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Tuneis de Haqim

em Seg Maio 07, 2018 5:06 am
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Re: Tuneis de Haqim

em Seg Maio 07, 2018 2:50 pm
Ya'rub sabia que a chuva chegaria. Os ventos que sopravam no deserto lhe contaram. As estrelas também sussurraram que, mais cedo do que tarde, a chuva iria cair em Nippur. O povo se desesperava com a possibilidade de enfrentar a seca e passar sede, mas ele sabia que a virtude da paciência deveria ser exercida em momentos de desespero. A natureza tinha seu modo de fazer as coisas e a nós só caberia compreendê-la e respeitar sua vontade.

Suas narinas foram invadidas pelo cheiro da chuva e seu corpo franzino sentiu a umidade que entrava pela caverna. Pensou por alguns instantes que talvez devesse ir lá fora contemplá-la, mas havia muito a ser feito ali embaixo. Preparava as tintas para começar a desenhar símbolos em seu corpo quando ouviu os passos de Mancheaka se aproximando. Continuou moendo os minerais para preparar o kohl que passaria nos olhos.

Quando seu irmão chegou no ambiente onde estava, não o olhou de imediato. Pintava o entorno dos olhos com a tinta preta que acabara de fazer. Após acabar, sentiu o cheiro do vitae fresco e olhou Mancheaka. Sorriu para ele e ficou em silêncio, fitando-o por alguns segundos.

- Fazia tempo que não vinha nos visitar, irmão.

Gentilmente, recebeu o beijo de Mancheaka e pegou o copo que trazia. Sorveu o sangue devagar, apreciando seu sabor e tentando identificar as nuances. O sabor dos grãos armazenados estava presente no líquido vermelho. Com pouca chuva, só restava aos mortais se alimentar das colheitas armazenadas.

Depois de beber, levantou devagar. Cobriu-se com os tecidos negros que usava desde os tempos de andanças pelo deserto. Sorri novamente.

- Se o Pai chama, os filhos obedecem.
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Re: Tuneis de Haqim

em Ter Maio 08, 2018 6:26 am
Os túneis levaram Mancheaka e Ya'rub ao coração dos túneis escavados na rocha. Mortais transitavam pelo lugar, as mãos carregando tabuletas de origens variadas, que deveriam ser traduzidas para todos os idiomas importantes da região. O amor do Pai pelo conhecimento era notório e, ao contrário da maior parte dos seus irmãos, Haqim sabia que preservar o que havia produzido era uma tarefa de máxima importância. Os homens saudavam os dois cainitas enquanto estes passavam, mas o faziam como se fossem seus iguais. Era expressamente proibido pelo Pai que seus filhos se fizessem adorar como Deuses. Eram Pastores e Guardiões, irmãos da humanidade afastados pela maldição de um Deus Vingativo e, portanto, jamais deveriam igualar-se a Ele.

Avançaram pelos túneis, que se tornavam mais estreitos à medida em que procediam. A passagem deu origem a um leve declive que terminava diante de duas portas de pedra que repousavam abertas. Diante deles, no centro da sala, mesas de pedra colocadas juntas faziam uma mesa maior, onde tabuletas estavam depositadas. Ya'rub viu o Pai, de pé, diante de uma dessas mesas. Seus olhos amarelos observavam com atenção as tabuletas e seu rosto tinha uma expressão de estudo e concentração.

Que maravilha era estar em presença do Pai.

Era alto. O corpo era musculoso e coberto de cicatrizes, que o Pai dizia serem suas memórias. Os braços eram fortes, apoiados sobre a mesa, e as pernas eram aquelas de um caçador que corria mais rápido que o vento. A cabeça era rapada, com o couro cabeludo coberto de tatuagens e pinturas místicas, que desciam pelo pescoço, ombros e braços, alcançando as mãos poderosas, com dedos grossos e unhas escuras. O torso era também musculoso, sem sinais de preguiça. Sua face era coberta por uma barba espessa e escura, que lhe dava um ar de sobriedade e sabedoria. Levantou os olhos para olhar para seus filhos. Era o olhar de um grande felino, de uma grande fera primordial, olhos que haviam visto o tempo destruir e reconstruir.

Sua voz, retumbante porém gentil, ecoou nas paredes. O Pai, que estava debruçado, se ergueu. Ereto alcançava quase dois metros de altura. Ya'rub sentiu o cheiro de deserto invadir suas narinas, assim como um ar quente que preencheu toda a sala quando o Pai falou. Atrás dele, encostada na parede, repousava a Grande Lança de Obsidiana, arma pessoal de Haqim.

- Mancheaka e Ya'rub, filhos meus e Sangue do meu Sangue. Meu coração é feliz em vê-los mas eu, infelizmente, não trago boas notícias. Mas, antes de tudo, sentem-se e bebam comigo. Quero ouvi-los. Existe algo que eu tenha feito nos últimos meses, por ação ou omissão, que os incomoda? Existe algo que eu possa fazer por vocês? Existe algo que desejam?
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Re: Tuneis de Haqim

em Ter Maio 08, 2018 10:42 am
Ya’rub caminhava pelos corredores atento, ao lado de seu irmão. Seus olhos percorriam os detalhes na paredes, a precisão da arquitetura e o vai e vem dos mortais que transitavam ali. Os túneis eram cheios. Não só com a presença dos vivos, mas também dos mortos que não tinham corpos. O feiticeiro não os via, mas sabia que estavam ali. Sentia sua presença. Nappir era habitada por mais pessoas do que os olhos podiam enxergar.

Quando se deparou com Haqim, abriu um sorriso. Não era sempre que o via. Quando isso acontecia, tinha à sua frente a encarnação do que sua família representava. Lealdade e senso de dever, pautados por uma imensa humildade. Haqim e seus filhos deveriam saber seu lugar dentro do grande esquema que reune todas as coisas do universo. Qualquer espécie de orgulho era um sintoma de não perda da noção do lugar que deve-se ocupar.

Ya’rub sentou-se diante do Ancestral, tal como instruído. As perguntas de Haqim só fizeram aumentar seu sorriso. Olhou de relance para Mancheaka, esperando o irmão mais velho tomar a palavra, mas frente ao silêncio deste, disse:

- Haqim, meu Mestre, meu único desejo para contigo é aquele despertado pela saudade. Sinto falta de nossos momentos de estudo e debate, quando sentávamos sob as estrelas para decifrar o que elas querem nos dizer. Mas não se sinta em omissão. Criastes seus filhos para que não estejas sozinho no cumprimento do seu dever. Se estás ausente, tenho certo que é para cumprir com sua missão.

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Re: Tuneis de Haqim

em Ter Maio 08, 2018 10:57 am
Haqim aproximou-se de seus filhos. Por um segundo se manteve em silêncio, olhando para Mancheaka e Ya'rub, com os olhos de um pai carinhoso, porém severo. Seu corpo parecia se mover por fora das leis do mundo. Ya'rub não o viu se mover mas, em um instante seu Pai estava de pé diante dos dois, com seus grandes olhos amarelos fitando intensamente ambos.

- Não há nada que tenhas feito que nos decepcionará, Pai. Tua presença é sentida mesmo na ausência, pois nos educou para que nos tornássemos tudo aquilo que somos.

Era a resposta de Mancheaka. Ya'rub sabia que seu irmão tinha uma profunda devoção pelo Pai, devoção não sempre aceita ou encorajada por Ele.

- Minhas andanças me levaram aos cantos do mundo, onde vi coisas que julgava que não existissem. O conhecimento que acumulei, e que será partilhado com vocês, nos servirá para combater o inimigo de forma mais efetiva. No entanto, este não é o assunto pelo qual os convoquei. Como eu disse, trago notícias ruins. Rashadii, vosso irmão, foi covardemente atacado enquanto retornava a Nippur. Não se preocupem, ele está bem. Mas algo foi roubado. Uma tabuleta que Rashadii portava até nós para estudo, originária do Vale do Indo.

Ya'rub notou que Haqim parecia preocupado. O Pai dava muitos poucos sinais de seus próprios sentimentos, ainda que fosse um homem de emoções genuínas. Quando estava preocupado, Ya'rub já notara, apertava os punhos com força. Era exatamente o que fazia naquele momento.

- Tal tabuleta é parte integrante de um ritual de Sangue. Não a estudei e, portanto, meus conhecimentos sobre ela são limitados. O que sabemos, graças à incompleta tradução de Rashadii, é que ela possibilita um controle hierárquico. Explico. É potente ao ponto de fazer com que um ritual executado sobre mim, ou sobre meus irmãos, tenha efeito em qualquer um que compartilha de meu Sangue ou do deles.

Haqim se apoiou à mesa. Havia estado próximo de Ya'rub e Mancheaka? O cainita não tinha certeza.

- E é este objeto que, presumivelmente, repousa agora em mãos de nossos inimigos.
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Re: Tuneis de Haqim

em Ter Maio 08, 2018 5:10 pm
A devoção de Mancheaka para com Haqim incomodava Ya'rub. Amava seu irmão, mas achava irritante o modo incondicional com que idolatrava o Pai. Não era assim que Ele queria que fosse e não era assim que as coisas deveriam funcionar no grande esquema universal. Já havia argumentado com carinho junto ao irmão, mas este não o ouvia.

Haqim não era um deus, assim como não eram seus tios. Todos eles foram mortais cujo espírito estava agora preso em seus corpos sem vida. Era assim por alguma razão, por algum motivo.

Ya'rub começava a se perder em seus próprios pensamentos quando ouviu a notícia contada por Haqim. Imediatamente percebeu a tensão de seu Pai e entendeu a gravidade da situação. Seus braços magros também ficaram tensos. Perder qualquer artefato de valor mágico para os inimigos representava um imenso risco. Um artefato que permitiria amaldiçoar toda uma linhagem de sangue pode gerar uma catástrofe. Conhecia bem seus inimigos para imaginar os piores usos possíveis para o objeto perdido.

O feiticeiro também se apoiou na mesa, para chegar perto de seu Pai. A face pintada como a de uma hiena tinha um semblante sério.

- Mestre, se me permitir conversar com nosso irmão Rashadii, serei capaz de localizar a tabuleta perdida.
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Re: Tuneis de Haqim

em Qua Maio 09, 2018 6:25 am
As punhos de Haqim permaneciam cerrados quando ele ouviu a requisição de seu filho. O Pai se avolumava em fúria contida. Seu corpo ou face não expressavam o que sentia, mas Ya'rub percebia, em ondas que o atingiam como o mar que havia visto somente uma vez, quando viajou pelo mundo, ainda jovem, com o Pai, a fúria de seu Progenitor. Haqim não era dado a surtos de violência, característica de alguns dos seus tios, em especial, segundo contavam os mais velhos, daquele cujo nome havia sido proibido de ser mencionado, aquele que, deformado pela última maldição de Caim, havia enlouquecido e causado uma violência sem precedentes, a ponto de ser expulso de Nippur. Ya'rub sabia seu nome, mas não ousava dizê-lo em voz alta.

Haqim aquiesceu ao pedido de seu filho, solicitando que Ya'rub e Mancheaka o seguissem. Tornaram as partes mais superficiais dos túneis e os mortais saudavam Haqim quando este passava a frente de seus filhos. Não havia adoração ou submissão nos olhos dos homens, mas confiança e admiração. Haqim parecia preferir desta forma.

Passaram pelo corredores estreitos, superando os recintos privados de Ya'rub e de Mancheaka, para alcançar aquele de Rashadii. Entraram. O local era belo e bem decorado: móveis simples de pedra e madeira adornavam o ambiente. Não haviam janelas. O teto havia sido pintado para representar o céu noturno, e Ya'rub já tinha presenciado, mais de uma vez, os pontos que representavam as estrelas movendo-se como se fossem vivos. O conhecimento de Rashadii sobre os astros e seus movimentos eram incomparáveis. Num dos cantos da sala, seu irmão estava sentado.

A primeira coisa notada por Ya'rub foi a perna esquerda, enegrecida e ressecada, como se tivesse sido queimada. O Filho sabia que o Inimigo comandava o elemento que mais causava terror à Prole de Caim, o Fogo. Seu irmão parecia ter sido vítima disso. O braço esquerdo também apresentava sinais de graves queimaduras, porém estas apresentavam sinais de cicatrização. Rashadii parecia debilitado, o rosto a fitar o chão, erguendo-se somente quando sua Família adentrou o recinto.

Levantou-se com dificuldade, apoiando-se na poltrona de pedra. Beijou o rosto de seu Pai e, em seguida, fez o mesmo com seus irmãos. Depois, pôs-se a falar.

- O Inimigo era forte, irmãos meus, suas mãos comandavam o Fogo do Submundo. Me envergonho pela minha derrota, e mais ainda por permitir que tal artefato caísse em mãos inadequadas. O Pai, em sua infinita benevolência, se recusa a julgar-me por minha falha, mas eu imporei a mim mesmo castigo adequado.

Ya'rub percebeu que Haqim não expressou concordância ou descontentamento com a decisão de Rashadii. Há muito havia ensinado aos seus Filhos que eles deveriam ser capaz de avaliar suas ações e decidir os ônus e bônus que seguiriam a estas.

- A tabuleta que me fez viajar até o Indo, domínio de nosso parente Zapathasura, continha instruções que concedem a alguns feitiços a capacidade de conectar-se, de maneira simpática, aos membros de uma família, seja ela mortal ou imortal. O vínculo, segundo minha parca leitura, é a fé. A adoração. É possível atingir um Deus se o coração daqueles que o adoram for pervertido e torcido em Sangue e Vontade. Acredito que a situação é grave, irmãos meus. Coloca em risco, segundo meus pensamentos, não somente a nós, mas também os mortais que cultuam a Prole de Caim.
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Re: Tuneis de Haqim

em Qua Maio 09, 2018 10:26 am
Ao ver a condição de seu irmão, Ya'rub se compadece. Ele mesmo já fora vítima do fogo da danação que era invocado por seus inimigos. Ya'rub conhecia alguns dos espíritos para os quais os inimigos suplicavam. Ter sobrevivido ao ataque já era um grande feito para alguém averso a conflitos, tal como Rashadii.

Ya'rub abraça Rashadii e recebe seu beijo no rosto. Ajuda o irmão a sentar-se novamente, para que não fizesse mais esforços que atrapalhassem sua recuperação.

- É bom que estejas aqui de volta e salvo, meu irmão.

Escutando o poder que existia na tabuleta perdida, Ya'rub se dá conta que a situação é ainda pior do que seu Pai lhes contou. Não havia tempo a perder. Precisavam agir. Ya'rub olha para seu pai e Mancheaka, como que pedindo aprovação. Ajoelha-se ao lado de Rashadii e fala baixo:

- Nós iremos reparar o ocorrido, irmão. Preciso que me descreva, em detalhes, como é o artefato perdido.

Ya'rub fecha os olhos enquanto escuta Rashadii. Conforme ele descreve a tabuleta, o feiticeiro balança a cabeça afirmativamente, formando uma imagem mental do objeto. Seria mais difícil de localizá-lo sem nunca tê-lo visto, mas tentaria. Não havia outra opção.

Ao terminar de ouvir a descrição dado por seu irmão, Ya'rub se levanta. Em silêncio, esforçando-se para não tirar a imagem da tabuleta de sua mente, ele vai ao centro do cômodo. Afasta os objetos que estavam em seu caminho e senta no chão. De sua roupa, tira um cachimbo e uma pequena bolsa de couro. Abrindo-a, retira um punhado de ervas prensadas. Kalif. Ele mesmo cultivava e preparava o haxixe mas, ao contrário do cultivo praticado pelos mortais, aprendeu com os espíritos que deveria molhar as raízes com seu próprio sangue amaldiçoado.

Ya'rub deposita o kalif no cachimbo. Para não fazer muito esforço e desconcentrar-se, olha para seu irmão Mancheaka e aponta para uma das chamas que iluminavam o cômodo. Precisava de um pouco de fogo e esperava que o irmão não teria muitos problemas em conseguir ao menos uma brasa, sem despertar sua Besta.

De cachimbo aceso, Ya'rub começa a fumar o kalif. Com os olhos fechados, recita cânticos em voz baixa. O sabor da erva misturada ao seu sangue, o som do mantra e a fumaça que se espalha no ambiente o colocam em transe. O feiticeiro começa a se balançar, sentado, para frente e para traz, em um movimento lento e cadenciado. Com a imagem da tabuleta fixa em sua mente, chama os espíritos que habitam o céu.

Quando começam a se fazer presentes, Ya'rub impõe sua vontade.

Fiz o que me pediram. Agora cedam-me seus olhos.

Em meio ao transe, Ya'rub se prepara para ser carregado pelos espíritos convocados pelo Ritual de Ver pelos Olhos do Céu. Esperava que lhe mostrassem onde estava a tabuleta. Com precisão. Em qualquer lugar do universo.

Quando se comunicava com os espíritos, Ya'rub sabia que todos os lugares eram um só.

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Re: Tuneis de Haqim

em Qui Maio 10, 2018 6:05 am
Rashadii tornou a se sentar, ainda com dificuldade. A perna era um toco escuro, mais fina do que aquela que havia permanecido a salvo. Ya'rub percebeu que seu irmão Mancheaka observava o Pai, em seus olhos uma fúria mal contida, dirigida contra aqueles que haviam machucado seu amado irmão. Parecia buscar em Haqim aprovação para reagir adequadamente, algo que não faria sem a expressa anuência de seu Ancestral. Haqim, contudo, mantinha-se impassível. Ya'rub conhecia seu Pai. Sabia que Haqim explorava todos os cenários, todos os detalhes e possibilidades antes de tomar qualquer decisão. Era, afinal, um Juiz.

Rashadii começou a descrever a tabuleta enquanto Haqim se posicionou atrás dele, com a mão direita sobre o seu ombro.

- É uma tabuleta simples, irmão, produzida a partir de um tronco de bodhi. Continha inscrições em sânscrito, feitas com a ajuda de madeira em brasa. É pesada, mas não tanto. As inscrições perfazem um total de vinte e três linhas, das quais somente quatro consegui traduzir. As laterais são obscurecidas pelo manuseio contínuo ao longo dos séculos.

Rashadii parecia esforçar-se para lembrar-se dos detalhes. Ya'rub afasta os móveis e se senta no chão para preparar o fumo, sob o olhar atento de seu Pai. Haqim permanecia próximo a Rashadii, mas seu olhar se concentrava em um ponto da sala, em uma parede aparentemente sem maior importância. Mancheaka obedeceu o pedido de Ya'rub sem hesitar ou titubear: encaminhou-se até o fogo e tomou nas mãos um pedaço de brasa, segurando-o pela parte menos incandescente. Ya'rub notou que seu irmão parecia controlar muito bem seus instintos, ainda que tenha caminhado rápido em sua direção, entregando-lhe o pedaço de carvão.

Um trago. Balançou-se para frente e para trás, em um ritmo contínuo e cadenciado. Os olhos estavam fechados e Ya'rub sentia frio. Sabia que se aproximava do Mundo Além do Véu, onde tinha pouquíssimo poder, se comparado aos espíritos que ali viviam, mas onde, felizmente, reinava a barganha. E Ya'rub era bom em barganhar com os espíritos, havia aprendido nas noites frias que havia passado no deserto.

Abriu os olhos. Os abriu somente após ter ouvido a risada. Era escarnecedora e irônica. Notou que estava em meio a um clareira na floresta, ainda sentado no chão. O cachimbo ainda repousava em sua mão, a fumaça se dirigindo ao céu mais lentamente do que o normal.

Tudo era cinza. Os troncos, o chão, a grama. Mesmo as folhas das árvores eram desprovidas de cor. O solo era estranho, e Ya'rub julgou ter visto alguns pedaços de ossos humanos. O céu não era como ele se lembrava, não existiam nuvens. Aliás, sequer existia céu. Era apenas uma grande vastidão sem cor, sem estrelas, sem nada. Abaixou os olhos para ver, diante de si, o Ghül.

Estava sentado bem diante de Ya'rub. Suas mãos magras seguravam também um cachimbo. Todo aquele ser era magro, com o corpo envolto em tecidos também acinzentados. Não tinha cabelos, a face sulcada por infinitas linhas de expressão. Os olhos eram fundos, escuros, uniformes. Tragava o cachimbo e ria, observando Ya'rub. Quando abria a boca, era possível entrever os dentes, serrilhados em formas de presas. Nas pontas das unhas haviam pequenos pedaços de metal, com os quais o Ghül coçou a cabeça em certo momento, emitindo um som desagradável. O ato fez com que seu couro cabeludo sangrasse ligeiramente, mas ele parecia não se importar.




Ya'rub se lembrou das promessas do Ghül, de que torturaria sua alma. Instantaneamente, a criatura falou, uma voz seca, como a voz de um túmulo.

- Ainda estão de pé, as promessas. Mas hoje, e somente hoje, o levarei onde desejas ir. Recorda-te, porém, que Ele não estará presente para proteger-te pelo resto da eternidade.

Ao que Ya'rub ouviu, no vento que passou a soprar entre as árvores carregando o deserto até a floresta, a voz de seu Pai.

- Estás enganado, Ghül.

A criatura se encolheu, exibindo uma careta de ódio e desprezo. O vento deixou de soprar, mas ela continuou encolhida por alguns segundos, antes de se recompor e praguejar contra o céu na língua dos mortos. Levantou-se e caminhou decididamente em direção à Ya'rub, como uma criança mimada que é obrigada a realizar uma tarefa pelo pai. Tomou o Filho de Haqim pela mão e saltou alto, tão alto que tocaram os céus por um segundo. Depois, estavam flutuando sobre Mashkan-Shapir, a Fortaleza da Dor.

Ya'rub sentiu de imediato o fedor. Carne putrefata, excrementos, toda sorte de odor nauseabundo já produzido pela natureza podia ser sentido ali. Grandes nuvens de fumaça escura se elevavam da cidade, poluindo os céus que naquela região eram perenemente escurecidos. O local, do alto, parecia um labirinto, ruas estreitas e enlameadas, muros escuros e opressivos e sangue corria em grandes quantidades. No centro do local, um zigurate negro, ainda em fase de construção, observava em silêncio toda Mashkan. Ya'rub viu escravos carregando com dificuldade imensos blocos de pedra enquanto entoavam cânticos religiosos. Eram magros e fisicamente destruídos, mas pareciam dispor de uma grande força de espírito.

A visão de Ya'rub o carregou até um zigurate menor, ao lado daquele que estava em construção. Era menos imponente e mais ameaçador, e suas entranhas vomitavam miasmas de sofrimento. Dali, não avançou. Não importa o quanto se concentrasse, não conseguia ir além daquela distância. Então veio, a náusea. Ya'rub sentia que estava sendo observado. O Ghül tomou sua mão novamente e o tirou dali. Estavam de volta à clareira na floresta. O Ghül encarava Ya'rub com seus olhos em brasa, iluminados pelo cachimbo.

- Deveria permitir que soubessem quem tu és, que te estripassem e entregassem seu corpo aos corvos sedentos. Mas não. Você é meu.

Estava de volta ao salão. Mancheaka não estava mais na sala. Rashadii continuava sentado em sua poltrona e Haqim estava diante de Ya'rub, observando-o em silêncio.


Última edição por Regista em Qui Maio 10, 2018 12:44 pm, editado 1 vez(es)
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Re: Tuneis de Haqim

em Qui Maio 10, 2018 9:30 am
A visão de Ya’rub estava um pouco embaçada quando abriu os olhos no cômodo de Rashadii. Estava de volta. Deu uma risada lenta e em voz baixa, ainda sentindo a presença do ghül por perto.

- Hoje não, maldito. Hoje não. Talvez amanhã, ou outra noite. Temos a eternidade para nos conhecermos melhor.

Ya’rub temia o ghül que o assombrava, é verdade. Mas igualmente o respeitava. No fundo, esperava ser um sentimento mútuo.

Sentado no chão, assumiu uma postura ereta e séria. Olhou para Haqim. Pela primeira vez naquela noite, seu olhar deixou óbvio o respeito e admiração por seu Pai. Ele não era apenas um guerreiro e caçador. Haqim era muito mais do que isso. Não só era o MELHOR guerreiro e caçador que já existiu, mas era um grande sábio, erudito e feiticeiro. Cada um dos seus filhos admirava o Pai de em todas as suas formas, mas tinha apreço por uma em específico. Para Ya’rub, a admiração ficava evidentemente em momentos como o que acabara de vivenciar, ao escutar a voz do Pai no Mundo dos Espíritos, colocando o ghül em seu devido lugar.

Ya’rub se levantou devagar. Um pouco tonto, guardou o cachimbo já apagado em uma dobra das suas vestes negras. Em silêncio, ele caminha até Haqim e o abraça.

- És o maior entre todos que carregam a Maldição, Mestre.

Voltando ao silêncio, Ya’rub encara o chão por segundos até dizer, em tom amargurado:

- Não temos nenhuma surpresa. A tabuleta foi levada a Mashkan-Shapir.

[b]A amargura e a raiva estavam evidentes na voz do feiticeiro. Odiava os infernalistas do fundo da sua alma. Eles eram uma chaga aberta na face da terra. Sua existência era uma afronta a tudo o que existia. O modo como se aliavam aos espíritos era uma piada de mal gosto, um desrespeito à ordem universal das coisas.


Para Ya’rub, respeito e admiração à cada coisa existente era o único modo correto de se relacionar com o universo. Cada pessoa, espírito, animal, planta ou o que quer que seja tinha seu lugar e seu papel. Por isso, as relações deveriam ser horizontais. Todos deveriam reconhecer a importância de todos.

Não era assim que agiam os habitantes de Mashkan-Shapir e Assur. O medo subsitituia o respeito e devoção irracional substituia a admiração no modo como se relacionavam com os espíritos. Enquanto Ya’rub barganhava, os infernalistas suplicavam. Era uma perversão da ordem universal. E ainda assim, tinham muito poder...

- Os infernalistas erigiram alguma proteção espiritual que me impediu de chegar mais perto. Eles teriam conseguido me identificar não fosse a ajuda de meu... aliado. Sei apenas que ela está em um dos zigurates.

Ya’rub olha para Haqim.

- Haqim, meu Mestre e Pai, sei dos acordos que nos impedem de atacá-los, mas a situação pede que façamos algo. E o façamos rápido.
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Re: Tuneis de Haqim

em Qui Maio 10, 2018 10:35 am
Haqim recebeu o abraço, retribuindo o carinho de seu filho. Era dado a demonstrações de afeto, embora esses momentos fossem cada vez mais raros. Não obstante, acolheu Ya'rub em seus braços, tranquilizando sua cria. Respondeu em seguida, sua voz desértica ecoando no salão. Rashadii parecia concentrado em escrever algo numa pequena tabuleta de argila, suas mãos se movendo com esmero e os olhos atentos como os de uma águia.

- O Pai só é grande aos olhos de seus filhos, pois estes são cheios de amor. Os Filhos é que são, no fim das contas, as maiores realizações de cada Pai.

Afastou-se de Ya'rub e caminhou pela sala. Sua linguagem corporal era mais tranquila. Aproximou-se de Rashadii e observou o que este escrevia. Fez uma breve careta com a face e apontou para algo na tabuleta. Rashadii empertigou-se, aparentemente Haqim havia apontado um erro. O Astrônomo se pôs a corrigir a escritura, sem que seu Pai tivesse dito uma palavra sequer.

- Ousado como sempre, o teu aliado, Ya'rub. Um ser fascinante. Quando a situação for mais calma, olharemos as estrelas juntos mais uma vez, e discutiremos sua natureza.

Sentou-se. Era grande, mal cabendo na poltrona.

- As proteções espirituais de nossos inimigos são normalmente muito elaboradas. Precisaremos nos esforçar para rompê-las, tanto a nível de visão espiritual quanto... física. O dia em que nossas forças atacarem Mashkan-Shapir exigirá tal tipo de preparação. Pois concordo contigo, filho meu, nossa trégua é velha e não responde mais ao que deve ser feito. O inimigo a desrespeita constantemente e nós nos tornamos débeis e coniventes com tais agressões.

Girou-se para Rashadii.

- Filho meu, por favor. Termine o que está fazendo e concentre-se sobre tal aspecto.

Parecia pensar. Haqim fez a face característica de alguém que precisava fazer algo que não tinha vontade.

- Seguirei para parlamentar com meus irmãos. Inicialmente Saulot e Sutekh, meus aliados mais próximos a nível ideológico e militar. Certamente concordarão que medidas precisam ser tomadas. Depois, seguirei até Ventru, que precisará responder a estas agressões, sob pena de ver sua autoridade reduzida.

Aproximou-se de Ya'rub.

- Mancheaka se ausentou para realizar uma patrulha preventiva nas regiões vizinhas. Estará fora por duas ou três noites. Na sua ausência, tu és a voz de minha Casa diante dos seus primos. .

Um vento. Sutil. Envolveu a todos. Haqim parou de falar e admirou o céu por uma das janelas. Rashadii deixou de escrever por alguns segundos, retornando em seguida com um meio sorriso. Ya'rub sentiu os pelos eriçarem, uma sensação estranha. Era como se o mundo tivesse se tornado menos rígido. Como se, naquele momento, absolutamente tudo fosse possível com um pouco de esforço e criatividade. Haqim sorria. Ya'rub viu que seus lábios se mexiam, embora nenhuma palavra fosse audível. Depois, ainda sorrindo, voltou-se para Ya'rub.

- Munido desta autoridade tu deverás seguir para o Zigurate, onde teus primos se reúnem com preocupações semelhantes às nossas. Enquanto eu estiver fora, pois deverei caminhar bastante para encontrar Sutekh, tu estarás sob a autoridade e sabedoria do Grande Dragão, pois ele acaba de retornar das suas andanças e deverá ser informado sobre o desenrolar dos acontecimentos. Tenho certeza de que seus primos elaboram estratégias, orientados pela mesma revolta que faz moradia em nossas almas.

Ya'rub não pode deixar de se surpreender. Se o mundo parecia mais maleável era somente graças ao retorno do Estrangeiro a Nippur.
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Re: Tuneis de Haqim

em Qui Maio 10, 2018 12:08 pm
Ya´rub abaixou a cabeça, aquiescendo ao pedido de seu Pai. Não se sentia muito confortável na posição de liderança de sua Família, mas era preciso. Já fora uma espécie de líder no passado, mas agora seus irmãos não eram meros salteadores do deserto. Eram homens nobres e complexos. Ele sabia barganhar com espíritos, mas compreender seus irmãos era algo distinto.

Estar com seus primos distantes e tios, então, era algo ainda mais estranho para Ya'rub. No entanto, preparava-se para se retirar imediatamente, rumo ao Zigurate parlamentar com alguns deles. De acordo com as palavras de seu Pai, algo estava acontecendo além das fronteiras de Nippur. Algo que seus parentes já haviam percebido. Teria que dar a eles a má notícia a respeito da tabuleta perdida. Se é que já não o sabiam.

Beijou a cabeça de seu irmão Rashadii.

- Até breve, irmão meu. Que os bons espíritos ajudem em sua recuperação.

Despede-se, também com um beijo na testa, de seu amado e preocupado Pai.

- Que bons ventos o levem e o tragam de volta, Pai. As estrelas aguardam nossos olhares.

Sorriu para os dois e saiu em retirada. Envolto em seus tecidos negros como a noite, cobrindo-o até o rosto e deixando apenas os olhos de fora, Ya'rub caminha rapidamente pelas ruas molhadas de Nippur. Ele faz a maior parte do caminho dentro dos túneis, saindo a céu aberto apenas quando se aproximava do Zigurate.

Observou a grande construção se desenhando no horizonte, sob a luz da Lua. Quão estranho era o estrangeiro. Ninguém sabe para onde ia, nem de onde vinha. Sabiam, contudo, que era comum voltar de suas viagens com um novo filho. Cada um deles era completamente diferente do outro. Essa era a única constância que se podia estabelecer sobre o Grande Dragão: a mudança.

Ya'rub sobe as escadarias da construção. Posiciona-se na entrada do recinto, mas não cruza a porta. Fica ali, escutando as vozes do que estão lá dentro. Mas também presta atenção nas vozes sutis dos que estão no entorno e ninguém vê. Sabia como os filhos do Estrangeiro se importavam com a hospitalidade e o respeito aos refúgios. Esperou ser notado e convidado a entrar.
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Re: Tuneis de Haqim

em Qua Maio 23, 2018 3:46 pm
Ya'rub retorna ao seu refúgio. Se hesitar, ele começa a preparação. Primeiramente, ele pega sua espada de lâmina curva. Sabia que estava indo em uma missão diplomática, mas não poderia ter certeza a respeito de como os eventos iriam se desdobrar no caminho. Ele segura a arma com as duas mãos e observa, por alguns instantes, os detalhes na lâmina e no cabo. Era uma espada simples, sem muitos detalhes. Mas era a mesma que carregava desde que ainda respirava. Ya'rub a ganhou quando voltou do deserto e sua tribo identificou que, por causa do seu novo conhecimento, era digno de portar uma lâmina.

Após colocar a espada presa em sua cintura, Ya'rub verifica se tem consigo todos os componentes que precisa carregar para realizar seus rituais e efeitos. Nas dobras de suas vestes ele coloca pequenos pacotes com kalif embrulhado. Também assegura que seu cachimbo está ali. Por fim, vai até uma das tochas cuja chama está extinta e pega alguns pequenos pedaços de carvão e porções de cinza. Ya'rub guarda a maioria em sacos de couro, mas segura um pedaço de carvão nas mãos.

Com o pedaço que tem em mãos, Ya'rub desenha um círculo no chão. Ele o faz com diâmetro suficiente pra caber a si mesmo e mais uma pessoa. Após finalizar o círculo, desenha alguns símbolos no seu entorno. Ao finalizar, vai ao centro, fecha os olhos e diz em voz alta:

- Eu lhe convido, Ghül, para conversar comigo. Diga-me quem sabe meu nome e como o fizeram. Peço que venha a mim por vontade própria, para que eu não seja obrigado a forçá-lo.

Em silêncio, Ya'rub fica atento para perceber qualquer manifestação.
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Re: Tuneis de Haqim

em Qui Maio 24, 2018 6:11 am
Um segundo e uma piscada de olhos depois, lá estava o Ghül.

Encontrava-se diante de Ya'rub. Era mais alto que o cainita, além de impossivelmente esguio. A pele acinzentada era repleta de cicatrizes e escarificações. Os olhos eram duas esferas amareladas, brilhantes e ameaçadoras. Vestia-se com trapos acinzentados e exalava um odor estranho, acre. Tinha um sorriso no rosto. Levou a mão direita à cabeça, coçando-a com as unhas e com os pequenos aros de metal que as decoravam. Quando o fez, Ya'rub ouviu o som característico da presença do Ghül: era o som de pele sendo arrancada. Ya'rub sentiu um estranho perfume de Vitae, intenso e doce, mas o ser não apresentava nenhum ferimento visível. Os dedos eram longos e finos, como garras. Estava de pé fora do círculo que Ya'rub havia traçado.

- Eles sabem o teu nome pois tu és o filho do inimigo, meu jovem. Eles sabem teu nome pois o terror do que Haqim representa ecoa em seus corações. Eles sabem teu nome e o papel decisivo que tu terás. Eles sabem teu nome, pois sabem os de todos aqueles que sabem que é possível seduzir com os conhecimentos profanos.

O Ghül deu dois passos a frente, adentrando o círculo.


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Re: Tuneis de Haqim

Ontem à(s) 2:31 pm
Foi a última frase do Ghül, somada à visão que ela desencadeou, que desestabilizaram Ya'rub.

Eles sabem teu nome, pois sabem os de todos aqueles que sabem que é possível seduzir com os conhecimentos profanos.

Você me pertence, Ya'rub Bani Qahtani.

As palavras dançavam e se debatiam em sua mente, fazendo seus joelhos arquearem, como se o peso das frases fosse demais para seu próprio corpo suportar. Ya'rub não conseguia dizer se a visão era uma lembrança perdida de algo real, ou uma ilusão criada por forças que desconhecia. Quem era aquele homem que apareceu no deserto? O que queria?

Medo. O tão familiar e desconfortável Medo. Dessa vez, contudo, o Medo estava beirando o descontrole. Um descontrole quase físico, pois suas mãos tremiam. Ya'rub não sabia como deveria proceder. Não sabia se ir até Mashkan seria seguro para si e para os outros. Ele precisava de ajuda.

Ya'rub observou o Ghül na sua frente. Ele acabara de entrar no círculo. A visão do espírito macabro, mas ainda assim tão familiar, lhe trouxe um estranho conforto. Era uma Medo que já conhecia há séculos. Sua garganta estava seca, mas ainda assim se esforçou para falar. A voz saia como se tivesse passado meses sem se alimentar. Sentia-se fraco.

- Ghül... eu não tenho a intenção de forçá-lo. Aprendi a temê-lo e respeitá-lo. Contigo tenho um estranho pacto. Ensinaste-me o valor do Medo e, em troca, eu lhe dei a esperança de ter uma alma para torturar.

Ya'rub olhou o Ghül nos olhos. Seu semblante era quase que de súplica. Quase, porém. O Feiticeiro sabia que não deveria suplicar aos espíritos. Repetia constantemente que era isso que o diferenciava do Inimigo...

- Deve me proteger, Ghül. Pois só assim sua parte da troca poderá ser cumprida. Não deixe que o Medo fuja de mim.

Ao dizer isso, Ya'rub se endireita. Volta a assumir uma postura mais digna. Seus olhos apresentam um brilho quase sobrenatural. Mas ele não sorri. Dá um passo atrás e sai do círculo que desenhou. deixando-o apenas para o Ghül. Faz uma breve mas respeitosa reverência com a cabeça.

- És livre para cumprir o que lhe pedi. Despeço-me, com a esperança de que continuará comigo.

Ya'rub aguarda para ouvir qualquer coisa que o Ghül ainda tenha pra lhe dizer. Em seguida, aperta o passo, em busca de seu Pai. Ao encontrar Haqim, o Feiticeiro não hesita. Em tom afoito, já diz:

- Pai, acolha-me. Seu filho tem Medo. Eles sabem meu nome.

Esperava, com essa simples frase, que seu Pai entendesse o que se passava.
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Re: Tuneis de Haqim

Ontem à(s) 3:22 pm
O Ghül continuava de pé, dentro do círculo, a ouvir as palavras de Ya'rub. Encarava-o de forma austera enquanto coçava os braços com as unhas cheias de arcos de metal. O barulho era enervante, semelhante ao de um tronco de árvore sendo lixado. Quando o cainita terminou, o Ghül respondeu, mas não mudou de expressão.

- Eu o protegerei, Ya'rub Bani Qahtani. Mas, eventualmente, rediscutiremos os termos do nosso Pacto.

Dizendo isso, desapareceu lentamente diante dos olhos de Ya'rub, os olhos amarelados sendo a última parte do corpo a sumir. Uma leve brisa borrou o círculo de carvão antes que Ya'rub saísse dele e seguisse, pelos túneis que levavam às câmaras inferiores, em busca de seu Ancestral.

Entrou nos aposentos de Haqim sem nenhuma cerimônia. Seu Pai estava de pé, debruçado sobre uma pesada mesa de pedra, com as mãos apoiadas. Observava um mapa da Planície, esculpido de forma bastante realista sobre a superfície de uma grande e pesada tábua de argila. Diante das palavras de Ya'rub, Haqim não hesitou. Aproximou-se de seu Filho e o envolveu em um Abraço apertado, mas que durou menos de três segundos. Em seguida, tomou a face de Ya'rub entre suas mãos grandes e forçou o cainita a encará-lo. Os olhos grandes e brilhantes observavam a alma de Ya'ub.

- Eles não tem nenhum poder sobre você, exceto aquele que você permitir que eles tenham. Você é meu Filho. Meu. Eu, que sou o Vento Quente do Deserto, O Grande Caçador, O Senhor da Montanha. Eu o escolhi em razão de você ter quase todas as minhas qualidades. Eu o escolhi pois você foi capaz de domar o teu medo e adentrar o Deserto, em busca da iluminação que, certamente, acabou alcançando. Você é meu filho. Não me faça sentir arrependimento.

Largou o rosto de Ya'rub. Fez um cumprimento, ligeiro, com a cabeça, como alguém que pergunta "Entendeu-me?". Depois voltou à sua mesa de trabalho, convidando Ya'rub a aproximar-se.

E então, uma coisa fantástica aconteceu.

A tábua de argila começou a se mover, as pequenas construções que representavam as vilas e cidades desaparecendo, dando lugar a uma única cidade, com construções maiores, ruas definidas e muralhas bem visíveis. Era Mashkan-Shappir. Diante da cidade, mas olhando para Ya'rub, o Pai se pronunciou:

- Discutiremos, agora, elementos importantes sobre a sua missão. Há algo que você queira saber sobre a cidade?
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Re: Tuneis de Haqim

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