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Re: Templo de Ilyias

em Sab Ago 11, 2018 1:56 pm
Troile se levantou, apoiando-se no ombro de Amon. O peso das mãos de seu irmão mais novo era quase insuportável. Amon percebeu que os olhos de Troile pareciam ora opacos e sem vida, ora intensos e cheios de sentimento. No entanto o jovem, visivelmente, não estava bem.

- Eu peço a sua autorização, irmão meu, para permanecer aqui. Preciso descansar.

Requereu a permissão, mas não esperou a resposta. Deixou a sala se apoiando nas paredes do Templo, o corpo parecendo imensamente pesado. Em um certo ponto, parou, como se ouvisse alguma coisa. Depois, continuou, até deixar o campo de visão de Amon. A sala não tinha mais o perfume de Ilyias. Nem mesmo as cinzas estavam ali. Era um local impessoal, como todos os outros. Era como se Ilyias jamais houvesse existido. No entanto, existia ainda no peito e na memória de Amon.

Desceu as escadas, mas não cruzou com suas irmãs. Encontrou as ruas de Nippur mais uma vez vazias, quase desertas. As únicas pessoas que viu eram pedintes. De repente se deu conta: a miséria havia se instalado naquele lugar. A guerra consumia todos os recursos e com os homens jovens em combate, poucas pessoas restavam para semear os campos. As mulheres tinham medo dos demônios que voavam na escuridão. Um pequeno grupo de jovens se aconchegava diante de uma fogueira, os olhos famintos encarando o vampiro enquanto ele passava. Ouvia choros de crianças e lamentos de velhos. O próprio céu parecia triste, repleto de uma coloração cor de chumbo.

Encontrou seus pares na Praça Central. Ventru não estava ali. Quem o recebeu foi um homem que não conhecia. Era alto, forte e bem servido fisicamente. Os cabelos eram muito escuros e a barba cerrada. Tinha uma aura estranha, alienígena, ainda mais do que a que normalmente os cainitas tinham. Vestia-se com roupas exóticas, muito coloridas, em tom de rubro e prata. Não era altivo, régio ou guerreiro. Não era amoroso, violento ou vingativo. Mas poderia ser todas aquelas coisas. Bastava apenas o seu desejo. Aliás, pareceu a Amon que o simples desejo daquele homem era capaz de mudar o mundo.

- É uma honra conhecê-lo, irmão. Sou Hazimel. Venho do Leste.

O olhar do homem era enigmático, como se soubesse de centenas de coisas que os outros só imaginavam. Amon tinha ouvido falar pouco das terras ao leste da Planície, sabia somente que eram consideradas domínios dos Filhos de Zapathasura. Naquele momento, outros cainitas adentravam os portões de Nippur. Um cansado Medon, um preocupado Gallod e um altivo, mas machucado, Karotos.
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Re: Templo de Ilyias

em Ter Ago 14, 2018 3:02 am
Amon aquiesceu o pedido de Troile com um aceno de cabeça, mesmo este não estando mais no salão. Certamente a realidade agora pesava sobre seus ombros. Mesmo sendo tão recente, ele sentia, como se fosse há milênios, a ausência de Ilyias. Desceu pelas escadas do templo, imerso num silêncio sepulcral. Os cômodos vazios o incomodavam mais do que deveria. Ao caminhar pelas ruas, deparou-se com a miséria que se abatia sobre a outrora gloriosa Nippur. Os rostos famintos e cheios de tristeza dos mortais o tocavam fundo na alma. Se é que ainda tinha uma.

Sustentou o olhar, enquanto os jovens o encaravam. Ele sentia suas dores. Algo deveria ser feito por eles. Amon deu meia volta e retornou ao templo, antes de seguir para a praça. Recolheu boa parte dos mantimentos contidos no templo, mesmo sendo escassos. Os mortais não poderiam pagar pelas transgressões dos imortais daquela cidade. Carregando os fardos de alimentos, posicionou-se em frente ao mesmo grupo de jovens, enquanto colocava os cestos no chão.


Aproximem-se!!! Ordenou Amon.

Antes mesmo que eles se aproximassem, ele começou a falar.


Nos últimos tempos, a miséria abateu-se sobre esta cidade. Tal miséria não é vossa culpa, entretanto, sois vós que pagam com as suas vidas. Não se trata de sorte, isto é uma consequência das más ações da maioria de nós, que vós consideram deuses. Estes deuses, cegos de soberba e egoísmo, ignoraram vossos clamores e vossas dores. Seus pais e filhos padecem na luta ancestral contra a cidade de Mashkan-Shapir e jamais retornarão ao seio do lar, até porque não há mais um lar. Falhamos como deuses que não somos, envaidecidos do poder que temos. Eu Amon, filho de Ilyias, lamento muito.

Hoje compartilho do pouco alimento que me resta, para que vós tenham uma chance de escapar, uma última chance. Aqueles que tem forças para partir, que partam. Levem as mulheres e as crianças. Aqueles que não podem mais viajar, fiquem, pois, apenas atrasarão aqueles que ainda podem escapar. Darei aos mais velhos uma passagem imediata e sem dor, desde que escolham ficar. Não é o que desejo, entretanto, é o que precisa ser feito. Até porque, as próximas noites serão ainda mais sombrias de toda a existência de Nippur e eu Amon, me certificarei disso. Qualquer alma viva que aqui estiver na próxima noite, perecerá. Sem misericórdia. Passarei por toda a cidade e ceifarei todas as vidas, assim como vocês ceifaram os grãos do campo por tanto tempo.


Amon deixou os alimentos no chão e continuou sua caminhada. Seu coração sangrava por dentro, mesmo assim, sabia que havia tomado a melhor decisão para aqueles que ainda restavam. Sabia que a ausência de mortais em Nippur, obrigaria os outros a partir.

Ao chegar na praça, não se surpreendeu com a ausência de seu tio, contudo, a presença daquele homem exótico chamou a sua atenção.


É uma honra conhecê-lo Hazimel, apesar do momento infeliz que chegamos. Que inevitavelmente chegamos. Veio ajudar-nos nesta noite escura que se aproxima ou veio observar a queda da cidade de Nippur?

Amon observou a chegada dos outros. Seu olhar pesaroso encontrou o de seus primos. Manteve-se ereto até que estivessem mais próximos.

Irmãos, fizeram bastante por nós. Sejam bem vindos mais uma vez a Nippur. Não irei tomar vosso tempo, não hoje. Sigam para seus refúgios e descansem. O descanso para vocês, que lutaram por tanto tempo numa luta que não era vossa, é merecido. Depois de descansar, se for de vosso desejam, partam. Nippur cairá, assim que Mashkan cair. Não há mais o que salvar nesta cidade. A frágil convivência que aqui existia acabou. Obrigado irmãos, por todo o esforço que empregaram. Sois os homens que nossos senhores foram incapazes de ser para este povo e isto estará marcado para sempre em minha mente. Agora partam. Pois, o fim não tardará em chegar.
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