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Zigurate do Estrangeiro

em Seg Maio 07, 2018 5:09 am
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Re: Zigurate do Estrangeiro

em Seg Maio 07, 2018 7:02 pm
*A beleza de tudo! Haveria visão que trouxe mais alegria ao povo de Nippur? Algum cheiro mais doce do que a terra molhada? Tamanha sinfonia, mil pequenos tambores, tocando a mais bela das músicas. Chegava a ser engraçado como cada gota d'água no Crescente obedecia aos seus comandos, mas não poderia fazer nada quanto aos pedidos de seus fiéis quanto à chuva. O sofrimento deles era seu sofrimento, a sede deles era sua sede. Se pudesse, faria com que todo o vale do Sumer jamais precisasse de chuva novamente. Se pudesse, traria água a todo o Crescente, fazendo com que as altivas cidades fossem metrópoles aquáticas, e cada um de seus habitantes com guelras e nadadeiras, guiados e moldados por suas mãos amorosas.*

*Mas, infelicidade, aquilo era apenas um sonho. E era um sonho que o trazia até ali, afinal. Enki subia vagarosamente as escadas do zigurate de seu Pai. Ele usava um manto longo, de forma que, mesmo ensopado, não era possível distinguir qualquer movimento de pernas em seus passos. Os cabeços finos se emplastravam em seu rosto pálido, com uma pele tão fina que parecia translúcida, e olhos avantajados que jamais piscavam, como os de um peixe. Enki termina a escalada em meio a seus devaneios, e adentra o prédio, aonde residia Gallod, sábio, irmão e confidente.*


-Irmão, há espaço em sua morada para a visita de um suplicante? Eu me vejo necessitado de sua sabedoria.
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Re: Zigurate do Estrangeiro

em Ter Maio 08, 2018 6:37 am
- Para ti há sempre espaço em minha casa, em minha mesa e em minha vida, irmão amado.

Galod se levantou quando notou a presença de Enki. Era menos alto, mais igualmente frágil. Sua aparência, porém, era a de um homem mais jovem. Enki sabia que Galod não era originário da região, era um dos Filhos que o Pai havia criado em suas infinitas andanças. Tinha os olhos puxados e escuros, além de longos cabelos escuros, lisos como fios de tecido de qualidade. Mas o que Enki amava em seu irmão era, sobretudo, o sorriso. Era gentil e agradável, sincero. A risada de Galod, um som não tão raro de se ouvir, era contagiante.

Galod abraçou Enki. Com a mão direita alcançou um pedaço de tecido limpo e pôs-se a enxugar os cabelos de seu irmão. Sempre havia sido muito carinhoso, quase superprotetor em relação a Enki, mais do que em relação aos outros irmãos que ocasionalmente visitavam Nippur. Eram, afinal, os dois únicos filhos do Pai que ali habitavam. Galod dizia que eles deveriam cuidar um do outro.

O recinto privado de Galod, abaixo do salão do Pai mas acima do aqueduto onde Enki se refugiava era um local simples, porém elegante. Ali ele acumulava seus tesouros, estátuas e escrituras de um mundo distante, onde Enki jamais havia estado. Era um local frio, nenhuma chama ali fazia morada e a única luz que iluminava o recinto era a parca luz da lua, ainda encoberta pelas nuvens. Galod, entretanto, não tinha nenhuma dificuldade na leitura, sua atividade favorita.

Num dos cantos da sala haviam escrituras na parede, que Enki reconheceu rapidamente como poderosos rituais de proteção. Ninguém poderia entrar naquele recinto se não fosse misticamente autorizado pelo Xamã. Segundo o Pai, nem ele mesmo era capaz de subverter as proteções de Galod.

- Me diga o que te aflige, irmão meu, e se eu puder fazer algo por ti, o farei.
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Re: Zigurate do Estrangeiro

em Ter Maio 08, 2018 9:48 am
*Enki não podia deixar de sorrir com o cuidado de seu irmão. Gallod sabia que o contato com a água o acalmava, da mesma forma que sabia que seu irmão não estava sujeito a uma doença dos pulmões como os mortais, mas ainda assim não conseguia evitar de secá-lo após uma chuva e um banho no rio. Podia ser interpretado de forma errada por outros, mas era amor, pura e simplesmente.*

-O que resta de cada um de nós, irmão? Eu fui um homem, uma vez, há tanto tempo... mas foi tudo lavado para longe de mim, como um banco de areia às margens de um rio. E ainda assim... Não se erode uma alma com tanta facilidade, não é mesmo? Por quatro dias, o último sendo esta manhã, recebo visitas em meus sonhos, visitas que acredito serem de uma vida que julgava há muito ter sido levada pela corrente.

*Vendo o olhar de interesse de seu irmão, ele continua.*

-Há sempre uma voz a clamar por ajuda em meio à escuridão. Após alguns instantes, vejo sua dona: uma mulher deitada ao chão, com longos cabelos negros. E ao final do sonho sempre, sem exceção, ela é trespassada no ventre por uma espada de cobre.

-Irmão, você é mais sábio em seu sono do que todos nós acordados, então diga-me: o que isso significa?
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Re: Zigurate do Estrangeiro

em Ter Maio 08, 2018 10:02 am
Gallod continuou a enxugar Enki enquanto este falava. Quando terminou, pousou o pedaço de tecido sobre um dos objetos que compunham o cenário. Sentou-se e convidou Enki a fazer o mesmo. Apoiou os cotovelos nos joelhos, inclinando-se em direção ao irmão e olhando-o nos olhos. Enki sabia que Gallod, como todo poderoso xamã, era também muito sensível. Conseguia captar as vibrações dos outros com pouco ou nenhum esforço.

- O que resta de ti é exatamente aquilo que você permitiu que restasse no curso destes séculos, irmão meu. Gentileza e benevolência, temperadas com um toque de certa tristeza que jamais te deixará.

Gallod riu alto. Enki não poderia fazer outra coisa que acompanhar o riso. Por alguns segundos eram como duas crianças que brincavam na ausência do Pai.

- Fico feliz que tenhas vindo. Teus sonhos correspondem à realidade, irmão meu. Houve ataques. Vilarejos na fronteira entre as cidades livres e a Fortaleza da Dor foram atacados, nossos tratados estão sendo continuamente violados. Não preciso dizer-lhe que és filho de Mashkan-Shapir, e aquela terra estará eternamente vinculada a ti, assim como nossas terras estão eternamente vinculadas a cada um de nós. Se a terra grita e sofre, você sentirá, assim como sentirá o povo que caminha sobre ela.

Fez uma pausa. Sua expressão era a clássica expressão, vista tantas vezes por Enki: "não me interrompa, estou pensando". Aparentemente não chegou a nenhuma conclusão.

- A razão de a mulher chamar o teu nome é, mesmo para mim, um mistério. Mas imagino que descobriremos em breve. Ah - olhou para a entrada do Zigurate, ainda que esta fosse distante da sala - Cá estão nossos primos. O Pai deu ordens expressas para que colaboremos com os Filhos de Laza, Enki. São os únicos que, como nós, estão preocupados com as violações dos inimigos. Vieram parlamentar, e nós os receberemos muito bem, ouviremos suas palavras e colaboraremos com eles.

Gallod estava certo. Por alguma razão, provavelmente ligada à sua presença na sala privada de seu irmão, sabia que se aproximavam Khanon-Mer e Daharius Sarosh.
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Re: Zigurate do Estrangeiro

em Ter Maio 08, 2018 11:47 am
*Ele assiste, em silêncio e admiração enquanto seu irmão mais velho destila sua sabedoria até que enfim termina, dando-lhe espaço para falar.*

-Mashkan-Shapir... Uma chaga, irmão. Uma chaga purulenta que faz a terra ao seu redor chorar. E disse bem, irmão, nós somos a terra.

*Ele assume um olhar distante por uns momentos, parecendo estar à beira das lágrimas. Até que sente a presença dos filhos de Laza, e se recompõe.*

-Se nossos primos se aproximam com um coração tão nobre, o que nos resta a fazer senão sermos anfitriões bons e amorosos? Eles podem não compartilhar nossa dor, mas certamente compartilham nosso propósito.

*Enki se levanta e se dirige até à entrada do zigurate. Os visitantes terão como primeira impressão ele, o Abzu, Senhor e Servo do Sangue Vital. Um cainita alto e de porte regal, mas frágil, com uma pele úmida e quase translúcida, e feições não inteiramente... humanas. Seus olhos grandes e piscianos, porém, transmitem simpatia aos visitantes.*
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Re: Zigurate do Estrangeiro

em Ter Maio 08, 2018 1:33 pm
* Daharius Anun-Har Sarosh e Khanon-Mer subiam as escadarias que compunham a pirâmide do Estrangeiro. Misteriosa e mística, como aquele ao qual ela pertence. No percurso, comentou com seu irmão as últimas palavras de seu Pai*

- Entristece-me uma possível traição, Irmão. Se esta for uma verdade apurada em nossa busca, tempos difíceis virão e nossas mãos imparáveis deverão cair com peso e decisão sobre os que ousaram juntar-se ao inimigo. Isto terá um impacto visível e profundo em nosso modo de viver as noites em Nippur.

* Aproximou-se da entrada do Zigurate e figurou, contra a luz prateada da lua que atingia suas costas, como uma silhueta sombria diante do portal de pedra. Não adentrou e ao vislumbrar um dos filhos do Estrangeiro, anunciou-se. Sua voz ecoou pelas paredes de forma baixa, porém firme.

E como era bela aquela voz. Emanava uma autoridade natural, ou seria sobrenatural? Era ao mesmo tempo agradável e impositiva, como o belo som do trovão ouvido ao longe que em caso de estar muito próximo assusta e aterroriza, mas mantido na distância correta, ressoa como uma força da natureza a ser apreciada. Ecoava, então, na distância exata.*

- Nós, Filhos de Laza e Primos dos que aqui residem, viemos até vós com a palavra de nosso Pai.

* Quando Enki se aproximar e a silhueta de Daharius se fizer visível, notará que Sarosh não possui a figura físicamente impressionante de seu irmão, Khanon, que está a seu lado. É mais longilíneo que protuberante, embora seja alto e exale uma sensação de poder incontido que emana de seus olhos negros e das tatuagens sombrias que lhe percorrem o corpo. Veste apenas um saiote escuro como a noite, da exata cor de seus cabelos e barba.

Aguardou o convite para então adentrar à casa do Estrangeiro*
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Re: Zigurate do Estrangeiro

em Ter Maio 08, 2018 4:52 pm
*Enki sorri ao ver seus primos do Clã da Noite, um sorriso amplo e ligeiramente desproporcional em seu rosto já tão diferente. Ele faz uma referência profunda e fala em uma voz melódica, quase fluida.*

-,Os Céus e o Sangue de nossos pais os saúdem, Primos. O Zigurate do Pai, O Mais Velho, aquele a quem chamam de Estrangeiro está aberto a vocês e eu, Enki, Senhor do Abzu lhes dou as boas vindas.

*Após a resposta dos Lasombra, ele os guia para dentro da construção.*

-Daharius Sarosh, Príncipe Guerreiro e Navegante das Águas Sombrias; Khanon-Mer, Guerreiro dentre Guerreiros e Devastador de Hostes, a chegada de vocês era aguardada, e é recebida com júbilo. Meu irmão Gallod, Voz de Nosso Pai e Caminhante dos Sonhos está reunido em conselho comigo, e vocês me fariam uma enorme gentileza e honra ao se juntarem a nós.

*Conforme adentra o Zigurate, Enki para para pegar uma tigela de pedra e uma jarra de água, para depois seguir em frente. Os dois Lasombra notam que os braços do Tzimisce parecem maiores do que o normal, a fim de acomodar sua carga. Ao entrar no santuário de Gallod, ele deposita os objetos no chão, e se vira para seu irmão.*

-Daharius Sarosh e Khanon-Mer, filhos de Laza Omri Baras, herdeiros e legado do Clã da Noite se juntam a nós, irmão, e sob meus auspícios gozam da hospitalidade do Clã Tzimisce.
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Re: Zigurate do Estrangeiro

em Ter Maio 08, 2018 8:04 pm
* O Guerreiro reconhecia Enki. Era sobre as águas escuras que jorravam fertilidade ao longo dos veios negros que traçavam seu curso pelo Crescente Fértil que seus navios mercantes e de guerra transitavam e, naquelas mesmas águas, a figura de Abzu se fazia presente como uma das criaturas a coexistir no imenso e belo espelho d'água negro.

Compartilhavam, então, de uma ligação ancestral com as águas. A cultura de seus primos era exótica mas fascinante. Envoltos em mistério, seus modos e aparência que geram estranheza à maioria dos outros que habitam Nippur eram, de fato, irrelevantes para Daharius Sarosh.

Como poderia ele, um Caminhante e Conhecedor do Abismo, julgar o exterior dos viventes quando no interior de cada ser há uma infinita escuridão divisando o visível daquilo que não se pode mensurar? Não, para ele, os filhos do Estrangeiro eram o aspecto da mudança, do novo, da busca pelo conhecimento de si mesmo. Eram, em outra perspectiva, como os Místicos do Abismo representados na Segunda Cidade por Sarosh e seu irmão mais novo, Teppelit.

Ouviu as boas-vindas e o respondeu apropriadamente.*


- A honra é nossa, Enki. Embora o assunto que nos traz até a vossa casa não nos permita apreciar a visita como deveríamos. Noites obscuras, até mesmo para nós, se aproximam meu caro Abzu das águas negras.

* Sarosh caminhou ao lado de seu irmão, Khanon-Mer, adentrando ao zigurate do Estrangeiro que nomeou sua parte da Família como Tzimisce e observou, curioso, os detalhes daquele local. Daharius era um estudioso do oculto e a descoberta do novo lhe alegrava, sempre.

Ao chegar diante de Gallod, cumprimentou-o com um leve meneio de cabeça. Era notório que as sombras do interior do Zigurate se moldavam a seu redor, instintivamente e sem qualquer esforço. Pareciam reagir a sua presença como um animal adestrado ao chegar o seu cuidador.*


- O saúdo, Gallod, e espero compartilharmos o conhecimento que detemos acerca da ameaça que se avoluma no horizonte para que juntos a façamos regredir.

* Sentou-se à frente de seus primos. Gallod era, a seus olhos, o mais próximo da iluminação a viver em Nippur abaixo de Amon. Era ele a contemplar as estrelas e decifrar os astros e suas palavras costumavam trazer emanações de um futuro próximo.

A iluminação já parca do Zigurate tornou-se ainda mais pálida e a escuridão destacava a profundidade de seus olhos negros. Fitou-os, com uma paz a emanar de sua face e pôs-se a ouvir as palavras dos filhos do Estrangeiro*
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Re: Zigurate do Estrangeiro

em Qua Maio 09, 2018 5:57 am
- Uma chaga que nós devemos extirpar da face da Terra, irmão meu.

Gallod enxugou as lágrimas de seu irmão com as pontas dos dedos. Beijou-lhe as bochechas antes de ajudar Enki a se levantar. Seus primos aguardavam diante do Templo, respeitando devidamente o território estabelecido. Enki sentia a presença dos Filhos de Laza, ondas de frio preenchiam seu coração. Quão estranhos eram os Príncipes da Escuridão. Flutuavam constantemente em algum lugar entre os mundos, um lugar que somente eles sabiam acessar. Enki sabia, como por instinto, que era este lugar que os concedia força e capacidade, marcando suas almas com uma escuridão amoral. Sabia porém que seu Pai, o Estrangeiro, confiava em Laza mais do que em seus outros tios, e isso havia sido relevante nas relações com seus primos.

Khanon-Mer respondeu Sarosh enquanto subiam as escadas do zigurate. A construção era mais imponente do que propriamente bela, repleta de runas escritas em uma língua que Sarosh não dominava. Recordou-se de seus anos iniciais, quando havia sido trazido a Nippur por seu irmão Karotos, e entregue ao seu Pai. Após lhe ser concedida a dádiva do Sangue, circulava constantemente pela cidade, aprendendo sobre sua nova natureza. Num destes passeios viu seu tio, o Estrangeiro, esculpindo parte daquelas runas que ele agora observava. Nunca conseguia se lembrar do rosto de seu tio. Sabia que era um homem alto e esguio, com membros longos e uma palidez doentia.

- Não há outra forma de lidar com traidores, irmão meu, que não seja esmagando-os com toda a força possível. Não podemos permitir que propaguem a doença da alma que é a traição, pois toda Nippur poderia pagar. Estejamos atentos e decididos, agiremos rápido quando encontrarmos este animal, pois não é um de nós. O traremos, mesmo arrastado, à Justiça de nosso Pai e de seus irmãos.

Khanon-Mer passava a Sarosh força e segurança. Era o mais temperamental de seus irmãos, o mais inconstante e violento dos Filhos de Laza. No entanto, quando diante de uma injustiça ou traição, sua personalidade se tornava incrivelmente obstinada. Sarosh sabia que Khanon detestava traidores. Sabia que seu irmão seria capaz de seguir até os confins da Terra para destruir quem quer que tenha traído a Família.

Encontraram-se na entrada do Zigurate, Khanon e Sarosh de um lado. Enki do outro. Quando o Filho do Estrangeiro convidou-os a entrar, Sarosh sentiu como se um véu caísse diante de seus olhos. Nada havia mudado, as cores eram as mesmas, o frio noturno exatamente igual. O Zigurate, porém, pareceu mais imponente contra o céu noturno.

Os corredores levaram os três vampiros ao interior da construção. Os corredores eram também adornados com runas variadas, e Sarosh intuiu que elas contavam uma história. Enki, por outro lado, estava ciente do que significavam. Ali o Pai escrevera a história de cada um dos seus Filhos, para que o tempo não fosse capaz de apagar tais memórias, para sempre esculpidas na pedra pois, segundo ele, Nippur duraria para sempre, pois ele mesmo havia visto. Ali estavam Enki e Gallod, mas também estavam Byelobog, Yorak, Kartarirya, Dandemeh e Triglav. Ainda que não entendesse a língua, Sarosh era capaz de sentir o que contavam as palavras. Havia um inegável sentimento de orgulho inscrito ali.

Alcançaram o salão, onde Enki declarou a presença dos filhos de Laza a Gallod, um homem magro e com um ar sábio, que estava sentado em uma poltrona de barro. Diante dele, diversas mesas colocadas juntas formavam uma superfície maior, repleta de tabuletas estranhas. Sentaram-se, pois havia poltronas para todos. Eram belas e bem elaboradas, um presente do Clã dos Artesãos. Foi Gallod quem respondeu primeiro, seus olhos escuros observando, com curiosidade, as sombras que dançavam ao redor de Daharius Sarosh.

- Eu os saúdo, membros da minha Família, e os dou boas vindas a esta casa, que é a casa de meu Senhor. Uma noite escura e sem estrelas cai sobre nós à medida em que o tempo avança, homens e mulheres pagam com suas vidas pelo crime daqueles que ocupam Mashkan-Shapir, a Fortaleza da Dor. Que faremos nós, Filhos de Nippur, para impedir tamanha ignomínia?

Gallod se levantou. Não esperou que alguém respondesse sua pergunta, mas caminhou até o fundo da sala. Os presentes ouviram um barulho de animal. O Filho do Estrangeiro retornou e em suas mãos carregava um grande e gordo coelho marrom. O animal parecia calmo, a despeito da natureza sobrenatural dos presentes. Gallod, de pé diante da mesa, depositou ali a pequena vida. O animal permaneceu parado. Ele pegou uma das tabuletas de argila, posicionando o pequeno ser sobre ela. Segurou-o e fez uma espécie de prece em uma língua desconhecida para todos, mas que Enki sabia ser a língua original de seu irmão, um cântico distante das terras do Leste. Com uma destreza sem igual, Gallod abriu, com as mãos nuas, o tórax do coelho. O pequeno cadáver foi colocado adequadamente sobre a tabuleta, as entranhas expostas.

Sarosh percebeu que Khanon observava Gallod com a mesma curiosidade que Gallod havia observado Sarosh. Mas era mais que isso. Havia, nos seus olhos, admiração.

- Uma lua de Sangue nascerá nas noites porvir, banhada pelo sangue que verterá sobre a Terra. Cada um dos que nos cultuam cairá, pois já caiu aquela que cultua os rios e as águas, representados nesta casa, e cairão também aqueles que cultuam a Noite, a Criação, o Sangue e a Morte. E quando todos tiverem caído as condições serão propícias, e o Grande Massacre se seguirá, e o Sangue derramado acordará o Último e Primeiro Arauto, de cujas entranhas escorre a destruição e a purulência.

Gallod se apoiou na mesa. Respirou intensamente e com dificuldade. Seus olhos haviam se tornado completamente brancos enquanto lia as entranhas do coelho. Se recompôs, para olhar para aqueles diante de si.

- É isto o que vejo, irmãos meus. Meu talento e meus dons não são afiados como aqueles dos Filhos de Ilyias, mas me permitem perscrutar os Mistérios. Confio em vós para entender o significado de tal impressão.

O clima era tenso dentro da sala. Foi responsabilidade de Khanon-Mer contornar a situação.

- O significado é simples. Iremos para a Guerra.
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Re: Zigurate do Estrangeiro

em Qua Maio 09, 2018 8:30 am
* Sarosh ouvia atentatemente as palavras do sábio Gallod. Havia naqueles olhos escuros e profundos uma admiração sincera pelo filho do Estrangeiro. Ao fim de suas palavras, o Místico do Abismo levantou-se e se aproximou de uma das paredes.

Sua sombra, projetada ainda por conta da parca luz que adentra ao zigurate, ergueu-se do chão e ocupou a parede como uma pintura.  Figurou como uma silhueta na forma de um homem adulto mas de proporções diferentes daquelas apresentadas pelo corpo físico de Daharius. As sombras tinham seu contorno se desfazendo e refazendo constantemente, como pequenas explosões de chamas negras. Após as palavras de Khanon, a sua voz grave e encantadora preencheu o recinto*


- Sou grato, Gallod, por compartilhar conosco de suas habilidades que prenunciam um futuro negro.

* Seu olhar fixou-se em Khanon*

- Sim, irmão. Haverá Guerra.

* Seus olhos flamejavam em sombras dançantes. Tocou a parede na qual as duas figuras sombrias formaram-se a partir da sua própria sombra e continuou*

- A visão de nosso primo nos revela mais. O Primeiro e Último Arauto será despertado pelo sangue derramado.

* A silhueta sombria na parede parece receber um banho de mais trevas que caem do teto do local*

- Precisamos ser cautelosos. Sabemos que aqueles que controlam Mash-Khan Shappir lidam com forças inimagináveis que habitam para além da compreensão. É imprescindível que nos atenhamos aos detalhes da visão de Gallod, pois, a meu ver...

* Olhou a todos enquanto a silhueta se desfez da parede e sua sombra retornou ao normal, assim como seus olhos pararam de emanar trevas ondulantes*

- O Inimigo deflagará uma Guerra que servirá unicamente ao propósito de despertar seu mestre inominável. Precisamos ser implacáveis, porém sábios.

* Voltou-se à Enki, pois o julgou o mais apto a ter a resposta que buscava*

- Além disto, pergunto-lhe, habitante das águas escuras do Crescente Fértil. Quem poderia ser aquela que cultua as águas - representada em vossa casa - e que, segundo a visão, caiu assim como outros cairão?
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Re: Zigurate do Estrangeiro

em Qua Maio 09, 2018 3:56 pm
*Daharius Sarosh, o Príncipe do Clã da Noite, fala de forma clara e decidida. Suas palavras sem sombra de dúvida traziam sabedoria, e a visão trazida por Gallod lhe traziam conhecimento, ambos levavam a um norte para o curso de ação.*

-Quem dera Aquele Acima me ensinasse, primo... Há quatro dias sonho com uma mulher clamando por ajuda antes de ter o ventre trespassado por uma espada... Muitos ao longo dos rios me prestam homenagem, mas infelizmente não reconheço a mulher. Seria uma mortal qualquer? Ou a própria terra ao redor de Mashkan-Shappir que clama por socorro? Em todo caso, me sinto inclinado a atender ao chamado...

*Enquanto fala, Enki enche a bacia com água da jarra, de forma distraída.*

-Mashkan-Shapir... Um ferimento antigo... Não sei se meus primos das sombras sabem, mas é de lá que eu vim, quando ainda podia ver a luz do sol... E nós, os Moldadores, nunca nos desligamos do lugar de onde viemos.

*Seu olhar se perde no horizonte, enquanto ele continua a falar, para ninguém em particular.*

-Aqueles que lá habitam desenharam um mapa de dor em meu corpo, embora para qual fim eu não saberia dizer, até que o Pai, em sua infinita gentileza, de lá me retirou para atender aos seus sábios desígnios.

-Mas mesmo em Mashkan-Shapir me fizeram uma gentileza. Lá me foi mostrado o valor da compaixão e amor, e minha alma foi lavada até que apenas isso dela restasse.

*Seus olhos voltam a assumir foco, e ele novamente olha para seus companheiros ao redor da mesa.*

-E me agradaria muito retribuir-lhes esta gentileza. O Pai me proibiu expressamente, ao menos enquanto não fosse do interesse de outras famílias. E agora que vocês, filhos do grande Laza Omri Baras, nos fazem a gentileza de clamar pela guerra, lhes digo que Mashkan-Shappir conhecerá o amor de Enki e do Clã dos Moldadores. Lhes farei a gentileza de lavar sua cidade poluta com a força do Tigre, e seus algozes verão os próprios intestinos servindo de algemas para que observem a tudo. Essa gentileza será feita para todas as vítimas dos algozes de Mashkan-Shappir, e também para eles próprios, para que nunca mais tenham a consciência conspurcada por atos tão vis.

-Porém, falas com sabedoria, Príncipe de Laza. A nós nos foram confiados segredos e poderes com quais muitos sequer sonham. Com a dose certa de sabedoria, podemos resolver esse... infortúnio com uma rapidez misericordiosa.

*Ele para. Um chamado pode ser ouvido do lado de fora do zigurate, e é seguido pela entrada de Amon.*

-Mais um visitante! Seja mui bem vindo, Amon, Barqueiro do Rio do Tempo! Sua chegada não era esperada, mas é providencial. Nós conversamos sobre Mashkan-Shappir. A cidade se remexe como uma fera raivosa, atacando aqueles sob sua sombra, e nós discutimos como uma mão gentil e amorosa pode dissuadí-los desse comportamento triste. Você nos dá a honra de sua visita para discutir o mesmo assunto ou algo mais?
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Re: Zigurate do Estrangeiro

em Qui Maio 10, 2018 6:36 am
Foi Gallod quem continuou, após a manifestação de seu irmão Enki.

- Tenho total acordo contigo, Sarosh. O inimigo é astuto, nos está forçando a violar os termos da trégua declarada por nossos pais. A guerra sempre foi inevitável, como bem observou Khanon-Mer, mas eu sinceramente não esperava que ocorresse tão cedo.

Levantou-se a passou a caminhar pela sala. Gallod era estranho como todos os filhos do Estrangeiro, mas parte desta estranheza era devida à sua etnia claramente não pertencente àquela região. Era, porém, um belo homem. Tinha um ar pacificador, estar na sua presença era ligeiramente calmante. Sarosh continuou a notar que Khanon o observava atentamente.

- Se o inimigo busca ter acesso aos mortais que nos adoram, violando suas existências e profanando seus espíritos, é o nosso dever imediato protegê-los, ao mesmo tempo em que nos concentramos em frustrar seus planos. Temo que este assunto já tenha tomado grandes proporções, de forma que nossos Pais devem ser alertados. Ao menos aqueles que concordam com uma ação mais enérgica contra Mashkan-Shapir, a exemplo de Laza, Haqim e Saulot.

Gallod parou de falar quando Enki anunciou a chegada de Amon. Sentou-se para dar espaço de fala do Filho de Ilyias.
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Re: Zigurate do Estrangeiro

em Qui Maio 10, 2018 8:44 am
Amon adentrou no zigurate calmamente, observando atentamente os símbolos em suas paredes. Esta não era a primeira vez que ali entrava, apesar de poder contar quantas vezes estivera ali. A última vez, recordou Amon, foi há oitenta e dois anos e sessenta e um dias. Percebeu que haviam inscrições que não estavam lá antes.

Finalmente, ao chegar no mesmo ambiente que os outros estavam, alegrou-se ao ver Sarosh. Apesar da seriedade da situação, Amon sorriu antes de começar a falar.


Saudações a todos. Lamento interromper vosso encontro, se soubesse que estavam reunidos, viria noutro momento. Ainda assim, fico exultante ao ver todos aqui, assim podemos organizar melhor nossas ideias. Me parece que o assunto tratado aqui seja o mesmo que me trouxe.

Amon caminha pelo cômodo e vai até Sarosh, dando-lhe um abraço apertado. Depois, continuou a sua saga. Seu semblante ainda era triste e a memória dos acontecimentos ainda reverberavam em sua mente.


Ontem chegou ao templo de Illyias um homem, cansado de tanto viajar. Ele estava exaurido, de corpo e de espírito. Ele tentou nos alertar sobre o que ocorria, entretanto, caiu desacordado e ainda está nesta situação. Usei meus dons para que pudesse ver o que havia acontecido para que o homem chegasse até nós daquela forma.

Ele presenciou um massacre em sua aldeia, proporcionado por um ser como nós. Todos, sem exceção foram mortos, desde as crianças até os anciãos. As mulheres, antes de serem mortas, foram violadas brutalmente e sucessivamente pelos homens que obedeciam aquele ser hediondo.

Enquanto ele estava escondido, viu a sacerdotisa ser profanada, ter seu corpo violentado, sua mente invadida, sua dignidade arrancada. Ainda assim ele clamava baixinho por ajuda.
Amon parou de falar. Mesmo já tendo visto tantas coisas, aquela violência o incomodava e, tirar a dignidade do ser, não importa qual seja, o deixava transtornado. Sua voz quase que desapareceu. Ele respirou fundo, reuniu forças e continuou.

Me desculpem, ver aquela cena me deixou triste meus primos. Com a voz carregada de emoção ele concluiu A mulher que eu vi, meu caro primo, clamava incessantemente por seu nome. "Enki, Enki..." Até ser transpassada pela espada do amaldiçoado. Uma figura com uma máscara estranha, que lhe cobria totalmente seu rosto. Não satisfeito, ele ainda abriu seu corpo com as mãos nuas e lhe arrancou o coração. Satisfeito, ele o colocou num saco de couro e partiu com seus asseclas.

Amon se calou, tinha mais a falar, porém, precisava controlar suas emoções.

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Re: Zigurate do Estrangeiro

em Qui Maio 10, 2018 1:05 pm
Silêncio. Todos ouviam atentamente as palavras do Filho de Ilyias. Os talentos daquela Família eram conhecidos por todos, e as palavras trazidas por Amon eram, certamente, de se levar em consideração. Era visível a emoção do Filho de Ilyias. Alguns cainitas tinham profundas ligações com o mundo mortal, e Amon certamente era um deles. Os olhos estavam marejados, com pequenas gotas de sangue. Era também visível que Amon tentava controlar seus sentimentos, não por medo de expor fraqueza, mas em razão da claridade de pensamento que a situação exigia.

Gallod falou primeiro.

- Tua presença nesta casa não incomoda, Amon, ao contrário. É uma honra recebê-lo. Sinto muitíssimo pelo que foi obrigado a presenciar. Toda a angústia e sofrimento também adentrou meu coração durante a minha leitura perceptiva, embora de forma diferente.

Khanon-Mer foi o segundo.

- Existem outras peças neste quebra cabeça que ainda escapam à nossa visão. É necessário reunir o máximo de informação antes de proceder à ação.

Súbito, o vento.

Frio, porém calmo. Sutil, envolvente, adentrava os ossos. O Zigurate se moveu. Ou foi somente uma impressão? Pareceu se expandir, ganhar corpo e vida. Se tornar mais belo e mais acolhedor. Ao mesmo tempo, o local parecia impor um peso imenso sobre os ombros dos presentes, exceto os de Enki e Gallod. Não era incômodo, porém, não exigia obediência ou adoração. Era somente a sensação de que algo muito grande, imenso, maior que todos eles juntos estava nas proximidades.

Foi Gallod quem explicou.

- O Pai está em casa.

Do lado de fora, Ya'rub observava o Zigurate recortado contra o céu. Teve a impressão que as pedras se moviam, formando novos padrões. As escritas externas, essas ele tinha certeza, se prolongavam, com novos capítulos sendo adicionados. As pedras rústicas davam espaço a uma caligrafia elaborada e delicada, e o Filho de Haqim observava, fascinado, quando uma mão tocou o seu ombro e uma voz rouca ecoou em seus ouvidos.

- Você pode entrar, filho do meu irmão.

Girou-se.

Lá estava o Estrangeiro.

Alto e magro. Pálido. Olhos grandes, escuros e expressivos. Uma testa proeminente, sobre uma cabeça ligeiramente desproporcional ao corpo. Membros longos. Rosto encovado, com bochechas quase ausentes. O cabelo era escuro, liso, com entradas profundas nas têmporas. O nariz era curvado, lembrando-lhe aquele de Laza. Os lábios eram arroxeados, como os de alguém que morreu afogado. Vestia-se de forma simples, somente com uma túnica acinzentada, suja de poeira. Estava descalço, os pés igualmente sujos, presumivelmente da viagem.

Era um tipo simples, o Estrangeiro. Mas o poder que emanava não o era.

Ya'rub sentiu-se estranho. Não fisicamente. Mas tinha absoluta certeza que a única de suas convicções que restava era o Amor por sua Família. Todas as outras eram discutíveis. Dialogáveis. Passíveis de reconstrução. Nada era estático, nem mesmo seus pensamentos, nem mesmo seu coração.

O Estrangeiro sorriu. Entrou, à frente de Ya'rub.

Passaram os corredores do Zigurate. O Estrangeiro caminhava lentamente, a mão esquerda correndo levemente pelas paredes de Sua casa. Ya'rub o seguiu até um último cômodo, onde seus primos estavam reunidos. Aparentemente sabiam que o Estrangeiro estava se aproximando; todos olhavam ansiosamente para a porta. O neto de Caim saudou seus descendentes primeiro e em seguida os visitantes. Não tocou nenhum deles.
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Re: Zigurate do Estrangeiro

em Qui Maio 10, 2018 1:45 pm
*As palavras de Amon são reveladoras, e lançam sua luz sobre uma verdade horrível. Enki sente a dor junto com seu primo, e os Membros podem ver sua carne tremeluzir, como a superfície calma de um lago perturbada por um vento.*

-A pobre mulher... Mashkan-Shappir, mais do que nunca, mostra que precisa com urgência de uma mão gentil sobre ela... Nós precisamos...

*Ele para quando sente o vento. O júbilo! Quantas outras coisas poderiam trazer tamanha felicidade quanto o presságio emanado por aquele vento frio? Nenhuma! A própria pedra e o solo se moviam em boas vindas e reverência ao Mais Velho, e Enki de pronto para de falar para observar a chegada de seu Pai. Ele se curva em deferência, um gesto tão abrupto e exagerado que sua coluna fica inclinado em um ângulo quase antinatural.*

-Pai! Você nos faz a imensa gentileza de uma visita! E ainda traz um hóspede querido! Os Céus sem dúvida sorriem para todos nós.

*Enki, porém, não vai ao encontro do Pai. Havia aprendido séculos antes, de forma enfática, que a prerrogativa do toque era do Pai, e somente do Pai.*
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Re: Zigurate do Estrangeiro

em Qui Maio 10, 2018 1:59 pm
*Daharius Sarosh mantinha-se imerso nas sombras de seu próprio pensamento quando o Filho de Ilyas se fez presente.

Um alento naquela noite imersa em mistério. Retribuiu o abraço, com o aperto forte que os aproxima.

Amon vislumbrava nos olhos escuros e reflexivos de Sarosh a sua própria imagem, com o semblante triste e pesaroso enquanto o Filho de Laza enxergava apenas os olhos castanhos escuros do homem com pele de ébano a sua frente. Era parte de sua maldição não poder se ver, jamais, nem mesmo nos olhos daquele ao qual mais confia.*


- Sinto, irmão meu, por tua imersão nesta cena. Assim como me dói saber que nossos encontros ocorrem quando os ventos da Guerra se aproximam.


*Caminhou pelo salão pensativo sobre as revelações dos presentes. A visão de Gallod, as palavras de Enki e o vislumbre do passado de Amon. Todas direcionavam a um único e tortuoso caminho.

Por fim, sentiu o peso lhe cair sobre os ombros e quando o Zigurate parecia maior e mais vibrante, ele se fez presente. O Estrangeiro.

Sarosh avaliava o quão distantes estão seus Tios, e Pai, em natureza e capacidades dos seus filhos ali presentes. Aos seus escuros olhos era como segurar por entre as mãos um punhado de  água escura do Crescente Fértil.


O pequeno montante da água se esvairia por entre as brechas dos dedos, em gotas incessantes, buscando retornar a infinitude das águas. As Gotas eram os filhos e o Crescente eram seus pais, magnânimos e indecifráveis.

Meneou levemente a cabeça em um cumprimento formal. Não lhe foi ensinado a curvar-se diante de nenhum outro, nem mesmo a seu Criador, embora houvesse uma admiração verdadeira a lhe percorrer o corpo.

Foi quando a sua real natureza despertou. Precisava agir e incitar a ação.

- Amon, chegastes no...

* Sorriu de forma tão leve que pode ter passado despercebido dos demais, mas não passaria incólume pelo filho de Ilyas*

-...tempo exato.

- Assim como o Pai de Enki e Gallod. Além de um dos filhos de Haqim. Neste momento, peço-lhes a palavra.

* Caminhou assumindo uma espécie de centro imaginário em relação aos presentes*

- Gallod nos presenteia com a visão indicando que uma espécie de ritual é desempenhado pelo Inimigo. Em suas palavras, cairão mais nas próximas noites para que o nefasto propósito – ainda desconhecido por mim – seja atingido por aqueles que habitam Mashkan.

- A Sacerdotisa de Enki foi a primeira, conforme o vislumbre de Gallod  e o testemunho de Amon indicou, a pagar com sua vida e ser parte do ritual. Outros e pertencentes aqueles que adoram ou veneram as outras casas virão, se não intervirmos.


* Seu porte tornou-se mais altivo e sua face imutável. Não parecia tecer sentimentos ou pensamentos que o distraíssem do objetivo*

- É preciso abrigar e proteger os Sacedortes de cada casa. O inimigo os caçará, pois são necessários a seus propósitos, e como a visita ao passado de Amon nos mostrou, os que ocupam tais posições são os alvos.

- Sugiro que sejam trazidos a Nippur. Rastreiem os que guiam os povos, as tribos, em torno da crença nos supostos Deuses que aqui vivem e os tragam a segurança da Segunda Cidade. Vejamos se o inimigo possui a força e a audácia necessária para adentrar os nossos muros.


* Pronunciou o termo supostos Deuses com uma entonação particular*

- A proteção destes deve ser nossa prioridade.

- Além disso, fiquei surpreso ao saber que Enki é oriundo de Mashkan-Shappir.

* Olhou o Estrangeiro e sua figura assustadoramente estranha por um breve momento, mas não titubeou em continuar.*

- Um Conflito de proporções ainda não experimentadas por nós, filhos, se avoluma no horizonte. Conhecer o Inimigo é uma necessidade nas noites que virão.

- Enki caminhou em Mashkan. Viveu seus costumes, suas regras. Comungou de seus rituais – embora tenha sido forçado e maltratado no processo – e detém conhecimento sobre seus líderes de forma mais profunda que qualquer um de nós aqui presentes.

- Sugiro, também, que o seu conhecimento seja levado ao conselho que detém as decisões sobre a Segunda Cidade. A liderança precisa saber o que ele sabe, para que possamos planejar com assertividade as ações vindouras.

* Havia um certo autoritarismo em sua voz, que ressoava baixa mas firme. Era, contudo, uma autoridade natural como o respirar para aqueles que ainda vivem*

- Precisamos ser ágeis e precisos.
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Re: Zigurate do Estrangeiro

em Sex Maio 11, 2018 10:10 am
O Estrangeiro ouviu as palavras de Enki, mas limitou-se a saudá-lo de forma simples. Fitou sua cria nos olhos, fazendo o mesmo com Gallod, antes de responder.

- Enki, Gallod. Bom vê-los.

Enki sabia que seu Senhor era um cainita de poucas palavras. No decorrer dos séculos, a relação entre os dois se desenvolveu em bases sólidas, mas não necessariamente a causa de longos diálogos. O Estrangeiro monitorava suas crias à distância, dado o impulso contínuo que sentia de viajar pelo mundo. Sua Vontade, contudo chegava periodicamente àquelas crias que permaneciam em Nippur, através de sonos, intuições ou sensações urgentes. Enki aprendeu a compreender e a executar os desígnios do Estrangeiro e, nas raras ocasiões em que este retornava a Nippur, a cria relatava ao Senhor o progresso de suas ações. O Estrangeiro escutava tudo em silêncio, limitando-se a mudar de expressão quando algo não o agradava e precisava ser corrigido. Foram anos de erros e acertos até que Enki aprendesse a interpretar cada uma das intrincadas expressões faciais de seu Pai.

O Estrangeiro adentrou completamente a sala e ocupou um dos assentos de pedra disponíveis sem, contudo, sentar-se no semi circulo formado por seus filhos e sobrinhos. Manteve-se à distância, pernas cruzadas e olhos atentos a observar os mais jovens. Quando Sarosh se ergueu e fez seu longo discurso exaltando a necessidade da ação, Ele somente escutou, sem interromper. Enki notou que a expressão facial de seu Pai era incompreensível. Os dedos longos serviam de apoio para o queixo quadrado enquanto ele observava o Filho de Laza.

Quando Sarosh terminou, o Estrangeiro limitou-se, novamente, a poucas palavras.

- Tenho acordo com Daharius Sarosh. Meus irmãos se reunirão, invariavelmente, para discutir a situação. Imagino que vocês estarão presentes, se for da vontade de Ventru.

Olhou, em seguida, para Ya'rub.

- Contudo, estou ansioso para escutar o Filho de Haqim, e saber quais são as informações e impressões de que dispõe.
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Re: Zigurate do Estrangeiro

em Sex Maio 11, 2018 12:28 pm
De pé, diante do entrada que levava ao interior do zigurate, Ya'rub sentiu a presença dele. Um sensação estranha o invadiu no exato momento em que a mão do Estrangeiro tocou seu ombro. Naquela fração de tempo, nada mais fazia sentido. Toda a ordem do universo, que orientava o seu modo de estar no mundo, era apenas uma... distante hipótese. O céu e a terra, o fogo e a água, os mortos e os vivos, o mundo em que vivia e o mundo por trás do véu... Tudo. Toda a estrutura e os dualismos eram meras ficções. O existência do Estrangeiro se dava em um não-lugar, onde tudo era possível e nada era permanente. O Estrangeiro não era um nome, não era substância. O Estrangeiro era um Verbo.

Naquele breve momento de suspensão do tempo, Ya'rub pensou que o nome pelo qual chamavam o ancião não era uma referência ao fato - fato? existem fatos quando se fala dele? - de que vinha de outras terras. Ele era chamado de Estrangeiro por que vinha de lugar-algum.

Quando o toque cessou, sensação que tomou Ya'rub pelo que pareceu ser uma eternidade foi embora com a mesma velocidade com que veio. Enquanto caminhou atrás do Estrangeiro, após ser convidado a entrar, o feiticeiro permanecia em silêncio, recuperando-se da experiência.

A estabilidade foi voltando aos poucos, conforme ouvia as palavras de seus primos. As palavras decididas do altivo Sarosh eram uma espécie de oposto da sensação despertada pelo Estrangeiro. O Filho de Laza era decidido, direto, orgulhoso. Era como se soubesse seu lugar no mundo e o que todos deveriam fazer. Ya'rub esboçou um meio sorriso por detrás do tecido que ainda cobria seu rosto, pois Sarosh dava a impressão de que tudo era fácil. Sabia que não havia prepotência naquelas palavras. Seu primo era um líder nato. É papel de um líder dar àqueles que o seguem a estabilidade necessária, a esperança de que existe um caminho a ser seguido.

O discurso de Sarosh terminou e, em sequencia, o Estrangeiro passou a palavra para Ya'rub. Seus primos viam que o feiticeiro estava coberto pelos trajes negros daqueles que cruzam o deserto. Era magro, ainda que de aspecto saudável. A pele ainda apresentava o cor bronzeada dos povos beduínos. Baixou o pano que cobria seu nariz e boca, revelando um rosto inquisidor, de olhar penetrante e nariz aquilino. O entorno de cada um dos seus olhos estavam pintados de preto pelo kohl, reproduzindo a máscara de uma hiena. Ya'rub sorria, apesar da gravidade das informações que estava prestes a dizer.

- É um prazer estar na companhia de meus queridos primos, bem como do irmão de meu Pai. Quiseram os espíritos, contudo, que essa reunião se desse em um momento tenebroso. Me pesa a alma ouvir o que acabaram de dizer mas, infelizmente, o que trago irá contribuir para essa sensação.

Conforme falava, Ya'rub ia fitando cada um dos presentes.

- Há poucas noites, uma tabuleta criada às margens do Rio Indo foi capturada por nossos inimigos. Trata-se de um artefato místico, com instruções de execução de um ritual de magia simpática. O ritual permite que supostos deuses - o feiticeiro olha para Sarosh, sorrindo - sejam atingidos a partir da perversão do sangue e da vontade de seus seguidores.

- Vejo agora, após ouvi-los, que as peças se encaixam. Ao retirar o coração de uma sacerdotisa, será possível atingir o coração de seu deus.

Ya´rub olha para Enki

- Pude localizar para onde este artefato foi levado, apesar de não ser nenhuma surpresa. Ela está em um dos antigos zigurates de Mashkan-Shapir.

Finalmente, Ya'rub olha para Amon

- O tempo corre, meus primos. Se não agirmos logo, todos aqueles que são adorados e venerados serão atingidos. Cedo ou tarde.
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Re: Zigurate do Estrangeiro

em Dom Maio 13, 2018 11:19 am
As palavras de Ya'rub carregavam uma sensação de urgência palpável a todos que as escutaram. A maioria dos cainitas presentes era familiar com a noção de vínculo simpático. Alguns deles haviam sido xamãs, feiticeiros ou magos em vida e, ainda que o Sangue de Caim e a Maldição da Não-Vida cortassem os laços com as Artes que praticaram outrora, os conhecimentos adquiridos haviam permanecido.

O Estrangeiro, que permanecia sentado distante dos outros cainitas mais jovens, finalmente mudou de expressão. Sua face deixou de parecer calma e analítica para apresentar um breve sinal de ansiedade. Somente Enki e Gallod sabiam interpretar as rugas que haviam surgido nos cantos dos olhos de seu Pai como um detalhe que deixava clara a sua inquietação. O Estrangeiro tomou a palavra, mantendo-se completamente imóvel na poltrona que ocupava. Lembrava uma pintura ou uma estátua muito realista, impressão que só passou quando sua boca se moveu.

- Ya'rub traz notícias preocupantes. Imagino que a esta altura meu irmão Haqim já tenha se dirigido ao Trono Negro, onde tentará reunir meus irmãos para discutir os acontecimentos. É razoável que vocês se preparem para participar deste Conselho, dado que a gravidade dos eventos diz respeito a todos, independentemente da idade ou responsabilidade.

Se levantou e passou a caminhar pela sala. Os passos eram lentos e calculados. Sua presença, contudo, não podia ser suprimida. À medida em que caminhava por fora do círculo de cainitas, seu corpo se aproximava dos de cada um dos presentes. E era nesse momento que os cainitas mais jovens sentiam o poder do Estrangeiro. Era algo primitivo e visceral, ainda que perfeitamente contido. Eles sentiam o que o Estrangeiro queria que eles sentissem, o que era permitido a eles compreender. E compreendiam, sem nenhum esforço, que o Pai de Enki e Gallod era uma força da natureza.

- No entanto, com base na minha experiência, posso dizer que feitiços simpáticos funcionam sob condições muito específicas. É provável que o inimigo precise reunir todos os elementos necessários, ou seja, todos os nossos servidores antes de afetar-nos individualmente. Compreendam que eu disse "é provável". Mas, se as minhas conjecturas estiverem corretas, temos algum tempo disponível.

Parou. Voltou-se em direção a Sarosh.

- Contudo, este tempo não pode ser desperdiçado. Daharius Sarosh, teus homens deverão agir imediatamente. Ponho à disposição aqueles que me servem, e proponho aos filhos de meus irmãos aqui presentes que façam o mesmo. Aqueles que nos adoram deverão ser trazidos a Nippur, onde serão protegidos, ainda que o Conselho não tenha decidido por tal coisa. Assumo total responsabilidade por eventuais... problemas que seguirão a eventuais discordâncias de método.

Voltou-se para os presentes. Fitou Ya'rub e o Filho de Haqim sentiu, uma vez mais e por um breve momento, o toque do Estrangeiro em seu ombro.

- Quanto à tabuleta, Ya'rub Filho de Haqim, temo que seja nosso dever recuperá-la. E recuperá-la significa adentrar o território inimigo, invocando a proteção dos termos de nossos tratado e tentando dialogar em condições diplomáticas.

Sorriu. Se tornou absolutamente belo em uma fração de segundo. Os dentes eram alinhados, perfeitos, de uma brancura excepcional.

- Obviamente, se o inimigo não desejar trocar palavras, nos restará a linguagem das armas.
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Re: Zigurate do Estrangeiro

em Dom Maio 13, 2018 6:31 pm
*Ao passo que a expressão do Pai praticamente não muda durante a reunião, Enki esconde pouco. Todo o seu rosto parece tremer diante das novas informações. Tremia de raiva? Antecipação? Uma mistura dos dois? O fato é que ele começa a traçar seus planos assim que o Estrangeiro para de falar.*

-Daharius Sarosh fala com a clareza e decisão do príncipe que é. Tenho certeza de que suas palavras, junto com o endosso de nosso sábio Pai, serão o suficiente para convencer os governantes de Nippur, e a gentileza, enfim, conhecerá Mashkan-Shappir.

*Ele passa um dedo pela água na bacia à sua frente de forma distraída.*

-Eu mostraria a nós o que se passa na podridão de Mashkan-Shappir, mas meus primos foram infinitamente mais capazes e sábios. Sabemos o que eles querem, sabemos como devemos agir, e isso basta.

-A sacerdotisa... Eu me lembro dela agora... Sua família me é querida, e sua remoção dentre os nossos amados não foi um ato gentil de seus algozes... Para evitar que tamanha tragédia se repita, espalharei as notícias ao longo dos rios. Todos saberão, cedo ou tarde, que Nippur lhes abre suas portas, e que têm a proteção dos filhos da noite, conforme ordem de meu amado Pai.

*Ele olha brevemente para o Estrangeiro após dizer essa frase, mas logo desvia o olhar. O Pai sabia que ele lhe obedeceria, e isso bastava. Ao invés disso, as atenções de Enki se voltam para Ya'rub, e ele lhe dirige um sorriso fino, quase efêmero.*

-Estimado primo, se não for contra os desígnios de nenhum presente, eu lhe pediria a gentileza de permitir minha companhia. Não entrarei em Mashkan-Shappir, não como diplomata, mas poderia lhe acompanhar com júbilo por outras estradas. Os espíritos se reúnem e congregam à sua volta como mariposas diante de uma chama, e eles são gentis o bastante para me emprestar seus olhos e ouvidos. Meu querido primo, Ginete do Vento do Deserto e Hálito da Hiena, eu posso lhe acompanhar e lhe manter em segurança na Cidadela da Dor, ainda que para isso não precisa estar ao seu lado em corpo, caso me faça a gentileza de me permitir a tanto.
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Re: Zigurate do Estrangeiro

em Dom Maio 13, 2018 8:02 pm
* O Místico do Abismo ouviu as palavras de seu primo, Ya'hub, e elas vieram carregadas com as mais temíveis notícias.

Daharius Sarosh desaprovava a imersão na fé na qual os mortais eram atirados por conta da presença e ação de seus iguais e dos seus ancestrais. No entanto, seu receio quanto à prática era - até este momento - ideológico e empático aos que ainda vivem. Não considerava honroso fazê-los acreditarem, temerem, ajoelharem-se e viverem toda a sua breve vida devotados àqueles que carregam a maldição da vida eterna. Não. Eles mereciam mais. Os mortais eram verdadeiramente livres e assim deveriam viver. Caminhar sob o sol, banhar-se nas águas, ir até os limites do horizonte e não responder a nada ou ninguém além de seus próprios pensamentos.

Tal prática, contudo, mostrou-se mais nociva que o esperado. Os Deuses se tornaram frágeis e atingíveis através da crença que propagaram. O destino é implacável e, como diria o filho de Ilyas que para ele é como um irmão, inexorável.

Seus olhos negros voltaram-se para o Estrangeiro e o observaram por algum tempo. Era aquela criatura algo a se admirar e alguém com o qual poderia aprender. Mas não era - e nem poderia ser - aquele que teria a palavra final sobre suas ações, por mais nobre que fossem suas intenções.*


- Sou grato pela presteza em prosseguirmos com o necessário, Pai dos que habitam o zigurate. No entanto, em um momento conflituoso devemos evitar desavenças e complicações em nossa estrutura interna. Antes de qualquer ação em direção à Mashkan-Shappir os nossos Criadores deverão ser informados e a reunião deve ocorrer. Somente após ela, com o aval dos que lideram a Segunda Cidade, deveremos ir em busca de nossos objetivos maiores naquele local.

- Isto não impede, contudo, que medidas mais simples e efetivas sejam realizadas. Deêm-me apenas um momento.


* Daharius olhou por um breve momento a sua própria sombra e seus olhos imergiram nas trevas. Balbuciou algo incompreensível, pois não se tratava de uma língua terrena. Suas tatuagens dançantes se desprenderam de seu corpo e se uniram à sua própria sombra no chão. Dela, como se uma luz estivesse sob sua cabeça, quatro outras sombras se formaram ao seu redor e ergueram-se do chão.

As quatro possuem o exato contorno do corpo, cabelos e barba de Sarosh, embora não passem de um vulto escuro e translúcido.

Os olhos do verdadeiro Místico eram dois globos negros e seus cabelos esvoaçavam levemente, com as sombras de suas tatuagens lhe percorrendo o pescoço. As quatro sombras caminharam adentrando a partes escuras do Zigurate e viajaram através das trevas à seus destinos.

A primeira delas emergiu de uma sombra próxima ao trono negro de Laza Omri Baras, seu Pai, na torre do Criador de sua linhagem. A figura de trevas translúcida que era uma imagem distorcida de Sarosh emitiu uma voz rouca e baixa, que destinava a Laza tudo que foi conversado no Zigurate e o curso de ação sugerido. A sombra aguardou a resposta do Pai Sombrio para que pudesse retornar à Sarosh.

A segunda vagou pela escuridão e desprendeu-se às terras longínquas habitadas por seu irmão. Daharius sabia que se houvesse uma forma de atingir a sua família através da fé, esta seria em Khemet, por meio dos sacerdotes de seu Irmão Osíris que é cultuado como um Deus às margens do Nilo. A figura sombria de Sarosh levou a seu irmão as informações e sugeriu que seus sacerdotes fossem mantidos em um local seguro, visto a ameaça iminente da tábua que está em Mashkan-Shappir.

A terceira sombra adentrou a um espaço escuro do Zigurate e se fez presente em Ahriman, a cidade fortaleza dos Guerreiros Sombrios, sua força de carniçais treinados para o combate. Lá, buscou Urak Barzal, seu líder militar e lhe conferiu as ordens de prepararem os homens para escoltar os sacerdotes e sacerdotisas de todas as cidades menores ao redor de Nippur assim que Sarosh ordenar.

A quarta de suas manifestações sombrias desprendeu-se e vagou por Nippur em busca do carniçal que lidera a força militar de carniçais que pertence a seu irmão, Karotos, indicando que em breve serão trazidos mortais à Nippur e que sua passagem deve ser liberada somente após uma avaliação precisa que será feita pelo imortal Gallod.


Quando as sombras retornam com as devidas respostas e novamente sua sombra natural assume a posição adequada abaixo de seus pés, os olhos de Daharius Sarosh perdem a escuridão que lhes envolve e sua voz novamente ganha forma*


- As providencias cabíveis foram tomadas. Os sacerdotes terão a escolta de meus guerreiros até Nippur. Há, no entanto, uma medida cautelar a ser tomada.

* Olhou Gallod, por um instante, e prosseguiu*

- Creio que dentre nós o mais apto para a tarefa és tu, Gallod, Filho do Estrangeiro. O inimigo saberá da movimentação dos sacerdotes em breve e poderá aproveitar-se do número de mortais que adentrarão em nossos portões para que enviem espiões, também mortais, misturados àqueles que cultuam os supostos Deuses. Peço-lhe, então, que avalie pessoalmente todo aquele que adentrar pelos portões de Nippur com suas capacidades de percepção superiores.

- Observe sua natureza, somente mortais devem adentrar. Além disso, avalie profundamente seus pensamentos superficiais, seus sentimentos e tudo aquilo que parecer suspeito. Devemos estar precavidos.

* Uma vez mais, olhou o Estrangeiro. Em seu íntimo se sentia dialogando com o mar, que viu há tanto tempo, revolto e com imensas ondas que poderiam esmagá-lo em um só movimento mas, ao mesmo tempo, tinha plena consciência de sua responsabilidade como Segundo Filho de Laza e, na ausência de Karotos, o mais velho dos filhos do Pai Sombrio. Deveria ser estrategista e preciso, além de encorajar a ação no íntimo daqueles vampiros. Sabia também que ações fora do curso e sem a permissão de seus demais Tios os levariam a conflitos internos e isto deveria ser evitado - neste momento - a todo custo. Dirigiu-se ao Estrangeiro.*

- Peço-lhe então, Senhor, que convoques a reunião o quanto antes. Confio e sou grato por vossa sabedoria em agir velozmente.


Ritual :
Sarosh usou o ritual do Misticismo do Abismo - Presença Sombria. Através dele, sua sombra se divide em até o valor de sua Tenebrosidade e pode carregar informações e palavras de seu mestre. Elas podem usar somente Travessia para alcançarem seus destinos, após entregarem a mensagem elas retornam ao Místico para que ele tenha ciência das respostas ou daquilo que as suas sombras viram enquanto viajavam
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Re: Zigurate do Estrangeiro

em Ter Maio 15, 2018 5:48 am
O Estrangeiro continuou atento às palavras de Enki e de Daharius Sarosh. De alguma forma, parecia aos presentes que, apesar de sua força, idade e autoridade, o Estrangeiro havia optado por não tomar decisões, ou ao menos não impô-las, aos presentes, deixando que os mais jovens formulassem alternativas ao problema que tinham em mãos. Enki e Gallod sabiam muito bem que este era o modus operandi do Pai: permitir a experimentação de seus filhos e sobrinhos. O Estrangeiro acreditava piamente, e já havia expressado tal crença, que os cainitas mais jovens seriam os donos do mundo conhecido. Sua filosofia era frontalmente contrária àquela de Ventru: enquanto o este acreditava que espalhar o Sangue de Caim era um erro, um ato que deveria estar sob absoluto controle - ainda que sua Família fosse a mais numerosa de Nippur, como observava o Estrangeiro - o Pai de Enki defendia o contrário: o Sangue de Caim deveria se fortalecer, pois somente com inúmeras mentes pensantes e diversas percepções da realidade seria possível superar as maldições impostas por Aquele Acima e pelo próprio Caim.

No entanto, diante de algumas palavras de Enki, foi taxativo.

- Você não se aproximará de Mashkan-Shapir, filho meu, pois ainda não estás pronto.

Não aprofundou seu decreto. Os olhos escuros buscaram a compreensão e confiança de Enki, ignorando, por alguns segundos, os outros presentes. Depois, voltou-se para Sarosh, que havia terminado de explicar seu ponto de vista.

- Tu és, sem sombra de dúvida, filho do teu Pai, Daharius Sarosh.

Pronunciou a palavra "sombra" esboçando um leve sorriso. Não se podia dizer, contudo, que o Estrangeiro desconhecesse a natureza real da Escuridão que os Filhos de Laza comandavam. A relação entre ele e o Rei das Sombras era próxima e profícua, e ambos passavam muito tempo imerso em debates sobre a natureza da Prole de Caim.

Quando Sarosh executou seu ritual e sua aparência se tornou nitidamente mais tenebrosa, todos observaram com atenção e, alguns, com admiração. A primeira duplicata seguiu para o Trono de Laza. Sarosh, que dividia suas percepções com as sombras que comandava, percebeu de imediato que Laza não estava sozinho. Ao seu lado, com ambos parados diante de uma vasta janela que possibilitava a vista da planície, estava Haqim. Interromperam a conversa quando Sarosh se manifestou no local, e ambos ouviram atentamente as informações do cainita. Ao final, Laza foi breve e conciso na resposta.

- Proceda como tens planejado, filho meu. Não tenho nenhuma correção a fazer aos teus planos. Dentro de duas horas você e os que te acompanham no Zigurate devem seguir para o Trono Negro. A reunião já foi convocada.

A segunda duplicata, que se dirigiu até as terras de Khemet, alcançou seu destino mas não foi capaz de encontrar seu irmão Osíris. Os conselheiros do mesmo, homens de confiança e autoridade concedida pelo Rei do Nilo e liderados por um ancião de nome Radí, receberam as mensagens de Sarosh e, com uma mesura à sua duplicata, se comprometeram a informar o Soberano sobre o curso dos acontecimentos.

A terceira e quarta duplicadas cumpriram suas missões com excelência. Os servos de Sarosh na Fortaleza de Ahriman começaram a preparar-se de imediato para cumprir as ordens de seu senhor. Os servos de Karotos, cientes da ausência de seu mestre, não hesitaram em seguir as ordens de Sarosh. Karotos já havia informado, segundo um deles, que estariam, na sua ausência, sob autoridade de Daharius.

Gallod aquiesceu diante das palavras de Sarosh. Era sabido que aquele cainita era um dos maiores mestres da Percepção a residir em Nippur. Não levantou objeções.

Foi Khanon-Mer que interrompeu o fluxo dos acontecimentos.

- Irmão meu, peço tua autorização para me ausentar da reunião com nossos tios. Como sabes, meu lugar não é na mesa de planejamento. Se me permitires, acompanharei teus homens na nobre missão que lhes foi confiada, mantendo-me em contato estreito com Gallod.

Havia algo entre os dois. Não era possível disfarçar. Era difícil saber, porém, se se tratava de uma atração mútua, admiração ou respeito.

O Estrangeiro, que se manteve calado até então, se pronunciou.

- Meus homens acompanharão os teus, Daharius Sarosh.

Não era uma sugestão.

O Estrangeiro parecia conhecer o prazo estabelecido por Laza. Deixou claro que o Zigurate estava aberto à permanência daqueles que desejassem esperar ali pelo início da reunião. Não permaneceu no recinto, contudo. Cumprimentou os presentes e deixou a sala, rumando para as partes mais internas do Zigurate.
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Re: Zigurate do Estrangeiro

em Ter Maio 15, 2018 9:12 am
Amon ouvia tudo calado, como se aquela reunião já tivesse acontecido há anos, ele parecia estar imerso numa recordação profunda, alheio aos acontecimentos do presente. Sua mente vagava dentro de si, buscando, tentando encontrar Illyias, onde ele estaria. Onde não, na verdade, quando.

Ele reviveu aquele momento com seus irmãos, dezenas de vezes num átimo de tempo. Observou cuidadosamente a fala de cada um e suas expressões. Ele viu, mais de uma vez a chegada do estrangeiro e, para sua surpresa, sempre lhe parecia um pouco diferente, mesmo se tratando da mesma cena. Preferiu não questionar, até voltar para a presença de todos.


Perdoem-me o silêncio, estava tentando organizar os pensamentos e os conhecimentos aqui adquiridos em tão breve momento. Concordo com a urgência da situação meus primos, contudo, temo que esta comoção coletiva de nossa parte seja o gatilho para o que os habitantes de Mashkan-Shapir planejam. Desculpe, gatilho não é uma palavra deste tempo, digo que eles podem querer este momento de comoção para fazer i que desejam de forma propícia. Amon caminha pelo zigurate, visivelmente inquieto.

De qualquer forma, teremos que agir. Na verdade, não entendo o porquê nossos pais permitiram que tal cidade, esta chaga para todas as outras, ainda está de pé, considerando o poder que têm. Sigamos então para vê-los, não adianta ficarmos especulando, já que toda decisão tomada a partir de agora é responsabilidade deles.

Não me interpretem mal. O meu desejo era de resolver toda esta situação ao vosso lado, agora, no entanto, não podemos passar pela autoridade de nossos genitores.


Vou ao vosso encontro em breve, preciso passar no templo e orientar Belit Sheri, os mortais que vivem nas proximidades do templo de Illyias, precisam ser protegidos.

Sem falar mais nada, Amon segue os corredores do zigurate em silêncio, observando os novos símbolos em suas paredes e pensando na natureza do estrangeiro.

Enviado pelo Topic'it
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Re: Zigurate do Estrangeiro

em Ter Maio 15, 2018 12:43 pm
*O Pai fala e é o papel do filho obedecer. O rosto de Enki dá uma leve tremeluzida, mas ele inclina a cabeça em deferência. Era uma gentileza sem tamanho por parte do Pai evitar que seu filho pisasse novamente em Mashkan-Shappir, local de tanta dor.*

-Não porei um pé na Cidadela da Dor, amado Pai. Ao menos, não como diplomata. Mas ainda assim há maneiras como posso apoiar meu devotado primo do conforto e segurança de minhas águas. Posso ver, ouvir e sentir como se andasse ao seu lado e, caso aqueles da Cidadela não sejam gentis a ponto de honrar sua hospitalidade, há maneiras de não deixar meu primo desamparado, e fazer com que ele volte aos nossos braços amorosos. Se for do agrado e vontade de meu digno Pai, gostaria de lhe pedir a gentileza da autorização para desta forma ajudar Ya'Rub, Mensageiro de Todos Aqueles Além da Vista.

*Enki fecha os olhos por um momento. Ele faz o sangue fluir pelo seu corpo, assim como os rios fluem por meio de toda a Mesopotâmia, e ao mesmo tempo todos os espíritos dos rios e da terra falam com ele. Ele é uno com a terra, e a terra com ele.*

*Usando sua consciência expandida, Enki projeta uma imagem de si mesmo em cada fonte de água, seja em rio, casa, poço ou templo, onde possa identificar um sacerdote dos deuses da Segunda Cidade. E todos eles, assim como as pessoas ao redor o vêem e escutam a mesma mensagem.*


-Os deuses e governantes de Nippur, em sua infinita sabedoria, pedem a todos aqueles que fazem a gentileza de pertencerem ao seu clero e sacerdócio se dirigirem à Cidade Sagrada, aonde, por sua vez receberão a hospitalidade, proteção e gentileza de seus amados patronos. Este é um ato de amor e carinho, e deve ser interpretado como tal, sendo que aqueles que, por lastimável descuido, falharem em obedecer, estarão infelizmente distantes dos braços fortes e protetores daqueles que querem o bem de todos nós. Enki, senhor do Abzu, pede-lhes a gentileza de espalhar esta notícia, para todos aqueles homens santos que ainda não a conhecem.

*Todas as imagens se dissolvem na água, e Enki abre os olhos novamente, um sorriso fino no rosto.*

-Neste momento, todo sacerdote até a linha do horizonte foi alertado para onde deve seguir. Imagino que isto, junto com as providências de nossos primos da Noite e dos Eruditos deve bastar para proteger nosso rebanho.

*Quando o Mais Velho deixa o recinto, independente de sua resposta ao pedido de Enki, este o saúda com uma reverência do mais profundo amor filial e respeito.*
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Re: Zigurate do Estrangeiro

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