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Re: Istambul: A Cidade de Muitas Faces.

em Qui Abr 12, 2018 5:42 am
- Não se preocupe com esse detalhe, Al-Amin Bey. Meus servos farão a limpeza necessária. É uma pena que você tenha que partir, mas compreendo que o chamado do seu Clã seja prioritário. É uma pena que tenhamos conversado tão pouco, mas temo um longo tempo pela frente para expor nossas opiniões. Mantenha-me informado sobre os avanços nas investigações sobre a infecção.

Al-Amin percebeu que Ballestra se levantou da poltrona com uma certa dificuldade. Parecia debilitado, embora aparentemente não se desse conta deste fato. Conduziu o Assamita até a porta de sua residência ao mesmo tempo em que deu ordens para que os servos limpassem o sangue no tapete, no que foi imediatamente obedecido. Os olhos do Ventrue estavam opacos. As veias saltadas haviam retornado ao lugar, deixando marcas escuras na pele.

O carro de Al-Amin o esperava na entrada da construção. Passava da meia noite, mas o clima era ameno. Os habitantes de Istambul aproveitavam a trégua no frio do inverno para sair e passear pela cidade. O Assamita observou os restaurantes cheios, a música alta. No entanto, sentia uma sensação estranha na boca do estômago. Talvez fosse por causa da ansiedade, das decisões que precisaria tomar em pouquíssimo tempo. Talvez fosse uma intuição de que algo terrível estava por vir.

Cruzou o Estreito uma outra vez. As águas o portaram até o distrito onde habitava Ibn-Sayad e de lá a subida até a residência do ancião foi bastante veloz. A Al-Amin foi permitida a entrada sem muitas delongas e o Assamita sabia exatamente como chegar à sala onde o seu Ancião normalmente podia ser encontrado. Chegou até a entrada do recinto e notou Ibn-Sayad de pé. Estava diante de um grande e belo espelho de corpo, com detalhes em dourado e formato ovalado. Al-Amin observou que, onde deveria estar o reflexo de Ibn-Sayad, havia uma densa e escura fumaça. O dono da casa se curvou diante do espelho, em tom imensamente respeitoso. Depois, se girou em direção ao visitante. O espelho passou a refletir o ambiente.

- Fico feliz que tenhas atendido o chamado com celeridade.

Ibn-Sayad caminhou em direção ao Assamita mais jovem. Sua face era neutra, inexpugnável em seus sentimentos.

- Conduzi uma espécie de rastreamento, se assim posso defini-lo. Meus sentidos me levaram até o local onde esta infecção foi, digamos, invocada. Como era de se esperar, não é algo natural. Foi trazida até aqui. Por mãos muito específicas, mas sobre as quais eu ainda sei muito pouco.

O Ancião se sentou no degrau da escada. Convidou Al-Amin a fazer o mesmo.

- De qualquer forma, existe um traço muito interessante. Há uma espécie de senciência na infecção. Como se buscasse ativamente, e da melhor forma possível, cumprir o papel que lhe foi confiado. E esse papel é a supressão do Clã Ventrue em Istambul e, quem sabe, em outras partes do mundo. Sobre o local onde foi invocada e as desconfianças que temos sobre o culpado, nada te será dito por agora. Temo que as dimensões do evento sejam demasiadamente grandes para você e até mesmo para mim. O Ninho já foi avisado.
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Re: Istambul: A Cidade de Muitas Faces.

em Qui Abr 12, 2018 11:32 am
Al-Amin sorri para Ballestra ao se despedir.

- Também lamento que tenhamos que interromper nossa conversa abruptamente. Mas é o que dizíamos minutos atrás: devemos respeitar nossos anciões. Nossa Família é tudo o que temos nessa Longa Noite que é a não-vida.

O cansaço de Carlo Ballestra era notável. Al-Amin não conseguia deixar de se compadecer. Quando estava prestes a sair pela porta da mansão, se deteve por um momento. Virou-se para trás, olhando o Ventrue uma última vez.

- Se me permite, Ballestra Bey, gostaria de dar-lhe um conselho. Caso ainda não tenha tido a misericórdia de encerrar o sofrimento de Elio, peça que alguns dos seus servos mortais o faça. Creio ser uma medida de segurança para sua saúde. Eu também evitaria, ao menos nas próximas noites, a exposição pública.

Soltou um riso abafado antes de continuar.

- Sei que isso pode parecer demais, mas todo o cuidado é pouco. Eu lamentaria muito não poder continuar nossas conversas nas noites que virão.

Al-Amin faz uma reverência e entra em seu carro. No caminho, ponderou se o conselho dado a Ballestra era apenas para preservar o corpo que Antonius usava para se fazer presente. Não, concluiu. O matusalém daria algum jeito de continuar agindo. Ballestra, ao contrário, corria riscos reais. De fato, preocupava-se com ele. Gostaria que tivessem se conhecido em tempos mais tranquilos. Enquanto olhava Istambul passar pela janela de seu carro, perguntou-se quantos Cainitas, ao longo da existência de toda a sua espécie, puderam se dar ao luxo de chamarem outro vampiro de “amigo”. Se o início da Maldição de Caim se deu pelo assassinato que este cometeu contra o próprio irmão, estariam seus descendentes fadados a nunca conseguirem construir laços verdadeiramente fraternos?

Al-Amin fechou os olhos com uma certa força, para evitar que uma lágrima de sangue escorresse. Ao abrir os olhos e fitar a cidade, disse em voz baixa.

- Pelo menos ainda tenho a ti, Istambul.

Ao chegar na residência de Ibn-Sayad, Al-Amin aguardou enquanto o feiticeiro saisse da frente do espelho. Ainda que tivesse total confiança na casta, sabia que seus métodos sempre o assustavam. Sentiu um certo alívio ao olhar para a superfície lisa e ver apenas a si mesmo.

- Salaam Aleikum, Ibn-Sayad. Vim o mais rápido que pude.

Al-Amin sentou-se na escada, tal como indicado pelo ancião. Seus sentimentos eram ambíguos, por mais assustadores e misteriosos que os feiticeiros sejam, o vizir se sentia confortável na presença de Ibn-Sayad. Era como se parte de seus problemas se levantassem um pouco dos seus ombros quando estava na presença dele, dentro daquelas paredes. Comparava com a sensação de estar em uma Madrasah, uma escola, diante de um sábio e rigoroso professor.

Qual foi sua surpresa, porém, quando ouviu que não receberia mais informações a respeito da infecção. Al-Amin procurou esconder sua frustração. Não era a primeira vez que sua Família agia dessa forma, filtrando a informação que chegaria até ele. Sabia que era o modo como agiam, mas não conseguia deixar de se frustrar.

Ficou alguns segundos quieto, olhando para o chão de mármore aos seus pés. Quebrou o silêncio perguntando.

- O que Alamut quer que eu faça agora? Parte considerável da população Cainita de Istambul está em perigo iminente. O antigo Triumvirato da cidade foi substituído por um tripé sustentado por nós, pelos Ventrue e pelos Toreador. Se uma das colunas cair, entraremos em um desequílibrio. Não podemos nos deixar que isso aconteça agora, diante da iminência de uma grande guerra. O próprio Príncipe corre perigo, Sid Sayad!
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Re: Istambul: A Cidade de Muitas Faces.

em Sex Abr 13, 2018 5:37 am
Ibn-Sayad se manteve sereno. Olhava no fundo dos olhos de Al-Amin, suas pupilas alaranjadas, grandes como a de um animal, escrutinando o Assamita mais jovem. Depois, olhou para as fórmulas escritas na parede branca.

- Eu compreendo sua aflição, Al-Amin. Tua devoção por Istambul é inspiradora e gera em ti preocupação sobre o futuro, uma vez que a cidade está, de fato, ameaçada.

O Ancião se levantou.

- Não está ainda claro o que Alamut deseja de você. Independentemente disso, você será essencial no que quer que Alamut determine como caminho a ser seguido pelo Clã em Istambul. Entretanto, você não é Alamut, ainda que sua lealdade à Montanha seja incondicional. Você é uma dimensão individual da vontade do Pai, pois todos somos. Nosso Sangue nos guia, nos impedindo de agir em desconformidade com o que Ele deseja. Seu amor por este lugar é uma expressão do amor Dele pelo mundo, pelas obras e pela civilidade. O que será mais importante para você, quando a hora chegar? Alamut ou Istambul? Não importa. Não há nenhuma incompatibilidade, se você pensar em si mesmo como expressão da Sua Vontade.

Ibn-Sayad se aproximou dos escritos na parede. Passou a mão sobre uma passagem, apagando-a. Depois, escreveu uma outra coisa. O significado ainda era oculto para Al-Amin.

- É muito interessante que você tenha falado do Triunvirato. Você sabe que aquele modelo decaiu em razão das ambições dos Ventrue, não é? Em razão das ações das progênies de Antiorix, que decidiram pela sua destruição. Os descendentes destas progênies, como Mustafá, ocupam um lugar usurpado, manchado com o sangue de seu Ancestral. Qual a razão de defendê-los agora, quando o inevitável bate às suas portas? Não devem pagar pelo crime que cometeram há mais de um milênio atrás? São perguntas para as quais eu não tenho resposta, assim como você provavelmente não tem.

Com o canto do olho, Al-Amin percebia que o espelho voltava, lentamente, a tornar-se opaco. Era como se uma nuvem de tempestade estivesse se formando dentro do objeto. Tons de cinzas claros e escuros se mesclavam em um turbilhão e o Assamita jurou, por um segundo, ter visto um clarão de relâmpago. Ibn-Sayad continuava sereno como sempre.

- Eu sugiro que as suas dúvidas, angústias e amores sejam explicadas a ele, de forma que ele te conduzirá pelo caminho dos justos.

Ibn-Sayad apontou para o espelho.

- Vou deixá-los à sós.

Havia um brilho dentro do espelho. Em meio à tempestade, havia um farol. Era um brilho branco e intenso, como o de um diamante que reluz à luz do sol do meio dia.
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Re: Istambul: A Cidade de Muitas Faces.

em Sex Abr 13, 2018 5:00 pm
Al-Amin olhou para o espelho com desconfiança. Voltou a olhar para Ibn-Sayad, arqueando a sobrancelha, mas não esperava nenhuma reação do feiticeiro. Caminhou lentamente em direção ao objeto, sem saber muito bem o que - ou quem - esperar. Como já havia pensando quando chegou ali nesta noite, os métodos dos feiticeiros o assustavam.

Parou de pé em frente ao espelho e baixou a cabeça. Fez o que sua intuição mandava, apesar de sentir-se um pouco encabulado em dirigir-se a algo - ou alguém - sem rosto e sem nome.

- Salaam Aleikum. Allah seja louvado e abençoe Haqim e todos aqueles que descendem do seu sangue. Seu servo Aziz Al-Amin se apresenta, da casta dos Vizires, Progênie de Ibrahim Al-Mufarrej, Progênie de Tegyrius, Vizir do Alamut, Progênie de Anath, Progênie de Haqim. É com honra e lealdade que sirvo ao Conselho dos Pergaminhos, dedicando-me àquele que ocupa o Assento de Vento e Pedra.

- É com dúvida e medo que venho até aqui. Al-Amin tenta olhar o espelho, mas tem dificuldade devido ao brilho que emana, fazendo-o franzir os olhos. Minha não-vida vem se orientando por dois princípios: minha lealdade ao Alamut e meu amor por Istambul. Tenho inúmeros motivos para acreditar que essa cidade é uma das grandes obras de nossa Família. A Camarilla pode pensar que domina Istambul, mas penso que somos nós que ditamos as regras aqui. Ademais, para além de Istambul, o Império Otomano é nosso grande instrumento de influência na política mortal neste século que se inicia.

- Esse mesmo Império está repleto de falhas e problemas. Ele oprime mortais e os destitui de sua identidade e liberdade. Ele retira jovens do seio de suas famílias e os coloca para lutar guerras que não são suas. O Império é sanguinário e ganancioso. Posso continuar com uma longa e fundamentada lista de tudo o que reprovo nessa obra. Mas uma tempestade se aproxima, exigindo que a solução desses problemas seja postergada.

- A Europa entrará em guerra. Essa guerra baterá em nossos portões. Nosso único abrigo contra os Ocidentais - e aqui me refiro aos vivos e não-vivos - é esta casa. E dentro dessa casa que construímos está essa cidade que tanto amo. Istambul é maior que o Império Otomano, mas precisa dele para se proteger. Eu farei o que estiver ao meu alcance para proteger Istambul da tempestade.

Al-Amin pausa por um momento. Estava despejando palavras sem pensar muito no que estava falando. Elas vinham da maneira que estava seu coração: confuso.

- Istambul vive em um equilíbrio tênue. Aqui diferentes Familias encontram seu lar, tal como mortais das mais diversas estirpes. Istambul não é um local de paz, mas possui uma harmonia dinâmica e conflituosa, tal qual o princípio da Vida. É isso que torna Istambul tão maravilhosa. Suas mil faces que se encaixam e desencaixam, formando uma incrível máscara. Porém, em momentos tempestuosos, onde o caos se avizinha, a qualquer alteração nessa dinâmica pode nos levar à desgraça.

- Há algumas noites, uma terrível infecção invadiu nossa cidade, tal como já é de seu conhecimento. Essa infecção tem potencial para desestabilizar as relações Cainitas - e mortais, por consequência. Não precisamos disso agora. Não quando já teremos o caos da guerra para administrar. Penso que deveríamos agir para evitá-la.

Proteger Istambul da guerra. Controlar a praga que colocava os Ventrue em risco. Já havia falado dois dos três temas que tinha em mente. Agora viria o terceiro, o mais especial de todos. Al-Amin fez o possível para olhar o espelho, mantendo a cabeça reta.

- Existe um terceiro ponto que me perturba. Antonius, o Matusalém Ventrue está ativo e comunicando-se regularmente comigo. Ele ainda repousa em torpor no mesmo local onde foi colocado por nossa Família, mas de alguma forma conseguiu se apossar do corpo de um dos seus descendentes: Carlo Ballestra. Ele pede minha ajuda para ser libertado de sua condição, assim como quer ser orientado a respeito de um tempo que ele pouco conhece.

- O que aqui exponho é minha experiência e meus julgamentos iniciais. Mas, como eu disse, minha lealdade está com os Filhos de Haqim. Minhas opiniões serão aquelas dos Filhos de Haqim. Meu curso de ação será aquele dos Filhos de Haqim. Como devo proceder?
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Re: Istambul: A Cidade de Muitas Faces.

em Sab Abr 14, 2018 6:34 am
O espelho, ou quem quer que estivesse por detrás dele, não se manifestou enquanto Al-Amin expunha suas preocupações. Foi somente quando ele terminou que as nuvens escuras pareceram se mover. Em pouco tempo, giravam intensamente, como num tornado ou turbilhão. O brilho diamantino ao fundo, porém, permanecia. Quando as nuvens se separaram, Al-Amin viu de imediato a figura de um homem de pé.

Era alto e atlético. Sua pele era de uma tonalidade de ébano, coberta por um manto branco e dourado que lhe dava um ar de autoridade. O rosto era visivelmente africano, com olhos castanhos e nariz largo, além de lábios grossos e igualmente escuros. O homem era conhecido por Al-Amin. Ali, diante dele, estava Tegyrius, seu Ancestral.

Mas, não era tudo. Tegyrius estava de pé em um salão de pedra rústica quase que completamente vazio, não fosse um torno ao fundo. Sobre ele, repousava uma silhueta, oculta nas sombras. Era dele que provinha o brilho diamantino e, percebendo o formato da silhueta, sabia que aquele brilho era de um olho. O jovem Assamita soube imediatamente de quem se tratava, ainda que não conseguisse ver detalhas do rosto.

- Salaam Aleikum, Aziz Al-Amin, Sangue do meu Sangue e fruto da minha carne. É uma honra e privilégio encontrar em boas condições alguém da minha descendência nestas noites tumultuosas. Nos observa Al-Ashrad - apontou para o trono - o Maior Feiticeiro do Mundo, aquele que quebra montanhas e divide os céus.

O homem se mantinha parado como uma estátua enquanto falava. Havia, porém, em seu rosto, algo familiar a Al-Amin. Era uma sensação de paz e tranquilidade que não sentia desde seus dias como mortal, quando caminhava pelos campos e se deixava banhar pela luz do sol.

- Alamut compartilha de suas preocupações. Há anos recebemos informações sobre os Filhos que habitam Istambul e o Império, e as conclusões são as mesmas que as suas: a Guerra chegará ao Império. As conclusões de Alamut, porém, vão além. Acreditamos que as forças que governam Istambul, o Príncipe Mustafá incluso, entregarão o Império à violência e autoridade do Ocidente. Esta obra magnífica que é o Império Otomano terminará em cinzas, com a cidade que tanto amas reduzida a pó.

- Alamut concorda contigo quando dizes que o Império é a nossa casa. É através dele que a nossa descendência influencia o mundo. É nosso dever absoluto proteger e manter os nossos muros erguidos. Alamut não compartilha do teu amor pela cidade por razões óbvias. Nossas observações são políticas e, felizmente para você, estão de acordo com as tuas. Isso facilita a tua existência, se desejar entender desta forma.

O homem não expressava nenhum sentimento enquanto falava. Al-Amin jurou que, por um segundo, a silhueta de Al-Ashrad se moveu no trono. Tegyrius interrompeu sua fala, como se ouvisse algo. Concordou levemente com a cabeça. Depois, tornou a falar.

- A infecção que aflige Istambul é obra daqueles que, sendo contrários ao Príncipe Mustafá, pois não desejam a guerra, aceitaram auxílio de forças obscuras para subverter a lógica de poder do Império. Rebeldes do Clã Brujah, agitadores e iconoclastas, se organizam no submundo de Istambul, tramando para destroçar o Principado. São meros peões, contudo. Por detrás deles uma força demoníaca age nas sombras, tramando para entregar o Império às forças corruptoras e destruidoras do Oeste. Esta força atende pelo nome de Maria, A Negra.

O homem no trono se levantou. Deixou as sombras enquanto se aproximava do espelho e Al-Amin viu sua pele estranhamente branca, quase em tom de mármore. Os cabelos, ralos, caiam-lhe soltos pelos ombros. Tinha uma aparência cansada e rugas cortavam sua face. Faltava-lhe um braço. Faltava-lhe um olho, substituído por um diamante. Mas, não lhe faltava poder e autoridade. Mesmo a quilômetros de distância, Al-Amin sentiu um imenso peso em seus ombros à medida em que Al-Ashrad, com sua voz rouca, lhe falou.

-E agora você nos traz a última peça do quebra-cabeça. A sobrevivência de Antiorix. Em minha cabeça, as peças se vinculam umas às outras, formando um mosaico de tragédia. Me é óbvio que, sabendo que Antiorix seria o único que, juntamente à nossa Família, impediria a degradação de Istambul, que Maria deseje destruí-lo. Exatamente como fez com Mi-Ka-Il séculos atrás.

Al-Ashrad se aproximou do espelho enquanto Tegyrius se afastava. O diamante que era seu olho parecia ler a mente de Al-Amin. Depois de segundos em silêncio, sentenciou.

- Alamut decide que, em virtude da ameaça ao Império Otomano, intervirá. As forças do Ninho da Águia cairão sobre Maria, A Negra, como deveríamos ter feito séculos atrás. A expurgaremos e limparemos o solo de Istambul. Contudo, Alamut também decide que o reinado de Mustafá chegou a fim.

Fez uma última pausa. Sorriu, um sorriso estranho que fazia com sua face se tornasse uma careta.

- Por último, Alamut decide que será Aziz Al-Amin, munido de seus conhecimentos sobre as relações e as tramas que afetam Istambul, que decidirá a quem os Filhos de Haquim apoiarão para a sucessão ao trono. A palavra de Aziz Al-Amin deverá ser respeitada e cumprida por toda Istambul e por todos os Filhos de Haquim, onde quer que estejam.
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Re: Istambul: A Cidade de Muitas Faces.

em Dom Abr 15, 2018 10:33 am
Al-Amin sentiu no corpo o peso daquele momento que estava vivendo. Através do espelho, tinha diante de si dois dos três representantes do Du’at. Tegyrius, Vizir do Alamut, sangue do seu sangue. Se hoje ele é um Filho de Haqim, Tegyrius é uma das razões para tal. Quanto ao Amr, Al-Ashrad, o que mais poderia dizer? Se hoje os Filhos são o que são, em parte é por consequência do poder de Al-Ashrad. Por ele Al-Amin sentia uma profunda admiração e temor.

Estar diante do Vizir e do Amr lhe dava as mesmas sensações que tinha quando visitava o refúgio de Ibn-Sayad, porém elevadas à uma potência imensurável. Era como retornar ao seu lar. Sentia-se protegido. Fazia parte de algo maior do que si. Era um pequeno nó em uma intrincada rede na qual ninguém menos que Haqim era o centro.

Honra. Esse era o sentimento. Honra em ser um Filho de Haqim e em ter depositada em si a confiança do clã. Al-Amin sentiu-se respaldado quando ouviu que parte das suas opiniões pessoais eram as mesmas de sua Família. Percebeu quando Al-Ashrad decidiu que aquele humilde vizir era digno o suficiente para receber informações de tanta importância.

Mesmo com todo o respeito demonstrado nas palavras que lhe foram ditas, Al-Amin não esperava o pedido final que lhe foi feito: apontar aquele que seria a escolha dos Filhos de Haqim para o Principado de Istambul. A frase lhe caiu como um misto de sentença, teste e missão a ser cumprida. Era um fardo de grande responsabilidade, mas também um voto de confiança. Se escolhesse com sabedoria, poderia ser agraciado com a honra da Família e, quem sabe, futuramente assumir o desejado Assento de Vento e Pedra no Conselho dos Pergaminhos. Uma escolha errada, contudo, o colocaria em desgraça e eventualmente levaria sua amada cidade à ruína.

Al-Amin ponderou bastante antes de emitir qualquer resposta, pouco se importando com o silêncio que se instaurou. De pé, mantinha a mão no queixo e balançava a cabeça, como se fosse este o movimento que movia seus pensamentos. Por fim, calculou todos os fatores que tinha em mente e disse, olhando para o espelho.

- Eu sou grato pela confiança depositada em mim pelo Alamut. Cumprirei meu dever diligentemente. Eu já poderia apontar um nome de imediato, mas isso seria precipitado. Se me for permitido, precisarei de algumas noites, talvez duas, talvez três, para lhes dar uma posição. Mas não mais do que isso, pois o tempo corre e, acreditando em vossas palavras, a fraqueza de Mustafah colocará a todos nós em risco.

- Quanto à Caçada que se iniciará contra Maria, a Negra, coloco-me à disposição para servir aos nossos guerreiros. A capacidade deles em eliminar a ameaça da infecção influenciará as ações que devem ser tomadas.

Ponderou mais um pouco. Estando o Amr e o Vizir presentes ali, sentiu que poderia dizer o que pensava.

- Sabem que tenho todo o respeito pela casta dos Guerreiros e entendo o seu valor, mas arrisco dizer que a guerra que se aproxima é um conflito para os Vizires e Feiticeiros. Não digo isso por vaidade, mas por saber que os atores que se posicionam para a briga o fazem pela política e pela tecnologia. São elas que determinarão as armas e as estratégias. Os guerreiros estarão no campo de batalha, é claro, mas nós precisaremos assumir o protagonismo das decisões.

Pensou em Antonius

- Por fim, devo dizer que Antonius me informou a respeito do seu refúgio. Não me revelou sua localização, mas disse que é a magia de nosso clã que o protege. Disse também que um aliado o protege. Ele pede nossa anuência pra ser desperto. Pessoalmente, ainda não sei se este é o momento para fazê-lo. Precisamos ter mais controle sobre os próximos fatos antes de colocarmos um jogador tão poderoso para caminhar livremente no tabuleiro. Contudo, novamente afirmo que esta é uma decisão que cabe ao Alamut.
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Re: Istambul: A Cidade de Muitas Faces.

em Seg Abr 16, 2018 4:46 am
Al-Ashrad, o Imutável, permanecia de pé diante de Al-Amin. Quando o jovem terminou suas observações, girou-se para observar Tegyrius por poucos instantes. Parecia haver uma comunicação silenciosa entre os dois, algo que os Anciões não faziam questão de disfarçar.

- Eu protejo Antiorix, O Galo. É somente pela minha vontade que seu refúgio permanece inviolável, frustrando a tenacidade de seus inimigos em encontrá-lo. Somente com a minha anuência qualquer cainita seria capaz de localizá-lo e despertá-lo. Com a minha anuência e a sua decisão, Aziz Al-Amin.

O olho diamantino brilhava com uma intensidade que fazia com que calafrios percorressem a espinha de Al-Amin.

- Istambul é responsabilidade de Ibn-Sayad. Contudo, em pouquíssimo tempo, este deverá retornar para o Ninho da Águia, por razões particulares. É de nosso interessa que Istambul e o Império permaneçam intactos e protegidos e o Alamut exige que você comece a tomar as rédeas das decisões. Seja bem sucedido e o Clã será bem sucedido. Falhe, e o seu retorno ao Alamut será inevitável.

Al-Amin poderia jurar que Al-Ashrad estava sorrindo. A face, contudo, era um segredo inviolável.

- Nós falhamos, séculos atrás, e ainda colhemos o fruto desta falha. Maria conseguiu nos ludibriar por tempo suficiente. É hora que nossas forças caiam sobre Istambul, eliminando esta ameaça de uma vez por todas. Providências já foram tomadas, antigos inimigos de Maria já foram convocados. Tua presença será, sim, essencial ao guiar nossos guerreiros. Como eu disse, tua é toda a responsabilidade. E tua será toda a honra e glória. Nos dias porvir, um aliado virá a visitar-te. Alguém com uma acurada percepção do que representa Maria, A Negra. Seu nome é Levi. Ouça atentamente sua opinião.

Al-Ashrad olhou uma segunda vez para Tegyrius.

- Tenha também em mente que possivelmente o maior inimigo de Maria é, justamente, Antiorix. Dele foi tirado tanto. Lhe foi tirada sua cidade e seu amante.

O Maior Feiticeiro do Mundo fez uma breve pausa antes de continuar.

- Enquanto a instabilidade de Istambul durar, este espelho deverá ser realocado em teu refúgio. Ibn-Sayad lhe orientará por mais alguns meses antes de deixar o Império. Eventualmente, você prestará contas diretamente a Tegyrius, teu Ancestral. Será ele quem será o teu tutor quando a responsabilidade pelos Filhos de Haquim em Istambul estiver em tuas mãos.
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Re: Istambul: A Cidade de Muitas Faces.

em Seg Abr 16, 2018 11:45 am
Al-Amin ouviu em silêncio as novas informações de Al-Ashrad. Sentia aumentar o fardo de sua posição. Sempre se enxergou como um indivíduo de suporte, nunca um protagonista nas ações de seu clã. Agora, o destino de um dos bastiões dos Filhos de Haqim, sua amada Istambul, fora colocado em suas mãos pelo próprio Du'at. Era uma honra, sem dúvidas. Mas Al-Amin se recordou das histórias sobre a severidade com que o próprio Haqim punia as falhas derivadas da preguiça e da estupidez. Há mais de uma década não subia as encostas do Alamut. Retornar como reprimenda não era o motivo que gostaria para realizar sua próxima viagem ao Ninho.

Al-Ashrad havia incubido Al-Amin até mesmo de decidir sobre o despertar de Antonius. Sobre isso, manteve o que disse antes.

- Então esperemos algumas noites. Sabendo que sua rival Maria continua espreitando e busca sua Morte Final, gostaria muito que Antonius só despertasse após a eliminação desta. Caso tal tarefa leve mais tempo do que precisamos para conduzir os fatos, irei rever minha decisão.

- Sobre Maria, assumo a tarefa de orientar os guerreiros encarregados de sua Morte Final. Levi, ou qualquer outro indicado pelo Alamut, poderá repousar em meu refúgio, se assim o convier.

Al-Amin desvia o olhar do espelho, verificando se Ibn-Sayad estava na sala.

- Ibn-Sayad conduziu sua tarefa em Istambul com diligência e responsabilidade. A ele sou grato pelos anos de orientação e pela sabedoria que nunca me negou. Mas será uma honra ter meu Ancestral, Tegyrius, como superior imediato. Levarei o espelho, tal como orientado.

Voltou a olhar para Al-Ashrad e Tegyrius pelo espelho.

- Peço que mantenham a confiança nos meus métodos para as próximas noites. Precisarei conversar com todos, entender suas expectativas e discursos. Isso inclui aqueles cujos interesses divergem dos nossos.
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Re: Istambul: A Cidade de Muitas Faces.

em Seg Abr 16, 2018 3:27 pm
Al-Ashrad parecia satisfeito. Seu olho diamantino não parecia mais perscrutar o espírito de Al-Amin. Fez uma brevíssima reverência, mas extremamente respeitosa, ao Assamita que estava em Istambul. Depois, afastou-se do espelho, cedendo lugar a Tegyrius. Ibn-Sayad havia se levantado e caminhado até a mesa de madeira. Abre uma gaveta e retira um pequeno tomo empoeirado. Se dedica a retirar, com esmero, a poeira do livro.

A atenção de Al-Amin volta a Tegyrius, quando ele se pronuncia mais uma vez.

- Sim, os guerreiros irão repousar em sua residência. Não por precisar se proteger. Mas para manter em proteção Levi. Este é um outro aspecto, a proteção deste visitante é extremamente importante. Ele pertence a uma extirpe antiga e extinta, a dos Filhos de Saulot. Seu Senhor, Qaphsiel, O Vingador, é um amigo pessoal e eu jurei proteger sua cria na sua ausência. Não obstante, é um guerreiro habilidoso, que tem meios para rastrear a nossa inimiga. Eu te saúdo, Aziz Al-Amin sangue do meu sangue e carne da minha carne. Virão os tempos, mais tranquilos, onde conversaremos amenidades e aprenderemos um com o outro. Mas o momento, agora, é de preparo e vigilância.

E, dizendo isso, as nuvens pesadas tomaram o espelho em um turbilhão intenso. Desapareceram, depois, deixando somente o reflexo de Al-Amin.

Ibn-Sayad se aproximou lentamente, com o livro em mãos. Entregou-o a Al-Amin com profunda reverência.

- Este tomo servirá a você, Al-Amin. As instruções contidas nele lhe permitirão avançar sozinho nas Artes do Sangue. Na minha ausência, você precisará avançar teu conhecimento, se quiser que Istambul sobreviva. Se você quiser sobreviver. Cuidado com o mensageiro, ele porta a desgraça. Estou orgulhoso de ter a ti como sucessor, Al-Amin.
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Re: Istambul: A Cidade de Muitas Faces.

em Ter Abr 17, 2018 12:46 am
Al-Amin retorna a reverência de Al-Ashrad. Quando recebe a última mensagem de Tegyrius, responde.

- Os guerreiros serão bem recebidos, Mestre Tegyrius. Dedicarei-me para que o Filho de Saulot, seu protegido, tenha tudo o que precisa enquanto estiver sob meu teto e em nossos domínios. E que esses tempos de tormenta passem rápido, para que eu possa sentir-me agraciado com sua companhia. Por ora, terei a honra de estar ao seu serviço.

Ele despede-se de seu Ancestral. O peso do fardo se misturava à excitação pelas noites que estavam por vir. Em poucas noites, ele deixou de ser um espectador da política istanbulita, para se tornar uma peça importante na rede.

Al-Amin vira-se para Ibn-Sayad, pegando com cuidado o livro que recebia. Ele olhou os detalhes da capa, passando a mão para sentir a textura do material. Segurando o tomo com as duas mãos, ele faz uma respeitosa reverência ao Feiticeiro.

- Recebo como presente aquilo que sei ser na verdade um dever, Sid Sayad. Eu o cumpro por ser minha obrigação como Filho de Haqim, mas também para honrar tudo o que fizeste por mim. Espero poder encontrá-lo novamente, para falarmos sobre os tempos em que estivemos juntos. Que seus próximos passos sejam iluminados por Allah, O Generoso.

Ao concluir, a Humanidade dentro de si falou mais alto, levando-o a beijar Ibn-Sayad na testa, tal como os mais novos demonstram respeito e carinho pelos mais velhos no Levante. Pensou nas últimas palavras que acabaram de ser proferidas pelo Feiticeiro. Sabia que muito do que ele dizia permanecia no ar. Não esperava uma resposta conclusiva, mas mesmo assim, decidiu perguntar com um sorriso.

- Que mensageiro é esse que menciona?

Tendo ou não uma resposta, Al-Amin prepara-se para partir. Ele irá pedir que seu criado o ajude a transportar o espelho para o carro. Deixaria-o em casa para, em seguida, se houver tempo, prosseguir para uma encontrar uma última pessoa naquela noite: Vashtai.
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Re: Istambul: A Cidade de Muitas Faces.

em Ter Abr 17, 2018 4:57 am
Ibn-Sayad deixou que Al-Amin o beijasse na testa e retribuiu o gesto do jovem com um abraço. Era estranho ver Ibn-Sayad, normalmente esotérico e abstrato, expressar-se daquela forma. Desejou boa sorte a Al-Amin e respondeu a sua última pergunta.

- Eu não sei quem é o mensageiro. Lhe repito apenas as palavras que me sopram o vento.

Antes que Al-Amin deixasse a sala completamente, Ibn-Sayad já havia retornado aos seus cálculos. Faria falta aquele pequeno homem, com sua expressão curiosa e seus ensinamentos enigmáticos. O carro esperava Al-Amin na entrada da casa. Passava da meia noite, mas a noite ainda não havia chegado ao fim.

O Assamita conhecia a localização do refúgio de Vashtai. A Toreador habitava o distrito de Samandira, do outro lado do Estreito. Cruzá-lo foi simples como sempre. Al-Amin percebeu o quanto Istambul parecia calma naquela noite, claramente o silêncio que precede a tempestade. O carro cruzou as ruas da cidade enquanto o Assamita pensava em Antonius, no Alamut e na sua nova posição no tabuleiro que era a cidade.

Samandira se descortinou aos seus olhos em certo momento, e o motorista seguiu à risca as instruções do cainita, alcançando o refúgio de Vashtai. Era uma residência na porção central do distrito, grande mas não suntuosa. Não dispunha de jardins ou portões, o acesso à rua era direto. Lembrava uma curiosa mistura entre o ocidente, com sua fachada alta e um andar superior repleto de janelas, com o oriente, dados os arcos tipicamente islâmicos e os azulejos que podiam ser vistos, através das janelas térreas, a decorar as paredes internas. No alto, uma grande varanda se estendia de ponta a ponta. Toda a construção era imaculadamente branca com detalhes em dourado. Um cheiro doce de incenso atingia as narinas de Al-Amin.

Bateu à porta e não demorou a ser atendido por um servo, um homem de meia idade com um ar sábio e nariz visivelmente torto. Diante do anúncio do Assamita, conduziu-o porta adentro. Pediu para que ele esperasse em um salão de recepção notadamente amplo, mas parcamente decorado. Alguns quadros compunham o ambiente, mas nada além disso. O servo subiu as escadas, provavelmente para anunciar a chegada do Assamita.

Não demorou muito e Vashtai surgiu na parte superior das escadarias. Era um mulher alta e esguia. Vestia um longo vestido branco, de seda, que deixava à vista suas curvas longilíneas. A pele negra contrastava com a brancura da indumentária. O rosto era fino e elegante, com grandes olhos castanhos que lhe davam uma expressão jovial. No rosto, pequenas tatuagens chamavam a atenção. Os cabelos estavam escondidos sob um turbante amarelo amarrado com esmero.

- Salaam Aleikum, Al-Amin Bey. É um prazer recebê-lo em minha casa.
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Re: Istambul: A Cidade de Muitas Faces.

em Qua Abr 18, 2018 11:46 pm
Ao vislumbrar a bela Vashtai no topo da escadaria, Al-Amin se deu conta do perigoso jogo que iniciava. Estava diante da Cainita mais antiga de Istambul, cria do próprio Michael. O Assamita sabia que por detrás do trono de Mustafa estavam os Toreador, e acima de todo o Clã da Rosa estava Vashtai. Havia fortes indícios de que ela era a governante de fato da cidade.

Al-Amin tinha noção de seu próprio tamanho e capacidade. Não tinha intenções de manipular a Toreador. Mas ele também sabia da responsabilidade que carregava em seus ombros agora. Era preciso saber o que Vashtai pensava sobre o momento atual e o que vinha planejando para o que lhes aguardavam a frente.

Fazendo uma exagerada reverência, Al-Amin diz, sorrindo

- Salaam Aleikum, Vashtai Hanim. O prazer é todo meu, por ser agraciado com a sorte de poder desfrutar de uma companhia agradável em todos os sentidos.

O Assamita olha Vashtai nos olhos e assume um semblante mais sério.

- Gostaria de ter vindo aqui e retirá-la de seu sossego para tratar de assuntos mais agradáveis ao seus ouvidos, mas infelizmente trago assuntos de ordem urgente, que perturbam minha paz nas últimas noites.

- É possível que Vashtai Hanim, com sua perspicácia, tenha notado que, há algumas noites, a paz do refúgio de vários Cainitas de Istambul vem sendo perturbada por protestos realizados por mortais, colocando-se contra a insistência do Império em prosseguir com os conflitos nos Bálcãs, bem como lutando contra a possibilidade que o governo não se envolva nos conflitos que se desenham na Europa.

- Eu poderia dizer que a presença desses protestos seria mera coincidência, uma manifestação de indignação que só cresce em parte da população mortal. Contudo, o modo como eles se posicionam estrategicamente próximos aos refúgios de Membros da nossa corte me fazem suspeitar que existe um padrão.

Enquanto falava, Al-Amin olhava Vashtai com atenção, observando o modo como reagia ao que ele dizia.

- Venho aqui em busca de sua sabedoria e experiência. Gostaria de saber se Hanim também vem observando esse fenômeno e o que pensa dele. Tens alguma suspeita do que vem ocorrendo em nossa amada cidade?

Al-Amin segura as duas mãos, trazendo-as ao peito para expressar a sensação de angústia.

- Desculpe por esse tipo de intromissão, Vashtai Hanim, mas eu temo por Istambul. Temo pelo que tensão que cresce e pelo que pode acontecer conosco nas próximas noites. Eu confio na capacidade de atuação de nosso Príncipe, mas venho a ti porque, além de ser próxima de Mustafa, conheceu e sobreviveu a outros momentos de tensão desta cidade. Esperava poder minha acalmar com suas palavras.
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Re: Istambul: A Cidade de Muitas Faces.

em Qui Abr 19, 2018 2:12 pm
A Toreador não respondeu de imediato. Desceu as escadas, juntando-se a Al-Amin no átrio. Convidou-o, com um aceno, a juntar-se à ela.

Vashtai cruzou um pequeno pórtico que levava ao que parecia ser uma sala de estar. Não havia mobília formal. O local tinha um tom avermelhado e um perfume suave de incenso estava suspenso no ar. A sala era quadrada, e uma pequena escada de três degraus dava acesso ao centro dela. Ali, um belíssimo tapete cobria o chão. Almofadas grandes estavam espalhadas e foi sobre uma delas, próximo a um narguilé, que Vashtai se sentou. Quando falou, sua voz era doce e melodiosa.

- Sim, Al-Amin Bey. Tenho observado atentamente o que ocorre em Istambul. Samandira também presenciou tais movimentações, arruaceiros espalhados pelas ruas, violência e disparos. Se isso tem a ver com a conjuntura política do país? Sim. Se está ligado à nossa sociedade? Também.

Alcançou o narguilé e inspirou a fumaça, que saiu em seguida como uma nuvem a cobrir parte da sala. Os olhos de Vashtai brilhavam em meio à névoa.

- Rebeldes Brujah apoiam estas manifestações. Desnecessário dizer que, graças ao Príncipe Mustafá, a Caçada de Sangue contra a Ralé ainda está em pleno vigor. Não podendo adentrar nossos muros tentam desestabilizar nosso governo através destes agitadores, tentando nos passar a sensação de insegurança que é exatamente o que você sente agora.

Um segundo trago.

- Adicionalmente, estes homens e mulheres questionam o governo mortal. Não aceitam os resultados eleitorais de dois anos atrás e tentam desestabilizar e minar a paz de Istambul. Alguns informantes indicam que planejam uma derrubada do governo, o que eu acho plenamente plausível de acontecer, considerando suas forças e números.

Vashtai esticou as pernas, em uma atitude demasiadamente mortal. Suspirou. Parecia cansada e, subitamente, Al-Amin se recordou que aquela cainita diante dele era imensamente velha.

- O que penso deste fenômeno? Penso tantas coisas nestas noites, Al-Amin. Penso que os Brujah tem o direito de vingar-se de nós. E que nós temos o direito de esmagá-los pelo bem de Istambul. E você, o que pensa?
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Re: Istambul: A Cidade de Muitas Faces.

em Sex Abr 20, 2018 7:23 pm
Al-Amin acomodou-se em uma das almofadas dispostas no tapete do salão. Ficou em silêncio enquanto ouvia Vashtai. Com os olhos, acompanhava os movimentos graciosos das mãos da Toreador. Observava os lábios que se contraiam quando a fumaça era soprada com delicadeza.

Quando Vashtai lançou a pergunta para Al-Amin, ele continuou em silêncio. Estava perdido observando as formas que se desenhavam no vapor que dominava o ambiente. Após cerca de trinta segundos, apontou para o narguilé.

- Os otomanos o chamam de narguilé. Nós chamamos de shisha. No sul da Ásia, mais precisamente na Índia e no Paquistão, o chamam de hookah. Me impressiona o fato de ser um objeto e um hábito presente em todo o mundo Islâmico, mas que na verdade só teria surgido há poucos séculos, quando os Jesuítas apresentaram o tabaco para os indianos.

Os olhos do Assamita estavam vidrados, fixos na brasa de carvão que queimava no topo do narguilé.

- Não é curioso perceber que foi preciso introduzir o consumo de uma planta americana no subcontinente Indiano, através de religiosos europeus, para surgir uma tradição islâmica?

Al-Amin sorria, mas ainda olhava os pontos flamenjantes que pulsavam na negrura do carvão.

- Tradições são inventadas, Vashtai Hanim. Ainda que sua existência seja uma tentativa de reforçar a ideia de permanência, elas não estavam aqui desde sempre e não sobreviverão para sempre. A História é como a Política: efêmera. Por mais que busquemos a permanência, os modos como falamos sobre o passado ou exercemos o poder muda através do tempo...

Ele ainda observou o Narguilé por alguns segundos em silêncio, até balançar o rosto e piscar os olhos, saindo do quase-transe no qual havia entrado.

- Desculpe-me Vashtai Hanim. Tendo a me perder em devaneios de tempos em tempos. Quanto ao que eu penso... - Al-Amin franze o senho e coloca a mão sob o queixo - Eu também venho pensando em muitas coisas nestas noites de incertezas. Penso que Istambul deve sobreviver, apesar de nós. Ela tem esse direito e a nós cabe cumprir o dever de ajudá-la.

Al-Amin olha Vashtai nos olhos, talvez pela primeira vez naquela noite.

- Não é um segredo o quanto eu amo Istambul, Vasthai Hanim. Mas meu amor não me torna cego. Eu sei quais são as reais capacidades do Império Otomano e afirmo sem muitas dúvidas: nós não temos condições de entrar em uma guerra. Ao menos não de modo ofensivo. Devemos erguer nossas defesas e nos proteger. Qualquer atitude que não essa poderá ser nossa desgraça.

- Aqueles que questionam o atual governo são tão orgulhosos que se tornaram incapazes de reconhecer essa realidade. Se os Brujah os apoiam, estão colocando tudo a perder. Não haverá sequer uma cidade para tomarem.

O Assamita suspira, enquanto olha para o chão.

- Hanim é sábia e antiga o suficiente para talvez já ter visto impérios caindo por puro orgulho. Nosso Príncipe, que Allah o abençoe, tem que ser forte para evitar que isso aconteça. Diga-me, Vasthai Hanim. Diga-me por favor que ele está tomando providências para evitar o pior.
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Re: Istambul: A Cidade de Muitas Faces.

em Sab Abr 21, 2018 6:45 am
Vashtai soprou a fumaça. Parecia extremamente relaxada ao ouvir as palavras de Al-Amin. Observou o Assamita com interesse e respondeu suas palavras assim que ele terminou de falar.

- A guerra tem sido uma pauta constante nos últimos tempos, não é mesmo Al-Amin Bey? Conseguimos sentir o cheiro da pólvora e do aço no ar, o prenúncio de um novo conflito. Você sabe qual é a discordância essencial entre Mustafá e os Brujah que questionam seu governo? Não é sobre a necessidade ou capacidade de entrar em guerra. É, simplesmente, sobre os resultados posteriores a ela.

Colocou o narguilé de lado e sentou-se, encarando Al-Amin.

- Mustafá tem acordos claros com cainitas germânicos e austríacos. Para ele, ao lado dessas potências, o Império sairá vitorioso da guerra. O Príncipe acredita que o Império será tragado, de uma forma ou de outra, então seria apenas uma questão de aliar-se com aqueles que tem mais possibilidades de vencer.

- Os Brujah, por outro lado, não defendem qualquer aliança, ao menos não neste momento. Mas observam que a guerra servirá para enfraquecer nosso já combalido domínio nos Balcãs e em outras regiões. Não se opõem a guerra, mas acreditam na formação de acordos específicos com as potências centrais que permitam a continuação e integridade do nosso território após o fim do conflito. E é exatamente por isso que se opõem aos Principado.

Vashtai fez uma expressão curiosa, como se analisasse Al-Amin.

- Eu não tenho uma opinião formada sobre o assunto. Mas não sou cética como o senhor. Acredito na nossa capacidade de enfrentar uma guerra e, mais ainda, na possibilidade de vencê-la. Dito isto, não posso lhe garantir que Mustafá esteja tomando providências para evitar nada. Para ele a possibilidade de glória é muito mais sedutora: a glória de sair de um eventual conflito ao lado dos vitoriosos, aumentando sua capacidade de influenciar o xadrez europeu.

Sorriu.

- Ninguém quer entrar para a história como um covarde, Al-Amin Bey, por mais que a história seja transitória.

A conversa foi interrompida com um servo que adentrava o salão. Era o mesmo homem de meia idade que havia recebido Al-Amin. Cumprimentou o Assamita e se aproximou de Vashtai, cochichando, por alguns segundos, algo no ouvido esquerdo de sua senhora. Depois, se retirou rapidamente, sem dar as costas.

Vashtai olhou para Al-Amin. Seu olhar era bastante calmo.

- Notícias chegam do Principado, Al-Amin Bey. Nakhshidil, minha progênie e Primogênita Toreador me informa que sua Majestade aparentemente não está bem. Balbucia coisas sem sentido e apresenta um comportamento irascível. Aparentemente pústulas surgiram em seus braços durante esta manhã. O Conselho de Primogenitura está se reunindo às pressas e sua Majestade foi confinada em um local seguro. Me desculpe, mas imagino que a nossa reunião terá de esperar.
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Re: Istambul: A Cidade de Muitas Faces.

em Sab Abr 21, 2018 12:30 pm
Al-Amin recebe a notícia com surpresa. Por um breve momento, seu rosto demonstra a gravidade que aquilo tinha para ele. Não esperava que a infecção atingiria o Príncipe tão rapidamente. Em pouquíssimo tempo, o “quase Príncipe” não seria príncipe nenhum. A disputa pelo comando da cidade viria no pior momento possível e o caos aumentaria em breve. E o tolo ainda estava buscando a glória de uma guerra!

Decidiu que não falaria nada sobre a infecção para Vashtai. Ibn-Sayad ainda exercia seu papel e caberia a ele dar a notícia, se assim o quisesse. Se a memória da Toreador ainda estiver fresca, ela provavelmente terá noção da gravidade do problema quando se deparar com o estado de Mustafá.

Levantou-se da almofada, assumindo uma postura calma.

- Lamento que tal fato tenha acontecido. Espero que Mustafá se recupere. Conversaremos novamente em breve.

Ao se despedir, A-Amin segurou uma das mãos da Toreador amistosamente entre as suas.

- És sábia, Vashtai Hanim. Desejo que sua sabedoria seja ouvida pelo Conselho para que tomem a melhor decisão nesse momento tão perigoso.

Antes de se dirigir à saída, deteve-se na porta da sala e virou para trás.

- Ao contrário de muitos, não acredito na transcendentalidade da História. Ela não é uma dimensão superior, capaz de redimir erros, glorificar os bravos e acusar os covardes. A história é o que os homens contam, Hanim, e isso sempre pode mudar. Deixemos o idealismo para os germânicos.

Al-Amin olha seu relógio de bolso. Teria que mudar seus planos. Pensou que deveria mudar seu refúgio para o meio do Bósforo, tendo em vista que passava mais tempo atravessando-o do que fazendo qualquer outra coisa. Ao menos deveria ser mais tranquilo viver embaixo do mar.

Mais uma vez, visitaria Carlo Ballestra.
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Re: Istambul: A Cidade de Muitas Faces.

em Sab Abr 21, 2018 1:36 pm
Vashtai não se opôs à decisão de Al-Amin. Ouviu suas últimas palavras com uma expressão séria, e concordou com um aceno de cabeça. O carro esperava o Assamita, não tinha tempo a perder. Cruzou velozmente as ruas de Istambul, atento ao horizonte. Sabia que era inverno e que o sol tardaria a nascer, mas lhe parecia que havia feito tantas coisas em uma única noite que temia estar errado sobre o horário.

Istambul estava silenciosa. O céu estava nublado, parecia que a chuva estava a caminho. Os mortais corriam apressados, tentando se proteger da precipitação ainda inexistente. Seguindo por ruas enlameadas, o veículo portou Al-Amin até Üsküdar, os domínios de Carlo Ballestra.

A casa ainda estava lá, o mesmo palacete mediterrâneo de sempre. Música saia das janelas abertas, e Al-Amin identificou a silhueta de seu anfitrião a mover-se no salão principal. Os servos não criaram resistência, aparentemente Al-Amin era bem quisto ali. Cruzou os jardins com uma certa pressa, para alcançar Ballestra ainda no salão. O Ventrue parecia surpreso com a presença do Assamita.
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Re: Istambul: A Cidade de Muitas Faces.

em Sab Abr 21, 2018 5:00 pm
A passos rápidos, Al-Amin entrou decidido no salão de Ballestra. Não havia tempo a perder. Os fatos estavam acontecendo de modo que não poderiam esperar mais uma noite. Com um expressão séria, o Assamita se dirige ao Ventrue.

- Ballestra Bey, lamento perturbá-lo novamente na mesma noite, mas urgência das notícias que trago me obrigam a cometer essa indelicadeza. Preciso falar contigo em particular, num local que considere seguro de olhos e ouvidos Cainitas e mortais.

É somente quando o Ventrue o leva para um lugar seguro que Al-Amin volta a falar. Ele não se senta, pois a ansiedade o move. Enquanto fala, caminha de um lado ao outro.

- Não sei se este fato já chegou ao seu conhecimento, tendo em vista que notícias ruins são carregadas pelo vento como a brisa do mar. Caso ainda não saiba, fui informado que o nossa majestade, o Príncipe Mustafá, foi acometido pela mesma doença que destruiu Elio e o vampiro desconhecido. Neste exato momento, o Conselho está se reunindo para deliberar sobre o que será feito.

- Também não sei o quão cientes eles estarão a respeito da gravidade desta infecção. De qualquer forma, o Príncipe está fadado a uma terrível Morte Final. Em poucas noites, Istambul não terá mais um regente.

Al-Amin olha Ballestra, com preocupação.

- Minha Família tem informações sobre a doença, Ballestra Bey. O que descobrimos pode lhe soar como uma mentira, mas preciso que acredite em mim. - Al-Amin pausa, como se estivesse tomando fôlego para falar - Essa infecção é como uma entidade consciente. Ela tem um objetivo próprio: dizimar os Ventrue. Suas propriedades obviamente místicas fazem com que ela afete apenas Membros de sua Família, Ballestra Bey. Você corre perigo enquanto ela não for contida.

O Vizir volta a caminhar.

- Sei que este deveria ser o problema sob o qual todos deveriam trabalhar para evitar, tendo em vista que os Ventrue são um dos pilares que sustentam Istambul, mas o momento político faz com que a guerra iminente tome a cabeça de Cainitas e mortais. Mustafá e a corte que o seguia estavam prontos para estabelecer alianças com austríacos e germânicos, com fins de aproveitar o conflito que se desenha para recuperar a glória do Império. Ao mesmo tempo, os Brujah incitam rebeliões para enfraquecer Mustafá e os Toreador, desejosos de que a guerra traga de volta o apogeu Otomano.

- Na minha opinião, ambos não sabem o que fazem...

Al-Amin se vira novamente para Ballestra, dessa vez com um olhar decidido.

- Pergunto-lhe, Ballestra Bey: sabendo que o Principado estará vago em breve e tendo esse cenário diante de si, o que faria se fosse o próximo Príncipe de Istambul?
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Re: Istambul: A Cidade de Muitas Faces.

em Dom Abr 22, 2018 7:20 am
Ballestra parecia assustado com as revelações de Al-Amin. O Ventrue demorou a responder. Cruzou a sala de reuniões, que havia sido fechada após a dispensa dos servos e retirou a agulha do gramofone, fazendo cessar a música triste que inundava o ambiente. Depois se sentou numa das poltronas, diante da tapeçaria que mostrava sua linhagem, mas de costas para ela. Al-Amin via o retrato de Antonius a observar a conversa.

- São notícias trágicas, Al-Amin Bey. Se esta infecção age especificamente contra nós significa que nossos inimigos são muito mais astutos do que imaginávamos. É terrível saber que Mustafá foi acometido pela doença e, mas ainda, saber que não há nada que possamos fazer para salvá-lo.

O Ventrue se apoiou sobre os joelhos. Al-Amin percebeu que Ballestra parecia mais magro. Os cabelos estavam sem brilho e os olhos, opacos.

- Eu concordo contigo sobre a guerra, no fim nenhuma destas forças sabe a dimensão do problema em que Istambul eventualmente entrará. Engraçado, não tivemos nenhuma chance de conversar sobre a guerra nestas noites tumultuadas, não é mesmo? Mas a minha opinião é de que não devemos nos associar aos europeus em seus conflitos. Devemos permanecer estáveis e resolver os problemas internos do império.

Olhou para Al-Amin.

- Curioso o que me perguntas. Eu nunca tive a pretensão de ser um Príncipe, Al-Amin Bey. Minha índole pacifista e tolerante me faz um pária dentro do meu próprio Clã - sorriu, mas demonstrava uma profunda tristeza - Foi por isso que eu deixei a Itália. Exigiam de mim muito mais do que eu poderia dar. Busquei refúgio em Istambul, a cidade do meu Ancestral, como se uma força me atraísse para este lugar. E, como Antonius, aprendi a amar esta cidade, a respeitá-la e admirá-la.

Encostou-se na poltrona.

- Fosse eu o Príncipe de Istambul, minha primeira realização seria intervir diretamente sobre a política mortal. Nosso atual governo cede aos caprichos europeus, os membros do Comitê para a União e Progresso não são muito diferentes. Os cainitas em nossa cidade se colocam de um lado ou de outro desta disputa entre os mortais, inconscientes de que ambas as forças nos levarão à guerra e à ruína. O Sultão precisa ser instruído para evitar a guerra ou, eventualmente, substituído por alguém com inclinações menos germanófilas.

Pensou por alguns segundos antes de continuar.

- Ao mesmo tempo, nossa corte precisa ser reestruturada, em base a um acordo que possibilite a nossa sobrevivência e o bem estar de Istambul. Esta é a parte mais difícil. Não sei se teria o respeito de meus pares Ventrue para executar tal tarefa. Não sei qual seria a posição do teu clã, Al-Amin. E, sobretudo, modificar as relações de poder nesta cidade significa esbarrar nos Toreador. No entanto, Istambul vale o trabalho.



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Re: Istambul: A Cidade de Muitas Faces.

em Dom Abr 22, 2018 7:55 pm
As palavras de Carlo Ballestra soaram como música para os ouvidos de Al-Amin. Finalmente tinha diante de si alguém que concordava com suas posições a respeito da guerra. No entanto, tinha receios quanto à saúde de Ballestra. Ele não só demonstrava claros sinais de fraqueza - provavelmente devido ao peso de servir de hospedeiro para a mente de Antonius - mas também estava vulnerável à infecção.

[bInfelizmente, pensou Al-Amin, não havia mais tempo. Seria preciso assumir esse risco e torcer para que os guerreiros de seu clã, bem como o tal Levi, Filho de Saulot, chegassem logo e fossem capazes de eliminar a fonte da infecção o mais rápido possível. Com o fim de Maria, a Negra, o tabuleiro mudaria de configuração e o próprio Antonius poderia aparecer, com seu corpo e sua mente, enquanto Ballestra seria poupado.[/b]

Al-Amin olhou para Ballestra e balançou a cabeça afirmativamente, concordando com suas últimas palavras.

- Sim, Ballestra Bey, Istambul vale o trabalho.

Colocando a mão direita no ombro do Ventrue, Al-Amin prosseguiu.

- Quanto à minha Família, não se preocupe. Ainda não temos meios de controlar a infecção, mas já estamos trabalhando para eliminar sua fonte. Sobre nossa posição quanto ao Principado, ela dependerá de ti. Se for o seu desejo, os Filhos de Haqim apoiarão o seu nome. O que me dizes?
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Re: Istambul: A Cidade de Muitas Faces.

em Seg Abr 23, 2018 2:55 pm
O corpo de Al-Amin começava a reconhecer os primeiros sinais do amanhecer quando Ballestra respondeu.

- Sim, Al-Amin. Eu aceito. Mas somente em caráter temporário, em uma espécie de governo de transição. E somente se puder contar com o teu aconselhamento direto. Eu não sou o homem de que precisas, Al-Amin. Não é a minha natureza reinar. Que atípico sou, não é mesmo? Provavelmente meu Ancestral morreria de vergonha.

Ballestra deu um sorriso tristonho. Al-Amin súbito percebeu, no fundo dos olhos azuis e opacos de seu interlocutor, uma perda. Ballestra havia perdido algo, agora lhe era óbvio, e esse vento o havia feito mudar radicalmente.

- Quanto a Mustafá, se nem o teu clã consegue frear a infecção, há pouco que possamos fazer. É triste ver tal fim. Pelos parâmetros que observei em Elio, em cerca de dois dias seu sofrimento será encerrado. Eu espero que os seus confederados alcancem Istambul neste período, Al-Amin.

Ballestra fitou o chão. Pareceu pensar por longos segundos, antes de falar. Gaguejou quando começou, mas tomou fôlego e prosseguiu.

- Entenderei se me responder que não. Mas, dormirias comigo num dos meus últimos dias como plebeu?

Sorriu para Al-Amin e esperou, visivelmente ansioso, a resposta. Subitamente, seus olhos brilharam. Parecia a Al-Amin que o pedido havia sido feito tanto por Ballestra quanto por Antonius.
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Re: Istambul: A Cidade de Muitas Faces.

em Ter Abr 24, 2018 10:41 am
Diante do pedido de Ballestra, que considerou no mínimo inusitado, Al-Amin ficou atônito. Sentia um misto de pena, simpatia e desconfiança pelo Ventrue. De fato, só agora percebeu a imensa solidão e tristeza que pairava sobre ele. Indicá-lo ao Principado - uma ação que Al-Amin considerava mais estratégica do que pessoal - só aumentaria o peso que Ballestra carregava sobre os ombros.

Uma outra questão lhe chamava atenção: pouco sabia sobre o Ventrue. Seu passado era notoriamente misterioso, mas era igualmente conhecido o fato de que ninguém lhe fazia perguntas a respeito do tema. Estaria Al-Amin tomando uma decisão precipitada e, por causa disso, perigosa? Não importa. O Vizir considerava que já estava feito. Teria tempo para investigar nas próximas noites.

Tomado pelo peso da manhã que se aproximava, bem como por uma curiosidade e compaixão - mas sem descartar a desconfiança - Al-Amin respondeu em tom sério, porém calmo.

- Meu aconselhamento, e por consequencia o aconselhamento do meu clã, ao futuro Príncipe é parte integral da proposta que lhe fiz, Ballestra Bey. Quanto ao seu pedido, espero que eu não tenha sido mal-interpretado nas últimas noites. Tenho por ti um respeito e admiração. Quero que nossa amizade se fortaleça nas noites que virão. Venho pensando que nós, Cainitas, somos acometidos por uma Maldição que não nos tira apenas a humanidade, mas tudo aquilo que é associado a ela, como a amizade. Não posso dominar por completo a Besta e a letalidade do fogo e do sol, mas quero provar a mim mesmo e à história de nossa espécie que algumas coisas podem ser diferentes.

Al-Amin observou a reação de Ballestra, para ver se recebia bem o que havia acabado de dizer.

- Dito isso, atenderei seu pedido como o amigo que pretendo ser. Me farei um hóspede em sua casa por esse dia e me forçarei até onde conseguir para ficar de vigília enquanto repousa, para que saiba que não estará sozinho. Dormirá hoje como o plebeu que dizes ser, mas acordará na noite seguinte como alguém que reinvindica o trono. E plebeu ou nobre, estará sob a tutela de um Filho de Haqim.

Após dizer essas palavras, Al-Amin ficou pensativo. Concluiu que seus sentimentos por Ballestra lhe eram claros, mas a curiosidade e desconfiança advinham de outra fonte. Sabia que passar o dia na companhia de Ballestra seria estar próximo de Antonius, um dos mais notórios Matusalém Ventrue.

(Sistema: Al-Amin gastará Força de Vontade para se manter desperto até Ballestra repousar)
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Re: Istambul: A Cidade de Muitas Faces.

em Qui Abr 26, 2018 8:55 am
Ballestra pareceu desapontado com a resposta de Al-Amin. Abriu um sorriso triste, mas parecia sereno. Aproximou-se a abraçou o Assamita por alguns segundos antes de responder.

- Eu compreendo, Al-Amin. Realmente compreendo. Fico contente que, de uma forma ou de outra, você esteja aqui. Talvez eu tenha dado uma impressão errada. Mas é que você... me recorda intensamente alguém que conheci e que me foi tirado. Algumas feridas não cicatrizam, meu caro, e alguns eventos fazem com que elas se abram novamente. Enfim, são pensamentos de um homem cansado. Na próxima noite, decidiremos, juntos, como proceder. Meus servos lhe indicarão um local seguro para repousar. Sinta-se à vontade.

Foi com passos lentos e arrastados que Ballestra subiu as escadas. Al-Amin percebeu que o Ventrue se apoiava no corrimão enquanto subia. Parecia um mortal de uma certa idade. Mas, quando no meio da subida, sua mão abandonou o apoio. Sua postura se tornou ereta e sua forma de caminhar mudou. Quando estava no balcão se girou e observou Al-Amin. Era uma outra pessoa. Os olhos brilhavam intensamente, as veias estavam mais saltadas do que nunca. Não obstante a majestade, o corpo parecia prestes a colapsar a qualquer momento. Então, Al-Amin teve a segunda iluminação súbita naquela noite: Carlo Ballestra não sobreviveria por muito tempo se continuasse a ser usado como hospedeiro para a mente de um dos Matusaléns mais velhos em atividade.

- Boa noite, Al-Amin. Me faço presente somente para informar-lhe de algo relevante. Hardestadt adentrou Istambul horas atrás. Embora não seja meu descendente, sua importância é demasiadamente grande para que sua presença me passe despercebida.

Os olhos voltaram a ser opacos e, antes que Al-Amin pudesse pensar ou falar, Carlo Ballestra despencou violentamente escada abaixo.
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Re: Istambul: A Cidade de Muitas Faces.

em Qui Abr 26, 2018 5:03 pm
A letargia que vinha com a proximidade da alvorada, somada à quantidade de informação e sentimentos que recebera em tão pouco tempo abalaram Al-Amin. A cena de Ballestra caindo pela escada era contemplada em câmera lenta. Enquanto o corpo do Ventrue se despencava pelos degraus, o Assamita pensava no que estava presenciando.

Ballestra era uma figura triste, quase trágica. O receio que tinha em indicá-lo ao Principado só aumentava. Se Antonius continuasse usando seu descendente daquela forma, ele não serviria para Príncipe, nem para nada. Ballestra precisava cuidar de suas feridas antes de cuidar de uma cidade.

Al-Amin pensou que teria que conversar com Antonius pelo menos mais uma vez, usando Ballestra como veículo. Precisava alertar o Matusalém de que aquele vampiro não tinha mais forças para aguentar tamanha pressão. Antonius estaria livre em breve. Não seria mais preciso destruir Ballestra em sua tentativa de manter-se a par dos acontecimentos.

Para completar o quadro, ainda havia essa breve e grave afirmação que Antonius conseguiu lhe passar antes do colapso de Ballestra. O próprio Hardestadt havia chegado em Istambul, sabe-se lá porque. Não havia momento mais inapropriado para o grande líder da Camarilla estar em sua cidade. Ou seria justamente por isso que ele estava ali?

Eram coisas demais para pensar e ponderar, e poucas noites para se preparar. O tempo corria e seu sono estava tão pesado quanto o corpo de Ballestra que caiu pela escada.

Reunindo o pouco de força que lhe restava, Al-Amin usou seu sangue para ter meios de levar o Ventrue nos braços, escada acima. Chegando lá, orientaria o primeiro criado a levar Ballestra aos seus aposentos, pois este tivera um mal súbito. Al-Amin também pediria um quarto, tal como Ballestra o orientou. Precisava descansar e aquela noite, pesada e difícil, já havia se estendido por tempo demais.

[Sistema: Al-Amin gasta 2 Pontos de Sangue para aumentar sua Força para 4]
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Re: Istambul: A Cidade de Muitas Faces.

em Sex Abr 27, 2018 12:10 pm
Al-Amin se ergueu na noite seguinte. A casa de Ballestra estava extremamente silenciosa. O Assamita ajeitou suas vestes e cabelos antes de deixar a sala. Nos corredores, nem sinal de movimento. A lua cheia era visível através de uma grande janela de vidro, que possibilitava também ver o Mar de Marmara.

Só então um dos servos de Ballestra entrou no corredor, aparentemente distraído, mas se empertigou à visão de Al-Amin. Cumprimentou o Assamita e indicou, com palavras breves, que seu senhor já se encontrava nos andares inferiores. Al-Amin desceu as escadas e observou Ballestra sentado em uma poltrona, com a cabeça entre as mãos e os cotovelos apoiados nos joelhos. Não tinha música, uma situação incomum. Diante da aproximação de Al-Amin, saiu de seu momento introspectivo para saudar o Assamita.

- Espero que tenhas dormido bem, Al-Amin. Tua presença aqui de fato me acalmou bastante. - Retirou um telegrama do bolso - Isto chegou hoje da parte do Conselho de Primogenitura. Aparentemente, eles tem uma reunião convocada para esta noite, às vinte e duas horas. Imagino que eu deva comparecer. Não sei sobre você e sobre o quanto você representa o seu Clã em Istambul. Mas imagino que o que será discutido é algo de extrema importância. Hardestadt está na cidade, Al-Amin.
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Re: Istambul: A Cidade de Muitas Faces.

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