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A Torre de Saulot.

em Dom Jul 08, 2018 5:00 am
A guerra havia começado.

Samiel abriu os olhos. A noite havia chegado. Ao seu redor, a escuridão e simplicidade da Torre que ele, seu Senhor e seus irmãos, Hrorsh e Rayzeel chamavam de casa. Não sentiu a presença de seu Senhor, nem na construção, nem em Nippur. Sabia, porém, que não deveria se preocupar com Saulot, embora fosse absolutamente inadequado que ele se concentrasse mais uma vez em suas infinitas andanças, como fazia séculos atrás. Ao menos naquele momento, em que o inimigo tinha sido provocado a romper a trégua imposta pelo seu tio, Sutekh.

Saulot havia instruído Samiel. O Pastor havia considerado que o grupo formado por Sarosh, Medon, Nakurtum e Tammuz, que deveria seguir em direção aos vilarejos vizinhos a Mashkan-Shapir e forçar um ataque para atrair a atenção do inimigo, tinha plenas condições de se defender. Sarosh, Filho de Laza e Medon, FIlho de Ventru eram guerreiros excepcionais, quase tão capazes, nas palavras de Saulot, quanto o próprio Samiel, maior dos guerreiros de sua geração. Não, Samiel deveria acompanhar Ya'rub, Filho de Haqim, Enki, Filho d'O Estrangeiro além de Japhet e Caias Koine, Filhos de Cappadoccius, em direção a Mashkan-Shapir. Não deveria adentrar a cidade, todavia. Deveria permanecer nos arredores, com seus fiéis cavaleiros, pronto para intervir em caso de necessidade. Fez com que sua presença e a de seus homens fossem conhecidas pelos seus primos, de forma a tranquilizá-los.

Naqueles momentos em que se encontrava no deserto, monitorando as atividades dos dois grupos graças à sua percepção ampliada e ao elo simpático estabelecido com o seu Senhor, Samiel descobriu, com horror, que o espião Nakurtum havia encontrado, nos túneis abaixo dos vilarejos pertencentes a Mashkan-Shapir, sua prima Amarantha, Filha de Arikel, imersa em comunhão sangrenta com o inimigo. Na reunião que acontecera no Trono Negro, onde havia sido decidido pelo ataque, a hipótese de um traidor havia sido levantada. Samiel esperava, porém, que aquela situação não se verificasse. Amarantha havia sido subjugada e arrastada de volta a Nippur, onde enfrentaria o seu julgamento.

Samiel, todavia, não tinha tempo para pensar no assunto. Mashkan-Shapir havia começado a vomitar seus horrores e suas monstruosidades na planície ressequida e enegrecida, ameaçando a existência de seus primos. Deveria agir.

O combate se mostrara duro. Ainda que a maior parte das forças da Cidade Amaldiçoada fosse composta de mortais, a determinação e fúria destes, instigados por Mashkan, era notória. Alguns de seus homens caíram, homens honrados que haviam seguido Samiel durante muitos anos, quando patrulhava o deserto para eliminar eventuais ameaças à Cidade dos Deuses. Não poderia, contudo, deixar-se abater. O preocupava a proximidade do amanhecer, o combate havia durado muito tempo e Mashkan não cessava de derramar sobre o campo de batalha seus servos e seus horrores. Por um minuto, tinha dúvidas de que conseguiriam retornar a Nippur antes do nascer do Sol.

No ápice do conflito, foi Japhet quem se comunicou com ele. Haviam recuperado a tabuleta mística que continha um encantamento capaz de afetar a Prole de Caim usando como arma o coração e a fé daqueles que cultuavam. Estavam vencendo, poderiam recuar. Se a tabuleta estava em segurança, os mortais que cultuavam os Deuses de Nippur também estariam. Foi somente graças ao esforço conjunto de Tepelit e Karotos, Filhos de Laza, que conseguiram deixar o campo de batalha. A Escuridão comandada por seus primos os envolveu a todos num abraço frio e, ao mesmo tempo, acolhedor, deixando Samiel e parte dos seus homens no centro de Nippur pouco antes do nascer do Sol.

E agora Samiel acordara.

Intuía que Amarantha não havia sido julgada na noite passada, seus tios e primos precisavam de tempo para pensar no assunto. Sabia, porém, que um encontro seria convocado no diante do Trono Negro de Caim, e que medidas enérgicas deveriam ser tomadas. Samiel temia os resultados daquele encontro. Desejava que Saulot estivesse ali, mas não estava. Sentiu, todavia, o doce perfume de sua irmã Rayzeel a flutuar no ar, se aproximava da câmara que Samiel usava como local de repouso. Adentrou, com nenhuma cerimônia.

- Eu o saúdo, irmão, e estou contente pelo teu retorno. O Pai ainda não retornou e nosso tio, Ventru, indica que devemos tomar parte a um encontro dentro de algumas horas. Do que se trata? O que aconteceu no campo de batalha?

Quão bela era Rayzeel. Olhos e cabelos escuros emolduravam um rosto simples, comum, mas dono de um encanto inigualável. Vestia-se de maneira simples, com vestes de algodão que havia sido colhido ali mesmo, em Nippur. Sua presença era absurdamente calma e inspiradora, capaz de fazer com que qualquer um deixasse o que estava fazendo para escutar suas palavras. Olhava para Samiel com um olhar curioso, ansiosa por uma resposta.
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