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A História antes da História.

em Sab Jul 07, 2018 7:11 pm
Tópico contendo Contos antigos, mas que servem como Excursus para a Campanha atual.
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Crisálida

em Dom Jul 08, 2018 6:54 am
A constatação de que a idade não os fazia mais sábios e de que o poder não os fazia mais seguros voltava à mente do Ancião todas as vezes em que ele participava das discussões com seus pares. Assuntos que pareciam importantes, polêmicas que pareciam emergenciais, tudo isso era a tônica daqueles momentos. Estava cansado. Um mundo de possibilidades era negado pelos seus que, cegamente, se agarravam a conceitos antigos e desnecessários, comportavam-se como bestas tão primitivas que fariam os animais mais simples rirem se pudessem.

O Estrangeiro sentou-se no salão que costumava ocupar quando vivia em Nippur. Ali, em meio a ossos e couro de animais, em meio a relíquias antigas e ignoradas, lembrava-se de sua juventude e mortalidade, quando já havia vislumbrado a Grande Verdade para a qual seus irmãos imaturos ainda eram cegos. Sentia tristeza por eles na mesma medida em que sentia orgulho de si e de seus filhos que haviam começado a romper a Crisálida e enxergar o brilho que havia do lado de fora.

Quando Malkav, seu irmão mais velho e mais sábio, único dentre eles que visualizava a existência da Crisálida - mas ainda não entendia a necessidade de rompê-la - entrou, sorriu cordialmente. Malkav sentou-se no chão diante dele, como uma criança diante de um avô sábio, como alguém que espera orientação. O Estrangeiro acariciou-lhe os longos cabelos louros e beijou sua fronte. Malkav teve uma visão neste momento, uma breve e terrível visão, mas permaneceu impassível.

- Somos tão tolos, não somos? - Perguntou ao Estrangeiro.

- Não, não são. São apegados aos seus limites, aos limites que nos foram impostos pelo Sangue e pela História. É triste, é cruel. - Respondeu o viajante.

Malkav suspirou. Confiava em seu irmão com a sua vida, mas sabia que a soma de fatores, de possibilidades pareciam levar ao caos e a ruína.

O Estrangeiro apenas sorriu.

- Eu sei, irmão. Mas não há opção. Podemos permanecer aqui estagnados por milênios, reproduzindo práticas ancestrais. Ou podemos avançar.

- Eu espero que sua sabedoria me ilumine, irmão meu. Eu estou pronto.

O Estrangeiro olhou para seu irmão e viu. Viu o que viria. Emocionou-se. Levantando-se, pôs-se a andar pelo pequeno salão. Acariciou um chifre de zebu sobre uma escrivaninha. Chegava a hora rapidamente.

- Nós podemos ser infinitamente mais do que somos, Malkav. Nós podemos transcender nossa carne e nosso Sangue. Podemos nos tornar o que estamos destinados a ser, líderes, profetas, monstros se quisermos. Nossa existência é desperdiçada entre estas paredes, nosso entendimento é limitado.

- Como pode ter tanta certeza?

- Eu vi os sonhos de nossos sobrinhos. Eu vi a tristeza que eles carregam nos olhos simplesmente por não nos reconhecer neste lugar, neste estado lastimável e bestial. Os homens que eles conheceram, ainda que somente por histórias e contos, não estão aqui. Não somos nós. Ainda.

Malkav levantou-se e abraçou seu irmão. Chorava silenciosamente. O Estrangeiro mais uma vez acariciou seus longos cabelos e abraçou-o em retorno, forte, como que o protegendo do que viria.

- Mas L... - Começou Malkav.

- Esse nome não deve ser mencionado, irmão - interrompeu rapidamente o Estrangeiro - Faz parte da Crisálida.

- Mas irmão - Corrigiu Malkav - Isso significa que a paz entre nós deixará de existir. Que nossas famílias crescerão para acompanhar o tamanho do mundo e o nosso poder, nossa mudança - ainda chorava - Abdicaremos de nosso Éden?

O Estrangeiro apenas sorriu novamente.

- Todas as coisas vivas devem mudar ou perecer, irmão. Se não compreendermos, se não mudarmos nossa forma de ser e ver o mundo sofreremos o mesmo destino de nossos genitores, mas pelas mãos dos nossos filhos. Ou pior, jamais enxergaremos o que nossas crianças, infinitamente mais sábios e adaptáveis que nós, querem que enxerguemos.

Malkav enxugou as lágrimas com as costas da mão. Era uma criança no seu espírito, e o Estrangeiro sentia pena do que ele enfrentaria. Uma palavra pequena e poderosa surgiu na mente do Profeta, com uma força avassaladora, tornando-se um signo, um presságio. Ele a repetiu baixinho.

- Jyhad.

O Estrangeiro aquiesceu com a cabeça.

- Somente a consciência da mortalidade nos fará transcender a imortalidade. Somente sabendo que podemos ser feridos e mortos é que avançaremos rumo a estágios superiores de consciência, é que conseguiremos liderar nossos filhos como pais e mães responsáveis, até o fim dos tempos, nos tornando mais perfeitos, mais próximos do que devemos ser. Mais próximos do que eles querem que nós sejamos. Somente assim começaremos a entender a natureza das nossas maldições, do que foi feito de nós, e superá-las.

Desta vez Malkav foi quem concordou.

- E como isso pode ser feito, meu irmão?

- É simples. Precisamos provar a nossa fragilidade.

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Ritual

em Dom Jul 08, 2018 6:59 am
- Pois dele virá todo o Sangue e todo o Caos. Por ele tudo será consumido e transformado em cinzas. Por sua benevolência, todos renasceremos. Deuses que somos, deuses que seremos."

"A ladainha era repetida compulsivamente. O salão era iluminado pela luz de uma só tocha. Sombras fantasmagóricas brincavam nas paredes e no teto. Havia um odor de suor e sangue, de fezes e carne putrefata. Odor de segredos esquecidos e enterrados que, se a humanidade fosse sábia o suficiente, jamais tentaria despertar.

Os cerca de cinquenta homens permaneciam sentados sobre os próprios calcanhares. Os corpos se inclinavam para frente e para trás, num transe profundo e homogêneo. Vez ou outra um deles se sacudia, um calafrio percorrendo a espinha. Um outro vomitava e desmaiava, somente para se erguer novamente, comendo o vômito que se misturava com as fezes secas no chão. Do pouco que se via, a pele de seus rostos eram cobertas de feridas, pústulas estranhas e enegrecidas que vertiam um pus virulento.

No meio dos homens um bebê dormia. Estava com roupas limpas e num cesto de vime particularmente aconchegante. Alheio às vozes ao seu redor, ressonava tranquilamente, dormindo o sono dos infantes inocentes. Um dos homens tentou tocá-lo, seus pares rugiram como animais enjaulados. Derrubaram-no no chão e começaram um severo linchamento. Socos e pontapés, mordidas que arrancavam nacos da carne e pisadas cruéis na cabeça. O corpo, em pouco tempo, se sacudia em espasmo finais. O último sopro de vida antes da morte. Os outros lambiam do chão o sangue e pedaços de cérebro que se misturavam com a urina e o intestino aberto de um outro homem morto.

Quando Ele entrou na sala, todos se voltaram para a passagem que dava acesso ao salão. A fúria, o ardor deram lugar à complacência e servidão. Arrastaram-se na sujeira, como vermes que eram, até alcançar os pés de seu Deus profano. Não ousaram tocá-lo. Beijar o chão onde ele pisava era o suficiente. Ele chutava os que ousavam se aproximar demais, seu pé deslocando mandíbulas e fraturando crânios. Os homens somente prosseguiam em adoração maior ainda, sentindo-se abençoados em serem tocados, ainda que violentamente, por Ele.

Nergal cuspiu sobre a criança quando se aproximou dela. Seu cuspe, como o dos filhos de Haqim, queimou a pele do recém nascido que, só então, começou a chorar de dor e pavor. A pele tocada pela saliva enegreceu, o osso do pequeno e malformado crânio ficou exposto. Os homens uivavam em admiração e êxtase religioso. Depois, silenciaram. Só o choro da criança, cujo corpo começava a se encher rapidamente de pústulas era ouvido. O bebê gritou por mais alguns segundos e se calou, o pequeno corpo se abrindo sobre si mesmo, como se estivesse derretendo por dentro. As vértebras à mostra, os frágeis ossos enegrecidos. Em pouco tempo, somente uma massa escura, amorfa e fétida restava dentro do cesto. Os homens gritaram, rolaram na putrefação espalhada pelo chão. Alguns choravam. Nergal permaneceu impassível.

Até sentir.

Era como um dedo que descia, lentamente, por suas costas nuas, onde se encontrava sua espinha. Era sensual e poderoso, ameaçador a ponto de fazer o Baali se ajoelhar. Os servos se recolheram, andando a quatro membros, para os cantos mais escuros da sala. o Deus permaneceu ali sozinho, em adoração àquela sensação pelo tempo que pode. Até que ela passou. E ele se viu sozinho outra vez.

Olhou para a massa amorfa que havia sido o bebê. Teria de fazer mais que aquilo. Haveria de fazer algo muito maior que aquilo.
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Mensagem

em Dom Jul 08, 2018 7:03 am
Amada irmã.

Recebi a tua mensagem e a li, minha cara. Confesso que suas teorizações sobre a nossa natureza sempre me fascinaram profundamente. Você, acima de quase todos os outros, tem olhos que enxergam longe. Digo quase pois devemos considerar a profundidade da visão de nosso amado Malkav e a capacidade de observação de Saulot. Essa visão profunda que vocês compartilham é, contudo, o cerne da minha discordância contigo.

Você sugere que as nossas afinidades pessoais com alguns dons derivam tão somente de uma interação do Sangue com as nossas personalidades. Sua observação é interessante, se considerarmos a coisa toda de forma teleológica.

Nestes anos de observação, e depois daquela fatídica noite, me debrucei sobre as diferenças fundamentais que nos separam dos nossos senhores. Estou inclinado a acreditar que as nossas inclinações metafísicas tem muito a ver com as naturezas deles e não as nossas. Além disso, de alguma forma o Sangue deles nos modificou e nos inclinou a direções específicas, fazendo com que seus descendentes sejam mais ou menos competentes em dons específicos.

Vejamos na prática.

Começo por você, Arikel. Lembra-se do que falei acima, sobre você e seus irmãos? Pois bem. Você, Saulot e Malkav compartilham o mesmo criador, O Primogênito de Caim. Ele era um conselheiro do Pai Sombrio, alguém que precisava antever movimentações em prol da sobrevivência de uma cidade. Seus filhos herdaram isso, de forma que vocês três estão perfeitamente alinhados com as capacidades de perceber o que não é óbvio, além de uma inegável orientação profética. De fato, considero vocês como a "Linhagem dos Videntes".

O meu próprio senhor, O Forte, era o líder militar e comandante de tropas do Pai. A inclinação dele era para a liderança e para as batalhas, além de ser capaz de grandes proezas físicas. Eu, Ventru, Ilyias e Lazar compartilhamos destas características, seja uma resistência sobrenatural aos ferimentos que matariam outros, seja uma capacidade intrínseca de liderança (que, no caso de Ventru e Lazar nós já sabemos bem que se tornou uma particular obsessão; eles são muito mais filhos do nosso Senhor que eu e Iliyas). Temos aqui uma "Linhagem de Reis-Filósofos".

Por fim, A Bela trouxe para as trevas todos aqueles que são ocultos. Caçadores furtivos, os filhos dela herdaram a capacidade de esconder-se dos observadores, de forma a concretizar melhor suas necessidades. Sutekh e Haqim são exemplos desta minha observação. O Exilado também. Aqui temos uma "LInhagem de Caçadores".

Você, a esta altura, já encontrou a falha central da minha teoria. Ela não explica a natureza dos outros. Ficam fora desta interpretação Zaphatasura, Ennoia e o Estrangeiro. É aqui que eu preciso de sua ajuda, minha cara irmã, para pensar como esse enigma pode ser resolvido para que avancemos na compreensão da nossa natureza, de forma a superá-la.

Te visitarei amanhã. Estou ansioso por ver seus novos trabalhos.

Seu,

Cappadoccius.
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Abraço

em Dom Jul 08, 2018 7:12 am
O salão era o centro vivo e pulsante do palácio. Ventru o havia construído, um monumento de honra e glória aos ancestrais.

Os fatos ocorridos ali haviam dado uma carga espiritual fortíssima ao local. Sua paredes emanavam dor e sofrimento mas também deixava transparecer uma glória indistinta. Eram de pedra escura, e curtas colunas desgastadas sustentavam o teto baixo. Todo o lugar dava uma clara sensação de claustrofobia. Havia treze assentos de pedra, funestamente machadas de sangue seco. Janelas escavadas na rocha deixavam entrever parte da cidade.

Aquele foi o ambiente que Amon, então experiente construtor, havia sido apresentado por aquele estranho servo de cabelos raspados e físico avantajado. Nunca havia estado dentro do palácio. Desde que havia chegado Àquela Cidade, o palácio o impressionava, com suas pedras escuras sobrepostas. Era uma obra de arte da engenharia, na sua opinião. Quando a oportunidade veio, de reformar parte da construção, assumiu com grande alegria a tarefa.

Caminhou mais de uma vez pelos corredores durante o dia. Sabia, como todos os moradores d'Aquela Cidade sabiam, que à noite os Deuses caminhavam por aqueles mesmos salões. Gostaria de tê-los visto em algum momento. Eram reclusos, os Deuses, em toda a sua glória. Os moradores do lugar fascinavam Amon tanto quanto a construção. Secretamente, inventou um plano, uma desculpa para comparecer ao palácio à noite, o que era expressamente proibido. O fez e, quando chegou à porta do grande salão e ouviu discussões acirradas, a curiosidade foi mil vezes mais poderosa que a prudência. Abriu as portas e se permitiu espiar.

Foi uma mulher monstruosamente bela que o notou e, no que pareceu ser um microssegundo, Amon estava sendo arrastado por ela para dentro da sala. Ela não disse nada, nada perguntou. Suspendeu-o com um só braço, ameaçando sua vida com uma força descomunal, que não deveria existir.

Abaixo de Amon, um dos Deuses se sentava. Era um homem alto, de barba escura e espessa, com profundos olhos enigmáticos, nos quais pareciam correr todos os mistérios do tempo, como uma torrente. Vestia-se com um robe de linho escuro. O rosto, contudo, era uma intrincada teia de rugas, marcas de expressão e pequenas cicatrizes. As mãos eram longas e finas, com dedos igualmente marcados e foi sobre essas mãos que o sangue de Amon, que sufocava e vertia o liquido pela boca, pingou. O homem se retesou por dois segundos, seus olhos tornaram-se brancos e sua cabeça pendeu para trás, fazendo os grossos e escuros cabelos, até então presos num coque improvisado, soltarem-se sobre os ombros estreitos.

Somente um outro Deus notou o fato. Contudo, nada mencionou.

O Deus que sentava-se sob Amon levantou-se num impulso e o tomou das mãos fortes da mulher. "Ele está sob minha proteção", disse, e os outros Deuses assentiram, dando de ombros e continuando sua discussão acirrada, como se nada ocorresse. Somente o jovem Deus na ponta da mesa, alguém cujos olhos também transmitiam o tempo, porém de forma diferente e menos organizada, acompanhou o seu irmão com o olhar, enquanto ele saia da sala com o corpo de Amon nos braços.

As marcas das mãos da mulher no pescoço de Amon nunca desapareceram totalmente. O Deus, agora visivelmente humano, pediu imensas desculpas a Amon pelos hábitos e ações de seus irmãos. Naquele quarto onde o Construtor foi hospedado conversaram por horas a fio e, quando o amanhecer veio, o Deus se foi prometendo retornar na noite seguinte.

E assim foi. Pelos próximos três anos O Sábio e O Construtor encontraram-se todas as noites. Filosofaram juntos e batizaram estrelas. Mais que um companheirismo, nasceu ali um amor como o de pai e filho, o que há entre irmãos e aquele carnal dos amantes. Quando Amon finalmente foi trazido para a Noite estava fundamentalmente mudado. O Construtor, vinculado ao mundo físico e duro, deu espaço ao astrônomo, filósofo e estudioso. E as duas partes do jovem cainita se completavam.

Por um tempo, senhor e cria foram felizes. Amon foi apresentado à suas irmãs, Belit-Sheri e Anis. A primeira era uma mulher na faixa dos quarenta anos, que exalava sabedoria e conhecimentos acumulados. Com ela Amon aprendeu sobre tudo, e um forte amor de irmão nasceu ali. A segunda, a mulher mais linda que Amon havia visto, à exceção da Deusa no salão sangrento, que agora ele sabia se tratar da Escultora, era uma dançarina pouco voltada às atividades intelectuais mas extremamente leal ao seu Senhor.

Os três se davam relativamente bem, e assim permaneceram durante os anos que se seguiram.

Até Mashkan-Shapir.

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Guerreiro

em Dom Jul 08, 2018 7:14 am
Conta-se que o Tigre e o Eufrates tiveram uma cheia imensa naquele dia. Uma cheia tão divina, tão magnífica, que fez renascer as plantações do bruto chão da Mesopotâmia. As cidades entraram em festa, os governantes distribuíram os alimentos que sobravam e as populações locais regozijaram-se. Aquele episódio ficaria conhecido nas tabuletas que contavam as histórias da civilização Mesopotâmia como "O Grande Milagre".

Naquela mesma noite, O Guerreiro nascia. Envolto em bênçãos e cânticos, seu destino parecia selado, um grande líder ele seria. Primeiro filho varão de seus pais, um poderoso guerreiro nômade e uma princesa de uma cidade há muito destruída nas infindáveis guerras, cresceu em meio ao deserto, aos saques e as batalhas. Aprendeu desde cedo a cavalgar e a pensar o mundo. Seu pai morria de orgulho. Seu povo amava o futuro líder.

O Guerreiro cresceu e com ele seu povo. Centenas de pessoas o seguiam em batalha, homens morriam em seu nome e caravanas e cidades tremiam à sua menção. Quando seu pai morreu e sua mãe o seguiu em profunda tristeza, O Guerreiro teve pouco tempo para lamentar-se, o dever o chamava. Cumpriu sua tarefa e seu povo floresceu mais ainda, eram aliados disputados na intrincada política do Crescente Fértil.

Os cabelos escuros contrastavam com a pele morena, queimada do sol inclemente. Os músculos eram fortes e sua proficiência com as lâminas era lendária. O guerreiro casou-se por amor com uma mulher de seu povo e sua descendência foi fértil: quatro varões e duas lindas mulheres que eram suas jóias. Havia amor e comida em sua casa, haviam as batalhas e as vitórias e, por um tempo, tudo pareceu seguir o rumo inexorável da velhice e da morte. Contava 30 anos quando aconteceu.

Primeiro sua amada esposa, Enir, foi levada pela misteriosa doença. Depois suas filhas. Por fim, três dos varões foram levados pela morte. Sua casa caiu em desgraça. Secas na região e batalhas perdidas quebraram a confiança de seu povo no seu líder. Seguiu-se a revolta e o homem foi expulso do convívio de seus pares. Seu varão sobrevivente permaneceu, era a esperança daquele povo em dias melhores. O Guerreiro foi ostracizado, condenado a vagar até o fim dos seus dias nas ermas terras no norte da Mesopotâmia. Sem água, cavalo ou comida, sem amores ou amigos, o colapso físico, mental e espiritual foi inevitável. A alma d'O Guerreiro estava alquebrada, moída.

Quando Karotos o encontrou, depois de muito procurar pelo deserto, encontrou a sombra do que o nobre guerreiro havia sido. Seu orgulho e força de caráter, contudo, estavam intactos. O vampiro sorriu quando o homem sacou sua velha espada, sua companheira de tantas batalhas e apontou na direção do Deus.

- Você vem comigo, Guerreiro. Há um lugar para ti sob o céu.

Quando avistou pela primeira vez a cidade foi tomado por uma forte impressão de familiaridade. Já havia ouvido falar Daquela Cidade, aquela que seus guerreiros se recusavam terminantemente a saquear, com medo dos Deuses que ali caminhavam. Quando adentrou as muralhas e viu a magnificência das ruas e construções pensou que aquilo poderia ser tão somente algo divino. Absorvia todos os detalhes, todas as esquinas. O povo lhe olhava com curiosidade. Era aquele, então, o flagelo do norte? Aquele homem magro e maltrapilho, doente e queimado pelo sol era de quem deveriam ter medo? Riram dele, acertaram-no com vegetais, urina e fezes enquanto caminhava pelas ruas. Karotos nada fez para impedir.

Quando foi levado ao palácio central, Ele já o aguardava. O nariz adunco foi a primeira coisa a ser notada pelo Guerreiro. Ele sentava-se sobre um trono de pedra escura. Seus cabelos longos e negros escorriam pela rocha e pela face, tornando seu rosto austero e julgador. Os olhos, de um negro profundo, refletiam o Nada. O corpo era magro, porém definido, parecendo ágil. Apenas uma longa saia escura cobria-lhe o corpo e uma estranha onda de poder bruto emanava de seus poros. Havia algo em relação às sombras também. Agitavam-se constantemente, formando figuras de objetos e de almas há muito mortas e esquecidas.

O Homem levantou-se e dirigiu-se ao Guerreiro. Com as duas mãos tomou-lhe a face cansada e beijou seus lábios em cumprimento. Karotos deixou a sala e o Homem explicou, pacientemente, que todas as desgraças que atingiram aquele nobre homem, todas as perdas, derrotas e humilhações haviam sido obra sua. Esperou o ataque. Não veio. O Guerreiro abraçou-lhe, para surpresa d'O Homem. Depois, solenemente, falou.

- És um Deus e sei que estavas a me testar. Desnecessário. Um homem não precisa perder tudo para saber que, no fim, Deuses e Homens são absolutamente nada.

Era a coroação de um processo. O Homem sorriu, genuinamente feliz, e O Guerreiro foi trazido para aquele Sangue e aquela casa.
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Vidente

em Dom Jul 08, 2018 7:17 am
Saciado não pensava em nada. Todo o salão cheirava a Sangue novo e seco, velho, de anos atrás. Nunca havia sido limpo, aquele local. Era seu refúgio, onde meditava na mais profunda escuridão, fosse real ou metafórica. Meditava por não gostar de ser surpreendido pelo tempo e pelo acaso. Meditava por achar que o futuro era passível de ser conhecido, assim como a o espírito e a carne dos homens poderia ser mudada.

Em vida sempre fora um estrangeiro. Um excluído. Seus irmãos, a despeito das brigas, se entendiam perfeitamente bem. Compactuavam em suas misérias. Para ele sempre restou a ignorância e ser ignorado. Vivia bem assim. O Abraço só fez reforçar essa tendência isolacionista. Suas crias, quando as fazia - e naqueles dias eram feitas com regularidade - eram soltas no mundo. Não poderia abrir-lhes a crisálida, como faziam seus irmãos. A dor do parto, da criação, de adaptar-se era responsabilidade exclusiva deles.

As imagens eram bruxuleantes em sua mente. Seu domínio nos Dons da Percepção eram insuperáveis. Dele eram as brumas do tempo, numa perspectiva que faria o Sábio morrer de inveja e desgosto. Não haviam sons, mas faces indistintas, relances de fúria e amor. Fragmentos de companheirismo. Haviam reinos estranhos, pessoas poderosas que estavam sempre no centro dos eventos. Nenhuma delas carregava seu Sangue. Ainda em transe sorriu quando desta constatação.

E então o clarão. A luz. Os gritos e o pavor. Muros caíram como lama diante da força do vento. Corpos - seriam corpos ou almas? - foram despedaçados. O trono permaneceu intacto, contudo, e nele a figura que sempre aparecia em suas visões estava intacta. Os muros pareciam desmontar e querer retornar ao seu local de origem. Sentiu uma forte vibração no corpo e no espírito. Era o ciclo do tempo se fechando e retornando ao seu padrão.

Ou talvez tivesse sido em razão daquele que entrou na sala.

Seu irmão era o único que conseguia adentrar aquele refúgio. Era um excluído, assim como ele, um ser de natureza violenta e invejosa que, diante da incapacidade de governar este plano, dedicou-se a controlar outro. Em vida fora um pescador. Na morte, era um Rei.

- Eu gosto de ouvir sobre suas visões, irmão meu.

Sorriu. Gostava deste seu irmão, passava longas semanas em sua companhia, viajando pelos ermos da civilização. No futuro, seus filhos estariam mais e mais juntos.

- Nosso lar vive, irmão, em terras imemoriais e inalcançáveis. Como retornar? Os Jardins são inacessíveis para nós. Neles, o fluxo da vida não faz sentido. Neles a morte poderá sempre ser evitada.

O Rei sorriu.

- Essa noite o Sábio desapareceu. Em seu refúgio, somente uma marca escura no chão e um leve cheiro de rosas. Os Jardins estão mais ao nosso alcance do que você jamais poderá imaginar, meu visionário irmão. O Sábio escolheu o filho pródigo que entenderia isso. Eu escolhi o meu filho pródigo que entenderá.

O Vidente encarou o Rei, mãos postas entre os joelhos e cenho franzido. Por fim, levantou-se.

- Avisaremos aos outros?

- Já o fiz. Saulot avisou a Samiel. Os outros farão o mesmo - Respondeu o Rei.

O Vidente levantou-se e abraçou seu irmão. Abriu a porta do refúgio e, antes da mínima luz das velas no corredor adentrar a sala, o Rei se tornou um com a Escuridão.
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Viagem

em Dom Jul 08, 2018 7:26 am
Ontem eu estava com Illyas, meu criador, meu amigo, meu pai. Conversávamos sobre o tudo que o tempo afeta e como nós afetamos o tempo. Viajamos pelas eras e nos maravilhávamos com a evolução da humanidade, confesso que apesar do deslumbramento momentâneo, eu me entristecia logo após, pois, os homens ainda carregam o fardo de Caim e matam-se por motivos cada vez mais banais. E isso não é, não foi e não será diferente conosco. Vi o surgimento e a queda de impérios, que já caíram, que ainda existirão e que ainda se fazem presentes. Para mim, isso é tão importante quanto o desabrochar de uma flor. Nada mais me espanta.

Enquanto observo agora os hebreus atravessarem o mar vermelho e os egípcios os perseguindo para matá-los, sei como termina, é melhor sair daqui. O ar ficou frio. Estou sentado observando as estrelas. Sei exatamente quanto tempo a luz de uma delas leva pra chegar aqui e quando ela se for a humanidade não existirá mais.

Hoje é um dia triste. E quem diria que a bíblia tem verdades escritas nela? Acabo de ver o pobre Pedro negar Jesus pela terceira vez. Como é triste o seu semblante. Jesus, o Salvador, está preso e seu maior crime é o de amar a humanidade que o escarna. Será que ele sabe o que eu sei? Seu olhar encontra o meu e ele apenas acena positivamente com a cabeça enquanto um chicote estala em suas costas arrancando pedaços de sua carne e o faz sangrar. Como é doce o cheiro de seu sangue.

Continuo caminhando. As ruas fedem a sangue, fezes e urina. De onde estou vejo o mar e as mais que chegam na costa desta cidade. Os cainitas romanos estão chegando para destruí-la, já que a gloriosa e imponente Cartago, o sonho dos Brujah e a maior lamentação da historia de uma família cainita, tornou-se um antro de depravação e de atrocidades pelos baali. O céu não ficou claro, hoje não amanhecerá em Cartago. Quem são os Brujah?

Minha doce Madeleine acabou de nascer. Ela viverá uma vida difícil até me encontrar. Seu berro ecoa por toda a cidade. Seu pai saiu de casa, frustrado por ter mais uma filha. Hoje ele vai morrer, após beber muito vai cair do cavalo e quebrar o pescoço. A família dele passará por uma penúria muito grande. A mãe de Madeleine vai prostituir as filhas mais velhas, uma tem quatorze e outra tem doze. Não viverão muito tempo.

É hora de dormir. As próximas noites serão decisivas para todos nós. O amanhecer é lindo daqui de cima. As nuvens refletem, douradas, a luz do astro rei. As gaivota grasnam em busca dos peixes. A brisa marinha toca minha carne que queima lentamente graças a luz do sol, mas, hoje ainda não é o dia do meu fim. Há muita coisa a ser feita.
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Khemet

em Dom Jul 08, 2018 7:31 am
O vento quente carregava partículas de poeira e morte, odores de terras longínquas que só podiam ser rastreados com um esforço sobre-humano. Nada que não fosse tão automático quanto o piscar para o cainita que, sentado na sacada de um imenso palácio em Khemet, vislumbrava o deserto além do Nilo, o amarelo-ouro mesclando-se com o verde dos campos cultivados e com o marrom da água. O Nilo, diziam os egípcios, era um deus, e desde que havia ali chegado o cainita, todos os dias, sentava-se naquela sacada e prestava-lhe reverência.

As sombras se agitavam sob a cadeira e nas paredes ao redor, iluminadas parcamente pela luz de tochas posicionadas providencialmente longe do vampiro. Resultado do seu estado de espírito ansioso e agitado, seus poderes, imensos, se manifestavam contra a sua vontade. O semblante era de um homem cansado, mas o fogo da excitação brilhava em seus olhos escuros e o fazia tamborilar, com os dedos, o braço da cadeira. O que esperava? Sob o comando indireto de seu Pai, Laza, estava aquele que provavelmente seria o maior império mortal jamais visto, que faria a Cidade de seus ancestrais empalidecer de vergonha. O que lhe faltava?

Os cheiros mudaram e o cainita se agitou. Odor de chuva e de fumaça, de um mar distante que lhe trazia de volta memórias de um tempo que ele nunca havia visto. Óleos e sândalo, azeites e frutas secas. Madeira, navios e fúria. Os sentidos do cainita estavam quase desorientados, até que ele percebeu a quem pertencia aquela combinação particular de odores. Seus olhos se encheram de lágrimas, o líquido carmesim transbordou e tingiu-lhe as bochechas pálidas. Sorrindo, olhou para traz e o viu.

O homem negro posicionado atrás da cadeira tocou-lhe os ombros. Os mesmos olhos, castanho amarelados, como os de um lince, perscrutavam agora a alma do cainita, não como um invasor indesejado, mas com a gentileza e cumplicidade de um amigo.

- Fizestes um bom trabalho. Esta terra prospera lindamente.

Sarrosh levantou-se e adiantou-se para abraçar seu velho amigo. O abraço foi retribuído com calor e afeto, o que confundiu, por um segundo, o Príncipe do Abismo. Entretanto, a mente de um cainita funciona por caminhos deveras misteriosos, de forma que Sarrosh formou inúmeras teorias.

- Onde estivestes, Amon?

- Aqui e ali - Respondeu o visitante. Aproximou-se do muro que os protegia de uma queda altíssima e contemplou, uma vez mais, as luzes noturnas da cidade- No Tempo além do tempo, e adiante, até voltar.

Sarrosh tinha centenas de perguntas, enfileiradas em sua cabeça, esperando para serem lançadas naquele vento quente que agora soprava. O sorriso nos lábios de Amon, contudo, lhe inibia, pois havia aprendido com os séculos a confiar na sabedoria daquele que tudo via. A maior das dúvidas era aquela que ainda permanecia, ainda que mil anos tivessem se passado. O que acontecera naquela noite?

- Eu lhe respondo, Sarrosh. Eu descobri, após várias noites, que a sutileza do tempo coloca todas as coisas, sem exceção em seus lugares originais.

E Sarrosh entendeu perfeitamente o que seu velho companheiro desejava dizer, pois longe ia a sua mente, flutuando através de caminhos desconhecidos para os cainitas menos poderosos. Não sabia, entretanto, se deveria estar feliz ou triste. As sombras deixavam, lentamente, de se agitar na sacada. O espírito do guerreiro se acalmava.

Sarrosh sentiu uma pontada de orgulho, somente para ser trazido de volta à realidade pela voz metálica de Amon.

- Não ria. Eu vi os resultados e eles são catastróficos.

Em silêncio permaneceram por longos minutos, unidos pela cumplicidade e pelas memórias de tudo o que haviam vivido. E, de repente, ocorreu a Sarrosh que os olhos de Amon brilhavam muito, e eram belos e ferozes, contrastando com um sorriso de um amigo. E ele viu ali uma beleza única, a beleza daqueles que tem em si todos os sentimentos do mundo. Somente ai ele entendeu a sua missão, e as sombras se dissiparam para nunca mais se mover sem que sua vontade as estivesse comandando.
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Akkad

em Dom Jul 08, 2018 7:33 am
Uma leve garoa caia sobre os ombros cansados de Sargão. Sem dúvidas era um excelente presságio, a chuva, ali naquela terra tão castigada pelo deserto e pelo calor. As muralhas da cidade de Ur, a maior do mundo, ainda fumegavam após o ataque do exército acadiano que, sob comando do jovem rei Sargão, havia invadido e conquistado a cidade.

Não houveram prisioneiros, pilhagens, estupros ou destruição desnecessária. Sargão era um rei ambicioso, sim, mas justo em seus atos. Aquele povo teria sua autonomia respeitada, seus direitos mantidos. Passariam a fazer parte do nascente império que o rei erigia pouco a pouco. Ur seria a jóia da coroa. Se ela caiu, pouca esperança restava para as cidades menores do Crescente.

Os passos na escada alertaram o Rei. Virou-se para encarar sua general, Ima, a mulher mais letal daquela região. Os olhos escuros dela eram atentos e expressivos, o longo nariz dava-lhe um ar violento. Os braços, cobertos de cicatrizes, mal se moviam enquanto andava e os cabelos curtos, cortados irregularmente, eram talvez a única demonstração de feminilidade. Ima se aproximou, curvando-se em respeito ao seu soberano. Depois, começou a falar.

- Meu Senhor, a situação está normalizada. Já nos reunimos com os comandantes mortais da cidade e eles aceitaram a ocupação, sem reagir, para que isso não gerasse mortes desnecessárias. Só nos falta agora discutir com os deuses daqui.

Sargão admirou sua comandante. Ima estava com ele desde que era um jovem príncipe, lutando para se diferenciar de seu pai e para merecer o lugar que o destino lhe havia reservado. Não havia, sob o céu, lealdade maior que aquela. Aproximou-se a beijou a fronte da mulher, num gesto gentil e carinhoso. Não havia paixão ou amor, somente um forte orgulho de ter em suas forças alguém com as características de Ima.

Ao longe via uma comitiva partindo em direção ao sul, à cidade de Larsa. Sabia que um dos deuses havia deixado a cidade, não demoraria para que os outros o seguissem ou tentassem matar Sargão. Pior, tornar-lhe um deles. Aquele pensamento assombrava e seduzia o rei à mesma medida. De fato a imortalidade seria uma bênção, faria com que fosse possível a ele defender a terra de seus ancestrais indefinidamente. No entanto, as histórias que ele havia ouvido, de monstros imortais bebedores de Sangue faziam seu sangue gelar. Qual seria o preço a se pagar por tamanho poder?

- Faça com que os comandantes os reúnam e os diga que quero falar-lhes, Ima. Trate-os com o devido respeito, não de conquistados, mas de soberanos. São mortíferos e perigosos, esses homens e mulheres. Ainda não sabemos se são aliados ou inimigos.

Ima aquiesceu com a cabeça e desceu as escadas da muralha, deixando Sargão sozinho. Através da memória, o rei reviveu os últimos momentos de seu pai. Sabia o que havia acontecido com seus tios décadas atrás. Seu pai era o filho mais novo de seu avô, jamais se pensaria que ele herdaria o trono de Akkad. Depois da chacina, quando os herdeiros reais foram assassinados durante a noite por um deus em pessoa, o destino entregou ao seu pai, e depois a Sargão o comando da poderosa cidade.

Durante toda a infância e adolescência Sargão temeu que sua casa fosse visitada pelo deus que matara seus tios. Temia a morte de seu pai e mãe, depois de sua esposa e filho. Somente quando se tornou rei foi que o estranho visitante apareceu.

Era noite alta quando, na sala do trono, Sargão percebeu estar acompanhado. Olhou para trás e viu o homem, alto e forte, com longos cabelos castanhos enfeitando-lhe o rosto como a juba de um leão. Os braços não eram musculosos, mas a altura e o porte davam ao homem uma força, uma presença jamais sentida pelo jovem rei. Os olhos esverdeados brilharam quando um estranho falou, duas únicas frases, antes de desaparecer sob o olhar atento do monarca de Akkad:

- Serás uma lenda, Sargão. Sob o teu nome construirei o meu império, que será teu e de teus descendentes, assim como dos meus.

Aquela noite nunca saiu da cabeça do soberano. Ainda agora, sob as muralhas fumegantes de Ur, se perguntava o quanto daquelas conquistas não havia sido por ser ele favorecido pelos deuses. Em todo caso, não importava. Havia chegado o momento em que Sargão de Akkad deveria reinar sobre todo o mundo conhecido. E ele estava pronto para isso. Havia nascido para isso.


Última edição por Regista em Dom Jul 08, 2018 7:58 am, editado 1 vez(es)
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Rei

em Dom Jul 08, 2018 7:55 am
Lazar estava há cinco dias na mesma posição. Sentado, as pernas cruzadas em posição de lótus. Estava nu e o corpo pálido, porém com um leve tom de oliva, refletia a única chama do aposento, uma vela feita de cera que tornava as sombras maiores do que realmente eram. Ou talvez fosse a presença dele ali que fizesse isso.

Seus filhos sentavam-se ao seu redor. Karotos, Tepelit e Tubalcain observavam seu Senhor, imóvel como uma estátua. Sabiam o que o Rei das Sombras fazia naquele momento. Sua consciência vagava o mundo fora de seu corpo, observando e ponderando as decisões que deveriam ser tomadas. Até mesmo Khanon-Mer, o mais impulsivo dos filhos do Rei, estava quieto naquele momento. Um lugar ao lado de Karotos, porém, permanecia vago, como se esperasse o retorno de um filho desgarrado.

Mesmo de olhos fechados Lazar continuava a observar seus filhos. Pode ouvir, estando sua mente dividida em dezenas de pedaços, cada um atento a um detalhe no ambiente e fora dele, a voz de Khanon-Mer.

- Sarosh não virá. Ele está muito ocupado com suas cidades para participar desta viagem do Pai. - Dirigia-se a Karotos, o primogênito.

Karotos deu de ombros, torcendo levemente os lábios.

- E o que você quer que eu faça, Khanon? Que vá buscá-lo e arrastá-lo pelos cabelos até aqui? Essas decisões cabem ao nosso Pai, não a nós.

Khanon-Mer apertou as mãos. A força daquele cainita era lendária até mesmo dentro de uma cidade de Deuses. Não tolerava a desobediência de seu irmão e manos ainda a passividade de seu Pai diante dos abusos e birras infantis de Sarrosh. O Clã da Noite, na sua opinião, parecia em franca decadência, preenchido por um Pai cada vez mais fútil e filhos cada vez mais incapazes.

- Cuidado com seus pensamentos, meu irmão. - Era a voz de Tubalcain a romper a escuridão e o silêncio - Tens o costume de pensar alto demais.

Khanon abriu a boca para responder, mas foi surpreendido, assim como todos os outros, com as sombras se desprendendo violentamente das paredes e passando a flutuar graciosamente pelo aposento. Observou o corpo de seu Senhor começar a enegrecer, tornar-se preto como piche e, numa fração de segundo, desaparecer como se houvesse sido engolido pela escuridão.

- Vocês devem cessar as hostilidades. Sabem o que está para acontecer nas próximas noites. O Pai estará em viagem, nós seremos a casa mais frágil. Devemos nos preparar. - O sábio Tepelit, o mais diplomático membro do Clã da Noite falou a seus irmãos.

Relutantemente todos aquiesceram. Levantaram-se no chão e começaram a deixar a tumba escura, através da qual só se podia com um formidável controle da escuridão. Tepelit, contudo, permaneceu alguns segundos. Mirava o chão onde seu Senhor estava sentado antes. A escuridão ainda permanecia ali, movendo-se, senciente, ainda que nenhum cainita a controlasse.

Sorriu e, adentrando as sombras ao redor, seguiu seu caminho.
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Era noite nas terras de Khemet. No imenso salão, corpos seminus estavam largados ao chão. O cheiro de bebida empesteava o ar, conjuntamente com o inconfundível odor do sexo. Uma festa havia acontecido ali e agora, no auge da madrugada, todos dormiam, ressonando em uníssono.

Todos menos um.

O jovem Príncipe observava na sacada da construção o curso do Rio Nilo. Era uma dádiva, um presente dos deuses para aquele povo. Seu pai, Menés, O Grande, havia unificado as terras ao redor daquela grande serpente aquosa, submetendo o norte aos seus desígnios e à sua incontestável liderança. No futuro, aquele jovem príncipe seria o herdeiro daquelas terras por vontade divina, sob o título que seu pai havia escolhido: Faraó.

Foi quando percebeu que não estava sozinho.

Virou-se para perceber um homem alto e esbelto, pálido como o luar e com longos e cacheados cabelos escuros. Sua pele parecia tremeluzir à luz das tochas, e ser ocasionalmente coberta por manchas escuras, como sombras, que iam e vinham. O príncipe soube, instintivamente, estar diante de um Deus. Ajoelhou-se.

Lazar aproximou-se, a mão estendida e tocou os cabelos crespos do príncipe. Depois, o fez levantar, permanecendo a um palmo de distância. O rapaz arfava cada vez mais aceleradamente diante do olhar do cainita. Lazar sentia o cheiro de sua juventude, de sua inexperiência e de seu desejo, acompanhado do cheiro de dezenas de outras mulheres e homens que haviam, no passado, estado com o jovem.

- É daqui que começa o Império. - Sentenciou o cainita.

A unha de seu polegar esquerdo cortou o pulso direito num movimento rápido e preciso. O Sangue não escorreu, isso só seria possível se Lazar assim o desejasse. Elevou o pulso sobre a cabeça do jovem e permitiu que uma gota, não mais do que isso, pingasse em seus lábios. O rapaz a lambeu, a expressão mudando diante do fogo que queimava suas entranhas. Desejou mais, porém Lazar recuou.

- Saiba, Enki, que tu e tua casa, tua descendência são, a partir de hoje, protegidos pelos Deuses. Khemet deve crescer e se tornar o maior império da terra. E, quando a hora chegar, eu retornarei em definitivo para levar-lhe comigo ao meu mundo. Até lá, torne-se sábio e seja um grande líder.

O Deus desapareceu depois destas ordens, numa torrente de sombras que subiu ao alto e, posteriormente, mergulhou no Nilo.

O jovem Enki voltou a se ajoelhar. Em sua boca o gosto doce do Sangue de um Deus. Mas aquele sangue também lhe modificava, ele podia sentir. Tornava-o mas inteligente, mais forte e mais veloz. Tornava-o o líder que Khemet precisava.
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Re: A História antes da História.

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