Compartilhe
Ir em baixo
avatar
Mensagens : 65
Data de inscrição : 14/03/2018
Ver perfil do usuário

Re: Paris: A Mãe de Todas as Cidades.

em Qua Maio 02, 2018 7:47 pm
*Rajmund era esguio e resistente como couro velho, com um olhar faminto e instintos de caçador e guerreiro, mas não era um homem alto. Quando Forseti se levanta, ele se dá conta disso mais do que nunca; era como uma metáfora para a ameaça que enfrentava na forma da Fera.*

*Ele alterna entre a curiosidade sobre o visitante misterioso e a pergunta de Forseti. Saber que enfrentaria um dos Três em combate pessoal era uma notícia terrível, mas ainda assim ele deveria se preparar.*


-Muito do que eu vejo em meus sonhos é fogo. A Fera de três cabeças devorando tudo em frente a uma casa em chamas, Eigermann observando um incêndio e... Alexandre. Alexandre deposto e condenado à morte em Paris, queimando por mais tempo que qualquer um de nós conseguiria aguentar. Se diz que é em Viena que viu ele, irmã, é onde ele deve estar. Foi para encontrar essas respostas que passei por terra, ar e água para chegar até esse local sagrado.
avatar
Mensagens : 433
Data de inscrição : 07/03/2018
Ver perfil do usuário

Re: Paris: A Mãe de Todas as Cidades.

em Sex Maio 04, 2018 11:12 am
- Descobriremos o paradeiro de Alexandre, Samiec. Em breve.

A Valkíria deu as costas, adentrando a mata. Forseti, que ainda estava de pé, instruiu os outros cainitas que observavam Rajmund, falando em sua língua nativa. ELes permaneceram onde estavam, concordando positivamente com as palavras do Gangrel. Depois, convidou Rajmund a acompanhá-lo em uma caminhada. Forseti liderou o caminho, adentrando a mata num sentido oposto àquele feito por Ulfsdottir.

- O Pai repousa no subsolo de uma pequena montanha, Rajmund. Ali ele sonha com seus filhos e com seus inimigos e é destes sonhos que ele extrai as instruções sobre como devemos nos comportar. Por muitos séculos, e ainda hoje, a Camarilla é uma presença menor nestas terras e menos importante ainda é o Sabá. São as leis do Pai que são respeitadas aqui.

O bosque era agradável. O vento passava por entre as árvores, e o som resultante era pacificador. Rajmund viu, adiante, que o bosque terminava em uma abrupta inclinação, mas não era capaz, ainda, de ver o que havia abaixo. Forseti continuava a falar amenidades, em especial sobre a não vida do Clã em terras norueguesas. Rajmund não pode deixar de notar como tudo parecia mais simples ali. Nada de Príncipes, Justicares ou Camarilla. E, sobretudo, nada de Tremere, que evitavam ao máximo estabelecer residência nas terras geladas do Norte. Mal percebeu quando chegou ao desnível. Abaixo, após uma descida de alguns metros, uma pequena montanha solitária marcava a paisagem, contrastando com a planície que a envolvia.

Forseti parou e fez uma profunda reverência à montanha. Apontou para o local, enquanto falou para Rajmund.

- Siga, Rajmund Samiec.

Rajmund sentiu-se intimamente conectado com o local. Era como se pudesse ouvir a voz de seu Ancestral no vento que brincava entre os galhos. No entanto, sentiu a tontura característica que precedia suas visões. Acompanhando-a, a certeza de que algo era diverso. Sabia que poderia controlá-las, até mesmo evitá-las se desejasse.
avatar
Mensagens : 65
Data de inscrição : 14/03/2018
Ver perfil do usuário

Re: Paris: A Mãe de Todas as Cidades.

em Sex Maio 04, 2018 11:50 pm
*A caminhada com Forseti é uma experiência única, e ele certamente gostaria de passar mais tempo conversando e absorvendo histórias de seu companheiro de linhagem. Rajmund não viveu e pouco conhecia sobre os tempos antigos, mas ainda assim sua falta de lugar no mundo contemporâneo o tornavam estranhamente atraído para aquele tempo de sagas e de uma moralidade simples e selvagem. O vento frio e límpido do norte era como uma lâmina transparente, limpando a mente e alma de todas as dúvidas, todos os pesos e as pequenices que lhe assolavam...*

*E por isso Rajmund sabia que aquele lugar não era para ele. Ainda havia muitos votos a cumprir, pesos a se livrar, compromissos a honrar antes que pudesse se entregar a uma existência tão livre de apegos na alma, uma existência dedicada à sobrevivência do mais apto e à comunhão. Uma noite, talvez, mas não agora.*

*Sozinho, de frente para a montanha, ele se sente mais no controle sobre a própria existência do que se lembra em qualquer momento nas últimas décadas. Mesmo sentindo a presença do Pai de Todos, ele se sentia mais seu próprio senhor do que nunca. Talvez Odin representasse isso: não apenas poder e selvageria, mas a pureza indomada do norte, liberdade e clareza irrestritas.*

*Ao sentir que uma visão se aproximava, Rajmund se senta e remove as botas, revelando pés que terminam em três longos dedos, como uma águia, encostando-dos no solo e fechando os olhos. Com as mãos ele sente a terra e árvores ao seu redor, escuta o farfalhar das folhas, o vento puro em sua fronte, o cheiro da neblina se aproximando. Ele estava pronto.*
avatar
Mensagens : 433
Data de inscrição : 07/03/2018
Ver perfil do usuário

Re: Paris: A Mãe de Todas as Cidades.

em Sab Maio 05, 2018 5:28 am
O mundo escureceu, lentamente, ao redor de Rajmund. Parecia-lhe que esta visão se insinuava de modo mais calmo. O Gangrel ainda sentia a leve brisa fria a roçar sobre sua pele, mas o mundo ao redor foi ficando mais e mais anuviado. Forseti era um sombra indistinguível em meio aos troncos das árvores, que pareciam levemente mais ameaçadores. A Voz de Odin observava Rajmund atentamente, parecendo compreender o momento pelo qual estava passando o "jovem" Gangrel. Tudo era escuridão, subitamente.

Gotas de água.

Rajmund sentiu, primeiro, a umidade. Lentamente, o cenário descortinou-se diante seus olhos. Era um pátio de pedra, sob a luz da lua. Um tipo de monastério parecia circundar o local, suas janelas escuras pareciam opressoras aos olhos do Gangrel. No meio do pátio uma grande estaca de madeira, enegrecida pelas chamas. Havia um corpo carbonizado, o mesmo que Rajmund havia visto anteriormente. Se movia, mas com muita dificuldade, e o cheiro de carne queimada infestava o ar. Rajmund ouviu, do lado de fora, sons de batalha. Ouviu gritos em francês e em alemão. O corpo estendia o braço direito, tentando alcançar algo que estava atrás de Rajmund. O Gangrel não precisou se virar, alguém passou por ele como se ele fosse um fantasma.

Era um homem alto, de ombros largos. Rajmund o viu pelas costas, os longos cabelos louros escorrendo pelos ombros, até encontrar a base da cintura. Era pálido, muito pálido, quase marmóreo. O homem se aproximou do corpo, que parecia clamar por ajuda. Rajmund aproximou-se de ambos, sem ser notado. A batalha continuava quando o homem - agora Rajmund via seu rosto angular, sem barba e com os ossos sobre os olhos bastante proeminentes - rasgou seu pulso com as unhas e deu de beber ao cainita carbonizado. Aquele que estava no chão bebeu avidamente, como uma criança que procura o seio da mãe na primeira alimentação após o nascimento. Depois, fechou o que sobrava de seus olhos e deixou de se mexer. Dormia.

Rajmund viu quando homens entraram no pátio. Estavam uniformizados, e suas roupas ostentavam um escudo de armas. Sacro Império Romano Germânico. Uma carruagem entrou às pressas no local, conduzida por um cocheiro e quatro cavalos. Os homens, com cuidado mas com pressa, colocaram o frágil corpo dentro da carruagem. Antes de depositá-lo ali, porém, passaram pelo fantasma que era Rajmund. O corpo, então, abriu o olho direito. Loucura. Era isso que estava estampado naquela retina. O homem olhou para Rajmund, mas só ele parecia ver o Gangrel ali.

O homem alto olhou para seus servos. Emanava uma autoridade e uma violência terrível, parecia ser capaz de esmagar o mundo sob seus pés. Deu uma ordem simples, mas significativa.

- Graz.

O som das rodas da carruagem se mesclou com o som do vento entre as árvores. Rajmund sentiu frio. Tudo era escuridão. Quando abriu os olhos, Forseti o observava atentamente, sério. A montanha parecia maior diante dos seus olhos. Uma silhueta baixa e franzina havia deixado uma das cavernas, caminhando em direção à planície.
avatar
Mensagens : 65
Data de inscrição : 14/03/2018
Ver perfil do usuário

Re: Paris: A Mãe de Todas as Cidades.

em Sab Maio 05, 2018 11:33 am
*Ele sabe.*

*Rajmund precisa de cada fibra de sua vontade para retribuir o olhar ensandecido de Alexandre, mas jamais se perdoaria se desviasse o olhar. Não sabendo que encontraria com ele. Não na frente de Odin. E agora, acima de tudo, podia saber seu próximo passo, e saber o propósito de estar ali.*

*Desperto, ele encara Forseti, falando de forma simples.*


-Eu vi Alexandre, e mais importante, ele viu a mim. E agora sei para onde ele foi após Paris. As visões do Pai e as palavras de Leifsdottir foram claras: preciso ir para as terras dos Habsburgos.

*Rajmund começa a se levantar, quando vê a figura deixando a caverna.*

-É o visitante de quem falavam?
avatar
Mensagens : 433
Data de inscrição : 07/03/2018
Ver perfil do usuário

Re: Paris: A Mãe de Todas as Cidades.

em Sab Maio 05, 2018 12:21 pm
Forseti ouviu Rajmund, mas fitava a montanha quando respondeu.

- Sim, Rajmund Samiec, deverás seguir para a Áustria, mas não sozinho. E sim, é o visitante. Príncipe Mithras, das Ilhas Britânicas, amigo pessoal do Pai, ainda que no passado tenham tido... desavenças.

Forseti não esperou a resposta de Rajmund. Desceu em direção à montanha, sem esperar que o visitante se recompusesse. Rajmund o seguiu, deixando o bosque para adentrar a planície. Ao mesmo tempo, Mithras se aproximava. Um peso, imenso, era sentido por Rajmund à medida em que se aproximava. Uma necessidade de adorar aquele homem, de cercá-lo de atenção e cuidados. De jamais desobedecê-lo, jamais desapontá-lo.




Era pequeno, Mithras. Talvez Rajmund o tenha imaginado mais alto, mais imponente. Era franzino, de aparência quase inofensiva. A pela era olivastra, contrastando com os olhos e cabelos escuros. Vestia um traje de viagem, com botas pujantes, calças escuras e um sobretudo pesado, de pele. Perto de Forseti, parecia um anão. Mas quando estava frente a frente com a dupla de Gangrel, sua presença era insuportavelmente impositiva, ainda que parecesse natural adorá-lo. Pouco a pouco, o peso começou a diminuir. Rajmund pensou se não seria um mecanismo usado inconscientemente por Mithras, todas as vezes em que encontrava alguém pela primeira vez.

Quando todos estavam parados, diante da montanha, Mithras sorriu. Era belo, aquele homem. Era magnífico.

- Retorno a Londres, Forseti, depois de produtiva conversa com o Pai de Todos. Levo comigo a convicção de que estaremos unidos e próximos nas noites que virão, quando as chamas da guerra causada por meus irmãos se abater sobre a Europa, pois é inevitável. Nos cabe aplicar a panaceia com força e decisão, mas evitar o que virá não está mais em jogo. Eigermann está de pé.

Olhou para Rajmund.

- É uma honra conhecê-lo, Rajmund Samiec. Teu nome cruzou terra e mar até chegar às Ilhas.
avatar
Mensagens : 65
Data de inscrição : 14/03/2018
Ver perfil do usuário

Re: Paris: A Mãe de Todas as Cidades.

em Sab Maio 05, 2018 8:16 pm
*Mesmo um pobre diabo afastado da civilização como Rajmund conhecia a lenda do Príncipe Eterno, o Ventrue que se mantinha no trono de Londres, e mesmo da Inglaterra desde tempos imemoriais. Rajmund não consegue pensar em como o Príncipe é pequeno, ou como sua aparência não condiz com sua fama. Esses pensamentos impuros, se por algum momento passaram na cabeça do Gangrel, evaporaram como neblina numa manhã de sol. Não havia um corpo à sua frente, mas uma figura, uma ideia. E quando ele fala de maneira tão elogiosa sobre Rajmund, ele se sente tamanho brilho dentro de si que não conseguia explicar. Era assim a sensação do sol sobre a pele? Ele não conseguia mais se lembrar.*

*Ele conseguiu, porém, se lembrar de que Erik, o Javali, um Gangrel jovial mas com uma tenacidade de titã vivia em Londres nas mesmas circunstâncias que Rajmund vivia em Paris. Talvez fosse por isso que o Príncipe dos Príncipes conhecesse seu nome. Isso e também monitorava com cuidado a atividade de seus irmãos.*


-V-você, digo, eu...

-A honra é toda minha, Senhor Príncipe. A lenda do Príncipe Eterno não é contida por um mar como a Inglaterra, e se espalhou por toda a Europa. Meu nome é pequeno demais para cruzar distância tão grande.
avatar
Mensagens : 433
Data de inscrição : 07/03/2018
Ver perfil do usuário

Re: Paris: A Mãe de Todas as Cidades.

em Dom Maio 06, 2018 5:04 am
Mithras sorriu diante das palavras de Rajmund. A força da Presença involuntária do Monarca havia se esvaído, mas ainda assim sua figura inspirava respeito e admiração. Mithras olhou para trás, para a montanha onde supostamente repousava Odin, antes de responder a Rajmund.

- Um de seus companheiros habita as Ilhas. Quando da sua chegada, fui instruído sobre as razões para o seu deslocamento até a Bretanha. O jovem Erik me contou em primeira pessoa sobre as vossas ações. Não cabe a mim julgar vossos motivos, os quais imagino serem bem fundamentados.

O Príncipe se aproximou de Rajmund. Era pequeno até em comparação ao polaco.

- Não sei se o tema que o traz até estas terras seja o mesmo que me impeliu a parlamentar com Odin, mas imagino que seja. O retorno de meus irmãos mais velhos. As progênies de Odin sentem a urgência e o chamado do Sangue de seu Senhor. Eu e o Pai de Todos combatemos um contra o outro há milênios atrás, mas quis o destino que estivéssemos do mesmo lado do campo de batalha neste momento.

Mithras olhou de relance para Forseti e depois para Rajmund.

- Eu e Odin decidimos algumas coisas em conjunto. A mais importante delas, como ele mesmo dirá, é também a decisão mais dramática. Nossos reinos colaborarão estreitamente com a Camarilla, depois de séculos de afastamento. É a única medida possível. Por isso, Rajmund Samiec, considerando que devo retornar às Ilhas o mais rápido possível, nos encontraremos novamente, possivelmente durante o próximo Conclave. Espero que tenhamos a possibilidade de trocar mais palavras e aprendizados.

Após a resposta de Rajmund, Mithras cumprimentou Forseti com um aperto de mão. Fez o mesmo com Rajmund. O Gangrel notou a força do Ventrue, imensa, ainda que seu corpo fosse franzino. Depois, o Príncipe Eterno se afastou, em direção ao bosque de onde tinham saído os dois Gangrel.

Rajmund continuou a se aproximar da pequena montanha. Era muito mais uma colina, possivelmente erigida graças a ação das tribos daquela terra para louvar Wotan, o Deus que os guiava em paz e em batalha, e que Rajmund sabia ser seu Ancestral. Na base da elevação, um pequeno túnel indicava que o Gangrel deveria caminhar em direção ao subsolo da montanha para encontrar seu progenitor.
avatar
Mensagens : 65
Data de inscrição : 14/03/2018
Ver perfil do usuário

Re: Paris: A Mãe de Todas as Cidades.

em Dom Maio 06, 2018 9:13 pm
*Quando Mithras conta a Rajmund sobre como conhecia seus feitos na Hungria, só pode dar de ombros e sorrir embaraçado.*

-Tremere, não é senhor? Me foi dito uma vez que não desagrada a ninguém quando eles morrem.

*Ele ouve com atenção o que Mithras tem a dizer sobre seus irmãos. Acima de tudo, era um alívio saber que este Príncipe se opunha igualmente contra a Fera de Três Cabeças. Ele se despede do Príncipe Eterno com um misto de alívio e profunda tristeza.*

-É bom que esteja na luta contra seus irmãos, senhor Príncipe. Muito bom, melhor que eu poderia torcer. *Ele sorri novamente com suas presas afiadas* Meus cumprimentos para Erik, se o ver. E... Ficarei feliz em ver o senhor de novo.

*Feitas as despedidas, ele desce o subsolo da montanha. O cheiro de terra é profundo ali, quase avassalador, e o Gangrel sentia os pelos da nuca se eriçando, como um cachorro ou lobo confrontado com uma ameaça invisível. Mas apesar de todos os sinais que seu corpo lhe enviava, sabia que estava em segurança. E ansiava pelo que estava à frente.*
avatar
Mensagens : 433
Data de inscrição : 07/03/2018
Ver perfil do usuário

Re: Paris: A Mãe de Todas as Cidades.

em Seg Maio 07, 2018 3:36 am
A escuridão, lentamente, abraçou Rajmund enquanto o Gangrel descia. O local era nada mais do que um túnel escavado na rocha, sem maiores decorações ou sofisticações. Não foi preciso avançar muito para que Rajmund percebesse que seria necessário utilizar sua visão sobrenatural, algo que fez sem hesitação. O túnel descia reto, sem curvas, em direção ao subsolo da montanha. No início Rajmund sentiu o perfume da terra e das raízes mas, depois, não havia mais nada. Era como um limbo. Suas sensações estavam suprimidas por falta de uso, causando um notório efeito de desorientação. Em pouco tempo, a parca luz da lua que entrava pela passagem, desapareceu, deixando o vampiro na mais profunda escuridão.

Então, veio o frio.

Era como estar em uma nevasca sem vento. O frio cortava a pele grossa de Rajmund e, ainda que o cainita fosse particularmente resistente, a temperatura o incomodava. Então, tão rapidamente quanto veio, o frio se foi. No seu lugar uma sensação de conforto, de tranquilidade. Rajmund avançou até perceber que alguma coisa iluminava o caminho diante dele. Quando se aproximou, percebeu que se tratavam de pequenos cristais que emitiam uma iluminação similar àquela da luz da lua cheia. Avançou pelo túnel de pedra, até perceber que ele terminava, abruptamente, em uma caverna.

O local era simples como o acesso a ele. Era um recinto quase redondo, mas irregular. Não havia nada ali. Nenhuma pintura rupestre, nenhuma escrita. No centro, uma pequena elevação de pedra com um esquife do mesmo material. Era rústico, feito com as mesmas pedras que compunham a montanha. Rajmund sabia, instintivamente, que Odin não estava dentro do objeto. Era simbólico, uma espécie de altar, onde os filhos do Matusalém poderiam buscar e congregar com a sua presença.

Acima do esquife havia um objeto, que Rajmund identificou como o chifre de algum animal. Era, visivelmente, valioso. Sua coloração natural era acrescida de faixas de ouro e prata que o circundavam, além de pedras visivelmente preciosas e uma tira de couro, provavelmente para possibilitar que o dono carregasse o objeto. Ele estava de pé, encaixado em uma fissura do esquife. Rajmund sentiu o cheiro de... cerveja. Ninguém mencionou, ninguém se comunicou. Mas o Gangrel sabia que deveria oferecer um tributo, como nos tempos antigos, ao Rei que desejava visitar.
avatar
Mensagens : 65
Data de inscrição : 14/03/2018
Ver perfil do usuário

Re: Paris: A Mãe de Todas as Cidades.

em Seg Maio 07, 2018 6:43 pm
*O frio, o silêncio... Rajmund sabia se tratar de uma forma de peregrinagem, ainda que reduzida, não diferente das feitas em homenagem a Cristo, mas tiradas de um mundo mais antigo e muito, muito mais implacável.*

*O chifre... o cheiro e a falta de furo em uma das pontas indicava que era feito para se beber, e a Rajmund era requisitada uma oferenda. Ele possuía apenas uma coisa para ofertar, e havia apenas um receptáculo para isso.*

*Com suas presas, ele abre o pulso, onde deixa sua vitae preciosa escorrer no chifre, reunindo o máximo de dignidade que conseguia para uma ocasião tão solene.*


-Somos feitos pelo sangue, transformados no que somos pelo sangue, desfeitos pelo sangue.

*O chifre começa encher lentamente. O cheiro da própria vitae misturada com a cerveja era inebriante.*

-O sangue nos faz humanos, nos faz mais do que humanos, não nos faz mais humanos.
avatar
Mensagens : 433
Data de inscrição : 07/03/2018
Ver perfil do usuário

Re: Paris: A Mãe de Todas as Cidades.

em Ter Maio 08, 2018 4:48 am
Rajmund depositou seu Sangue no chifre, observando enquanto ele se enchia até quase transbordar. O carmesim da Vitae se misturava ao amarelo da bebida mas Rajmund percebeu, com razoável surpresa, que o Sangue parecia sobrepujar a bebida. Em pouquíssimo tempo a cerveja havia se tornado inteiramente Vitae. Rajmund havia ouvido falar sobre os tesouros místicos dos Gangrel do Norte, pela boca de seu Senhor, e de como estes permitiam aos Gangrel causar menos dano aos mortais, preservando sua força e vitalidade. Aparentemente, era isso que fazia os vikings tão poderosos durante suas invasões. Isto e, obviamente, a devoção ao cainita que estava em algum lugar da caverna.

Rajmund depositou novamente o chifre sobre o esquife. Assistiu enquanto o líquido diminuía lentamente, como se alguém o estivesse bebendo. O Sangue, contudo, não escorria para nenhum lugar visível. Ao seu redor viu a caverna mudar: de um salão rústico escavado na rocha passou a ser algo diferente. O chão se tornou mármora branco, as paredes eram douradas e cheia de pinturas que retratavam guerras e celebrações. O teto parecia ter uma altura inimaginável, com enormes arcos e colunas a sustentar toda a estrutura. Não haviam móveis, somente o esquife permanecia, intocado, no centro do novo salão.

Era uma ilusão? Uma visão ou um sonho? Rajmund não saberia responder. No entanto, sentia-se pela primeira vez em muitos anos, em casa. Não a casa de seus pais mortais, durante a infância, ou a sua casa antes que embarcasse nas guerras em que lutou. Não, era um sentimento novo e diferente, que se intensificou quando uma voz trovejante ecoou no recinto.

- Eu te recebo, filho meu, pois esta é a tua casa ainda que jamais tenhas estado aqui. Eu te recebo, Rajmund Samiec.


Lá estava ele. De pé. Somente o esquife separava Rajmund de Odin, O Pai de Todos, soberano da Europa do Norte. Seus cabelos eram longos, brancos, confundindo-se com a barba. Os olhos eram de um azul muito claro, com as pupilas fendidas. O rosto como um todo era profundamente escandinavo, mas intensamente bárbaro, cheio de rugas e marcas de expressão. Rajmund viu o torso nu, branco como mármore. Talvez o fosse. Era musculoso, ainda que com uma proeminente barriga, sinal de que aproveitara bem seus dias como mortal, milênios atrás, quando os rios escavavam suas estradas. Haviam incontáveis cicatrizes. As mãos, pousadas sobre o esquife, eram estranhas como a de Rajmund. Longas e retorcidas, com unhas escuras e afiadas. Rajmund percebeu também que as orelhas eram pontiagudas, o pescoço relativamente mais grosso que o normal, os ombros excessivamente largos. Não obstante, aos olhos de Rajmund, era o ser mais harmônico que ele havia visto.
avatar
Mensagens : 65
Data de inscrição : 14/03/2018
Ver perfil do usuário

Re: Paris: A Mãe de Todas as Cidades.

em Ter Maio 08, 2018 12:42 pm
*Em suas viagens, Rajmund cruzara o caminho de diversos Príncipes, anciões, cainitas do mais elevado poder e estatura. Sendo o espírito livre que era, jamais se ajoelhara perante a nenhum deles. Agora, diante do Pai de Todos, pela primeira vez desde o seu Abraço sente esse ímpeto, e se ajoelha perante seu ancestral.*

-Ao nosso Clã é fadado andar sobre a terra, meu senhor. Mas nenhuma viagem é completa se não houver um lar para onde voltar.

*Ele olha nos olhos do Pai de Todos.*

-E sim, não há dúvidas. Estou em casa.
avatar
Mensagens : 433
Data de inscrição : 07/03/2018
Ver perfil do usuário

Re: Paris: A Mãe de Todas as Cidades.

em Sex Maio 11, 2018 9:06 am
Odin permaneceu sério. Rajmund percebeu que a imagem de seu Ancestral era translúcida, como se ele não estivesse ali. Na verdade, todo o ambiente parecia uma ilusão que só existia na cabeça do Gangrel. Rajmund, contudo, era velho o suficiente para conhecer parte dos Dons das Trevas, e imaginava que os cainitas mais velhos eram capazes de proezas como aquela.

A voz de Odin ecoou na caverna uma outra vez. Era forte e intensa como uma nevasca invernal.

- Imagino que sua peregrinação até este local se relacione com os sonhos que te acometem durante o dia. Provavelmente desejas saber a razão pela qual eles vem até você. Não tenho domínio da resposta. Alguns de minha linhagem manifestam tais capacidades, em especial aqueles com uma sensibilidade latente.

O espectro se mantinha imóvel, olhando fixamente para Rajmund.

- Meus inimigos se movem nas sombras. Sim, são meus inimigos todos aqueles que buscam suprimir a liberdade. Foram meus inimigos milênios atrás, quando minhas forças os enfrentaram nas praias da Europa Continental. Teu Sangue é filho do meu, e meus inimigos se tornam também seus. Tens escolha, porém. Podes se retirar e esquecer o que viveu até agora, e tais sonhos, com o tempo, deixarão de usá-lo como recipiente. Ou podes abraçar a guerra, em nome de teu Ancestral e daqueles que não podem se defender.

O espectro caminhou entorno ao esquife. Observou-o por alguns segundos.

- Alexandre de Paris, Erik Eigermann, o Germânico e Antonius o Galo criarão, ou tentarão criar, um Império. Não se submetem às leis que pactuamos, não as respeitam. Jamais consideraram ocultar suas existências dos olhos mortais, preferindo reinar sobre eles como déspotas imortais. Podes imaginar a consequência de tal ação nos dias de hoje? Apesar de não pactuar com a Camarilla, reconheço a necessidade do sigilo, como forma de proteger a nossa existência. O que se desenha no horizonte é uma Revelação que pode colocar em risco toda a raça cainita.

Parou. Olhou para Rajmund.

- Por isso é necessário destruí-los. Por isto você se encontra aqui, por isso te aguardávamos. Recuse a tarefa e lhe será permitido retornar ao continente. Aceite-a, e comandarás minhas forças quando o assalto final aos inimigos tiver lugar. Não há meio termo.
avatar
Mensagens : 65
Data de inscrição : 14/03/2018
Ver perfil do usuário

Re: Paris: A Mãe de Todas as Cidades.

em Sex Maio 11, 2018 12:18 pm
*Rajmund observa o ambiente efêmero ao seu redor. Tudo era irreal, ao mesmo tempo em que representava a realidade melhor do que ela própria. Ele olha para si mesmo. Cada parte de seu corpo que havia adquirido características animais estava mudado. Suas mãos se transformaram em cascos de auroque, suas pernas estavam inteiramente como as de uma águia, com as articulações invertidas, e sua boca tomava os contornos claros do focinho de um lobo. E ainda assim ele se sentia melhor. Mais pleno.*

*As palavras de Odin fluem direto em sua alma, sem a necessidade de uma língua. Era como se escutasse o próprio sangue falar. E ele sabia exatamente o que dizer.*


-Como eu poderia ser livre, Pai de Todos? Gostaria muito de dar as costas a este santuário e passar minha existência vagando as terras, descobrindo, experimentando, tudo isso. Tudo que mostra uma existência livre, como todos do nosso sangue valorizam.

-Mas eu vi a Fera. Alexandre olhou nos meus olhos, e eu vi a loucura ali. A loucura que estava presente quando ele tinha um amor mortal para controlar seus excessos. Não quero imaginar como será sua loucura se ele acordar agora. Antonius e Eigermann? Imagino que sejam iguais, se não forem piores.

-Eles precisam ser abatidos, como toda fera raivosa, e quem sabe mais sobre feras do que nós, os filhos da Besta? Precisamos ser livres, precisamos de um mundo livre, mesmo que a resposta para isso sejam os grilhões da Camarilla. Mesmo que signifique abrir mão da minha liberdade para lutar pela liberdade.

*Ele para por um momento, antes de dar sua resposta final.*

-Liderarei seu assalto, Odin, O Que Tudo Vê. E todos que ficarem no caminho do Clã Gangrel irão desejar nunca terem saído de seu sono.
avatar
Mensagens : 433
Data de inscrição : 07/03/2018
Ver perfil do usuário

Re: Paris: A Mãe de Todas as Cidades.

em Dom Maio 13, 2018 8:46 am
O Pai de Todos parecia satisfeito com a resposta de Rajmund, embora sua expressão facial não fosse traduzível facilmente. Limitou-se a observar seu descendente por alguns segundos, como se o analisasse, como se desejasse ter certeza de que Rajmund fosse realmente capaz de cumprir aquilo que havia garantido que cumpriria. Depois de alguns segundos, se pronunciou.

- Erik Eigermann já está de pé, com pleno domínio de suas faculdades, o que o torna um oponente formidável. Por isso mesmo deveremos focar as nossas atenções no inimigo que ainda está vulnerável mas, que ainda assim, é o mais instável de todos, ou seja, Alexandre. Nossos destinos foram ligados há séculos atrás, de forma que eu sou capaz de sentir suas movimentações. Não tardará até que ele perceba que está sendo monitorado, e é por isso que a nossa ação deverá ser veloz e efetiva.

O Pai de Todos fez uma pausa antes de continuar.

- François Villon, Príncipe de Paris, está em possessão de algo que pode facilitar no enfrentamento a Alexandre. Um objeto, uma rosa, que contém parte da essência de alguém que Alexandre amou acima de todas as coisas, e cuja morte foi responsável direta pela loucura que o atinge. É através deste instrumento que suas vulnerabilidades serão exploradas. Assegure-se de que Villon a entregue a ti, Rajmund Samiec.

Aproximou-se de Rajmund. Sua presença era imensa como as geleiras do norte, e tão inescrutável quanto.

- Nossas forças se reunirão, Rajmund Samiec, dentro de alguns dias, e seguirão para o Império Austríaco, onde aguardarão tuas ordens. Sim, tu serás o responsável por esta ação, e os louros do sucesso ou consequências do fracasso serão colhidas somente por ti. Devo alertar-lhe que encarnar a Minha Voz no continente o tornará alvo de inimigos que tu sequer sabes que existem.

Odin fez uma pausa dramática.

- E, para garantir que você tenha os meios necessários para realizar a imensa tarefa que é requerida de você, não resta outra alternativa a não ser reconhecê-lo como meu emissário. Tal reconhecimento, entretanto, exige sacrifícios. Notadamente daquele que ostentava o título antes de ti, Forseti. Ele deporá suas armas e amuletos, que serão utilizados por ti de hoje em diante. Seu sangue servirá para fortalecer o teu, de acordo com os velhos costumes e as velhas leis.
avatar
Mensagens : 65
Data de inscrição : 14/03/2018
Ver perfil do usuário

Re: Paris: A Mãe de Todas as Cidades.

em Dom Maio 13, 2018 7:11 pm
*Ele sente. Sente o peso das palavras, do olhar de Odin? Ou era mais? O peso da responsabilidade que lhe era confiada, o peso do medo, apertando seu coração morto. O que quer que fosse, ele sentia em seus ombros, no peito, em todo seu ser. As noites seguintes seriam diferentes de tudo que ele jamais vivera ou imaginara.*

-Conseguirei a rosa. Villon pode ter defeitos que eu não conheço, mas não sei de nenhum Cainita que tenha mais interesse em ver Alexandre destruído e impedido. E eu comandarei as tropas. As comandarei para a vitória ou para a morte, mas as comandarei bem.

-E inimigos? Nossa existência é feita de inimigos, Pai de Todos. Feita e definida por eles, e é só os derrotando que ficamos mais fortes.

*Havia um último assunto. Rajmund hesita, mas não poderia. Afinal, um general deveria ter coragem acima de tudo, não?*

-Sobre Forseti... É o desejo do Senhor que eu o consuma? Não vejo sabedoria nisso, se me perdoa a insolência. Seu poder e conhecimento seriam de grande ajuda, e perdê-los fora do campo de batalha um desperdício, Pai de Todos.
Conteúdo patrocinado

Re: Paris: A Mãe de Todas as Cidades.

Voltar ao Topo
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum