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Rajmund
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A Gathering of Beasts

em Qua Dez 12, 2018 12:14 am
-Beckett! Aqui!

*O Gangrel se estreitou pela multidão até chegar numa das mesas apinhadas no canto do pub. O Calleva Arms tinha a vantagem de estar sob controle dos Membros, então não era uma grande preocupação ver as duas pints de sangue na mesa, ainda que fossem amoralmente caras.*

-Rajmund. Você parece bem.

-Bem. Pfah! Cada noite um missón peor que outrro. E estou nesse ilha isolado do Eurropa como diplomata, acrredita? Enviado de pás e bom vontade. Às fezes eu querria ter queimado num trrincheirra... Terria sido más fácil, te garranto.

*Estavam em ambiente seguro, verdade, mas Beckett não podia deixar de pensar como Rajmund Samiec podia se... sobressair. Uma cabeleira desgrenhada somada à suíças que devem ter saído de moda há uns cento e cinquenta anos e um sotaque impossivelmente carregado numa voz poderosa e pouco adequada para ambientes internos faziam de seu colega Gangrel uma figura peculiar, e notável.*

-Enviado em missão diplomática não sabendo falar direito a língua local? Mesmo?

-E acha que eu non diz? Quando aprrendo frrancês o soficiente parra deixar książę Villon e Pan Labianus satesfêtos, acha que parra aí? Nie! Rajmund agorra tem que aprrender inglês, porque inglês léngua nofa do mondo. Pfah! Eu quase torcia parra os russos, só parra non ter que aprrender o inglês!

*O arqueólogo apenas observa o desabafo teatral com um meio sorriso no rosto, enquanto aproveita o tempo para observar melhor o interlocutor. Estava vestido como um motoqueiro, o que ele supunha pelo menos combinar de forma crível com seu cabelo e barba. Ele era de baixa estatura e compleição esguia, um olhar faminto que nunca parecia deixar seu rosto. Mas Beckett tivera cerca de trezentos anos para aprender que a compleição física pouco importava para medir a real força de um Membro e Rajmund, embora um ancião relativamente jovem, era monstruosamente forte. Quando ele termina seu monólogo raivoso, Beckett se ajeita na cadeira de forma quase presunçosa.*

-Diga-me: esse número que você faz de "estrangeiro burro" já chegou a enganar alguém?

*Rajmund bateu a caneca na mesa, o cenho franzido numa expressão contrariada e depois irritada. Até que se desmanchou em uma gargalhada abafada e rouca, num riso lupino. Um riso literalmente lupino, Beckett constatou, ao ver que os dentes do outro Gangrel eram afiados como o de uma fera carnívora.*

Hah! Funcionava melhor quando eu era mais estrangeiro, verdade. Mas não sei se era mais burro antes ou hoje. *Embora Beckett ainda pudesse sentir um traço de sotaque na voz, estava longe da fala macarrônica que Rajmund gostava de exibir.* -Recebi sua mensagem, e para sua sorte, estava em Londres. E quando Beckett está te procurando, tem cheiro de tempestade no horizonte. Ou cheiro de merda, se deixar o estrangeiro burro falar.

-Eu ouço isso bastante. Mas nem sempre em termos tão coloridos... Em todo caso, ouvi sobre uma movimentação no Oriente Médio. Algo que tem deixado algumas cabeças coroadas na Camarilla nervosas. Cabeças graúdas. E queria saber o que ouviu sobre isso.

*Rajmund apenas fita Beckett, batendo os dedos, curtos, nodosos e terminados em unhas pretas, na mesa.*

-Você sabe que não adianta bancar o idiota comigo, Rajmund. Você frequenta os altos círculos. É um confidente. E as pessoas se acostumaram tanto com a ideia do "Cão de guerra da Camarilla" que nem prestam mais atenção no que você está ouvindo. Mesmo sendo um diablerista e com um passado de queimar Tremere a torto e a direito você tem acesso, e eu sei que pode me dizer algo sobre isso.

-Você sabe a única coisa que a Camarilla não tem sobrando? Lealdade. Se você é leal, e não é idiota sobre isso, pode chegar longe. Todo o resto... Todo o resto é negociável.

*O arqueólogo sacode a cabeça, bufando de forma irritada (sendo ele também, mais animalesco do que gostaria de admitir.)*

-Muito bem, cobro um favor então. Estrasburgo, 1947. Me ajude nisso e estamos quites.

-Março ou dezembro de 47?

*Beckett olha para Samiec com uma expressão curiosa, antes de por os pensamentos em ordem e responder.*

-Março. Não estava lá em dezembro.

-Ah sim, a granada. *Ele dá um riso curto, parecido com um latido* -Muito bem, favor por favor, e estamos quites. Até eu salvar seu traseiro uma noite dessas e você me dever.

-Você sabe que os Assamitas se envolveram em sabe Deus qual problema interno, e que por isso alguns deles querem se juntar. E esses que querem parecem ter achado alguma... coisa que dizem que vai resolver esse problema de uma vez por todas.


-Você não sabe nada sobre o Cisma? E coisa? Mas que diabos, chama isso de informação?

-Estrangeiro burro, lembra? Eu sou o cachorro que chamam para estripar alguém engraçadinho ou para falar com alguém que ninguém mais quer encontrar. Mas se você quer beber chá, trocar cerimônias e achar palavras bonitas para por no seu diário, melhor procurar o Turco.

*Beckett precisa de alguns instantes para processar o nome, até que vem um clarão em sua mente.*

-Você sabe que na verdade ele é sírio, não?

-Pfah. Ele era muito feliz como turco quando eu o conheci. E falou por todos os Membros da Turquia na hora de se discutir paz. É mais turco do que qualquer vampiro turco que eu tenha conhecido.

*suspiro* Muito bem, e onde eu posso encontrá-lo?

-Iêmen. É onde eles se reuniram atrás da tal coisa. Aliás, até onde eu sei, foi ele quem os reuniu lá. *Ele começa a se levantar.* E agora, se já parou de me perguntar sobre fofocas que correm dentro do Círculo, eu tenho que me encontrar com essa porra de Monty Coven pelas costas da porra da Rainha louca para negociar uma trégua em nome da porra da Camarilla. Que achou que eu seria o homem certo pra missão por ser do sangue de um dos maiores inimigos de Mithras e ter enfrentado os irmãos dele em combate...

-Coven, hein? Talvez tenham acertado em te enviar para isso. Ele não é antipático, pessoalmente, e carrega muitas das memórias de Mithras. Parte de mim não duvida que ele esteja no controle dentro de tudo. E acho que ele irá gostar de vê-lo novamente.

-Pfah. Ou isso ou uma estaca e o nascer do sol. Boa jornada, Beckett.

-Boa jornada, Rajmund.
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Re: A Gathering of Beasts

em Ter Dez 18, 2018 6:08 am
A mulher estava de pé naquela sacada escura. Fazia frio, era Dezembro. 1939. Suspirava fundo cada vez que se dava conta de quanto tempo havia passado sobre a Terra. Repassava mentalmente os passos que ainda deveria dar. Depois daquele encontro viajaria atéa sua amada Espanha para depois seguir viagem, passando pela Itália e Turquia antes de finalmente se dirigir para as colônias francesas em África.

Era metódica e organizada, à diferença de seus aliados costumeiros. Flutuava sobre a inconstância de Anatole, sobre a impulsividade de Beckett e sobre o excesso de zelo de Al-Amin. De certa maneira, era o colante que vinculava indivíduos tão diferentes. Os tinha em grande estima, é verdade, mas ocasionalmente sentia prazer em estar sozinha. Ou em dedicar-se aos assuntos de seu Clã, como era o caso agora.

Exceto por Al-Amin, Lucita pouco via os outros naquelas noites. A razão para isso, segundo ela, era simples. A intelectualidade elegante do Turco a estimulava. Sempre havia sido assim com os Filhos de Haquin.

- Eu estou aqui, Lucita.

A cainita se girou. Sabia que não o veria pessoalmente. Monçada já havia comentado sobre a natureza reservada de Daharius Sarosh, e de como os anos haviam pesado em sua psiquê, resultado natural de inúmeras perdas acumuladas. Prudência, Lucita. Prudência e respeito. Ele a tem em grande estima, és uma sua descendente. Contenha, contudo, tua ironia. Ele não destruiria você, mas existem coisas piores do que a Morte Final.

E por fim, naquela sacada de um hotel barato em Paris, sob um céu escuro e um sentimento palpável de tragédia no ar, Lucita viu o Olho. Uma esfera de escuridão que flutuava, lentamente, em sua direção. Observou a aproximação de seu ancestral enquanto lia com a visão periférica o jornal sobre a mesa de chá da sacada. Hitler invade a Polônia. Daladier convoca o Exército.

Notou, com surpresa, que estava nervosa. Tinha razão em estar, porém. Aquele era o vínculo mais próximo com o seu... passado. Esperou que ele falasse.

- Tenho prazer em vê-la caminhar por este mundo, Lucita. - A voz era cansada, dona de um pesado acento que Lucita não conseguia identificar.

- Eu digo o mesmo, Sarosh. Peço, porém, que sigamos direto ao ponto. Nosso tempo é escasso.

- Muito bem. - Começou a esfera. Lucita notou como ela parecia um olho escuro que a observava e parecia julgá-la. - Me interessam os últimos acontecimentos. Você segue para a Polônia. É de nosso interesse que o conselheiro de Eigermann, o cainita conhecido como Fantasma, encontre a Morte Final. Ele se encontra no país, supervisionando as operações militares.

Lucita notou relâmpagos no céu escuro. Encarou o Olho. Sabia do interesse de Sarosh no mundo, atípico a muitos cainitas de sua idade. Mas tal ação era como uma declaração de guerra ao autoproclamado ImperatorEigermann. Subitamente recordou do quanto havia alertado, ao longo dos últimos anos, sobre os problemas que seriam causados por seu retorno.

- Eu imagino que os Amicis Noctis estão de acordo. - Levantou o questionamento.

- Por decisão minha e até que ao contrário eu decida, os Amicis Noctis não se reúnem.

A cainita respiraria fundo, se pudesse. Manteve a face inalterada.

- Você vai me encontrar pessoalmente quando da sua passagem pela Itália. Me falará de seus resultados. E eu te falarei de coisas que precisas saber.

O Olho desapareceu em uma pequena nuvem de vapor avermelhado. Lucita sentiu a Besta se agitar, a Fome crescer quando sentiu o perfume de Vitae Ancestral.

- O conselheiro de Eigermann, então.

Ao menos Sarosh havia sido direto.

*

Do alto de uma outra sacada, Beckett observava as ruas vazias de Varsóvia. O odor de aço era onipresente, o perfume da guerra que parecia o acompanhar ao longo dos últimos séculos. Observou por alguns instantes as bandeiras vermelhas dependuradas ao longo da avenida. Não conseguia deixar de achar engraçada a escolha da suástica como símbolo. Girou-se quando percebeu a presença de Lucita.

- Não sabia que estava em Varsóvia.

Beckett deu de ombros.

- É difícil despistar você. Vim para encontrar um amigo.

- Samiec. Eu sei.

Beckett, que tinha voltado a olhar através da janela, voltou-se para Lucita novamente. Preparou-se para uma nova discussão, uma que perderia novamente. Al-Amin costumava dizer que era impossível convencer Lucita, a menos que ela o desejasse inconscientemente.

- Eu sei que você não está de acordo. Mas Samiec trabalha sob ordens da Camarilla. E a Camarilla quer o Fantasma morto.

Desta vez foi Lucita quem deu de ombros, imitando propositalmente o gesto de Beckett.

- Eu não tenho de estar de acordo com nada. Não pertenço à Camarilla. Não sou amiga, sequer próxima, a Rajmund Samiec. Suas excentricidades tendem a ser do teu interesse, Beckett. Ocorre que...

- Que o teu Senhor tem interesse na situação. Eu sei.

Lucita sorriu. Os olhos escuros fitavam os detalhes daquele quarto de hotel. O horrível tapete vermelho e as manchas de umidade nas paredes.

- Pior.

Beckett assentiu. Havia entendido.

- Digamos que eu e Samiec temos um objetivo em comum. Você pode servir de diplomata, teu esporte preferido. Imagino que Samiec não tenha me perdoado desde Madrid. - Escondeu um meio sorriso.

- 1924 ou 1937? - Questionou Beckett.

- Ambas as vezes - Respondeu Lucita.




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Re: A Gathering of Beasts

em Seg Dez 24, 2018 8:30 am
Tocavam sinos funestos ao longe.

As botas estavam sujas de lama, afundando a cada passo na terra escura. Um odor acre parecia onipresente, mas o vampiro sabia que emanavam das árvores. Era como se, ao alimentar-se daquela terra, expulsassem em gases e pestilência o que a compunha. O céu sobre o vampiro era escuro e profundo, o que o deixava invisível na escuridão, considerados o sobretudo, a pele e os cabelos escuros. Quebrava o silêncio somente os passos úmidos e o vento de cantava por entre os galhos secos e retorcidos. Ao seu redor, somente as árvores, insinuando-se sobre a estreita passagem de lama que o levaria até o local do encontro.

Caminhou por horas a fio. Não teve a sensação de ser seguido ou observado. Era como se estivesse profundamente sozinho naquele bosque no interior da Bulgária. Caminhou e caminhou, sem escutar sequer um chiado animal. Era como se seu anfitrião desejasse que ele explorasse aquele vazio - ou aquela paz, dependeria de como seria a recepção. E, de fato, sentiu-se razoavelmente sozinho. Todos os cainitas o eram, ao final, a despeito dos laços que estabeleciam na longa jornada da não-vida. Seus únicos companheiros eram seus livros e suas próprias obsessões, que tinham se agravado com o passar dos anos.

Deteve-se quando a viu.

Era uma mulher belíssima, mas de forma natural, diversamente do que esperaria de uma Tzimisce. Era alta, com uma vasta cabeleira escura que terminava em grandes cachos. Sua pele era branca como o leite, numa tonalidade estranha à palidez dos vampiros. O homem via as veias que conduziam o Vitae imensamente poderoso por todos os membros, pois ela estava nua. Viu ainda os seios bem desenhados e as pernas fortes, que se uniam em um sexo pequeno e coberto de pelos. Os olhos, porém, ofuscavam qualquer outra coisa. Um era azul e o outro vermelho. Era, de fato, quem procurava.

- Senhora Zena. Sou Aziz Al-Amin. Venho de longe e humildemente em busca de teu Senhor.

A princípio, a mulher não respondeu. Escrutinou Al-Amin com seus olhos bicolores. O Filho de Haquim sentiu-se invadido, mas nada poderia fazer para impedi-la. E nem deveria. Zena era progênie do lendário Enki, provavelmente o mais velho dos filhos do Antediluviano Tzimisce ainda vivo. E o único que poderia ajudá-lo a encontrar o Primeiro Vizir.

- Você vem em paz, mas traz a guerra consigo. - Começou Zena, mexendo a boca discretamente. Era como se o som se propagassem sem precisar de articulação. - Eu o levarei até meu Pai. Devo dizer, contudo, que a idade o fez mais hermético. Espero que possas interpretar adequadamente suas palavras. Sigamos.
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Re: A Gathering of Beasts

em Qui Dez 27, 2018 2:04 pm
Os cainitas corriam muito naquelas noites.

Corriam nas matas e nas cidades. Corriam das traições e das chamas das fogueiras que insistiam em chamuscar-lhes os cabelos. Corriam Senhores e corriam Progênies, todos com medos genuínos e justificados. Corriam, corriam até estarem exaustos, quando então eram alcançados por seus algozes.

Somente Fernando não corria.

Fernando de Rioja estava de pé nas ameias de Castillo d'Ombro, os olhos azuis fixos no mar escuro que insistia em desafiar as pedras. Os gritos haviam cessado. Olhou a lua e lembrou-se de Daharius Sarosh. Queria que o Antigo aparecesse agora, que o destruísse com sua fúria. Mas Sarosh o ignorou, e aquilo era pior do que a Morte Final.

Olhou para o pátio do castelo. As sombras estavam quietas, imóveis. No centro, os rendidos esperavam o julgamento de Gratiano de Veronese, Pai da Grande Rebelião. Fernando observava a tudo em silêncio. Era muito mais velho, mas havia aquiescido a dar o seu apoio aos planos do jovem filho de Lasombra. Agora, tinha dúvidas e sentimentos conflitantes. A face de Daharius era recorrente em sua mente.

As poucas tochas que se mantinham acesas nas ameias iluminaram a figura esquálida e naturalmente escura de Gratiano. Era engraçado como mancava de uma perna, mas Fernando sabia que aquilo era um troféu de suas primeiras noites. Olhou para o Antigo com seus olhos escuros e assustadores. Havia respeito mais havia desconfiança e, portanto, ódio.

- Ele se foi. - Disse somente.

Fernando pensou em Borghav, seu Senhor, e de como ele tinha se sacrificado para dar lugar a Dazbov. Pensou em como o Cristo tinha se sacrificado em nome dos pecados dos Homens. Agora, também Lasombra se sacrificava em nome de algo maior.

*

Diante da mesa de pedra estavam os representantes de ambas as forças. Viu os odiosos Ursurpadores, os assassinos de Saulot, comandados por um triunfante Goratrix. Àquela altura, sabia que entre os Sete aquele homem era o mais desprezível. Viu todos eles: a mulher de cabelos ruivos, o nortenho obeso. Os outros eram menos importantes. Ele sabia que aqueles três eram o escudo que envolvia o pútrido coração da linha Tremere.

Tinha curiosidade sobre eles, admitia. Tivessem nascido em um momento menos caótico - e de forma menos violenta - talvez ele os tivesse ajudado. A maestria dos Usurpadores sobre o Sangue era inegável, ainda que os Banu Haquim não assumissem em voz alta. Mas foi a Morte Final de Saulot a mudar sua opinião. Uma morte injusta para um homem de sua envergadura. Sua mente se perdeu em lembranças da Segunda Cidade, cujo nome não mais se lembrava e que não restava escrito em lugar nenhum.

Viu também Antara do Egito, sua descendente, inclinar-se sobre a mesa para ler o pergaminho com o título - pomposo, diria - de Tratado de Tiro. Leu, através de seus olhos e de seu Sangue. O pergaminho era encantado para que o leitor o lesse em algum idioma conhecido. Mas sempre em um idioma europeu. Ele sorriu, na escuridão de sua catacumba.

Considerando que nosotros, los antiguos y Vástagos de los clanes Ventrue, Tremere, Toreador, Nosferatu, Gangrel,Brujah y Malkavian reunidos en Hermandad y Fe Mutua ya partir de ahora conocidos como la Camarilla, siendo los Verdaderos y únicos Herederos Legítimos del Estado de Caín, deseamos un final a las ilegales y diabolistas Prácticas de los Rebeldes a partir de ahora conocidos como el clan Assamita.

Parou ali. Esperou que Antara assinasse, o que ela fez. Sentiu, então. Em seu Sangue. Imediatamente. Sentiu-se fraquejar, mas por apenas um segundo. Um segundo que lhe deu todo o conhecimento que necessitava sobre a assim chamada "Taumaturgia". Sorriu, satisfeito.

Achava o nome incrivelmente pomposo.

- Está feito.

O homem que até então se matinha calado encostado na parede, se moveu. Seus três olhos fitavam intesamente o Primeiro Vizir. O Vizir o encarava de volta. Era grato pela sua companhia, o ajudava a manter-se focado e vigilante. Além disso, não deixaria que mais nenhum dos Filhos de Saulot caíssem. Devia isso a Saulot e à promessa que havia feito a Amon.

- Ao trabalho, então.

*

- Começará dentro de dois dias. - A voz firme invadiu a sala, quebrando seu silêncio. Ao redor do outro homem, livros.

O homem levantou os olhos lentamente. A face cadaverica dirigia a Mithras o que o Príncipe achava ser um sorriso.

- Oh, entendo. - Disse, fechando o livro. Mithras leu o título. "Meditações", de Marco Aurélio - E Sua Majestade não comparecerá? Hardestadt se sentirá ultrajado...

Sua proximidade com Mithras o possibilitava a usar de tal ironia. Encarou o Príncipe, que o encarava de volta. Ao redor deles, a sala de pedra redonda tremeluzia à luz das parcas velas.

- Eu não reconheço, nestas ilhas, nenhuma autoridade acima da minha, Appius.

O Capadócio ponderou sobre a escolha do monarca por dois segundos. Em seguida, e antes de baixar novamente os olhos para a leitura, respondeu:

- Tampouco eu reconheço, Majestade.

*

Quando Lugoj abriu os olhos, não sabia onde se encontrva. Byelobog ria em suas veias e seu corpo estava coberto de sangue seco. Havia se entregado à Besta diante da Alma do Deus Branco, e aquilo teria, provavelmente, causado a morte de algumas dezenas de aldeões. Levantou-se na caverna escura e preparou-se para deixá-la, até perceber que não estava sozinho. Imediatamente, alarmou-se. Olhou para a entrada da caverna e divisou um homem baixo e magro que o observava. Era nitidamente mortal e mesmo na escuridão da noite, foi capaz de ver seu rosto. A pele se esticava rapidamente, como se estivesse a ponto de rasgar-se Lugoj via os músculos pulsantes enquanto o homem falava. De suas orelhas escorria em profusão pus e sangue infecto.

De repente, o Tzmisce sentiu-se desorientado. Era como se não soubesse onde estava, quem era ou o que fazia. Seu próprio nome parecia desaparecer em milhares de memórias, e em suas veias o Sangue parecia correr ao contrário. E então Lugoj sentiu medo. E duvidou da própria missão.

O jovem estendeu a mão esquelética. Faltavam-lhe três dedos, mas na palma da mão equilibrava um pequeno rubi na forma de um olho avermelhado.

- A Terra lhe entrega um presente, Lugoj. Seja grato.

Lugoj partiu rapidamente. Mas, em seu caminho, passou pela Terra. E, vendo que o jovem Lugoj dispunha da Flor de Kupala, a Terra lembrou-se das palavras de seu primo. Havia deixado que as coisas seguissem seu curso.

*

Aquela, sim, era uma reunião de Bestas. A passos rápidos e militarescos se aproximava Karsh. Caminhava em direção ao homem que se encontrava no alto da colina e que já o esperava. Enquanto o fazia, olhava para trás. Tinha medo de ter sido seguido. Era jovem, com os sentidos não totalmente desenvolvidos e, ainda que não lhe faltasse a competência na batalha, lhe faltava a malícia dos anos. Finalmente, quando se pôs de pé ao lado do outro homem, observou o panorama abaixo. As pradarias da Bavaria se descortinavam diante dos seus olhos, uma imensidão escura com pequenos espíritos alaranjados.

- Meu Senhor, eu peço que reconsidere.

O homem continuou com os olhos voltados em direção à planície. Quantas guerras havia reconsiderado em sua longa existência? Suas mãos cansadas haviam empunhado por demais as espadas dos outros. E Karsh, a sua frente, pedia que reconsiderasse. Como era tola, sua progênie. Uma máquina de matar perfeita contida por sentimentos de humanidade, quase inocência. Karsh amava a guerra, mas odiava as casualidades. Han tendia a ignorar as casualidades quando estava em guerra, mas ainda assim a odiava. Era por isso que o tinha escolhido.

- Reconsiderarei, Karsh, se o Clã como um todo decidir unir-se à Camarilla. Mas não darei um passo para que isso aconteça.

Para Karsh, era uma promessa razoável. Para Han, porém, era como escolher um caminho já conhecido.

*

Sarosh pensava em Dazbov. Sabia exatamente onde estava seu pupilo. Achou curioso como pensava pouco em Laza. Talvez evitava que as lembranças de seu Senhor o impulsionassem à ação. Em ambos os seus lados, repousavam tronos vazios. Tinham pertencido à primeira formação dos Amicis Noctis, e era um pequeno troféu que ele não gostaria de deixar aos rebeldes.

Sorriu. A denominação lhe parecia... pomposa.

Lembrou-se das palavras de Amon e da necessidade de deixar que as coisas seguissem seu curso. Doía, em verdade. Soterrou a dor sob centenas de justificativas e encarou a figura que entrava no salão espanhol. O cheiro do Mediterrâneo invadia a sala através das largas janelas abertas. O homem entrou encarando o trono, mas Sarosh sabia que ele não o via. O Matusalém estava e não estava ali, flutuava entre o Abismo e o Mundo Material, enquanto uma parte reprimida de si mesmo procurava por um pequeno resquício de seu Senhor. Havia somente o silêncio. Sarosh desejou chorar.

Encarou o homem. Era muito menos impressionante do que o que diziam. Baixo, cabelos louros e falhos. Olhos vacilantes mas pretensiosos. O mais interessante é que Sarosh sabia a verdade sobre dele. Desejou rir, mas lembrou-se de Laza.

- Lorde Daharius. Sou Hardestadt e venho em nome dos Feudos da Cruz Negra para garantir o teu lugar e o de teu Clã na Camarilla.



Sarosh
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Re: A Gathering of Beasts

em Qui Dez 27, 2018 10:26 pm
As mãos trêmulas seguravam as cinzas que, à revelia, lhe escapavam por entre os dedos. Os joelhos no chão fincavam o corpo em súplica, não conseguiria se manter de pé.

As lágrimas rubras escorriam por sua face em profusão manchando o tom róseo de suas bochechas e empalidecendo a fascinante figura de cabelos alourados e olhos azuis.

Chorava. Descontroladamente, chorava.


- Porquê!? Como...como ousa despejar teu julgamento sobre os nossos? Não possui esse direito. Não...

O sangue que brotava dos olhos claros gotejava sobre as cinzas que empilharam-se abaixo de seu corpo. Ainda sentia o gosto dele em sua boca enquanto as inúmeras memórias do seu criador uniam-se às suas próprias. O havia devorado. Ele assim decretou.

- Maldito! Como pôde? Como pôde me levar a isto?

Tentava agarrar as cinzas que continuavam a escorrer por seus dedos enquanto as lágrimas carmesim continuavam a cair sobre elas.

De súbito, parou. Aquele majestoso homem reduzido à uma criança em prantos levantou-se e caminhou pelo salão. Não estava mais a sós com a sua dor. Sentia-o no ambiente. Ele havia chegado.


- Viestes contemplar a minha dor?

Ergueu os cristalinos olhos, era mais baixo que ele embora fosse de uma magnânima presença. Em resposta, os olhos negros encararam os seus ao sentenciar

- Honre o teu sangue, julgo-o capaz como ele jamais seria.

Houve silêncio. Camilla então passou por Sarosh enquanto sussurrava.

- Será feito e, por toda a eternidade, o Império será lembrado. Sou grato pela escolha que me destes.

________________________________________________

Havia um candelabro aceso que logo apagou-se. A brisa gélida tomou o ambiente anunciando a sua presença.

Eigermann ergueu o olhar cansado, as noites recentes lhe exigiram por demasiado. Quando o viu, os olhos tornaram-se mais azuis e o corpo tendeu a contrair-se. Preparava-se para o inesperado. Era grandioso, Eigermann, e diante de cainitas como aquele era natural que sua postura fosse menos contida e mais natural. Mais Real.


- Não me surpreende que ainda estejas de pé, Daharius Sarosh.

As sombras erguiam-se e ganhavam o contorno de um homem alto, com braços e pernas poderosos, trajando nada mais que um saiote negro de couro batido oriundo de tempos esquecidos. Seu torso era coberto por indecifráveis tatuagens negras que deslizavam por sua pele como serpentes.

- Há muito o que devemos discutir, filho de Ventru.
Rajmund
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Re: A Gathering of Beasts

em Qui Dez 27, 2018 11:21 pm
-Entre.

*O homem adentrou na enorme galeria, e a observava enquanto retirava um lenço do paletó. Ele não sabia dizer exatamente o quão abaixo da terra estava, mas o cheiro do lugar era desagradável. Um misto de umidade, mofo, podridão e maresia. Ele colocou o lenço de frente ao rosto refletindo o quanto o cheiro lhe lembrava dos aspectos mais... desagradáveis da sua existência.*

-Eu ouço sobre o mundo acima, sabe? Talvez não tanto quanto deveria, mas ouço, e vejo. E a sua visita, bem, talvez seja a visita que mais me espanta nos últimos duzentos anos.

*A voz de seu anfitrião era seca e sussurrante, como que um vento soprando pela galeria. Um vento da morte, ele diria, se estivesse com o humor para teatralismos. Mas em verdade ele estava com pouca paciência para jogos, ainda que suspeitasse que teria de jogar um ou dois até o final da noite.*

*Um vulto começou a se mexer na direção de onde o... vento soprava, e aparentemente ele se dirigia para a luz que iluminava o ambiente, que vinha de umas poucas velas penduradas nas paredes e de um lustre enferrujado no teto, velas que emanavam uma estranha, mas reconfortante, luz roxa.*


-Não entendo tamanha surpresa. Eu sou pouco mais do que um colecionador de curiosidades e há poucas curiosidades mais... curiosas do que o senhor.

-Sssss

*Desta vez o visitante sentiu um vento literal soprando pela galeria, que fez as chamas de todas as velas tremeluzirem, e não sabia dizer se seu anfitrião estava rindo, mostrando desaprovação ou meramente soprando ar gélido por entre os dentes.*

-Você acreditou, por um momento que fosse, que esse disfarce, que qualquer disfarce que trouxesse aqui significaria algo para mim? Colecionador, barão da mídia, militar, investigador. Eu vejo sua verdadeira face, a que desmente todos os papeis que você traz em seus bolsos. Eu sei de seus interesses verdadeiros. São mais nefários e bem menos... tangíveis.

*Ele estava sob a luz agora. Lendas sobre a figura à sua frente davam a entender uma figura risonha e imponente, a vida e alma de todas as festas, mas o que estava ali era pouco mais que um cadáver podre, verdade seja dita. Seu rosto mal possuía feições além de restos de uma barba que haviam resistido à corrupção, mas mesmo assim o rosto todo estava coberto por uma maquiagem com a aparência de uma caveira, e suas roupas não estariam deslocadas no mais prestigioso baile da realeza, caso se desconsiderasse a condição do corpo que as ocupava - o mais fino dos fraques complementado com uma cartola de seda e uma bengala com uma cabeça de prata, também decorada com uma caveira, que reluzia sob a luz das velas. - e se talvez o zumbi não apresentasse a presença e vitalidade esperadas, era inegável seu ar de autoridade e solenidade.*

*Era horripilante, verdade, mas nada que o visitante não havia visto antes. Ele, afinal, conhecia como poucos o horror físico. E por este mesmo motivo decidiu deixar o próprio rosto derreter, revelando a ruína e horror que jaziam por baixo de cada um de seus disfarces. Era verdade que sempre considerara mostrar seu verdadeiro rosto como um sinal de respeito, assim como também era verdade que não tinha certeza se respeitava seu interlocutor. Sendo sincero consigo mesmo, o considerava uma criatura torpe alimentada por superstições baratas de um povo inferior, mal e mal merecendo o título de vampiro.*


-Mas se for ainda mais sincero consigo mesmo, meu caro, vai admitir que não tem outra escolha além de estar aqui, com ou sem respeito. Você era um fantasma antes, e se eu não puder lhe ajudar, será ainda menos depois.

*Aquilo assustou Geist mais do que qualquer podridão poderia. Ele estava dentro de sua cabeça! Mas ao mesmo tempo, não havia sobrevivido tantos séculos como o Fantasma de Berlim mostrando medo, ou mesmo não se adaptando diante de novas necessidades. Sua mente estava pronta agora, fechada para qualquer tipo de sondagem que o Barão poderia fazer, ao mesmo tempo em que o rosto monstruoso seguia impassível. Uma vantagem da aparência inumana, ele supunha.*

-Sabe, a sua lenda me interessa um pouco. As origens dela, na verdade. Eu investiguei sobre você por alguns anos e notei uma coisa curiosa: você deixou rastros ao longo do continente, rastros que vêm de muito antes de um Haiti. Ou mesmo de um Barão. E não vai demorar até que eu consiga por um nome no final desse rastro.

*Sua expressão corporal muda naquele momento. Ele junta as mãos alongadas, e sorri mostrando uma infinidade de dentes afiados.*

-Mas é uma linha de raciocínio que não vai me levar a muitos lugares. Porque o senhor está certo, Barão. *Ele faz uma reverência respeitosa.* -De fato, eu me vejo necessitado de sua ajuda. Sou um alvo de caçadores... desagradáveis no momento, e me seria muito útil sua proteção...

*O Barão nada disse, apenas ficou por longos segundos batendo um dedo podre na caveira de prata que decorava sua bengala. Até que abriu a boca para falar em sua voz quebradiça.*

-O que você traz é somente guerra, Fantasma. E eu não sou Erik Eigermann, não quero guerra em meu quintal. Ou guerra me seguindo onde quer que seja.

-Uma barganha, então. Me dê uma peça para barganhar e nós negociamos.

*Mais uma vez o dedo bateu na caveira, até que o cadáver pareceu chegar a uma decisão.*

-Há algo... Algo de pouco valor para você, diretamente, mas que se for entregue às pessoas certas, pode te dar a proteção que deseja.

-Mas você precisa entender uma coisa, Fantasma. Eu lhe darei algo cujo valor não pode ser medido. E por isso, nossa barganha não terá fim, você entende? Sempre que eu chamar, você atenderá. O que eu perguntar, você responderá. Você estará vinculado a mim, mas eu não farei nenhum espetáculo como os houngans para que acredite estar sob meu controle, nem usarei o Laço para isso, porque é uma ferramenta rude abaixo das minhas considerações. Você simplesmente saberá que deve atender quando chamado, assim como saberá que falhar com os termos deste acordo significa atrair um destino muito pior do que qualquer um de seus algozes poderia trazer para você. Você entende e aceita estes termos?


*O sorriso sumiu do rosto de Geist. Mas maldito seja, ele estava ficando sem opções. O Sabujo da Camarilla estava em seu encalço, e mais perto do que gostaria de admitir, e até mesmo o Sabá gostaria de ver seu corpo preso numa estaca diante do sol nascente. Isso sem contar que soubera há pouco que o Suíno Hebreu estava desperto, e Geist sabia muito bem que sua existência valeria menos do que a imundícia que se acumulava naquela galeria sob Remoulins caso seus caminhos se cruzassem. Com o rosto contorcido de fúria, ele acena com a cabeça.*

-Muito bem, Barão Samedi. Um homem desesperado não tem muito o que discutir. Me diga, então, que tesouro é esse que custa minha servidão eterna?

*Com um movimento da bengala, o Barão empurra uma tigela de barro simples até os pés do Nosferatu.*

-Trocarei sangue por sangue. Derrame o seu aqui.

*Com as presas, Geist rasgou o próprio pulso, e conforme a Vitae se derramava no recipiente, o Samedi falou.*

-O poder do Barão vem das encruzlilhadas, então em três noites você estará na encruzilhada deste continente. Chegando em Estrasburgo, se hospedará no hotel Cour de Corbeau, e lá viverá momentos agradáveis até a meia-noite, quando começa nosso acordo. Você receberá um frasco com sangue, sangue que é muito caro ao Clã que vive, e morre, pelo Sangue. Na sua posse, tudo o que precisa fazer é derramar uma gota, e apenas uma gota, nas areias de um deserto. Então você será encontrado, sangue será honrado, e você poderá pedir o que seu coração quiser. E eu verei tudo, com muito interesse e curiosidade.

*A tigela estava cheia agora, e o Nosferatu fechou o corte em seu pulso com sua língua pálida e fina. Quando olhou para cima novamente, o Barão não estava mais lá. Tampouco a tigela com seu sangue. Apenas um sussurro era ouvido na galeria.*

-Agora vá. Encontre seu destino e me divirta.

*Uma última lufada de vento, e as velas todas se apagaram. Mas Geist não se importava. Finalmente tinha um trunfo na manga. Um trunfo, e um plano.*




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Re: A Gathering of Beasts

em Ter Jan 01, 2019 7:11 am
Olhava-se no espelho. Não tinha aquela expressão desde que era um mortal. Os olhos mais fundos do que o de costume indicavam um sono difícil. A pele pálida deixava claro que o vampiro tinha fome. Ao seu redor, o quarto do Waldof-Astoria de Praga era testemunha silenciosa de sua aflição. Os dedos tremiam enquanto acertava o nó da gravata, e tremiam mais ainda enquanto ele colocava nos dedos os anéis que o identificariam entre seus pares. Apoiou-se sobre a penteadeira, baixou a cabeça e suspirou.

Pela janela adentravam os rumores de Praga. Carros, mortais e trens urbanos se moviam em celeridade, deixando-o ainda mais confuso. Sentiu o Sangue subir pelo seu sistema, como se estivesse pronto para vomitar. Todo o ar tinha um forte cheiro de aço e fuligem e, ainda que ele tenha sido Abraçado durante a Revolução Industrial, a modernidade o incomodava profundamente. Não conseguia se mover bem entre os monstros automatizados. Tinha dificuldade de caçar, o Sangue que o satisfazia era difícil de encontrar em um país como aquele.

Após muito pensar, decidiu que o que tinha visto era demais para que fosse ele o único guardião. Jamais havia sido dado a visões, augúrios ou presságios, era um cainita perfeitamente normal, a parte seu humor fleumático e contido. Tomou papel e caneta que estavam sobre a escrivaninha com o telefone e escreveu frases breves, que deveriam ser levadas do Waldorf até a Suíte 1453 do Hilton:

"Boa noite, Al-Amin. Preciso encontrar-te antes do início da Convenção. Às 21 horas no Café Slavia"

Deixou o quarto após se vestir de forma elegante - seu estado de espírito jamais havia refletido em seu bom gosto - e encarou as longas escadas que o conduziram ao átrio. O cheiro de dezenas de mortais nublava seus sentidos e obscurava sua vontade. Ele ainda tremia. A Besta, enjaulada, sorria maliciosamente enquanto todos aqueles que passavam - e inevitavelmente prestavam atenção e se insinuavam para ele, dada sua beleza - deixavam no ar seus perfumes, seus humores, suas ressonâncias.

Felizmente, para Ballestra, havia muita excitação no ar.

Entrou no carro e o motorista não fez perguntas. Sentia-se desconfortável e esmagado por metal, mas encarou o desafio. A máquina de metal começou a girar pela cidade, e as luzes de Natal iluminavam seu semblante preocupado. As imagens do sonho eram recorrentes: os disparos, os gritos e a confusão. Sangue estava espalhado por todos os lados, assim como pedaços de cérebro e crânio. O céu era vermelho, como um presságio de morte e violência que se abateria sobre a Raça de Caim. O cenário era uma sala reservada, com indivíduos de nota, dos quais Ballestra não conseguiu ver as faces. Ballestra não tinha visto o assassino, mas tinha visto a vítima. E era isso que o incomodava. Tinha certeza, por alguma razão, que o que ele tinha visto ocorreria. Quando diante de situações do tipo, era Al-Amin quem o tinha socorrido ao longo do último século. Ainda que a relação entre eles estivesse fragilizada em razão dos eventos na Argelia, confiava no Banu Haquim.

Quando o carro o deixou na frente do Café Slavia, a fome tinha se tornado insuportável. Há dias Ballestra tinha dificuldades na caça. Engoliu em seco e respirou fundo antes de adentrar o local.

O perfume de Sangue era quase sobrepujante. Ballestra pendurou o casaco e identificou, imeditamente, Al-Amin que o aguardava sentado diante de uma pequena mesa redonda. Sobre ela, uma série de jornais europeus repousavam. Ao mesmo tempo, o caçador que existia no Ventrue se ativava lentamente. Esquadrinhava as pessoas ao redor, da garçonete que o conduziu à mesa de Al-Amin, uma mulher que emanava notas de jasmin e canela, ao homem que lia "O Anticristo" diante de uma xícara de café fria.

Havia encontrado. Tranquilizou-se e sentou-se diante de Al-Amin. O instinto, contudo, o impelia a manter um olho atento no homem.

O Turco, como era chamado, estava vestido particularmente bem. Ao contrário de Ballestra, Al-Amin tinha se adaptado particularmente bem ao século XXI. Terno azul marinho bem cortado, sob medida. Sapatos lustrados e em equilibrio com os acessórios, como o lenço elegante que tinha no bolso. A face, no entanto, era a mesma: o bigode fino e bem aparado, o rosto angular e a pele morena, que Ballestra sabia que tinha se tornado ainda mais escura com o tempo. Os cabelos escuros estavam arrumados, mas davam ao Banu Haquim um leve tom de rebeldia. Al-Amin sabia que Ballestra tinha fome. Estava escrito em seus olhos fundos e sem vida, em sua impaciência demonstrada pelo tamborilar dos dedos na mesa. Sabia que era difícil para o Ventrue estar ali. Lembrava-se da Argélia.

Resolveu fazer as coisas de forma simples.

- Como pode ver, recebi tua mensagem. É um prazer revê-lo, Antonio. Creio que...

- Hardestadt vai ser assassinado esta noite. Eu tenho certeza do que estou dizendo, mas não sei como reagir.

Um silêncio caiu entre os dois. O Turco baixou os olhos para os jornais. A garçonete pousou sobre a mesa dois cálices de vinho tinto que, usando o olfato, Al-Amin identificou como chileno. Ballestra bebeu do líquido. Al-Amin não poderia fazê-lo sem algum esforço. Optou por observar seu antigo companheiro.

- Você tem certeza. Que tipo de certeza? Tem alguma ideia dos envolvidos e de como será feito?

Ballestra deu de ombros e bebeu toda a taça em um único gole. Sentia a Fome como ondas de energia violenta que tentava se apoderar de sua Razão.

- Eu tive um sonho esta noite. Eu não sou dado a sonhos, você sabe. Nenhum de nós é, afinal.

Al-Amin ouviu com atenção. Atrás de Ballestra o homem se levantava, Nietzsche sob o braço, boina na cabeça. Al-Amin sentiu sua melancolia profunda. Do tipo que agradava Ballestra. Possuia fortes dyscrasias em sua alma, a ponto de atrair mesmo o Banu Haquim. Felizmente, para ele, Al-Amin não era dado aos sabores da melancolia. Ao mesmo tempo, pensava rapidamente. Sabia que as negociações entre os Banu Haquim e a Camarilla eram feitas com o apoio integral de Hardestadt. Se lembrava, ainda que não tivesse vivido, do Tratado de Tiro e do papel do velho vampiro em relação ao seu Clã. Sorriu diante da informação. Olhou para Ballestra, que parecia devastado. O homem deixava o café após pagar. Antonio o perderia se não o seguisse. Não era bravo com a caça, afinal.

- Vá, Antonio. Alimente-se. Nos encontraremos na Convenção.

O Ventrue hesitou, mas levantou-se e pôs o casaco, seguindo para o frio e para a Caça. Al-Amin permaneceu ali, sozinho, a pensar. Olhou o relógio de pulso. Tegyrius provavelmente estava despertando. Recolheu os jornais e deixou o café, abraçado pela escuridão de Praga.
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Re: A Gathering of Beasts

em Ter Jan 01, 2019 7:39 am
Dimitri se sentou. Passou os olhos pela elegante mesa de mármore e pelas pinturas renascentistas no ambiente. Não estava sozinho, pois na pequena sala de reuniões estavam presentes diversos membros de renome do seu Clã. Mantinham-se em pequenos grupos, em um modo quase conspiratório que não agradava Dimitri. Provavelmente pensavam que tudo poderia e deveria ser resolvido utilizando-se de acordos e traições. A Camarilla, de fato, tinha mudado o Clã dos Filósofos.

Quando a Justicar entrou, saudou inicialmente os Brujah que esperavam perto da porta. Eram um grupo hispânico, liderado por um Membro de particularmente vulgar conhecido como Cubano, cujo charuto empesteava o ar. Enquanto a Justicar saudava alegremente seus consanguíneos latinos, Carlak adentrou o salão discretamente, pondo-se sentado ao lado de Dimitri. Cumprimentaram-se com um aperto de mãos. Carlak havia se tornado um amigo, cúmplice e parceiro político. Naquela noite, porém, parecia apressado. Os cabelos longos estavam soltos e ele não havia feito a barba. Era escura e tomava quase todo o seu rosto normalmente decorado somente por um cavanhaque.

- Estamos de saída. - Disse, em voz baixa.

A Justicar Manuela pôs-se de pé no centro da sala. Quando falou, usou o inglês, ainda que com um forte sotaque latino. Dimitri a admirava, em certa medida. Era jovem e ambiciosa, tendo escalado os cargos da Camarilla com uma velocidade estonteante. Eleita no início dos século, Manuela buscava a recondução ao cargo. Mas para isto, precisava do apoio do próprio Clã. Seus olhos escuros passeavam pelas faces dos Brujah, enquanto ela se preparava para falar. Havia entre ela e Dimitri uma rivalidade saudável: o Membro era incapaz de esquecer certos eventos ocorridos em São Paulo na década de 80.

- Nós permanecemos. A Camarilla...

- Nós estamos de saída, Vossa Excelência - Disse Carlak, enquanto se levantava.

Dimitri sabia que aquele era o momento da escolha. Carlak se preparava, junto a outros, para uma saída da Camarilla. Ao mesmo tempo, sabia que dentre estes haviam aqueles que planejavam algo mais. Uma saída absolutamente memorável. Não havia consenso entre os Brujah. Os recentes vazamentos de informações e o fato d'A Máscara parecer estar por um fio perturbavam Dimitri. Por anos esteve dentro do Estado Soviético. Sabia o estrago que as agências de inteligência russas poderiam causar. Tudo parecia desabar em um imenso turbilhão de acontecimentos. E enquanto Carlak se levantava, parecendo fazê-lo em câmera lenta, Dimitri não hesitou.

Os olhos escuros da Justicar brilhavam em uma fúria contida. Era impossível evitar um cisma. Os Brujah, o Clã dos Reis-Filósofos, unidos durante toda a sua história ainda que separados por variações ideológicas, não era mais capaz de evitar o inevitável. Dimitri sabia que levantar-se significava integrar a Lista Vermelha da Camarilla. Significava ser perseguido e ter sua cabeça a prêmio nos domínios da Seita. Mais ainda depois do que aconteceria naquela noite. Dimitri respirou fundo, como se precisasse. Carlak tinha terminado de se levantar quando o cainita mais jovem pôs-se de pé ao seu lado.
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Re: A Gathering of Beasts

em Qua Jan 02, 2019 6:55 am
O furgão escuro estacionou nas entranhas deo aeroporto de Heathrow, em Londres. Arissa desceu e imediatamente impulsionou o Sangue para os pulmões, forçando uma respiração. O ar ao redor das narinas se condensou como nos tempos em que era mortal. Olhou o relógio enquanto sua bolsa era jogada da janela do furgão, que se retirou em seguida. Eram 22:18. Duas horas e vinte minutos de vôo até Madrid. Somente duas horas e vinte minutos.

Arissa colocou a mala nos ombros, fingindo não suportar o peso. Em verdade, como uma Brujah, tinha afinidade com as proezas de força. Martin, seu Senhor, a havia ensinado a concentrar sua vontade para incerementar seus atributos físicos. Era irônico que Arissa, agora, tivesse de fazer exatamente o contrário.

Não queria lembrar de Martin. Ele havia conseguido escapar dos batalhões, fugindo para Belfast. Ela estava sozinha, agora. Sozinha desde a queda de Londres. Havia perdido amigos. Dois dos únicos cainitas que conhecera, além de Martin. Os passos eram tímidos. Sua ascendência árabe não ajudava, então Arissa tinha feito concessões: abandonara o hijab e adotara um estilo completamente ocidental: maquiagem pesada, cabelos soltos. Jeans e pullover, além de um pesado casaco. Sentia vergonha, sentia-se suja. Mas desejava, mais do que tudo, sobreviver uma outra noite. Allah a perdoaria.

Atravessou a estrada em direção ao aeroporto. Haviam centenas de mortais ali. Forçar os pulmões tinha aumentado a Fome de Arissa, mas ela saberia se controlar. Tinha na bolsa uma pequena bolsa de Vitae que deveria consumir antes de passar pelo controle de passaporte. Felizmente o documento era o seu. Arissa não tinha mais de três anos entre os Membros. Pagava suas taxas e fazia questão de simular sua mortalidade. Era uma escritora freelancer, além de ter um Doutorado em Sociologia incompleto. Havia deixado muitas atividades incompletas após o Abraço.

Entrou, e uma lufada de ar quente envolveu seu corpo morto. Em seguida, os perfumes. O aeroporto era de uma melancolia insuportável, um perfume sutil de despedidas e tristeza permeava o ar. Mas Arissa também sentia a alegria. Viu famílias que se reuniam depois de meses separadas. Desejou o Sangue de um adolescente visivelmente sadio e contente pela sua viagem. Arissa tremia. Seu embarque era às 23:30. Ela não precisaria entregar bagagem, então seguiu para o banheiro. Trancou-se em um reservado, as mãos tremendo, o suor ameaçando escorrer pela testa.

Retirou a bolsa de Sangue, um presente do falecido Reynard. Bebeu profusamente e esqueceu-se do mundo. Ouviu os sonhos de Mary Wells, dona da Vitae, uma senhora que durante toda a vida sofreu violência do marido. Uma bailarina frustrada que havia encontrado o prazer da dança após os 50 anos. Quanta alegria tinha aquela mulher. Sentia, como coágulos no sangue, suas dyscrasias.

Como que por milagre, ninguém entrou no banheiro do maior aeroporto de Londres enquanto ela estava ali.

Arissa deixou a cabine. Deveria ainda dar um fim na bolsa de sangue. Lavou o rosto na pia e respirou fundo, mais por necessidade psicológica. Deixou o banheiro.

Ouviu novamente o barulho da multidão, mas imediatamente identificou o homem em terno escuro que a observava. A Besta de Arissa queria reagir, se debatendo enjaulada. O homem se aproximou. Arissa não sentiu nenhuma ressonância emanar do homem. Nada. Era como se fosse completamente vazio de emoções.

- Senhora Arissa Baheera? Por gentileza, pode me acompanhar?

A vampira estava estática. Simplesmente não sabia o que fazer. Tinha certeza que poderia derrubá-lo, mas quantos outros estariam escondidos entre a multidão, esperando para abatê-la e depois identificá-la como uma terrorista qualquer? Além disso, como a tinham identificado tão rápido? Martin havia falado sobre uma tecnologia que permitia medir o calor corporal. Inconscientemente, por medo, forçou o Sangue para os pulmões e face, consequentemente aquecendo o corpo. Sentiu-a, novamente, a Fome. Arissa fechou os olhos por dois segundos.

- A Senhora está bem?

- Sim, estou bem. O acompanharei.

O homem acenou com a cabeça e conduziu Arissa para uma sala no terceiro andar do aeroporto. Não havia nenhuma identificação na porta. Havia somente uma mesa retangular e duas cadeiras. O homem se sentou e convidou Arissa a fazer o mesmo. A vampira percebeu que nos cantos da sala haviam pequenas lâmpadas voltadas para o centro. Duas delas estavam voltadas para a sua face. Arissa tremeu, sabia dos boatos de que aqueles homens sabiam reproduzir raios ultravioleta. Sua Besta, agora, se encolhia rapidamente. Ela percebeu que o homem não a olhava nos olhos. Irrelevante, ela não era versada nas artes da dominação de mentes. Mas tinha uma última carta na manga. Seu Fascínio.

Invocou, novamente, o Sangue. A Besta, antes encolhida, ameaçou rebelar-se definitivamente. Novamente os olhos fechados por dois segundos.

A última coisa que ouviu foi o som de um disparo.
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Re: A Gathering of Beasts

em Sex Jan 04, 2019 1:43 pm
Berlim - 2004

A passos largos e nervosos, a mulher seguia por entre os grandes blocos de concreto. Conforme avançava pelo caminho, as estelas iam aumentando de altura. No começo, pareciam grandes caixões cinzentos e pesados, ou apenas bancos de pedra minimalistas. Mas, na medida em que seguia pelos corredores formados por elas, as estelas iam se transformando em grandes monolitos, erguendo-se quase que ameaçadoramente sobre sua cabeça. Aos poucos, o caminho diante de si era tomado pela escuridão formada pelas sombras dos blocos de concreto. A luz da lua cheia passava nos breves intervalos entre eles, tornando a caminhada noturna pelo Memorial aos Judeus Assassinados na Europa uma experiência angustiante.

O vento frio de inverno soprava por entre os corredores, balançando seus cabelos louros e produzindo um som agudo e sinistro. A mulher não pôde deixar de notar que, mesmo estando no meio de uma cidade imensa como Berlim, a arquitetura do monumento impedia a entrada dos típicos sons da noite da capital alemã. Ali, havia apenas o barulho do vento e dos seus passos solitários, que reverberavam entre as estelas de concreto.

Percebeu, relutantemente, que os pêlos de sua nuca se eriçaram. Estava assustada. Era como se aquela ambiente a fizesse esquecer sua natureza poderosa e imortal. Ali, sentia-se vulnerável. Vulnerável como estiveram seus antepassados. Não os Banu Haqim, mas seus pais e avós. E todos aqueles que um dia chamaram a Europa de casa, para em pouco tempo serem considerados inimigos por seus vizinhos. Para serem vítimas do ódio irracional que apenas a humanidade era capaz de gestar.

Caminhou por vários minutos, até que sentiu a presença atrás de si. Se fosse uma emboscada, teria tido tempo para apenas perceber que morreria. Mas não foi isso que aconteceu. Ouviu uma voz gentil vindo das sombras.


_ Que bom que veio, Srta. Schneier. Há muito tempo que eu gostaria de conhecê-la pessoalmente.

A voz falava em hebraico. Mas não era como a língua que havia aprendido em Tel-Aviv. Não era o hebraico de Israel. Havia um sotaque que não era capaz de distinguir.

Ela parou quando ouviu a voz. Lentamente, foi se virando em sua direção. Não conseguia vê-lo, até que ele saiu da sombras e deu um passo em direção ao feixe de luz da lua.

Era um homem de porte mediano, sem nenhum aspecto ameaçador. Vestia-se como um hassídico: calças e paletó preto, o tallit katan expondo os quatro nós do tzitzit. Ao invés do tradicional chapéu preto, trazia apenas um kippah na cabeça. A pele pálida contrastava com os cabelos e barba profundamente negros. E era impossível não perceber os olhos azuis, acompanhados de uma notável cicatriz horizontal no meio da testa.

Também notou que ele caminhava com uma bengala, que ela logo suspeitou que não serviria para ajudá-lo a andar. Era certamente um disfarce antiquado para a lâmina que sempre trazia consigo.

Enfim, não pôde deixar de sorrir ao vê-lo pela primeira vez.


_ Você... você existe, afinal.

Ele também sorriu, mas Sarah Schneier pôde perceber a profunda tristeza que emanava daquele homem.

_ Meu nome é Qaphsiel, progênie de Za’aphiel, cria de Samiel, Filho de Saulot. Mas também já fui chamado de Eli ben Yehuda.

Sarah continuava sorrindo. Era simplesmente incapaz de esconder a admiração que sentia por aquele vampiro.

_ Eu sei. Todos nós ouvimos falar de você, Qaphsiel.

_ Sim. Minha admiração pelos Leopardos é recíproca. Desde Zev Benzion, eu os acompanho. Mas eu nunca perderei qualquer oportunidade de dizer aos quatro ventos de onde vem o meu Sangue. Além disso, sou velho e antiquado, o que me torna apegado a velhos costumes.

A mulher percebeu então sua pequena indelicadeza. Ajeitou o corpo e disse, com a mão direita sobre o peito e fazendo uma breve reverência.

_ Eu sou Sarah Schneier, progênie de Amaravati, cria de Al-Ashrad, cria de... Ur-Shulgi. Sou Bint Haqim, da casta dos Feiticeiros. Eu sou... ou era, a conselheira titular do Assento de Cobre e Relâmpago.

Ao escutar a mulher, Qaphsiel não pôde deixar de sorrir com o canto da boca, em seguida proferindo em voz baixa.

_ Se é o que você diz...

Sarah olha o Filho de Saulot com uma expressão curiosa, mas antes que possa perguntar qualquer coisa, ele continua.

_ Me siga, Sarah Schneier. Vamos dar uma volta.

Os dois se puseram a caminhar novamente. Ele ia na frente, enquanto ela o seguia. Qaphsiel andava devagar. Suas mãos deslizavam propositalmente pelos blocos de concreto do Memorial.

_ Já esteve aqui antes, Sarah?

_ Não. Estive algumas vezes em Berlim, mas nunca vim ao Memorial...

Ao responder, a Filha de Haqim sentia que acabava de confessar um pecado.

_ Desde o meu último despertar, vim aqui várias vezes. Venho à Berlim apenas para visitá-lo, ainda que isso coloque minha existência em risco.

Qaphsiel para diante de uma estela imensa, de quase 4 metros de altura. Ele coloca as mãos na pedra e fecha os olhos.

_ A maldição de Caim nos colocou em Famílias distintas, Sarah, mas somos unidos por algo maior. Há algo em nosso Sangue que nos aproxima: a aliança que temos com Yahweh.

_ O Criador nos une a todos aqueles que são lembrados aqui. Somos unidos pela aliança e pelo sofrimento de milhões.

Aos olhos de Sarah, parecia que Qaphsiel iria desabar a qualquer momento. Com tudo o que já havia escutado sobre ele, nunca imaginou que seria uma figura tão... frágil. Ela se aproxima e o toca gentilmente nos ombros. Impressionava-se com o fato de um vampiro tão antigo ainda ser extremamente humano.

Qaphsiel ergue o rosto e abre os olhos, fitando Sarah. Ele sorri para ela, voltando então a caminhar pela trilha entre os grande blocos.


_ Em toda a minha longa existência, sempre estive à beira de renunciar minha fé. Fui testemunha do sofrimento do nosso povo em vários momentos. Quantos são aqueles que podem se dizer sobreviventes de dois genocídios? Quantos podem se dizer vítimas de dois milênios de opressão?

A face do Filho de Saulot muda completamente de expressão. Agora Sarah só conseguia ver a raiva emanando dos olhos dele.

_ Eu vi meu Sangue - mortal e amaldiçoado - ser perseguido. E quando Saulot ou os judeus da Europa foram declarados inimigos por seus irmãos e vizinhos, quantos foram aqueles que se levantaram em nosso favor? Diga-me, Sarah Schneier, quantos?

Qaphsiel suspira. Era quase humano. Demasiadamente humano.

_ Poucos, Qaphsiel. Sempre tivemos que lutar por nós mesmos.

_ Sim. É por isso que, por muito tempo, minhas mãos se sujaram de sangue. Atravessei os séculos trazendo vingança para o Sangue de Saulot, de Samiel e dos hebreus. E, ainda assim, me prostrei de joelhos quando vi o que fizeram conosco naqueles campos de morte. Ali, eu vi que não haveria vingança suficiente. A guerra nunca teria fim...

Continuaram caminhando. Sarah agora andava de braços dados com o Salubri, como se ele fosse alguém que precisasse de auxílio.

_ Eu gosto do fato de que os criadores que projetaram esse memorial deram poucas explicações sobre seu significado. Isso faz com que cada um possa dar sua interpretação.

Ele se vira para a mulher.

_ O que você vê aqui, Sarah?

Ela para de andar e olha ao redor. Sente mais um arrepio.

_ Esses blocos... eles me lembram um cemitério. Mas não há paz. O modo como eles estão dispostos só me trazem isolamento, impotência e desespero. É tão estranho, que isso aqui me remete à mortalidade que supostamente deixamos pra trás.

Qaphsiel balança a cabeça afirmativamente.

_ Exato. Já ouvi e senti sensações semelhantes. Senti muitas coisas aqui. A sensação de segregação e confinamento foi uma delas. Também tenho a sensação de que esses blocos, ordenados como estão, nos remetem à racionalidade e ordem de um sistema que simplesmente se afastou de qualquer resquício de humanidade. Quantas vezes a história nos mostrou isso? Tivemos a Alemanha Nazista, mas também tivemos Roma. E hoje temos a Camarilla.

_ Mas há uma explicação que gosto mais. Veja...


O Salubri aponta para o caminho diante deles. Uma via estreita, que os levava adiante, formada pelos blocos dispostos de modo ordenado e paralelo.

_ É como se esses blocos nos prendessem aqui, ao mesmo tempo em que nos oferecem um único caminho. Só é possível sair dessa prisão se seguirmos caminhando adiante. Sobreviva, e verá o final do caminho. Aos poucos, as estelas voltam a diminuir de tamanho, permitindo-nos ver a luz da lua novamente, em toda a sua plenitude.

Qaphsiel coloca-se então à frente de Sarah, encarando-a. Ele coloca a mão direita no ombro dela.

_ Eu devo lhe dizer algo, Srta, Schneier. Algo que vale para ti e para todos os Leopardos. Valerá também para os desafios que todos teremos adiante.

Há um silêncio repentino, quebrado apenas pelo agora familiar sopro do vento noturno.

_ A vingança pode aplacar nossa raiva e ódio, mas nunca será suficiente. Com o passar dos anos, o ódio aumentará. Ele nos transformará no monstro que sempre pensamos combater. A vingança não pode ser nosso objetivo.

Sarah balançava a cabeça negativamente, sem conseguir entender sobre o que o Salubri falava com tanta veemência.

_ Eu não sei do que você está falando, Qaphsiel! Há décadas que os Leopardos não interferem mais na política de Israel. Não sei se percebeu, mas temos problemas maiores para lidar agora!

_ Esqueça Israel! Não estou falando dos Leopardos de Sião, criança! Ouça! Eu falo de todos os Banu Haqim!

Ela havia se desvencilhado das mãos de Qaphsiel. Continuava olhando para ele sem entender, mas agora sua expressão era séria.

_ Eu me preocupo com o seu clã, Sarah Schneier. Me preocupo com você e os outros Leopardos, pois compartilhamos o mesmo sangue. Me preocupo com aqueles que, como Jamal, estão dispostos a morrer por algo maior. Eu me preocupo com todos os Banu Haqim que viveram e morreram para que o clã fosse algo além de um culto de sangue, liderados agora por um falso deus sanguinário. Vocês não podem cair nas armadilhas do Pastor.

_ Mas eu ainda não o compreendo. Não devemos reagir à perseguição que Ur Shulgi nos impõe? Vamos deixá-lo expulsar do Alamut todos os Banu Haqim que professam qualquer tipo de fé? Ficaremos de braços cruzados, nos escondendo, enquanto nada nem ninguém fará frente ao seu projeto genocida? Não foi para isso que Zev Benzion, que você diz admirar, criou os Leopardos.

O salubri balança a cabeça negativamente, mas dessa vez com um sorriso sincero no rosto.

_ De fato, não me compreendeste, criança. O que eu disse é que os Banu Haqim que estão contigo não devem buscar vingança. Pois existe algo muito maior e mais nobre do que a vingança, que só serve para afagar o ego.

_ O que devemos buscar, então?

_ Shillumah.

O silêncio novamente se abateu sobre os dois. Ambos se olharam por alguns segundos. Agora Sarah entendia. Qaphsiel prosseguiu, em tom solene:

_ “Korah decidiu reunir todos os seus seguidores à entrada da Tenda do Encontro, incitando-os contra Moshe e Heron; quando, de repente, a glória de Yahweh revelou-se diante de toda a comunidade”.

Imediatamente, Sarah continuou:

_ “E o Criador preveniu Moshe e Heron: Apartai-vos deste povo, pois vou exterminá-lo agora mesmo.”

Qaphsiel balançava a cabeça afirmativamente, satisfeito com a compreensão de Sarah.

_ Exato. Retribuição, Srta. Schneier. Dar a cada um o que lhe é devido. Tornar-se um veículo da vontade divina. Não há satisfação pessoal, não há ódio. Não há espaço para isso na Retribuição. Afinal, não era esse o propósito original dos Filhos de Haqim?

_ Porém, entenda agora minha segunda lição, Bint Haqim, pois ela é crucial.


Mais uma vez, Qaphsiel colocou-se a caminhar. Andaram por vários minutos sem que proferissem uma única palavra. Sarah aguardava o que o salubri teria a dizer. Olhava para ele, que ia poucos passos à sua frente, e sentia a tristeza que emanava de sua aura. Sem se virar, ele disse:

_ Quão triste é a figura de um soldado que nunca caiu em batalha, mas perdeu todas a guerras nas quais participou?


Sarah parou. Com um tom de indignação em sua voz, respondeu rispidamente.

_ Não seja tolo, Qaphsiel. Você sobreviveu a vários dos seus inimigos. Suas ações inspiraram muitos que vieram depois de ti. Pode ter presenciado derrotas terríveis, mas hoje é você quem está aqui para continuar a guerra.

Ele se vira para a Assamita. Havia, mais uma vez, um sorriso em seu rosto.

_ Eu precisei de alguns milênios para perceber a verdade que você enxerga com tanta facilidade. Essa, Sarah Schneier, é minha última lição. Mas vejo que já a aprendeu.

Ela também sorriu. Qaphsiel continuou falando:

_ Hoje eu vejo que, em muitas ocasiões, a maior retribuição que eu pude dar aos meus inimigos foi, contra todas as probabilidades, sobreviver. É como este memorial. Só havia um caminho diante de mim, e eu o segui. Minha própria existência é um atestado do fracasso de todos que foram contra mim.

_ Apesar de tudo, eu estou aqui.


Qaphsiel olha para os blocos de concreto.

_ Apesar de tudo, nosso sangue continua vivo. Milhões morreram, mas sua memória continuará a inspirar aqueles que continuaram adiante. Os Banu Haqim também irão sobreviver, Sarah Schneier. E a retribuição divina acontecerá pelas mãos daqueles que estão acima de falsos deuses.

Os dois caminham até o final do memorial. Desta vez estavam lado a lado. A lua se fazia presente e brilhante, iluminando as estelas, que naquele ponto já voltavam a ser de baixa altura. Qaphsiel se vira uma última vez para Sarah.

_ Nossos caminhos agora se separam, Srta. Schneier. Tenho apenas duas coisas a lhe dizer antes de partir.

_ A primeira delas é apenas uma recomendação. Diga a Al-Ashrad que eu creio ter chegado a hora. Convoquem todos aqueles do seu clã que não estão de acordo com o caminho escolhido pelo Pastor de Caim.

Sarah assentiu com um leve aceno de cabeça.

_ Será feito em breve. Estamos apenas aguardando algumas últimas medidas. Os canais estão quase prontos.

Qaphsiel concordou para, em seguida, continuar.

_ Minha última mensagem... bem, eu não sou seu rabbi para convocá-la até aqui apenas para lhe dar lições sobre a vida. Não... eu tenho algo importante para lhe entregar. Uma informação que será útil para ti, para os Leopardos e para os Banu Haqim.

_ Um homem misterioso, conhecido apenas como o “Fantasma de Berlim”, tem em mãos um artefato que pertence à sua família.


_ Der Geist von Berlin? Ele é real, então? Nossos relatórios nunca foram capazes de confirmar sua existência...

_ Ele é tão real quanto eu e você, apesar de pouco ser conhecido sobre sua origem e identidade. O que se sabe é que ele é um intelectual e operador nazista, um criminoso de guerra e um inimigo do povo hebreu. A própria Camarilla o perseguiu no passado, mas nunca conseguiram eliminá-lo.

_ Certo. Mas como nós vamos encontrá-lo?

_ Ele irá chamar alguém dos Banu Haqim. Fique atenta à movimentações estranhas dentro do seu clã. Escute os boatos. Tenha paciência, mas o faça com agilidade. O objeto que ele possui será fundamental para que os planos de longo prazo de Al-Ashrad se concretizem.

_ Entendo. E o que faremos com Geist?

Qaphsiel sorri mais uma vez.

_ Deixo essa decisão para você e os outros Leopardos de Sião. Geist é como eu, em um aspecto: ele é um sobrevivente. Eu me prometi que o deixaria em paz, contanto que não cruze meu caminho. Vocês não estão compretidos com minha promessa. O importante é que recuperem o artefato.

Na saída do Memorial, os ruídos noturnos das movimentadas ruas de Berlim já se faziam presentes. Carros buzinavam e pessoas circulavam pelas calçadas. Sarah e Qaphsiel eram apenas duas pessoas no meio da multidão. O Salubri faz um reverência para a Bint Haqim.

_ Foi um prazer conhecê-la, Srta. Schneier.

Gentilmente, Sarah o abraça e beija-lhe a testa.

_ É um grande honra poder dizer que tive a oportunidade de estar contigo. Se me permite uma última pergunta... para onde irá agora?

Qaphsiel contempla o memorial atrás de si, observando as estelas que se estendiam no horizonte.

_ Chegou a hora de atender o chamado. Venho resistindo o máximo que posso, mas não mais o farei. Preciso voltar, finalmente, para Yerushallaiyyin.

Ela concorda, balançando a cabeça.

_ Entendo. Elohim holech beroshenu umetapel hakol. O Criador irá adiante de ti, cuidando de seus caminhos.

Pela última vez naquela noite, Sarah vê Qaphsiel sorrindo.

_ Ani noten et hachaim sheli lElohim. Eu entrego minha vida ao Criador. Adeus, Sarah Schneier. Shalom.

_ Shalom, Eli ben Yehuda.

Qapshiel então se vira e passa a caminhar pela multidão. Sarah o acompanha com o olhar, mas logo o perde de vista. De um dos bolsos da jaqueta, ela retira um celular criptografado. Levando a mão direita até a boca, a Assamita fura o dedo indicador em seu canino, deixando brotar uma pequena gota de sangue. A ferida aberta é então posicionada no único botão do aparelho, que se liga normalmente. A tela começa a ser preenchida com uma série de caracteres em hebraico.

Sarah digita: CONTATO - NAR-SHEPTHA.

Amon
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Re: A Gathering of Beasts

em Qui Jan 10, 2019 7:00 pm
A decisão estava tomada. Não havia em sua face nenhuma dúvida ou hesitação. Assim como Carlak, Dmitri acreditava que seu clã, dentro daquela seita, havia atingido o ponto mais baixo de sua existência como família. Após a sentença dita pelo mais velho, sentença esta já sabida por ele, antes mesmo de seu companheiro chegar.

O russo cruzou seu olhar com a justicar e fez um breve aceno de cabeça, antes de abandonar a sala com aqueles que tinham a mesma posição política que a dele, Dmitri disse poucas palavras.

Daremos a todos vós um tempo para pensar. A decisão de hoje foi ponderada por muito tempo. Seremos vistos como inimigos da seita, então...

Suas palavras morreram nos lábios, quando o Cubano fez um gracejo que envolvia o russo. Dmitri voltou a caminhar em direção a saída, sem olhar novamente para Manuela. Ao passar pelo grupo do Cubano, numa fração de segundo, onde poucos conseguiram captar o movimento, Dmitri ergueu o latino pelo pescoço, prensando-o na parede. Seus dedos apertavam-lhe fortemente o pescoço. Caso o Cubano fosse mortal, teria morrido naquele instante.

Garoto, é bom levar as coisas mais a sério. Hoje você escapa com vida. Numa próxima, não garanto. Reze para sua virgem Maria de Guadalupe para não cruzar meu caminho, pelo menos enquanto mantiver a sua posição política.

Dmitri sai pela rua e encontra Carlak parado, a sua espera.

Devemos partir, antes que passemos a ser caçados imediatamente. Sua sugestão de não trazer os outros foi acertada. Voltemos para a Espanha, há muito o que ser feito.

Ambos caminhavam apressadamente pelas ruas de Praga, até que Dmitri deteve seu companheiro, segurando-o pelo braço.

Como já havia sido dito por Theo Bell, apenas sair da seita não causará o abalo pretendido. Devemos derrubar suas pilastras, suas bases. Pode seguir seu caminho, nos encontraremos em breve.

Carlak mantém-se parado, analisando seu companheiro.

O que pensa em fazer, meu amigo? Já não estamos suficientemente em perigo, só por manter nossa posição política?

Dmitri sorriu, parecia um tanto quanto desconcertado, mas, mesmo assim falou o que pensava.

Me lembrei de uma coisa que me foi dita há poucos dias atrás, por um cainita de nossa família, com habilidades singulares, me disse que hoje havia a possibilidade de deixarmos a Camarilla e que nesta mesma noite, se eu quisesse, poderia surpreender um dos fundadores da seita. Apesar de ser uma possibilidade. Talvez ele passe por local. Talvez não. Mesmo assim, quero tentar. Caso a Camarilla não exista mais, poderemos novamente unir a família sob uma mesma bandeira.
Ali, no meio da praça da cidade velha, os companheiros se despediram com um aperto de mão. Nos olhos de ambos, a esperança de que suas ações estejam corretas.

‡‡‡‡‡‡‡‡‡‡‡‡‡‡‡‡‡‡‡‡‡‡‡‡‡‡‡‡‡‡
Sentado no alto da torre da pólvora, Dmitri observava a rua, agora quase vazia. Faltavam alguns minutos para as onze horas e sua ansiedade aumentava a cada instante. Ele pensou em sair dali diversas vezes. Era tolice esperar. Como alguém poderia prever o futuro? Ele já estava decidido abandonar a ideia quando o relógio de uma igreja, não muito longe dali, soou o primeiro badalar das onze horas. Segundo o cainita que conversara com ele, seu alvo passaria sob a torre em que ele estava, na nona badalada.

Dmitri ficou estático, enquanto as badaladas ecoavam pela cidade. Na sexta badalada, o cainita russo pôde ver um carro branco se aproximar. Pela segunda vez na noite, ele não pestanejou. Bombeou sangue para seus membros e saltou do alto da torre. Nesta noite, Rafael de Corazon iria morrer.

Com um forte estrondo, Dmitri caiu sobre o capuz do carro, ao som da nona badalada do relógio da igreja. O impacto fora tão violento, que a frente do carro desceu, capotando-o. Alguns poucos mortais que caminhavam por ali naquele momento se assustaram e os mais corajosos já começavam a ir em direção ao carro capotado.

O vidro da porta traseira é quebrado por dentro e com certa dificuldade, um homem de cabelos castanhos, levemente encaracolados sai rastejando do carro. Alguns poucos ferimentos sangravam, exalando o doce perfume de vitae. Rafael tentava se situar quando notou, não muito distante do carro, a presença de Dmitri, de pé o observando. Há poucas horas, soube que os Brujah haviam deixado a seita e que um deles, era Dmitri Bogdanov.

Alguns membros, dentre eles Rafael de Corazon, conheciam a ferocidade do antigo primógeno Brujah de Moscou, contudo, pouco temeu, já que era mais velho e seu sangue era mais espesso que o do Brujah. Provavelmente não teria dificuldade com ele. Era apenas um ancillae, o que poderia fazer contra Rafael de Corazon?

Não sei o que pensa estar fazendo, meu caro Bogdanov. Pode estar um tanto quanto confuso com a decisão de seu clã, contudo, não somos inimigos. Siga seu caminho, não lhe desejo mal. Vou fingir que isto não passou de um engano. Além disso, olhe ao seu redor. Existem mortais aqui e não queremos colocá-los em risco não é? Rafael percebera pela aura de seu opositor, que ele estava decidido e que não haveriam palavras que o dissuadissem. Enquanto analisava, Corazon viu Dmitri abaixar-se e pegar, sem dificuldades, um tampão de cobre. Ele sabia, se desse espaço, poderia sucumbir.

O Brujah correu na direção de Corazon, decido a arrancar-lhe a cabeça, quando notou estar correndo em direção oposta. De alguma forma, não percebeu a movimentação de seu oponente. E então, num golpe limpo e veloz, Corazon dividiu o russo ao meio, com a porta do carro em que ele estivera anteriormente. _Eu o avisei meu caro. Pelo menos, antes de morrer, teve a visão mais bela de sua vida!

Corazon estava chegando próximo a torre da pólvora, sentado no banco traseiro de um Audi. Ele conversava ao telefone com Manuela, a justicar Brujah, que o informava sobre o rompimento de seu clã quando de repente algo atinge o carro violentamente, capotando-o para frente. Ele tem a nítida sensação de já ter passado por isso recentemente. Corazon soltou-se do cinto de segurança e caiu no teto do carro. Em posição desconfortável, ele chuta a porta do automóvel e rasteja lentamente para fora, imaginando que encontraria ali Dmitri Bogdanov.

Com certo espanto, ele estava certo. Ali parado, em sua frente, o cainita russo o observava atentamente, decidido a matá-lo. O toreador respirou fundo, mesmo não precisando, sacudiu os cacos de vidro presos a sua roupa e devolveu o olhar que recebia do Brujah. De Corazon sabia da existência de alguns cainitas de seu clã, e até mesmo de outros, tinham o dom da premonição. Ele, em toda a sua vida, nunca havia acontecido algo deste tipo, até aquela noite. Sem esperar um ataque desta vez, novamente bombeou o sangue, tanto para ativar seus dons quanto para aumentar seu vigor físico. Antes que Dmitri se aproximasse, Rafael arrancou a porta do carro e partiu em direção ao Brujah, tão veloz quanto um raio. O russo sentiu seu corpo ser rasgado ao meio quando...

... O Audi chegava próximo a torre. Corazon sentiu o carro em que estava ser alavancado para frente, tombando com o forte impacto. Novamente ele sai do carro, atordoado com o fato acontecendo novamente. O membro já saiu do carro, quase cego pela raiva. Não sei qual arte tens usado, seu Brujah maldito, mas, é bom parar. O toreador avançou contra Dmitri, deixando o carro capotado para trás.

Corazon bombeou sangue novamente para seus membros, enquanto corria na direção do Brujah, quando de repente, sente algo dentro de si. Uma fome voraz como não sentia há décadas. Ele investiu poderosamente com seus punhos no antigo membro de sua seita, atingindo-o com diversos golpes, antes mesmo dele perceber de qual direção vinham os socos.

Dmitri recuou alguns passos, surpreso pela velocidade e força do ancião que pretendia aniquilar. Na boca, o gosto de sangue, sinônimo de que fora gravemente ferido. Usando o sangue, curou-se dos golpes que recebera e contra atacou Corazon. Seus socos não acertavam, pois, o toreador era demasiadamente veloz.

Os transeuntes se espantaram com a violência da luta dos dois cainitas e muitos corriam, temerosos por suas vidas. A rua estava praticamente vazia agora e, do alto da torre, um outro cainita observava o embate silenciosamente.

Corazon já estava cansado e faminto, pois, havia consumido muito sangue para ativar suas habilidades e dons do sangue. Ele ainda pensou em correr, porém, para ele, já era tarde demais. Dmitri precipitou-se sobre ele, com os punhos vermelhos de sangue. Suas mãos pareciam vibrar, e o sangue não escorria de suas mãos. Dmitri deu um soco no peito de Corazon, que foi arremessado para o outro lado da rua. Em seu peito, a marca do soco.

Como? Como alguém tão jovem pode ter um poder absurdo como este? Falou Corazon ainda no chão, em meio a tosses involuntárias. Enquanto caminhava em direção ao ancião, Dmitri abaixou-se e pegou um pesado tampão de esgotos de bronze. Corazon se levantava com dificuldade, apoiado na parede. Ao erguer o rosto, para olhar seu inimigo que se aproximava, foi surpreendido com um golpe lateral em seu rosto, dado por Dmitri, que segurava o tampão com ambas as mãos.

O olho esquerdo de Corazon saltou, devido a tamanha força aplicada no golpe, ficando pendurado apenas pelo nervo óptico. O cainita ajoelhou-se de dor, tentando empurrar o olho para seu lugar, quando um novo golpe o atinge do mesmo lado. Desta vez dentes voaram e o maxilar afrouxou, ficando pendurado pela pele. Corazon tentava gritar de ódio e dor, mas, somente gemidos indistinguíveis saíam de sua garganta.

Dmitri chutou o peito de Corazon, derrubando-o no chão. As poucas pessoas que observavam aquele macabro combate, desviaram o olhar quando Dmitri desceu com o tampão no rosto de Corazon por uma, duas, três vezes. A cabeça do caído já estava funda e seu corpo já não se movia mais. As mãos, que até pouco tempo tentavam evitar o ataque, estavam inertes no chão.

Dmitri sentiu-se tentado a beber do sangue de Corazon, porém, lembrou-se das palavras do antigo que o visitara. A vontade de beber do coração de Corazon virá, contudo, não deves cometer tal ato hediondo, pois, um homem com fortes convicções, tal qual Corazon, certamente possuiria seu corpo e todos os seus esforços de derrubar uma das bases da Camarilla será em vão.

O russo, sobre sua vítima levantou o tampão por uma última vez, não para mais um golpe violento. Ele mirou o pescoço de sua vítima e desceu com toda a força e ímpeto que tinha e cravou o tampão no chão, o som do metal atingindo a pedra ecoou pela rua já vazia.

Dmitri se afastou andando, com o corpo todo coberto do sangue de seu inimigo, enquanto Corazon se desfazia rapidamente em cinzas. Do alto da torre, Amon observava o final do ato, que agora ao seu ver, seguia a possibilidade temporal que lhe agradava.

Enquanto isso, o sino da igreja soava sua décima primeira badalada...

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