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Excursus: Origens.

em Sex Maio 11, 2018 1:27 pm
Ela tinha cinco anos quando ele a encontrou.

A pele queimada pelo sol, mas não de uma maneira saudável. Os lábios rachados pela secura e pela falta de água. Estava no deserto, dormindo. Naquela noite, os Deuses tinham sido clementes, impedindo que o frio assolasse a região. Se não tivessem intervido, ela teria morrido congelada.

Ele tinha deixado a cidade para vagar por algumas noites pela planície, atingindo as bordas do deserto, mas não adentrando o local, pois ali lhe faltaria proteção dos raios destruidores do sol. Naquela noite em especial, alguma coisa o havia dito de ultrapassar a barreira que separavam os campos cultivados de trigo e o inclemente deserto. E ali, na orla, ele viu o grupo de hienas que se banqueteavam. De natureza curiosa sobre os fenômenos da vida que lhe faltava, aproximou-se dos animais e os afugentou. Era um cadáver humano.

Isso foi há vinte e cinco anos atrás.

Possivelmente era a mãe da garota adormecida. As entranhas, abertas, foram devoradas pelos predadores noturnos. Parte da face estava destruída, com o maxilar deslocado.

Nas mãos, porém, uma última prece a Abzu, que não tinha poder no deserto, sem água, a não ser através da Fé daquela mulher. Uma estátua de madeira imitava o seu semblante subaquático. Abzu atendeu suas preces. As hienas não tocaram a garota adormecida.

Enki a tirou dali, levando-a até um vilarejo vizinho. Lá, cuidou pessoalmente de suas feridas, a alimentou e observou enquanto ela se recuperava. Depois, deixou-a sob os cuidados do que sobrava de sua família e desapareceu. Mas não antes de descobrir que a mãe tinha rumado ao deserto, munidas de visões de Abzu que lhe dizia onde ela encontraria um Oásis. A filha a seguiu e a mãe, em transe, foi presa fácil para os filhos do deserto.

Retornou a Nippur, mas se perguntava sobre a garota constantemente. De tempos em tempos a visitava. Cresceu, forte e sábia, além de bela como a lua crescente. Passou a liderar seu povo, e se envolver em longas viagens pelo deserto, na procura do Oásis de Abzu. Matava os chacais e as hienas.

Um dia, encontrou o Óasis. Enki observou nas sombras enquanto o povo cantava, bebia e realizava orgias, em Seu Nome e em Sua Honra. A mulher bailava, deslumbrante, ao redor do fogo, com pinturas que simbolizavam peixes espalhadas pelo corpo. Havia fartura.

Abzu era um Deus de fartura.

Aquela mulher passou a educar outras mulheres na Fé, tornando-se uma influente sacerdotisa de Abzu na região. Era sempre seguida de um grupo de outras três mulheres, e Enki reconheceu, em suas memórias, a face da mulher que pedia a sua ajuda nos sonhos. Não era, porém, a mulher que havia salvado, mas sua irmã mais nova.
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Re: Excursus: Origens.

em Sab Maio 12, 2018 8:57 am
Quando o viu pela primeira vez tentou fugir. Sentado em meio ao deserto, sob a luz da lua cheia, não percebeu de imediato sua aproximação. Ao menos não fisicamente. Os pelos da nuca se eriçaram, um frio na barriga lhe acometeu, mas foi somente quando girou a cabeça que notou a presença do outro ser. De pé sobre uma duna mais alta, o observava. Os olhos brilhantes estavam fixos nele. Então, tentou escapar, mas as pernas não se moviam. Sua cabeça girava e o mundo deixou de fazer sentido.


O deserto parecia muito mais hostil. Avolumou-se diante dele, prestes a engoli-lo, mas o Djinn fez com que as areias recuassem, sem dizer uma palavra, apenas com o movimento da mão. Aquele mundo era sob sua autoridade, era seu reino. Ya'rub era jovem, compreendendo pouco os mistérios do mundo. Soube resignar-se, porém, e acalmou seus sentimentos. Encarou o Djinn, com o pouco de coragem que ainda lhe restava. O ser se aproximou e caminhou ao seu redor, como um animal que analisa uma carcaça encontrada no deserto.

Nada disse, mas ainda assim explicou a Ya'rub a se guiar pelas estrelas, elas as levariam ao local onde encontraria água e raízes comestíveis. Ao redor do corpo do Djinn, o mundo era frágil, as passagens abertas. Ya'rub viu todas as abominações que jaziam Do Outro Lado, contidas somente pela vontade do Djinn.

Só então ele falou.

- Devorarão o mundo e todas as coisas. Um dia. Dentro de dois ou mil anos. Cabe a você decidir.

Ya'rub via somente as bocas imensas, abertas. Dos dentes, que eram como punhais, escorria sangue e veneno, escorria a morte e o desespero. Com um aceno da mão esquerda, o Djinn fechou o espaço aberto entre os Mundos.

- Você não está pronto. Até lá será a minha tarefa mantê-los no lado de lá.

O Djinn mordeu o polegar direito e, aproximando-se de Ya'rub, desenhou em sua testa o Ajna, o Terceiro Olho. O mundo explodiu em cores e sons, o corpo do jovem mortal se curvando até quase dobrar-se para trás. Levantou voo, alto, entre as nuvens e as estrelas. Dali o mundo parecia pequeno e insignificante. Mas Ya'rub conseguia ver todos os fios que conectavam todas as coisas, e entendeu que tudo tinha o seu lugar no grande plano da Criação.

Estava prestes a alcançar o Cosmos quando caiu, caiu velozmente, a areia macia aparando seu corpo. Estava sozinho mais uma vez.
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Re: Excursus: Origens.

em Sab Maio 12, 2018 9:18 am
Tendo nascido na planície, jamais havia visto o mar. Quando seu Senhor o conduziu pela primeira vez, usando a Escuridão como portas de entrada e saída, era época de colheita. Adorava observar os homens a partir a terra e retirar dali o alimento. Ocasionalmente lhe fazia falta, a comida. Sua existência, há mais de cinquenta primaveras, se resumia ao Sangue, que suplantava tudo o que era, sentia e desejava. Algumas coisas, porém, permaneciam. Nasceu e foi criado como guerreiro, mas o cultivo lhe fascinava. Quando criança, passava horas observando os homens cuidando da terra. Seu pai mortal, porém, um homem severo e calmo que o fazia recordar-se de seu Criador, logo lhe pôs uma espada nas mãos. O resto, como dizem, é História.

Uma daquelas longas.

Sentiu-se feliz diante da proposta de Laza, ainda que perderia aquele momento especial do ano. O mar, contudo, lhe chamava. Desde pequeno escutava as histórias contadas por seu avô, um homem de índole diplomática e culta, que o fazia recordar seu tio Haqim. Seu avô havia visto o mar. Viajou o mundo, mas Daharius estava preso àquela terra.

Quando o viu pela primeira vez, chorou lágrimas de Sangue. Foi ali que havia morrido seu irmão mais velho, espelho de sua existência, o homem que mais amou na vida antes de amar seu Senhor. Seu irmão era um homem do mar, assim como havia sido seu avô. Caminhava dias pelo deserto para levar peixe seco, que segundo ele eram mais saborosos que aqueles dos rios, para sua família. Seu irmão o fazia lembrar-se do Estrangeiro, um homem com uma beleza transcendental, mas de poucas palavras.

Entrou no mar, pois assim comandou seu Pai. Sentiu-se próximo da família mortal de seu irmão, uma descendência que cresceu forte e grande. Seus sobrinhos comandavam terras e exércitos. Viu, refletida nas águas escuras, a imagem de um homem. Tinha barba escura e cabelos cacheados, olhos claros como o sol, um belo perfil. Sumiu, tão rápido quanto veio. Saiu do mar, sentia-se diferente.


O Pai falou ao Filho.

- Tua descendência também será grande e forte, e fará de minha casa a maior dentre todas as treze. Aquele será o teu primeiro Filho, quando lhe for permitido procriar, quando as leis estúpidas de meu avô não mais existirem. Ele não caminha nesta terra, ainda, pois levará muitos anos para que alcance este mundo. O sei, pois foi o mesmo comigo, quando vi Karotos na escuridão do mar. Mas, a mim, foi dada a dádiva de ver todos os meus Filhos depois do primeiro, e sei exatamente quem são e de onde virão. Assim como você saberá quando a tua descendência estiver pronta para o mais nobre dos Sangues. E você saberá educá-lo e educar seus netos e bisnetos, pois tu, Daharius Sarosh, é meu Filho e aprenderá comigo tudo o que ensinará.

Um vento frio soprou à beira do mar. O sal encharcava sua pele. Sentia-se vivo. Sentia-se um Filho de Laza.
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Re: Excursus: Origens.

em Dom Maio 20, 2018 9:28 am
- Você deve se concentrar, Amon.

Tentava, mas era difícil. O toque do seu Senhor o havia despertado de um transe no qual milhões de pensamentos desfilavam por sua mente. Aquilo era tudo, exceto concentração. Não conseguia atingir o estado necessário para lançar sua consciência nos rios do tempo. Temia frustrar seu Senhor, temia parecer inadequado ou indigno de Seu Sangue. Aquelas eram ainda as primeiras noites, embora mais de três séculos tivessem passado desde que havia sido trazido à Noite Eterna.

Estavam no alto da Fortaleza, onde repousava o trono do Pai Negro. O céu era coberto de nuvens escuras. Relâmpagos iluminavam a noite e trovões pareciam partir a planície em duas.

- Não é fácil impor nossa vontade ao conjunto de linhas que os mortais chamam de Tempo. Nunca foi. E não em razão de não compreendermos princípios metafísicos ou o funcionamento das coisas. Mas simplesmente em razão da âncora que significa o nosso corpo físico. Nossa carne é o nosso elemento limitador, única e última barreira que nos impede de ver o mundo como é: uma infinidade de cenários já vistos.

Ilyis estava de pé, Amon jazia sentado. O Pai, sua barba e cabelos escuros, parecia temível como a tempestade que se aproximava.

- Concentre-se.

Um clarão de relâmpago iluminou Nippur como se fosse dia claro quando o mundo parou. Ilyias ajudou Amon a se erguer enquanto tudo seguia congelado. Juntos, acessaram uma porta que não estava ali. Somente para se ver exatamente no mesmo lugar.

Seguiram pelas escadarias até o salão do Trono. Ali Ilyias, sentado em seu assento escuro e circundado por Ventru, Malkav e O Estrangeiro, analisava uma tabuleta de argila.

- É justo. - Determinou.

Diante deles um homem de pele escura os observava. Era alto e corpulento, exalando uma ferocidade não natural. Havia gritos do lado de fora da Fortaleza, mas Amon sabia que não eram oriundos de Nippur, mas das terras circundantes. O homem usava uma meia túnica marrom e seu corpo era coberto de pinturas tribais e símbolos arcanos. Era careca, com sobrancelhas arqueadas e lábios grossos. A ferocidade parecia contida por uma imensa, inigualável e atraente Sabedoria. Havia uma sensação de urgência no ar. Havia cheiro de morte e desespero.

- É justo. - Determinou o homem.

Malkav se ergueu. Ilyias olhou para Amon. O Pai da Lua parecia sério e compenetrado.

- Está feito, então. Teus irmãos pagarão não neste tempo, mas em um outro. Até lá, tu os conterás em nome de uma liberdade vigiada.

Os gritos eram cada vez piores. Amon ouvia sons de mastigação, de ossos sendo destruídos por mandíbulas poderosas.

- É justo. O farei. Que os meus sigam em paz enquanto os vossos cresçam com a mesma Sabedoria.

Outro relâmpago.

Ilyias o observava atentamente enquanto esperava que outro cainita se manifestasse após as palavras de seus irmãos.
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Re: Excursus: Origens.

em Ter Maio 22, 2018 11:22 am
O mar estava sempre presente nos sonhos de Sarosh. Aquele, em especial, voltou à sua mente após as estranhas palavras de Malkav, ditadas como um sussurro no seu ouvido. O mar estava presente, assim como a tristeza. Naquela construção semidestruída, o teto tombado sob o peso da idade e os muros destruídos pela fúria do mar, se sentava Sarosh. A lua cheia banhava sua pele alva e seus cabelos escuros enquanto as tatuagens, as mesmas de milênios atrás, dançavam, lentamente, sobre seus membros. Sentado em um trono de pedra escura, muito similar àquele que havia usado seu Pai, Sarosh chorava.

As lágrimas rubras rolavam pela face, banhando o peito seminu, fazendo dele uma figura surreal em meio à escuridão. Sentia vontade de socar o que restara das paredes, de reduzir aquele local a escombros, ao mesmo estado em que se encontrava seu coração morto. O mar continuava seu infinito vai e vem, clamando pelo nome de Sarosh. Teria chegado o tempo de repousar? Os milênios pesavam em seus ombros, tudo o que conhecia havia sido destruído ou distorcido. Sarosh queria arrancar os longos cabelos, queria desesperar-se, mas tais sentimentos mortais há muito não faziam morada em seu peito. Tudo o que restava era a tristeza, profunda e dolorida, companheira constante, mas com a qual o poderoso cainita jamais havia aprendido a lidar.

O Mar continuava a chamá-lo. Valeria a pena descansar e esperar por um mundo que lhe causasse menos desilusão? Quanto mais pensava mais se convencia de que era a saída ideal.

Foram os passos de alguém entrando na construção, desviando-se das vigas caídas e dos tijolos espalhados, que o fez deixar a posição na qual estava há vinte noites.

- Pai?

Era ele. O seu primeiro Filho. Adentrava o salão, também banhado pela luz da lua. Quanto era elegante, belo e altivo! Adentrou o local com reverência e cuidado. Os cabelos escuros e cacheados estavam muito bem arrumados entorno a um rosto marcante. A pele, cor de oliva, jamais havia se tornado pálida. Curiosamente, Sarosh não conseguia se lembrar das roupas que sua progênie vestia.

Após vinte noites, após ponderar abandonar esse mundo e refugiar-se nos braços gélidos do Torpor, Sarosh se lembrou a razão de ainda caminhar neste mundo. Era a sua Família, a única razão. E, embora alguns de seus irmãos não mais existissem e sua família tivesse se dispersado pelo mundo, Sarosh ainda tinha sua progênie. O maior amor de sua vida. O mais fiel, inteligente, capaz e adequado de todos os descendentes de Caim. Maior que ele. Maior que Laza.
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Re: Excursus: Origens.

em Qui Maio 24, 2018 8:56 am
Quando o Ghül adentrou o círculo realizado por Ya'rub, o cainita sentiu uma náusea repentina. Em poucos instantes, percebeu que sua consciência parecia estar dividida em duas: uma que permanecia no seu corpo, observando o Ghül e se preparando para falar com ele e uma segunda consciência, muito mais sutil, que lhe levava, em meio a um delírio quase real, àquelas noites no deserto quando, guiado pelas vozes que ouvia e à revelia das advertências de sua tribo, havia decido de adentrar o hostil espaço, munido de nada mais do que a sua Vontade.

Muitas coisas haviam acontecido durante aquele tempo no deserto. Ya'rub se lembrava de apenas uma parte delas. Os transes contínuos, o calor, a fome e a sede alteravam sua percepção, levando-o a visões estranhas e experiências oníricas, que haviam sido guardadas no fundo de sua mente. Pelo menos até aquele momento. Ou outros momentos chaves, quando a presença do Ghül ou do Djinn liberava tais visões. Ocasionalmente Ya'rub sentia que o Abraço o havia mudado mais do que aos outros cainitas de sua geração. Sentia que havia um vazio em parte de suas experiências no deserto, mas não sabia explicar se aquilo se devia ao Poder do Sangue de Caim ou à vontade de seu Criador. Fosse como fosse, a fala de Malkav na reunião havia desbloqueado algo dentro dele e, talvez inconscientemente, o havia levado a convocar o Ghül.

Ya'rub se viu no deserto. Estava sozinho. Era noite. Havia um forte vento frio a açoitar a sua pele exposta e rachada. Estava sentado, pois seus membros não eram fortes o suficiente para sustentá-lo. Foi então que o viu.

Aconteceu da mesma forma que antes, quando havia conhecido aqueles que seriam seus companheiros, se é que se pode usar esta palavra, o Djiin e o Ghül. Mas aquele que estava diante dele não era um espírito, embora estivesse num estado transitório, suspenso entre os Dois Mundos.

Que beleza terrível! Ya'rub jamais havia visto alguém tão perfeito, tão sublime, de compleição quase divina.

O homem estava nu. Seus cabelos escuros, encaracolados, se estendiam até a altura da cintura. Eram volumosos e limpos, refletindo a luz da lua. Seu rosto era fino, com traços nobres. O nariz era pequeno, algo incomum para aquela região, e a pele era extremamente branca. A boca era volumosa e os olhos extremamente escuros, incapazes de refletir a luz. O estranho sorriu, e seu sorriso lembrava exatamente o sorriso sardônico que Ya'rub às vezes usava. Era alto, seguramente com mais de dois metros.

E então, vieram seus servos.

As areias do deserto pareceram se avolumar, movendo-se como se inúmeros seres vivos estivessem abaixo delas. E então explodiram em uma nuvem de moscas varejeiras, que empesteavam o ar e geravam um zumbido coletivo desesperador. Ya'rub não conseguia se mexer. Serpentes e sapos começaram a deixar as areias do deserto e seguir em direção ao seu Mestre. Coisas maiores e inomináveis, das quais Ya'rub não se recordava nem mesmo naquele momento, fizeram o mesmo. Os seres se avolumavam ao redor do homem, em seus braços brancos e em suas pernas expostas. Bebiam do Sangue que agora vertia, espontaneamente, da sua pele. Ainda assim, o homem era belo. Terrível e monstruoso, aberrante, mas infinitamente belo.

Aproximou-se de Ya'rub, caminhando sobre os insetos e esmagando-os, somente para que eles renascessem segundos depois e seguissem atrás de seu Mestre. Ya'rub sentia um desespero, um desejo de esconder-se até o Fim dos Tempos, em um lugar onde aquele ser não o encontrasse. Mas, ao mesmo tempo, se sentia hipnotizado por ele. Queria conhecê-lo, descobri-lo. Amá-lo.

- Você me pertence, Ya'rub Bani Qahtani.

Voltou a si. O Ghül, sério, o encarava. Num dos cantos dos túneis que o abrigava, uma aranha adentrou sua toca.
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Re: Excursus: Origens.

em Qui Maio 24, 2018 9:18 am
Caminhou por Nippur, preparando-se para realizar as ações que lhe cabiam, que lhe foram determinadas pelo Conselho. Havia ouvido as discussões entre seus tios e primos e havia também exposto sua opinião. Tentava concentrar-se e deixar em segundo plano os acontecimentos da Fortaleza e quase teria conseguido, não fossem as palavras de Malkav a ecoar em sua mente.

Foi Lamdiel quem o alcançou. Era sabido que a cria de Malkav, um cainita de aparência singular, com não mais de dezesseis ou dezessete anos quando havia sido Abraçado, era acometido por Visões de imenso poder e alcance, disponíveis para qualquer um que ousasse tocar a sua pele nua. Lamdiel alcançou Enki e o Filho d'O Estrangeiro notou sua aproximação, girando-se. O que aconteceu foi extremamente rápido. Lamdiel tocou o rosto de Enki, sem dizer nada, e o mundo explodiu em cores e sons.

O corpo de Enki foi alçado em uma velocidade absurda. Do alto, via toda a planície e além dela, divisando na escuridão as inúmeras caravanas de Sacerdotes que, obedecendo às deliberações realizadas no Zigurate, se dirigiam à Cidade Sagrada. Enki viu as montanhas e o deserto longínquo, viu e sentiu o Tigre e o Eufrates, forças indomáveis das quais se sentia parte. Viu Mashkan-Shapir, sua primeira casa. E para lá foi sugado, sua visão se detendo sobre a Fortaleza da Dor.

Mas o que viu não foi dor ou pesar. Viu alegria e satisfação.

Os mortais chamavam seu nome. Não, clamavam, exatamente como haviam feito os habitantes de Nippur durante a chuva que havia caído mais cedo. Festejavam o Senhor do Abzu, e Enki viu ídolos cuidadosamente esculpidos que o representavam. Havia sexo e música, alimento e abundância. A cena o fez recordar dos festejos na tribo da Sacerdotisa, antes que a tragédia os acometesse. Havia pessoas em transe, havia automutilações, um homem de meia idade arrancou um de seus olhos e o ofereceu ao Senhor do Abzu. Não sentia dor. Foi abençoado com a capacidade de julgar seus pares, de conhecer seus pecados.

Mas quem os abençoava, uma vez que este poder não pertencia a Enki?

O Filho d'O Estrangeiro experimentou algo que jamais havia experimentado. Era adorado, era o responsável por milhares de vidas. Seu poder cresceu e englobou os céus, fazendo chover e aumentando a intensidade das celebrações. Sentia-se flutuar acima de Mashkan-Shapir, sentiu-se responsável pelo lugar e sentiu-se feliz pela celebração, ainda que braços, orelhas e dedos se espalhassem pela praça central da cidade, diante do Grande Zigurate. O fedor do Sangue, pois não era perfume, era insuportável.

Enki não se lembrava de nenhum Zigurate daquele tamanho, daquela grandeza, em Mashkan-Shapir.

Subtio, ouviu uma outra oração. Uma única voz, feminina, clamava sua proteção. Sentiu-se atado. Deixou Mashkan para retornar à planície, onde as caravanas seguiam, corajosamente, em direção à Nippur. Viu a Sacerdotisa, a mulher que havia salvado da Morte. Ela orava, olhando para o céu, e seus olhos encontraram os de Enki quando um grande relâmpago cortou os céus.

Lamdiel estava diante dele.

- Este é um presente de meu Pai. Uma parte ínfima de sua Sabedoria. Não. De sua Visão.

Deu as costas a Enki e continuou seu caminho sem olhar para trás.
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Re: Excursus: Origens.

em Ter Jul 03, 2018 12:20 pm
O deserto circundava todas as coisas. Seco, intransponível, hostil. Salvo pequenos répteis e insetos, nenhuma vida florescia ali. E Saulot não estava mais entre os vivos já há muitos milênios. Saulot esperava. No Norte, as forças de Samiel, em conjunto com Ya'rub, Enki, Japhet e Caias Koine enfrentavam o inimigo que se lançava, em hordas infinitas, sobre eles. No Sul, os cainitas liderados por Sarosh ainda combatiam as forças do Inimigo. Saulot fechou os olhos, sua consciência atingindo alturas inimagináveis e se movendo rapidamente até os vilarejos. Não via Sarosh. Deveria se preocupar? Mi-Ka-Il jazia no chão, o corpo ensanguentado e queimado. Estava em silêncio, a face em estado de repouso. Torpor. Medon protegia seu primo caído, impedindo que os inimigos tivessem acesso a ele. Novos enviados de Nippur se aproximavam: Filhos de Ventru e de Arikel. Saulot queria ajudar. O sol nasceria em breve. Mas ele precisava se manter ali, precisava cumprir o papel que fora estabelecido por Sutekh.

Aproximaram-se, depois de algum tempo. Saulot divisou primeiro a poeira do deserto que se erguia sob os cascos dos cavalos. Observou o céu, limpo naquela região. Sentia o frio típico da hora anterior ao amanhecer. Saulot tinha medo. Saulot respirava com ansiedade, ainda que não tivesse necessidade.

Eram inúmeros os cavaleiros mortais que, ao avistar o Antediluviano, cessaram o avanço. Diante deles, uma mulher com o rosto coberto de véus. Saulot ouviu seu nome ser sussurrado pelo vento, se chamava Arishat. Ela avançou sozinha, altiva e inconsequente, desafiando o poder de Saulot. O Pastor era de índole pacífica. Fechou os olhos. Surgiu O Guerreiro.

A passos largos ela se aproximou. Sorria. Saulot sentiu um frio ainda mais intenso quando seus olhos avistaram uma belíssima Adaga de Obsidiana que repousava, a lâmina coberta de runas e o cabo cravejado de pedras brilhantes, na cintura de Arishat. Estavam, em pouco tempo, frente a frente.

- Deixe a passagem livre, Filho de Saulot.

Saulot não era Saulot. Era Hrorsh, seu filho, vestido nas túnicas azuladas que tanto adorava. Manteve-se estático, olhando no fundo dos olhos de sua oponente. Nada disse. Desembainhou uma rústica espada de bronze. Pôs-se em posição de combate. Saulot tremia. Confiava em Sutekh mas tinha um medo absurdo do que viria. Saulot era o Cordeiro Sacrificial, mas temia que seu sacrifício destruísse tudo aquilo que amava. Sutekh havia sido claro: "Se quisermos vencer esta guerra é necessário que avancemos. Que mudemos. E o Mundo, dos vivos e dos mortos, mudará conosco. És o único em quem eu confio para abrir o caminho, para nos mostrar o que existe além do Véu da mortalidade e da ignorância."

Arishat deu de ombros. O que poderia Hrorsh, um pacífico curandeiro, fazer contra ela, progênie do Grande Nergal? Saulot lia os pensamentos de Arishat como se fossem escritos nas areias do deserto. Arishat riu alto diante do medo evidente de Hrorsh/Saulot. Mas não soube identificar corretamente a razão do medo. Também, seria impossível. Quantos poderiam se vangloriar de conhecer bem os meandros intrincados do raciocínio do Senhor das Tempestades?

Arishat não discutiu outros pontos. Retirou da cintura a Adaga de Obsidiana e atacou. Saulot ergueu a espada, fingindo uma defesa mal sucedida. Fechou os olhos, abriu o peito. Saulot era o Sacrifício. A Adaga entrou fundo, rompendo a carne do Antediluviano com uma facilidade sem precedentes, queimando carne e músculos no processo. Saulot gritou e seu disfarce cessou de existir, diante dos olhos aterrorizados de Arishat.

O corpo do Guerreiro chocou-se contra o chão, o impacto amortecido pelas areais do deserto. Saulot se foi, voou alto, além de todos os véus e de todos os mundos, e viu a grande Verdade. Durou um microssegundo. Retornou. E não era mais Saulot.

Levantou-se, diante de uma aterrorizada Arishat. A Adaga estava presa no peito do Antediluviano, mas não havia sangue ou ferimento. Gentilmente, ele a retirou, segurando-a com a mão esquerda. O Terceiro Olho se abriu, emanando uma luz dourada que cegou a progênie de Nergal e os homens atrás dela. Luz, calor. Os homens foram vaporizados instantaneamente, assim como seus cavalos, suas roupas e suas armas de metal. Somente um som surdo, acompanhou a manifestação da Vontade do Antediluviano. Arishat, entretanto, permaneceu. Incólume. Pois assim desejava Saulot, O Pastor. O Guerreiro.

- Não haverá nenhuma benevolência para contigo e para com os teus. Mashkan-Shapir e sua mácula serão erradicadas deste mundo. E teu Senhor já está ciente disto, de forma que não tenho razões para poupar-te.

Estendeu a mão. Arishat não sentiu absolutamente nada no momento em que seu espírito se dissociou de sua matéria. Não sentiu nada quando sua matéria colapsou, misturando-se com a areia do deserto, indistinguível desta. Arishat não existia mais, nunca havia existido. Havia apenas Saulot no deserto, o Progenitor de Samiel, Hrorsh e Rayzeel. O Cordeiro Sacrificial. Acima dele, as ondas de poder de Sutekh viajavam, rapidamente em direção a Mashkan-Shapir, para derrubar suas defesas. Acima dele, brilhava uma intensa estrela avermelhada.
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Re: Excursus: Origens.

em Sex Jul 06, 2018 10:31 am
- Faça.

Era a voz de Haquin. Além dela, somente o silêncio. Na última câmara dos incontáveis túneis escavados sobre a Cidade Sagrada, o Senhor dos Caçadores observava seu irmão enquanto ele se concentrava. Diante deles, sobre a mesa de argila e obsidiana, se desnudava Mashkan-Shapir e o combate que ocorria em seus portões. Ventru observava a miniatura da cidade calmamente, os olhos claros passeando pelos pequenos muros. Não era possível ver os combatentes, mas Ventru os enxergava, graças ao vínculo empático estabelecido entre ele e Samiel. Tinha as duas mãos apoiadas na mesa. Concentrou-se e impôs, sem demora, sua vontade sobre os soldados inimigos. Foi um processo rápido. Súbito, os comandantes se confundiram em suas intenções e convicções, a força da personalidade do Primeiro Filho nublando suas mentes e seus propósitos. Alguns sucumbiam, seus órgãos internos simplesmente cessando de funcionar. Poderoso era Ventru, Filho de Enoch. E, ao mesmo tempo, aos olhos de Haquin, extremamente inseguro.

Girou-se para encarar o dono da casa. Apoiou-se na mesa de pedra. Estava exausto. Controlava, ao mesmo tempo, centenas de corações e mentes, guiando-os, inspirando-os ou aterrorizando-os. Sua mente se dividia em um sem número de compartimentos, cada um deles escutando e informando Ventru sobre os acontecimentos. Respirou fundo, não por necessidade. Haquin interrompeu o silêncio, observando o óbvio.

- Você está cansado.

Ventru sentou-se em um dos pequenos tronos à disposição. Estava abaixo de Haquin, mas aquilo parecia não o incomodar. A cacofonia em sua mente se tornava cada vez mais alta e mais violenta e, acima de tudo, Ventru tinha medo de que seus filhos e sobrinhos falhassem. Confiava neles, mas temia o fracasso muito mais do que qualquer outra coisa.

- Sim, irmão, estou exausto. Exausto de manter de pé esta cidade como um símbolo da honra aos nossos ancestrais. Temo que meu Pai tenha escolhido mal, afinal. Sinto que tudo escapa por entre meus dedos, que a paz entre nossos filhos é impossível de manter. Sinto-me tentado a tomar medidas enérgicas mas, com Aquele Acima como testemunha, como os amo. Amo cada um deles e todos eles.

Haquin apoiou o queixo na mão esquerda, recostando-se na cadeira.

- Você corteja a Guerra, mas a teme quando é entre os teus.

Ventru deu de ombros.

- Mais do que isso. Sinto que é inevitável uma guerra entre nossos Filhos e, se isso acontecer, terei falhado miseravelmente em nossa missão, e o sacrifício deles terá sido em vão. Sou fraco, irmão, me sinto fraco.

Haquin observou enquanto Ventru derramou uma lágrima carmesim. Na presença de Haquin, contudo, nenhum Sangue era desperdiçado. O Senhor dos Caçadores fez com que a pequena gota de Vitae flutuasse até ele, como se atraída por um imã. Coletou-a com cuidado e, ato contínuo, retirou do braço de seu Trono de Obsidiana um pequeno relicário. Do ar, forjou uma corrente. Levantou-se e, diante de seu irmão, beijou-lhe os cabelos claros, afagando-os. Colocou a corrente no pescoço de Ventru com um gesto pomposo, gesto de coroação, como fariam os mortais dentro de muitos milênios. Ao menos, era esta a impressão de Haquin, impressão que ele esperava que Ventru entendesse nos milênios porvir. Se, é claro, lhes fossem dados os milênios.

- Você é o melhor de nós. Você entende nossas necessidades e vive para lutar nossas batalhas. Você não será derrotado, pois protegerei a ti e a teus filhos com todas as fibras do meu ser.

Ventru sorriu. As palavras de Loz, contudo, ecoavam em sua mente.

- Nosso irmão fala em andar avante. Será este, Haquin, o caminho que devo percorrer? Tornar-me o que detesto em nome da paz de nossa família? Cruel, cada vez mais cruel a Maldição do Pai Sombrio.

Haquin não respondeu. Aquele assunto sempre o deixava imerso nos próprios pensamentos. Também ele deveria fazer uma escolha. Abraçou seu irmão de forma doce, como se quisesse protegê-lo de todos os males do mundo.

- Eu sei o que dói em ti, Ventru. A dor de tê-lo perdido. Mas ele está bem, veja. Veja o que ele se tornou. Não se apegue aos pensamentos do que ele poderia ter sido se contigo estivesse. Aprenda a perdoar, ou tal raiva te consumirá pelo resto dos teus dias. Você acredita que com ele ao teu lado todas as coisas poderiam ser diferentes. Mas esquece do fato de que teria sido você a ensiná-lo e, portanto, todas as potencialidades estão contidas em ninguém além de você.

Um calafrio. Em ambos. Começara.
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Re: Excursus: Origens.

em Sex Jul 06, 2018 1:23 pm
Longe.

Rios, vales, mares de distância.

Um templo impressionante em meio a uma selva intransponível. Colunas finamente decoradas, que contavam as histórias dos ancestrais e daqueles que estavam no Mundo antes deles, antes que a Grande Roda começasse a girar. O teto desafiava o céu, a mata se abria para alocar a construção. Estreito e imponente, o templo desafiava o mundo natural. Ninguém se recordava de quando havia sido erguido, e os mortais narravam histórias estranhas sobre seus ocupantes.

Uma sala.

Afrescos recontavam a história de Nippur. Contavam aos mais novos sobre o Grande Dilúvio que apagara da existência a Primeira Cidade. Três figuras jaziam de pé, braços estendidos sobre as cabeças de outras ajoelhadas. Atrás destas três, uma figura escura observava a tudo. Além dele, obscura, outra figura os encarava.

Um trono.

De madeira, pois transitória é a Vida e todas as coisas. Pois nada é permanente, e o trono servia a lembrar o seu ocupante sobre as intermitências. Silêncio. Nenhum animal rastejava, nenhuma coruja caçava na noite. No teto, sol, lua e estrelas pintados. Havia beleza.

- Sim, meu Senhor. Partirei imediatamente.

O homem, ajoelhado diante do Trono, observava alguém que não estava ali. Mas, ao mesmo tempo, estava. Estava em mil lugares, observando a Roda dos Mundos de uma perspectiva externa. Há muito havia deixado de ser um participante. Não tinha um rosto, tinha centenas, mais poderoso do que Brahma jamais seria. Girava em torno de si mesmo e ao redor dos mundos, acumulando conhecimentos proibidos e esquecidos. Sabia onde estavam e onde deveriam estar todas as coisas.

Na mão esquerda, uma tabuleta. Na direita, uma poderosa lança.

Havia ido além dos Véus, negociado com Demônios e Celestiais, escutado os Quatro Nomes Esquecidos. Havia alcançado a fugaz luz que havia visto durante seu Abraço. E sabia, melhor do que todos os outros, o que era necessário para que a Roda continuasse girando.

O homem ajoelhado se levantou e fez menção de deixar o Templo. Cinco mil vozes mencionaram o seu nome.

- Hazimel?

Ele se virou. Respeito e temor assentados em seus olhos escuros.

- Não se esqueça de recuperar a Adaga.
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Re: Excursus: Origens.

em Sab Jul 07, 2018 11:35 am
Talvez a visão de Amaranta subjugada, amarrada e arrastada pelo poderoso alazão que cavalgava Medon, tenha ativado um gatilho em Amon. Talvez a Possibilidade já estivesse ali, insinuando-se como nuvens escuras no horizonte. De fato, Amon sabia que o mundo não seria mais o mesmo após o início daquela guerra, pois todas as Possibilidades se alteravam rapidamente, nada era permanente. Não que tenha sido em algum momento, mas os vórtices e turbilhões que engoliam o futuro eram muito maiores e mais intensos.

Fato é: viu-se em um salão escuro. Estava no subterrâneo. Ouvia, acima de si, o som de uma cidade com milhares, não, milhões de almas que caminhavam cegas, alheias ao mundo que as rodeava. Não haviam móveis ou inscrições nas paredes. Era uma simples caverna, ou tumba, que protegia a vida e o anonimato de um homem e de uma mulher. Um terceiro indivíduo chegou, vestia-se em roupas elegantes, mas que Amon sabia que pertenciam a um tempo infinitamente posterior àquele em que vivia. Era um homem bonito, de pele morena, altivo, com um certo ar de idealismo e sarcasmo. O outro homem era alto e profundamente escuro, com um turbante branco e saiote igualmente alvo, uma vestimenta de um tempo diferente daquela da do homem. A terceira pessoa, uma mulher, vestia-se em um tempo intermediário. Bela, feroz e determinada.

O mais velho:

- Fico feliz com a tua chegada. Nestes tempos conturbados, onde caímos com frequência, tua sobrevivência é motivo de alegria para o Clã.

O mais novo:

- Agradeço a distinção, meu Senhor. Temos pouco tempo, fui seguido. Minhas comunicações estão sendo interceptadas. Meus relatórios apontam para uma caverna no sul do Iêmen, protegida por rituais esquecidos e por guardiões inomináveis. Devemos agradecer ao Gangrel Beckett, por sua generosidade, a despeito das difíceis negociações que o fizeram revelar o que era de nosso interesse.

A mulher:

- Eu ainda não compreendo a necessidade disto.

O mais velho:

- Fogo se combate com fogo. Aquele que repousa no Iêmen é o único, dada sua idade e poder, segundo os Apócrifos, que pode nos oferecer algum grau de resistência - e legitimidade - contra as agressões do Herdeiro de nosso Ancestral.

A mulher deu de ombros. Temia que o a personalidade do Primeiro Vizir fosse tão - ou mais - imprevisível que aquela do Herdeiro.

O mais novo fez um rápido cumprimento com a cabeça aos presentes.

- Devemos abandonar este local. Nossas existências correm risco. Nos veremos novamente no arco de três semanas.

Os outros dois assentiram. O homem respondeu, antes de se retirar.

- Foi um privilégio revê-lo, Al-Amin.

Amon percebeu que Nakurtum e Tammuz adentraram Nippur, apenas passos atrás da cavalaria que acompanhava Medon. Nos ombros do Filho de Haqim, um corpo enrolado em um sudário. Amon sabia tratar-se de Mi-Ka-Il, Filho de Arikel.
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Re: Excursus: Origens.

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