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Excursus - O Emissário de Deus

em Sex Jul 06, 2018 9:02 pm
- Estás distraído. Por isso o venço com tamanha facilidade.

Havia um sorriso na face dele. Era belo, o Emissário de Deus era belíssimo.

Diferia das características comuns do povo daquela região. Talvez fosse justamente a sua distinção que o tornava tão chamativo. Seus cabelos eram castanhos, longos e presos por um tecido negro, sempre cobertos por um turbante simples. Suas roupas costumavam ser de tons claros, assim como sua pele que refletia como o mais branco dos mármores. O nariz grande, alongado e curvo chamava atenção e contrastava com os olhos castanhos profundos. Haviam duas olheiras que, apesar de bem delineadas, não lhe tornavam menos atraente. Pelo contrário, funcionavam como um contorno natural daqueles belos olhos dourados.

Talvez sua beleza fosse suprimida somente por sua gentileza. Ah, como era agradável. Não havia um só homem, mulher ou criança em toda Massada que não o visse como aquele a trazer paz aos corações atribulados e força aos que dela necessitam.

A espada curva novamente deslizou pela lâmina de seu pupilo e se interrompeu antes de tocar-lhe o pescoço.


- O retorno a estas terras lhe corrói, Eli, filho de Yehuda.

Ele sempre o chamava desta forma. Por nome e descendência. Za’aphiel deixava claro que o legado paterno, para ele, importava.

- Tua espada será tão afiada quanto a convicção que a guia. Jamais te esqueças.

Ele sorriu e era como se o firmamento e tudo que há nele o acompanhasse em um sorriso singelo e fraternal. Em seguida ajoelhou-se e sentou sobre as pernas em uma postura comum e despojada. Seus pés descalços e o manto branco que vestia o tornavam simples, em pé de igualdade com qualquer um dos transeuntes daquela - agora - província romana.


- O treu treinamento se encerra esta noite, o teste final começa agora. Antes dele, peço-lhe atenção à fábula que lhe contarei.

- Haviam, em uma terra ressequida e fadigada pela falta de alimento, dois irmãos a viver na casa que seu pai os deixou enquanto vivo. O primeiro dos irmãos acreditava que o legado de seu pai - a casa simples em um monte pedregoso - deveria ser mantido. Que um dia as chuvas viriam e aquele solo amarelado pelo sol se tornaria verdejante. Pois assim o seu pai o havia dito.

- O segundo irmão decidiu deixar a tristeza daquele local para trás e aventurar-se abaixo do monte. Pois, segundo ele, o pai havia perecido de fraqueza e inércia em deixar o seu lugar para trás. E, assim, ele o fez.


- Ele, o segundo irmão, caminhou e desceu o monte. Vagou por terras ao longe e encontrou-se em meio à um verdejante local no qual construiu sua própria casa, encontrou uma esposa e gerou filhos. Ali, educou os seus e envelheceu. Antes de que a idade o impedisse de caminhar, resolveu retornar à casa de seu pai e rever o seu irmão. Ao subir o monte, seus olhos encheram-se de lágrimas.

- Havia água límpida a escorrer pelas pedras, vegetação alta e árvores frondosas e frutíferas. A casa de seu pai estava duas vezes maior e à frente dela crianças brincavam felizes. Encontrou seu irmão no interior da residência e compartilharam alimento de lá plantado. Conversaram por dias sobre suas vidas e famílias. O primeiro dos irmãos pediu que o segundo voltasse mas ele o respondeu que tinha ido longe demais e encontrado, por lá, o seu pedaço de mundo. Mesmo maravilhado com a mudança nas terras de seu pai, o que ele havia achado por lá o pertencia e fazia parte de sua história. Por lá ficaria.

- Então despediram-se, os irmãos, e floresceram cada um a sua maneira o mundo que cultivaram.


Ele fez silêncio. Os belos olhos castanhos derramaram poucas lágrimas carmesim. Durante os sete anos, Eli jamais havia o visto chorar. A voz, um tanto quanto embargada, continuou.

- Há uma vila em Massada habitada por romanos. Desejo que entregues uma mensagem ao seu morador e ouças o que ele diz em retorno. A tarefa, embora pareça simples, exigirá de vós controle. É apenas isso que exijo de ti para considerá-lo pronto: controle.
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Re: Excursus - O Emissário de Deus

em Qua Ago 01, 2018 7:37 pm
Sentiu a lâmina de Za’aphiel tocar-lhe o pescoço. Seu mestre tinha razão: voltar à Massada era tão dolorido quanto havia imaginado, se não mais.

- Sim, Mestre Za’aphiel. Voltar aqui é difícil.

Quando seu intelocutor se sentou, Eli ben Yehuda virou-se para o horizonte. Contemplava, ao longe, a antiga fortaleza erigida no alto de um platô, no meio do deserto. Ali pereceram quase mil homens, mulheres e até crianças. Não se renderam à Roma. Após um ano de cerco, decidiram tomar a própria vida, pois mais valia a morte do que a servidão.

Tempos depois, quando ainda estava em treinamento junto à Za’aphiel, Eli soube o que acontecera em Massada depois de sua partida. Primeiro, queimaram todos os suprimentos restantes e as plantações que haviam criado dentro da fortaleza. Não deixariam nada para os romanos. Em seguida, eliminaram todas as crianças que ali estavam... Eli só conseguia imaginar a dor das mães e dos pais, ao mesmo tempo que admirava sua convicção. Por fim, homens e mulheres tiraram a vida uns dos outros, pois o suicídio seria um pecado aos olhos de Yahweh. Quando Roma finalmente violou as muralhas de Massada, só encontrou os cadáveres dos mais nobres e dedicados entre o povo de Y’srael. Os homens e mulheres que o Império não conseguiu derrotar.

Os romanos espalharam a notícia por toda a Província. Muitos do seu próprio povo olharam para o que acontecera e viram ali um exemplo de fanatismo e extremismo. Mas não Eli. Eli viu no sacrifício de Massada o símbolo máximo da resistência do Povo de Y’srael.

Eli suspirou. Mesmo após quase uma década, ainda reproduzia vícios típicos do seu corpo mortal. Za’aphiel dizia que era um sinal de que sua humanidade ainda estava preservada, e que deveria zelar ao máximo para que assim continuasse.

- Não consigo deixar de pensar... Eu deveria estar ali. Deveria ter morrido ao lado daqueles homens. Por que eu fui o escolhido? Por que eu e não qualquer outro homem ou mulher mais dedicado e pío?

- Mas enfim, me escolheste. Não sei porque. E é com honra e convicção que aceitei esse caminho... Ainda que contemplar Massada me faça questionar meu lugar no mundo.

Eli voltou-se para Za’aphiel se sentou-se em frente a ele. Com atenção, ouviu a fábula que seu mestre contou. Ainda não sabia o que ela queria dizer, nem qual mensagem Za’aphiel queria passar com ela, mas absorveu cada detalhe. Ao final, viu a lágrima de sangue verter dos. Olhos calmos do Emissário. Com a própria mão, Eli gentilmente as enxuga. Sorri, com os olhos igualmente marejados do líquido vermelho.

- Não há nada que eu possa dizer além de agradecê-lo, Mestre Za’aphiel. Ensinaste-me muito mais do que eu julgaria ser capaz de aprender ao longo de sete anos.

Eli ben Yehuda se levanta. Vira-se novamente em direção à Massada. Havia de fato um povoado no que antes fora o acampamento montado pelos romanos, para organizar o cerco à fortaleza.

- Agora só me resta cumprir meu último teste. Entregarei a mensagem que quiser ao tal morador.
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