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Excursus - A triste partida

em Sex Jul 06, 2018 5:52 pm
O doce cheiro de vitae fresco inundava as narinas do neófito.

Há poucas noites trazido para a eternidade, o curioso estudioso apertava os olhos e aguçava o olfato ao apreciar os primeiros goles daquela taça. Seu corpo tremulava de forma leve e contínua, ainda acostumava-se ao êxtase do sangue. A maldição lhe trouxe um prazer jamais experimentado. Curioso, pensava, como a morte continua a lhe surpreender. Perdeu-se, inclusive, do contexto daquele diálogo que se seguia ao seu redor.

No átrio da villa de seu Senhor, os dois anciões debruçavam-se sobre uma discussão infindável e, a seus jovens olhos, tediosa.


... - Helena deixou a Capital em recentes noites por este motivo. Não surpreende, porém preocupa. Uma cisão neste momento será desastrosa. Dois dos grandes nomes já nos deixaram e caminhamos, noite após noite, para um êxodo senatorial...

Era um estranho homem, aquele. Cabelos longos, embora afilados, vazios. Poucos fios juntavam-se e algumas falhas eram vistas revelando o escalpo mais alvo que o restante de sua pele da face. Os olhos eram pesados, pareciam carregar as dores do mundo enquanto sua boca terminava de pronunciar o discurso.

... - Ainda esta noite procurarei Lisandro. Talvez ele consiga articular uma reunião nas próximas noites para que possamos costurar novos acordos. Marcus Verus é superestimado. Miguel é absolutamente desequilibrado, não devemos permitir que a cadeira de Helena o pertença. Ela, com todos os seus pormenores, é sempre mais razoável desde que o passado não se envolva nas decisões futuras. Tenho falado constantemente, Dionysius, e tu tens ouvido com a parcimônia que lhe é característica. Não me disses, ainda, qual a tua posição. Isto me inquieta.

Era velho. Dionysius habitava um corpo senil que, ironicamente, lhe conferia um ar de sabedoria notório e respeitável. Mantinha os olhos enrugados voltados para a taça nas mãos de Appius. Sua cria o fazia sorrir, por inúmeros motivos. Era um sorriso fraternal que retirava todas as preocupações do mundo daqueles que o viam e, aquele sorrir encontrou o olhar do jovem capadócio quando este se ergueu desprendendo-se - finalmente - da sensação orgásmica do gole de sangue.

Breve como o sono diurno, aquele sorriso se desfez quando o olhar de seu Senhor voltou-se para o seu interlocutor pouco antes de suas palavras imbuídas de uma voz rouca e cansada se fizesse ouvir.


- Tenho total acordo, Senador. Camilla está introspectivo e inacessível. É quase incompreensível sua reclusão dos últimos meses. Citastes o desequilíbrio de Miguel e a fuga política de Helena. Oras, é notório que há algo a escapar de nós, Senadores, no que diz respeito as relações pessoais do Imperador para com o Clã da Rosa. Isto sim surpreende e preocupa. Lisandro, como a voz do Senado, não me parece inclinado a intervir diretamente.

- Ainda sim, busque-o. Cabe a ele atuar como lhe apetece e a nós buscar alternativas. Sabes tu, Addemar, que suas palavras chegam aos ouvidos de quem escolher procurar. Talvez caiba a vós reunir os demais. Tens o meu voto, quando o momento chegar.


Sorriram. Eram sorrisos pesados, carregados de tensão que habitava o ambiente durante aquela conversa entre iguais políticos. Addemar levantou-se e cumprimentaram-se demoradamente. Se pareciam, Addemar e Dionysius. Talvez se o primeiro tivesse alcançado os anos mortais do segundo, fossem tão próximos em aparência quanto em ideais para Roma.

- Deixo-o agora meu caro Dionysius. Buscarei Lisandro e os votos de que precisamos.

O Capadócio novamente destinou um singelo sorriso a seu filho sentado diante daqueles cainitas políticos, antes de o indicar.

- Galerius, sejas benevolente e acompanhes o Senador Addemar até a saída. Pouparás minhas velhas pernas da caminhada e desfrutará, um pouco mais, de tal ilustre presença.

Caminharam pelo átrio lúgubre da vila de Dionysius. Era um local simplório e de parcos ornamentos. A iluminação por tochas ritualísticas era mantida baixa, quase fúnebre e pouco alcançava os jardins que divisavam a construção das muralhas que a guarneciam. No caminho de pedras brancas, Addemar parou.

Parecia lembrar-se de algo aos olhos de Appius. Fez menção de retornar mas estacou. Aqueles pesados olhos encararam o do jovem Capadócio e, sorrindo, ele lhe disse:


- É para as futuras gerações a quem toda essa balbúrdia será confiada. Certa vez assim foi para nós, quando éramos jovens a caminhar pela noite. Sejas paciente conosco, Appius. Somos senis e de ideias retrógradas. Somos pálidos e cansados. Somos falhos.

- Somos e tentamos aparentar não ser, noite após noite.


Ele tocou as mãos de Appius singelamente. Era magro, um tanto quanto debilitado aquele homem, embora fosse simpático em contraste a seu olhar dolorido. Despediu-se e deixou as muralhas da propriedade de Dionysius, deixando também o recém-trazido para a noite Appius Galerius Buteo perdido no contexto das preocupações daqueles antigos cainitas.

Quando retornou, Dionysius estava de costas a observar um pergaminho desembrulhado em suas mãos. o velho cainita levou uma das mãos ao rosto, ainda voltado para o lado contrário de Appius e em seguida embrulhou o papiro com certa velocidade assim que notou a aproximação de seu pupilo. A rouquidão que lhe é característica permanecia, mas sua voz tornou-se austera e firme.


- Arrume teus pertences. Avaliei vossas capacidades e postura em noites passadas e dei-me conta da monumental falha ao escolher-te como meu discípulo. Deixará esta vila e se manterá longe de meus afazeres, dos quais me distrai e desvirtua.

Seu olhar era duro, pesado, quase violento como nunca antes visto pelo neófito.


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