Compartilhe
Ir em baixo
avatar
Mensagens : 502
Data de inscrição : 07/03/2018
Ver perfil do usuário

Re: Lagash: A Que Nunca Cairá.

em Seg Jul 02, 2018 5:40 am
Anis respondeu, antes que os dois mortais tivessem acesso à parte mais alta do Templo.

- Compreendo, Amon. Você e Belit sempre estiveram preocupados com as emoções e sentimentos do Pai, e por isso eu os admiro. Confio em vossas percepções. No entanto, possibilidades também se apresentaram a mim. Este homem, Troile, visitou os meus sonhos e as minhas Visões. Assisti, atônita, enquanto ele arrastava o nome de nossa família na lama, enquanto destruía tudo aquilo que Ilyias havia representado. No final, nós mudávamos, Amon. Nos tornávamos outra coisa, outros seres. Tenho medo, irmão meu. Medo do que virá.

Anis parecia emocionada. Amon nunca a havia visto daquela forma. Anis era um poço de determinação e dona de um caráter forte, quase intratável. Havia aprendido muito pouco sobre as possibilidades, não tinha a disciplina necessária para tal, e os seus desentendimentos com Ilyias só pioraram a situação. Havia se concentrado nos dons da sua personalidade e na sua força física, que era absolutamente lendária entre os cainitas de idade igual a sua. Não obstante, a Visão era imensamente forte nela, um espécie de talento natural.

Caminhou pela sacada enquanto Amon observava a chegada de Astar. Junto a Shalmath, mas separados, subiram as escadarias do Templo. Em pouco tempo, estavam diante dos três Deuses. Belit parecia absorvida pela beleza e singularidade dos dois mortais: Astar bem vestido, com vestes em azul escuro e preto, os cabelos bem arrumados, pés descalços em sinal de humildade e respeito por aquele local. Parecia um outro homem. Havia, ainda, a arrogância e força de caráter, mas havia também um profundo respeito em seus olhos. Shalmath era altiva e emanava uma poderosa aura de poder. Era uma mulher estranha. Suas vestes indicavam que teria vindo do sul de Khemet, uma região de densas florestas e mistérios não revelados. Era negra como a noite, vestida com tecido negros. Seus olhos brilhavam enquanto observava Amon e Belit.

Foi Belit quem falou primeiro.

- São fabulosos estes mortais, irmão meu. São belos e altivos, cada um a sua própria maneira. Vejo neles o reflexo de nós três. Vejo a determinação de Anis, mas vejo também a sua Sabedoria. Mas não entendo o que deveremos fazer com eles.

Anis sorriu. Parecia que, como sempre, a Visão a havia atingido sem que ela desejasse.

- Me parece simples, minha irmã. Eles serão como nós. E não serão filhos de nosso Pai. - Olhou para Amon - Mas isso me parece impossível, dada a proibição do Pai Sombrio, reforçada pelas escolhas cegas de nossos Ancestrais.

Anis alternava o olhar entre Shalmath e Amon, como se quisesse expor alguma coisa. Astar aquiesceu com a cabeça à sugestão de Amon, se oferecendo claramente para tratar de quaisquer assuntos que o cainita desejasse. Shalmath permanecia muda, fixando intensamente o único filho homem de Ilyias.
avatar
Mensagens : 70
Data de inscrição : 07/05/2018
Ver perfil do usuário

Re: Lagash: A Que Nunca Cairá.

em Qua Jul 04, 2018 1:35 am
Amon os observava atentamente. Desde o primeiro encontro, se sentira fascinado por eles. Ele caminhou em silêncio pela parte superior do templo, alternando o olhar entre todos presentes, tal qual fazia Anis. Antes de falar, fixou seu olhar em Anis e se comunicou com ela telepaticamente. Eu a entendo, minha irmã. Os seus sentimentos não são em vão. De fato uma mudança está prestes a acontecer e o pai sabe disso. Pelo que nos foi dito, esta é a sua intenção. De que haja uma mudança, para que nós, ou os filhos de Troile, se pude entender bem, sejam diferentes do que somos, sem a maldição que o Pai sombrio impôs sobre Ilyias e a sua linhagem. Nosso criador vencerá a maldição imposta a ele, apesar de que tenho a nítida sensação que para tal, ele deixe de existir, ao menos no tempo presente. Além do mais, sobre a determinação do Pai sombrio, pode esquecê-la. Ilyias disse que devemos aumentar a nossa família. Longe de Nippur.

Amon parou de andar e sentou-se no chão, em posição de lótus. Ele estava de bom humor, apesar de o futuro parecer incerto a sua mente.

Diga-me Shalmash, o que deseja me dizer? Se não quiseres dizer agora, podes me dizer outro momento e em outro lugar. Tenho a impressão de que tens palavras sábias a me dizer. Houve um breve momento de silêncio, quando o próprio Amon voltou a falar, desta vez direcionada a Astar.

Astar meu caro, a tua presença muito me alegra nesta noite, pois, daremos um grande passo. Algo que mudará seu caminho, para sempre. Amon sorriu mecanicamente, lembrando seu senhor e isso o assustou. Dar-te-ei uma tarefa, a mais importante que já teve em sua vida. Será o governante da cidade que ergueremos em breve. Eu e os outros descendentes de meu criador. Apesar de lhe conhecer pouco, tenho plena confiança na sua habilidade de entender seus iguais, apesar de discordar dos métodos que usastes até hoje. A partir de amanhã não será mais um comerciante de escravos, a não ser que desejes continuar com a sua vida.

Mais uma vez Amon se calou e desta vez olhou para as suas irmãs. Telepaticamente ele as perguntou. Sinto que estes dois devem ser trazidos para nós, porém, sinto que ambos não são para mim.

avatar
Mensagens : 502
Data de inscrição : 07/03/2018
Ver perfil do usuário

Re: Lagash: A Que Nunca Cairá.

em Sex Jul 06, 2018 4:19 am
Anis ouviu com atenção as palavras de Amon, que flutuavam em sua mente como se tivessem sido ditas em voz alta. Deu de ombros, não por indiferença, mas por concordar com seu irmão. Sua expressão era um misto de curiosidade e resignação. Amon sabia que Anis, acima dele e de Belit, jamais havia se acostumado com as limitações que a Maldição do Pai Sombrio lhe havia imposto. Amon era mais velho, e exatamente por isso se lembrava da Anis mortal. Uma belíssima dançarina, cheia de alegria e emoção. Um intelecto inigualável. A Anis que existia agora mantinha somente a velha fúria, direcionada ao Primeiro. Anis desejava ardentemente amar seu Senhor, mas não o faria se não fosse um sentimento recíproco.

- Eu esperarei, Amon. Ficarei em Nippur por um tempo considerável, acompanhando o desenrolar dos acontecimentos. Além disso, sinto cheiro de guerra no horizonte. Quero estar aqui pela minha família, por você, por Belit e mesmo por Ilyias.

Beijou a testa do irmão sentado no chão e a mão de Belit-Sheri, que a tomou em seus braços como resposta. Depois, se retirou. Parecia cansada, havia provavelmente feito uma longa viagem, e precisava descansar.

Shalmath acompanhou, com os olhos, os passos de Anis em direção ao interior do Templo. Depois, se voltou para Amon, o rosto liso e enigmático. Olhou no fundo dos olhos do cainita antes de começar.

- Eu vejo a tua cidade. Grande, resplandecente e gloriosa. Eu vejo que a tua cidade, que terá o nome de mulher, congregará homens de todas as partes do mundo. A tua cidade nascerá da guerra e será a Mãe da guerra. Eu vejo a tua cidade, e ela será grandiosa, e os homens se recordarão dela em todos os tempos que virão.

Shalmath voltou-se para a sacada, em direção a Nippur, sem dizer mais uma palavra. Os cabelos negros dançavam com a brisa noturna e a pele escura brilhava sob a lua. Belit observou Amon por longos segundos antes de sentenciar.

- Ela é minha.

Anis não havia respondido a última mensagem de Amon. Foi Belit quem respondeu.

- O homem pertence a Anis. O que te pertence te espera num canto longínquo do mundo.

Olhou para Shalmath, que retribuiu o olhar. Amon viu nascer o vínculo.

- O que te pertence é o filho e o Pai da guerra. - Sentenciou Belit-Sheri.

As atenções dos dois cainitas e da mortal, subitamente, foram atraídas para os portões de NIppur. Uma grande comitiva entrava na cidade, homens que apenas haviam deixado a batalha que ocorria no Norte. Estavam feridos, cansados, mas vitoriosos. Medon os liderava, o Filho de Ventrue, o Grande Guerreiro, o Leão da Planície. Atrás de seu cavalo, amarrado por cordas, um corpo era arrastado para dentro da cidade. Era um cainita. Paralisado com uma curta, porém resistente, haste de madeira em seu coração. Amon divisou, com horror, a figura de Amaranta, filha de Arikel.
avatar
Mensagens : 70
Data de inscrição : 07/05/2018
Ver perfil do usuário

Re: Lagash: A Que Nunca Cairá.

em Dom Jul 08, 2018 8:48 pm
Amon observou Anis se retirar, sem nada dizer após as suas palavras. Em seu íntimo ele sabia, pressentia que todas as possibilidades desencadeariam numa guerra, não, em várias e infindáveis guerras. Ainda assim, ele sabia também que o seu destino era contrariar todas as possibilidades e, se não houvesse uma que indicasse a paz ele criaria, ao lado dos seus.

Escutou também em silêncio as palavras de Shalmash e sorriu no final delas, enquanto a olhava, admirado com a sua sabedoria e beleza, ela era perfeita para Belit-Sheri, como supôs a primeira vista.

Virou-se para Astar.


Meu caro mercador, ainda que a tua existência não me pertença, estaremos ligados até o dia do fim. Acompanharás Anis e ela te ensinará muito mais do que jamais poderia. Ainda assim, serás aquele que me ajudará a criar a nossa cidade e a mudar a história dos povos. Fique conosco nas próximas noites, temos muito a conversar. Seu semblante era duro e sério, como se ele fosse e, talvez de fato o fosse, incapaz de expressar suas emoções. Amon virou-se quando notou a entrada de seus iguais em Nippur. Lamento não poder ficar convosco agora. Negligenciei o problema com os Baali em prol de nossa família, entretanto, devo seguir rumo ao trono negro. Há coisas que devo fazer.

O filho mais velho de Ilyias caminhou até sua irmã, beijou-lhe a testa, despediu-se dos mortais com um aceno de cabeça e desceu rumo a cidade.

Amon caminhou pela cidade, observando de vez em quando o estrelado céu sobre a sua cidade. A forjada paz que a terceira geração de amaldiçoados enfim estava acabando, exatamente como ele previra. Sentiu vontade de chorar, contudo, foi um sentimento rápido que logo desapareceu. Não havia motivos para chorar. Amaldiçoados não merecem compaixão.


Enviado pelo Topic'it
avatar
Mensagens : 502
Data de inscrição : 07/03/2018
Ver perfil do usuário

Re: Lagash: A Que Nunca Cairá.

em Seg Jul 09, 2018 12:01 pm
Shalmath e Astar despediram-se de Amon: a primeira com um cumprimento sério, mas respeitoso e o segundo com um tanto mais de entusiasmo. Além disso, o mercador havia aceitado a proposta, decidindo por estabelecer-se na Cidade dos Deuses pelo tempo que fosse necessário para descobrir o papel que Amon havia idealizado para ele. Belit abraçou o irmão, colocando-se à disposição para cuidar dos mortais em sua ausência. Sem mais delongas, Amon preparou-se para descer as escadas do Templo e rumar para a entrada de Nippur. Surpreendeu-se, porém, ao escutar a gargalhada de Ilyias, que vinha dos seus aposentos, onde esta com Troile. Não ouvia aquele som há tanto tempo que não tinha certeza se, um dia, o havia ouvido. Tão rápida como veio, passou. Restou o eco entre as paredes, e Amon percebeu que ele permaneceria ali por um longo tempo, talvez numa tentativa de justificar a sua escolha de ter trazido Troile até Nippur.

Do lado de fora do Zigurate, encontrou os soldados mortais da Cidade, assim como viu seu parente, Medon, desmontar seu cavalo. Tinha na face uma expressão triunfante, poderosa e inspiradora. Amarrada em empalada jazia Amarantha, os olhos arregalados em pavor, os braços e tronco feridos por lâminas. Nakurtum e Tammuz o acompanhavam, o corpo de Mi-Ka-Il havia sido entregue aos homens para que fosse levado aos aposentos de Arikel.

Foi Medon quem se dirigiu a Amon, enquanto Tammuz acompanhava seu irmão adormecido e Nakurtum se retirava em direção aos túneis de Haqim.

- Nós vencemos, meu primo, mas a guerra apenas começou. Levarei a prisioneira, que foi encontrada nos subsolos dos vilarejos que servem aos nossos inimigos, imersa em uma cerimônia blasfema, ao meu Pai. Imagino que os outros devam estar a caminho, conduzidos através da Escuridão pelos filhos de Laza. Nos veremos no Trono Negro, pois acredito que todos nós deveremos lá estar em pouquíssimo tempo.

Não muito tempo depois, foi a vez de Enki retornar à cidade. O acompanhava um homem estranho, esguio, andrógino e de longas madeixas vermelhas. Amon sentiu um poder pulsante, de caráter extremamente destrutivo, mas contido por uma profunda Sabedoria, a emanar do desconhecido. Seus olhos indicavam que ele havia visto o mundo, exatamente como Ilyas tinha orientado sua a cria a fazer em um futuro próximo. O homem se separou de Enki, rumando aos aposentos de Sutekh. Enki, por sua vez, se manteve com Gallod. Amon sabia, intuitivamente, que não demoraria mais de uma hora até que Ventru realizasse a convocação.
Conteúdo patrocinado

Re: Lagash: A Que Nunca Cairá.

Voltar ao Topo
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum