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Re: O Trono Negro

em Ter Maio 29, 2018 5:22 am
Mesmo diante da exasperação de Amon, Ilyias permanecia calmo. O grande salão já se encontrava quase vazio, com os últimos cainitas que ali estavam deixando a sala quando da fala de Amon, possivelmente para permitir que cria e Senhor tivessem um pouco de intimidade. Ilyias se levantou, aproximando-se de Amon. Sua presença era calma mas, ao mesmo tempo, colossal. Ilyias parecia absorto, com um olhar perdido e vago. Parecia quase triste. Segurou a mão de Amon entre as suas quando finalmente estava diante de sua cria.

- Um dia entenderás. Compreenderás a dimensão da maldição que nos atinge, Amon. Não somos somente incapazes de sentir, mas somos, também, incapazes de nos interessar. Me esforço, todas as noites, para ser o Pai que esperas que eu seja. Mas é muito, muito difícil, e temo que não se tornará mais fácil com o avançar dos milênios.

Apertava a mão esquerda de Amon entre as suas. A acariciava com calma. Amon sentia que era um gesto mecânico, como se fosse repetido por alguém que sabe que aquilo tranquilizaria um interlocutor, mas que não compreendia a necessidade de realizá-lo. Sentia, porém, que Ilyias parecia se esforçar.

- Eu estou aqui, Amon. Estarei sempre aqui, contigo. No teu Sangue. Talvez um dia possas perdoar as minhas escolhas falhas. Talvez não. Mas saibas que eu não os abandonei, nem a ti, nem a Belit e nem aos mortais que nos adoram. E é por isso que confio em ti para protegê-los, seguindo para Mashkan-Shappir com Ya'rub e Japhet. Porém, não há nada que eu possa fazer para enfrentar a minha própria natureza. Sou o que sou.

Deixou que as mãos de Amon escorressem entre as suas. A cria viu, no fundo dos olhos do Senhor, uma fagulha de amor e de orgulho. Era uma chama fraca, sutil, que parecia se apagar mais e mais.

- Siga para encontrar Sutekh, para que ele te proteja antes que você siga para Mashkan. Carregue contigo o meu amor e não se preocupe comigo: não há nada que demanda a minha atenção. Esta é, exatamente, a minha Maldição. Espero que os efeitos dela sobre você não sejam tão graves quanto o são sobre mim. Seria uma tristeza que você perdesse aquilo que te caracteriza.


*Se Amon quiser dizer mais alguma coisa, deve fazê-lo aqui. Depois, deve seguir para o tópico de Nippur.*
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Re: O Trono Negro

em Ter Maio 29, 2018 10:52 am
O cheiro de sangue tornara-se insuportável para Amon. Percebeu, de repente, que estava só no salão há alguns momentos. O cheiro de sangue vinha de sua face. Lágrimas ainda escorriam vertiginosamente. Uma dor o corroía por dentro, uma dor que nunca passaria, ou talvez, passaria e ele sequer notasse que ela existia.

Amon maldisse o primeiro dezenas de vezes. O odiou pelo que fizera a Illyias, por tê-lo tirado dele e de seus irmãos, antes mesmo que eles nascessem. A maldição imposta pelo primeiro, fora demasiadamente dura e cruel para com Illyas. Dentre todas as maldições, a de seu criador fora demais. O que motiva uma criatura a continuar a não ser as suas emoções e seus interesses? Como passar uma eternidade assim? - Pensava Amon, enquanto subia enraivecido os degraus do salão negro que levavam até o ponto mais alto, até a cadeira de Caim.

Amon deu um forte golpe no trono, quebrando-o em duas partes. Abaixou-se, pegou uma das metades e a arremessou salão abaixo. Seu ódio era tamanho, que decidiu arruinar aquele salão, aquela lembrança de quem sequer tinha pisado naquela cidade. Ele concentrou seu poder e seu ódio para canalizar o tempo ao seu redor. Seria um tempo destrutivo, avassalador.

Enquanto o tempo passava ao seu redor, o brujah urrava em fúria e destruía com as próprias mãos. Satisfeito com o resultado e com o ódio já descarregado, Amon seguiu ao encontro de Sutekh.
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Re: O Trono Negro

em Ter Jul 10, 2018 8:01 am
Amon caminhava decidido pela cidade de Nippur. Estava satisfeito por ter ouvido, uma vez mais, o riso de seu criador. Apesar de existir uma satisfação, de dever cumprido, ele não sabia definir com exatidão qual era a sensação que sentia no momento. Passou pelos mortais e como sempre, ouviu o que eles tinham a dizer, escutou as suas suplicas e pedidos, tal qual era a sua tarefa. Amo menos acreditava que era. Ao chegar na entrada do Trono Negro, hesitou. Aquela ode ao pai sombrio o irritava, apesar de não conseguir externar sempre este sentimento de ódio por aquele que, sem moral alguma, condenou seus netos sombrios, logo ele que matara o irmão.

Ele entrou na estrutura, pensando no ódio que conseguira canalizar na ultima vez que ali estivera. Pensou que desta noite, independente do que acontecesse, seria ele o primeiro a romper aquela falsa paz e trégua que existe entre os irmãos. Ele mostraria a todos os presentes, dependendo das circunstancias, o verdadeiro criador daquelas aberrações malditas, os Baali. Ainda lembrando do ódio que sentia, pela segunda vez na noite, sentiu os fios do tempo desenrolarem-se em sua mente. A princípio, a escuridão o tomou. Não havia sons nem luz, apenas o escuro. Sentiu-se envolto em por terra, como se estivesse enterrado.

De repente, como se algumas minutos houvessem passado, e de fato havia. Uma multidão se aglomerava num grande espaço, em frente a uma colossal estrutura. Haviam homens nesta estrutura, com seus instrumentos musicais, afinando-os. Quando os homens começaram com suas performances, a multidão agia como se fizesse parte de um único organismo, hipnotizados pelo sons emitidos por instrumentos que não existiam em seu tempo.

Amon sentiu a presença "deles". Eles andavam entre os mortais, como se fossem um deles. Passavam desapercebido. O sangue de Caim estava tão diluído que mal se podia sentir o cheiro, talvez devido a grande concentração de mortais. Talvez. Eles não o perceberam. Estavam tão extasiados com o Show, do Metallica como captou em suas mentes, assim como captou um pensamento obscuro, algo que mudaria a organização política daquela cidade. Ou pelo menos, tentariam. Começara a chover torrencialmente e as pessoas pareciam enlouquecer com aquela chuva.

Amon manteve-se distante, apenas os observando e ouvindo o som, cada vez mais enérgico em sua mente.


"Hey
I'm your life
I'm the one who takes you there"


Amon se viu em seus pensamentos. Eles ficaram nervosos, receosos devido a sua natureza e poder, que sem qualquer esforço, emanava dele.

"Hey
I'm your life
I'm the one who cares"


Havia um deles que o observava atentamente, apesar do medo. Entre os cainitas, o cheiro deste era o que mais se acentuava e, para o espanto de Amon havia o cheiro de sua família nele.

"Hey
I'm your life
I'm the one who cares"


E o espanto maior era que o outro cainita pressentia isso, pois, sentia-se atraído por ele. Apesar do medo crescente, aproximou-se, mantendo uma mínima distancia para com o antigo.

"They
They betray
I'm your only true friend now"


Balthazar era seu nome, um antigo membro da Camarilla que havia se rebelado contra a seita em prol de sua família, que segundo ele, vivia sob o julgo da seita. Os "brujah", como Amon pôde captar da mente daquele cainita, estavam divididos, separados pelo mundo. Não havia uma liderança nem um unificador e pelo que tudo indica, o temperamento explosivo, sua fraqueza maldita, os impediam a se organizar sob uma única bandeira. Os outros ali presentes também eram descendentes do pai. Estavam ali para tomar aquela cidade da seita que um dia fizera parte.

"They
They'll betray
I'm forever there"


Amon soube naquele momento que o futuro de sua família era sombrio, pelo menos até aquele momento. Ele se perguntou se mais uma vez agiria por sua família. Amon se perguntou quando foi a outra vez.

"I'm your dream, make you real
I'm your eyes when you must steal
I'm your pain when you can't feel
Sad, but true"


O antigo notou mais uma presença, desta vez significante, destrutiva como o tempo. Virou-se rapidamente e o que viu reviraria seu estômago, caso fosse vivo. Ali, olhando-o fixamente estava Amon, sem qualquer expressão, mas, com um desejo assassino latente, que pôde ser sentido como se fosse palpável.

"I'm your dream, mind astray
I'm your eyes while you're away
I'm your pain while you repay
You know it's sad, but true"


Começaram então os gritos. A multidão se espremia e corria, ou ao menos tentava correr, para todos os lados. Por um instinto de preservação, os cainitas ali presentes pensaram em fugir, mas, foi em vão. As gotas de chuva pararam no ar. O tempo, ali naquela bolha, parou. Não haveria escapatória, para qualquer um que ali estivesse. Amon caminhou até o seu outro eu, uma possibilidade que ele ainda não havia experimentado, sem entender o porquê daquilo.

"You
You're my mask
You're my cover, my shelter"


Ambos cruzaram o olhar. Enquanto acreditava que deveria proteger os seus o outro acreditava que deveria destruí-los, eram uma escória e deveriam ser eliminados.

"You
You're my mask
You're the one who's blamed"


Os corpos dos mortais começaram a cair, um atrás do outro, enquanto os brujah se olhavam assustados. O tempo começara a passar rápido demais. Diversas noites se passaram em alguns segundos. Amon horrorizado pelo que seu outro eu havia feito, tentava reverter o processo, contudo, parecia não saber fazê-lo. O cheiro de putrefação começou a invadir suas narinas. Os mortais que tiveram a infelicidade de estar naquele local, morreram de inanição. Já os cainitas, caiam um após o outro, em torpor, pois, com a voraz passagem do tempo, seu corpos esgotaram-se do sangue que os mantém acordados.

"Do
Do my work
Do my dirty work, scapegoat"


O outro Amon sorriu, mecanicamente, para ele. Seus dentes alvos, numa boca demasiadamente aberta, larga.

"Do
Do my deeds
For you're the one who's shamed"


Sua voz soou em sua mente e como parecia fria e desprovida de emoção. "Por mais que tentemos Amon, é isso que nos tornaremos.

"I'm your dream, make you real
I'm your eyes when you must steal
I'm your pain when you can't feel
Sad, but true"


Amon gritou furioso, muitas vidas foram tiradas naquele lugar e quantas outras já não teria tirado em outros momentos? O barulho dos vermes comendo os corpos em decomposição o irritavam, lembrando-o a cada segundo o que ele, será que realmente era ele, estava causando aos mortais e aos seus iguais.

"I'm your dream, mind astray
I'm your eyes while you're away
I'm your pain while you repay
You know it's sad, but true"


...

Amon se dá conta que acabara de entrar no trono Negro. De sua testa vertia uma quantidade incomum de suor rubro. Inconscientemente ele respirava ofegante. Era a primeira vez que sentia-se mal ao vislumbrar uma possibilidade. Algo deveria ser feito, ainda nesta noite.
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Re: O Trono Negro

em Ter Jul 10, 2018 10:44 am
- Estivestes longe.

Amon, girou-se, as têmporas rubras de Sangue, para encarar seu tio Malkav. O Pai do Clã da Lua o observava calmamente, um olho cinza e outro castanho. A face de anjo expressando uma ternura palpável. Malkav era belo, mas continha uma força terrível e uma Visão inigualável. Vestia-se de formas simples, com uma túnica acinzentada. Seus pés estavam descalços.

- Veja.

Apontou para o braço direito de Amon. O membro, na região que ia do pulso até o cotovelo, estava enrugado, necrosado. Amon não sentiu dor ou incômodo, mas somente com muita dificuldade conseguia movê-lo. Tinha uma aparência horrível e um odor de putrefação semelhante ao que tinha sentido durante a sua visão, quando os incontáveis corpos apodreciam no chão molhado e escuro.

- Sua ligação com este mundo está se esvaindo, não está? Estás a se tornar estático.

Malkav passou por Amon. Tocou de leve o braço atrofiado. Se deteve para encarar o chão, no exato local onde Amon tinha parado quando tudo escureceu e ele viajou.

- Veja.

Apontou para o chão. Ali, o Sangue de Amon tinha banhado a terra e se juntado, formando letras rústicas, mas que podiam ser lidas com um pequeno esforço.

"A ti
Que estóico observou
Que se omitiu e permitiu
Cabe experimentar a omissão
Para Todo o Sempre."


- Nenhuma Maldição é sem motivo, não é? Mas alguma ignoram os motivos e as ações que levam à ação que desencadeia a Maldição.

As palavras afundaram no solo de barro, desaparecendo. Malkav ignorou Amon, e seguiu para a parte interna do Trono Negro. Amon o seguiu, confuso do que tinha experimentado. Em sua mente, Malkav havia passado por ele e o cumprimentado, informando que Ventru havia convocado todos os outros a comparecer àquela reunião. O havia abraçado, Malkav, e dito que o tinha em profunda estima e consideração, e que lamentava o seu sofrimento.

No centro do Grande Salão, Ventru estava de pé, conversando com um cainita mais alto que ele, mas que Amon desconhecia. Era um homem da planície, forte e com porte régio, com olhos escuros e cabelos bem cortados igualmente negros, que podiam ser vistos quando ele girou-se para cumprimentar os recém chegados. Ventru apresentou a Malkav sua nova Progênie: Sargão, Rei de Akkad, abraçado, segundo ele, para que Akkad se vinculasse a Nippur quando a guerra viesse. Malkav pareceu desinteressado e voltou a olhar para Amon. Sorria.
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Re: O Trono Negro

em Ter Jul 10, 2018 9:26 pm
Amon ainda confuso com as últimas palavras de Malkav, ficou atordoado. Acabara de "viajar" e não sabia distinguir se estava no presente ou se estava vivendo através das possibilidades do tempo. Num momento, Malkav lhe fala sobre maldições e sobre a sua estaticidade, no outro, ainda sente o abraço terno de seu tio e as palavras dele ainda ecoam em sua mente, dizendo-lhe o quanto era estimado.

Acompanhou com os olhos o encontro dos irmãos e do novo maldito, que havia sido trazido por Ventru. Ao contrário de Malkav, não demonstrou desinteresse, muito pelo contrário. Sorriu também, fitando os olhos multicoloridos do antigo.


Saudações meu Ventru. Os lábios de Amon mantinham um sorriso, que para qualquer observador atento perceberia que era forçado e ao mesmo tempo doentio, apesar de seus olhos se manterem inexpressivos. Sei que não é de minha competência falar sobre isso, ainda assim falarei. Não houve pausa para resposta, como se aguardasse uma autorização. Prosseguiu, num tom irresistívelmente sarcástico. Estranho para Amon, que parecia ser incapaz de usar tal tom. Apesar do período não ser propício ao abraço, me parece que a proibição que nos é imposta me parece a cada dia mais estimulada a ser quebrada por vós, os antigos. Nossas famílias crescem e com este crescimento, nossas divergências e afinidades. Tempos de guerra se aproximam e o pior, pelo que pressinto, uma guerra infinita, que vai além do nosso confronto com os habitantes de Mashkan. Além disso, peço-lhe com todo o respeito meu tio que, para a manutenção da paz entre nós,ainda que seja breve, seja pedido por vós que é naturalmente nosso líder maior, que o criador destes malditos se revele. Ele precisa nos dizer como combatê-los e, caso o senhor não o faça, ainda assim, todos saberão nesta noite. De uma forma ou de outra. Amon voltou a caminhar, abandonando aquele pedaço de terra manchada com seu sangue. Enquanto caminhava, escondeu sob o manto seu braço necrosado, os outros não poderiam saber, se já não soubessem, os efeitos que o seu poder lhe cobrava. Ainda estava assustado com o que vira e também pelo efeito imposto ao seu corpo. O sorriso ainda era mantido. Perturbador. Estático. Seja bem vindo, primo meu, a eterna noite. Que tuas ações sejam tão sábias quanto a seu criador. Amon parou ao lado de Malkav. Enquanto aguardava a chegada de seus iguais, pareceu desisteressado, indiferente aos outros dois. Em sussurros perguntou ao tio.

Podes me dar um conselho? Por onde devo iniciar minha caminhada rumo ao conhecimento, meu tio?
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Re: O Trono Negro

em Qua Jul 11, 2018 5:20 am
Ventru escutou as palavras de Amon com muita atenção. Amon sabia que o mais velho era respeitado por sua sabedoria e astúcia. No entanto, sentia que algo pulsava dentro de Ventru, uma força contida, como um rio que encontra barreiras naturais e, ao não conseguir passar, condena toda uma região a um seca terrível. Ventru, no entanto, assentia diante das preocupações de Amon, genuinamente interessado. Quando o Filho de Ilyias terminou, Ventru voltou-se em direção a Sargão.

- Filho meu, este é Amon, filho de Ilyias. Observe-o, respeite-o e aprenda com sua Sabedoria.

Ventru, então, tornou a observar seu sobrinho.

- Eu estive pensando, Amon. Estive pensando e discutindo com meus iguais sobre a possibilidade de suspender o édito que vos proíbe de gerar progênie. Não podemos e não devemos condená-los à solidão na eternidade, como nos foi comandado. Não podemos retirar de vocês a possibilidade de encontrar, em um outro, paz de espírito. Naturalmente, isto deverá ser discutido com meus irmãos, mas lhe adianto, desde já, que a minha posição é favorável ao fim do édito.

Ventru sorriu. Havia algo nele que gerava uma ternura em Amon. Havia beleza e tristeza, como em uma despedida.

- A guerra, por mais que não desejemos, está em nossa natureza, Amon. É impossível e infrutífero tentar evitá-la. O que se pode realizar, com diligência e disciplina, é diminuir sua gravidade, as perdas que ela pode gerar. Trazemos isto de nossas naturezas mortais, o belicismo, a violência. E somos condenados a permanecer assim pela eternidade. Somente através do autocontrole podemos diferenciar o verdadeiro do falso, o que importa daquilo que é desnecessário. Conheça a si mesmo, Amon. Terás um papel fundamental nos anos que virão.

Ventru sorriu uma vez mais. Seus olhos eram opacos.

- Sobre o outro tema, eu repito. Nós não temos informações sobre quem tenha sido o responsável pela criação dos Baali. Simplesmente não temos. Eu não hesitaria em ordenar, sob a autoridade e auspícios dos meus pares, a destruição de quem quer que seja o responsável. Mas não sabemos. É um direito teu buscar a Verdade e, em em caso de sucesso, expô-la aos seus pares e a nós. Mas, de imediato, lhe advirto: mesmo o teu Senhor hesita em usar dos Dons que foram concedidos a vocês para buscar tal resposta.

Ventru fez uma breve saudação a Amon e tornou ao seu assento. Dois de seus irmãos, Arikel e Capaddocius adentraram o salão. A Escultora parecia transtornada, possivelmente por ter sido informada sobre o destino de sua cria. Dela emanava um ódio terrível como as tempestades, embora Amon não soubesse identificar o alvo. Continuava, não obstante, dona de uma beleza divina, fora de qualquer padrão ou limite. Era impossível desgrudar os olhos de Arikel, e Amon o fez somente em razão do que sentiu com a entrada de Capaddocius.

Amon não tinha afinidade particular com outros mundos que não fossem o seu próprio em Possibilidades diversas. Mas sentia, inequivocamente, que algo estava para acontecer. Algo grandioso e terrível, que teria implicações gigantescas e o único que parecia sentir o mesmo, graças ao pesado semblante no rosto pálido, era Capaddocius.

Malkav, antes de rumar ao assento para cumprimentar seus irmãos, respondeu a Amon.

- Pelo Leste, mas não tão distante. Rumo ao Norte, mas se detendo onde não é frio. Mar e ilhas, fogo e montanha. Os frutos não nascem, os animais abundam. Ali, alguém te espera.


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Re: O Trono Negro

em Qua Jul 11, 2018 8:52 am
Amon baixou os olhos, sentindo-se um tolo ao falar naquele tom com Ventru. Ao ver os outros entrando, manteve-se parado ao lado de Malkav. Esforçou-se para sorrir genuinamente, enquanto ouvia as palavras do sábio tio, irmão de Arikel.

Agradecido pelas palavras de ambos os tios, Amon virou-se para Ventru e pronunciou-se, com a voz já isenta de ironia e carregada de humildade.


Sábias são suas palavras e grande é a tua liderança entre os teus, meu tio. Lamento verdadeiramente o tom e a forma que me dirigi a ti. Não sou digno de tamanha consideração de sua parte.

Ilyias, assim como eu, afasta-se lentamente da realidade e a sua hesitação na verdade não passa dr seu estado atual. Nada para ele é importante, ou não era. De todo modo, sei as consequências que o poder que carregamos acarretam, contudo, o preço será pequeno, considerando que conheceremos o autor de tal disparate. Além disso, tal como aconteceu em nossa última reunião aqui neste salão, onde fomos provados por Malkav e sua sabedoria ancestral, assim será exigido de vós.
Amon deteve-se. O que diria a seguir poderia ser considerado como ofensa aos genitores daquela cidade. Com a sua permissão meu tio, usarei meus métodos. Para que eu possa alinhar um vínculo empático maior com o tempo, necessitarei do sangue de todos vós. E espero que com a tua liderança, guia seus irmãos até esta decisão. Amon mais uma vez calou-se, pensativo, analisando as feições de todos os presentes. Para ele, aquela sensação de urgência que irrompia de seu peito, significava que seus tios já não se sentiam tão presos a Nippur.

Enviado pelo Topic'it
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Re: O Trono Negro

em Qua Jul 11, 2018 9:44 am
- Não há o que desculpar, Amon.

Ventru sorria com os olhos, mas a face permanecia séria. A tristeza que ele sentia era tão grande que parecia sufocar Amon, tirá-lo de sua condição amaldiçoada e fazê-lo sentir um mínimo de empatia.

- Minha liderança é falha e vacilante, mas me esforço todas as noites para que ela seja cada vez mais adequada. Nenhum preço, porém, é pequeno. Atenderei teu pedido, e creio que também atenderão meus irmãos, quando aqui estiverem.

Capaddocius fixava Amon, os olhos escuros e as sobrancelhas grossas arqueadas. Não parecia se opor ao pedido do Filho de Ilyias. Arikel, sentada em seu trono que era mais claro do que todos os outros, parecia também aquiescer. Foi Malkav, porém, quem respondeu ao pedido de Amon.

- Eu me oponho. Se meus irmãos decidirem por aceitar, concederei meu Sangue, mas de início me oponho. Tenho medo do que poderá ocorrer contigo, Amon.

Parecia extremamente... lúcido.

- Algumas vezes o passado é melhor observado através do presente. Não somos as únicas forças deste mundo, e nossas capacidades são pálidas diante das poderes que regem o Tempo.

Capaddocius olhou para Malkav antes de proferir uma última frase.

- A ovelha segue, ainda que sem a liderança do pastor.
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Re: O Trono Negro

em Qua Jul 11, 2018 2:28 pm
Era quase o zênite da lua quando todos, finalmente, se encontraram diante do Trono Negro de Caim. Nippur estava silenciosa, calma, ainda que o influxo de refugiados começasse a chegar na cidade. Isto era devido, em partes, à fina chuva que havia recomeçado a cair. As nuvens pesadas e os relâmpagos, contudo, prenunciavam que uma nova tempestade estava a caminho.

Abaixo do Trono Negro, os fundadores de cada uma das famílias já estavam sentados. Ventru se encontrava ali desde o início, a vasta cabeleira alourada presa em um rabo de cavalo, os olhos vazios, tristes. Ao seu lado, Arikel, furiosa e bela como o sol da manhã, os cachos rubros a cobrir-lhe parte da face, dando-lhe uma aparência mais bestial que o de costume. Malkav se sentava distante de ambos, olhos perdidos, como se vislumbrasse algo que não estava ali. Completava o grupo Capaddocius, a pele pálida refletindo os relâmpagos quando estes ocorriam.

A geração sucessiva de cainitas adentrou a sala, pouco a pouco. Faltavam alguns deles, responsáveis pela escolta dos mortais que deveriam ser protegidos em Nippur, notadamente Orthia, Veddartha, Lamdiel e Khanon-Mer. Japhet também estava ausente. Os Filhos de Haqim, todos eles, concentravam-se em um único ponto, diante do Trono que normalmente era ocupado por seu Pai. Era visível que eram, agora, a família mais numerosa em Nippur: dois novos cainitas figuravam entre os já conhecidos. A família de Ventru também havia crescido, um jovem homem observava tudo e todos com intensa curiosidade. Dos Filhos de Arikel, somente Tammuz estava presente. Hrorsh, a bela e inocente Rayzeel e Samiel esperavam Saulot. Caias Koine estava separado de todos, encostado em uma das paredes do salão, o corpo ainda se recuperando da batalha. Dos filhos de Laza, à exceção de Khanon, se encontravam todos. Sarosh também exibia marcas profundas.

A novidade real era garantida pela presença de dois cainitas que a maior parte dos presentes desconhecia. Um homem alto e de porte de guerreiro estava quase que no centro exato do salão. Tinha longos cabelos escuros que alcançavam a cintura. Estava nu, exceto por um saiote de couro e sandálias. Sua aparência era estranha, alienígena, claramente não pertencente à planície, com seus olhos escuros rasgados. Os mais velhos informaram os mais novos que se tratava de Hukros, Filho de Ennoia, aquela que havia deixado Nippur há quase um milênio atrás. O outro era um homem negro, forte e corpulento, com uma forte aura mágica. A cabeça era raspada e tatuada em quase todos os pontos. Os olhos eram castanho avermelhados, brilhantes e cruéis. Vestia-se à moda de Khemet. Era Taweret, a voz de Sutekh.

Os Filhos d'O Estrangeiro foram os últimos a chegar: Gallod, Enki e um belíssimo homem com os cabelos mais avermelhados que os de Arikel. Havia estado na cidade há muitos séculos atrás, de forma que Sarosh e Amon o reconheceram. Era o Dracon, Filho mais Velho do mais estranho dos fundadores. Amon, aliás, estava ali há algum tempo, circundado de duas belíssimas mulheres: uma era Belit-Sheri, negra como a noite, e a outra era Anis, a mais nova de sua família, com a pele queimada de sol e inúmeras joias a cobrir-lhe o pescoço e os pulsos.

Os outros fundadores chegaram um a um.

O Estrangeiro, com a pele que emitia um leve tom de marrom, olhos dourados, cabelos escuros e sem movimento, lábios avermelhados. Ilyias, com um semblante sereno que contrastava com a beleza austera. Havia um brilho diferente em seus olhos, que poderia quase ser confundido com alegria e satisfação. Haqim adentrou em seguida, e todos sentiram um perfume de Vitae antigo e enclausurado, assim como o odor do deserto a invadir suas narinas. Haqim parecia, profundamente diverso, assim como pareciam os dois últimos a entrar, logo após ele.

A sensação de paz e harmonia se expandiu pelo Grande Salão quando Saulot adentrou, pele morena de sol, cabelos alourados como os de Ventru. Os olhos brilhavam intensamente, como duas esmeraldas gigantescas. Saulot era belo, mas estava ainda mais belo, imponente, impressionante, concorrendo com Haqim em grandiosidade. Assim como concorria o último, Laza, com a face séria, olhos escuros e cabelos que pareciam se mover sozinhos. A sombras se encolheram diante de sua presença, e a sala pareceu se tornar mais luminosa, como se toda a Escuridão fosse tragada em sua direção.

Sentaram-se. Ventru rompeu o silêncio.

- Lhes dou as boas vindas, irmãos e irmãs, filhos e sobrinhos, e os agradeço por atenderem a este chamado. Regozijo-me em vê-los seguindo na Noite Eterna...

Arikel interrompeu.

- Vá direto ao assunto, Ventru.

Ventru observou sua irmã por um segundo antes de continuar. Seus olhos passearam por Haqim, Laza e Saulot, com uma expressão razoavelmente estranha. Depois, direcionaram-se ao Estrangeiro. Este último sorria.

- Muito bem. Temos três temas extremamente importantes para tratar esta noite.

- Dois - Corrigiu Laza - Não dialogaremos sobre uma declaração de guerra, pois a guerra já está em nossas portas. Estamos em guerra, irmão meu.

Sua voz era fria, desprovida de emoções. Quase como a de Ilyias.

Ventru assentiu. Não parecia irritado.

- Os outros dois dizem respeito ao destino de Amarantha, progênie de Arikel, encontrada entre o inimigo e trazida prisioneira até esta cidade. O segundo tema diz respeito a um pedido de Amon, Filho de Ilyias. Antes, porém, desejo deixar o espaço inicial para que os nosso filhos se manifestem sobre aquilo que acharem necessário, sobre o que viveram nas últimas noites.

Foi a vez de Capaddocius interromper.

- Não temos tempo para isto, Ventru. Devemos...

Ventru golpeou o braço de seu trono de rocha, que se rompeu perante sua força. O som ecoou pela sala. Aquelas mãos pareciam capazes de romper as fundações da Terra. Se apenas ele assim o desejasse. Amon percebeu, com clareza, que o muro que represava o poder de Ventru apresentava diversas fissuras.

- BASTA! Se não escutarmos nossos filhos, aqueles que combatem por nós, que enfrentam a morte e o Inimigo, que tipo de governantes somos? EU EXIJO SILÊNCIO!

Caiu-se o silêncio. O mais profundo, mais sepulcral silêncio que jamais havia existido. Ventru se acalmou, os olhos haviam passado a uma cor acinzentada.

- Por gentileza, falem.
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Re: O Trono Negro

em Qua Jul 11, 2018 4:41 pm
Ya'rub adentrou o salão do Trono Negro junto de sua família. Ficou impressionado ao se dar conta de como eram numerosos agora. A Casa de Haqim crescia em número e poder. Outro fato o impressionou: não mais pertenciam à Nippur. Embora já soubesse isso desde a última conversa com seu Pai, estar novamente aquele salão deixou isso ainda mais claro. Estivera ali poucas noites atrás. Tratava-se exatamente do mesmo salão da reunião anterior ao início da guerra. O mesmo monumento à hierarquia imposta pelo Primeiro, o agricultor que queria ser o mais amado aos olhos de um dos muitos deuses da planície. O agricultor que não admitia ser menos amado do que seu irmão pastor e o assassinou. O agricultor que decidiu que, se não seria amado por seu deus, deveria ser amado e adorado por seus filhos, pelos filhos de seus filhos e pelos descendentes de seu terceiro irmão.

Sorriu ao se dar conta disso. No fundo, os desejos e métodos do Primeiro eram mais próximos dos senhores sombrios dos Baali do que se imaginava. Ambos queriam ser adorados pelo simples fato de existirem e serem o que são. Ambos só entregavam migalhas em troca da adoração eterna.

Talvez era essa percepção que os transformavam, a si e à sua família, em estrangeiros na cidade de Nippur. Uma sensação incômoda, e ao mesmo tempo reconfortante, de que Haqim e seus filhos não mais compactuariam com aquela farsa.

E poderia estar enganado, mas Ya'rub tinha a nítida sensação de que todos que entraram no salão do Trono Negro não eram mais os mesmos. Era como se algo - ou seria alguém? - havia se perdido - ou fora encontrado? - nas últimas noites.

Ao ver que Ventru havia lhes passado a palavra, mesmo diante da relutância de um de seus tios, Ya'rub se adiantou e foi ao centro do círculo. Fez uma breve reverência à todos. Sorria. Um sorriso mais amplo e mais vivo do que todos os outros que ostentara naquele local até então. Não temia absolutamente nada nem ninguém que estava presente. Primeiramente, dirigiu seu olhar e sorriso para Capaddocius:

- Não se preocupe, tio meu. Tenho pouco a dizer e serei mais breve do que a felicidade de Caim.

Voltou o olhar para Ventru. Sentiu o pesar que recaia nos ombros do seu tio. Por alguma razão, se compadeceu. Era como ver um rei ferido, que se esforçava para manter sua honra e era bem sucedido nisso, ainda que pagasse um alto custo.

- A última noite foi uma noite difícil, mas fomos bem sucedidos em parte daquilo que nos foi ordenado a ser feito. Após sermos recebidos em Mashkan Shapir por uma das crias do próprio Negral, fomos levados para uma armadilha. Com a ajuda dos amados primos que me acompanhavam - e de meu agora irmão Jamal - nos desvencilhamos da arapuca do inimigo.

- Em seguida, nos dirigimos ao local onde sabíamos que a tabuleta estava sendo armazenada. Ali, apenas um Baali ofereceu resistência. Ele foi incapacitado com facilidade e o artefato que buscávamos foi recuperado. Ainda assim, devo salientar que a presença de quem creio ser Nergal se fazia constante enquanto estávamos dentro das muralhas de Mashkan.

Ya'rub faz uma nova reverência, sinalizando que havia terminado sua fala.
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Re: O Trono Negro

em Qua Jul 11, 2018 6:38 pm
Aquele dia seria lembrado, para todo o sempre. Seria lembrado pela mudança. Seria lembrado pela tempestade que cairia lá fora, como nunca havia caído em Nippur. Seria lembrado pela coragem ou pela covardia de um dos genitores. Seria lembrado pela postura de pais que protegem seus filhos ou por aquele que deixaria seu filho definhar com o tempo e pelo tempo.

Amon olhou para seus iguais. Lamentou-se por não estar com seus primos, que lutaram bravamente. Sentiu o peito apertar ao ver Sarosh, seu amigo, ferido, com uma cicatriz que ele sabia que nunca desapareceria. Fitou Enki, o sábio, o espírito das águas. Como parecia um lago de águas calmas, apesar da tempestade que se avolumava. Ouviu as palavras de Ya'rub com atenção e mais uma vez se lamentou, por não estar lá. Sofrimentos poderiam ter sido evitados.

Ainda assim, ajudaria seus primos. Poderia ter estado ausente, contudo, faria o impensável para encontrar o ponto divisor. Ainda que houvesse de pagar caro. Desta vez, ele não hesitaria, em prol de sua família. Ilyias já tinha Troile para guiar o futuro de sua família. Ele não faria falta e se fizesse, já não importava. Seu dever agora, era finalizar o ciclo que era Nippur.


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Re: O Trono Negro

em Qua Jul 11, 2018 9:20 pm
Ouviu, em silêncio, o debate. As discordâncias e a exaltação. A ordem de Ventru e o olhar áspero de Arikel. A correção de Laza às palavras do líder e a interrupção de Capaddocius. Viu o desentendimento, a discordância e viu, também, a simplicidade das palavras de Ya'hub.

Aquele grupo adentrara à Mashkan-shappir, a Fortaleza da Dor, o covil do inimigo. Sarosh ouviu pesaroso as parcas palavras que deixaram a boca do Filho de Haqim. Se ele, líder do grupo destinado ao ataque nos pequenos vilarejos infernalistas havia visto, sentido e presenciado eventos anômalos e indescritíveis, perguntava-se o que aqueles que caminharam sobre o solo maculado daquela cidade não conheceram. Perguntava-se, também, porque não compartilhavam.

Sorriu, leve e discretamente. Era um sorriso, ironicamente, de tristeza.

Aguardou o silêncio e então caminhou para que pudesse ser ouvido. Daharius estava coberto somente da cintura para baixo, com um saiote negro e sem quaisquer adornos. Seu ombro direito enegrecido pelas chamas do inimigo ainda doía, queimava. Mas era a sua mente que o perturbava. As ideias conflitavam-se e geravam mais e mais dúvidas. Não era, nem de longe, o altivo e duro questionador que há poucas noites tomou a palavra naquele mesmo salão.

Sua voz ecoou baixa, polida. Deixara o enfrentamento e o tom elevado para trás. Isto não caberia, não mais.

Primeiro, seu olhos escuros como a noite direcionaram-se à Ventru. Sorriu.


- Exija mais. Precisamos que o faça.

Em seguida, olhou respeitosamente para Arikel. Não temia, sequer por um segundo, a besta predadora que emanava daquela criatura poderosa e ameaçadora. A fúria em seus olhos chegavam aos de Sarosh como uma dor lacerante. A dor de ter os seus feridos, gravemente feridos. Curvou-se. O Príncipe das Trevas curvou-se diante de Arikel.

- Me pesará por eras à frente, caso a elas sobreviva, a ausência no momento em que ele caiu. Despejes sobre mim tua mágoa e somente sobre o inimigo vosso ódio.

Ergueu a cabeça para fitar os olhos azuis  e profundos de seu Senhor. O Rei das Trevas estava, afinal, naquele salão. Sua ausência mesmo que breve o corroeu e, mesmo em sua presença, não o sentia como outrora. A ele, nada disse, não era necessário. Prosseguiu para que todos pudessem ouvir embora seu tom fosse brando, calmo. Era como se o líder altivo de outrora se ocupasse em explicar algo ao invés de determiná-lo.

- Inicio relatando o avanço do grupo responsável pelos ataques. Avançamos por entre os vilarejos inimigos munidos de poucas informações. A maioria delas colhidas por Nakurtum. Os vilarejos menores guardavam pouca resistência, apenas vampiros jovens que logo caíram perante os nossos. Medon, Mi-ka-il e Eu não sentíamos dificuldade em vencê-los. Não eram, até então, obstáculo.

- Descobrimos a partir dos derrotados, graças a ação de Tammuz, que algo grandioso ocorreria no vilarejo de maior porte, ao norte dos demais. Algo aconteceria abaixo da terra, um ritual profano que foge à minha compreensão. Avançamos e estávamos próximos da entrada quando surgiram.


Fez uma pausa. Houve silêncio. As lamurias e os gritos daqueles inomináveis seres percorreram suas memórias. Eram terríveis e ainda se faziam ouvir. Baixou o olhar e, somente após alguns instantes, o ergueu para continuar.


- O inimigo, um vampiro como, nós parecia controlar uma outra coisa. Era colossal, com corpos pútridos entrelaçados e mandíbulas por toda a extensão. Perdoem-me, não saberei dizer do que se tratava além de descrevê-la como um monstro que não deveria caminhar por esta terra. E, neste momento, meu Pai nos tirou daquele local.

- Combatemos, Laza e eu, os inimigos em uma terra longínqua coberta de areia branca e fria. Meu Pai tratou da criatura e eu me limitei ao vampiro. Como podem ver, a vitória nos custou alguma dor e...


Direcionou novamente o olhar para o Rei da noite.

- Talvez algo a mais.

- A partir deste ponto desconheço o que ocorreu com os que ficaram no vilarejo. Me alegra vê-los aqui, com exceção de Mi-Ka-Il. Sua recuperação breve é um de meus desejos mais urgentes. Responsabilizo-me inteiramente pelo fato, visto que a mim cabia a liderança.


Houveram mais alguns instantes de silêncio. Uma quase ode aos que sofreram naquela noite. Continuou.


- Sacrifício. É dele que estou a falar. As próximas noites - de Guerra, não se enganem - exigirá de nós cada vez mais e maiores sacrifícios. Nos sacrificamos por uma causa, por nossos criadores, nossos pares, nossos...

Sorriu, levemente.

- Nossos filhos.

- O fazemos atados por laços de dever, honra e amor. Laços esses que ameaçam-se partirem-se ainda esta noite.

- Eu vi o inimigo e o terror de que ele é capaz. Vi um futuro sombrio no qual ele, o inimigo, caminha livre pela terra. Eu vi, senti e, ainda sim, nada sei sobre ele além do pouco que colhemos com nossa própria dor.

- Noites atrás eu estava aqui a questioná-los e pressioná-los. Estava errado. Não conhecia suas dores, suas perdas, suas limitações. Afinal, somos falhos e não, não somos Deuses.


Sorriu uma vez mais. Não era desrespeitoso, era quase natural, singelo. Era como constatar a lua brilhante nos céus e contemplá-la e, então, deixar que os lábios desenhassem os sentimentos que as palavras não conseguem expressar.

- O Daharius Sarosh de noites atrás viria aqui clamando por sangue. Pelo sangue do traidor que compactuava com o inimigo e, mais ainda, pelo sangue daquele que criou o inimigo. O Sarosh desta noite compreendeu, enfim, que confrontá-los dessa forma não trará frutos.

- O que eu conseguiria? Uma noite de discussões, desavenças e ataques emocionados. Nada mais. Talvez eu acariciasse meu próprio ego cuspindo verdades - sim, verdades - sobre alguns de vós. Tolo. Eu fui um tolo. Perdoem-me tamanha fraqueza de caráter. Como posso acusá-los da falha quando padeço da mesma?

- Hoje compreendo o sentimento avassalador que os levaram a desafiar os vossos criadores. Aquele que os levou a nos trazerem para a noite eterna. E, padecendo do mesmo amor incontrolável, não tardará a noite na qual criarei o meu próprio filho mesmo que isso viole as leis desta casa. As leis, perante a este sentimento, são irrelevantes e nós, vossos filhos, somos a prova disto.


Lembrou-se das palavras de Khanon e silenciou, uma vez mais, antes de continuar.

- Então, meus Senhores. Mais velhos que nós e aqueles que detém o poder da real decisão, eu os peço que sejam menos tolos do que eu fui.

- Peço e não exijo, apenas peço pois a mim não é dado o direito de exigir, que o responsável pela criação dos Baali assuma o seu feito aqui, esta noite. Não para que seja condenado por nossos olhares jovens e estúpidos. Não para que sejas engolido pela fúria de seus pares. Não.

- Peço que o faça em prol da sobrevivência dos seus, pois, é ele o único a saber quem de fato é o inimigo. Como vencê-lo e como evitar o seu avanço. Tanto depende disso...tanto, que eu apelo para a moral que acredito existir em cada um de vós para que este se faça ouvir e nos guie para a vitória.


- O erro, ainda que discutível, não é sucumbir ao amor da criação. O erro é privar o mundo da chance de sobreviver e florescer para esconder uma falha de seu passado.

- Sou falho e, mesmo sendo forte - pois possuo a força da escuridão e da noite que o Pai me oportunou - eu sou fraco. Sou fraco ao ponto de não mais permanecer nesta cidade e sob vossos olhos se não puder confiar inteiramente em vós.

- Sou fraco, pois deixarei a todos neste exato momento se aquele que é responsável pela criação do inimigo não se fizer conhecer. Deixarei Nippur, meus irmãos e meu Pai. Deixarei a desconfiança gerada pela incerteza de suas motivações para trás e continuarei a lutar contra o mal que habita na Fortaleza da Dor. Sozinho se necessário for.

- Sou fraco. Mas sou forte o suficiente para seguir em frente.

- Eu lhes pergunto, meus tios, sois vós fortes o suficiente para assumirem vossas ações? Se não o forem...


Olhou Ventru.

- Exija que o façam. Exija, pois é o que esperamos de ti.
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Re: O Trono Negro

em Qui Jul 12, 2018 4:35 am
*Enquanto o riso do Dracon era mecânico, o de Enki era espontâneo. Mas ao passo que o do Dracon era cativante, o de Enki tinha algo de... perturbador.*

-Eu entendo o que diz sobre Nippur. Talvez o Pai tenha sido sábio ao nos ligar a nossos elementos. Como água, eu fiquei bem represado na cidade, ainda que eventualmente tenha meu próprio curso a seguir. Mas você? Ora irmão, não se captura ou prende o fogo. E mantê-lo na cidade, sem dúvidas, seria matá-lo. Ao menos matar quem vive dentro de ti.

*A viagem se mostra mais que uma oportunidade para conhecer o Dracon, mas talvez mais ainda para conhecer o próprio Enki. Ambos eram diferentes como o fogo e água que representavam, embora, felizmente, não fossem igualmente incompatíveis. O Dracon era exuberância, paixão e propósito, enquanto Enki era adaptável, inconstante e gentil. E ainda assim, os dois apresentavam uma estranha sintonia.*

-Sim, eu me mantive represado em Nippur, percebo agora. Talvez tenha sido mais fácil para mim, pois sou dessas próprias terras, mas tenho meu próprio curso a seguir, como um rio, não? E este curso invariavelmente me levará a Kupala. E me agrada muito que eu siga este curso ao seu lado.

*Era com felicidade que Enki voltava a Nippur. A noite passada havia sito tumultuada, e a Cidade dos Deuses era de uma tranquilidade bem-vinda. Mas ainda assim era uma visão carregada com um pouco de melancolia. Ele enxergava agora como Nippur era um projeto que havia falhado. A cidade dependia da autoridade dos descendentes de Caim para funcionar e agora a guerra com a Cidadela da Dor mostrava como essa autoridade, no fundo, era débil e frágil. Haveria guerra, haveria vitória, mas a realidade é que o mero fato da afronta dos infernalistas ter persistido por tanto tempo era a prova cabal de que Nippur era um experimento fadado ao fracasso. E se as comportas da represa estavam rotas, a água a deixaria e seguiria seu curso, assim como o próprio Enki.*

*Ele saúda Gallod entusiasticamente, com um abraço demorado, embora sua reação ao Dracon lhe deixe pensando por uns instantes. Talvez houvesse uma explicação. Gallod, até onde Enki sabia, não era iniciado nos mistérios de Kupala, não era um dos condutores da entidade, como o próprio Enki, o Dracon e Byelobog. Gallod amava Enki, e sentia que jamais se ergueria junto dos outros irmãos; pois era um Vidente enquanto os outros carregavam a própria terra em seus espíritos; eram vagantes, metamorfos, enquanto a Gallod era imposta a tarefa de ser constante, a grande tortura para um Moldador, de ser a voz de seu Pai enquanto Ele e toda sua progênie erravam pelo mundo. Enki agora via que era seu único conforto, e a presença do Dracon era uma ameaça a o bálsamo que julgava ser. Com estes pensamentos, Enki aprofunda o abraço. Era tudo que podia fazer, e o irmão não merecia nada senão a mais pura das gentilezas.*


-Dentre todas estas notícias, irmão amado, resta-nos comemorar pelos que estão bem. Eu não fui ferido, e nosso irmão o Dracon foi de imensa gentileza ao me ajudar em nome do Pai. *A próxima frase é quase um sussurro.* -Por favor, lembre-se sempre disso.

-Mas os feridos, e, principalmente, os que não voltaram, falam muito sobre o problema que enfrentamos. Devemos ir de imediato ao Trono Negro, irmãos. O próprio chão e ar se transformam à nossa volta, e não podemos nos afastar destas mudanças.

*Enquanto o Dracon contempla Nippur com receio, Enki aproveita para se dirigir a Gallod.*

-Eu vi coisas em Mashkan, irmão amado, que põem em dúvida muito do que foi construído aqui, mas talvez seja melhor dizê-lo diante de todos.

*Quando o Dracon por fim se decide, e se dirige ao templo de Sutekh, Enki o para e avisa.*

-Tenha em mente, irmão, que eu sonhei com o Dragão e a Serpente. Não posso dizer o que exatamente sairá deste encontro, pois a família de nosso tio é imensamente sábia, mais inescrutável. Posso apenas dizer uma coisa: o Dragão e a Serpente mudarão para todo o sempre a existência um do outro. Sua visita não será trivial, então lembre-se sempre do peso que cada palavra e ação suas carregarão ao longo das eras.

*Ele, enfim, segue para o Trono Negro. Por mais que os outros houvessem se reunido e descansado, Enki sabia estar atrasado, pois havia sido o último a voltar para Nippur.*

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*Quando os Moldadores enfim se encontravam no Trono, diante da realeza e divindade da Segunda Cidade, o primeiro pensamento que cruzou a mente de Enki foi alívio: Sarosh, Laza e Saulot estavam presentes, logo nenhum dos imortais de Nippur havia perecido na noite anterior. O segundo pensamento foi como o salão havia ficado diferente nas duas últimas noites. Nada se percebia fisicamente, mas a atmosfera era outra. Antes, acusações foram trocadas; Sarosh, em seus questionamentos, prenunciava o fim de todo o arranjo cuidadosamente construído em Nippur, e as tensões corriam altas. Agora, o que se sentia era apenas propósito. Haviam discordâncias, sim, mas a guerra trazia uma certa uniformidade ao ambiente, de uma forma que Enki jamais vira ao longo dos séculos. E mesmo Sarosh, Sarosh o Príncipe, Sarosh o Altivo, se mostrava contrito e isso, mais do que todo o resto, indicava como as coisas haviam mudado. Todo o salão havia ficado em silêncio após as palavras de Sarosh, e nada do que Enki dissesse poderia ter o mesmo impacto. Mas ainda assim, precisava falar. Ele se levanta, seus movimentos quase fluidos e ocultos em meio aos seus robes, e começa, numa voz surpreendentemente límpida.*

-Meus primos já explicaram o que havia de ser explicaram, disseram o que havia de ser dito. Pouco tenho a acrescentar, exceto que confirmo tudo o que pude testemunhar. Mas eu não poderia ficar em silêncio.

-Não poderia ficar em silêncio, tamanho meu júbilo ao saber que todos voltaram a salvo. Mi-Ka-Il está ferido, sim, mas seu único obstáculo é o tempo, e tempo é moeda pouca para todos nós.

-Não poderia ficar em silêncio diante de meu tio, Ventru. Ninguém mais criaria Nippur, ninguém mais manteria Nippur. Sob a égide de qualquer outro, a cidade seria um deserto ou um campo de batalha. Talvez ambos, mas também não poderia ficar silêncio quanto a uma coisa, por mais que doa em meu coração falar algo tão pouco gentil.

-Nippur não tem mais propósito. Ela foi feita ao mesmo tempo como abrigo, centro de poder e de união, mas do que adiantou? Como falar em união, se de nosso sangue saíram os infernalistas? Como falar em poder se as cidades Baali por tanto tempo estiveram de pé? Sua feitiçaria é rival, se não superior, à nossa, e eles não tiveram pudor, nem traço, de estender o alcance de seu sangue. Moloch, Nergal, tiveram suas crias próprias, e estas por sua vez também. E ainda assim o chão não se abriu, não choveu fogo do céu... Quando uma lei é quebrada de forma tão inconsequente, ela só mostra sua falta de propósito.

-Eu amo Nippur, minha família. Mas infelizmente não enxergo mais seu propósito. Ficarei em Nippur por toda a guerra, pois é Nippur quem deve sanar essa dívida, mas me entristece dizer que a cidade nos torna pequenos. Num mundo gigantesco, viver aqui nos apequena. Portanto gostaria apenas de dizer que, finda a guerra, deixarei estas muralhas, sem saber em qual noite as verei novamente. Mas até lá, sou seu fiel e dedicado servo.
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Re: O Trono Negro

em Qui Jul 12, 2018 6:43 am
Japhet não estava presente e, portanto, não poderia se pronunciar. Enquanto Enki falava, Caias Koine se aproximou. Pousou a mão direita, forte e amigável, no ombro do Moldador, atestando que concordava com suas palavras, que nada teria a adicionar. Tammuz deu um passo a frente, os olhos pareciam marejados de Vitae fresca.

- Meu irmão caiu e por isto eu sinto muito. Mas meu irmão caiu em batalha. Meu irmão caiu enfrentando as abominações que saiam daquele chão. Você não deve sentir-se em culpa, Sarosh, você nos guiou sabiamente e, em sua ausência, Medon lutou enquanto invocava teu nome para nos encher de coragem. E Mi-Ka-Il lutou até o Torpor sob a tua bandeira, e teve orgulho disso. Você não tem culpa, Daharius.

Medon caminhou através do salão. Alcançou Sarosh e tomou sua face entre as duas mãos, beijando-lhe a boca levemente. Olhou nos olhos do Príncipe do Abismo, por pouquíssimos segundos, mas nada disse. Sorriu e retornou ao seu lugar. Sarosh sabia que, em algumas tribos mortais, era um máximo sinal de reconhecimento e de respeito. Provavelmente Medon era oriundo de uma delas.

O salão se calou, pois Nakurtum havia decidido não intervir. E, não o fazendo, nenhum outro o fez.

Arikel foi a primeira a falar.

- Minha mais bela criação deixou este mundo, não se sabe por quanto tempo. Amarantha é prisioneira nos calabouços deste lugar. Ainda que isto tenha acontecido graças às suas escolhas, não posso deixar de lamentar. Por fortuna ainda tenho Tammuz, meu grande Amor, mas por quanto tempo? Rogo, meus irmãos, que esta guerra destrua vossas famílias como destruiu a minha, para que sintam a dor lacerante que sinto neste exato momento.

Os olhos da Escultora estavam marejados. Foi respondida por Laza.

- A guerra é uma constante, Escultora, e não é de nossa responsabilidade se desgraças atingem vossa família. Supere sua dor e seu pesar e concentre-se no que é importante.

A voz do Rei das Sombras era rouca, profunda como o mar que rodeava todas as coisas. Mas não bastou para acalmar Arikel. Seus cabelos de fogo pareciam vivos quando ela se levantou, golpeando o braço da poltrona como Ventru havia feito antes. O seu também se quebrou. Mas Arikel era tão poderosa que o trono começou a rachar até a sua base e continuou, abrindo uma pequena fissura no chão do Grande Salão.

- NÃO SE ATREVA A JULGAR A MINHA DOR! És cínico, Laza, nada importa a ti que não seja a tua própria satisfação. Por acaso você se preocupou com Ventru quando roubou Daharius dele? Você amava Daharius ou se preocupava somente em ferir profundamente o teu irmão? És desprezível.

Laza não se manifestou. O Grande Salão, quase que inteiramente, olhou para Sarosh. Tentavam medir o impacto que aquela revelação teria causado. Mantiveram-se em silêncio, alguns com olhos incrédulos. O olhar de Ventru alcançou, quase que imediatamente, o de Daharius Sarosh. O Príncipe do Abismo percebeu que Ventru queria gritar, destruir tudo o que tinha naquele lugar. Queria chorar e abraçá-lo. Laza, porém, permanecia impassível, também a observar Sarosh. Por fim, somente sentenciou.

- Eu tive os meus motivos.

Ventru interrompeu. Régio, altivo e poderoso, apesar da dor dilacerante que sentia em relembrar certos fatos. Uma dor que era evidente para todos no Salão.

- Senhores, nós não estamos aqui para discutir dramas pessoais, e sim nossos problemas coletivos. E isso nos porta ao pedido de Amon, que deseja utilizar de seus Dons, pelo que eu pude entender, para nos carregar até as respostas.

- Mas que não o fará. - Interrompeu Ilyias.

O Antigo se ergue de seu trono de pedra,  e se dirige ao centro do salão. A expressão era serena, bela. Havia uma certa paz em seus olhos e em suas ações. Era como se Ilyias tivesse se resignado, mas não em um sentido negativo. Como alguém que, após viver séculos preso na escuridão, finalmente vê a luz da lua e das estrelas. Olhou ternamente para Amon. Ilyias, que era cheio de Amor. O Ilyias de uma vida passada, daquela em que percorreu toda a planície ensinando a Amon as maravilhas do mundo, aquelas que existiram, existem e existiriam.

- Meu Filho não pagará por nossos erros nem pelos erros do Ancestral. Eu os levarei até onde é necessário. Lhes advirto, porém, que não posso carregar todos comigo. E que o vínculo entre Progênie e Senhor é extremamente necessário. Lhes advirto, também, que a loucura e dor incomensurável são possibilidades. Assim como a destruição definitiva. Mas, não se preocupem. Tais riscos recaem, majoritariamente, sobre a minha pessoa. Peço aos meus irmãos que escolham apenas um filho. Os outros devem deixar o Grande Salão. Eu sinto, realmente, mas são as condições para que os meus Dons funcionem.

Seguiu-se um outro silêncio. Saulot foi o primeiro a se levantar. Não questionou as palavras de Ilyias, não esboçou medo ou temor. Saulot estava em Paz. Escolheu Samiel. Saulot abria, como sempre, os caminhos rumo ao desconhecido.

Haqim escolheu Ya'rub. Ilyias a Amon e Laza escolheu Sarosh. O Estrangeiro pareceu pensar por um instante, até apontar o dedo em direção a Enki. Capaddocius, os olhos marejados de lágrimas como se soubesse o fim de tudo, apontou Caias Koine. Arikel se recusou a participar, deixando o Grande Salão com Tammuz. Malkav tencionou a seguir sua irmã, mas se deteve. Escolheu Lamdiel, que não estava ali. Ventru, por fim, escolheu Medon. Hukros e Taweret, na ausência de seus Senhores, não dispunham do vínculo necessário. Junto a todos os outros Filhos, deixaram a sala por alguns segundos. Deveriam esperar, sob pena de destruição sumária, e não pelos braços, mas sim pela própria natureza dos Dons, a ordem de Ilyias para entrar novamente no salão.

Ilyias instrui cada um dos antigos a descer de seus pedestais e a segurar as mãos de suas progênies. Ilyias segurou a mão de Amon e sussurrou no seu ouvido.

- De todas as Possibilidades, a única que não consigo ver e a única que me corrói é a Possibilidade de ter, uma noite qualquer, o teu Perdão. Espero obtê-lo. Eu te amo, meu Filho. Meu orgulho e minha fraqueza. Meu pequeno desbravador.

O Salão escureceu lentamente, mas não como nos Dons de Laza. Escureceu como num belíssimo por do sol. Era o Crepúsculo dos Deuses.

Luzes.

Luzes vinham na direção de todos. Mas não haviam muitos. Eram todos um só organismo dominados pelos Grandes Poderes. A Realeza trágica de Ventru. A Ausência amorosa de Laza. A Esperança de Saulot e a Força de Haqim. A Adaptabilidade de Loz. A Sabedoria de Laodice. A Visão de Malkav e, por fim, as Possibilidades de Ilyias. Tudo era fluído e deformado mas, ao mesmo tempo, rígido. No futuro, milhares de cainitas povoariam a Terra, cada um traçando suas linhagens aos Grandes Poderes. Mas Eles seriam esquecidos. Lendas, fábulas. Teriam existido? Os corações de seus Filhos sabiam que sim. A Terra se retorceu e se comprimiu, uma maçã que flutuava na palma da mão de Ilyias. Quão poderoso era Ilyias! Poderoso e Sábio, a ponto de saber que seu ciclo chegara ao Fim.

Sentiam-se acolhidos, protegidos. Os Ancestrais seguravam as mãos de seus Filhos. Como se fosse a última vez.

E então, o sofrimento.

Alguém sofria. Abandono. Tanto amava, a tudo amava, mas nada nem ninguém retribuía este amor. E o Amor se tornou Rancor, e Raiva e Ódio, e Vingança. Como se atreveram a deixá-la sozinha? Que cruel destino, mais cruel do que todas as coisas.

As luzes continuavam em meio à Escuridão. Ventru alcançou a mão de Daharius Sarosh.

Ruídos.

Saulot caminhava sozinho. Saulot derramava seu Sangue em um Poço Amaldiçoado e esquecido pelos Deuses. De lá, saíram abominações que fariam a Terra chorar de vergonha e de pavor, encolhida em um canto do vasto e profundo Universo.

Saulot havia tentado Amar.

- Eu não sou teu Criador, Sarosh, mas te amo profundamente e te amarei até o Fim do Ciclo. - Era a voz de Ventru. - Não odeie meu Irmão, pois eu sou incapaz de fazê-lo.

Saulot havia tentado Amar. E pagou por isso.

Era um Saulot obscuro. Cabelos negros esvoaçantes ao vento, olhos fundos, presas expostas enquanto seu Sangue vertia, uma quantidade impossível, no Poço Sacrificial. Saulot gargalhava e blasfemava conta Aquele Acima e Aquele Abaixo. Quem eram, diante de seu Poder? Mas o Poder não era seu.

Saulot continuava a viagem na mais completa Paz. Havia entendido, afinal.

Um céu sem estrelas e a figura alta, com longos cabelos escuros encaracolados, ria. Ria mas não tinha face. Era Poder encarnado, vivo, a contraparte, a consorte e a esposa. A Segunda Mulher.

Baharii Lilitu.

Loz era uno com Enki. Pensaram, ao mesmo tempo, pois eram a mesma mente.

- Assim como o Rio segue seu curso e o Fogo renova a Terra, permitindo as plantas de purificarem o Ar, eu prossigo. Eu vou além. É hora.

Ge-Hinnon.

Saulot tentava fugir, com medo da Abominação que havia criado. Sua mente colapsou e se fechou sobre si mesma. Ela o havia forçado a esquecer, até o momento em que fosse necessário lembrar, e o Filho Preferido de Cagn seria o pivô da destruição de sua Família. A Família que Cagn havia preferido Amar em seu lugar. E ela teria sua Vingança.

Haqim havia se dirigido a Ya'rub. Unos no Sangue, uma vez mais.

- Aconteça o que acontecer eu confio em ti para liderar a minha casa. Em ti. Somente, exclusivamente em ti.

Haqim era Sábio, mas Haqim tinha Medo.

Jyhad.

E ela regozijou entre a Bestas, e pariu muitas delas, que infestaram o mundo. E os Três a desafiaram, massacrando as Bestas que saiam de seu ventre. Mas Cagn não estava presente, e ela chorou, não pelos filhos mortos. Desejava vê-lo, mesmo que durante a guerra.

Ay Baharii Lilitu

Era o coro de centenas, não, milhares de mulheres que desafiavam a Rigidez.

Ay Baharii Lilitu

E Saulot chorou, pois não sabia o que fazer. Mas, mesmo com sua mente eclipsada, seu Espírito se lembrava. E ele foi o Primeiro a ir ao campo de batalha, guiado por uma dor que não entendia. Mas Saulot estava em Paz.

"O Velho se torna Novo.
O Sacrifício impede a o Fim de Shaal"


E ela foi detida, aprisionada para sempre por detrás da Realidade, condenada a gritar, sozinha, para sempre. Solidão. Um peso inigualável. Do seu ventre, contudo, continuavam a nascer as Bestas que vagariam pelo Mundo, e outras coisas, e ela regozijou-se na companhia destas Bestas. A Vingança, porém, jamais havia sido esquecida. Os Quatro Arcanjos seguravam as pontas do Véu que a cobria. Não a deixariam escapar. Era uma Estátua e uma Árvore. Um Pilar e uma Estrada.

No futuro, os mortais entenderiam tudo através de uma coisa chamada Tarô.

Ela gritava, se descabelava, e as mulheres arranhavam o Véu.

Ay Baharii Lilitu. Ay Baharii Lilitu. AY BAHARII LILITU!

Os Quatro Arcanjos, porém, eram firmes, enraizados no fundo da Terra.

Estavam parados, de pé, no Grande Salão. Sangue vertia de todas as testas. Tremores. Náuseas mortais.

Amon se sentia livre. Livre como jamais fora. O anseio de Sentir o fazia Sentir além do que ansiava. O espelho, porém, estava rachado e começava a se partir lentamente. Seu Sangue fervia nas veias. O dedo indicador de Ilyias era escuro e enrugado e esta putrefação se espalhava lentamente, milimetricamente, mas de uma maneira que Amon conseguia captar, pelo seu corpo.

O espelho se partia. Não era mais estático, mas também não era completamente fluído.

Não obstante, Ilyias sorria. Havia libertado seus Filhos. Eram livres para sentir o que haviam escolhido sentir.

Um eco.

Ay Baharii Lilitu.

Distante. Mas vivo.
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Re: O Trono Negro

em Sex Jul 13, 2018 11:55 am
Estavam de volta ao Grande Salão. Ya'rub ainda segurava uma das mãos de Haqim. Percebeu que o fazia com força, de modo que sentia os músculos da palma de sua mão doerem. Lentamente, ele solta seu mestre e toca a própria testa. O sangue vertia dali, ainda que não houvesse nenhum ferimento, nenhum orifício por onde ele deveria escorrer.

Com os dedos manchados com o líquido vermelho, ele leva o indicador até a boca, tocando sua língua para prová-lo. Sem dúvidas, era seu próprio Vitae. Mas havia algo diferente. Algo... antigo. Era como se aquele sangue possuisse milênios de idade...

Voltaram ao salão... mas haviam sequer saído dali? Ya'rub não sabia. Os mistérios do Tempo ainda lhe eram inescrutáveis.

Subitamente, como um turbilhão, as palavras estranhas que ouviu durante a Visão lhe voltaram à mente. Quase que como em um golpe físico. Ay Baharii Lilitu... Ge-Hinnon... Jyhad.... E a mulher. A imagem daquela mulher. Quem era aquela mulher? Queria conhecê-la. PRECISAVA CONHECÊ-LA!

O Grande Salão ainda estava em silêncio. Mas este foi quebrado. Uma risada leve, baixa, tomou o corpo de Ya'rub. Seus ombros balançavam incontrolávelmente, até que a risada se transformou em uma gargalhada maníaca. O Feiticeiro não tinha a sensação de que estava sendo possuído, mesmo porque o Mundo dos Espíritos também estava em silêncio. Ao contrário, era como se estivesse libertando qualquer demônio que residisse em seu corpo morto.

Era a sensação incrível de se deparar com parte da Verdade, filtrada pelos poderes de Ilyas. E a verdade que contemplaram era maravilhosa! Havia um universo a se descobrir e Ya'rub tinha toda a eternidade para fazê-lo!

Novamente, queria saber o que significavam aquelas palavras. Quem eram aqueles arcanjos? Quem eram as mulheres que entoavam cânticos?..... E QUEM ERA AQUELA MULHER? A imagem dela não saia de sua mente. Era impossível! Quanto conhecimento teria ela? Quanto poder? Quantas verdades sobre o Universo?

O nome Lilith... um nome proferido por um punhado de tribos da região de Canaan, no extremo oeste do Crescente Fértil. Teriam eles alguma resposta? Ya'rub sabia que eram as mesmas tribos que falavam sobre o Agricultor, o Primeiro Assassino.

Olhou para Saulot. Pobre Saulot. Nobre Saulot. Fora forçado - ou convencido - pela mulher a trazer os Baali para este mundo. Era ele que os infernalistas deveriam chamar de Pai. E a Mulher era a mãe. Mas o que isso significava agora? Saber que Saulot era a origem dos Baali era apenas um detalhe diante do que haviam contemplado. Havia mais... MUITO MAIS!

Finalmente, Ya'rub parou de gargalhar, mas ainda se sentia leve. Sorria. Sorria como nunca. Olhou para Haqim, seu Pai. E disse, com um sinceridade que nunca antes havia sentido:

- Obrigado.
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Re: O Trono Negro

em Sab Jul 14, 2018 11:12 am
Haviam retornado.

Nos olhos, emoções diversas. Alguns encaravam Saulot, expressões divididas. O Pastor parecia resignado, observando o piso do Grande Salão, cabeça baixa. Sua face, contudo, não era de surpresa, mas aquela de alguém que, tendo descoberto um grande segredo, parecia já intuí-lo. Foi o primeiro a retornar e sentar-se ao trono.

- Estou pronto para enfrentar o julgamento de meus irmãos. - Pronunciou-se.

Os outros permaneceram de pé por alguns segundos. A face de Ventru era a mais recoberta de sentimentos conflitantes. Sentou-se, após Saulot tê-lo feito. Parecia tentar equilibrar seus anseios, diante de todas as coisas que o havia atingido e diante do que seu irmão tinha realizado. Sua resposta foi breve.

- Ninguém te julgará, Saulot. Não agora. Precisamos discutir o que acabamos de viver, e o faremos entre nós. Precisamos, ainda, determinar o que acontecerá com Amarantha.

Parecia difícil, porém, que pudessem discutir um outro tema naquele salão que não o que havia sido visto com a ajuda de Ilyias. Ventru, porém, recordou a todos que ainda estava, em guerra. A sensação geral era de estupor: tinham dezenas de coisas a analisar, mas ninguém parecia capaz de fazê-lo.

Laza deixou a mão de Sarosh. Seus passos eram pesados quando retornou ao seu Trono. O fez em silêncio. Ilyias sorria para Amon. Se manteve, ainda, próximo à sua progênie. Malkav, de alguma forma, não parecia afetado ou surpreso pela revelação. Seus olhos de cores diferentes, porém, expressavam um medo desconhecido. Sentou-se. O Estrangeiro avançou em direção ao seu Trono, passos largos e decididos. Tinha uma expressão de triunfo estampada na face. Parecia diferente. O Estrangeiro era Loz. Aproximou-se de Saulot e limpou as lágrimas que escorriam de seu rosto.

- Você entendeu, enfim. Todos entenderão.

Haqim, por sua vez, permanecia impassível diante de Ya'rub. Haqim era o Dever e a Responsabilidade. Antes de retornar ao seu lugar, contudo, desviou seus olhos levemente em direção à passagem que separava o Grande Salão daqueles que esperavam do lado de fora. Haviam apenas acabado de sair. Sua voz de Sangue e Deserto ecoou, nítida, na mente de Ya'rub. Estava mais forte do que nunca fora.


- Você deve deixar o Grande Salão. Sob minha proteção e cobertura, Moloch se aproxima de Nippur. Você irá recebê-lo, em meu nome, do lado de fora de Nippur, pois o inimigo, ainda que útil a nós neste momento, não deve jamais pisar na Cidade Sagrada. Dele, e em troca de Tanit, tu extrairás tudo aquilo que precisamos saber. Esteja atento. Dos lábios do Inimigo escorre mel e mentiras. Vá.
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Re: O Trono Negro

em Sab Jul 14, 2018 12:56 pm
Desolado e em silêncio, recebeu o beijo de Medon.

O que viria a seguir o transformaria pela eternidade. Talvez, modificasse a própria eternidade.

As palavras de Arikel queimaram o seu interior de forma mais ardente e dolorosa que as chamas profanas do inimigo. Perdeu-se naquele ínfimo pedaço de tempo pois, naquele momento, perdia a própria identidade. Quem ele era? O orgulhoso e amado filho de Laza ou o pivô de uma disputa mesquinha que o privou do verdadeiro amor? Caminhava na escuridão dos dois caminhos, perdido e incerto de seus próximos passos.

Em seus olhos pesarosos habitava o vazio absoluto, tal qual o abismo de onde extrai a sua força. Era obscuro, frio e triste o seu pensar. Somente o tempo poderia trazer luz àquela escuridão. E, magistralmente, trouxe.

Uma luz tão fúlgida que o cegou para todo o resto. Quão fascinante, grandioso e, sobretudo triste, era Ilyas. Enquanto a existência se desfazia e refazia com as areias eternas e mutáveis carregadas pelo vento do deserto que é o tempo o arrebatavam em um espetáculo de poder e abundância, o segundo filho de Laza lamentou por Amon, pois vislumbrava o sofrimento de Criador e Criatura.

Estamos nós, todos nós, fadados à tristeza? É esta a maior de nossas maldições? Amar e perder e, ao contrário do tempo fugaz dos mortais, sofrer por estes durante toda a eternidade?

Quão triste era Ilyas. Quão pesado, dolorido e torturante poderia ser sofrer o mesmo que os demais e ainda mais, muito mais. Aquele vampiro amargaria o passado indeterminadas vezes, sentiria pesar e medo do futuro a cada instante e nada sentiria no presente pois, como poderia? Viveria preso no sofrimento que foi e que virá, impossibilitado de amar e sofrer o presente.

Quão triste era Amon, o que mais o amava. Alegrou-se, mesquinhamente, por seu sofrimento não se comparar ao dele. Amon, pobre Amon. Enquanto existisse, Daharius arrastaria o filho de Ilyas para o presente a qualquer custo. Desencadearia guerras e sofrimento, despertaria amores, nada seria grande ou caro demais para mantê-lo fixado no agora, em uma tentativa fútil de evitar que sofresse o mesmo que seu criador.

As imagens vieram, as palavras ecoaram como o praguejar maligno e dolorido do inimigo.

Saulot. Lilith. Ge-Hinnon. Jyhad.

Seu saber era limitado, mas bastava. Para isto, bastava.

Chorou e apertou firme as mãos de Ventru e Laza. A lágrima carmesim desprendeu-se de sua face e perdeu-se no vórtice temporal e, súbito como um despertar, vislumbrou um lapso possível e incerto do qual apenas sua mente despedaçada poderia enxergar.

Dualidade. Divisão.

Enxergou, das terras arenosas às planícies verdes, dos mares escuros aos lagos cristalinos, a descendência dos amaldiçoados traçarem seus cursos por uma disputa. Dois Reis, Duas Coroas, uma guerra eterna.

Sangue verteu de seus olhos negros e logo a sua própria sombra projetada pelas luzes oriundas do imenso poder de Ilyas o deixou. Estava só. Absolutamente só.

Caminhava sob o sol de um monte verdejante quando, acima de uma de suas escuras pedras um leão surgiu. Esplendoroso, grandioso. Possuía uma juba dourada e caminhava a passos pesados por entre a vegetação que parecia se abrir perante a sua presença. Enquanto todos os outros animais daquele lugar curvavam-se, somente a sua própria sombra ousava acompanhar os seus passos, em igualdade e desafio, como um reflexo escuro e distinto daquele magnífico animal.

A noite caiu veloz e a luz se foi dando lugar a escuridão que, juntando-se à sombra do Rei, levou consigo o dia e trouxe a noite. Haveria um próximo dia e, certamente, uma próxima noite.

Abriu os olhos e estava, novamente, no salão em Ode ao Primeiro. Não mais derramava lágrimas de sangue. Estas caíram, secaram e escureceram sobre a sua pele. Manteve as mãos de Ventru e Laza seguras, quando dirigiu-se ao primeiro.

Estava em paz. Falava com a tranquilidade da certeza e o tom da resignação.

- Lhe direi, Ventru, que és antes de tudo um forte.

- És forte em abundância por não ter despedaçado o teu irmão, assim como o Primeiro o fez. Não foi o amor a levá-lo à ação? Pois veja, somos capazes de amar e odiar com a mesma intensidade as pessoas, as coisas e até mesmo as crenças. És um forte, Ventru, e deves continuar a ser.

- Não procures nos teus o que eu poderia ter sido. Amas quem sou, mas somente o sou por ter sido criado por meu Pai. A dor desta verdade nos corroerá pela eternidade em uma busca tola por possibilidades que jamais se concretizarão. Mas, neste momento, eu vos digo:

- Não sou teu filho, Ventru, Rei acima dos Reis. Mas dos teus filhos eu extrairei o melhor e nada menos que o absoluto melhor.


Seus olhos obscureceram, enegreceram como o próprio abismo.

- Os incitarei, inspirarei, desafiarei e até mesmo os destruirei impiedosamente para que os melhores dentre os vossos possam surgir e reinar. Serei eu, o que não sou teu filho, a moldar toda a tua descendência.

Palavras que desconhecia e que notavelmente não pertenciam a seu tempo brotaram de sua boca.


- Serei o Magistrado a Julgar todos os teus.

Tocou o rosto Ventru, aproximou-o do seu e tal qual Medon havia feito há poucos instantes, beijou-lhe os lábios. Demorou-se. Havia verdade.

Deixou a mão do Rei de Cabelos Dourados e fixou-se na mão do Rei de Cabelos Negros.

- O amo, indescritivelmente. O amarei até o fim de minhas noites. Ao mesmo passo, o odeio de igual forma.

- Sentencio-te, Laza Omri Baras, e que a noite e todas as estrelas testemunhem: Passarás a eternidade na sombra de um amor que nunca lhe pertencerá. Todos serão fugazes, breves, passageiros e tristes.

- Quando acreditares que encontrou o teu escolhido, finalmente e após uma incansável e lacerante busca, então serás consumido por um amor que nunca será retribuído. Pois, na escuridão de teus pensamentos, saberás que o único a amar-te incondicionalmente jamais fora amado por ti de igual forma.

Deixou as mãos e a presença do Reis . Para Daharius Sarosh os julgamentos e decisões a seguir eram irrelevantes, pequenos e passageiros. Havia visto a luz e a sombra que se seguirá. Nada mais importava.
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Re: O Trono Negro

em Dom Jul 15, 2018 1:16 am
O amaldiçoado, em silencio, observou um a um dos seus primos, posicionando-se ao longo do salão, enquanto seus tios e senhores de Nippur, sentavam-se em seus tronos, de frente para suas crias.


Amon manteve-se calado, pois, não esteve com seus pares no campo de batalha. Ouviu atentamente suas narrativas e respeitou aqueles que se mantiveram em silencio. Viu o desespero e o egoísmo unidos no mesmo lugar, na mesma figura maldita que atentou contra a sua vida séculos atrás, quando ainda era um mortal.


A revelação colérica sobre o passado de Sarosh, em nada afetou Amon, que ao contrário dos outros, sequer o olhou. Aquele fato não era importante, na verdade, nada ali importava tanto assim, pois, todas as possibilidades levavam a destruição final naquela noite, em decorrência do uso do poder do sangue de Ilyias.

Aquele dia seria lembrado pela covardia ou pela coragem de um genitor.[i/]

Perdeu-se pelo tempo, procurando uma razão que explicasse o que havia mudado, já que seu senhor não só não permitira a sua intervenção como também o próprio se prestou a faze-lo. Embasbacado, Amon fitou os olhos de Ilyias e procurou em todas as tais possibilidades que seu senhor havia mencionado a instantes atrás. Realmente não havia uma sequer que ele o perdoaria.

Naquele exato instante o motivo da viagem perdera completamente o sentido. Seus esforços o trouxeram para ele. Uma vez mais. Toda aquela lamentação, todo aquele ódio direcionado pela mulher, canalizado em Saulot, resultaram nos Baali e em sua descendência inominável. E ainda assim, aquilo não era suficientemente importante, pois, naquele átimo de tempo, eles estavam juntos novamente, como na primeira noite em que se viram. Ilyias salvando a sua vida.

Lágrimas brotaram de seus olhos, enquanto um amplo e genuíno sorriso tomava forma no, ate entao, rosto impassível de Amon. Um calafrio lhe percorreu todo o corpo, ao notar que a visão havia acabado e, apesar da presenca dos outros, ele estava a sós com seu senhor. Seu amado senhor.

Amon sentira que algo havia mudado, sentia uma agonia, isso, essa era a palavra, agonia. Teu sangue fervia, um ódio crescente brotou em teu ser, como nunca havia acontecido antes. Sentiu ódio do primeiro, ódio da mulher que enganara ou seduzira Saulot, odiou Arikel por seu sentimento mesquinho e vil, odiou Laza pelo seu ato de egoísmo, mesmo Amon não sabendo seus motivos, e também, odiou os Baali.

Porém não surgiu apenas ódio, pelo contrário, todo aquele amor que julgava não mais sentir, havia ibernado dentro de si e, graças a Ilyias que havia cumprido a promessa da noite passada, apesar de não saber como, amou seu senhor com todo o teu ser e aquele sentimento deteve, por ora, a besta que pulsava vigorosamente em seu peito.

Amon tocou com a sua mão esquerda o rosto de seu mestre, enquanto a outra ainda mantinha a mão de Ilyias presa a sua. Acariciou-lhe o rosto e disse:


[i]Ainda que viajasse por todas as possibilidades e as vivesse intensamente, eu jamais teria vivido o que tenho contigo neste momento. Se não o perdoei, em todas as possibilidades que procurastes, era porque não havia o que ser perdoado. Nunca me ofendeu meu pai, meu senhor, meu amigo e meu mestre. Hoje sei que Esteves comigo sempre e, mesmo que se vá, e este dia chegará, ainda o manterei comigo. Seguirei teus conselhos, partirei de Nippur e conhecerei este Éden que nos foi confiado, após vencermos esta batalha, pois, a guerra como eu e tu sabemos, nunca acabará!


Amon foi tirado de seu transe pela gargalhada de Ya'rub, que ainda ecoava pelo salão negro. Amon ainda teve tempo de ver Sarosh soltando as mãos dos dois que pretendiam seu amor, infelizmente não ouvira o que foi dito e para ele, era melhor assim.

Seus olhos acompanharam Ventru, ainda resignado, sentir-se em seu trono, seguido pelos outros, com exceção de Ilyias. Amon empatizou com seu tio e lamentou pela dor que provavelmente ele sentia, por não ter trazido a tempo para si, o grande Sarosh. Entretanto, não havia tempo para pensar. Apesar de ser recente, Amon já experimentava uma sensação diferente. Olhou para Ventru e para os outros e falou:


Não sabemos quem é a mulher que enfeitiçou nosso tio Saulot e o forçou a fazer o que fez. Ele, que acima de todos nós, é um ser de nobreza indiscutível, intocável e que é a maior vítima, já que foi de seu sangue que tais seres ganharam vida. De toda forma, rogo para que meu tio não seja penalizado, creio que pensam assim como eu. Agora, quanto aos traidores e colaboradores, estes devem receber a punição prometida na reunião anterior. A destruição final.

Amon olhou para a porta e aguardou a entrada de Arikel. Ele sabia que ela havia ouvido a sua proposta. E ele sabia que a dor que ela já sentia ainda iria aumentar. E pela primeira vez, Amon gostava disso. Ela precisava pagar.

Enviado pelo Topic'it
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Re: O Trono Negro

em Dom Jul 15, 2018 10:40 am
*Ao ouvir o início, a discussão entre os Antigos, o anúncio de Ilyas e, mais importante, a fúria de Arikel o deixaram louco de antecipação. Sua carne pálida e translúcida tremeluzia como a superfície de um lago. Ele dá seu sorriso sobrenaturalmente amplo ao ouvir a verdade sobre Sarosh e como Ilyas revelaria a tudo, sorri ao ser escolhido pelo Mais Velho, sorri para o Dracon em despedida e, acima de tudo, sorri para Arikel. Antes que ela deixe o salão, Enki está na sua frente. Uma forma frágil e opaca em frente a fúria de uma mulher de forma que nem os infernos conheciam igual. E ele fala, numa voz baixa quase como um sussurro.*

-A dor é o que molda. Não é a beleza, não é o amor, todos esses são moldados, não moldam. Quando entender isso, finalmente será sábia.

*E ele toma seu lugar, ao lado de Loz, o Mais Velho que não era mais velho, o chamado de Estrangeiro que era como um lar. Quando começa a visão, Enki se sente uno com seu pai, e jamais conseguiria descrever a sensação, ou sequer entender o que sentia. Seu corpo era muito maior, ainda que tivesse o mesmo tamanho. Ele sentia o seu próprio sangue fluindo, de forma que nunca sentira antes. Na verdade, sentia que ELE fazia o próprio sangue fluir, num movimento constante. E sentia que seu sangue agora fluía ao contrário, num fluxo reverso ao ditado pela Natureza. Pois ao Estrangeiro foi dada a dádiva e o fardo de reescrever tudo aquilo que foi estabelecido pela ordem natural das coisas.*

*E quando vem a visão proporcionada por Ilyas, o que podia ele sentir? Como sentir, aonde sentir? Ele vê Saulot, amando, odiando, criando. E a mulher. Enki escuta apenas um nome: Lilith. Feiticeira dentre as feiticeiras, e, agora podia ver, a mãe de muito, e muitos. E de repente lhe vem o pensamento: eles eram pequenos. É claro que eram, ecoa o Estrangeiro que nadava por sua consciência. Somos criaturas pequenas num mundo grande, mas também somos muito mais do que isso. Estamos fadados a ser mais do que isso. Não estamos sozinhos no mundo, e isso faz de nós pequenos; para crescer, é preciso conhecermos o mundo. Para crescer, é preciso dominar, para dominar, é preciso conhecer, para conhecer, é preciso transcender. Nós. Somos. Mais. Todos eles tentarão, à sua forma, transcender além do papel que lhes foi dado, os que não conseguirem estarão fadados ao esquecimento. Vê Saulot. Vê como ele entende, vê como se torna mais. E vê ao seu redor, os que entendem e os que não entendem.*

*Quando acaba a visão, ele entende, e vê seus irmãos. Não podia mais chamá-los de primos, mas de irmãos, pois sua busca era a mesma, ainda que tão diferentes entre si. Era óbvio que Sarosh, Amon e Ya'rub entendiam, pois já eram mais.*

*Sarosh era o Príncipe, o Místico? Não, era o Magistrado. Não foi necessário que Ilyas e Amon mudassem o tempo, tudo já havia mudado ali; Sarosh era o filho de Ventru, e também era o de Laza, uma comunhão entre as duas famílias, que seria a sua própria. Ele podia ver agora, que Sarosh jamais olharia os irmãos de sangue da mesma forma, pois não eram mais seus irmãos. Também não seriam seus irmãos a progênie de Ventru, pois seria sempre o distante, sempre o outro. Sarosh agora era como um morcego, ele via: alado como os pássaros, mas com pelos como as criaturas do solo. Sempre e para todo o sempre sua própria criatura, e isso faria dele uma criatura solitária. Sarosh estava fadado a ser respeitado, temido, talvez até amado, mas sempre, sempre só. Isso lhe seria de uma dor imensa, mas essa dor o moldaria. O ajudaria a ser mais.*

*Ya'rub via o mundo na palma das suas mãos. Ele havia entendido, como Enki, o quão pequenos eram. E entendia seu caminho, como tinha mundo como seu para trilhar. Haqim, abençoado seja, entendeu isso no filho, e lhe deu as asas e ferramentas para que espalhasse seu legado. Ao confiar sua linhagem ao seu filho mais sábio, ele garantiu que tivesse uma linhagem para o futuro.*

*Amon estava livre. Era algo simples de se constatar, mas belo de se observar. Havia visto suas amarras, e por isso se debatido até destruí-las. E agora? Agora via o mundo com os olhos de um homem livre, e como isso o faria sofrer! Como o faria grande!*

*Arikel era menos, pois era uma escrava de si própria. E os outros, caberia ao tempo lhe dizer. Ele segue o Estrangeiro para cumprimentar Saulot, ainda que não lhe diga nada. As palavras do Estrangeiro também eram suas, ao menos enquanto a consciência de ambos ainda era una, embora já se esvaíssem, como água fresca em um solo ressecado. Finalmente, sentindo que era si próprio novamente, Enki pode falar.*


-Por que Saulot haveria de ser punido? Não vêem quanta sabedoria ele nos trouxe? Graças a Saulot eu passei minha existência como mortal em Mashkan-Shapir. Graças a ele, e seus atos, eu fui queimado e açoitado, minha carne dilacerada e meus ossos quebrados, e como eu lhe sou grato por isso! Agora eu entendo mais, e sou muito mais do que jamais poderia ser. Não, nosso amado Saulot abriu nossos olhos, e é por isso que dispõe de um terceiro em sua testa. Ao nos mostrar os Baali, ele nos mostrou a nós mesmos!

-E ainda assim destruiremos todos eles. Vamos destruí-los para entender a nós mesmos. Da mesma forma, entenderemos Amarantha. Entenderemos o que fez, por que fez... E enfim lhe faremos uma última gentileza.

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Re: O Trono Negro

em Dom Jul 15, 2018 1:58 pm
Ventru não soube o que responder. As palavras de Sarosh pareciam ter-lhe calado fundo, de alguma forma. Olhou no fundo dos olhos do Filho de Laza, retribuiu seu beijo. Mas nada disse. Apenas retornou ao seu Trono. Havia de finalizar o que tinha começado.

Foi Laza, por outro lado, quem se manifestou após ouvir as palavras de seu filho. Sua expressão, por um segundo, se manteve neutra. A face branca como giz não se movia diante das duras palavras de seu filho. Era como uma máscara, petrificada eternamente em uma expressão vazia. Então sorriu. Os dentes brancos apareceram, as presas estavam expostas. Eram enormes. Não era, contudo, hostil quando respondeu ao seu filho.

- Você tem razão em várias coisas, filho meu. No entanto, ao sentenciar-me, esqueces de um elemento fundamental sobre mim mesmo. Eu não busco o Amor.

Sorriu uma última vez. Deu dois leves toques no ombro de Sarosh, como um cumprimento que o Arauto sabia, de alguma forma, que queria expressar "Bom trabalho". Depois, retornou ao seu Trono.

_______________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

Ilyias tomou as mãos de Amon entre as suas. Uma única lágrima de sangue rubro verteu de seus olhos. O perfume preencheu o ar imediatamente, mas somente Amon o sentiu. Era Doce como Belit-Sheri. Tinha a Força de Anis e a Beleza de Troile. Tinha o Amor de Amon. Ilyias se moveu, por apenas um segundo, e as Possibilidades se moveram com ele. Tornou-se possível que ele tenha trazido à reunião um pequeno relicário de metal, com uma corrente de bronze que fazia às vezes de colar. Ilyias levou o pequeno objeto à face, coletando a lágrima furtiva. Tapou-o e colocou-o no pescoço de seu filho. Ao fazê-lo, sussurrou em seu ouvido direito.

- Sobreviva a todos eles.

______________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

Arikel não respondeu às palavras de Enki. Limitou-se a fixá-lo. E o Senhor do Abzu imediatamente se arrependeu de suas palavras. Quanta dor havia ali! Quantas perdas e derrotas! Arikel já havia sido moldada. Ela deixou a sala. Aquela seria a última vez que Enki veria a face da Escultora.

Saulot ouviu com atenção suas palavras. Diante da última frase de Enki pareceu recobrar parte de sua vitalidade. Acenou com a cabeça ao Filho do Estrangeiro.

______________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

Pelos túneis do Grande Salão, Ya'rub deixou a sala. Poucos segundos depois, os outros entraram. Cada um dos Filhos se colocou próximo aos seus criadores. O Dracon pousou a mão no ombro de Enki, Gallod fez o mesmo. Os Filhos de Laza, agora com a presença de Khanon-Mer, retornaram e puseram-se próximo à Sarosh. Nada questionaram. Belit-Sheri e Anis também retornaram à sala, Belit imediatamente tomou a mão do irmão com a sua. Abriu-se um espaço, quase que instintivamente entre crias e criadores. Perceberam que além Nakurtum não havia retornado. Em breve saberiam a razão.

Ventru se pronunciou.

- Amarantha foi encontrada em meio ao Inimigo. Informou-lhe sobre nossos números e nossos problemas internos. Amarantha banhou-se no Sangue dos mortais, cometendo excessos não perdoáveis. Amarantha é culpada de tudo isso pois assim foi visto em sua mente, em uma leitura realizada por mim e pelo Estrangeiro. E que foi confirmada por sua Senhora Arikel. Amarantha traiu o Sangue de Caim e do Sangue de Caim será privado. A morte é uma pena suave. Eu condeno Amarantha a passar a eternidade desperta, mas imóvel e privada do Sangue que maculou. E a minha sentença é irrevogável.

Capaddocius abaixou a cabeça. Era possível notar que o Senhor da Morte tremia, ao mesmo tempo em que parecia murmurar coisas incompreensíveis. Nenhum dos outros pareceu expressar particular sentimento de culpa ou nervosismo. Haqim, de fato, sorria levemente.

Não demorou e Nakurtum tornou a entrar, carregando o corpo de Amarantha para dentro do Grande Salão. Era belíssima, aquela Filha de Arikel, com sua pele de ébano, longos cabelos avermelhados e com colares e joias a adornar o corpo. Estava nua quando foi depositada no centro do salão. Nakurtum forçou seus olhos para que se abrissem, conforme havia ordenado Ventru. Podia ser sentido o ódio de Amarantha a atingir, em ondas, todo o lugar e todos os cainitas presentes. Era um ódio voltado a Nippur e a tudo o que ela representava. Ventru continuou:

- Abram-lhe ferimentos para que sangre.

Haqim interrompeu.

- Todo Sangue é sagrado, irmão meu, e deverá ser tratado como tal. Meu filho, Mancheaka, beberá do Sangue de Amarantha até que a fonte seque. Depois, a colocaremos no local onde vivenciará sua punição.

Ventru não levantou objeções. Todos os outros se mantiveram calados. Capaddocius parecia cada vez mais agitado. O Estrangeiro observava atentamente, olhos brilhantes. Haqim estendeu a mão, ordenando que Mancheaka o fizesse.

O Filho de Haqim se aproximou. Pareceu, por um instante, que tenha dedicado uma breve prece a Amarantha. Depois, fincou as presas no pulso da outra cainita.

E bebeu.

Bebeu por um tempo que pareceu infinito. Era observado por todos. Parecia calmo e comedido, como um carrasco que administra uma pena com precisão e limpeza. Era prerrogativa da Casa de Haqim administrar as penas, ainda que os julgamentos, casos raros em que ocorriam, cabiam ao conjunto dos Antigos. Por isso ninguém se opôs quando Mancheaka foi indicado, o mais velho da Casa de Haqim. E ninguém se opôs ao perceber que ele não parou, nem mesmo após o cheiro de Vitae deixar de ser sentido no ar. E Mancheaka continuou a beber, e bebeu mais fundo do que deveria. Bebeu o Sangue do Coração de Amarantha.

Deixou que o pulso da irmão caísse ao lado do corpo. Que imediatamente se desfez em uma fina camada de cinzas.

E Mancheaka gritou, e levou as mãos à cabeça. Não parecia sentir dor, e sua aura, visível para todos, faiscava em força e poder. Era como ver, por um breve instante, parte da personalidade de Amarantha, solar e comunicativa, além de poderosa, que parecia se apropriar de Mancheaka. E o Filho de Haqim se ajoelhou no centro do salão e, só então, os Antigos perceberam que havia algo errado. Mas seus Filhos também entenderam. A Verdade estava ali, óbvia, evidente, clara como a luz da manhã. Um cainita poderia beber todo o Sangue do outro e destruí-lo no processo, absorvendo parte de seus poderes e de suas memórias.

E Capaddocius também gritou. Gritou, pois o Mundo dos Mortos, ao qual era vinculado, se agitou em uma Tempestade infinita, que movia tudo e todos em seu caminho. Era como um turbilhão de almas massacradas e retorcidas, que ecoava nos ouvidos do Senhor da Morte. Ya'rub sentiu que o Mundo Além do Véu tremia e se agitava, sentiu náuseas e calafrios, e percebu que Moloch sentia o mesmo. Diante de seus olhos incrédulos, tanto o Djiin quanto o Ghûl desapareceram, como se sugados por uma gigantesca força invisível.

Mancheaka levantou-se. A Besta estava ali, sob a pele, diante de todos. Saulot, todavia, estendeu a mão direita. O Terceiro Olho se abriu, emitindo uma luz alaranjada. Mancheaka caiu no chão, desacordado.

Os Ancestrais continuavam sentados, mudos, atônitos diante do que acabara de acontecer.

Não só o Mundo dos Mortos se agitava, mas parecia que toda Nippur tremia em uníssono. Era como se ninguém conseguisse se mover, deixar o salão, perguntar-se o que aconteceu. Era um torpor absoluto. O tempo parecia parado, suspenso.

E, de repente, tornou a mover-se.

Mas já não se movia como antes.

Não havia nada que era como antes. Os Filhos observaram os pais. Era o último passo: dar-se conta de sua própria fragilidade, da morte iminente que poderia chegar pelas mãos mesmo dos mais novos. Mesmo dos próprios filhos. E netos. E bisnetos. E todas as gerações que estariam porvir. E, quando observaram os pais, não eram mais os mesmos, ainda que suas faces estivessem iguais. Os olhos das Potências do Mundo haviam visto a última Potência, a última fronteira.

A Morte Final.

Deixaram o Grande Salão em silêncio, um a um. Não se pronunciaram, deixaram para trás os filhos. Somente Ventru permanecia de pé, diante de seu Trono. Observava o Grande Salão, observou o Trono de Caim. Estendeu a mão esquerda em direção ao pesado objeto e ele rachou, colapsando sobre si mesmo. Depois, deixou a sala.

Começara. A Jyhad começara.



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Re: O Trono Negro

em Ter Ago 14, 2018 5:50 am
Caminharam, Amon e Nikaia, por alguns metros antes que a cainita parasse antes de alcançar os outros imortais que discutiam na praça central. Tinha um olhar perdido e piedoso na face, uma expressão de tristeza mas que era, ainda assim, decidida.

- Pai, compreendo que tenhas me trazido até aqui para conhecer teu Senhor e tua Família. Mas este não é o meu lugar. Considero, porém, que minha estadia aqui tenha sido importante, mas que a minha partida de volta à nossa cidade, acompanhada dos homens e mulheres daqui que desejarem partir, será mais adequada. Peço a tua permissão para retirá-los de tal estado de miséria e conduzí-los ao Norte, onde terão maiores chances de sobrevivência.

Após a resposta de Amon, Nikaia se afastou. Beijou a face e as mãos de seu Senhor e sorriu antes de deixá-lo. Dirigiu-lhe algumas palavras antes de fazê-lo.

- Seja bravo e corajoso. Destrua o inimigo. Estarei te esperando, ansiosa, em nossa casa.

Amon alcançou os outros três cainitas, que o cumprimentaram. Após as palavras do Filho de Ilyias, Gallod e Karotos o cumprimentaram com uma mesura de cabeça, retornando aos seus refúgios. Medon fez o mesmo, mas não sem antes abraçar Amon e declarar o quanto era contente em vê-lo. Somente o misterioso Hazimel permaneceu e, após sorrir, respondeu à pergunta de seu primo.

- Venho por ambas as razões. Venho para o combate, seguindo orientações de meu Senhor, mas venho também para garantir que este lugar, que desafia as leis do Grande Ciclo, encontre o seu fim. Nippur já viveu o suficiente, meu caro.

Encarou Amon.

- Deves ser o Filho de Ilyias de quem me havia falado minha irmã Smenkhara. Um aliado de minha irmã é, também, um meu aliado. É uma honra conhecê-lo.

Caminharam, juntos, em direção ao Trono Negro de Caim. Amon sabia que Ventru já estava ali, assim como alguns dos outros cainitas da cidade. O restante não demoraria a chegar.

- Meu Pai vê com grande preocupação a guerra nesta Planície. Me enviou, ainda que em nossos territórios estejamos sofrendo com os nossos próprios conflitos. Felizmente meus irmãos lá permanecem, ajudando o Pai. Devo, em seguida, encontrar Smenkhara, de forma a libertá-la de sua prisão. Desde já pe4o autorização para pisar em teus domínios. Sei que minha intenção estará em desacordo com o quanto decidido pelas mulheres da montanha então, por isso, espero contar com a tua anuência e auxílio.

Adentraram a Fortaleza que guardava o Trono. Assim como Nippur, o local havia se tornado lúgubre e estranho, sem a grandeza que demonstrava anteriormente. Parecia mais velho e mais desgastado. Amon se surpreendeu com um detalhe, porém.

Ao adentrar o salão principal, o primeiro cainita que viu foi Ventru, rodeado de seus Filhos Tinia, Orthia e Veddartha. Estavam de frente para os Treze Tronos, mas o maior de todos, aquele que deveria pertencer a Caim, não mais estava lá. Outros cainitas de outras famílias se encontravam no salão, as expressões múltiplas diante da ausência do Trono. Ventru, entretanto, tinha o semblante calmo e sereno. Alguns dos fundadores também estavam presentes, à exemplo de Capaddocius, Haqim e Saulot.

- Preciso de vossa ajuda. - Solicitou Ventru.

E então, sem demora, o Pai dos Reis começou a se desfazer dos Treze Tronos. Com a ajuda de seus Filhos, que faziam um esforço que Ventru aparentemente não realizava, pois para ele a ação era fácil, carregaram um a um os tronos e os depuseram em um canto escuro do salão. Agora, o local era somente um grande espaço vazio onde os cainitas se congregariam. Ventru posicionou-se, ainda, no mesmo nível que todos os outros, sem utilizar as escadas onde os tronos repousavam, local onde naturalmente estaria mais alto e em uma posição de comando. Convidou seus irmãos a fazer o mesmo, e foi atendido, Saulot e Haqim o fizeram, inclusive, com um grande sorriso. Capaddocius seguiu sem expressar nenhum julgamento. Para explicar seu ato, Ventru muniu-se de somente uma frase.

- Nenhum domínio injusto deve ser eterno.

Virou-se para Amon. Fez uma mesura. Sorriu, levemente.
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Re: O Trono Negro

em Ter Ago 14, 2018 8:46 am
Amon parou ao ouvir a decisão de sua cria. Havia em seu semblante o orgulho que sentia por Nikaia. Não esperava menos de sua criança.

Tens minha total aprovação minha amada criança. Sabia que minhas palavras e a situação destas pobres almas a tocariam. Sê prudente durante a viagem. Ainda assim, devo lhe fazer uma ressalva. Os olhos de Amon se fixaram nos belos olhos de Nikaia. Aqueles que são incapazes de viajar, seja por idade ou por debilidade física, devem ser deixados. Será danoso levá-los. Estamos num período delicado e a sua viagem que será longa, não poderá sofrer impedimentos. Como prometido, darei a estes, uma morte misericordiosa. Alguns deverão ficar, para que a maioria sobreviva. Agora vá preparar a sua viagem. Convide seus primos, creio que os embates que ocorrerão em breve não devem ser partilhados por vós.

Ele sorriu em retorno às palavras de sua cria e seguiu caminhando. Assim como os recém chegados, Amon fez uma sutil mesura. Ao receber o abraço de Medon, envolveu-o em seus braços, num abraço fraterno. Afastou-o, ainda segurando em seus braços. Que as estrelas sobre nossas cabeças testemunhem ao meu favor. A felicidade é minha em encontrar-te bem Medon, ainda que estejas cansado.

Amon o beijou no rosto e o liberou para que pudesse descansar. Caminhando ao lado de Hazimel, Amon ouviu em silêncio todas as palavras do filho de Zaphatazura. Próximo ao trono negro, ele respondeu. Fico contente que teu criador o tenha enviado, precisaremos do máximo auxílio possível. Sobre vossa irmã, Smenkhara, é uma pessoa fascinante. Se vossa sabedoria for metade da sabedoria de vossa irmã, teremos um aliado e tanto. Agora, sobre auxiliá-lo em seu resgate, o máximo que posso fazer é permitir que cruze as terras de meu povo. Nada mais. Gostaria de poder fazer diferente, entretanto, como bem me parece entende de ciclos e o ciclo de meu povo está apenas começando e, pelas palavras de Smenkhara, eu devo evitar o enfrentamento com as mulheres-feras. Se fizer diferente disso, os homens e mulheres que tanto prezo, terão um fim prematuro. Espero que me entenda.

Entrando na torre negra, Amon não pode deixar de se surpreender. Suas palavras haviam enfim tocado o pai dos Reis. Sorriu de felicidade ao ver os tronos sendo depostos, enquanto o trono maior nem ali estava mais. Olhou para seus tios, os mesmos que Ilyias havia recomendado que confiasse, sorriu. Não era o velho sorriso mecânico, amarelo, de sempre. Era um sorriso genuíno. Aproximou-se de Ventru e dos outros e fez uma respeitosa e demorada mesura.

Eis me aqui meus senhores, hoje estou sob vosso comando e sabedoria. Fico inevitavelmente contente com a sua decisão meu tio. Olhou satisfeito para os que ainda estavam embasbacados. Finalmente Nippur cumprira seu ciclo. O Rei dos cainitas havia surgido.
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Re: O Trono Negro

em Ter Ago 14, 2018 8:56 am
Deixaram a Torre, Amir, Sarosh e Sybilla. A cria pousou a mão direita no ombro do Pai enquanto caminhavam, demonstrando seu apoio e sua atenção. Sybilla seguiu, calada. Sua origem ainda era um mistério para Daharius, mas havia algo nela que o inquietava. Aos seus olhos, parecia uma cópia fiel de Laza, no jeito de caminhar, nas impressões e mesmo no olhar arguto e curioso. Ao menos um cópia de um Laza que existia, talvez, somente em suas ideias.

Cruzaram com Karotos, que adentrava a Torre. Sarosh não pode deixar de sentir um calafrio diante da repetição da cena. Karotos estava machucado, exibia no braço uma grande cicatriz de queimadura. Era a mesmíssima situação na qual encontrou Khanon-Mehr, e se passava no mesmo lugar. Karotos estendeu a mão ao irmão. Sua expressão, porém, era diversa daquela de fúria incontida de Khanon. Karotos era um General, e estava acostumado aos revezes em campo de batalha. Apesar de tudo, parecia confiante.

- Irmão. É um privilégio tê-lo entre nós uma vez mais.

Cumprimentou Amir com uma saudação calorosa e a Sybilla destinou um frio aceno de cabeça. Depois, prosseguiu.

Sarosh percebeu, pela primeira vez, o quanto havia decaído Nippur. As ruas estavam cheias de pessoas em estado deplorável, magras e adoecidas. No entanto, a solidariedade persistia: ninguém lutava pela escassa comida, ao contrário, tentavam dividi-la de forma mais ou menos igual. Mesmo com as ruas cheias, o Arauto notou que a população de Nippur havia diminuído. Haviam mortos pelas ruas e os moradores tentavam recolher os corpos para dar-lhes um funeral digno. Em uma das ruas antes do Trono Negro, uma cainita desconhecida conclamava os moradores a juntar seus pertences e seguí-la rumo ao Norte, onde uma cidade os esperava, com comida e paz em abundância. Sarosh não a conhecia, mas sua fala e seu ímpeto o fizeram recordar de Amon.

A caminhada em direção ao Trono foi curta. Sybilla demonstrou interesse sobre os acontecimentos de Khemet. Segundo ela, Laza não parecia preocupado durante todo o processo. Havia respondido aos seus Filhos com um simples "Sarosh cuidará de tudo. Sarosh è incapaz de errar, mesmo quando não é plenamente seguro de suas decisões". Ainda segundo ela, Laza o tinha na mais alta estima, os olhos do Ancião brilhavam discretamente quando mencionava o seu Arauto. Daharius percebeu que Sybilla caminhava entre os mortos há não mais de vinte anos. Sua postura era extremamente militar: dispunha da disciplina de Karotos e da força de Khanon-Mehr.

Alcançaram o Trono Negro, agora uma construção decadente, sombra do que havia sido. Passaram pelos corredores vazios junto a Japhet e Caias Koinè, que haviam chegado no mesmo momento. O segundo exibia feridas ainda mais grotescas que aquelas de Karotos. O primeiro era de uma majestade inalcançável. Sybilla o observava com interesse, assim como Amir.

No salão central, silêncio. As casas estavam reunidas em pontos específicos, com seus Fundadores diante das crias. Não haviam tronos. Nem o de Caim que, do alto, observava todas as reuniões, tampouco aqueles dos Fundadores, removidos para um ponto escuro do salão. À frente, de pé, se encontravam Haqim, Saulot, Capaddocius, Loz e Ventru. Este último não disfarçou o contentamento em rever Sarosh, transparente no olhar e no sorriso. Apontou para um dos cantos do salão, onde ele e seus irmãos deveriam esperar pela chegada de Laza.

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Re: O Trono Negro

em Qua Ago 15, 2018 11:29 am
Estavam reunidos. Mais uma vez no salão principal do Trono Negro de Caim. Possivelmente, pela última vez.

Diante dos filhos estavam os Fundadores. Não todos, porém. Além das ausências costumeiras, estavam ausentes também Arikel e seu irmão Malkav, além de Sutekh. Uma parte dos Antediluvianos haviam deixado Nippur, pra nunca mais voltar. Aqueles que ainda tinham algum senso ou de pertencimento, ou de responsabilidade tinham permanecido. Os Filhos de Sutekh e Zapathasura jamais haviam habitado em Nippur, limitando-se a visitas eventuais. A ausência de figuras como Mi-Ka-Il e Tammuz, por outro lado, era sentida.

A Austeridade de Laza, o último a entrar, seus filhos e netos reunidos diante dele. A Harmonia emanada por Saulot, que estava diante de seu único filho que ali tinha restado, Samiel. Junto a este, seus próprios filhos, em uma quantidade maior do que qualquer outro de sua geração. Um exército de Guerreiros. Ventru, o grande Rei, aquele que havia rompido com uma autoridade invisível e castradora. Capaddocius, uma figura destoante dos outros, cabisbaixo e inseguro. Haqim, fúria e Sangue. Loz, o Estrangeiro, ansioso pela Mudança final. Ilyas estava ausente.

Tantas individualidades concentradas em um único lugar. Tão diferentes entre si. Por milênios aqueles cainita haviam vivido em Nippur, A Segunda Cidade dos Deuses. Cada um deles, agora, sentia a inevitabilidade do fim. Nippur não existia mais. Estava ali, tangível e física, mas não era mais uma ideia plausível. Havia uma certa tristeza no ar, uma impressão de que a Prole de Caim jamais conseguiria viver em paz novamente como havia vivido ali. Havia, também, um certo alívio neste sentimento. O número de cainitas no salão, ainda que com as ausências, havia crescido exponencialmente após a revogação do Édito de não-criação. A maioria dos filhos dos Antigos tinham procedido à genese de outros vampiros. Uma parte considerável de cainitas havia atendido ao chamado de seus Anciões, fossem filhos ou netos. Aquele era o último esforço. A batalha final. Havia uma tensão no ar.

A ausência dos Tronos dava uma sensação de falsa igualdade. Os Fundadores não eram mais os mesmos. Lentamente, mas inexoravelmente, se tornaram outra coisa. Algo a mais. À exceção de Capaddocius, todos pareciam grandiosos e infinitos. O Fundador do Clã da Morte, ao contrário, parecia demasiadamente mortal. Capaddocius era muito mais silencioso e recluso em relação aos seus pares, mas a iminência do conflito e as mortes ocorridas em Nippur pareciam afetar particularmente o seu humor.

Foi Ventru, como de costume, quem tomou a palavra.

- Na ausência de Ilyias, que esteve conosco até o final, convoco seu filho mais velho para representar sua casa.

Esperou que Amon se aproximasse dos outros Fundadores antes de continuar.

- Qualquer palavra que eu usar neste momento será inútil. Não lutamos pelo mesmo objetivo. No entanto, por mais diversas que sejam as nossas visões de mundo, o Inimigo é o mesmo.

Deu um passo a frente.

- Nippur não mais existe, mas a nossa responsabilidade não se esgota aqui. Temos uma dívida para com os homens e mulheres da Planície, uma dívida que precisa ser paga. Nada exigirem de vocês. Eu, Ventru, Filho de Irad, marcharei rumo a Mashkan-Shapir. Estejam livres para escolher me acompanhar ou para deixar a Planície, e a Guerra, em direção aos seus interesses e afazeres. De vós nada será cobrado ou exigido. Aqueles que desejarem seguir, sigam em paz.

Ninguém se moveu. Ventru sorriu, aliviado e satisfeito.

- Aqueles que permanecem, saibam que a batalha exigirá, provavelmente, a vida de alguns de nós. O Inimigo é duro e sua força e considerável. Uniu-se em torno de um único General, uma criatura de poder considerável. Além disso, devemos esperar encontrar Nergal em campo de batalha.

Foi interrompido por Laza.

- Moloch e seus asseclas já deixaram a Planície. Mashkan-Shapir é o nosso único e último objetivo. Depois, destruiremos a abandonanda Assur, erradicando o berço do Inimigo. Eventualmente, caçaremos Moloch até os confins da Terra.

Saulot continuou.

- Chega a hora. Atacaremos ao amanhecer, protegidos pelo poder de Laza. Chegam emissários de Uruk, Lagash e Ur. Combatentes mortais que não mais toleram a mácula de Mashkan-Shapir. Nossas forças estão prontas. Foi uma honra e um privilégio, senhores, dividir esta cidade convosco.

Ventru retirou a espada que repousava em sua cintura. Era bela, feita de bronze e com o cabo decorado. Olhou-a com calma e devoção. Em seguida, observou seus irmãos e os muros do salão onde se encontravam. Laza sustentava seu olhar com apoio e cumplicidade. Saulot e Haqim tinham as mãos um no ombro do outro. Loz olhava para seus filhos. Capaddocius fazia o mesmo com Japhet e Caias.

A última batalha contra Mashkan-Shapir estava prestes a começar.


Última edição por Regista em Qui Ago 16, 2018 4:15 am, editado 1 vez(es)
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Re: O Trono Negro

em Qua Ago 15, 2018 4:42 pm
*O Mais Velho sorria. O sol poderia nascer naquele momento, anjos poderiam descer dos céus, e ainda assim Enki não estaria surpreso, pois havia visto a Mudança de forma que não imaginaria, e isso bastava. Talvez pela primeira vez em sua existência na Longa Noite, Loz era um mentor. E no pouco que falara, explicara muito - Enki entendia o seu dever, sem a necessidade de reafirmação ou de votos solenes. Acima de tudo, ele era um dedicado à condição vampírica, e se dedicaria a preservar sua espécie, não importa quantos inimigos fizesse dentro dela. E ele os faria, de bom grado, porque ele e sua família estavam fadados a serem sempre os diferentes. Em verdade, todos eles seriam Estrangeiros, e nunca a alcunha de seu Senhor lhe fez tanto sentido.*

*Ao voltar ao Salão do Trono, Enki saúda seus tios e primos, embora sempre em silêncio. Alguns não reconheceriam ele em sua forma nova, mas ainda assim cumprimenta a todos, se demorando mais na saudação com aqueles com os quais tinha maior afinidade: sua irmã Kartariya, vinda das águas distantes do Indo; Sarosh, que parecia ao mesmo tempo maior, mais forte… e alquebrado - Enki conseguia ver porque Ventru o amava tanto, porque via o imenso talento de Sarosh esmagado pelas mesmas preocupações e dúvidas que seu tio possuia trinta anos antes; ele via Amon, ocupando o lugar de seu Senhor, não mais como um reflexo triste, uma estátua de vidro, mas sólido e colorido, como se houvesse enfim descoberto o mundo, e seu lugar nele, pois como Enki dissera há muito antes, não há maior moldador do que a Dor; ele via Caias Koine, que mesmo ferido era uma eterna fortaleza - guerreiro, leal e sábio - simples, mas de uma confiança inquestionável; e também suspirava pelos que não estavam ali cuja falta sentia, Sutekh, Malkav, Lamdiel e Ya’rub, mas independente disso, estavam ali em número suficiente. Mas dentre todos, nenhuma mudança era mais evidente do que Ventru, líder de todos. Algo havia rompido dentro dele. Se Sarosh parecia atormentado por suas ações e dúvidas, Ventru se libertara de todas elas e agora finalmente mostrava quem realmente era. A crisálida se abria, e dela florescia o líder, verdadeiro, de todo o sangue de Caim.*


-É bom estar de volta, minha família. Ver essa sala, vazia de tronos e repleta de todos nós abre meus olhos para a Mudança que vivenciamos. Não estamos no coração de Nipur, mas em seu mausoléu e nós somos seu cortejo fúnebre.

-E a pira será Mashkan-Shapir. Nós os Moldadores aqui estamos em nome de nosso dever para com a terra.
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Re: O Trono Negro

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