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Excursus: Origens.

em Sex Maio 11, 2018 1:27 pm
Ela tinha cinco anos quando ele a encontrou.

A pele queimada pelo sol, mas não de uma maneira saudável. Os lábios rachados pela secura e pela falta de água. Estava no deserto, dormindo. Naquela noite, os Deuses tinham sido clementes, impedindo que o frio assolasse a região. Se não tivessem intervido, ela teria morrido congelada.

Ele tinha deixado a cidade para vagar por algumas noites pela planície, atingindo as bordas do deserto, mas não adentrando o local, pois ali lhe faltaria proteção dos raios destruidores do sol. Naquela noite em especial, alguma coisa o havia dito de ultrapassar a barreira que separavam os campos cultivados de trigo e o inclemente deserto. E ali, na orla, ele viu o grupo de hienas que se banqueteavam. De natureza curiosa sobre os fenômenos da vida que lhe faltava, aproximou-se dos animais e os afugentou. Era um cadáver humano.

Isso foi há vinte e cinco anos atrás.

Possivelmente era a mãe da garota adormecida. As entranhas, abertas, foram devoradas pelos predadores noturnos. Parte da face estava destruída, com o maxilar deslocado.

Nas mãos, porém, uma última prece a Abzu, que não tinha poder no deserto, sem água, a não ser através da Fé daquela mulher. Uma estátua de madeira imitava o seu semblante subaquático. Abzu atendeu suas preces. As hienas não tocaram a garota adormecida.

Enki a tirou dali, levando-a até um vilarejo vizinho. Lá, cuidou pessoalmente de suas feridas, a alimentou e observou enquanto ela se recuperava. Depois, deixou-a sob os cuidados do que sobrava de sua família e desapareceu. Mas não antes de descobrir que a mãe tinha rumado ao deserto, munidas de visões de Abzu que lhe dizia onde ela encontraria um Oásis. A filha a seguiu e a mãe, em transe, foi presa fácil para os filhos do deserto.

Retornou a Nippur, mas se perguntava sobre a garota constantemente. De tempos em tempos a visitava. Cresceu, forte e sábia, além de bela como a lua crescente. Passou a liderar seu povo, e se envolver em longas viagens pelo deserto, na procura do Oásis de Abzu. Matava os chacais e as hienas.

Um dia, encontrou o Óasis. Enki observou nas sombras enquanto o povo cantava, bebia e realizava orgias, em Seu Nome e em Sua Honra. A mulher bailava, deslumbrante, ao redor do fogo, com pinturas que simbolizavam peixes espalhadas pelo corpo. Havia fartura.

Abzu era um Deus de fartura.

Aquela mulher passou a educar outras mulheres na Fé, tornando-se uma influente sacerdotisa de Abzu na região. Era sempre seguida de um grupo de outras três mulheres, e Enki reconheceu, em suas memórias, a face da mulher que pedia a sua ajuda nos sonhos. Não era, porém, a mulher que havia salvado, mas sua irmã mais nova.
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Re: Excursus: Origens.

em Sab Maio 12, 2018 8:57 am
Quando o viu pela primeira vez tentou fugir. Sentado em meio ao deserto, sob a luz da lua cheia, não percebeu de imediato sua aproximação. Ao menos não fisicamente. Os pelos da nuca se eriçaram, um frio na barriga lhe acometeu, mas foi somente quando girou a cabeça que notou a presença do outro ser. De pé sobre uma duna mais alta, o observava. Os olhos brilhantes estavam fixos nele. Então, tentou escapar, mas as pernas não se moviam. Sua cabeça girava e o mundo deixou de fazer sentido.


O deserto parecia muito mais hostil. Avolumou-se diante dele, prestes a engoli-lo, mas o Djinn fez com que as areias recuassem, sem dizer uma palavra, apenas com o movimento da mão. Aquele mundo era sob sua autoridade, era seu reino. Ya'rub era jovem, compreendendo pouco os mistérios do mundo. Soube resignar-se, porém, e acalmou seus sentimentos. Encarou o Djinn, com o pouco de coragem que ainda lhe restava. O ser se aproximou e caminhou ao seu redor, como um animal que analisa uma carcaça encontrada no deserto.

Nada disse, mas ainda assim explicou a Ya'rub a se guiar pelas estrelas, elas as levariam ao local onde encontraria água e raízes comestíveis. Ao redor do corpo do Djinn, o mundo era frágil, as passagens abertas. Ya'rub viu todas as abominações que jaziam Do Outro Lado, contidas somente pela vontade do Djinn.

Só então ele falou.

- Devorarão o mundo e todas as coisas. Um dia. Dentro de dois ou mil anos. Cabe a você decidir.

Ya'rub via somente as bocas imensas, abertas. Dos dentes, que eram como punhais, escorria sangue e veneno, escorria a morte e o desespero. Com um aceno da mão esquerda, o Djinn fechou o espaço aberto entre os Mundos.

- Você não está pronto. Até lá será a minha tarefa mantê-los no lado de lá.

O Djinn mordeu o polegar direito e, aproximando-se de Ya'rub, desenhou em sua testa o Ajna, o Terceiro Olho. O mundo explodiu em cores e sons, o corpo do jovem mortal se curvando até quase dobrar-se para trás. Levantou voo, alto, entre as nuvens e as estrelas. Dali o mundo parecia pequeno e insignificante. Mas Ya'rub conseguia ver todos os fios que conectavam todas as coisas, e entendeu que tudo tinha o seu lugar no grande plano da Criação.

Estava prestes a alcançar o Cosmos quando caiu, caiu velozmente, a areia macia aparando seu corpo. Estava sozinho mais uma vez.
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Re: Excursus: Origens.

em Sab Maio 12, 2018 9:18 am
Tendo nascido na planície, jamais havia visto o mar. Quando seu Senhor o conduziu pela primeira vez, usando a Escuridão como portas de entrada e saída, era época de colheita. Adorava observar os homens a partir a terra e retirar dali o alimento. Ocasionalmente lhe fazia falta, a comida. Sua existência, há mais de cinquenta primaveras, se resumia ao Sangue, que suplantava tudo o que era, sentia e desejava. Algumas coisas, porém, permaneciam. Nasceu e foi criado como guerreiro, mas o cultivo lhe fascinava. Quando criança, passava horas observando os homens cuidando da terra. Seu pai mortal, porém, um homem severo e calmo que o fazia recordar-se de seu Criador, logo lhe pôs uma espada nas mãos. O resto, como dizem, é História.

Uma daquelas longas.

Sentiu-se feliz diante da proposta de Laza, ainda que perderia aquele momento especial do ano. O mar, contudo, lhe chamava. Desde pequeno escutava as histórias contadas por seu avô, um homem de índole diplomática e culta, que o fazia recordar seu tio Haqim. Seu avô havia visto o mar. Viajou o mundo, mas Daharius estava preso àquela terra.

Quando o viu pela primeira vez, chorou lágrimas de Sangue. Foi ali que havia morrido seu irmão mais velho, espelho de sua existência, o homem que mais amou na vida antes de amar seu Senhor. Seu irmão era um homem do mar, assim como havia sido seu avô. Caminhava dias pelo deserto para levar peixe seco, que segundo ele eram mais saborosos que aqueles dos rios, para sua família. Seu irmão o fazia lembrar-se do Estrangeiro, um homem com uma beleza transcendental, mas de poucas palavras.

Entrou no mar, pois assim comandou seu Pai. Sentiu-se próximo da família mortal de seu irmão, uma descendência que cresceu forte e grande. Seus sobrinhos comandavam terras e exércitos. Viu, refletida nas águas escuras, a imagem de um homem. Tinha barba escura e cabelos cacheados, olhos claros como o sol, um belo perfil. Sumiu, tão rápido quanto veio. Saiu do mar, sentia-se diferente.


O Pai falou ao Filho.

- Tua descendência também será grande e forte, e fará de minha casa a maior dentre todas as treze. Aquele será o teu primeiro Filho, quando lhe for permitido procriar, quando as leis estúpidas de meu avô não mais existirem. Ele não caminha nesta terra, ainda, pois levará muitos anos para que alcance este mundo. O sei, pois foi o mesmo comigo, quando vi Karotos na escuridão do mar. Mas, a mim, foi dada a dádiva de ver todos os meus Filhos depois do primeiro, e sei exatamente quem são e de onde virão. Assim como você saberá quando a tua descendência estiver pronta para o mais nobre dos Sangues. E você saberá educá-lo e educar seus netos e bisnetos, pois tu, Daharius Sarosh, é meu Filho e aprenderá comigo tudo o que ensinará.

Um vento frio soprou à beira do mar. O sal encharcava sua pele. Sentia-se vivo. Sentia-se um Filho de Laza.
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Re: Excursus: Origens.

em Dom Maio 20, 2018 9:28 am
- Você deve se concentrar, Amon.

Tentava, mas era difícil. O toque do seu Senhor o havia despertado de um transe no qual milhões de pensamentos desfilavam por sua mente. Aquilo era tudo, exceto concentração. Não conseguia atingir o estado necessário para lançar sua consciência nos rios do tempo. Temia frustrar seu Senhor, temia parecer inadequado ou indigno de Seu Sangue. Aquelas eram ainda as primeiras noites, embora mais de três séculos tivessem passado desde que havia sido trazido à Noite Eterna.

Estavam no alto da Fortaleza, onde repousava o trono do Pai Negro. O céu era coberto de nuvens escuras. Relâmpagos iluminavam a noite e trovões pareciam partir a planície em duas.

- Não é fácil impor nossa vontade ao conjunto de linhas que os mortais chamam de Tempo. Nunca foi. E não em razão de não compreendermos princípios metafísicos ou o funcionamento das coisas. Mas simplesmente em razão da âncora que significa o nosso corpo físico. Nossa carne é o nosso elemento limitador, única e última barreira que nos impede de ver o mundo como é: uma infinidade de cenários já vistos.

Ilyis estava de pé, Amon jazia sentado. O Pai, sua barba e cabelos escuros, parecia temível como a tempestade que se aproximava.

- Concentre-se.

Um clarão de relâmpago iluminou Nippur como se fosse dia claro quando o mundo parou. Ilyias ajudou Amon a se erguer enquanto tudo seguia congelado. Juntos, acessaram uma porta que não estava ali. Somente para se ver exatamente no mesmo lugar.

Seguiram pelas escadarias até o salão do Trono. Ali Ilyias, sentado em seu assento escuro e circundado por Ventru, Malkav e O Estrangeiro, analisava uma tabuleta de argila.

- É justo. - Determinou.

Diante deles um homem de pele escura os observava. Era alto e corpulento, exalando uma ferocidade não natural. Havia gritos do lado de fora da Fortaleza, mas Amon sabia que não eram oriundos de Nippur, mas das terras circundantes. O homem usava uma meia túnica marrom e seu corpo era coberto de pinturas tribais e símbolos arcanos. Era careca, com sobrancelhas arqueadas e lábios grossos. A ferocidade parecia contida por uma imensa, inigualável e atraente Sabedoria. Havia uma sensação de urgência no ar. Havia cheiro de morte e desespero.

- É justo. - Determinou o homem.

Malkav se ergueu. Ilyias olhou para Amon. O Pai da Lua parecia sério e compenetrado.

- Está feito, então. Teus irmãos pagarão não neste tempo, mas em um outro. Até lá, tu os conterás em nome de uma liberdade vigiada.

Os gritos eram cada vez piores. Amon ouvia sons de mastigação, de ossos sendo destruídos por mandíbulas poderosas.

- É justo. O farei. Que os meus sigam em paz enquanto os vossos cresçam com a mesma Sabedoria.

Outro relâmpago.

Ilyias o observava atentamente enquanto esperava que outro cainita se manifestasse após as palavras de seus irmãos.
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Re: Excursus: Origens.

em Ter Maio 22, 2018 11:22 am
O mar estava sempre presente nos sonhos de Sarosh. Aquele, em especial, voltou à sua mente após as estranhas palavras de Malkav, ditadas como um sussurro no seu ouvido. O mar estava presente, assim como a tristeza. Naquela construção semidestruída, o teto tombado sob o peso da idade e os muros destruídos pela fúria do mar, se sentava Sarosh. A lua cheia banhava sua pele alva e seus cabelos escuros enquanto as tatuagens, as mesmas de milênios atrás, dançavam, lentamente, sobre seus membros. Sentado em um trono de pedra escura, muito similar àquele que havia usado seu Pai, Sarosh chorava.

As lágrimas rubras rolavam pela face, banhando o peito seminu, fazendo dele uma figura surreal em meio à escuridão. Sentia vontade de socar o que restara das paredes, de reduzir aquele local a escombros, ao mesmo estado em que se encontrava seu coração morto. O mar continuava seu infinito vai e vem, clamando pelo nome de Sarosh. Teria chegado o tempo de repousar? Os milênios pesavam em seus ombros, tudo o que conhecia havia sido destruído ou distorcido. Sarosh queria arrancar os longos cabelos, queria desesperar-se, mas tais sentimentos mortais há muito não faziam morada em seu peito. Tudo o que restava era a tristeza, profunda e dolorida, companheira constante, mas com a qual o poderoso cainita jamais havia aprendido a lidar.

O Mar continuava a chamá-lo. Valeria a pena descansar e esperar por um mundo que lhe causasse menos desilusão? Quanto mais pensava mais se convencia de que era a saída ideal.

Foram os passos de alguém entrando na construção, desviando-se das vigas caídas e dos tijolos espalhados, que o fez deixar a posição na qual estava há vinte noites.

- Pai?

Era ele. O seu primeiro Filho. Adentrava o salão, também banhado pela luz da lua. Quanto era elegante, belo e altivo! Adentrou o local com reverência e cuidado. Os cabelos escuros e cacheados estavam muito bem arrumados entorno a um rosto marcante. A pele, cor de oliva, jamais havia se tornado pálida. Curiosamente, Sarosh não conseguia se lembrar das roupas que sua progênie vestia.

Após vinte noites, após ponderar abandonar esse mundo e refugiar-se nos braços gélidos do Torpor, Sarosh se lembrou a razão de ainda caminhar neste mundo. Era a sua Família, a única razão. E, embora alguns de seus irmãos não mais existissem e sua família tivesse se dispersado pelo mundo, Sarosh ainda tinha sua progênie. O maior amor de sua vida. O mais fiel, inteligente, capaz e adequado de todos os descendentes de Caim. Maior que ele. Maior que Laza.
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Re: Excursus: Origens.

em Qui Maio 24, 2018 8:56 am
Quando o Ghül adentrou o círculo realizado por Ya'rub, o cainita sentiu uma náusea repentina. Em poucos instantes, percebeu que sua consciência parecia estar dividida em duas: uma que permanecia no seu corpo, observando o Ghül e se preparando para falar com ele e uma segunda consciência, muito mais sutil, que lhe levava, em meio a um delírio quase real, àquelas noites no deserto quando, guiado pelas vozes que ouvia e à revelia das advertências de sua tribo, havia decido de adentrar o hostil espaço, munido de nada mais do que a sua Vontade.

Muitas coisas haviam acontecido durante aquele tempo no deserto. Ya'rub se lembrava de apenas uma parte delas. Os transes contínuos, o calor, a fome e a sede alteravam sua percepção, levando-o a visões estranhas e experiências oníricas, que haviam sido guardadas no fundo de sua mente. Pelo menos até aquele momento. Ou outros momentos chaves, quando a presença do Ghül ou do Djinn liberava tais visões. Ocasionalmente Ya'rub sentia que o Abraço o havia mudado mais do que aos outros cainitas de sua geração. Sentia que havia um vazio em parte de suas experiências no deserto, mas não sabia explicar se aquilo se devia ao Poder do Sangue de Caim ou à vontade de seu Criador. Fosse como fosse, a fala de Malkav na reunião havia desbloqueado algo dentro dele e, talvez inconscientemente, o havia levado a convocar o Ghül.

Ya'rub se viu no deserto. Estava sozinho. Era noite. Havia um forte vento frio a açoitar a sua pele exposta e rachada. Estava sentado, pois seus membros não eram fortes o suficiente para sustentá-lo. Foi então que o viu.

Aconteceu da mesma forma que antes, quando havia conhecido aqueles que seriam seus companheiros, se é que se pode usar esta palavra, o Djiin e o Ghül. Mas aquele que estava diante dele não era um espírito, embora estivesse num estado transitório, suspenso entre os Dois Mundos.

Que beleza terrível! Ya'rub jamais havia visto alguém tão perfeito, tão sublime, de compleição quase divina.

O homem estava nu. Seus cabelos escuros, encaracolados, se estendiam até a altura da cintura. Eram volumosos e limpos, refletindo a luz da lua. Seu rosto era fino, com traços nobres. O nariz era pequeno, algo incomum para aquela região, e a pele era extremamente branca. A boca era volumosa e os olhos extremamente escuros, incapazes de refletir a luz. O estranho sorriu, e seu sorriso lembrava exatamente o sorriso sardônico que Ya'rub às vezes usava. Era alto, seguramente com mais de dois metros.

E então, vieram seus servos.

As areias do deserto pareceram se avolumar, movendo-se como se inúmeros seres vivos estivessem abaixo delas. E então explodiram em uma nuvem de moscas varejeiras, que empesteavam o ar e geravam um zumbido coletivo desesperador. Ya'rub não conseguia se mexer. Serpentes e sapos começaram a deixar as areias do deserto e seguir em direção ao seu Mestre. Coisas maiores e inomináveis, das quais Ya'rub não se recordava nem mesmo naquele momento, fizeram o mesmo. Os seres se avolumavam ao redor do homem, em seus braços brancos e em suas pernas expostas. Bebiam do Sangue que agora vertia, espontaneamente, da sua pele. Ainda assim, o homem era belo. Terrível e monstruoso, aberrante, mas infinitamente belo.

Aproximou-se de Ya'rub, caminhando sobre os insetos e esmagando-os, somente para que eles renascessem segundos depois e seguissem atrás de seu Mestre. Ya'rub sentia um desespero, um desejo de esconder-se até o Fim dos Tempos, em um lugar onde aquele ser não o encontrasse. Mas, ao mesmo tempo, se sentia hipnotizado por ele. Queria conhecê-lo, descobri-lo. Amá-lo.

- Você me pertence, Ya'rub Bani Qahtani.

Voltou a si. O Ghül, sério, o encarava. Num dos cantos dos túneis que o abrigava, uma aranha adentrou sua toca.
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Re: Excursus: Origens.

em Qui Maio 24, 2018 9:18 am
Caminhou por Nippur, preparando-se para realizar as ações que lhe cabiam, que lhe foram determinadas pelo Conselho. Havia ouvido as discussões entre seus tios e primos e havia também exposto sua opinião. Tentava concentrar-se e deixar em segundo plano os acontecimentos da Fortaleza e quase teria conseguido, não fossem as palavras de Malkav a ecoar em sua mente.

Foi Lamdiel quem o alcançou. Era sabido que a cria de Malkav, um cainita de aparência singular, com não mais de dezesseis ou dezessete anos quando havia sido Abraçado, era acometido por Visões de imenso poder e alcance, disponíveis para qualquer um que ousasse tocar a sua pele nua. Lamdiel alcançou Enki e o Filho d'O Estrangeiro notou sua aproximação, girando-se. O que aconteceu foi extremamente rápido. Lamdiel tocou o rosto de Enki, sem dizer nada, e o mundo explodiu em cores e sons.

O corpo de Enki foi alçado em uma velocidade absurda. Do alto, via toda a planície e além dela, divisando na escuridão as inúmeras caravanas de Sacerdotes que, obedecendo às deliberações realizadas no Zigurate, se dirigiam à Cidade Sagrada. Enki viu as montanhas e o deserto longínquo, viu e sentiu o Tigre e o Eufrates, forças indomáveis das quais se sentia parte. Viu Mashkan-Shapir, sua primeira casa. E para lá foi sugado, sua visão se detendo sobre a Fortaleza da Dor.

Mas o que viu não foi dor ou pesar. Viu alegria e satisfação.

Os mortais chamavam seu nome. Não, clamavam, exatamente como haviam feito os habitantes de Nippur durante a chuva que havia caído mais cedo. Festejavam o Senhor do Abzu, e Enki viu ídolos cuidadosamente esculpidos que o representavam. Havia sexo e música, alimento e abundância. A cena o fez recordar dos festejos na tribo da Sacerdotisa, antes que a tragédia os acometesse. Havia pessoas em transe, havia automutilações, um homem de meia idade arrancou um de seus olhos e o ofereceu ao Senhor do Abzu. Não sentia dor. Foi abençoado com a capacidade de julgar seus pares, de conhecer seus pecados.

Mas quem os abençoava, uma vez que este poder não pertencia a Enki?

O Filho d'O Estrangeiro experimentou algo que jamais havia experimentado. Era adorado, era o responsável por milhares de vidas. Seu poder cresceu e englobou os céus, fazendo chover e aumentando a intensidade das celebrações. Sentia-se flutuar acima de Mashkan-Shapir, sentiu-se responsável pelo lugar e sentiu-se feliz pela celebração, ainda que braços, orelhas e dedos se espalhassem pela praça central da cidade, diante do Grande Zigurate. O fedor do Sangue, pois não era perfume, era insuportável.

Enki não se lembrava de nenhum Zigurate daquele tamanho, daquela grandeza, em Mashkan-Shapir.

Subtio, ouviu uma outra oração. Uma única voz, feminina, clamava sua proteção. Sentiu-se atado. Deixou Mashkan para retornar à planície, onde as caravanas seguiam, corajosamente, em direção à Nippur. Viu a Sacerdotisa, a mulher que havia salvado da Morte. Ela orava, olhando para o céu, e seus olhos encontraram os de Enki quando um grande relâmpago cortou os céus.

Lamdiel estava diante dele.

- Este é um presente de meu Pai. Uma parte ínfima de sua Sabedoria. Não. De sua Visão.

Deu as costas a Enki e continuou seu caminho sem olhar para trás.
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Re: Excursus: Origens.

em Ter Jul 03, 2018 12:20 pm
O deserto circundava todas as coisas. Seco, intransponível, hostil. Salvo pequenos répteis e insetos, nenhuma vida florescia ali. E Saulot não estava mais entre os vivos já há muitos milênios. Saulot esperava. No Norte, as forças de Samiel, em conjunto com Ya'rub, Enki, Japhet e Caias Koine enfrentavam o inimigo que se lançava, em hordas infinitas, sobre eles. No Sul, os cainitas liderados por Sarosh ainda combatiam as forças do Inimigo. Saulot fechou os olhos, sua consciência atingindo alturas inimagináveis e se movendo rapidamente até os vilarejos. Não via Sarosh. Deveria se preocupar? Mi-Ka-Il jazia no chão, o corpo ensanguentado e queimado. Estava em silêncio, a face em estado de repouso. Torpor. Medon protegia seu primo caído, impedindo que os inimigos tivessem acesso a ele. Novos enviados de Nippur se aproximavam: Filhos de Ventru e de Arikel. Saulot queria ajudar. O sol nasceria em breve. Mas ele precisava se manter ali, precisava cumprir o papel que fora estabelecido por Sutekh.

Aproximaram-se, depois de algum tempo. Saulot divisou primeiro a poeira do deserto que se erguia sob os cascos dos cavalos. Observou o céu, limpo naquela região. Sentia o frio típico da hora anterior ao amanhecer. Saulot tinha medo. Saulot respirava com ansiedade, ainda que não tivesse necessidade.

Eram inúmeros os cavaleiros mortais que, ao avistar o Antediluviano, cessaram o avanço. Diante deles, uma mulher com o rosto coberto de véus. Saulot ouviu seu nome ser sussurrado pelo vento, se chamava Arishat. Ela avançou sozinha, altiva e inconsequente, desafiando o poder de Saulot. O Pastor era de índole pacífica. Fechou os olhos. Surgiu O Guerreiro.

A passos largos ela se aproximou. Sorria. Saulot sentiu um frio ainda mais intenso quando seus olhos avistaram uma belíssima Adaga de Obsidiana que repousava, a lâmina coberta de runas e o cabo cravejado de pedras brilhantes, na cintura de Arishat. Estavam, em pouco tempo, frente a frente.

- Deixe a passagem livre, Filho de Saulot.

Saulot não era Saulot. Era Hrorsh, seu filho, vestido nas túnicas azuladas que tanto adorava. Manteve-se estático, olhando no fundo dos olhos de sua oponente. Nada disse. Desembainhou uma rústica espada de bronze. Pôs-se em posição de combate. Saulot tremia. Confiava em Sutekh mas tinha um medo absurdo do que viria. Saulot era o Cordeiro Sacrificial, mas temia que seu sacrifício destruísse tudo aquilo que amava. Sutekh havia sido claro: "Se quisermos vencer esta guerra é necessário que avancemos. Que mudemos. E o Mundo, dos vivos e dos mortos, mudará conosco. És o único em quem eu confio para abrir o caminho, para nos mostrar o que existe além do Véu da mortalidade e da ignorância."

Arishat deu de ombros. O que poderia Hrorsh, um pacífico curandeiro, fazer contra ela, progênie do Grande Nergal? Saulot lia os pensamentos de Arishat como se fossem escritos nas areias do deserto. Arishat riu alto diante do medo evidente de Hrorsh/Saulot. Mas não soube identificar corretamente a razão do medo. Também, seria impossível. Quantos poderiam se vangloriar de conhecer bem os meandros intrincados do raciocínio do Senhor das Tempestades?

Arishat não discutiu outros pontos. Retirou da cintura a Adaga de Obsidiana e atacou. Saulot ergueu a espada, fingindo uma defesa mal sucedida. Fechou os olhos, abriu o peito. Saulot era o Sacrifício. A Adaga entrou fundo, rompendo a carne do Antediluviano com uma facilidade sem precedentes, queimando carne e músculos no processo. Saulot gritou e seu disfarce cessou de existir, diante dos olhos aterrorizados de Arishat.

O corpo do Guerreiro chocou-se contra o chão, o impacto amortecido pelas areais do deserto. Saulot se foi, voou alto, além de todos os véus e de todos os mundos, e viu a grande Verdade. Durou um microssegundo. Retornou. E não era mais Saulot.

Levantou-se, diante de uma aterrorizada Arishat. A Adaga estava presa no peito do Antediluviano, mas não havia sangue ou ferimento. Gentilmente, ele a retirou, segurando-a com a mão esquerda. O Terceiro Olho se abriu, emanando uma luz dourada que cegou a progênie de Nergal e os homens atrás dela. Luz, calor. Os homens foram vaporizados instantaneamente, assim como seus cavalos, suas roupas e suas armas de metal. Somente um som surdo, acompanhou a manifestação da Vontade do Antediluviano. Arishat, entretanto, permaneceu. Incólume. Pois assim desejava Saulot, O Pastor. O Guerreiro.

- Não haverá nenhuma benevolência para contigo e para com os teus. Mashkan-Shapir e sua mácula serão erradicadas deste mundo. E teu Senhor já está ciente disto, de forma que não tenho razões para poupar-te.

Estendeu a mão. Arishat não sentiu absolutamente nada no momento em que seu espírito se dissociou de sua matéria. Não sentiu nada quando sua matéria colapsou, misturando-se com a areia do deserto, indistinguível desta. Arishat não existia mais, nunca havia existido. Havia apenas Saulot no deserto, o Progenitor de Samiel, Hrorsh e Rayzeel. O Cordeiro Sacrificial. Acima dele, as ondas de poder de Sutekh viajavam, rapidamente em direção a Mashkan-Shapir, para derrubar suas defesas. Acima dele, brilhava uma intensa estrela avermelhada.
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Re: Excursus: Origens.

em Sex Jul 06, 2018 10:31 am
- Faça.

Era a voz de Haquin. Além dela, somente o silêncio. Na última câmara dos incontáveis túneis escavados sobre a Cidade Sagrada, o Senhor dos Caçadores observava seu irmão enquanto ele se concentrava. Diante deles, sobre a mesa de argila e obsidiana, se desnudava Mashkan-Shapir e o combate que ocorria em seus portões. Ventru observava a miniatura da cidade calmamente, os olhos claros passeando pelos pequenos muros. Não era possível ver os combatentes, mas Ventru os enxergava, graças ao vínculo empático estabelecido entre ele e Samiel. Tinha as duas mãos apoiadas na mesa. Concentrou-se e impôs, sem demora, sua vontade sobre os soldados inimigos. Foi um processo rápido. Súbito, os comandantes se confundiram em suas intenções e convicções, a força da personalidade do Primeiro Filho nublando suas mentes e seus propósitos. Alguns sucumbiam, seus órgãos internos simplesmente cessando de funcionar. Poderoso era Ventru, Filho de Enoch. E, ao mesmo tempo, aos olhos de Haquin, extremamente inseguro.

Girou-se para encarar o dono da casa. Apoiou-se na mesa de pedra. Estava exausto. Controlava, ao mesmo tempo, centenas de corações e mentes, guiando-os, inspirando-os ou aterrorizando-os. Sua mente se dividia em um sem número de compartimentos, cada um deles escutando e informando Ventru sobre os acontecimentos. Respirou fundo, não por necessidade. Haquin interrompeu o silêncio, observando o óbvio.

- Você está cansado.

Ventru sentou-se em um dos pequenos tronos à disposição. Estava abaixo de Haquin, mas aquilo parecia não o incomodar. A cacofonia em sua mente se tornava cada vez mais alta e mais violenta e, acima de tudo, Ventru tinha medo de que seus filhos e sobrinhos falhassem. Confiava neles, mas temia o fracasso muito mais do que qualquer outra coisa.

- Sim, irmão, estou exausto. Exausto de manter de pé esta cidade como um símbolo da honra aos nossos ancestrais. Temo que meu Pai tenha escolhido mal, afinal. Sinto que tudo escapa por entre meus dedos, que a paz entre nossos filhos é impossível de manter. Sinto-me tentado a tomar medidas enérgicas mas, com Aquele Acima como testemunha, como os amo. Amo cada um deles e todos eles.

Haquin apoiou o queixo na mão esquerda, recostando-se na cadeira.

- Você corteja a Guerra, mas a teme quando é entre os teus.

Ventru deu de ombros.

- Mais do que isso. Sinto que é inevitável uma guerra entre nossos Filhos e, se isso acontecer, terei falhado miseravelmente em nossa missão, e o sacrifício deles terá sido em vão. Sou fraco, irmão, me sinto fraco.

Haquin observou enquanto Ventru derramou uma lágrima carmesim. Na presença de Haquin, contudo, nenhum Sangue era desperdiçado. O Senhor dos Caçadores fez com que a pequena gota de Vitae flutuasse até ele, como se atraída por um imã. Coletou-a com cuidado e, ato contínuo, retirou do braço de seu Trono de Obsidiana um pequeno relicário. Do ar, forjou uma corrente. Levantou-se e, diante de seu irmão, beijou-lhe os cabelos claros, afagando-os. Colocou a corrente no pescoço de Ventru com um gesto pomposo, gesto de coroação, como fariam os mortais dentro de muitos milênios. Ao menos, era esta a impressão de Haquin, impressão que ele esperava que Ventru entendesse nos milênios porvir. Se, é claro, lhes fossem dados os milênios.

- Você é o melhor de nós. Você entende nossas necessidades e vive para lutar nossas batalhas. Você não será derrotado, pois protegerei a ti e a teus filhos com todas as fibras do meu ser.

Ventru sorriu. As palavras de Loz, contudo, ecoavam em sua mente.

- Nosso irmão fala em andar avante. Será este, Haquin, o caminho que devo percorrer? Tornar-me o que detesto em nome da paz de nossa família? Cruel, cada vez mais cruel a Maldição do Pai Sombrio.

Haquin não respondeu. Aquele assunto sempre o deixava imerso nos próprios pensamentos. Também ele deveria fazer uma escolha. Abraçou seu irmão de forma doce, como se quisesse protegê-lo de todos os males do mundo.

- Eu sei o que dói em ti, Ventru. A dor de tê-lo perdido. Mas ele está bem, veja. Veja o que ele se tornou. Não se apegue aos pensamentos do que ele poderia ter sido se contigo estivesse. Aprenda a perdoar, ou tal raiva te consumirá pelo resto dos teus dias. Você acredita que com ele ao teu lado todas as coisas poderiam ser diferentes. Mas esquece do fato de que teria sido você a ensiná-lo e, portanto, todas as potencialidades estão contidas em ninguém além de você.

Um calafrio. Em ambos. Começara.
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Re: Excursus: Origens.

em Sex Jul 06, 2018 1:23 pm
Longe.

Rios, vales, mares de distância.

Um templo impressionante em meio a uma selva intransponível. Colunas finamente decoradas, que contavam as histórias dos ancestrais e daqueles que estavam no Mundo antes deles, antes que a Grande Roda começasse a girar. O teto desafiava o céu, a mata se abria para alocar a construção. Estreito e imponente, o templo desafiava o mundo natural. Ninguém se recordava de quando havia sido erguido, e os mortais narravam histórias estranhas sobre seus ocupantes.

Uma sala.

Afrescos recontavam a história de Nippur. Contavam aos mais novos sobre o Grande Dilúvio que apagara da existência a Primeira Cidade. Três figuras jaziam de pé, braços estendidos sobre as cabeças de outras ajoelhadas. Atrás destas três, uma figura escura observava a tudo. Além dele, obscura, outra figura os encarava.

Um trono.

De madeira, pois transitória é a Vida e todas as coisas. Pois nada é permanente, e o trono servia a lembrar o seu ocupante sobre as intermitências. Silêncio. Nenhum animal rastejava, nenhuma coruja caçava na noite. No teto, sol, lua e estrelas pintados. Havia beleza.

- Sim, meu Senhor. Partirei imediatamente.

O homem, ajoelhado diante do Trono, observava alguém que não estava ali. Mas, ao mesmo tempo, estava. Estava em mil lugares, observando a Roda dos Mundos de uma perspectiva externa. Há muito havia deixado de ser um participante. Não tinha um rosto, tinha centenas, mais poderoso do que Brahma jamais seria. Girava em torno de si mesmo e ao redor dos mundos, acumulando conhecimentos proibidos e esquecidos. Sabia onde estavam e onde deveriam estar todas as coisas.

Na mão esquerda, uma tabuleta. Na direita, uma poderosa lança.

Havia ido além dos Véus, negociado com Demônios e Celestiais, escutado os Quatro Nomes Esquecidos. Havia alcançado a fugaz luz que havia visto durante seu Abraço. E sabia, melhor do que todos os outros, o que era necessário para que a Roda continuasse girando.

O homem ajoelhado se levantou e fez menção de deixar o Templo. Cinco mil vozes mencionaram o seu nome.

- Hazimel?

Ele se virou. Respeito e temor assentados em seus olhos escuros.

- Não se esqueça de recuperar a Adaga.
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Re: Excursus: Origens.

em Sab Jul 07, 2018 11:35 am
Talvez a visão de Amaranta subjugada, amarrada e arrastada pelo poderoso alazão que cavalgava Medon, tenha ativado um gatilho em Amon. Talvez a Possibilidade já estivesse ali, insinuando-se como nuvens escuras no horizonte. De fato, Amon sabia que o mundo não seria mais o mesmo após o início daquela guerra, pois todas as Possibilidades se alteravam rapidamente, nada era permanente. Não que tenha sido em algum momento, mas os vórtices e turbilhões que engoliam o futuro eram muito maiores e mais intensos.

Fato é: viu-se em um salão escuro. Estava no subterrâneo. Ouvia, acima de si, o som de uma cidade com milhares, não, milhões de almas que caminhavam cegas, alheias ao mundo que as rodeava. Não haviam móveis ou inscrições nas paredes. Era uma simples caverna, ou tumba, que protegia a vida e o anonimato de um homem e de uma mulher. Um terceiro indivíduo chegou, vestia-se em roupas elegantes, mas que Amon sabia que pertenciam a um tempo infinitamente posterior àquele em que vivia. Era um homem bonito, de pele morena, altivo, com um certo ar de idealismo e sarcasmo. O outro homem era alto e profundamente escuro, com um turbante branco e saiote igualmente alvo, uma vestimenta de um tempo diferente daquela da do homem. A terceira pessoa, uma mulher, vestia-se em um tempo intermediário. Bela, feroz e determinada.

O mais velho:

- Fico feliz com a tua chegada. Nestes tempos conturbados, onde caímos com frequência, tua sobrevivência é motivo de alegria para o Clã.

O mais novo:

- Agradeço a distinção, meu Senhor. Temos pouco tempo, fui seguido. Minhas comunicações estão sendo interceptadas. Meus relatórios apontam para uma caverna no sul do Iêmen, protegida por rituais esquecidos e por guardiões inomináveis. Devemos agradecer ao Gangrel Beckett, por sua generosidade, a despeito das difíceis negociações que o fizeram revelar o que era de nosso interesse.

A mulher:

- Eu ainda não compreendo a necessidade disto.

O mais velho:

- Fogo se combate com fogo. Aquele que repousa no Iêmen é o único, dada sua idade e poder, segundo os Apócrifos, que pode nos oferecer algum grau de resistência - e legitimidade - contra as agressões do Herdeiro de nosso Ancestral.

A mulher deu de ombros. Temia que o a personalidade do Primeiro Vizir fosse tão - ou mais - imprevisível que aquela do Herdeiro.

O mais novo fez um rápido cumprimento com a cabeça aos presentes.

- Devemos abandonar este local. Nossas existências correm risco. Nos veremos novamente no arco de três semanas.

Os outros dois assentiram. O homem respondeu, antes de se retirar.

- Foi um privilégio revê-lo, Al-Amin.

Amon percebeu que Nakurtum e Tammuz adentraram Nippur, apenas passos atrás da cavalaria que acompanhava Medon. Nos ombros do Filho de Haqim, um corpo enrolado em um sudário. Amon sabia tratar-se de Mi-Ka-Il, Filho de Arikel.
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Re: Excursus: Origens.

em Qui Ago 09, 2018 8:35 am
A vitória estava próxima.

Destruídos no campo de batalha se encontravam os asseclas de Nergal, O Obscuro. Não eram capazes de resistir às forças de Nippur, Akkad e Uruk. Era a maior batalha da Grande Guerra, até então. Foram três dias e três noites de conflitos intensos. Sob o sol lutavam os mortais: homens das cidades do Sul que haviam se levantado contra a tirania de Mashkan-Shappir, após serem convencidos pelas palavras de Ventru, Malkav e Cappadócius. Reis, Sábios e Filósofos pegaram em armas e marcharam rumo ao norte maculado.

À noite, os verdadeiros combates começavam. Seguidores do que quer que fosse cultuado em Mashkan deixavam seus refúgios para se lançar contra as forças comandadas por Samiel, Karotos e Mancheaka. Era uma batalha entre iguais, aquela, pois mesmo que os inimigos fossem de uma geração abaixo àquela de seus opositores, haviam aprendido com o tempo quais eram as fraquezas do povo de Nippur. Graças também, obviamente, às palavras de Amarantha que, ainda que não caminhasse mais sobre o mundo, havia gerado efeitos perversos com a sua traição.

Fora aqueles que estavam distantes, em viagem pelo mundo, e aqueles que permaneciam em Nippur cuidando de temas místicos e mantendo o contato entre as diversas forças, a maioria das casas estava representada na guerra. Do Leste chegou Hazimel, Filho de Zapathasura, que com suas ilusões quase reais dispersava os inimigos, tornando sua destruição mais fácil. Do Sul veio Urlon de Uruk, Filho de Ennoia que, juntamente ao seu irmão Hukros, liderava e inspirava dezenas de homens. Do Norte veio Kartaryria, Filha de Loz, com seus múltiplos braços que a tornava tão assustadora quanto feroz em batalha. Não obstante os reforços, algumas casas estavam ausentes. Os Filhos da Escultora não estavam em nenhum lugar, assim como os Filhos da Tempestade.

Ainda assim, a vitória estava próxima.

Ou assim pensavam.

Quando Mashkan-Shappir abriu seus portões, o eco pode ser sentido em toda a planície. Lutavam mais ao Sul, vizinho aos vilarejos que haviam sido conquistados por Daharius Sarosh, mas que não mais existiam, abandonados pelos mortais que ali viviam que optaram por não pedir abrigo à Nippur, mas em deixar a planície para sempre. Em questõ de horas as abominações que Mashkan havia parido alcançaram o campo de batalha, e o coração dos mortais - e de alguns cainitas - tremeu em medo e fúria. Eram dos mais variados tipos e tamanhos, com múltiplas mandíbulas, pernas e braços. Eram crias do Submundo que agora caminhavam livremente pela Terra, graças à intervenção de seus mestres - ou seriam servos? - infernais. Babavam ácidos pusilânimes e profanavam a terra com o seu caminhar. Parte dos mortais recuou. Era inevitável. Não tinham, ao seu lado, o Poder do Sangue e a Idade que, lentamente, faz com que qualquer um se habitue à maioria das coisas. Os que ficaram, lutaram. Mas as abominações eram muitas.

Samiel ordenou a retirada, mas era tarde.

Foi um massacre.

Centenas de vidas mortais foram perdidas naquela noite, seus corpos triturados por bocarras imensas, pisoteados por patas gigantescas e dissolvidos pelo acido profano. Dois cainitas pereceram, e suas mortes foram choradas no campo de batalha e nos dias posteriores à ela.

Caiu Mancheaka, Filho de Haqim, Filho de Zillah, Filha de Caim. Movia-se como o vento, mas não rápido o suficiente para impedir que os inimigos o alcançassem, em um grupo de dez. Foi imobilizado por aqueles que tinham braços e teve seu corpo retalhado. Sobreviveu, os membros pendendo ao lado do corpo enquanto ele tentava se recuperar. No meio tempo uma das abominações, uma coisa que se assemelhava a um touro com músculos e tendões expostos e chifres escuros, avançou em carga em sua direção, perfurando seu coração com o chifre. Os inimigos se amontoaram e, enquanto a batalha ainda rugia ao redor, beberam seu Sangue e comeram sua carne antes que virassem cinzas.

Caiu também Khanon-Mer, O Forte, Filho de Laza, de Irad e de Caim. A abominação que o abateu - depois que ele havia abatido mais de quarenta, dentre cainitas que serviam ao Inimigo e abominações que ali marchavam - tinha quase três metros de altura, os braços terminados em lâminas de bronze avermelhada e, ao menos, quatro faces diversas emolduradas no mesmo crânio. Mas a carne de Khanon não foi devorada, pois tornou-se Una com a Escuridão e, num último esforço, deu lugar a uma onda viscosa e pegajosa que imobilizou parte dos inimigos, permitindo ao restante das forças escapar. O sacrificio final de Khanon demonstra uma ultima ironia. Aquele que foi considerado o menos capaz dos Filhos de Laza, ao menos no quesito de controle sobre a Escuridão, demonstrou uma utilização de seus dons que deixou mesmo seus irmãos Karotos e Tepelit supresos.

De minha parte, escrevo estas palavras para que a memória destes dois cainitas não seja esquecida. Eu não os esquecerei. Seus nomes serão honrados e santificados até o Fim dos Tempos e seu sacrificio nos inspirará e nos levará à vitória.

Tinia, Progenie de [ilegível].

Nota de Lucita: Tal texto está contido em uma tabuleta de argila encontrada no Iraque, após os bombardeios pelos EUA, Beckett. Atualmente em propriedade do teu amigo Aziz Al-Amin, Progênie de Ibrahim Al-Mufarrej, Progênie de Tegyrius, Progenie de ??, Progenie de Haqim.
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Re: Excursus: Origens.

em Qui Set 13, 2018 5:59 am
Khemet.

O maior dos Impérios jamais criados se desdobrava na planície do Nilo, sob os olhos atentos de Karotos, Filho de Laza e da Corte de Fogo, regida pelos Filhos de Sutekh. Havia uma paz frágil, uma trégua silenciosa, mantida somente em razão dos inimigos comuns: homens feras que vagavam pelo deserto, atacavam mortais e interrompiam os fluxos comerciais com as terras sob o Deserto infinito. Em concordância, Khemet foi eleita território neutro na Jyhad nascente. Ao menos enquanto as feras se esforçassem, intensamente, para destruir a presença Cainita naquele lugar.

Meses haviam se passado desde os conflitos finais. A Enki, Sarosh e Ya'rub, o enfrentamento no Vale de Gei Ben-Hinnon ainda estava fresco na memória. Não haviam encontrado, contudo, seus Senhores desde a queda de Mashkan-Shappir. Sabiam que ela havia sido destruída, transformada em cinzas, a terra ao redor salgada e queimada. Sabiam, também, que Nippur não mais existia. Era uma ruína abandonada, segundo os mortais que chegavam de todas as partes. Havia sido amaldiçoada com a doença e a morte, de forma que aqueles muros não eram mais habitáveis. Uma imensa diáspora se seguiu naqueles meses. Alamut recebeu sua cota de homens e mulheres, assim como as outras cidades da Planície que eram constantemente monitoradas por Daharius. Mesmo o Norte distante, onde vagava Enki, viu o influxo de homens e mulheres de pele escura e faces cansadas da guerra.

Estavam em Khemet em razão de um chamado. Souberam, instintivamente quando aconteceu, que estavam caminhando para o mesmo lugar, embora vindos de terras diferentes. Mantiveram-se em contato, naqueles últimos meses, vigiando o Selo de Alamut. Mas nada de estranho havia acontecido. Após décadas de guerra, parecia que um pouco de Paz haveria de reinar.

Quando se encontraram, em um Templo no extremo sul de Khemet, quase na fronteira com o Sul desconhecido onde caminhavam Bestas, Homens, Deuses e Mortos, não sabiam a razão daquela convocação. O Templo era pouco mais de uma ruína abandonada pela Corte de Fogo, mas protegida misticamente em razão de sua importância histórica: teria sido o primeiro templo erguido por Sutekh, com suas próprias mãos. Sabiam que tinham a autorização do Senhor das Tempestades para estarem ali. Estavam em um salão redondo, com parte do teto desabado. Haviam pinturas que retratavam Sutekh e, aos olhos de Sarosh, também Osíris. O centro do salão era mais baixo que o exterior, com pequenas escadas que conduziam do corredor de entrada até aquele local. O que sobrava do teto era sustentado por colunas envelhecidas. Havia um odor de velho naquele lugar, mas também o cheiro do deserto e mesmo o do Nilo, que corria a alguma centenas de quilômetros de distância.

Não demorou muito antes de chegassem. Estavam juntos. Possivelmente haviam viajado juntos. Laza, Haqim e Loz. Cada um grandioso à sua própria maneira. Loz parecia demasiadamente mortal, face corada e cabelos brilhantes e curtos. A única permanência eram os lábios de sempre e a testa particularmente proeminente. Haqim era, ao contrário, exatamente o mesmo. Forte, imponente e Sábio. Em seu corpo, porém, cicatrizes novas podiam ser vistas. Laza era um meio termo entre os dois. Era e não era o mesmo. A sensação era que o Antediluviano se tornava cada vez menos etéreo e cada vez mais material, por assim dizer. Curiosamente, todos estavam vestidos de branco: Laza com uma túnica longa e simples, como aquelas com as quais se vestem os mortos antes da cremação. Haqim com um saiote no estilo de Khemet. Loz com um blusão e um saiote mais longo, que lhe dava uma aparência particularmente fantasmagórica.

Foi Haqim quem tomou a palavra quando todos se encontravam no centro do salão. Loz colocou-se ao lado de Enki, sem cumprimentá-lo. Laza tocou o ombro de Sarosh antes de Abraçar por um longo tempo seu filho. Parecia ainda estar se habituando àquele tipo de demonstração. Haqim, antes de falar, somente fez uma mesura respeitosa na direção de Ya'rub.

- Cá estamos. Há muito a ser dito por nós. Imagino, porém, que há muito a ser perguntado por vocês. Nada vos será escondido esta noite pois não faria sentido fazê-lo. Vocês são quem são. Comecemos.
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Re: Excursus: Origens.

em Qui Set 13, 2018 5:10 pm
Ya'rub aguardara ansiosamente por aquele reencontro. Era bom rever seus companheiros de batalha. Após o confronto no Vale de Gei Ben-Hinnon, Enki e Sarosh haviam seguido seus caminhos, mas Ya'rub fazia questão de manter-se em contato, para discutir as ainda recentes impressões sobre o ocorrido. Em sua mente, haviam constituído um vínculo, algo como uma missão secreta que agora compartilhavam pela eternidade. Pelo que entendia, talvez com exceção de Zillah, Irad e Enoch, nenhum outro Cainita havia entrado em confronto direto com um Filho de Lilitu e sido bem sucedido, além deles três. E, com exceção de Ya'rub, Sarosh e Enki, nenhum Cainita havia sobrevivido àquele conflito. Ao menos era o que vinha pensando e discutindo com seus primos. Fato é que, até o momento, não havia nenhuma certeza.

Mas, apesar disso, não era o reencontro com seus primos que mais ansiara. Não.

O Sangue de Ya'rub sofreu uma espécie de descarga elétrica quando viu Haqim adentrando no salão junto de seus tios. Há décadas que não via seu Pai. Era pouco tempo, para quem atravessa os séculos, mas muito para o Filho que desejava respostas e boas notícias. Desde que partira para construir o Alamut que não se encontrava frente a frente com Haqim. E havia tanto a ser perguntado, que sabia que um encontro não seria suficiente.

Ya'rub queria que seu Pai fosse ao Alamut, queria ter-lhe apresentado sua mais grandiosa obra, feita em nome do Seu Sangue. Queria voltar a abraçá-lo e com ele discutir sobre a natureza e a Ordem das coisas. Não sabia se isso seria possível, e, se o fosse, quando seria possível. Não sabia o que se passava na mente de seu Pai desde que abandonara Nippur.

Ya'rub não sabia de muitas coisas que precisavam de respostas. Mas havia uma questão que o perturbava. Uma única questão que deveria ser feita e que reverberava em sua mente desde aquela noite em que encontrara Moloch nos arredores de Nippur.

Só havia um problema. Ya'rub não sabia se deveria falar de tais coisas na frente de seus primos e tios. Não imaginava quais poderiam ser as consequências. Assim, Ya'rub olhou Haqim nos olhos, projetando sua mente e suas palavras para dentro dos pensamentos de seu Pai.

- Pai, perdoe-me por essa intromissão. Perdoe-me pela sensação de urgência que lhe trago, antes mesmo de qualquer cumprimento e afeto. Mas há algo que preciso saber e que não o quero dizer na Frente de Loz, Laza, Enki e Sarosh. É algo que não quero que seja dito na frente de nenhum daqueles que não carregam o seu Sangue.

Em silêncio, Ya'rub continuava fitando Haqim.

- Pai, tu és o maior navegante nos mistérios do Sangue. O seu conhecimento sobre as marés e caminhos da Vitae é inigualável. Naquela fatídica noite em que Mancheaka drenou uma filha de Arikel e nos trouxe a noção da Morte... Desde aquela noite, os Mundos não são mais os mesmos. Uma Tempestade varreu o Mundo dos Mortos e o Medo chegou ao coração de todos os que carregam o Sangue de Khayyn em suas veias.

- Diga-me, Pai. Diga-me pois eu preciso saber... Sabia que o que aconteceu iria acontecer?
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Re: Excursus: Origens.

em Sex Set 14, 2018 5:07 am
A eletricidade que percorreu o corpo de Ya'rub era causada, sim, pela ansiedade e pela ausência de Haqim. Mas havia algo mais. A presença do Antediluviano reverberava no próprio Sangue do Feiticeiro, que parecia se mover, se agitar para além de sua vontade imortal. Seu Sangue era aquele de Haqim, pertencia a Haqim, a Fonte. E Haqim era decididamente diverso do que fora. Ya'rub acompanhou, ao longo dos séculos, as sutis mudanças na psique de seu Senhor. Mas agora que Nippur não mais existia, pois Ya'rub sentia que era assim, Haqim estava livre das obrigações que tinha imposto a si mesmo e que tinham sido impostas a ele por seus irmãos e Ancestrais. Pulsava, quase brilhava em glória e poder, mediados por um senso de justiça que era cada vez mais palpável, mais impositivo.

"Não se preocupe. Eu a verei junto a ti e terás tempo de explicar-me tudo o que fizestes"

Foi a primeira resposta de Haqim, e dizia respeito a Alamut. Ya'rub sentia que o Antediluviano sorria com um imenso orgulho paterno, embora sua face permanecesse impassível, não denunciando qualquer vínculo empático. E então Ya'rub percebeu um dado fundamental. Haqim não se comunicava com ele através dos dons de Percepção. Haqim falava em seu Sangue e lhe transmitia seu humor e suas impressões. Haqim estava preocupado com centenas de coisas ao mesmo tempo mas, naquele momento, achava importante que seu filho e sobrinhos fossem munidos dos elementos necessários para enfrentar as batalhas que viriam.

"Não, eu não sabia. E, ainda assim, sabia. Intuía. Teorizei, há muito, sobre aquela possibilidade. E me arrependerei para toda a eternidade de não ter intervido, de ter sido guiado pela curiosidade no meu aprendizado sobre o Sangue. Nosso Sangue carrega poder, carrega a energia que nos mantém em um êxtase suspenso ao longo do Eterno. Me parecia óbvio que tal poder pudesse ser usurpado. Mas, quando presenciei o fato e compreendi as consequências dele, minha mente e alma prostraram-se em horror."

Haqim havia falado a sua primeira sentença aos presentes, mas continuava a responder Ya'rub através do vínculo entre eles.

"Jamais alcançarei absolvição por este crime contra a minha raça. O que me cabe, minimamente, é remediar os efeitos de tal revelação. Tal prática é abominável, injustificável. Mais uma vez imponho a mim mesmo e à minha família tarefas que talvez sejamos poucos para cumprir. Lhe digo, Ya'rub, a Casa de Haqim não deve tolerar, em nenhum hipótese, que o Sangue do Coração de outros cainitas seja usurpado. Somente nós conhecemos a fundo o significado filosófico deste ato, para além do que ele representa, seja como punição seja como luxúria. É uma ação que deverá ser evitada e, se realizada, seus agressores deverão ser punidos. É esta a minha pena, e a da minha casa. Os Banu Haqim não tolerarão aquilo que, agora, se chama Amaranto, em uma homenagem mórbida. Não toleraremos. Nem nas nossas fileiras, nem nas de meus irmãos. Como ésCriador da minha casa e Mestre do meu barco eu imponho também, a ti, Filho Meu, e a teus irmãos o peso de ser o Juiz de nossa raça."
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Re: Excursus: Origens.

em Sex Set 14, 2018 11:17 am
*Loz.*

*Era fascinante, toda vez, sem exceção. Enki sentia seu sangue pulsar ao ver o pai, mas não era nada similar ao bombear causado por um coração mortal, era o contrário. Era como se seu sangue corresse ao contrário, como que por vontade própria. E Enki sabia que era um mero reflexo de estar na presença de Loz. Enki podia ser bom, e de fato era. Mas Loz sempre seria melhor.*

*Ele fica, sem saber o que dizer por um momento. Mas algo lhe surge à mente, algo que roçava sua cabeça nos últimos cem anos.*


-Não é novidade que caiu a nós a oposição à Mãe Negra, professora e algoz de nossa espécie. E se nos é fadado dançar ao seu lado pela eternidade, eu estaria disposto a aprender sobre seus filhos.

...

-E sobre o Pai Negro. Vocês três o conheceram. Seus defeitos. Suas qualidades. Precisamos saber quem ele era. E se seu legado, além de nós, é digno.

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Re: Excursus: Origens.

em Sab Set 15, 2018 6:45 am
Por alguns segundos, Loz somente encarou seu Filho, detendo-se em seu Olho rubro pela maior parte do tempo. O olhar do Pai não era severo ou particularmente expressivo, mas ele parecia analisar Enki em base a critérios só seus. Em seguida, virou-se para Laza. Era nítido que havia entre os dois uma estranha cumplicidade, em entendimento obscuro que deixava de fora todos os outros naquela sala, incluindo Haqim, que parecia ignorar a situação. Laza encarou Loz por poucos segundos. Em seguida, o Estrangeiro voltou-se para seu filho. Sua pele corada parecia perder lentamente o rubor de saúde e retornar à coloração típica de um homem afogado.

- Nem mesmo nós sabemos muito sobre quem são os filhos de Lilitu. São quatro, cada um responsável por destruir um dos selos que erigimos. Minha intuição diz que são como nós, que comungam do Sangue de Caim, embora suas origens sejam mergulhadas em mistério. Em nossa história, porém, figura uma entidade apócrifa em alguns textos, conhecida como A Velha. Supostamente, após a expulsão de Caim do Eden, ele teria encontrado esta criatura, que o teria ensinado sobre algumas de nossas potencialidades e nossas fraquezas. Mas esta história é já de vosso conhecimento.

Loz sorriu, aparentemente recordando-se de um pensamento.

- Como podem ver, o Pai Negro tem o costume de abandonar aqueles próximos a ele, ou feri-los profundamente.

Laza interrompeu. Sua voz era menos rouca do que o de costume, mais impositiva e autoritária.

- Não nos é claro, porém, se o Ancestral concedeu o Dom à Velha. Os textos insinuam que após ensinar a Caim o que ele desejava saber, a Velha requereu uma parte dos seus descendentes, que jamais foram vistos novamente, isto após prender o Pai Negro em submissão completa, razão pela qual ele a estacou e a deixou apodrecer sob o sol, o que poderia indicar que ela compartilhou de nosso Sangue. Sobre os outros, não sabemos quem são ou de quem descendem. Se são nossos irmãos ou se descendem da Velha. Sabemos, também, pouco sobre a relação entre a Velha e Lilitu, mas existem aqueles dentre nós que consideram-nas como uma mesma entidade de aspecto dual ou talvez trifásico.

Haqim permanecia em silêncio. Agora encarava diretamente Laza, ocasionalmente observando Ya'rub. Laza continuou.

- Se estes Filhos de Lilitu são cainitas como nós, serão criaturas de poder e idade consideráveis, embora os selos construídos contenham grande parte de seu poder. Suas mentes possivelmente foram subvertidas pela vontade da Velha, ou de Lilitu, ou de ambas, e nelas foi incutida a noção de vingança eterna contra a Prole do Primeiro. Mais do que isso não é de nosso conhecimento.

Haqim interrompeu. Sua voz grave ecoou no recinto com uma sentença simples.

- Eles são cainitas. Disto podemos ter certeza absoluta.

Loz e Laza olharam de relance para seu irmão. Mas foi o Estrangeiro quem continuou.

- Quanto ao Pai Negro... não há nada que seja digno de nota. Uma criatura obcecada e narcisista, incapaz de perceber os desejos de seus descendentes, de sentir suas dores e suas preocupações. Caim sempre se preocupou somente consigo, com sua obsessão em receber o perdão d'Aquele Acima. Não hesitaria em destruir-nos se fosse necessário, mas era fraco até mesmo para isso. Suas maldições não foram o suficiente para nos fazer desistir da existência, tampouco Ele entendeu que seus próprios Filhos se sacrificaram para remediar os erros cometidos por ele. Escolheu o caminho mais fácil, pôs a culpa em nós.

Sorriu. Havia, em Loz, um rancor profundo, intenso e palpável. Laza continuou.

- Não há nenhuma qualidade no Ancestral. Seu único legado somos nós, o legado que ele tanto odiou. Eu me lembro do Dilúvio. Me recordo como o Ancestral ria em seu Trono, ao mesmo tempo em que se emocionava por achar que aquele evento significava o perdão. Mas Aquele Acima é muito mais cruel do que o Pai Negro. Imagino que tenha gargalhado em seu Trono sobre as nuvens, ao perceber a tolice de Caim. Mas nós, meu caros, nós sobrevivemos e demos origem a vocês. Desafiando a vontade tanto do Pai Negro quanto aquela d'Aquele Acima. Nenhum dos dois tem poder sobre nós, e é preciso que isso fique muito claro.

Olhou para Loz. Haqim interrompeu, voltando-se para Enki.

- Se desejar, Enki, encare o Ancestral não como alguém de relevância em sua existência, mas como um arquétipo. Ele não vai retornar, abandonando seu exílio para guiar a nossa raça. Contudo, o Ancestral permanece como um paradigma para nós. Senão de como tratar seus descendentes, ao menos em relação à curiosidade sobre as nossas limitações e nossos Dons. O Ancestral dominou todos os aspectos de nossa existência, e este é o único modelo no qual ele pode nos inspirar em alguma coisa.


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Re: Excursus: Origens.

em Sab Set 15, 2018 9:45 am
Sarosh era outro.

O segundo filho de Laza havia crescido nos últimos anos em uma curva muito maior do que durante os séculos antes vividos. Era fácil notar que o conflito e o dever acentuavam e fortaleciam características. A guerra, de fato, moldava os homens.

Durante o tempo que se passou após o confronto com Mekhet no grande vale, Daharius caminhou contemplando aquilo que seus escuros olhos que viviam presos em Nippur ainda não tinham visto. Se lançou à terras distantes, buscando o local ideal para a construção do império que prometeu aos mortais. À eles e por eles Sarosh deveria atuar. Era, também, sua responsabilidade. Manteve o contato, mesmo que distante, com o Guardião da Carne e o Guardião do Sangue, que em conjunto consigo, o Guardião do Abismo, selavam o primeiro dos encontrados e temíveis filhos de Lilitu. Aquele seria um contato duradouro, não poderiam perder o foco de suas atribuições na eternidade a seguir.

O chamado o atingiu com o peso da saudade. Sentia a falta de seus irmãos, do convívio diário. Sentia falta, sobretudo, de seu Pai.

Sorriu enquanto caminhava abaixo da vastidão estrelada ao notar que lhe fazia falta até mesmo o olhar severo e a ausência emocional de Laza ao tratar com seus filhos. O amava, assim como ele amou à Irad.

Quando encontraram-se naquele templo, antes da chegada dos antigos, Sarosh cumprimentou Enki e Ya'rub com genuína alegria e um sorriso afável. Aqueles dois diversos vampiros seriam seus companheiros na mais obscura e exaustiva batalha durante toda a eternidade. Mesmo à distância e a dispor de todas as divergências que se apresentariam - sem dúvidas - em virtude da já iniciada Jyhad, precisavam manter-se unidos por todos os outros. Pelos que caminham na noite e também por aqueles que habitam abaixo da luz do sol.

Enfim, estavam diante de seus ancestrais. Daharius retribuiu o abraço de Laza. Apertou-o contra o próprio corpo em um gesto que significava demais. Não o perderia. Não deixaria que ele se perdesse. Sussurrou em seu ouvido antes de beijar-lhe a face, mesmo com a certeza de que os demais - perceptivos como são - o ouviriam.


- Ele o amava de igual ou maior forma ao seu amor por ele. Não se tornes como ele para que eu não me tornes como você.

Em seguida pôs-se a ouvir. O questionamento de Enki e as respostas dos antigos foram claras e assertivas. Não havia muito a ser perguntado por Sarosh. Havia aprendido que as respostas e os ensinamentos viriam com o tempo e a ação. Pairava somente uma dúvida e faria a pergunta após aproveitar-se de uma das frases de Loz para fazer um pedido.

Citou as palavras do antigo, antes de iniciar as suas próprias.

- "Uma criatura obcecada e narcisista, incapaz de perceber os desejos de seus descendentes, de sentir suas dores e suas preocupações."

Sorriu, era um sorriso triste. Continuou.

- Não estamos nós fadados a sermos iguais? Espero que não, embora possa intuir que sim. Peço aos antigos que esta maldição que me parece ser a maior de todas as que nos aflingem com o tempo, seja combatida insaciavelmente. Nós, os seus descendentes, precisamos que vocês sintam nossas dores e preocupações para que aprendamos a fazê-lo com àqueles que são nossos filhos. Esse ensinamento precisa ser passado adiante.

Ergueu o olhar fitando os de Laza, enquanto falava. Encerrou questionando, passando o olhar desta vez nos outros dois, sobre aquilo que ainda tinha dúvidas.

- Mekhet. É esse o nome do primeiro a quem selamos. O grande caçador, Haqim, disse que não sabemos muito sobre os demais mas que são quatro em sua totalidade. Mekhet estava em um esquife negro no grande Vale. Temos indícios da localização dos outros três? Pergunto-os, pois os locais devem ser guardados com ímpeto e dedicação, também, da influência externa.

- Temo que vampiros e demais criaturas possam alcançar o conhecimento de tais seres e busquem-nos por poder, vingança ou pura tolice. Devemos guarnecer os locais dos selos tanto quanto buscamos combater os filhos de Lilith.
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Re: Excursus: Origens.

em Sab Set 15, 2018 10:05 am
Foi Loz quem respondeu à primeira pergunta de Daharius. O fez aproximando-se lentamente enquanto falava, terminando por tocar o rosto do Guardião do Abismo. Havia, em seu olhar, um brilho estranho. Loz tinha um aspecto, do qual pouco se discutia, que era essencial à sua personalidade. Era um Profeta. Muito mais hábil que Saulot, ainda que menos hábil que Malkav. No entanto, furtou-se, ao longo dos milênios, a realizar suas profecias. Guardava-as para si.

- Não existe tal coisa como estar fadado a algo, Daharius. Os pecado de nossos ancestrais não nos define. As ações de nossos ancestrais não norteiam as nossas. Se quer ser diverso, seja. Supere a dor. Não há nada que Laza posse lhe dar que você já não tenha conseguido sozinho.

Sorriu, com a mão fria e macia na face esquerda de Daharius.

- De ti será exigido muito mais do que de qualquer outro nesta sala. Ao menos no que diz respeito à unidade da Prole de Caim. Eu lhe desejo boa sorte, e rogo pelo teu sucesso. Sinceramente.

Sorriu novamente. Sarosh sentiu algo como um forte carinho a envolvê-lo. Loz o admirava por uma razão que escapava ao seu conhecimento.

Haqim esperou que Loz se afastasse, permitindo aquele momento de conexão entre ele e o Filho de Laza. Depois, respondeu.

- O nome Mekhet aparece em pouquíssimas inscrições, a maioria deles oriunda de Khemet. Falam de grande poder mágico, fórmulas alquimicas. É, ao que tudo indica, um grande feiticeiro. Tenham isto em mente.

Fez uma pausa antes de continuar.

- Quanto aos outros, Daharius, estão aprisionados exatamente no mesmo local onde se erguem cada um dos selos, no mesmo lugar onde nossos Senhores foram sacrificados para erguê-los. Nós jamais os enfrentamos. Mas, naquele momento em que nossos Ancestrais morreram, o próprio véu entre os mundos estremeceu. Eu teorizo que Lilitu tenha tentado, naquele momento, atingir o plano físico através de seus filhos, sendo barrada somente pelo Sacrifício dos filhos de Caim. Portanto, enquanto Mekhet se localiza vizinho à Alamut e é de responsabilidade dos meus filhos, os outros dois se encontram na praia rochosa onde Irad foi morto e no norte distante, vizinho às terras que foram desbravadas por meu irmão Loz. O último selo, contudo, nos é de localização desconhecida. Teorizo, porém, que este local terá uma relação com as terras por onde andou o Quarto Filho de Caim.

Olhou para Laza. Parecia esperar que o Antediluviano expressasse algo.

- Sim, eu sei. A escolha foi feita à minha revelia. Tepelit não será mais o responsável pelo Selo de meu Clã. Ahriman, afinal, escolheu Daharius.
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Re: Excursus: Origens.

em Sab Set 15, 2018 5:17 pm
Ya'rub esforçava-se para prestar atenção e absorver as perguntas e respostas trocadas entre todos os presentes. O esforço se dava pelo fato de que seus pensamentos estavam tomados pela informação que Haqim acabara de lhe transmitir. Uma transmissão que vinha não por palavras trocadas pela fala. Tampouco pela mente. Seu Pai lhe falava pelo Sangue! Era impressionante o quanto Haqim havia crescido em poder em tão pouco tempo. Sua consciência sobre o Sangue já era inigualável no passado, mas o passar das décadas a tornava incomensurável...

E, ainda assim, mesmo com todo o Poder sobre a Água da Vida, Haqim não conseguira prevenir o que acontecera na execução de Amarantha. Se seu Pai não fora capaz de impedir o que ocorreu, como ele, Ya'rub, ou mesmo seus irmãos e filhos poderiam julgá-lo? Não... pois nem mesmo Haqim era maior do que o Sangue. O Pai não era maior do que a tragédia.

Ya'rub olhou Haqim nos olhos. Através do Sangue, transmitiu o respeito que sentia pelo Pai, bem como o perdão. Sabia que seu perdão individual não seria nada perto da dor e do arrependimento que o Grande Caçador carregaria. Ainda assim, quis transmitir-lhe a cumplicidade e o orgulho. Estes logo foram seguidos pelo senso de dever. Pois sim, Ya'rub seguiria as ordens do Pai. Os Banu Haqim combateriam o Amaranto em qualquer lugar. Seus praticantes seriam julgados e punidos. A Casa de Haqim continuaria cumprindo sua missão.

O Sangue deve fluir, pensou Ya'rub. Tomá-lo e aprisioná-lo dentro de um corpo que já está em estase era um pecado inominável diante da Ordem do Universo.

Voltou, finalmente, a conversa que transcorria entre os presentes. Quando Laza terminou de proferir sua última frase, Ya'rub adiantou-se:

- Pergunto-lhes, meu amado Pai e queridos tios, o que devemos fazer quanto ao futuro. Devemos apenas nos manter atentos? Ou devemos partir daqui e buscar ativamente os outros pilares, para impedir o despertar dos Filhos de Lilitu de uma vez por todas? Eu mesmo me disponho a investigar pessoalmente sobre o Quarto Filho, na esperança de descobrir mais sobre o último pilar.

Ficou em silêncio por um momento. Com a mão no queixo, refletia consigo mesmo. Sorriu e continuou:

- Ao mesmo tempo, penso que Lilitu terá, caso já não o tenha, seguidores. Não falo de seus poderosos filhos, mas de Cainitas e mesmo mortais que serão seduzidos pelo conhecimento da Mãe Negra. É inegável que há muito o que aprender com Ela. O que faremos em relação a isso?

Terminou sua pergunta e ficou em silêncio. Ya'rub nunca escondera um certo desprezo pela figura de Khayyn. Mas em sua última pergunta, era inevitável, ao menos para Haqim, perceber a curiosidade do próprio Filho a respeito da figura de Lilitu.
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Re: Excursus: Origens.

em Dom Set 16, 2018 7:28 am
Haqim observou Ya'rub por demorados segundos. Não havia julgamento por parte do Pai, tampouco uma sentença inexorável. Observou, em silêncio. Não olhou para seus irmãos como se buscasse uma opinião, parecia que não importava para ele. Haqim era o responsável, sim, por sua casa, mas era também um ser respeitado em suas opiniões acerca das outras casas. Loz e Laza se mantiveram em silêncio, esperando que o Caçador se pronunciasse. E ele o fez.

- Não acredito que uma busca ativa pelos Pilares e pelos Filhos de Lilitu seja uma opção. A melhor ação, neste caso, é relegá-los ao esquecimento perpétuo. Obviamente, isto nos impõe uma vigilância permanente sobre quaisquer movimentos que ocorram relacionados a este tema. Alamut existe, uma fortaleza que vigiará para sempre o Selo de Zillah. Meus irmãos deverão atuar de forma semelhante, reforçando posições nos locais onde se encontram os outros selos. São os locais onde nossas famílias deverão congregar, onde nossas forças estarão sempre prontas para intervir caso seja necessário. Devemos fortalecer nossas posições, mas devemos também dar conta de outros problemas que exigirão a nossa atenção. Além disso, quando menos este segredo for compartilhado, menos serão aqueles que serão seduzidos por Lilitu e seus ensinamentos.

Haqim caminhou lentamente pela sala antes de continuar.

- Evidentemente que surgirão adoradores de Lilitu, pois os ecos de sua voz ainda são escutados pelas fissuras entre os mundos. Não se iludam, qualquer um que siga os ensinamentos da Mãe Negra devem ser tratados como inimigos. Contudo, é papel dos Guardiões, que são vocês já que nós não podemos realizar tal tarefa, saber mais sobre o inimigo. Nossas mãos estão sujas de Sangue de sacrifício, somos nós os construtores mas não os mantenedores. Cabe a vocês encontrar e alcançar o equilíbrio ideal entre a curiosidade e o enfrentamento. Eu confio em ti, Ya'rub, Sangue do meu Sangue, como confio também em Daharius e Enki.

Loz interrompeu. Sua expressão havia mudado. Se tornara mais obscura, sombria, violenta.

- Há, de fato, muito a aprender com a Mãe Negra. Aprendam. Mas tenham em mente uma coisa. Um simples passo fora da linha e eu, pessoalmente, destroçarei vossos espíritos e os entregarei ao esquecimento. Não duvidem nem mesmo por um segundo que serei capaz de fazê-lo. Há coisas muito maiores do que o amor que sinto pelos meus filhos.

Laza estava em silêncio, mas parecia concordar com Loz. Haqim continuou, como se não tivesse ouvido nenhuma ameaça.

- Sim, Ya'rub, tu seguirás para as terras ao Sul de Khemet. Descubra o possível sobre nossos parentes e sobre o Quarto Filho. Tuas descobertas serão compartilhadas com os outros guardiões. Embora o tempo, inexoravelmente, tenda a nos afastar e nos tornar rivais ou mesmo inimigos, saibam que há algo que vocês três, e somente vocês três compartilham. Este algo se chama responsabilidades.
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Re: Excursus: Origens.

em Seg Set 17, 2018 2:04 am
*Três homens sábios, eram os ancestrais. Suas respostas eram completas, as dúvidas sanadas. Enki ouve sobre o Pai Negro, a Mãe das Abominações e a Velha. Escuta sobre seus filhos e seus selos. Escuta sobre sua missão e propósito, sobre poder. E tudo era bom.*

*Tudo era bom até a última fala do Mais Velho. As dúvidas estavam aparentemente sanadas, e pouco restava a ser dito. A ameaça do Maior dos Moldadores pairava no ar, e os Antigos se preparavam para deixar o recinto.*


-Não.

*Era a voz de Enki, que até então se contentava em escutar a conversa parcialmente alheio a tudo. Ele caminhava para a frente dos três agora, magro e vestido com couro e peles, de aparência perpetuamente úmida, mas encara aqueles de antes do Dilúvio. Os encara e sente seu sangue, que sempre pulsava ao contrário, congelar em suas veias. Podia sentir o fundo de sua consciência, que antes compartilhara com Loz por um breve momento em Nipur, urrando em sua mente, mas nada o deteve. Talvez nem mesmo a violência física o detivesse naquele momento.*

-Eternidade. Nós três colocamos nossas eternidades a serviço dos selos. A dedicar nossas existências a uma guerra eterna contra uma entidade que vive apenas em lendas e pesadelos. A remediar os erros e tolices do Pai Negro, para garantir que toda nossa raça sobreviva. Ao cuidar dos selos, somos nós mesmo selados. Nenhum jogo de poder terá importância quando os selos chamarem, nenhuma busca por conhecimento oculto terá prioridade. Outros construirão cidades, beleza, horror. Estarão livres para perseguirem suas existências. Nós não, nós estaremos eternamente vinculados à nossa missão. Tudo em nossas existências, e nas de nossos filhos, remeterão a corrigir os erros dos que vieram antes de nós.

...

-Nós. Não. Seremos. Julgados. Enquanto durar nossa vigília, não seremos julgados. Não seremos condenados. Não por vocês.

*Enki não era mais água. Era gelo, eterno no topo das montanhas, eterno, inclemente, inquebrável. Naquele momento, e apenas naquele momento, era mais orgulhoso do que qualquer um de sua idade, mesmo Medon ou Sarosh. Quando termina de falar, é quase num sibilo de raiva contida.*

-Vocês nos devem isso.

...

-Nós somos melhores filhos do que vocês foram para seus pais.
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Re: Excursus: Origens.

em Seg Set 17, 2018 1:15 pm
Quando Loz tocou-lhe, Daharius variou de inicial repulsa e um inegável receio até a mais absoluta surpresa. Admirou o Estrangeiro desde que o viu pela primeira vez, pois era ele portador de uma sabedoria que se adequava ao momento. Era uma mudança necessária de acordo com cada situação encontrada. Ouví-lo e notar o apreço em suas palavras foi também uma surpresa. Loz era distante e incompreensível até mesmo para os seus filhos.

Em virtude de tal ação, Daharius preocupou-se. Aquelas palavras, visionárias de um futuro possível, lhe traziam um receio crescente de que sua responsabilidade era ainda maior do que já compreendia. Silenciou e ouviu, atenciosamente, as instruções de Haqim, Laza e do próprio Loz.

Foi então que Ya'rub buscou mais questões, aprofundando-se de forma que lhe é característica na busca por conhecimento útil - todo conhecimento útil possível - e foi repreendido com veemência pelo mesmo Loz que havia sido afável há poucos instantes. Era ele a mudança, afinal.

As palavras de Enki seguiram-se duras. Mudavam, todos, quando o assunto era Lilitu e seu legado de terror e medo. Seria essa a influência que a Mãe Sombria teria sobre a prole de Caim? Incitá-los e direcioná-los uns contra os outros a todo instante pela mera menção de seu nome?

Daharius estava imerso em uma calma nova. Não era comum que a postura do Filho de Laza fosse tão analítica, fria e desprendida de emoções. Ele via. Ele sabia. Ele pintava o grande quadro à sua frente com um novo olhar. O olhar de um guardião.

Caminhou e colocou a mão sobre o ombro de Enki, quando começou a falar em tom baixo, mas firme, sem a necessidade de erguer a voz.


- Em tempo, a ilha na qual Irad foi destruído será o centro de poder dos filhos de Laza. Lá será erguida a nossa fortaleza e de lá os guardiões manterão o selo salvaguardado. Quanto ao norte, creio que seja tarefa dos filhos de Loz - do Guardião Enki - fazer o mesmo.

- Em virtude das últimas palavras, é importante notar que há sabedoria e verdade em todos que falaram.

- Ya'rub é o mais sábio de nós ao buscar compreender o viés de Lilitu. Pois, somente conhecendo o inimigo é possível combatê-lo e vencê-lo. Se falhamos até pouco tempo em relação à Nergal e Mashkan-Shapir, por exemplo, foi em virtude de verdades escondidas e segredos desnecessários que levaram, inclusive, a não-vida de alguns dos nossos.

- Loz é sábio, também, ao repreender a busca. Não a completa busca, mas uma procura displiscente que pode nos arrastar para a danação. A sabedoria está em filtrar a informação colhida. Embora a mensagem seja clara e necessária, não devemos duvidar do filtro de Ya'rub. Ele é, afinal, um Guardião.

- Enki é sábio ao apontar o desnecessário julgamento feito nesta sala. Percebam, Pai e tios, que o mais difícil para a sua geração é notar que somos nós a guiar as rédeas da existência a partir de agora. Somos nós os guardiões. Serão nossas as decisões.

- Seremos nós a julgar e não o inverso. Deixamos, e isto pode ser difícil de digerir, de ser vossos filhos obedientes. Somos a responsabilidade de manter o equilíbrio e isto está, inclusive, acima de vossas ordens e desejos.

Sorriu, genuinamente. Havia uma certa malícia.

- Saliento ainda a sabedoria de Loz quanto a ameaça. Todo aquele que colocar os selos, e por consequência a humanidade e a família, em risco será julgado e destruído sumariamente.

Seus escuros olhos, mais sombrios do que jamais estiveram, fitaram os antigos. Era Sarosh os falando, mas também era Ahriman.

- Todos, sem exceção.
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Re: Excursus: Origens.

em Seg Set 17, 2018 3:01 pm
Entre todos os irmãos de Haqim, Loz era aquele que mais perturbava Ya'rub - ao menos dentre aqueles que tivera a sorte ou o azar de conhecer pessoalmente. Para Ya'rub, o Senhor dos Moldadores era a encarnação da imprevisibilidade, de modo que qualquer forma de planejamento, qualquer previsão quanto ao futuro, perdia o sentido diante dele.

Aos poucos, Ya'rub ia construindo seu julgamento sobre Loz. Começava a concluir que absolutamente nada o faria confiar naquela figura. Começava a perceber que a própria existência de Loz era quase que uma afronta ao que acreditava.

E foi por isso que aquela ameaça - a primeira que havia visto Loz proferir - lhe caiu com um imenso peso. Internamente, pensou que a existência de Lilitu de fato deveria representar algo imensamente terrível. Não porque justificaria as duras palavras de Loz. Mas sim porque forçava alguém como seu Pai a se aliar ao Moldador. Quem era Loz para se sentir capaz de julgá-los? Quais são os parâmetros de justiça de um ser que tem a mudança como única constância a norteá-lo?

Ya'rub preparava-se para responder algo quando Enki, filho do próprio Loz, se adiantou. Aquele que outrora fora o Senhor do Abzu foi brilhante em seu comentário. Tão brilhante que Ya'rub sentiu sua alma sendo lavada. Sentiu-se mais leve e sorriu. Enki falava a verdade.

Em seguida, Sarosh também falou com sabedoria, buscando uma conciliação ao mostrar os aspectos importantes de ambos pontos de vista. Não tinham todos o mesmo objetivo, afinal?

Ya'rub estava satisfeito e continuava sorrindo. Pouco havia a acrescentar. Ainda assim, disse, em um tom baixo e ameno:

- Meus primos falam com sabedoria e eu compreendo a preocupação que vocês expressam, meus tios.

- Só tenho a concordar com Enki e Sarosh. Sua geração não precisa se preocupar conosco, pois temos noção da dimensão de nossos encargos. Nosso fardo é pesado e justamente por isso peço que confiem em nós.

Ya'rub olha Haqim nos olhos.

- Tal como Loz disse à Sarosh, nós não precisamos carregar nenhum fardo de nossos antepassados. Não estamos fadados a repetir os erros daqueles que vieram antes de nós... e deixo claro que não me refiro a nenhum de vocês. O que quero dizer é que não repetiremos a arrogância e orgulho cego daquele que se diz nosso Pai Negro.
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Re: Excursus: Origens.

em Ter Set 18, 2018 6:25 am
Laza e Haqim permaneceram calados, impassíveis diante de tudo o que havia sido falado. Não pareciam prestar atenção particular nem em seus filhos e tampouco a Loz. Era como se tivessem transferido ao Estrangeiro o controle sobre aquela situação. Aquela era a SUA arena, por alguma razão desconhecida. Não que o resultado não interessasse aos dois, mas ali parecia nítido que era Loz quem fazia uma espécie de experimento. Era Loz quem desejava as respostas. Aquelas corretas.

O Estrangeiro também estava imóvel diante dos Guardiões. Por um segundo, tudo pareceu possível. Ele podia, tranquilamente, destruir a todos os três naquele lugar, gerando um conflito eterno com seus irmãos que não seria de todo indesejado, pois o conflito porta à mudança. Ele poderia ignorá-los, pois era sábio e poderoso, podendo corrigir os passos dos Guardiões com mais ou menos esforço, com mais ou menos violência.

Loz, no entanto, escolheu sorrir. Um sorriso largo e genuíno, de absoluta satisfação. Um sorriso que distendeu seus lábios arroxeados em uma expressão disforme, caricatural. Demorou o olhar, de forma homogênea, sobre todos os três. Mas o fez por razões diversas. Em cada discurso havia algo que aprazia Loz, fragmentos que ele parecia montar em sua própria cabeça, e que confirmavam a sua experimentação.

- Posso ver que vocês entenderam, no final. Estou satisfeito. Não há mais nada a ser dito.
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Re: Excursus: Origens.

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