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Templo de Ilyias

em Seg Maio 07, 2018 5:22 am
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Re: Templo de Ilyias

em Seg Maio 07, 2018 9:57 am
Amon sorriu satisfeito, a chuva que lhe era tão incerta agora banhava os mortais nas ruas de nippur. Os sons de seus corações chegavam em seus ouvidos como pequenas explosões, de tão grande que era a excitação e a felicidade daquele povo. As gotas grossas de chuva tocavam o solo com violência, adentrando o terreno que há poucos instantes, era de uma secura inigualável.

Ele caminhou pelo templo, com seus pés descalços, sentindo a frieza do solo. Ele não queria incomodar seus irmãos, então, seguiu em silêncio até o lado externo. Assim que saíra, recebeu a água em seu corpo, quase nu, vestido apenas com um tecido branco que lhe cobria apenas da cintura para baixo. As gotas batiam em seu rosto de forma vigorosa. Ele olhou para as dezenas de pessoas e manteve-se em silêncio, apesar do clamor do povo.

Ele caminhou lentamente até uma grande pedra e a moveu, sem dificuldade. Abaixo de onde esta pedra estava, havia uma pequena muda, que resistira ao máximo para sobreviver. Amon se abaixou e num movimento lento, calculado, envolveu a pequena planta com ambas as mãos, tirando-a do solo e a mantendo entre suas mãos, sob um punhado de terra molhada.

O sorriso brotou em seus lábios. A chuva parecia que não acabaria tão cedo, maldita incerteza pensou ele. Ao redor de si, o tempo acelerou-se e aquela pequena plantinha cresceu vertiginosamente, vencendo as barreiras de seus dedos e prolongando-se pelo chão molhado, em direção ao povo. Amon ergueu as mãos, mostrando ao povo a vida que surgia em suas mãos e que aquilo era um bom sinal.

Amin continuou a caminhar, após deixar a planta no solo novamente. Passou por entre homens e mulheres, que estavam felizes, porém, espantados com a sua presença entre eles. O sangue que escorria de suas feridas já estava diluído nas poças de água, que agora eram abundantes.

Amon estende a mão direita na direção de um dos anciãos do povo, seu nome é Caneth e ele já batalhara por anos para proteger sua família. Caneth caminha, mancando, em direção ao deus que se prosta em sua direção.

O brujah sentiu as emoções daquele homem e, ao envolver as mãos do velho com as suas, sabia exatamente quando ele iria morrer. Não seria agora, e tampouco em breve. De repente, ao redor dos dois, a chuva passou a seguir o fluxo contrário, do chão para o céu, Amon concedeu ao homem mais alguns anos de vida, retrocedendo a idade que lhe tirava a vida aos poucos. Então, o outrora ancião, rejuvenesceu, voltando ao vigor de sua juventude. Deus concedera a todos a chuva, Amin concedera a um deles a benção do tempo. Sem nada falar, deu as costas e voltou para o templo, deixando o homem maravilhado e os seus estarrecidos com o milagre, enquanto ele desaparecia lentamente nas sombras do templo.

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Re: Templo de Ilyias

em Ter Maio 08, 2018 5:48 am
Ouviu os choros. Sentia a emoção dos mortais atingi-lo, em ondas quentes e acolhedoras. Foi o velho, agora um jovem cheio de vigor e energia que começou a entoar, a plenos pulmões um cântico antigo, mas poderoso. As palavras golpearam o coração de Amon. Em pouco tempo, enquanto caminhava de volta ao templo, sem olhar para trás, toda a multidão se juntou ao coro. Era uma canção e uma prece, na qual os mortais suplicavam que os Deuses daquela terra tivessem uma existência longa, que pudessem continuar abençoando aquele povo. Não se aproximaram, porém, do templo. Todos sabiam que os Deuses que ali viviam eram bebedores de Sangue, que suas vidas poderiam ser tomadas quando eles bem entendessem.

A chuva ainda caia, encharcando Amon, quando na entrada do Templo visualizou sua irmã, Belit-Sheri. Mulher de singular beleza, observava Amon com seus olhos castanhos, brilhantes. Sorriu quando seu irmão se aproximou, e abriu os braços para recebê-lo em um abraço que se demonstrou carinhoso e sincero. Caminharam, ambos, para o interno do Templo. Do lado de fora, a multidão começava a se dispersar com o aumento da intensidade da chuva. Amon ouviu trovões e viu a claridade dos relâmpagos.

Avançavam a passos lentos e comedidos quando Belit quebrou o silêncio. Sua voz era a mais bela das melodias. Por alguma razão, fazia com que Amon se recordasse de sua mãe mortal, morta há muitos séculos.

- Você os acostuma mal, irmão meu. E é por isso que eles adoram a ti mais do que adoram a mim ou ao Pai. É a tua benevolência que os guia. Sou orgulhosa de ti.

Belit-Sheri tomou a mão de Amon entre as suas. Pararam de caminhar em um dos longos corredores que formavam o Templo, Ali haviam janelas escavadas na rocha, e o panorama de Nippur, a Cidade dos Deuses, se desenhava diante de seus olhos.

- Tem alguém que quero apresentar a ti.

Caminharam novamente. Seus passos os conduziram ao interior do Templo, uma área reservada aos poucos adoradores mortais que eram admitidos no local. Ali, em meio a livros e escritos da Família repousava um mortal. Era de baixa estatura, com cabelos escuros e encaracolados, além de um tipo de barba que denotava sua juventude. Estava deitado no chão, em uma esteira de palha. Parecia ferido, mas seu corpo havia sido limpo e um prato de comida repousava ao seu lado, junto a um copo de cerveja. Os habitantes de Nippur haviam aprendido a preparação da bebida há pouco tempo, com os egípcios. Havia se tornado popular e Amon se perguntava qual seria o seu sabor. Antes que entrassem, Belit continuou.

- Este homem chegou a Nippur desesperado na noite passada. Segundo o que ele foi capaz de nos explicar, antes que a febre tomasse conta de seu corpo, seu vilarejo foi atacado. Nossos inimigos se movem, Amon, possivelmente buscando algo nas terras deste homem. Na ausência do Pai é a você que devemos lealdade. Imagino que gostarias de falar com ele.
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Re: Templo de Ilyias

em Ter Maio 08, 2018 10:03 pm
Amon adentrou no templo sem pressa, aproveitando a sensação que a chuva lhe proporcionava, apesar de já não ser a mesma de quando era mortal. As gotas de chuva já não eram tão frias, o vento já não eriçava seus pêlos e os raios e trovões já não o faziam tremer de medo. Seu rosto esboçou surpresa ao ver sua irmã, bela como sempre e para sempre.

Amon deixou-se envolver no abraço de Belit e lamentou por um instante, já que, apesar da ternura do abraço, lhe faltava o calor, que só um ser vivo pode doar a outro. Ouviu suas palavras, enquanto caminhavam. Ele manteve o braço envolvido na cintura dela, deixando-a próxima de si.


Eu não os acostumo mal irmã, e sim, o contrário. São criaturas adoráveis e jamais poderemos ser iguais, por mais que tentemos. O que faço, pode não ser um ato de bondade como você e o pai vêem, pode ser um ato egoísta, para mostrar aos mortais que tenho controle sobre eles, sobre a vida e a morte. Não apenas ceifando quando sentimos fome, mas também, definindo quem e quando podem morrer. Mais, o fato é que tento ser bom, essa é a verdade.

Vamos, me mostre este homem.




Ao chegar no quarto, Amon observou aquele ser frágil, que chegou até ali em busca de ajuda. Para os dois que estavam de pé, o tempo era irrelevante, para o homem, aquelas poucas horas inconsciente pode definir a vida ou a morte dos seus entes.

Sem pestanejar, Amon inclinou-se sobre ele.
Veja irmã, vamos compartilhar as últimas horas que este homem viveu. Eu poderia fazer isso dá perspectiva dele, caso quisesse, apenas bebendo do seu sangue, entretanto, irei te mostrar de uma forma diferente. Apenas observe.

O cainitas estendeu a mão direita e pegou as vestes do homem, que estavam amarrotadas ao seu lado. Silenciosamente, pegou um punhado de areia do chão e derrubou sobre a roupa. Ele levou pulso até a boca e mordeu, fazendo furos profundos, para que o sangue pudesse verter sobre a vestimenta.

Quando a quantidade de sangue era suficiente, Amon estancou o ferimento e fez a sua vontade sobrepujar o tempo presente. Ele concentrou-se, até que ambos foram transportados no tempo, visualizando em tempo reverso o que acontecera ao homem, a partir de sua chegada ao templo de Illyias.



Amon usa a meta disciplina, auspícios 4 + temporis 6. Ela permite ao usuário e quem mais ele desejar, vejam a partir de determinado objeto ou pessoa, a história recente, ou não tão recente do alvo, como se fosse realidade aumentada, como a sala de treinamento dos X-Men, sem poder interferir nos acontecimentos, obviamente.

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Re: Templo de Ilyias

em Qua Maio 09, 2018 5:09 am
O Sangue encharcou o tecido. Amon concentrava-se ao máximo, tentando retorcer os fios que formavam o tempo e a realidade. Ilyias, seu Senhor, o havia ensinado como fazê-lo ainda nas suas primeiras noites, com lições não exatamente gentis. Ilyias era paciente, e como não poderia sê-lo, e muito da relação que nasceu entre cria e criador se originaram naqueles dias. Ilyias possibilitou a Amon ver as montanhas, ainda jovens, a cuidar dos primeiros assentamentos humanos naquela região. Os erros de Amon eram punidos, pois Ilyias dizia que, na manipulação do Tempo, não havia espaço para amadorismo e falhas primárias. O então jovem vampiro obedecia, corrigindo sua vontade e impondo-a ao tecido do tempo. Invariavelmente aprendeu, a dureza de Ilyias servindo-lhe de guia. Não obstante, Pai e Filho se juntavam ao todo, juntos, suas substâncias se desfazendo enquanto o tempo retrocedia. A intimidade resultante foi cultivada com esmero. Enquanto se concentrava, Amon ouvia a voz de Ilyias dizendo-lhe para esvaziar o pensamento e deixar-se guiar pelas correntes. Percebeu que sentia falta de seu Senhor, não o via há meses. Estaria bem? No seu íntimo, Amon sabia que sim.

As gotas de chuva que caiam mais próximas às janelas estacionaram no ar, no exato momento em que um relâmpago atingiu as planícies ao redor de Nippur. Ficou eternamente, e somente por um segundo, parado no ar, suas formas a decorar o céu noturno. Belit observava seu irmão com encanto: era hábil na tessitura dos fios do Tempo, mas suas habilidades mais notáveis eram aquelas de manipular emoções, de forma que sempre encarava, encantada, enquanto Amon demonstrava seu domínio sobre o Todo. O Templo desapareceu lentamente, e Amon e Belit se viram no Nada absoluto. O vampiro sentiu parte de seu eu desprender-se, e notou que o mesmo aconteceu com Belit-Sheri. Amon tomou o espectro de sua irmã pela mão e acessou uma das partes do Nada. O Tempo correu ao contrário em sua direção, com Nippur passando diante dos seus olhos, como um borrão. Estava deixando a cidade. As planícies se estenderam, sua substância envolvendo o corpo dos dois cainitas para depois tornar ao seu local de origem. Os céus clareavam e escureciam rapidamente, mas o Sol não os fazia mal. Na realidade, e Ilyias o havia ensinado isto, não importa quantas vezes Amon fizesse este tipo de viagem, jamais sentia o sol na sua pele, ainda que estivesse de pé no deserto ao meio dia. O frio era sempre constante. Que maldição elaborada havia posto Aquele Acima sobre a raça de Caim.

Viu um acampamento. Pastores. Ovelhas e cabras dividiam espaço com mortais. Os animais aglomerados uns sobre os outros, dormiam. Era noite. Próximo a eles, uma fogueira acesa. Amon também não sentia o calor do fogo, não sentia o calor humano, não sentia o calor, obviamente, da mão de sua irmã, ainda agarrada à sua. Era um frio absoluto, cortante, desesperador. Mortais dançavam, havia música. Tambores cortavam a noite, reverberando nas montanhas escuras. Mulheres dançavam ao redor do fogo enquanto os homens batiam palmas. Havia alegria, mas Amon não a sentia. Era como se qualquer sensação estivesse separada dele por uma barreira invisível. Via-as, mas elas não alcançavam seu coração morto. Sons de cascos de cavalos. Desespero. As mulheres agarraram as crianças, os homens agarraram suas poucas espadas.

Então, veio o massacre.

Cavalos enormes, com olhos avermelhados e crinas negras invadiram o local. Amon ouviu os gritos e a dor, mas não os sentiu. O Sangue, contudo, era Onipresente. Ilyias também o havia ensinado que o Sangue era a dimensão que unia Passado e Presente, pois era através do Sangue que seus Filhos viajavam. Portanto, era a única sensação permitida à sua prole. O perfume era enlouquecedor, e Amon percebeu que sua irmã apertou sua mão com força. Belit-Sheri chorava. Todos os presentes foram massacrados. Idosos e crianças primeiro. Quando os homens jaziam mortos no chão, os invasores passaram ao estupro. Uma das mulheres jazia no chão, imobilizada, enquanto diversos homens se revezavam em tomar-lhe o corpo e a dignidade. Amon notou, porém, que enquanto isso acontecia as mulheres que ainda estavam vivas gritavam, se desesperavam. Chamavam aquela mulher que jazia ao chão de "Senhora". Ela estava calma, porém. Repetia, incessantemente para si mesma e para Amon palavras que lhe remeteram a alguém conhecido.

- Enki, ajuda-me Enki. Ajuda-me.

Seria uma sacerdotisa de Abzu, o filho do Estrangeiro? Possível.

Um dos atacantes se aproximou. Amon viu que ele estava suspenso no Tempo, diferente de todos os outros presentes. Era um descendente de Caim. Alto, com um manto negro e cabelos oleosos e sujos que lhe caíam pelas costas. O rosto era coberto por uma máscara de pedra.




Era dele que partiam as ordens. Ele assistiu enquanto os homens estupravam a sacerdotisa. Riu diante dos corpos mutilados e pisoteados das crianças, esmagando a cabeça de uma delas com o pé descalço. Um brinquedo de madeira, um pequeno cavalo, rolou até os pés de Amon. Estava sujo de sangue e lama. Mas Amon não sentia a dor de ninguém. Depois, o homem com máscara sacou uma pesada espada de bronze e, após afastar os homens que ainda montavam o corpo da mulher, trespassou-a com a lâmina. Amon viu a Morte, mas não a sentiu. O tórax da mulher foi aberto pelo indivíduo, que o fez com as mãos nuas. Seu coração foi retirado e ele o colocou em uma bolsa de couro. Subiu em seu cavalo e cavalgou em direção ao Norte. Os homens o seguiram em seguida.

O homem assistia a tudo escondido atrás de uma rocha, ocultando-se dos agressores. Amon viu sua culpa a devorá-lo, o desejo de ajudar mas o egoísmo de autopreservação falando mais alto. Correu. O acampamento ficou para trás, os gritos, tudo. Amon acompanhou enquanto o homem corria sem parar, sem descansar, até cair de joelhos diante do Templo de Granito, que era exatamente onde eles se encontravam agora.

Então, a dor veio.

Como um rio que destrói seu leito, o coração de Amon foi destruído pelo desespero, pela dor e pela tristeza. Todas as emoções que haviam visto se avolumavam como uma enchente, não dando a ele espaço de pensar, de raciocinar, de nada. Arfava, tinha vontade de chorar e vomitar ao mesmo tempo. Belit-Sheri estava ajoelhada no chão, as mãos segurando a cabeça. Da mesma forma intensa e veloz que veio, a onda de sentimentos passou. Amon estava de volta ao vazio da não-vida.
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Re: Templo de Ilyias

em Qua Maio 09, 2018 10:07 am
Amon caiu de joelhos no chão. A dor que sentira era demasiadamente grande para seu coração ressequido e sem vida. Apoiou-se com ambas as mãos no chão, dando uma gofada de sangue escuro, amargo. Seu corpo tremia involuntariamente. De imediato, virou seu rosto, manchado de lágrimas sangrentas, a procura de sua irmã. Seu desespero comparado ao dela, não era nada. Ele já se acostumara a sentir estas sensações provenientes do uso de seu poder. Ou seria ainda de sua alma?

Levantou-se rapidamente e a envolveu num abraço, como um pai faz com um filho que chora, acalentando-a. Puxa-a para perto de si, sente ainda mais seu perfume, seus cabelos acariando-lhe o peito. Ficam ali parados por alguns instantes. Após acalmá-la, Amon a solta com ternura e se levanta. Se afasta vigorosamente.

A calma de antes desaparece, ele sente o ódio crescer ao olhar para aquele homem no chão. Ele deveria estar morto, deveria ter morrido lutando para salvar os outros, mesmo sabendo que não venceria. Amon soca a parede do templo com violência. O som ecoa por todos os corredores e se perde com o tempo. Ele pensa em acabar com a vida daquele covarde, no entanto, sente o medo que o envolveu, sente a dor e a tristeza de ter sido fraco, de nada ter podido fazer.

Acalmou-se. Olhou para Belit-Sheri por instantes. Ou foram horas? A visão daquele cainita voltou a sua mente. O som de seu punho adentrando a carne daquela mulher o encheu de tristeza. Não era para ser assim. Ou era? Lembrou-se de seu primo, sendo invocado na hora da morte. Lembrou-se também de Sarosh, ele certamente saberia o que fazer, Sarosh sempre sabia.

Amon já não ouvia o som da chuva. Sentiu um vazio, uma solidão como há muito não sentia, apesar da companhia de sua irmã. Sentiu saudade de Illyias. Esta ausência por tanto tempo não era normal é a sensação de que tudo estava bem passou a incomodá-lo. Decidiu não pensar nisso. Não agora.


Irmã, a deixarei aqui, para que se recupere. Lamento tê-la exposto a tal experiência. Vou procurar Enki, ele deve ser informado sobre o ocorrido.

Amon abandona a sala, caminhando sob as sombras. No lado externo do templo, pára ao lado de uma bacia de pedra, cheia de água límpida, fresca. Ele mergulha suas mãos e leva a água até seu rosto, limpando o sangue já seco, que escorrera durante a visão...

Ele anda por Nippur resignadamente, em direção ao zigurate. Ele olha para o céu e observa as nuvens se afastando, dando lugar a uma Lua resplandecente, brilhante, que em nada se assemelha a ele neste momento, que é apenas dor, tristeza e escuridão. Se Illyias estivesse ali, provavelmente ele não estaria daquela forma.

Ao chegar no zigurate, parou na escada. Amon sabia que só deveria avançar se assim Enki desejasse e convidasse. Ele respirou fundo e gritou:


Enki, filho do estrangeiro, eu, Amon, desejo falar contigo. Tempos sombrios chegaram as nossas terras e eu preciso de vossa sabedoria ancestral!

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Re: Templo de Ilyias

em Qua Maio 09, 2018 10:27 am
O Zigurate permaneceu em silêncio absoluto diante de Amon. As ruas de Nippur ainda estavam ensopadas de lama, e alguns poucos mortais, ansiosos para cuidar de suas colheitas, já se dirigiam aos campos. Talvez tivessem medo que a água evaporasse durante o dia, levando a região de volta à seca violenta.

A chuva havia passado. No céu uma lua cintilante observava, silenciosa, Amon. Seu corpo ainda doía como efeito do seu retorno, seu corpo havia sido tecido novamente, como ocorria a cada vez em que tecia o Todo. O Amon que retornava nunca era o mesmo que partira.

Súbito, uma voz ecoou em sua cabeça.

"Avance, Filho de Ilyias, pois és bem vindo à casa do meu Pai".

Era a voz de Gallod, aquele que representava o Estrangeiro. Amon avançou, o olhar admirando as intrincadas escrituras que forravam as paredes do Templo. Sentia que Gallod o conduzia mentalmente até uma das salas do local. Ao entrar, notou que não era o único visitante naquela noite. Além de Enki e Gallod, ali estavam também Khanon-Mer e Sarosh.

As faces eram preocupadas. Sobre a mesa um coelho com as entranhas expostas. Amon sabia que Gallod comandava habilidades similares, ainda que diferentes, das suas. Isso lhe permitia ver as coisas de forma diversa. Gallod o saudou com um aceno de cabeça, convidando-o a sentar.
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Re: Templo de Ilyias

em Ter Maio 29, 2018 11:41 am
Desolado e sem esperança, Amon entra no templo. Enquanto caminha, as pequenas criaturas e plantas ao seu redor completam seu ciclo em poucos instantes.
Amon encontra Belit-Sheri e a abraça. Ele o faz de tal forma, como se fosse a ultima vez que fosse sentir aquilo. Ele odiava aquela sensação, apesar de gostar da sensação de odiar, significava, de certa forma, que ele ainda estava bem.


Perdoe-me irmã. Precisava vê-la, precisava estar contigo. Estava com os outros e finalmente o vi. Ele estava lá com os outros. Na verdade, ele não estava lá, ele não está mais em lugar algum. Não sei o que dizer, estou preocupado e confuso demais para conseguir lhe dizer tudo que estou pensando.

Surpreendentemente, as lágrimas ainda vertiam dos olhos de Amon.
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Re: Templo de Ilyias

em Ter Maio 29, 2018 1:33 pm
Belit-Sheri deixou imediatamente o que fazia para enlaçar Amon em seus braços, apertando-o como se desejasse protegê0lo de todo mal que o pudesse atingir. Em seguida acomodou-o em um pequeno banco de pedra e, sentada diante dele, escutou sua palavras cheias de angústia. Belit enxugou, com as pontas dos dedos. as lágrimas do irmão. Era interessante como sempre tinha sido desta forma: cuidadosa e atenta, características que pareciam não ter atrofiado ao longo dos anos.

Quando Amon terminou, ela respondeu.

- Eu entendo, irmão, pois sinto o mesmo. Nosso Pai escorre por entre os nossos dedos. Tenho pensado nisso nos últimos meses, angustiada como tu, mas não desejava incomodar-te com minhas preocupações. Ele parece não ver mais motivos para continuar.

Ela se levantou.

- No entanto, com minhas capacidades limitadas, eu vi uma possibilidade. E nela ele estava feliz, quase radiante. Pois era desafiado e estimulado a andar avante, a descobrir e experimentar. E todos nós estávamos felizes junto com ele.

Belit tonou a se sentar diante de Amon. Parecia nervosa, sua pele escura brilhando sob a luz da lua e os olhos se movendo rapidamente.

- A variante era que existia um outro filho.
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Re: Templo de Ilyias

em Ter Maio 29, 2018 7:45 pm
Ao ouvir as ultimas palavras de Belit, Amon levantou-se do banco de pedras e assumiu uma postura ereta. Aquelas palavras afagaram sua alma, tal qual a recente chuva afagou as terras de Nippur.

E por que se demorou em falar sobre isso irmã? Este sentimento vem me corroendo há tempos. Diga-me, onde encontrá-lo, eu irei buscá-lo. Nippur pouco importará se nosso pai não puder sentí-la.

Amon analisou lentamente sua irmã. Ele sempre confiou nela e em sua sabedoria superior. Era a ela que ele recorria, sempre, em qualquer uma das probabilidades existentes. Um pensamento desagradável passou fez morada em sua mente.

Se esta probabilidade fosse completamente livre de sacrifícios e perdas, você já a teria tomado todas as providências necessárias, minha irmã. Diga-me e seja verdadeira, qual o fator que a fez hesitar?
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Re: Templo de Ilyias

em Qua Maio 30, 2018 2:04 pm
Belit-Sheri não se levantou. Permaneceu sentada, com uma expressão que transitava entre o preocupado e o esperançoso. Olhou, rapidamente para Amon antes de continuar.

- Existem duas situações relevantes. A primeira é que eu intuo, ou sinto, que este mortal não durará por muito tempo. Pelo menos não nas condições em que vive. É um escravo. Eu o vi pessoalmente. Me desculpe se não te avisei antes, Amon, mas eu precisava verificar, sozinha, se as minhas previsões eram corretas. O fato de que sua expectativa de vida é muito baixa nos impele a uma certa ação.

Olhou mais profundamente nos olhos do irmão desta vez. Pareciam carregados de angústia.

- A segunda é que existe uma possibilidade, ainda que ínfima e quase irrelevante, de que Ilyias pague muito caro, com a sua existência, se escolher Abraçar este mortal.
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Re: Templo de Ilyias

em Qui Maio 31, 2018 12:12 pm
O desejo de ver Ilyias agir "normalmente" uma vez mais, inquietou Amon. Ele sabia que, apesar de "resolver este problema" seria temporário, já que a maldição de Caim, o pai negro, era até então, inescapável. Aquele ato, de intervir diretamente na existência de seu senhor, era extremamente egoísta por parte deles. Amon sabia disso. Mesmo assim, valeria a pena arriscar e tê-lo de volta, nem que fosse por um breve e eternizado momento.

Suas mãos fixaram-se no parapeito da abertura que dava para o povoado, olhando para o céu que em instantes se tornaria claro, graças a luz do Sol.


Irmã, os problemas de Nippur não me interessa agora. Diga-me onde posso encontrar este mortal que eu vou buscá-lo agora, antes que ele pereça. Enquanto eu vou atrás dele, você mantém Ilyias conosco, em nosso tempo.
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Re: Templo de Ilyias

em Qui Maio 31, 2018 12:25 pm
Belit-Sheri suspirou profundamente. Amon intuiu que, apesar de compartilhar do mesmo sentimento de desejar reaver seu Senhor, sua irmã nutria um profundo medo das consequências envolvidas no ato. Sua face expressava isto: era um misto de tristeza e resignação, com pitadas de esperança. Independentemente de seus sentimentos, e confiando como confiava no julgamento de Amon, revelou o que o irmão gostaria de saber.

- Em Lagash, Amon. Ele se encontra em Lagash. É escravo de um poderoso mercador que, segundo o que eu pude avaliar, não está submetido a nenhum de nossos primos. O homem se chama Astar. E aquele que, aparentemente, será nosso próximo irmão, se chama Troile.

O frio se tornava mais intenso, típico do alvorecer. No horizonte, tons de azul claro começavam a colorir o céu noturno. Tanto Amon quanto Belit se retiraram, prosseguindo até as partes mais profundas do Templo. A irmã pediu ao irmão que dormissem juntos, gostaria de ter alguém por perto durante o dia pois, no dia seguinte, tudo mudaria. A pesada pedra que selava a câmara foi movida por Amon, e ele e Belit caíram em sono profundo com o levantar de um sol que não viam.
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Re: Templo de Ilyias

em Ter Ago 07, 2018 2:17 pm
Não tardou a encontrar sua família.

Estavam no primeiro salão, o maior do Templo, onde normalmente os mortais se congregavam em noites especiais e sua família os observava, com inveja das sensações que tinham. Agora, a sala inteira parecia pulsar com dezenas de sentimentos acumulados nas paredes e no solo, ainda que não houvessem mortais ali.

No centro estava Anis, a Bela. Vestia-se de forma magnânima, com belos tecidos das terras distante onde andava. Ao lado dela, Astar, que havia se tornado um cainita impressionante. Amon percebeu que boa parte dos vícios de personalidade dele pareciam ter sumido, restando somente a astúcia e o senso de oportunidade. Astar era tão diferente de Anis quanto Nikaia era de Amon.

Num outro canto, se sentavam Belit-Sheri e Shalmath, as duas deusas negras da Casa de Ilyias. Eram fisicamente diversas, mas espiritualmente idênticas. Amon pode perceber o amor estampado nos olhos de Shalmath, um amor maior do que aquele comum entre Cria e Senhor. No entanto, havia uma outra grande diferença. Shalmath era muito mais livre do que Belit. Era como Nikaia e Astar. Eram diversos.

Como diverso era Troile.

Fisicamente não era impressionante em vida. Troile era, sim, um escravo, mas os seus serviços eram de natureza intelectual. Continuou magro após o Abraço, com a pele excessivamente branca. Os olhos claros, contudo, eram dois faróis no meio da escuridão. Troile havia se tornado altivo, régio. Fazia com que Amon se recordasse um pouco de Ventru. Ele sorriu quando Amon entrou na sala, um sorriso franco e fraterno. Correu ao seu encontro e o Abraçou.

Por cima dos ombros de Troile, Amon viu Ilyias. Era o mesmo Ilyias de sempre, imutável, suspenso no tempo. A barba e cabelos escuros, sobrancelhas grossas e olhar austero, mas acolhedor. Vestia uma túnica branca, imaculada, que lhe dava um ar santificado. A harmonia, entretanto, era interrompida pelo braço escuro, enrugado e putrefato. A infestação estava já na altura do cotovelo, mas Ilyias não parecia se importar. De fato, estava sereno. Não feliz ou experimentando novos sentimentos como seus filhos, mas parecia ter encontrado uma serenidade que há muito buscava. Sorriu, ao olhar para Nikaia, um sorriso de aprovação.

- Meus filhos.

Fez-se silêncio na sala, os olhos se giraram para Ilyias.

- Amon. Nikaia. Sou feliz que estejam aqui. Muito.

Olhou para o lado de fora, para Nippur, por uma das janelas.

- Nossa família cresce. E, agora, não pode ser questionada. Meu irmão, Ventru, suspendeu o Édito que impedia que nossos filhos gerassem outros. É sábio o meu irmão. Tenta, a todo custo, controlar as chamas de uma eventual rebelião.

Sorriu. Parecia, agora, genuinamente triste.

- Ventru não entende. Nippur precisa ser destruída. É uma casca que nos prende, uma armadura que nos protege do mundo externo mas que nos mantém imutáveis, parados diante da infinitude mas sem saber como avançar. Admiro a boa vontade do meu irmão, mas tenho medo do que a ausência de mudança pode fazer com a nossa raça. E o mundo, o mundo é tão vasto! Em todos os lugares nossa proteção é bem vinda, pois devemos ser aqueles que inspirarão os mortais a cumprir seus destinos e desígnios de forma plena. É esta a missão de nossa Casa.

Olhou para Troile e depois para Amon.

- Mas para que isso aconteça não só vocês, mas todos os outros precisam deixar esse lugar amaldiçoado, esta vida amaldiçoada. A única maneira de impulsionar tal movimento é através de uma grande mudança.

- Eu desejo que minha família cresça e se espalhe pelo mundo. Que vocês evitem quaisquer formas de opressão e tirania, pois são estes elementos que nos estagnam. Estamos, há milênios, sob a opressão e tirania do Primeiro, ainda que como uma ideia e não como uma presença. E vejam o que nos tornamos. Tenho certeza que as outras famílias, uma volta tendo o mundo para si mesmas, cometerão tais pecados. É a Casa de Ilyias que será a encarregada de lembrar-lhes o caminho, a verdade que cada homem é dono de si mesmo, e que só deve servir àquele a quem reconhece e que tenha as qualidades justas.

Suspirou.

- Sem nós os mortais não durariam muito, como você bem aprendeu, Amon, na sua jornada. E sem os mortais nossa raça definharia. Então, sim, há algo de egoísta nisso. Mas há, também, de Sábio. De elo. Os mortais são o nosso elo com nós mesmos. Eu esqueci disso. Mas agora me recordei.

Aproximou-se de sua Família. Ilyias estava em uma paz profunda, quase palpável. Algo que Amon jamais havia sentido antes.

- E, por isso, eu decidi morrer.
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Re: Templo de Ilyias

em Qua Ago 08, 2018 10:55 am
Havia uma felicidade genuína, expressa no olhar tranquilo e sábio de Amon.

Após receber o terno abraço de Troile, ao qual respondeu de forma carinhosa e efusiva. Afastou-se e segurou o rosto do caçula. Apesar de não ser exatamente belo, possuía em si a altivez que todos os pais, líderes das casas possuíam.


Como é bom vê-lo irmão! Sua existência trouxe a paz e a harmonia de volta para nossa casa, lhe serei grato por muito tempo. Espero tê-lo ao meu lado, assim como todos vocês, na cidade que eu e Nikaia, não, que nós erigiremos, onde vivem nossos protegidos.

Amon caminhou pelo grande salão e abraçou a todos, deixando por último o seu senhor, o mais amado de todos. Seu olhar acompanhou o de seu mestre e observou Nippur. Ao contrário de Ilyias, não havia tristeza em seu olhar, e sim, determinação.

Astar e Shalmash, como vocês se tornaram seres magnânimos. Meus olhos não se enganaram então. Sorriu. Nosso compromisso com a humanidade será feito conforme seu desejo, meu mestre, já que é o meu também e acredito que seja o desejo de todos os outros, que já viveram as duas realidades. Oprimidos e opressores. Amon olhou para todos os presentes. Não havia julgamento em sua voz.

Não houve surpresa ao ouvir Ilyias dizer que iria morrer. Lamentou dentro do si, porém, já sabia e já previra esta possibilidade. Havia sabedoria nas palavras de seu senhor e a paz que emanava dele, era o objetivo final de Amon. Se fosse para chegar ao fim, que fosse por escolha própria e não tomada violentamente.

Amon beijou ternamente os lábios de Ilyias e se afastou, parou em frente a janela e observou Nippur.


Partiremos todos nas noites vindouras, seguiremos nossos sonhos. Assim como eu, vocês conheceram o mundo e tudo que nele habita, assim como eu vi. Espíritos, feras, grandes animais. Houve uma pausa, deveria dizer o que diria, para que a plenitude de seu senhor não se perdesse. Antes porém, irei visitar Ventru. Desejo que antes que parta para uma existência que não conhecemos meu pai, veja seu irmão desfazendo a casca na qual está preso. Caso ele não consiga através da conversa, será através da violência. Eu mesmo destruirei e queimarei esta cidade, ainda que recaia sobre mim a fúria dos meus tios e irmãos.

Enquanto Nippur existir, Mashkan-Shapir também existirá. Aquela cidade é uma afronta a nossa e, apesar do desgosto e da ira que tal existência me causa, sei que se perpetuará, assim como a nossa. Eles serão eternamente nossos antagonistas. Ainda assim, seremos nós que derrubaremos estas duas cidades. Peço-lhes desculpas por minha saída antecipada, mas, irei conversar com Ventru. Em breve estarei de volta. Aproveitem e conheçam melhor a Nikaia, verão que ela, assim como vós, é um ser impressionante.


Após suas palavras, Amon não se deteve, precisava conversar imediatamente com Ventru, senhor de Nippur, a cidade que cairá.

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Re: Templo de Ilyias

em Qua Ago 08, 2018 11:24 am
Antes que saísse, Amon viu que suas irmãs se aproximavam de Nikaia, de forma a conhecê-la, assim como Troile. Astar e Shalmath observavam tudo a uma certa distância. Shalmath o observava com olhos amorosos. Ilyias o alcançou na antesala que dava acesso à saída do Templo. Ali, estavam sozinhos.

- Você tem razão, mas dizer isso é uma redundância, considerando que sempre a tivestes. Esta cidade precisa ser destruída. O que aconteceu no grande salão, entre Mancheaka e Amarantha perturbou a todos. Meus irmãos se perguntam se mesmo nós, poderosos como somos, podemos cair vítimas de tal pecado. Começam a temer seus Filhos, e isso levará ao fim de Nippur. Portanto, decidi que responderei aos meus irmãos. Eu morro, mas viverei novamente. Viverei dentro daquele que consumirá meus espírito. Troile. Pois a ti jamais imporia este fardo. Tua Sabedoria será necessária nas noites futuras. Troile é justo, mas é jovem. Caberá a você guiá-lo. Ele é diferente de vocês e, consumindo meu espírito, dará o último golpe na maldição que acomete a ti e a tuas irmãs. Vocês se tornarão algo diferente, mas permanecerão os mesmos. É o meu presente de despedida, Amon.

Amon deixou o Templo, encaminhando-se para o Trono Negro de Caim. Sabia que Ventru podia ser encontrado ali, e não se enganou. Visualizou seu tio de pé. Os cabelos dourados estavam soltos, o porte régio contraído. A face mirava o alto, mirava o Trono Negro. Haviam lágrimas rubras em sua face. Mas Ventru estava diverso. Parecia cansado e decepcionado como sempre, mas parecia também decidido. Dele emanava uma aura de poder jamais sentida por Amon. Não era poder bruto ou capacidade destrutiva. Ventru emanava justiça.
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Re: Templo de Ilyias

em Qua Ago 08, 2018 12:37 pm
Ao notar a aproximação de Ilyias, Amon deteve-se na antesala. Manteve o silêncio, enquanto Ilyias lhe falava, o que há muito já estava decidido.

Antes de minha partida, amado pai, já havia dado indícios desta tua decisão. Sabias também que seria pesaroso demais, para mim, manter a tua essência e, dada a minha natureza realista, creio que tenhas vistos todas as possibilidades possíveis e soube que, se fosse dada a mim, certamente eu poria um fim a existência de todos. Calou-se, a saudade que sentiria de Ilyias já o afetava profundamente. Eu dedicarei a minha existência e a sabedoria que herdei de ti, para guiar nossa família, ainda que seja dolorosa a sua ausência. No entanto, antes de partir, deverás, uma vez mais, viajar comigo pelo limiar do tempo. Preciso saber como findará a nossa existência.

∆∆∆∆∆∆∆∆∆∆∆∆∆∆∆∆∆∆∆∆∆∆∆∆∆


Ao entrar na torre negra, Amon sentiu o peso da presença de Ventru e a dor que ele sentia. Suas lágrimas o comoveram e a sensação de justiça que emanava dele o invadira.

Vejo que cheguei num bom momento para conversarmos, Ventru, pai de Medon. Amon esperou ter a atenção do olhar de seu tio para continuar. Estive com Medon em algumas oportunidades nestes últimos anos e, graças a ele, o povo que tanto amo ainda permanece incólume. E tenho uma dívida de gratidão para com a sua família e por isso estou aqui. Podemos conversar?

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Re: Templo de Ilyias

em Qua Ago 08, 2018 2:12 pm
- Viajaremos juntos.

Foi a única resposta de Ilyias antes de retornar ao salão onde se encontrava o resto da família.

_________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

Ventru girou-se, prestando atenção às palavras de Amon. Sorriu, antes de responder. Não escondeu as lágrimas.

- Sou imensamente feliz de tê-lo de volta, Amon. E não, você não nos deve nada. Meus filhos são instruídos para apoiar a Prole de... a nossa Família onde quer que estejamos.

O olhar de Ventru parecia tenso. Os olhos haviam deixado a sua cor natural para se tornar de um violeta intenso.

- E sim, podemos conversar - convidou Amon a sentar-se no chão, fazendo a mesma coisa. Diante do Filho de Ilyias, os Treze Tronos. Vazios. Sobre eles, o Trono Negro. - Perdoe-me pelo meu estado emocional. Mas coisas aconteceram, a Morte chegou à nossa cidade. As batalhas têm sido duras. Estamos todos exaustos. Mas, se estiver correto, ela está perto do fim.

Amon percebeu, subitamente, que Ventru emanava fortes emoções. Viu, involuntariamente, a aura do tio. Ela girava e se retorcia, com um tom, porém, frequente. Tristeza. Quase luto.

- Caiu, perante o inimigo, Mancheaka, primeiro Filho de Haqim. Nós não esqueceremos a fúria com a qual abateu os inimigos um a um, antes de cair perante uma abominação que não merecia ter caminhado neste mundo. Caiu Khanon-Mer, Filho de Laza, cercado de inimigos que mutilaram seu corpo impiedosamente. Numa última demonstração, convocou a Escuridão típica da Casa de Laza. Metade das forças inimigas foram engolidas pela maré sombria.

Ventru enxugou uma lágrima.

- Ambos serão lembrados. Como podes imaginar é um momento de grande comoção em Nippur. E este momento é o que necessitamos para unir todas as casas em uma última ofensiva. Meus irmãos estão convocando seus filhos dispersos. Eu liderarei, pessoalmente, este ataque. Sob meu comando reduziremos Mashkan-Shappir a cinzas e depois salgaremos a terra onde ela existia. Não pelo Inimigo. Não pelos mortais. Mas pela Família. Eu fui Rei por muito tempo, mas minha origem é na guerra.
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Re: Templo de Ilyias

em Qua Ago 08, 2018 4:14 pm
Ele sentou-se com Ventru e o observou. Sua aura. Sua postura. Sua tristeza. E por um único instante, parecia que Amon não havia mudado. Manteve-se estático, analisando cada palavra, os olhos frios observando seu tio e os lábios cerrados, imóveis, conotavam a falta de emoções, uma postura típica da família de Ilyias.

Ele olhou para os tronos vazios e refletiu sobre o que significavam e em meio aos pensamentos, começou a falar.


Será tudo em vão meu tio. Ainda que nos lidere, todos cairemos, um a um. Nosso problema nunca é nem nunca foi Mashkan, nosso problema é Nippur, esta cidade, este templo, esta ode ao primeiro. O que tu achas que é Mashkan? Eu respondo, um reflexo degenerado de nossa cidade que, em algum momento, chegará ao mesmo patamar.

Eu sei que assumistes este manto para si e o faz de forma única, no entanto, não cabe mais a ti liderar seus irmãos. Enquanto estivermos aqui, estamos presos, estáticos como Ilyias. O mundo é grandioso Ventru, não há motivos para aqui ficar. O primeiro não virá aqui, jamais sentará naquele trono para nos liderar. Aquele trono deveria ser teu. Não por que és melhor do que os outros, até porque, todos são seres fantásticos e possuem características únicas. Características estas que não podem mais coexistir num mesmo lugar. Vós sois maiores do que Nippur.

Saia daqui, lidere a sua família que entre as outras já é numerosa. Esta cidade, meu amado tio, está fadada a queda. Concordo quando dizes que Mashkan deve ser destruída, mas, se Nippur também não o for, outras Mashkan surgirão.

Além disso, acredite, o que ocorreu entre Mancheaka e Amarantha não será um episódio singular, vosso sangue será desejado por suas crias e, assim como foi com seus criadores, será conosco. Mataremos nossos criadores. Imagino que não desejas isso, assim como eu.

Darei a ti agora a chance de determinar o fim de Nippur, caso contrário meu amado tio, destruiremos Nippur de dentro para fora e não sobrará pedra sobre pedra, ainda que eu tenha a tua inimizade para todo o sempre, ao menos estarei tranquilo, sabendo que minhas ações os livraram da destruição.


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Re: Templo de Ilyias

em Qui Ago 09, 2018 5:59 am
Ventru ouviu cuidadosamente as palavras de Amon, sem contestá-las. Apenas as ouviu, os olhos claros passeando pela falta de expressão de seu parente. Estava sentado ao chão, pernas cruzadas em lótus. Ouviu e, ao fim da exposição de Amon, suspirou profundamente. Sua força estava novamente contida por detrás de um muro de realeza. Então, respondeu.

- Somos quase imutáveis, Amon. O Sangue que nos trouxe para a Noite era um Sangue particular. Fomos amaldiçoados não somente a caminhar eternamente e beber dos vivos, mas também a permanecer exatamente como éramos por todo o sempre. Isso é muito mais intenso no nosso caso. A mudança, para nós, è uma tarefa difícil. Mas necessária.

Olhou de relance para o Trono Negro de Caim.

- Não, aquele Trono não deveria ser meu. Eu me lembro do Pai Negro. Lembro dos pedidos que ele me fez, pois estou preso ao meu juramento até hoje. Minha tarefa, entretanto, escorre por minhas mãos. A sombra da Rebelião é cada vez mais presente. Nossos filhos se recusam, e com razão, a permanecer em Nippur, onde não existe espaço para todos. Descumprindo uma proibição fundamental do Primeiro eu vos autorizei a gerar progênie. Não me arrependo de tal escolha, mas temo as consequências. Eu posso ver que você gerou progênie, Amon. Está escrita em teus olhos a felicidade que somente este ato pode gerar, assim como o medo de que sua cria seja destruída ou, pior, te traia.

Sorriu com tristeza.

- Bem vindo ao mundo dos genitores.

Ventru se levantou. Quando o fez Amon sentiu novamente o poder do Ancião, que o atingia em ondas violentas.

- Caim pediu-me que tomasse conta de Nippur, mas acho que no final o que ele gostaria de ter dito é que eu tomasse conta da Família. E você tem razão. A Família não é Nippur, é muito maior do que ela. Somos todos tão diferentes, e vamos nos tornando mais diferentes a cada séeculo, que o resultado só pode ser o conflito. Tenho notícias de enfrentamentos entre Sutekh e Laza em Khemet, entre Arikel e Haqim aqui em Nippur. Tudo isso me preocupa. Me preocupa também que, mesmo espalhados pelo mundo, nossos conflitos subsistam. Você ouviu a palavra quando estávamos com Ilyias. Jyhad. É uma profecia evitável?

Caminhou e pôs-se diante do Trono. Estava de costas para Amon, mas continuava a falar.

- Com o tempo percebi que a única forma de manter minha promessa è instruindo meus filhos e seus descendentes a mantê-la. A Família se torna demasiadamente grande, e se tornará ainda maior, para que eu mantenha a ordem sozinho.

Girou-se.

- No entanto, marcharei. É o meu último tributo a Nippur. Depois que Mashkan for destruída, partirei, em busca de Caim. Ele me deve explicações. Deve explicações a todos nós.

- Eu agradeço por tuas palavras, Amon. E concordo com elas. Nippur precisa ser destruída.

Foi rápido e intenso.

Quando Ventru terminou de pronunciar as últimas palavras foi como se algo explodisse no salão. Nenhum som ou brilho, porém, acompanhou a sensação. Amon viu, com seus olhos físicos e espirituais, que algo avassalador se avolumava dentro do pai do Clã dos Reis. Era como se, ao proferir aquelas palavras, tivesse se livrado de um fardo imensamente pesado que o empurrava, constantemente, para baixo. Ventru sempre tinha sido, nominalmente, o líder de Nippur. Mas era uma liderança vacilante, em pereno conflito entre o que ele achava justo e o que havia sido instruído, pelo Primeiro, a fazer. Ao renegar Nippur e sua importância, Ventru estava livre. Isto estava escrito em seus olhos, que fitavam o vazio, pendurados em um corpo imóvel com uma boca semi-aberta. Quando enfim piscou os olhos, era outro. Não haviam limites ao seu poder. E, ao mesmo tempo, Amon nada sentia. Nenhum peso ou força que lhe impusesse a obediência ou o consenso. Diante dele, um Rei. Daqueles que, sendo amado e apoiado, pode mudar o mundo.

- Entendo. – Foi a única palavra que disse. Os olhos eram novamente azuis, faiscantes.

Olhou para Amon.

- Nós estamos indo para a Guerra, Amon. Tua Família é forte, mas em vosso Sangue não reside a afinidade com a resistência física. Ensinarei aos teus e aos interessados como resistir às espadas do Inimigo. Após isto, organizarei os presentes em esferas de ação, de acordo com suas competências. Sei que tua progênie, assim como todas as outras, é jovem, mas ninguém será liberado de andar ao campo de batalha. Eu posso ver que Filhos de meu irmão Zapathasura se aproximam – os olhos, ali, se tornaram violetas – Assim como os Filhos de Ennoia. Precisarei de tuas habilidades diplomáticas para manter a paz entre as duas casas, há muito dilaceradas por um conflito mesquinho.

Parecia a Amon que todas as providências que Ventru precisava tomar eram claras como o sol da manhã em sua mente. Falava e gesticulava sozinho, como se precisasse organizar centenas de coisas. Como se precisasse controlar absolutamente tudo. Antes de deixar o local, mencionou suas últimas palavras.

- Seja como for, esta guerra terminará em breve.
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Re: Templo de Ilyias

em Qui Ago 09, 2018 9:11 am
Eu não o conheci meu tio, como o conheço agora. Fostes limitado por palavras que sequer sei se foram ou não verdadeiras. Não entendo também o respeito que lhe concede, no entanto, uma coisa posso te dizer: Entre todos nós, a tua liderança, ainda que vacilante, e neste exato momento sei que vacilou por promessas feitas ao primeiro, é incontestável. Vejo com mais clareza do que nunca. Destruíremos Mashkan-Shapir e também Nippur.

O filho de Ilyias sorriu para seu tio, como nunca havia feito. Um sorriso despretensioso, com a leveza de quem não teme o fim.

Sabes Ventru, sobre essa quase imutabilidade que mencionou agora? É um fator cultural e até mesmo meu senhor e mestre mudou, apesar da maldição que lhe foi imposta pelo primeiro. E digo mais, ele mudou de tal forma que até a maldição do primeiro ele venceu. Amon levantou-se, como fizera o antigo. Postou-se frente a ele, olhando-o nos olhos, ainda que fosse incômodo, devido ao poder emanado.

Ao contrário de todos os outros, tanto Ilyias quanto eu não tememos a morte e tampouco a traição, a primeira por já termos visto de tudo e a segunda por que entendemos que esta é a nossa natureza. Isso é inescapável, ainda que tentemos negar. Lutamos incessantemente para que não aconteça, no entanto, ela virá. De nossos filhos. Dos filhos de nossos filhos. E também dos nossos irmãos. Esta é a nossa sina.

Devo lhe avisar que Ilyias irá fazer algo que vai chocar a todos, peço-te que não permita que os outros atentem contra a vida de Troile, pois, este é o desejo de Ilyias. Ele mostrará a todos vocês, antigos, que até mesmo vós estão sujeitos ao fim que Amarantha teve e só lhe digo isso, pois, entre todos os outros, espero que não fique desnorteado, já que necessitamos de vossa liderança para destruir ambas as cidades.

Agradeço por tudo, inclusive pelos dons que propôs ensinar aos meus. Seguirei suas ordens até o final desta guerra Ventru, o primeiro de nós e líder de nossa família. Guie-nos para vitória e depois siga seu caminho e não o caminho do primeiro, ele não tem respostas para ti. O caminho do primeiro só leva a destruição e a desolação.


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Re: Templo de Ilyias

em Qui Ago 09, 2018 1:10 pm
Ventru sorriu.

- Ilyias não venceu a Maldição de Caim. Ele libertou vocês, e a felicidade por tê-lo feito é tão grande que suplantou, por um momento, o egoísmo do Pai Negro. Só a Morte libertará Ilyias. E é sabendo disso que eu escolho não tomar nenhuma ação contra Troile. Tal assunto será gerido por ti, Amon, que na ausência de teu Pai será o mais velho dentre os teus.

Caminhou, decidido, pela sala.

- Sei que as tradições virão. Mas podemos, e devemos, lutar para que as relações entre as Casas permaneçam o mais harmônicas possível. Guerras são inevitáveis, mas seus danos podem ser diminuídos.

Pousou a mão direita no ombro de Amon. Era pesada e infinitamente aconchegante.

- Eu vejo claramente, agora. Não se preocupe com o meu caminho, Amon. Certamente se encontrará com os teus no futuro. E quando acontecer eu serei extremamente honrado.

Sem maiores explicações, impulsionado por seus afazeres, Ventru deixou o Trono Negro. Encerrada a conversa, Amon retornou à casa de sua Família. Descobriu que seu Pai estava em sua câmera, acompanhado somente de Nikaia, Astar e Shalmath. Troile, Belit e Anis esperavam na varanda externa, com uma belíssima vista de uma NIppur vazia e silenciosa. A Guerra havia matado a alegria dos mortais ao longo dos anos. Não demorou muito e os três mais jovens desceram as escadas. Não pareciam assustados ou comovidos. Pareciam imersos em uma paz absurda, como se os piores aspectos das personalidades tivessem sido mudados. Amon conhecia a todos, então percebeu como Nikaia parecia mais calma, menos impulsiva. Como Shalmath parecia menos etérea e mais concentrada e como Astar parecia menos ambicioso e mais altruísta. Foi Astar, aliás, quem indicou a Amon que Ilyias esperava a ele e a Troile. Já havia visto Belit e Anis.

Subiram as escadas, os dois irmãos. Entraram na câmera para encontrar seu Senhor, que estava de pé diante de um vaso cheio de água e iluminado por uma vela que estava perigosamente próxima aos seus cabelos. Ilyias não parecia se importar com isso, e observava seu rosto refletido nas águas. Girou-se. Estava mais velho, rugas preenchiam seus olhos. A infecção alcançava o ombro direito.

- Sentem-se.

O fizeram sem hesitar.

- Amon. Esta é a derradeira hora. Quero que me digas tudo o que tens para me dizer, para que eu possa seguir em paz.
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Re: Templo de Ilyias

em Qui Ago 09, 2018 2:17 pm
Amon virou enquanto Ventru deixava o trono negro.Não há como não me preocupar contigo meu tio. Espero que a tua nobreza e senso de justiça sejam herdados por seus descendentes. Creio que seguirás um caminho tortuoso, repleto de inveja e cobiça, onde os outros, menos capazes que tu, na arte de liderar, opor-se-ão incessantemente. Ainda assim, estarei aqui para nivelar as medidas e impedir que injustiças sejam cometidas contra os mortais e contra a família. Sussurrou mais para si do que para o Rei que avançava decididamente para o seu caminho.


Amon caminhou por Nippur, entristecido pelo atual estado da cidade. Observava os rostos dos poucos mortais que ousavam caminhar durante a noite. Rostos estes diferentes de anos atrás, imersos em dor, agonia e tristeza, graças a guerra com Mashkan-Shapir. Graças aos imortais. Pensou nas mulheres-feras e nos espíritos da montanha. Estariam elas corretas? Sim e não. Haveriam sempre os bons e os maus, independente da espécie.

Não se lamentou, muito pelo contrário, caminhou decidido até o templo de sua família. Era ele agora Amon, a herança de Ilyias. Aquele que existiria para combater os males que assolam e que assolarão a humanidade.

Subiu as escadas e encontrou seus irmãos sem suas crias. Certamente ele estava mostrando para eles o que seus olhos joviais ainda não podiam ver. Amon estava em paz. Amon sabia o que estava por vir.

Quando Astar indicou que deveriam subir ele e Troile, uma tristeza profunda se abateu sobre ele. Apesar da escolha de seu senhor ser consciente, não significava que seria menos dolorosa. Mais uma vez subiu as escadas até chegar ao pequeno cômodo onde Ilyias estava. Sentou-se no chão e olhou para o alto, como uma criança olha para um pai. Lágrimas escorriam por sua face, brilhando sob a luz das chamas.


O que poderia eu dizer a ti Ilyias? Tu, o mais sábio entre a sua geração. Aquele que abdicará da existência para que seus irmãos possam seguir seus caminhos e também para se livrar dos grilhões impostos pelo primeiro?

O que poderia eu dizer ao homem que me guiou pelo tempo, que me ensinou tudo que poderia eu aprender. Que me amou até onde o seu limite permitiu?
As lágrimas não paravam. O cheiro de sangue inundava o ambiente. O barulho das gotas de sangue atingindo o solo pareciam sincronizados com seu coração morto que insistia em bater acelerado, mesmo não sendo necessário ao corpo. A voz de Amon embargou, quase que não saiu de sua boca.

O que poderia eu dizer ao homem que escolheu meu irmão para carregar o fardo da família, sabendo que eu não suportaria tamanha demanda, não diretamente?

Há somente uma coisa a te dizer Ilyias. Hoje, mais do que todos os dias de minha existência, eu te amo. E mesmo que não estejas mais comigo, ao menos fisicamente, o levarei comigo e tentarei ser o melhor possível, para que se orgulhe de mim, não importa aonde estejas. Eu te amo, Pai.


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Re: Templo de Ilyias

em Sex Ago 10, 2018 6:25 am
Ilyias não chorou. Não o fez somente em razão de não poder, de não ser capaz. Amon sentia que seu Pai desejava tanto, tanto abraçá-lo, mas que a Maldição de Caim se impunha com muito mais força. Ilyias, contudo, sorriu. Um sorriso sincero e triste.

- Sou honrado por tua existência, Amon. Tu que nunca desistiu e jamais desistiria de mim. A quem tanto feri e magoei, não por minha vontade, mas pelas circunstâncias. Que felicidade é saber que, ao final, nos entendemos. Parto desta existência com tranquilidade o que, possivelmente, não me faça retornar. Nada de mim restará aqui, pois obtive o perdão de meus filhos. Espero que meus irmãos alcancem a beleza desta sensação.

Troile chorava profusamente. O perfume de seu Sangue inundava a sala. Amon teve a sensação que o Sangue de Troile era igual ao que teria sido o de Ilyias, se Caim não o tivesse amaldiçoado. O mais jovem escondia o rosto entre as mãos, num gesto demasiadamente mortal. Ilyias se levantou, pôs-se ao lado de Troile e acariciou seus cabelos.

- Serás o mais velho, Amon, patrono desta Casa. A ti caberá ensinar e guiar teus irmãos, Troile em especial. Ele herdará meu nome e meu Sangue, pois necessito que você esteja livres das amarras que o poder impõe. Eventualmente o julgamento de Troile poderá estar errado. Tenha, com ele, paciência infinita. Ame-o como me amou. Ele assumirá um papel difícil, assim como o teu.

Deixou Troile. Apoiou os dois braços nos ombros de Amon, estando de pé atrás dele.

- Não cumpra um luto por minha morte. Há muito a ser feito e você precisará de concentração. Confie em Ventru, em Haqim e em Saulot. Desconfie de Loz, Sutekh, Laza e Zapathasura. Mantenha-se distante de Absimiliard, de Ennoia e de Malkav. Ajude Arikel e Laodice.

Sorriu. Parou diante de Amon e beijou-lhe a testa e os lábios. Ocainita sentiu uma estranha energia, acompanhada de um calafrio, a percorrer seu corpo.

- É o meu presente para ti. Uma última viagem. Infelizmente retiro o que disse anteriormente, não poderei fazê-la contigo. Minha concentração e integridade fisica estão já comprometidas.

Amon notou que o outro braço, antes são, começara a necrosar logo após o beijo.

- Guarde este presente. Ele o carregará a qualquer lugar que desejes chegar. use-o com Sabedoria e Parcimônia, no momento certo.

Olhou para Troile. O mais novo enxugou as lágrimas e se levantou. Olhou para Amon, com uma tristeza infinita nos olhos.

- Perdoe-me. - Disse.

Ilyias estava calmo. Havia vivido por sete milênios. Ilyias, o Filósofo, a quem o mundo gerava uma imensa curiosidade e comoção. Ilyias que amava os estudos, as letras, o pensamento. Ilyias que amava o Amor que era incapaz de sentir, e o amava com tanta, tanta força que sua existência era insuportável. Desejava somente a liberdade. Havia conseguido, com muito esforço, concedê-la aos seus filhos e netos. Estava satisfeito. Ilyias, que havia caminhado pelo mundo e aprendido coisas infinitas.

Troile sugava o Sangue do pescoço de Ilyias, mas não parecia importante. Uma torrente de imagens invadia a mente de Amon.

Ilyias havia amado profundamente seus irmãos, e se entristecido quando viu as Possibilidades relacionadas a eles. Havia cavalgado na Primeira Guerra contra o Inimigo, seu nome era sussurrado com horror por entre as hostes rivais. Ilyias, que havia abaixado a cabeça quando Caim o havia amaldiçoado, ainda que tivesse tentado explicar a razão da Rebelião. Ilyias que odiou Caim, depois sentiu pena e, depois Amor pelo Primeiro e por sua Dor. Ilyias era capaz de sorrir quando uma criança, ignorante sobre a sua natureza, sorria para ele no Templo. Ilyias, que era uma Besta capaz de secar vilarejos inteiros sem nenhuma crise de consciência. Todos estes, e muitos outros, eram Ilyias, uma Possibilidade que se desdobrava para sempre no Infinito.

Havia decodificado muitas coisas. Havia aprendido como o tempo é cíclico e como o fim hoje não significa que alguma coisa deixa de existir para sempre. Ilyias, que confiava nos Quatro Arcanjos.

Ilyias, que amava seu Senhor mais do que a si mesmo e que sofreu imensamente sua perda. E, para deixar de sofrer, aceitou e abraçou a Maldição de Caim, e a viu, por algum tempo, como uma benção. Até a noite em que se tornou um Criador.

Estava com os olhos abertos. Fitava Amon. O Filho leu os lábios do Pai. "Eu te amo, e tenho orgulho de ti. Eu entendo, agora."

Um trovão soou forte sobre Nippur. Onde quer que estivessem, cada um dos irmãos de Ilyias soube, automaticamente, sobre o destino deste, pois o Mundo dos Mortos se ergueu para depois desabar com um estrondo silencioso.

Ilyias, que se tornou cinzas nos braços de Troile que tentava, sem sucesso, segurá-las. Por um tempo permaneceu de pé, uma estátua acinzentada que olhava para Amon no seu último minuto. Depois, se desfez. Troile desabou no chão, chorando intensamente. Havia uma paz palpável no local quando Amon teve a sensação de ver uma parte das cinzas a serem carregadas pelo vento. Eram douradas, estas. O restante permaneceu ali, no meio da sala. O único som eram os soluços de Troile. Amon sentiu a Besta de seu irmão se insinuar, poderosa e intensa, mas a tristeza do mais novo era infinita como o Universo, e mesmo a Besta se compadeceu e o deixou em paz naquele momento.

Algo que havia dentro de Amon arrebentou. Tudo o que lhe fora negado por quase um milênio lhe foi concedido em um único minuto. Sentiu como se algo fosse arrancado de sua carne de sua pele. Mais que dor era uma agonia infinita, mas que durou um segundo. Por um instante, nada. Em seguida, tudo.

Estava livre.
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Re: Templo de Ilyias

em Sex Ago 10, 2018 7:38 pm
Enfim acabou.
Amon caminhou em silêncio e envolveu Troile em seus braços. Ele não podia imaginar a dor e a responsabilidade que o mais novo da casa de Ilyias teria que carregar para o resto da existência. Manteve-se naquela posição como se o tempo não fosse importante, como se o Sol não voltasse a brilhar no dia seguinte. Talvez não brilhasse de fato, pois, Ilyias partira. A dor só não foi maior porque Amon sabia que ele havia se libertado da dor. Seria egoísta demais mantê-lo neste tempo.


No final, fizestes um bem ao nosso pai, meu amado Troile, tu sabes disso. Levante-se, vamos encontrar nosso tio Ventru. Não devemos prantear agora. Quero, não. Preciso esvair este sentimento que tenta me tomar. Enfrentemos nossos inimigos e depois derrubaremos esta cidade, até que se torne pó e então, seguiremos para nosso novo lar. Tens muito a aprender e muito a ensinar.

Hoje aconteceu algo inédito nestas terras, um antigo sucumbiu, ainda que por vontade própria. Em breve, nossos tios começaram a surtar, meu irmão. Levante-se.
Amon estendeu a mão para Troile Ainda que este dia seja lembrado como terrível, será lembrado também como o dia que nosso pai venceu a maldição do primeiro. Não havia como ser diferente. Se houvesse, o pai teria feito. Vamos ao encontro dos outros, precisamos, acima de tudo estarmos juntos agora.



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Re: Templo de Ilyias

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