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Os caminhos da Noite

em Sex Dez 07, 2018 1:00 am
Kraków era bela, pequena e aconchegante. Passageira como todas as outras e, exatamente por isso, aconchegante. A vila às margens do rio Vístula possuía um movimento reduzido ao fim do dia, mas ainda pulsante.

Ao contrário de boa parte das terras à oeste, as vielas de Kraków eram iluminadas graças às variadas carruagens e tendas dispostas ao longo delas. Aquele era um burgo de idas e vindas, passagem constante do povo Romani.

A lua crescia no céu noite após noite tornando-se mais e mais brilhante. Havia sonhado em noites passadas com uma lua amarela, brilhante como o sol, mas a tomar a escuridão da noite.

Sua tenda estava disposta próxima ao rio, tão próxima que o cheiro forte das águas escuras lhe arrebatava por vezes. O odor era forte, mas não ruim. Cheirava a vegetação, a vida. Cheirava aos passantes e isso o agradava em certo tom. Estava ali já há alguns dias, nem mais e nem menos que o necessário. Aguardava um contratante.

A missiva, assinada somente com a incial M, foi recebida por Horváth e indicava Kraków e a especifidade daquela margem do Vístula para o local de encontro. Era comum os contratantes enviarem emissários em seu nome a fim de preservarem sua face e mesmo suas vidas, não negociando diretamente com o Romani. Incomum era que estes contratantes conseguissem contato direto com Vano se ele assim não quisesse.

Por isto, havia uma excitação adicional para este encontro em particular. A missiva o encontrou ainda em viagem, como se o emitente soubesse exatamente onde o Romani estava. Ouviu o questionamento no exterior da tenda. Eram as vozes de seus subordinados a, aparentemente, checarem uma aproximação. Não tardou e o tecido da entrada foi posto de lado por Sandu, um de seus homens de confiança.


- Senhor, M. está aqui.

Horváth já havia instruído seus homens a tomarem as devidas precauções para o encontro. A reunião aconteceria em sua tenda, salvaguardada por seus mercenários e com a ausência de armas que deveriam ser deixadas no exterior da mesma. E assim foi feito.

Quando M. entrou, passando por Sandu e fazendo as cortinas de palha e guizos de pedra branca chacoalharem, sua imagem destoou daquele ambiente. Era uma mulher alourada, com cabelos cacheados a lhe caírem sobre o ombro e olhos castanhos em um tom amarelo vívido. Sua pele clara e vestes estrangeiras denotavam pertencer às terras do oeste ou do norte. Não demorou-se, tomou a palavra após uma breve saudação inclinando levemente a cabeça e nada mais. Falava em um inglês médio, o idioma central das Ilhas Britânicas e que é de conhecimento do Romani.


- Vano Horváth, o saúdo. Sou M. e apenas M.

Os olhos dela o atraíram. Eram grandes, redondos e amarelados. Eram como a lua que crescia nos céus durante seus sonhos nas noites anteriores e pareciam tornar-se ainda maiores e mais brilhantes conforme falava. Ela continuou em tom decidido, ainda de pé à frente do Romani.

- Teus serviços e a discrição que decorre deles me trouxeram até aqui.




M.
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Re: Os caminhos da Noite

em Sex Dez 07, 2018 2:56 pm
Vano estava à beira do rio Vístula. O sol havia se deitado há algumas horas, dando uma trégua do calor daquele verão. Nuvens de insetos voavam naquelas margens, dando um sinal de que estavam na estação mais quente do ano.

Do lado de fora de sua tenda, ele terminava de preparar um chá de hortelã. Ainda que a bebida fosse quente, a sensação de frescor da erva lhe agradava. Com cuidado, ele despeja a infusão em uma belíssima jarra de cristal da Boêmia. Um dos muitos presentes que havia recebido de pagamento por seus distintos serviços.

Com a jarra na mão, o romá retorna para o interior da tenda. Sabia que estava quase na hora de receber seu mais novo contratante. Tratava-se de um patrono misterioso que, por uma razão que ainda não distinguir, havia o contatado no meio de suas viagens. A estranha circunstância o deixava ansioso para este encontro. Certamente perguntaria como fora encontrado.

Dentro da tenda, Vano serve para si uma xícara do chá. Enquanto sorvia o líquido, colocava as cartas do Tarot para si mesmo. Todos ali sabiam dos seus dons. Sabiam também que Vano se recusava a colocar cartas para qualquer um que não fosse a si mesmo. A dom da vidência entre os Romani era quase que exclusivo para as mulheres. Os homens que o manifestavam eram vistos com desconfiança. Era um sinal de que forças malignas os haviam tocado desde o nascimento. Este era mais um dos augúrios negros que constituiam sua fama entre seu próprio povo. Contudo, havia construído o respeito dos seus pares exatamente por causa da pesada aura que o cercava. Ainda era Romani, afinal. E qualquer Romani era mais confiável do que um gadjé.

Quando soube que seu contratante havia chegado, Vano esperou que seus homens prosseguissem conforme haviam sido instruídos. Qual não foi sua surpresa ao se dar conta que M era, na verdade, uma bela gadjé de terras distantes. Não conseguiu nem tentou disfarçar o espanto. Já havia feito trabalhos para mulheres anteriormente, mas nenhuma delas havia contatado-o pessoalmente. Imediatamente admirou a ousadia de M. Ademais, havia algo nos olhos dela que o seduzia...

Levantou-se rapidamente para preparar algumas almofadas e transformá-las em assento, de modo que sua convidada ficasse o mais confortável possível. Com calma e em silêncio, recolheu as cartas que havia colocado para si. Serviu-se de mais um pouco do chá fresco e colocou o restante para a mulher. Quando se sentou novamente, voltou a contemplar os olhos da mulher.

- Por favor, M. Sente-se e fique à vontade.

Sua voz era calma.

- Devo dizer que já a admiro por uma série de questões. Me encontrar no meio da estrada não é uma tarefa trivial. Chegar até aqui sozinha, então... é fascinante. Mas diga-me: a quais serviços a senhora se refere, exatamente?


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Re: Os caminhos da Noite

em Sex Dez 07, 2018 11:23 pm
Era estranho.

Ao colocar as cartas não conseguiu decifrá-las. Eram confusas, enigmáticas e vazias. Lhe diziam tudo e nada. O Romani sabia que o dom da vidência é uma dádiva andante, assim como o seu próprio povo. Não lhe pertence, de fato. Não é. Está.

E neste momento, parecia não estar.

Em seguida uma nova surpresa a lhe arrebatar naquela noite quente às margens do Vístula. Uma mulher, bela e com olhos fascinantes era a autora do chamado. Após providenciar um assento confortável, Vano passou a recolher as cartas e então a leitura se fez possível. Lá estava, dada ao Romani clara como a lua do lado de fora da tenda.



A carta XIII. A Morte.


Vano Horváth compreendia a profundidade de seu significado: O fim de uma etapa. Renovação. Mudança. Aquilo que não mais lhe cabia deveria deixá-lo.

Após o breve transe, o Romani voltou sua atenção à M. e só então percebeu que apesar de trajar um fino vestido carmesim com detalhes negros, ela estava descalça. Seus pés tocavam o chão como os de uma criança do povo andante, livres e desprotegidos, em contato direto com o solo que  a tudo conhece e pelo qual tudo passa.

M. sentou-se e bebeu do chá que lhe fora ofertado, sem que seus olhos dourados deixassem de aprofundar-se naqueles escuros de Horváth. E, então, o Romani viu mais.

Viu e sentiu naquela mulher uma incontrolável mudança. Viu a ave que cruza os céus e os mares para cumprir seu destino. Sentiu a brisa quente do verão se tornar fria como aquela das terras ao norte. Viu a jovem e a velha. Viu o caminho. Ouviu os andantes. Poderia jurar que aqueles olhos dourados eram iguais aos dos felinos que circulam nas áreas selvagens.

Sentiu medo e alegria, em conjunto. Mahrime. Sentiu-a Pura e Suja.

Viu, ouviu e sentiu tudo em uma fração experimental de tempo. Havia sido breve ou longo aquele tempo? Não sabia dizer.

Diante dele, M. permanecia sentada a beber do chá, observando-o em silêncio até que decidiu quebrá-lo para responder à sua pergunta.


- A caça.

Um gole a mais. Ela parecia apreciar a bebida oferecida pelo Romani. Sua expressão era ainda imutável, estática, predatória. Era aquele último momento em completa inércia antes do bote dado por uma serpente.

- Suas presas são pequenas para o caçador que se tornou. Venho contratá-lo para que recuse um outro patrono que o visitará na noite seguinte.
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Re: Os caminhos da Noite

em Sab Dez 08, 2018 4:39 pm
Vano ficou observando o Arcano da Morte por alguns segundos. Como qualquer entendendor do Tarot, sabia que as interpretações nunca eram literais, mas o modo como aquela carta demorou para lhe aparecer o deixou pensativo. Recolheu o baralho, mas deixou a carta XIII na mão. Enquanto ouvia o que M tinha a lhe dizer, o cigano ficou girando a Morte entre os dedos, executando pequenos truques com a carta, de modo displicente.

Conforme observava e escutava sua ilustre visitante, pegava-se mais e mais fascinado pela presença dela. Detalhes singelos lhe chamavam a atenção e o seduziam de modo misterioso. Os pés descalços, por exemplo. O que significavam? Eles contrastavam com o vestido de tecidos finos que M trajava. E aqueles olhos? Era impossível não se impressionar com eles...

Sim... Mahrime. M exalava toda a poluição do mundo, mas esta era um paradoxo diante de sua inconfundível nobreza. Vano sentia uma conexão imediata com a mulher. Queria tirá-la dali. Queria rodar com ela em torno de uma fogueira, vê-la dançar ao som de sua rabeca. Amá-la por uma noite inteira, para morrer junto aos primeiros raios do Sol.

A caça, ele a ouviu dizer. Mas por que ela o queria como caçador, quando estava claro para todos que não havia predador mais eficiente na face da terra do que M?

Vano ainda estava em um quase-transe, mas ouviu muito bem a proposta que M lhe fizera. Inusitada. Em toda a sua carreira, nunca havia sido contratado para recusar outro contrato. Ele sorri para ela. Sabia que aceitaria qualquer coisa que ela pedisse. Ainda assim, resolveu que havia um papel para encenar. Vano sorri, enquanto coloca a carta da Morte diante de si:

- Senhorita... este é um pedido deveras incomum. Imagino que saiba que minha fama advém da eficiência com que eu e meus homens cumprimos aquilo para o que somos chamados. Se eu recuso um contrato, os rumores podem começar a correr... Logo as pessoas saberão que eu não sou alguém de confiança, o que pode ser péssimo para meus negócios.

- Contudo, estarei disposto a seguir com nosso acordo, caso sua oferta de pagamento seja generosa... Generosa ao ponto de ser ainda melhor do que aquilo que este patrono que mencionas venha a me oferecer...
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Re: Os caminhos da Noite

em Dom Dez 09, 2018 3:07 pm
M. mantinha os fascinantes olhos a fitar Vano durante sua resposta. Sentada sobre as próprias pernas e acima das almofadas que o Romani havia disposto, ela apenas ergueu uma das mãos à altura do próprio rosto, segurando a xícara com o chá que bebia na outra.

Desenhou no ar uma letra, lentamente, com seu indicador. Começou da esquerda e desceu em diagonal para, em seguida, subir à direita com o movimento oposto. O gesto, se pudesse ser visto como uma linha a flutuar no ar, formaria a letra V.


- Minha oferta é de uma generosidade incalculável, Romani.

Ela sorriu, levemente. Não era um sorriso simples, aquele. Quando o fez ergueu levemente o queixo e seus olhos brilharam em dourado refletindo as velas ambientes. Era malicioso, invasivo, de certo modo assustador. Ela continuou.

- Eu lhe ofereço O Nada enquanto o próximo patrono lhe oferecerá O Tudo.

- Ofereço a ausência da minha caçada nesta noite e apenas nesta. A liberdade para a tua escolha. Conheça o homem que virá e o tudo que lhe será ofertado por ele.

- Advirto que esta não é uma escolha simplória e que a resposta dela reside somente dentro de ti. Eu não a conheço e tampouco o homem que virá. Nós apenas...

Fitou a carta XIII nas mãos do Romani.

-...fazemos a leitura ao nosso modo.  

Colocou a xícara no chão, a seu lado, e levantou-se.

- Voltarei em duas noites e conhecerei a tua decisão, Vano Horváth. Onde reside a tua ambição?

Não se curvou. Não houveram mesuras. Não inclinou sequer o queixo ou moveu os olhos grandes, brilhantes e amarelos. Deu as costas e caminhou, com os pés descalços, deixando a tenda do homem andante.
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Re: Os caminhos da Noite

Ontem à(s) 6:13 pm
Vano sorria enquanto ouvia M apresentando sua inusitada oferta. Já não via mais motivos para esconder dela o quão fascinado estava. Ao final, o cigano dá um último gole na sua xícara de chá e diz:

- Então as ofertas se resumem ao Tudo e ao Nada?

Ele solta um riso abafado antes de continuar.

- Só posso dizer que a senhorita e esse misterioso patrono que me visitará amanhã não são pouco ambiciosos...

Vano inclina o corpo na direção de M, falando um pouco mais baixo:

- Irei ouvir o que o próximo visitante vai me oferecer, mas devo adiantar que o Tudo não me agrada nem um pouco. E sabe por que?

O cigano abre os braços e olha ao redor, como se estive apresentando algo para sua interlocutora.

- Porque o Tudo eu já tenho. Eu o tenho desde que nasci!

Vano cruza os braços. Sorrindo, continua falando, agora com o tom de voz um pouco mais baixo.

- Mas veremos, senhorita. Veremos o que as próximas noites me reservam...

Quando M se despede, revelando que voltaria em breve, Vano se levanta e faz uma mesura, mesmo diante da notável frieza de M:

- Foi um prazer, senhorita. De tudo o que conversamos, o que mais me agradou foi, sem dúvida, saber que a verei novamente...
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Re: Os caminhos da Noite

Ontem à(s) 10:28 pm
Ela se foi e com ela uma profunda ausência se abateu sobre o Romani. Ausência daquele mistério que ela emanava, das palavras frias e enigmáticas e, claro, dos olhos. Ah, o quão lhe fizeram falta no restante daquela noite e no próximo dia aqueles olhos dourados.

Assim, Horváth aguardou. Teve dificuldades para dormir naquela noite. Sua mente vagava nas possibilidades e tentava desvendar os mistérios de M. Esquecia-a somente por breves segundos ao lembrar-se que tudo passa, nada deve permanecer estático e mesmo ela teria que partir. Lembrava-se uma vez mais, ao ter a certeza de que ela voltaria. Eram essas as andanças da existência: o ir e vir, o ganhar e perder.

O próximo dia arrastou-se lento, tedioso. Maltratou o cigano com sua longa espera, afinal, estava a aguardar o prometido segundo patrono. Seria ele tão fascinante quanto M.? Não, jamais o seria. Ninguém poderia ser como ela e nenhum outro possuiria aqueles olhos mas, ainda assim, poderia ser o outro fascinante à seu próprio modo. O que o aguardava?

A ansiedade angustiante deu lugar à uma expectativa vibrante conforme o sol descia por detrás do longo Vístula. Suas águas escuras tornaram-se laranjas, marrons e então negras. A noite estrelada estendeu-se pela vastidão e o coração do Romani já pulsava excitado. Esperou e esperou um pouco a mais.

Somente quando a noite se alongou e os mais cansados já dormiam, o visitante fez-se presente no acampamento de Vano Horváth. Assim como na noite anterior, os homens haviam sido avisados sobre a chegada de um Gadjé e os protocolos para recebê-lo foram aplicados em conformidade àqueles utilizados para a recepção de M. : armas retidas e apresentação formal por parte de um dos homens de Vano.

Rivan adentrou à tenda de seu mestre e curvou-se respeitosamente antes que falasse. Embora fosse ele um homem de sua comitiva há mais de três anos, estava hierarquicamente abaixo de Sandu dentre àqueles que cumpriam as demandas nas sombras para Vano Horváth.


- Meu Senhor, o visitante está aqui. Não trouxe quaisquer armas...e, mestre, Sandu não é visto desde a noite anterior. Os homens já vasculharam Kraków e não encontraram vestígios dele. Sua cimitarra e pertences estão na tenda que ele ocupava.

Rivan deixou-o e anunciou a entrada do misterioso segundo patrono, embora tenha lhe trazido uma notícia igualmente intrigante sobre o desaparecimento de Sandu. Em meio as dúvidas, o homem adentrou à tenda fazendo com que os guizos de pedras brancas balançassem e emitissem o seu característico som.

Assim que pisou no interior da tenda as velas tremularam, a escuridão veio e se foi em parcos instantes enquanto reacendiam velozmente. Poderia ser a constante brisa noturna de Kraków, mas Vano não a sentiu.

Era um homem exótico para alguns, mas parecia familiar para Horváth. Usava um turbante de cores vibrantes com tons em vermelho e púrpura, possuía a pele corada típica do povo cigano e trajava roupas largas, folgadas, repletas de jóias em tom prateado e dourado. As vestes chamavam a atenção, mas sequer poderiam se comparar aos seus olhos.

Eram negros como a noite mais escura, mas infestados de pequenos pontos luminosos que lembravam as estrelas brilhantes da vastidão. Olhar diretamente para eles era como se perder nos céus e nos mistérios escondidos na escuridão. Neles Horváth via o passado, o presente e o futuro. Via a si mesmo e o outro. Via uma infinita possibilidade de ser e de estar.






O homem curvou-se até que sua cabeça estivesse abaixo da cintura enquanto as jóias tintilavam entre si de forma aguda e cristalina. Ergueu-se novamente, trazendo na expressão um sorriso singelo e notadamente sincero.


- Que alegria finalmente encontrá-lo. O menino orfão, o vidente solitário, o negociante astuto, o senhor dos ladinos, o sedento por vida Vano Horváth. Alegra-me e honra-me estar em vossa presença.

Aqueles olhos arrastavam toda a luz para ele e brilhavam com uma centena de pontos prateados em torno dos globos escuros.

- Eu sou Mustafá Fahir, aquele que aguardou a maturidade do teu espírito.
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Re: Os caminhos da Noite

Hoje à(s) 10:42 am
Dormira mal naquela noite. Achou que sonharia com M, mas na verdade passou a maior parte do tempo em claro, revivendo aquele encontro. O dia se arrastou, com o calor dando a sensação de que tudo andava ainda mais devagar. Ao final da tarde, uma dor de cabeça, advinda do cansaço, começou a castigar Vano. Novamente, ele via o dia partir às margens do rio, dessa vez preparando um chá de mel com limão.

Com movimentos lentos e circulares, Vano despejava um filete de mel diretamente de um favo, que segurava acima da chaleira no fogo, fervendo com a infusão. Havia pedido que Sandu buscasse o mel entre os mercadores de rua da cidade, mas como não o encontrou durante o dia, teve que fazê-lo pessoalmente. O cigano adorava caminhar entre os gadjé, ainda que estes muitas vezes o olhassem com muita desconfiança. Na verdade, Vano se regojizava com isso. Fazia parte de sua persona. Naquela tarde, contudo, a caminhada não fora tão prazerosa assim. Para todos os lados em que olhava no meio da multidão, lá estava ela: M. Porém, Vano só a via por alguns poucos segundos. Bastava alguém cruzar seu caminho para que a imagem de M desaparecesse como um fantasma.

Lembrou-se disso enquanto terminava de preparar o chá. Limpou as mãos nas águas do rio e, com o chá colocado em sua jarra de cristal, retornou à sua tenda.

Tomou do o chá antes que o aguardado visitante chegasse. Imaginara que ele chegaria no mesmo horário de M, mas isso de fato não ocorreu. Já era tarde quando Rivan o anunciou. O acampamento já estava quase todo em silêncio. No meio do anúncio, veio a notícia do estranho desaparecimento de Sandu.

Vano não teve tempo para sequer processar a notícia, pois imediatamente se impressionara com a entrada do visitante: Mustafá Fahir.

Como se não bastasse sua exótica aparência - que denotava a distância pela qual havia viajado - a fala inicial do estrangeiro foi mais do que o suficiente para fasciná-lo. Subitamente, tudo o que achava que já estava decidido na noite passada - a escolha pelo contrato de M e toda a sua paixão - foi colocado em suspenso.

Observou Mustafá com atenção. Era um fascínio distinto daquele exercido por M. Não havia paixão, pois o que o estrangeiro lhe despertava era uma imensa curiosidade. Vano sentia que o Destino lhe pregava uma peça. Algo que ele não conseguia ver. A única coisa que sabia era que, ao final das próximas noites, estaria mudado. Era isso que a carta XIII sinalizava.

Com um gesto, pediu que Mustafá se acomodasse nas mesmas almofadas onde M sentara na noite passada. Colocou um copo de cristal na frente de seu convidado e despejou ali água fresca, que estava em uma jarra de barro.

- Perdoe-me, Mustafá Fahir, por servir-lhe apenas água. Eu já lhe aguardava, mas achei que viria mais cedo. Tudo o que eu havia preparado já foi consumido.

Vano se senta diante do convidado e sorri.

- Uma mulher veio aqui na noite passada e disse-me que eu receberia uma nova visita hoje. Uma nova proposta.

- Pelo que vejo, vieste de longe. E me conhece de longa data. Como posso servi-lo?
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Re: Os caminhos da Noite

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