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Nippur: A Segunda Cidade dos Deuses.

em Sab Maio 05, 2018 11:39 am
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Re: Nippur: A Segunda Cidade dos Deuses.

em Seg Maio 07, 2018 4:58 am
Ninguém se lembrava a última vez em que havia acontecido. Não se havia feito presente por meses. Na sua ausência, os templos permaneciam cheios. Oravam a toda sorte de deidades, ultrapassando o domínio de cada uma. Guerra, Morte e Paz deveriam responder ao chamado dos fiéis, aos seus pedidos. No entanto, certas coisas permaneciam fora do alcance até mesmo de Deuses Poderosos. Quando a situação estava quase insustentável, e as colheitas ameaçavam morrer, quando as famílias estocavam provisões e se desesperavam, ela veio.

A chuva abençoou a vasta planície.

E como era bela! Os habitantes de Nippur se ajoelhavam do lado de fora de suas casas, banhados pela chuva. Beijavam o solo ou assistiam emocionados as plantas, outrora ressecadas, serem limpas pela água que caía dos céus. Os recipientes que tradicionalmente se localizavam à porta de cada uma das pequenas e aglomeradas casas de barro, usados para depositar o sangue de animais abatidos que serviria de alimento aos Deuses de Nippur, estavam cheios de água. Os moradores regozijavam enquanto os Deuses observavam, silenciosos, das mais altas janelas da cidade. Suas faces escuras e olhos brilhantes também esboçavam contentamento pois sabiam que se não existissem mortais, se fossem mortos pela seca e falta de alimento, os Deuses também pereceriam.

Em pouco tempo as pequenas torres escuras de Nippur estavam banhadas. As ruas, agora enlameadas, pareciam ter dificuldades para sustentar a quantidade de chuva. Aquele labirinto urbano, repleto de passagens pelos telhados que davam acesso a entradas nas partes altas das casas e portava às torres dos Deuses, se tornava visivelmente diferente quando chovia. As construções, quando secas, tinham a cor típica do barro da planície. Quando molhada, porém, a cidade assumia colorações mais escuras. A terra deixava fugir o calor acumulado durante o dia, calor que envolvia todos junto ao perfume do renascimento, da esperança, da Fé.

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- As preces foram atendidas, afinal.

Era uma voz profunda, densa. Sarosh se virou, deixando de olhar a janela, de onde assistia a festa dos mortais de Nippur que dançavam e tocavam instrumentos para agradecer aos Deuses. Era sua câmara pessoal, um local simples, adornado com tesouros de terras distantes, nas quais o Filho de Laza havia caminhado. Na porta de acesso, de pé, a figura imponente e musculosa de seu irmão Karotos.

A câmera de Sarosh se localizava na torre que servia de residência a Laza, quando estava em Nippur, e aos seus filhos. O Pai havia determinado que todos os seus descendentes vivessem juntos no mesmo local, que aprendessem a conviver com suas diferenças, que amainassem suas animosidades, sob a sua supervisão direta, uma vez que Laza ocupava o último andar da torre. De fato, funcionou. Poucas famílias poderiam se orgulhar de tamanha coesão e harmonia quanto o Clã da Noite. Ao menos essa era a imagem externa. Internamente, Sarosh sabia, como sabiam todos, mesmo Laza, das animosidades entre seus irmãos.

Não obstante, ali estava Karotos, O Primogênito. Que belo homem, era. Seus cabelos escuros, como os de todos os filhos de Laza, eram curtos. O rosto era um primor, equilibrado, com notórios toques de ferocidade e violência. Apoiado em uma das paredes, observou seu irmão. Sua face era iluminada pela pálida luz da lua que entrava pela janela, encoberta pelas pesadas nuvens de chumbo. Vestia somente um saiote de couro cru. Na cintura, uma espada de bronze.

- O Pai retornou, Sarosh. Deseja vê-lo.

Mudou, deixando a expressão calma para trás e expressando algum descontentamento.

- Deixarei Nippur nas próximas noites, visitarei minha Família. Você, como segundo nascido, assume a casa se o Pai resolver deixar Nippur novamente.

Sarosh deve continuar no tópico "Torre de Laza"
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Acordou com a música. Era magnífica! Acordou mais forte. A música se tornava cada vez mais alta na medida em que se levantava, deixando o calmo abismo que chamava de lar para alcançar a superfície.

Ao fim, lá estava. A mais bela canção, a da chuva a alimentar os rios.

Havia outras canções, pois os mortais celebravam a chegada da tempestade. Os céus, escuros, observavam tudo em silêncio, assim como as montanhas, distantes. Nippur estava escura, os fogos externos apagados pela água. Não havia força como a água, pensou. Não havia nada que desse mais alegria aos mortais daquele lugar quanto a força que ele regia. Permaneceu ali por algum tempo, o corpo envolvido pelo Tigre. Depois, deixou seu refúgio, alcançando a margem e caminhando até Nippur.

Em sua cabeça, porém, permanecia o sonho. Havia sonhado esta noite, coisa que raramente acontecia. Alguma coisa o chamava, repetindo seu nome com insistência. Não havia um sentimento de urgência, não era um pedido de socorro. Era somente uma voz feminina, doce e triste, que continuava a chamá-lo em meio à Escuridão. Quando esta se dissipava, via uma jovem mulher, com longos cabelos escuros. Deitada no chão, contemplava as estrelas. Chamava seu nome. "Enki, Enki, ajuda-me". O sonho terminava, nas quatro vezes que havia se apresentado durante seu descanso diurno, invariavelmente com uma pesada espada de bronze trespassando o ventre da mulher.

Sabia que Gallod era um exímio intérprete de sonhos. O Pai não estava em Nippur, então seguiu para encontrar seu irmão de Sangue.

Enki deve continuar no tópico "Zigurate do Estrangeiro".
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Sentia no ar a umidade. Do lado de fora, chovia. Nenhum barulho penetrava naquele local, profundo como era. No entanto, sua intuição lhe dizia que a cidade estava em festa. Sempre imaginava como seria se as águas invadissem a caverna. Nunca havia acontecido, mas o cenário o preocupava. As tabuletas de argila ali estocadas guardavam milênios de conhecimento. As defesas místicas que guardavam o local seriam suficientes para suportar a força da natureza. Difícil saber. Esperava.

Naqueles túneis, escavados sob Nippur graças ao poder do Pai, poucos ousavam entrar. Poucos que não partilhassem seu Sangue. Era incomum, portanto, que a paz daquele santuário fosse rompida, como estava sendo naquele momento, em que passos lentos e arrastados denotavam a aproximação de alguém.

Mancheaka se entrou no recinto.

Um grande homem, era Mancheaka. Encarnava tudo o que o Pai havia determinado como essencial em sua progênie. Força, honra, sabedoria e altruísmo. Era amado por todos, até mesmo por aqueles de fora da Família, que ouviam suas palavras e seus ensinamentos. Aquele homem alto, negro como a noite profunda. Coberto de jóias feitas de bronze e ossos que adornavam os pulsos, pescoço e tornozelo, trazia nas mãos um recipiente. Vitae. A única coisa que dominava a existência de todos os Deuses. Humano. Doado de boa vontade em troca de proteção. Ya'rub sabia tudo aquilo sem ao menos se esforçar. O Sangue era parte dele e parte do mundo, era o que ligava todas as coisas e explicava todas as questões.

Mancheaka depositou o recipiente ao lado de seu irmão. Beijou-lhe a testa, com amor e respeito.

- O Pai ordena que seus Filhos se apresentem a ele. Quando estiver pronto.

Ya'rub deve continuar no tópico "Túneis de Haqim".

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Sabia que a chuva se aproximava. Era muito sensível a todas as mudanças, a todas as possibilidades. Não tinha certeza, porém. De todas as coisas que podiam ser vistas e sentidas antes que viessem a ocorrer, a chuva sempre se apresentava como possibilidade e não como certeza. Talvez Aquele Acima não desejasse que ele fosse capaz de trazer conforto e esperança a corações quebrados pela seca. Se fosse este o caso, era a confirmação de Sua crueldade.

O templo estava tranquilo, silencioso. O som da chuva reverberava pelos corredores, porém, chocando-se com harmonia em cada curva, coluna e arco. Sentia-se bem. Não sentia a presença do Pai, ao menos não neste tempo. Estaria imerso em suas viagens, sua consciência vagando pelo infinito. Sentia, porém, seus irmãos, cada um ocupando um setor do grande templo.

Sentia, sobretudo, os mortais.

Aproximavam-se aos montes. A chuva os havia retirado do torpor e da tristeza. Uma grande procissão se dirigia ao Templo, banhados de água, suor e sangue que escorria de feridas autoinfligidas. Vinham para agradecer aos Deuses que, em sua infinita benevolência, haviam permitido a renovação do mundo. Vinham, sem medo ou receio, entregar parte de suas vidas aos Deuses do Templo de Granito. Desejavam vê-los, ouvir suas palavras de conforto, de que tudo ficaria bem e de que as colheitas seriam o suficiente.

Ele sabia que as colheitas seriam o suficiente. Tinha certeza. Sorriu.

Os mortais já estavam na porta do Templo, ajoelhados, esperando seus Deuses de Sangue e de Glória.

Amon deve continuar no tópico "Templo de Ilyias".
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Re: Nippur: A Segunda Cidade dos Deuses.

Ontem à(s) 10:34 pm
*Lamdiel era uma surpresa, mas uma surpresa imensamente grata. Enki sentia um enorme carinho por Malkav e sua progênie, os considerando quase como uma família adotiva. Seu caminho era outro, dos espíritos da terra e das vicissitudes do corpo e carne, mas ainda assim sua mente não estava no mesmo lugar de quando era mortal. Ela havia se deslocado para um ponto além após os traumas do Abraço, e este ponto na qual voava, se não era o mesmo do Clã da Lua, era similar, próximo.*

-Seu pai vê todo o mundo e muito mais, amado primo. Não sabe o quanto eu amo a ti e a ele por ter me julgado digno de uma ínfima parte dela.

*Enki sorri. Seu coração se enchia de alegria ao ver os fieis em caravana para Nippur, mais ainda por sua protegida. E ele vê mais. Vê Mashkan-Shapir após tanto tempo, vê coisas que julgava, e julga, inexistentes.*

*Lamdiel não se encontrava mais ali, mas Enki ainda falava. Com os espíritos ao redor? Com o primo ausente? Consigo mesmo? Nem ele poderia dizer.*


-Meu nome é uma canção em Mashkan-Shapir. Minha canção traz felicidade, júbilo e adoração.

-Como eles se atrevem? Como se atrevem a encontrar felicidade com meu nome na Fortaleza da Dor? E como se atrevem seus arautos a ter para si minha adoração? Oh, Mashkan-Shapir tem urgente necessidade de meu amor. Tamanha necessidade que não sei se meu coração conteria; não, ele transbordaria, como um rio. Um coração cheio de amor e uma mão gentil para guiar, sim, essas são as necessidades. Essa é minha missão.

-Enki do Abzu não fará nada que seu amado Pai lhe proíba, mas Enki do Abzu espera. Espera pela noite em que aqueles acima, que tanto se importaram, não se importem mais. Pela noite em que, enfim, sua represa esteja livre. Até lá, Enki precisa ver. E proteger que precisa de proteção.

*Ele aguarda na saída da cidade, o local definido por Sutekh. Ele fica parado, imóvel, olhando para o horizonte. Sem qualquer movimento, quase como se fosse um gesto involuntário, um novo braço nasce na sua manga antes vazia.*
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Re: Nippur: A Segunda Cidade dos Deuses.

Hoje à(s) 6:42 am
Mal sentiu a manga das vestimentas serem preenchidas e ouviu passos atrás de si. Olhava o horizonte e não se girou, mas sentiu intensamente a presença de seu parente Sutekh. Era como se a paz da planície fosse subitamente substituída por nuvens escuras e tempestuosas, que trariam a mudança e a transformação. Sutekh era incrivelmente semelhante ao seu Pai e ao seu tio Malkav. Os três personificavam, dentre todos os Treze, a Transformação, ainda que de formas diferentes.

O céu, contudo, permanecia límpido.

Quando girou-se, viu Sutekh. Na reunião sua Glória era contida pela glória coletiva dos Treze. Estar sozinho com o Senhor das Tempestades era um experiência particular. Sutekh era facilmente adorável, um líder, um Rei, à sua própria maneira. Vestia-se de forma elegante, com um saiote estrangeiro, ao estilo de Khemet, branco, que contrastava com sua pele escura. No torso uma camisa larga, costurada cuidadosamente. Jóias de bronze enfeitavam seu corpo: um colar com pedras avermelhadas, anéis, pulseiras e brincos em ambas as orelhas. Olhou para Enki e sorriu, um sorriso largo e cheio de dentes brancos mas, aparentemente, muito sincero.

- Cá está você, o Filho mais enigmático do Estrangeiro. Tenho apreço pela tua figura, Enki, gostaria de convidá-lo a Khemet. Gostaria que você visse o Nilo, o Grande Rio, e como suas correntes enchem de vida o deserto da existência.

Olhou o horizonte, como fazia Enki. Parecia que podia ver, com seus olhos serpentinos, Mashkan-Shappir.

- O Inimigo se move, em suas ações desprezíveis, e é nossa tarefa impedi-lo, Enki. Sei que teu Pai o proíbe de pisar em Mashkan, ao menos por agora. Eu, no lugar dele, faria o mesmo. Teu Pai teme, embora não mencione, perder um filho capaz como você. No entanto, não pode privar-lhe da ação, mesmo que à distância.

Sutekh estendeu o braço direito e retirou uma das pulseiras. Era um belo objeto, composto de uma fina liga de bronze e cravejado de pedras azuis e verdes. Estendeu-a na direção de Enki.

- Enquanto os outros não se reúnem a nós, permita-me presenteá-lo. Ouvi falar de suas capacidades como Feiticeiro, e gostaria que estas capacidades se desenvolvessem, tendo em mente as guerras que virão pois, como Deus da Guerra de Khemet, as sinto no horizonte. Este presente te ajudará a canalizar melhor os teus esforços e atingir resultados... notáveis. Considere tua herança advinda de um tio que se preocupa com o teu bem estar. Alguns dos meus outros parentes receberão heranças semelhantes, mas somente aqueles a quem aprendi a me afeiçoar.

Sorriu novamente.
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Re: Nippur: A Segunda Cidade dos Deuses.

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