imóvel, ainda goteja sangue.*


- Levante-se, homem do gelo e da montanha. Levante-se e cumpra seu papel para que eu possa cumprir o meu.
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Re: Territórios onde a Águia Dourada não repousa

em Qui Dez 14, 2017 10:38 am
Dázbov ouvia atentamente as palavras do homem. A história do Cristo, do homem que morreu em terras tão distantes, o fascinava. Dázbov gostava de se ver como um Deus, mas sabia que não o era. Sua divindade, contudo, era essencial para os homens e mulheres que viviam naquelas terras. Dázbov os protegia da melhor forma possível, mas sabia que, embora fosse imortal, as intrigas de seus irmãos não tardariam a chegar naquelas terras geladas. A dúvida que assolava o velho vampiro era simples: como proteger melhor aquele povo que o acolheu e o alimentou durante trezentos anos?

Enquanto o legionário falava, Dázbov pensava. Mas a arrogância nas palavras do mortal não passavam despercebidas ao Deus da Montanha. Quando o legionário lançou seu último apelo, audaciosamente ordenando a Dázbov que se levantasse, foi subitamente atingido por golpes duros e quase invisíveis: o Abismo se prolongava em forma de tentáculos, lançando ao chão o homem. Dázbov não se levantou, mas falou na mente do homem.

- Você não me dá ordens, legionário. Essa é a primeira grande lição a ser aprendida aqui.

Olhou atentamente para o homem no chão. Vislumbrou o ferimento ensanguentado no braço. Controlou a Fome e a luxúria.

- Eu agradeço as suas explicações. Me esclareceram muita coisa - Dázbov abriu o pulso com os dentes. Deixou seu próprio Vitae gotejar no chão. Depois, voltou a imprimir sua voz na mente do legionário - Beba, legionário. Meu Sangue irá curar suas feridas e você, então, estará livre para ir. Se não te serve viver para sempre, és de pouca utilidade para mim. Sua soberba em julgar-me não me irrita, mas te torna inadequado. Na verdade, a morte pode lhe ser uma dádiva. No final, você não verá seu amada Império se despedaçar e cair. Acontecerá, pois todas as coisas morrem, mesmo as cidades e impérios.

Dázbov se levantou, o pulso estendido.

- Beba, recupere suas forças e retorne para Roma.
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Re: Territórios onde a Águia Dourada não repousa

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