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Berlim: Tradição e Modernidade.

em Seg Mar 12, 2018 10:49 am

Berlim é uma das cidades mais pulsantes do Velho Mundo. Viva, brilhante e sonora, evoluiu em poucos anos de uma cidade de menor importância na geopolítica para se tornar, na aurora do século XX, em um dos centros de poder mundial. Incontáveis imigrantes convivem com os nativos que, a sua volta, assumem cada vez mais fortemente a identidade nacional alemã, forjada há não mais de cinquenta anos atrás. Em Berlim, resquícios medievais convivem com estradas de ferro e a fumaça dos lampiões à óleo de baleia da periferia coexiste com as luzes do Reichstag. Aqui, tradição e modernidade dão o tom a uma cidade com contradições gritantes e tensões cada vez mais elevadas.

Sob a fachada, porém, Berlim esconde segredos ancestrais. Outrora base geográfica do Sacro Império Romano Germânico, a cidade assistiu a inúmeros conflitos entre os príncipes mortais das diversas regiões e entre os Senhores da Noite. Ainda que as noites ancestrais tenham ficado para trás e a unidade do país seja constantemente ameaçada por interesses de outros clãs (que muito se aproveitam da ausência da liderança do maior cainita germânico de todos os tempos, Lorde Hardestadt), Berlim ainda governa a Alemanha, na forma da mão pesada do Ventrue Gustav Breidenstein, único com direito de progênie na cidade e disposto a destruir qualquer cainita que o desafie.


Última edição por Regista em Ter Mar 13, 2018 6:51 am, editado 1 vez(es)
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Re: Berlim: Tradição e Modernidade.

em Seg Mar 12, 2018 12:59 pm


Eram os sons pesados e contínuos  das prensas rotativas a vapor, aprimoradas a partir da tecnologia idealizada por um Alemão muitos séculos atrás, a embalar os tipos e letras que ganhavam forma no Berlim Zeitung, o mais importante impresso de papeletas de Berlim em 1913. Homens a ir e vir, manipulando as máquinas e inspecionando as centenas de papéis gravados com as notícias dos últimos dias que circulariam pelas ruas germânicas.

Era abaixo do prédio monumental destinado ao impresso de papeletas que o responsável por todo o aparato se mantinha. Longe dos olhos curiosos, da atenção indesejada e dos louros do funcionamento prático e indispensável que se tornou o Jornal, que seu proprietário repousava e planejava seus próximos passos nas noites de Berlim.

O Bunker era ornamentado de forma peculiar e meticulosa. Em absolutamente tudo se assemelhava a uma residência alemã de alto padrão. As paredes de metal eram recobertas com um papel de parede amarelado, dígno do palacete do príncipe. Os móveis de madeira de lei e mógno eram ocupados por objetos de decoração diversos e uma série de quadros. Além de louças pintadas a mão do século anterior. A iluminação ficava a cargo de luzes elétricas, modernas e recém instaladas. Acima de um criado mudo, um pomposo gramofone despejava a melodia metódica de Carl Maria Von Weber :  Der Freischutz, pelo ar do Bunker.

O som compassado e firme embalava a leitura do homem sentado em uma poltrona acochoada com couro marrom. Trajava um uniforme militar, os símbolos em seus braços e peito denotavam uma patente alta. Sua face era, inquietantemente, coberta com uma máscara de gás negra.

As letras refletiam-se naqueles olhos grandes e negros que a máscara lhe conferia. Não havia o comum ressoar da respiração pesada. Apenas o som da melodia escrita por Von Weber se fazia ouvir. Ao lado da poltrona, havia uma mesa de jantar e acima dela uma bandeja prateada, ainda fechada.

O homem levantou-se para colocar o impresso sobre o criado mudo, ao lado do gramofone, aumentou o volume e retirou a máscara. Caminhou em direção a mesa e por conseguinte a bandeja que, em sua reflexão espelhada, lhe mostrava a face de sua maldição. Sentou-se e destampou-a, colocou o lenço sobre as pernas e pegou os talheres.

Em seu interior, havia um fígado humano cru e ensanguentado. Sentou-se a mesa e o fatiou lentamente. Em seguida o degustou deliciando-se tanto do menu quanto da melodia, que crescia e diminuía, em um compasso constante conforme sua fome era aplacada.
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Re: Berlim: Tradição e Modernidade.

em Sex Mar 16, 2018 7:13 am
O fígado descia, em porções pequenas e suculentas, através do sistema digestivo de Herr Gheist. E quanto prazer aquilo lhe trazia! Sentia-se, lentamente, preenchido de vida e de força e a cada mordida a Vitae contida dentro das porções de carne esguichavam em sua boca, fazendo agitar seus sentidos. Era profundo, orgásmico. A música que preenchia o ambiente completava a experiência, dando-lhe a sensação de dividir aquela experiência com alguém, ainda que fosse com uma orquestra mecânica.

O fim da refeição coincide, praticamente, com o final do disco. O silêncio toma conta do bunker, somente para ser quebrado pelo som mecânico dos instrumentos de comunicação de Geist. A rumor inconfundível e prazeroso do telégrafo a receber uma mensagem dura por alguns segundos. O Nosferatu se adianta em direção à mesa de trabalho, para decodificar o conteúdo da mensagem. As palavras são simples, sem intimidade. Seus subordinados a haviam recebido e, sem decodificar o conteúdo como de costume, enviado a Herr Gheist.

"Caro Herr Gheist.

Gostaria de encontrá-lo ainda esta noite. Assuntos econômicos. Faça-me saber disponibilidade. Atenciosamente E. B. Gould."
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Re: Berlim: Tradição e Modernidade.

em Sex Mar 16, 2018 10:52 am
* Encerrou seu desjejum e, metódicamente, limpou os talheres e a bandeja antes de colocá-los em seus devidos lugares na estante de mógno na qual as louças do século passado estão perfeitamente alinhadas.

Após isso, caminha até o gramofone e retira sua luva negra para cuidadosamente, quase como um carinho, retirar e guardar o disco com a obra de um compatriota alemão feito em matriz de zinco e depositá-lo ao lado do objeto, guardado em uma caixa de veludo.*


Emile Berliner, que criação fascinante! As raízes germânicas de tal obra são inegáveis.

* Pensava o nosferatu quando sua atenção é atraída pelo som inconfundível e prazeroso dos tiques constantes dos aparatos mecânicos do telégrafo, outra magnífica obra da pulsante humanidade. Decodifica, ele próprio, a mensagem e a responde em seguida com presteza e total domínio da linguagem*


" Herr Gould,

Vosso convite é bem recebido. Será atendido ainda esta noite, em cerca de 3 horas. Confirme-me local.

Atenciosamente, H.G."

* O bom uso do telégrafo o guia a ser suscito e direto em suas palavras, para o melhor entendimento.  Aguarda a confirmação de seu anfitrião esta noite, assim como a indicação do local do encontro.

Antes de dirigir-se até lá, no entanto, o vampiro assume sua face representativa junto aos humanos com o emprego da Máscara das Mil Faces. Trata-se de um oficial alemão atuante nas Guerras Prussianas, de alta patente e cuja morte foi encoberta por Geist para que pudesse usá-lo quando necessário. Vestindo a pele de Bertrand Fritz, deixa seu refúgio em direção ao seu impresso de papeletas, o Berlim Zeitung, na qual a segunda leva  diária de homens, mulheres e crianças que trabalham no turno da noite, composto por 12h horas de afortunado trabalho, se dedicam incessantemente entre o vapor dos tipos móveis e os monumentais rolos de papéis para que dêem conta da produção dos mais populares impressos de notícias de toda a Alemanha.

Espera, talvez, encontrar por lá seu mais estimado e protegido funcionário, o Jovem Jpseph.*


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Re: Berlim: Tradição e Modernidade.

em Sex Mar 16, 2018 11:32 am
A resposta é quase imediata. Enquanto Herr Geist se concentra e a Maldição de Caim se submete, ao menos temporariamente, aos Dons do Sangue, o Véu recai sobre o Nosferatu, moldando sua face à imagem e semelhança de Bertrand Fritz. Durante o momento em que ajusta os últimos detalhes em seu bunker, colocando cada objeto em seu devido lugar, para finalmente subir em direção à superfície e ao Berlim Zeitung, os sons mecânicos recomeçam. A mensagem, novamente, é curta.

"Agradeço. Recebo-te em minha casa dentro de três horas. AdalbertstraBe, 18.

A pesada porta de chumbo maciço, após aberta, revela um elevador privativo. Herr Geist adentra-o, e os estalos iniciais dão lugar ao som monótono e mecânico da estrutura de metal. À medida em que alcança os andares superiores, o som das máquinas e das prensas do Berlim Zeitung invade seus ouvidos. O cheiro de tinta fresca e de suor mortal é tão inebriante quanto a melodia de Wagner, Tannhauser, que ecoa no ar enquanto os homens, mulheres e crianças trabalham freneticamente.

Uma porta, também de metal e trancada com chaves e fechaduras mecânicas, separa a sala privativa de Geist, localizada numa plataforma e munida de uma imensa janela de vidro de onde o Nosferatu pode fiscalizar as operações, do elevador. Seus olhos não precisam se mover muito. Debruçado sob uma prensa mecânica, munido de uma pequena lupa com a qual identifica as mínimas falhas eventuais do jornal, está Joseph.
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Re: Berlim: Tradição e Modernidade.

em Sab Mar 17, 2018 10:12 am
* A subida no rústico mas tão moderno quanto possível elevador era lenta. A máquina emitia sons grosseiros que, aos ouvidos do Nosferatu, soavam como música. A tecnologia era bela e prática.

Ao travessar a porta de sua sala privatida, o homem inclina-se próximo à janela e suas imensas vidraças apoiando o braço no pequeno parapeito desta. Observava, com prazer, as tarefas desempenhadas no Berlim Zeitung.

O processo se iniciava com a pauta traçada pelos seus editores e avalizada por seu editor chefe, seu mais estimado servo Joseph Goebbels. Assim que as pautas eram escritas manualmente e distribuídas, após criteriosa correção, cabia aos homens das máquinas transformá-las em volume de impressos.

Homens carregavam os tipos móveis e os encaixavam nas imensas máquinas que giravam, em um compasso constante como se dançassem, para que as letras - em uma sequência de cinco - fossem gravadas no papel recém cortado à mão pelas mulheres, hábeis e práticas em trabalhos manuais. Cabia aos meninos observarem seus pais trabalhando e funcionarem como o tráfego do jornal. Carregavam peças, impressos, tintas e quaisquer materiais entre os andares com suas ligeiras pernas. As meninas, além de auxiliarem suas mães, se dedicavam a fazer o serviço de conferência e qualidade da cor dos impressos e da integridade dos papéis que, por vezes, eram engolidos pelas máquinas.


Ao fim de todo o processo, os mais destacados e hábeis homens faziam a última conferência com relação à escrita e ao conteúdo. Nada menos que a perfeição era aceita.

Às crianças e jovens também cabia a distribuição do impressos, a luz dos primeiros raios solares. O Berlim Zeitung caira nas graças dos Alemães nos ultimos anos. Todo comerciante, do pequeno ao maior industrial, encomendava as papeletas para uso pessoal ou revenda. Famílias, em especial as mais abastadas, recebiam em suas casas o Jornal de Berlim.

As imensas máquinas a vapor eram colocadas, estrategicamente, nos andares acima para que o calor não se propagasse para os rolos de papéis e tintas depositados nos andares abaixo. Da mesma forma, em caso das chamas das caldeiras escaparem ao controle, uma evacuação seria facilitada já  que o incêndio ocorreria de cima para baixo e não o inverso, com o intuito de não bloquear as saídas. Uma preocupação constante para o vampiro, mas pequena perto do deleite do processo industrial de impressos.

Além do imposto por sua maldição, o Sangue, haviam poucas coisas que o traziam tanto deleite quanto o cheiro do papel recém impresso. Apreciava, do alto, sua obra ganhar vida e que, ao amanhecer, estaria circulando nas mãos de cada pobre diabo em Berlim e adjacências.

Herr Geist destinou alguns minutos a pura e simples contemplação. Manteve-se na janela, com um sorriso no rosto, a observar todo o processo e a aguardar que eventualmente Joseph o visse de sua escrivaninha e, neste momento, o vampiro sinalizaria para que ele subisse à sua sala. Haviam novas ideias a serem discutidas com seu editor chefe e estimado servo.*



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Re: Berlim: Tradição e Modernidade.

em Sab Mar 17, 2018 12:44 pm
Herr Geist observava o movimento do Berlin Zeitung. Seu olhar, contudo, concentrou-se em um Goebbels entretido em buscar a imperfeição. E, evidentemente, a encontrou: um erro de impressão na parte superior da página.

O corpo do mortal retornou, lentamente, a uma posição ereta. Os dedos da mão direita se moviam freneticamente, retorcendo-se. Girou-se, mas não atentou para a presença de Herr Geist na janela do escritório. O Nosferatu pode notar os sinais claros de uma raiva contida: olhos semicerrados, lábios comprimidos. Quando um dos responsáveis pela impressão se aproximou, a máscara de fúria de Goebbels desapareceu. Indicou, pacientemente e com gentileza o erro a ser corrigido. Depois, observou o relógio, provavelmente imaginando em quanto tempo a produção seria atrasada. Só então notou o Sr. Fritz. E, diante do breve aceno, deslocou-se habilmente por entre as máquinas e pilhas de jornal, para alcançar a escada que o levaria ao seu protetor.
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Re: Berlim: Tradição e Modernidade.

em Ter Mar 20, 2018 8:12 pm
Deleite.

Era puro e simples deleite observar as ações de Joseph. A dedicação para com o conteúdo e a forma, a fúria desencadeada com o inaceitável erro e a postura recobrada, impassiva, para conferir uma solução para o problema que havia surgido. O homem pensava e agia como, há muito tempo, um outro homem que não mais existe o fazia. O fantasma enxergava naquele jovem e brilhante editor uma fagulha sempre acesa do melhor que os humanos podem oferecer: Inquietação até que a perfeição seja alcançada.

Caminhou até o armário e pegou uma garrafa de Steinhäger, a predileta de seu aprendiz. O aroma adocicado das frutas de Juniperus inebriavam o ambiente. Separou um dos pequenos copos de vidro, apropriados para as doses da bebida germânica e repousa garrafa e copo sobre sua mesa, enquanto senta-se na poltrona revestida em couro cru, de tom amarelado.

Aguardou até que Goebbels adentrasse à sala para que servisse a bebida e indicasse o jovem a se sentar na cadeira à sua frente, do outro lado da pequena mesa de mógno.

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Re: Berlim: Tradição e Modernidade.

em Qua Mar 21, 2018 1:21 pm
Os passos de Goebbels eram rápidos e, ao mesmo tempo, comedidos. Era um homem alto, esguio e de maneiras elegantes. Trajava um terno acinzentado, bem cortado e seu rosto serve de moldura a pequenos óculos de aros dourados. É fácil perceber a ansiedade do homem diante da convocação de seu protetor: seus lábios se movem rapidamente, em consonância com o movimento dos olhos. Antes de entrar na sala, sem notar que está sendo observado, retira do paletó um pequeno bloco de notas e parece repassar algumas informações que julga serem essenciais ao seu chefe. Somente após essa pequena revisão, gira a maçaneta e adentra a sala de Herr Geist.

Nota, imediatamente, a garrafa sobre a mesa, mas não esboça nenhuma reação. Convidado a sentar, o faz, não antes de apertar a mão de seu protetor.

- Em que posso ser-lhe útil esta noite, Herr Fritz?
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Re: Berlim: Tradição e Modernidade.

em Qua Mar 21, 2018 2:07 pm
* Após o cumprimento, abre a garrafa e serve uma dose, entregando o copo à Joseph.

Em sua face um singelo e curto sorriso se mostra e suas palavras se seguem, com pequenas pausas típicas do meu modo de falar. A voz era comum aos homens de meia idade, sem o timbre perfeito dos mais jovens e com algum peso que os anos conferem*


- Temos muito a discutir, Guter Joseph. Antes, entretanto, sirvo-lhe uma dígna e justa Steinhäger para demonstrar-lhe minha satisfação por seus serviços prestados com dedicação.

* Suas palavras eram agradáveis, mas Herr Geist parecia ter alguma dificuldade entre encontrar o tom entre ser amigável em palavras e expressões faciais. De fato, sociabilizar têm se tornado cada vez mais difícil e cansativo com o passar dos anos*

- Instrua-me sobre o andamento do Berlim Zeitung, como andam os processos de fabricação e distribuição?

* Antes mesmo da resposta de seu interlocutor, continuou. Estava excitado com suas ideias e ansiava vê-las realizadas.*

- Tenho duas demandas para as próximas edições. Tome nota.

* Cruzou as pernas e aguardou que seu estimado servo se preparasse para fazer as anotações*

- Dentro de cada jornal nos próximos dias deverá haver uma folha a mais, encartada. No primeiro dia fales sobre o Skykitchen, aquele novo restaurante da Landsberger Allee,106. Visite-o, deguste seus melhores pratos e escreva uma crítica, positiva, sobre o local, o atendimento e a comida.

- Ao fim da página, coloque nosso endereço e o seguinte anúncio: O Berlim Zeitung é a vitrine ideal para o seu negócio, entre em contato e você poderá estar na próxima edição.

* Aguardou que o jovem anotasse, precisamente, cada palavra. Em seguida continuou, seu ritmo se assemelhava aos das máquinas de tipos móveis...inquieto, produtivo.*


- Há algo mais...mais importante.

* Levantou-se, caminhou até a janela com visão para as ruas de Berlim na qual homens e mulheres caminhavam. Muitos deles oriundos de todos os cantos da Europa*

- Quero que a partir do próximo editorial tu escrevas, pessoalmente, sobre as raízes do povo Alemão.


* Olhou, ao longe, um homem com traços esguios, pele escura e nariz pontiagudo. Franziu o o cenho e apertou o maxilar com mais força que o usual*

- Enalteça nossa cultura, nossas criações. Escreva com Stolz (orgulho) sobre nós.

* Voltou-se, ainda de pé, para seu editor chefe*

- Berlim perde sua identidade aos poucos, com esta...miscigenação cultural que nos atinge. Sejas cordial, mas convincente. Precisamos defender os nossos e proteger nossos lugares de direito. Comece aos poucos e em cada próxima edição garanta que o Berlim Zeitung seja escrito por Alemães e para Alemães.

* Havia seriedade, sobretudo nas últimas palavras. Em seguida, após metralhar seu jovem aprendiz com ideias e solicitações, questionou como se a conversa tivesse acabado de se iniciar*

- E como estão seus estudos filosóficos na Universidade de Heidelberg?

* Sorriu, mecanicamente*
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Re: Berlim: Tradição e Modernidade.

em Qui Mar 22, 2018 7:10 am
Sentado diante de Geist, Joseh anotava tudo freneticamente, mas com elegância. Havia sempre essa dualidade em suas ações: uma besta parecia conviver com um cavalheiro dentro do mesmo corpo. Ocasionalmente levantava o olhar em direção ao seu protetor somente para baixá-lo posteriormente em direção ao bloco de notas. Não tocou na bebida, inicialmente.

Quando terminou, fechou o bloco e o alojou no lado esquerdo do paletó. Só então deu um gole no Steinhäger.

- Será feito tudo o que idealizas, Herr Fritz.

- Quanto ao jornal, temos realizado avanços importantes. Nossa tiragem aumenta, conforme avança nossa rede de distribuição pelo interior do país. Alcançamos até mesmo a Áustria-Hungria, através de conteúdos especialmente pensados para os alemães que vivem no exterior. As planilhas com os números finais repousam ao seu lado direito, neste envelope branco. Autorizei a troca de algumas partes das prensas por versões mais modernas. Ao seu lado esquerdo, está a planilha de custos que precisa somente de vossa assinatura. São dois orçamentos: um fornecedor britânico, mais barato e um nacional, mais caro. Acredito que seja nosso dever suportar a indústria nativa, por isso acrescentei o orçamento mais custoso. A decisão final, contudo, cabe ao senhor.


Goebbels se recosta na cadeira. Bebe o restante da bebida servida por Geist.

- Os estudos prosseguem, Herr Fritz. Decidi concentrar-me sobre a obra do notável Wittgenstein neste último período. Tenho feito formulações muito interessantes sobre a natureza da comunicação e de como ela é importante para criar um mundo mais eficiente. Alguns dos decanos, contudo, não são particularmente de acordo com algumas teses que sustento, mas é um detalhe que não esmorece as minhas convicções.

- Imagino que o Senhor esteja ciente dos problemas com o governo francês, Herr Fritz, em relação às instalações industriais e a mineração. A população precisa estar ciente destes desdobramentos. Qual será nosso posicionamento? Além disso, existem aproximações entre o Império e os Otomanos, outro tema de vital importância para analisarmos.


Goebbels havia retirado do bolso o bloco de notas. As mãos se moviam, prontas para escrever. Distraiu-se, contudo, com uma janela semiaberta e com o ruído do vento que por ela entrava. Na verdade, era irritante até mesmo para Herr Geist, não obstante o som resultante da passagem do vento fizesse lembrar, vagamente, a palavra Stolz.
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Re: Berlim: Tradição e Modernidade.

em Sex Mar 23, 2018 10:37 pm
* Os olhos do comandante alemão se debruçavam sobre os documentos em sua mesa. Analisava a diferença de custos entre as peças de fabricação nacional e àquelas produzidas pelos ingleses. Calculava a diferença e racionalizava as razões pela disparidade. Era uma obviedade notar a - franziu o cenho com certo desdém - superioridade industrial, momentânea, da Inglaterra. Deveria começar a tomar as rédeas para além dos impressos ou, ao menos, guiá-las através deles.*

- Peças Alemãs. Contudo, compre algumas em menor quantidade oriundas da Inglaterra e as envie às fábricas de nossa pátria para que sejam avaliadas e possamos melhorá-las. Diga que foi um presente de Herr Fritz, em prol do desenvolvimento do nosso produktiver Prozess.

- Além disso, faça publicização gratuita de nossas indústrias nos jornais menores que o Berlim Zeitung. Especialmente os que alcançam a Áustria. Fomente a ideia de que, mesmo que custem mais, duram muito mais tempo e por isso são mais econômicas para as indústrias.

- A verdade é o que dissermos, desde que sejamos convincentes o suficiente.


* Recostou-se na poltrona de couro cru, em tom bege amarelada, e entrelaçou os dedos enquanto ouvia sobre os estudos. Seu sorriso discreto era mecânico ao passo de que seus olhos e bochechas não acompanhavam o natural sorrir. Nada comentou, desconhecia completamente os filósofos contemporâneos em sua profundidade da mesma forma que conhecia profundamente os inventores. Quando a França foi o assunto, o sorriso falso e forçado lhe deixou a face.*


- Inicialmente, detalhe que os entraves de mineração e instalações são inteiramente franceses. Que nós fomos compreensivos e atenciosos nas negociações mas que as exigências de França nos impedem de minerar e expandir, atando nossas mãos, impedindo o progresso e impossibilitando a criação de postos de trabalho. Indique que o pão que por vezes falta em mesas de operários é culpa dos entraves comerciais de nações corruptas e gananciosas, como a França.

- Os textos do Berlim Zeitung devem ser mais elegantes. Os dos demais jornais de minha posse devem atacá-los fortemente.

* Ouviu sobre os Otomanos e ponderou*

- Preciso me aprofundar em Politik nesse caso específico. Seja vago quanto à aproximação com os Turcos. Não critique e nem vanglorie. Afinal, todo empregador precisa de...Arbeitskräft.

- Agora deixe-me, Goebbels. Prossiga com suas tarefas e...


* Por um momento seu olhar amistoso deixou sua face, dando lugar ao autoritarismo claro*

- Ao sair, preste-me a devida continência militar que lhe faltou na chegada.

* A despeito de sua estima para com o servo, Métodos e Hierarquia são indispensáveis*
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Re: Berlim: Tradição e Modernidade.

em Sab Mar 24, 2018 7:00 am
Joseph anota com diligência as instruções finais de seu protetor, esforçando-se visivelmente para não deixar escapar detalhes. Ao final, levanta-se e, diante da solicitação de Herr Geist, presta uma continência militar efusiva, porém elegante. Deixa a sala rapidamente, acelerando nas escadas que levam à redação do jornal e distribuindo de imediato as orientações de Geist aos funcionários competentes. Sua interação com os outros é marcada por respeito e autoridade, e o Nosferatu nota claramente como os outros funcionários tem em Goebbels o pilar de sustentação de toda aquela estrutura.

O início da noite se passa sem maiores agitações. Alguns documentos precisavam ser revisados e os jornais estrangeiros aguardavam sobre a mesa, esperando para serem lidos. As tarefas absorvem parte do tempo de Herr Geist, e sua concentração é quebrada somente diante da constatação do avanço da hora: era quase o momento de deixar o Berlim Zeitung e partir o encontro de Eric Baring-Gould.

Ordens básicas são dadas e, em pouco tempo, o carro de Herr Geist está pronto para partir.

O caminho até AdalbertstraBe é breve. Geist observa seus conterrâneos, uma massa indistinta de pessoas vestidas em pesados casacos negros caminhando encolhidas sobre si mesmas, tentando livrar-se do frio intenso. O céu escuro enaltece a claridade elétrica de Berlim, e o som dos motores de carros se confundem com o barulho das rodas de madeira das carruagens. No ar, uma mistura tangível de decadência e elegância. Música francesa soa em um bar de índole duvidosa. Nos cantos das ruas, pedintes se aglomeram, disputando a tapas pequenos feudos. Não obstante, Geist tem um vislumbre interessante do efeito de suas ações: um homem alto, na casa dos trinta anos, magro e de aparência adoecida se protege do frio enquanto sentado na sarjeta. Suas mãos, expostas à brisa gélida, seguram um exemplar antigo do Berlim Zeitung. Ao seu lado, outros jornais esperam para serem lidos.
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Re: Berlim: Tradição e Modernidade.

em Seg Mar 26, 2018 12:51 am
* Observou a cidade e seu furor de tradição e balbúrdia mesclados. Enquanto a pujante eletricidade se fazia presente, havia também estabelecimentos repletos de balbúrdia e descrédito às tradições germânicas a tocar música de tolos. O homem de baixa estatura e uniforme militar se contorcia dentro da máquina com rodas, impressionante e elegante, mas que não conseguia mesmo com tamanha tecnologia diminuir o desprezo do olhar pela janela a revelar a mistura de povos e culturas que caminhavam por Berlim.

A visão se entorpeceu, em outro extremo de sensações, ao ver um simples homem - pobre e adoentado - a ler exemplares do Berlim Zeitung. Era isso. Sua indústria da informação passaria a não somente informar, mas formar alemães mais capazes, centrados em suas raízes e ferozes na defesa de sua posição. Berlim seria forjada, não a ferro e fogo, mas a sílabas e sentenças.

Finalmente, o automóvel parou diante do destino. O homem com roupas de alta patente militar desceu após o motorista abrir a porta, seus olhos percorreram a morada de Baring-Gould com certa curiosidade enquanto caminhou decidido até a entrada. Deixou ordens expressas para que o motorista o aguardasse.
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Re: Berlim: Tradição e Modernidade.

em Seg Mar 26, 2018 6:50 am
Geist se viu diante da morada de Baring-Gould, visivelmente um local utilizado somente para reuniões. O prédio antigo, aparentemente do século XVIII, havia resistido à modernização galopante pela qual passava Berlim. Era de um vermelho desgastado, com janelas estreitas, mas contava já com luz elétrica. Os quatro andares contrastavam com construções mais altas no mesmo bairro. A região, contudo, era bastante tranquila, repleta de pequenos negócios e salas comerciais.

Os portões de ferro estavam semiabertos. Geist procedeu, passando por um balcão de recepção vazio com jornais acumulados. Berlim Zeitung havia chegado ali também. As escadas eram forradas com um carpete velho, mas diligentemente limpos. A subida era estreita e silenciosa, os apartamentos, provavelmente sede de pequenas atividades autônomas, estavam vazios. No terceiro andar, Geist divisou a luz oriunda de uma porta aberta. Na parte comum do prédio, imerso em uma densa fumaça acinzentada, um homem fumava um cigarro tranquilamente .

Era estranhamente alto. Os braços eram longos, e o esquerdo se movia graciosamente ao levar o cigarro à boca. Estava bem vestido, com um terno de corte visivelmente alemão, sóbrio e elegante. Na cabeça uma cartola escura e alta, que cobria os cabelos mas deixava à vista uma parte dos fios, louros, quase brancos. A face era nitidamente germânica: maxilar bem estruturado, olhos acinzentados e nariz médio. De dentro do apartamento saia uma música de caráter notadamente popular, ainda que alemã.

Notou Herr Geist quando ele terminou de subir as escadas. Virou-se em direção ao Nosferatu e sorriu.

- Bem vindo, meu caro. As instalações são simples, mas é aqui que eu prefiro conduzir meus negócios. É um prazer encontrá-lo para discutir assuntos de nosso interesse. Mas, enquanto termino o cigarro, um vício antigo e não superado, diga-me. Como tem passado?
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Re: Berlim: Tradição e Modernidade.

em Seg Mar 26, 2018 11:04 pm
Geist, o fantasma, adentrou ao prédio clássico que resistia à modernidade. Seria um prenúncio do seu anfitrião esta noite? Esperava que não, afinal, perecem os cainitas que são tolos o suficiente para que sejam engolidos pelas invenções e o avançar humano.

Subiu as escadas até ter a visão limpa daquele que o convidou. Após certificar-se de que estavam a sós naquele ambiente e a cada passo nas velhas, porém bem cuidadas, escadarias deixou propositalmente sua máscara das mil faces se desfazer. Considerava inapropriado usar de seus dons das trevas na presença de semelhantes desnecessariamente.  Sua face germânica com pele alva e cabelos loiros, além de profundos olhos azuis logo deixou de existir para que a máscara de gás se fizesse presente sobre um corpo coberto com um uniforme alemão de alta patente.

Embora preferisse não utilizar de seus dons, mantinha a máscara presente pois considerava inapropriado exibir sua maldição que era única e exclusivamente fardo dele próprio. Caminhou em direção ao Anfitrião e lhe estendeu a mão, recoberta com luvas negras, em cumprimento.


- A Simplicidade é um símbolo de revelação de caráter, Herr Baring- Gould. Vosso convite é bem aceito, mas confesso que minha curiosidade foi atiçada sobre os tais assuntos de nosso interesse.

A voz saía abafada por conta do respirador da máscara de gás escura que lhe revestia a  face. Aqueles olhos negros e grandes do objeto refletiam o homem de cartola à sua frente.

- As noites têm sido ocupadas, produktiv, eu diria.

Além de abafada, a voz soava mais grave do que aquela quando vestia a pele de Fritz. Não se poderia mensurar ao certo a idade na qual Herr Geist fora abraçado, afinal, sua maldição e máscara impossbilitavam a visão de sua aparência e sua voz era abafada pelo aparato em seu rosto.
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Re: Berlim: Tradição e Modernidade.

em Ter Mar 27, 2018 8:40 am
- Fico feliz que esteja tudo andando bem, Herr Geist. Me acompanhe.

Eric conduziu Geist ao apartamento, fechando a porta atrás dos dois. O local era pequeno, não mais que um mono local apinhado de livros e jornais espalhados por toda parte. No chão um tapete avermelhado, como o das escadas, parecia pulular de ácaros. As janelas estavam fechadas e o aquecedor ligado emitia um rumor constante. Haviam alguns quadros de gosto duvidoso, uma mesa de madeira aparentemente fragilizada pelo peso de tantos livros e algumas luminárias elétricas nas paredes.

Baring-Gould retirou livros e papéis de cima de duas cadeiras de madeira, colocando-as uma diante da outra a uma distância média. Sentou-se e convidou Herr Geist a fazer o mesmo antes de começar.

- Em primeiro lugar, agradeço pelo atendimento à minha solicitação de uma reunião. São poucos os cainitas com os quais concordo ultimamente, e menos ainda são aqueles com quem sou disposto a dialogar.

A voz era límpida e suave. Havia alguma coisa de sedutora, de extremamente convincente em seu tom de voz. Geist, contudo, não se sentiu sob influência de nenhum dos Dons do Sangue.

- Veja, Herr Geist, eu sou um homem de negócios. Meu objetivo principal é ver o Império Alemão ocupando o local que é seu de direito e de destino. Os avanços que fizemos nos últimos setenta anos foram impressionantes: nos tornamos a segunda potência industrial europeia - primeira em algumas áreas. No entanto, este ciclo se está encerrando. O Império não é mais capaz de dar conta das nossas necessidades de crescimento. É um gigante entorpecido pelas pressões externas.

- Adicionalmente, nossas tentativas de aumentar nossa influência tem sido barradas por forças contrárias ao Império. No momento a situação que mais me preocupa é aquela russa: um dos nossos contatos dentro daquele Império nos informou que existem fortes resistências aos nossos planos econômicos. É o mesmo em relação à França, que recusa nossas generosas ofertas de investimento.

- Parte destes esforços partem dos governos mortais, mas uma parte considerável é fruto da ação dos nossos iguais. Em Rússia uma pequena - mas influente - facção do meu Clã organiza grupos que assumem uma postura abertamente antigermânica. Em Paris, o próprio François Villon organiza a resistência.

- Identifiquei em você, Herr Geist, um homem de princípios claros. Acompanho o Berlim Zeitung já há algum tempo, e consigo ler nas entrelinhas parte de seus posicionamentos políticos. O objetivo de meu convite era exatamente esse, discutir com alguém de posições semelhantes. Se eu estiver errado, me corrija e me perdoe. Se eu estiver correto, tenha em mente que as minhas inclinações - e portanto as suas - vão contra àquelas do Príncipe Briedenstein e da maioria da Corte. Se não em relação à expansão econômica ao menos em relação à necessidade do modelo Imperial.
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Re: Berlim: Tradição e Modernidade.

em Ter Mar 27, 2018 10:07 pm
* Entrou conforme solicitado e vislumbrou, através dos grandes e escuros globos que desenham olhos em sua máscara, o deprimente local. Ouvia o discursar do Brujah enquanto sentava-se na cadeira que lhe foi disposta. Cruzou as pernas e repousou a mão esquerda, revestida em uma luva negra, sobre o joelho. Dedilhava, incessantemente, enquanto as palavras saíam em profusão da boca de Baring-Gould.

Como poderia alguém se alojar em um ambiente tão desprovido de métodos? Pensava o nosferatu. A assimetria do ambiente, os preciosos jornais largados ao chão e o ruído incômodo do aquecedor, velho e carente de manutenção apropriada, lhe consumiam os já mortos nervos. Desprezível modo de viver a noite. Suas palavras não condiziam sequer com seu modo de ser Alemão. Balbuciava sobre a grandeza da pátria e vivia entre escombros indignos dos germânicos.

Inquieto a dedilhar o próprio joelho, conteve-se. Era de sua natureza ouvir, avaliar e aprender antes de se posicionar mesmo que sua mente fervilhasse em ideias e sensações. Afinal, método e repetição são os fundamentos básicos do sucesso de cada ação.

Ouviu sobre as pressões externas e a política, ponderou e ao fim das palavras de seu Anfitrião - precisamente após cinco segundos de silêncio - emitiu seus pensamentos com sua voz abafada pela máscara de gás*


- Herr Gould aspira por uma Alemanha elevada ao seu seu status natural de Überlegenheit (superioridade). Me agrada o início de vosso raciocínio, mas faço ponderações para que possamos discutir o assunto apropriadamente.

* Ergue o polegar da mão que finalmente interrompera o dedilhar sobre a própria perna*

- Discutir uma Alemanha política e industrialmente forte não passa necessariamente por confrontar o Príncipe Briedenstein, ao menos inicialmente. A figura da Majestät é, discorde ou desgoste, um pilar de sustentação do nosso território em tempos nos quais nossas fronteiras estão demasiadamente abertas à estrangeiros. Desautorizá-lo, neste momento específico, é enfraquecer nossa fundação.

* Em seguida, ergue o indicador e continua*


- As sanções Francesas e sobretudo Russas impactam em nosso desenvolvimento industrial, tenho acordo convosco. Me parece que as relações entre França e Inglaterra, este último concorrente vil de nossa produção fabril, são ainda mais urgentes. Para nos aprofundarmos nesta questão, tendo em vista que o Senhor conhece os meus afazeres, preciso saber de quais negócios o Senhor é um homem.

* Abaixa a mão, apontando em direção ao aquecedor*

- Por fim, Herr Gould, desligue aquele aparato antigo e de mal funcionamento. Peças desconexas e falta de compasso nas engrenagens não são características aceitáveis para a Alemanha que pretendo construir, um pequeno símbolo como esse invalida um diálogo voltado para esse sentido.

* Novamente, após cinco precisos segundos, encerra*

- Dito isso e consideradas as disposições, sou receptivo às vossas ideias sobre o fortalecimento Alemão. Por favor, prossigas para que averiguemos se, de fato, suas inclinações são também minhas como supôs.
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Re: Berlim: Tradição e Modernidade.

em Qua Mar 28, 2018 9:56 am
Baring-Gould sorri. Não expressa nenhuma contrariedade em levantar-se e desligar o aquecedor. O apartamento cai em um silêncio quebrado somente pelo som dos passos de Eric ao retornar e sentar-se diante do Nosferatu.

- Meus negócios, Herr Geist, se espalham por muitas frentes. Majoritariamente opero no setor de aço e de transportes, setores essenciais para o nosso desenvolvimento econômico. Meus interesses, contudo, são razoavelmente mais amplos, incluindo incursões no setor cultural e universitário.

Gould cruza a perna esquerda antes de continuar.

- Penso que nossa posição econômica atual, ainda que fruto de um avanço impressionante nos últimos anos, está ameaçada. Nossos vizinhos tem tomado atitudes intensamente protecionistas, recusando nossas ofertas de investimento. O único que se mantém relativamente aberto é o Império Russo, mas mesmo isso parece estar começando a mudar.

- Nossos rivais estão nos cercando. Não dispomos dos mesmos mercados que eles e o mercado interno alemão, sozinho, não pode sustentar a expansão da nossa indústria. Nossas colônias são irrelevantes, se comparadas as dos outros países europeus com produção semelhante à nossa. Tendemos, inevitavelmente, ao colapso.


Baring-Gould se levanta e passa a caminhar pela sala apinhada de jornais e livros.

- O nosso modelo imperial também nos impede de avançar. A maior parte das decisões políticas depende do Imperador e de seus ministros mais próximos. E, embora concordemos no remédio não concordamos no diagnóstico. É exatamente neste ponto que eu me diferencio do Príncipe Briedenstein: ele defende, de forma intransigente, uma estrutura política ultrapassada, que não dá conta de responder às nossas necessidades. Eu, pessoalmente, acredito que um modelo republicano seria muito mais apto a dar a Alemanha o que ela precisa.

- O outro ponto de discordância é muito maior, mas também muito mais simples. Eu acredito que a saída para os nossos problemas é a saída usada por todos os reinos e nações da terra quando diante de problemas econômicos. A guerra é a única saída, Herr Geist. Uma saída que Briedenstein é extremamente reticente em apoiar.
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Re: Berlim: Tradição e Modernidade.

em Qua Mar 28, 2018 5:16 pm
* Manteve-se sentado, com as pernas cruzadas e inquieto até que a máquina de barulho inconstante e descompassado foi desligada. Sentiu-se aliviado a não constatar mais falhas no funcionamento do aparato, ao menos através de seus ouvidos uma vez que o ambiente em sua dispersão de jornais largados como papéis velhos ainda o deixava desconcertado e um tanto quanto irritado.

As palavras de Gould eram precisas. Apesar de visualmente ser desleixado, ele era intelectualmente capaz - ou assim se fazia aos ouvidos de Geist. Permaneceu em silêncio por alguns segundos após o disurso do Brujah, maquinando ideias.

Levantou-se e caminhou lentamente para um dos lados da sala, evitando a todo custo pisar sobre os jornais - tão dedicadamente produzidos - que se acumulavam pelo chão. Sua mão esquerda mantinha-se em um tique nervoso que dedilhava, mesmo no ar, como se contasse os próprios pensamentos. Em verdade, uma série de conjecturas lhe atravessava os pensamentos e todos eles impulsionados por uma só palavra:

Guerra.

O cainita com sua peculiar máscara de gás e vestindo, em tempos de suposta paz, um uniforme militar condecorado - o mesmo utilizado durante as guerras prussianas - começou a falar, abafadamente, ainda de costas para seu interlocutor.*


- Fecharam-no portas que somente serão abertas em conflito. Cercearam nosso crescimento e precisamos arrebentar as amarras. Invadiram nosso território com sua música, comida e cheiro. Devemos retribuir com igual ímpeto e muito maior força. Tens minha atenção, Herr Baring-Gould.

- Eu tenho...aspirações.

* Ele se vira, caminhando decididamente em direção ao Brujah e parando somente alguns centímetros antes desse. Nos enormes e escuros olhos de sua máscara, o sorriso de Baring-Gould se reflete*

- Völkisch. É preciso resgatar o povo alemão das garras dos estrangeiros. Fortalecer nossas tradições e transmitir a ideia de que a Alemanha pertence aos Alemães. A República seria um passo interessantíssimo nesse sentido, devo concordar com Herr Gould, a ideia mesmo ilusória de que o populismo possui força de decisão fortalecerá a união dos filhos da Germânia que se levantarão de sua inércia.

- Penso, há algum tempo, em criar uma coalizão de membros interessada no fortalecimento de nossas raízes, cultura e com isso dar menos espaço para a...mistura, que se abate sobre o povo alemão. Os franceses negam-nos a expansão industrial mas caminham por nossas ruas e despejam, inclusive, sua pobre música aos ouvidos dos transeuntes. Ingleses passeiam em nosso território e negociam seus produtos fabris com os pequenos produtores a melhor custo do que as nossas fábricas nacionais. É um absurdo!

- Assim como o aquecedor que foi desligado, nossa engrenagem vêm sendo sabotada pela inclusão de peças de origem duvidosa e nocivas ao funcionamento da máquina de nossa Pátria-Mãe. Basta!

- Criemos, então, um movimento Völkisch de unificação Alemã!


- Negam-se a abrirem suas fronteiras, as abriremos a fogo e sangue. Mas, primeiro, devemos garantir a limpeza de nosso território de indesejados visitantes.

* Notando que provavelmente se excedeu, Herr Geist dá um passo atrás diminuindo a distância entre ele e o Brujah*

- Confesso que as noites dedicadas ao Berlim Zeitung e aos demais jornais de menor produção que me pertencem acabaram me afastando das noites políticas de Berlim. Citou, Herr Baring-Gould, que a maior parte da Corte e o próprio Príncipe se posicionam contra a inevitável Guerra. Pergunto-lhe, quais dos que caminham na noite e possuem utilidade nessa empreitada estariam do nosso lado? E...

* Olha a seu redor. Não é desdenhoso mas há um tom de real dúvida em sua pergunta*

-...de quais recursos dispomos?
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Re: Berlim: Tradição e Modernidade.

em Qui Mar 29, 2018 9:05 am
Baring-Gould expressava uma imensa satisfação, visível em sua face, com o rompante patriótico de Geist. Escutava cada uma das palavras com uma atenção dedicada, saboreando-as como se fosse Vitae de qualidade. Quando o Nosferatu se acalmou, o Brujah se levantou e caminhou em direção à única janela do ambiente. Observou Berlim durante algum tempo antes de responder.

- Fomos relegados à posição de coadjuvantes no grande xadrez europeu, Herr Geist. O que éramos antes? Eu não era sequer vivo quando existia o Sacro Império. Mas as histórias estão aí. Quando decaímos? A unidade alemã, que deveria nos fortalecer, nos colocou como alvo principal dos inimigos europeus. Qual a razão de não reagirmos? Estas perguntas me perturbam.

Girou-se.

- Tendo a concordar com o senhor. A mistura nos torna fracos. Nossos inimigos estão aqui dentro, Herr Geist, minando os nossos esforços, dia após dia. Nos estão sabotando continuamente. O Império é incapaz de responder, ainda que boa parte dos políticos nacionais seja a favor de um enfrentamento... mais duro. Estamos, se as coisas não mudarem, fadados ao desaparecimento ou à anexação da parte de algum outro Império.

Por fim, encarou Herr Geist. Os olhos do Brujah se encontravam com as grandes esferas escuras que eram os olhos da máscara de gás.

- Nós temos mais acordos do que podes imaginar, Herr Geist. Existem aqueles que caminham pela noite que estão de acordo conosco. Existe, sobretudo, um individuo muito importante a sustentar essa causa. Estarias disposto a encontra-lo?
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Re: Berlim: Tradição e Modernidade.

em Ter Abr 03, 2018 8:09 am
* O fantasma tremia de excitação por dentro, como há muito não o sentia. Por fora, contudo, conteve-se em uma passividade quase perturbadora após o rompante anterior. Não se permitia extrapolar os modos e os métodos de comportamento estabelecidos para si mesmo.

Manteve-se de pé, ouvindo atentamente as palavras daquele cainita. Havia finalmente encontrado àqueles que, junto a ele, iriam erguer a Alemanha ao topo tão merecido e destacado? Seriam aqueles vampiros, reunidos, que unificariam seu povo e expulsariam os detestáveis estrangeiros para a construção de um estandarte puro e soberano?

Os dedos da mão esquerda de Geist voltaram a dedilhar a própria perna, descompassados e constantemente, eram a sua válvula de escape das emoções fortes que lhe acometiam. Quando questionado, sua voz ressoou abafada, mas firme de convicção e propósito*


- Por uma Alemanha überlegen eu encontraria o próprio Caim, Herr Baring-Gould.
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Re: Berlim: Tradição e Modernidade.

em Qui Abr 05, 2018 5:41 am
O Brujah riu diante da sentença de Geist.

- Ótimo, Herr Geist. Ótimo. Me dê algumas horas para providenciar o encontro mas de antemão imagino que não haverá problemas. Amanhã à noite, às 20 horas, nos encontraremos sob o Portão de Brandemburgo. Recomendo prudência e civilidade, nosso interlocutor é particularmente... exigente com as boas maneiras e com a etiqueta. Sobretudo quando o assunto é tratar com alemães e entre alemães.

Baring-Gould se levantou da velha poltrona, estendendo a mão direita para cumprimentar o fantasma.

- Foi um imenso prazer conhecê-lo pessoalmente, Herr Geist. Estou certo de que faremos grandes coisas juntos, criando um glorioso futuro para a Alemanha.

Nos olhos do Brujah, Herr Geist reconheceu uma poderosa chama, similar àquela que queimava em seus próprios olhos, se eles pudessem ser vistos. O Brujah jogava como o Nosferatu, embora fosse mais expressivo e suas intenções fossem um pouco mais óbvias. Eric Baring-Gould parecia nitidamente satisfeito com os resultados do encontro e esperançoso que os resultados futuros portariam o país à posição que era sua por direito no intrincado xadrez europeu.
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Re: Berlim: Tradição e Modernidade.

em Qui Abr 05, 2018 10:08 pm
* Satisfação. Tão intensa quanto a do cheiro de uma papeleta recém-impressa. Não, maior. Muito maior. Os jornais eram um meio para um fim de importância substancial e, aparentemente, o Brujah seria outro meio para o mesmo fim.*

- Civilidade é um traço estimado por mim, Herr Baring-Gould. As palavras carregam o peso de iniciar ou encerrar Guerras. Que as usemos com sabedoria.

* Disse a abafada voz proveniente da máscara, enquanto cumprimentava seu interlocutor.*

- Amanhã, pontualmente as 20h...* Disse retirando um relógio de bolso dourado das vestes militares*...traçaremos  o futuro da Alemanha. Tenho grandes expectativas em nossa aliança, Herr-Gould, e nos frutos que todo Alemão colherá proveniente dela.

* Embora não fosse visível, o Brujah poderia jurar que viu um sorriso macabro esboçar-se por trás da Máscara de Gás. Despediu-se e apressou-se, sua ansiedade para a noite e as tratativas vindouras o fazia desejar até mesmo que o sol e a maldição do sono diurno logo caíssem sobre seu corpo morto-vivo, para que o próximo despertar trouxesse seus anseios à realidade.*
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Re: Berlim: Tradição e Modernidade.

em Sex Abr 06, 2018 5:00 am
O dia passou velozmente. Geist se levantou cedo na noite seguinte, o sol havia se posto velozmente, sinal de um inverno que seria duradouro. Vestiu-se elegantemente, embora com o tipo de indumentária que era a sua marca registrada. No ar, Schubert. O elevador o conduziu do bunker até seu escritório, no alto da redação do Berlim Zeitung. O fantasma constatou que o jornal já estava em plena operação. Sobre a mesa, um fac-símile, provavelmente deixado por Goebbels, que deixava claro o editorial que estamparia o Zeitung naquele 9 de Janeiro de 1913:

"Qual a Nossa Responsabilidade para com a Alemanha?"

Como manchete inferior, mas ainda na primeira página:

"Franceses Buscam Impedir o Desenvolvimento do Império".

Geist dispunha de ao menos uma hora e meia para organizar algumas últimas pendências antes de partir rumo ao Portão de Brandemburgo. A mesa estava diligentemente organizada, como Joseph a deixava sempre, com os jornais internacionais empilhados em um dos lados e orçamentos referentes ao Zeitung em outra parte. No centro, uma folha de papel encardida e amarrotada chamou a atenção do Nosferatu. Era um curriculum e anexo a ele algumas cartas de recomendação. Sobre estes papéis, um bilhete escrito com a elegante caligrafia de Goebbels explicava a situação:

"Estou nas prensas inferiores. Este homem espera o senhor desde o meio dia de hoje. Apresentou curriculum e gostaria de proceder a uma entrevista de emprego. Se desejar vê-lo, faça-me saber. Levei em consideração o pedido após ver as indicações, que são fabulosas. Lhe deixei alguns recortes de jornal referentes ao indivíduo."

O curriculum era impressionante. O homem havia servido nas colônias, como emissário do governo alemão, por alguns anos. Era um jornalista gabaritado, colaborador ativo de diversos jornais de caráter conservador e defensor intransigente do povo alemão. As notícias deixadas por Goebbels davam conta de que havia sido expulso do Reino Unido depois de ser acusado de espionagem industrial e governativa. Havia trazido à Alemanha documentos importantes que possibilitaram um avanço crucial na indústria de rifles. A foto que ilustrava o curriculum era a de um belo homem: louro, com olhos nitidamente claros, embora a sua imagem fosse em preto e branco. Havia algo de impositivo em seu olhar. Geist identificou rapidamente esta característica, reconhecendo-a como a altivez e o orgulho que tanto buscava no povo alemão.
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Re: Berlim: Tradição e Modernidade.

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