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A Catedral de Corpos

em Qui Dez 06, 2018 11:56 pm
O dia se encerrava e a pergunta mórbida ecoava no pensar da maioria dos homens em Stourbridge: será amanhã, o fim?

A chegada da noite era sempre angustiante. A luz e o pouco calor que ali circulava desapareciam. O escuro e o frio se intensificavam e, com este último, a sensação da proximidade do fim se tornava maior e mesmo na ausência de dor, as articulações passavam a incomodar. O que poderia parecer um conforto, uma libertação, logo se tornava nada mais que a ampliação da solidão. Silêncio. Todos os moribundos destinavam-se ao sono.


Stephen já repousava quando a portinhola, estreita e retangular, da porta de seus aposentos se abriu por fora. A voz que ecoou nas paredes frias era facilmente reconhecida, tratava-se do Padre Callum, um jovem sacerdote recém-chegado ao leprosário. Suas palavras eram leves e um tanto rápidas, em tom brando. Sua voz era quase feminina. Através da pequena abertura da portinhola seus olhos curiosos escrutinavam o interior do quarto escuro durante o falar.

- Lorde Stephen? Stephen de Cromwell?...há um homem a procurá-lo, ele o aguarda no salão de orações, senhor.

Não pareceu que iria deixar a frente da porta, o jovem padre Callum. Silenciou por apenas um minuto e retomou.

- Um Lorde, eu diria, assim como o senhor. Veste-se como um, fala como um. Por Deus, até caminha como um. O Senhor precisa de algum auxílio, Lorde Cromwell?

Stephen sabia que Callum também padecia da podridão. Nele havia apenas começado. Seu braço esquerdo estava enfaixado e haviam chagas aparentes em seu pescoço. Naquele local não havia uma só vivalma livre da lepra e, por isso, a notícia sobre o visitante ganhava contornos cada vez mais instigantes após a continuação do matraquear do jovem padre.

- Ele não possui feridas aparentes, nem ataduras, nem mal cheiro. Por Deus! Ele cheira a nobreza! Aquele cheiro do ferro das armaduras e do couro de suas botas. O Senhor deve ter ótimas relações, Senhor Cromwell.

Balbuciava algumas triviais coisas a mais, Callum. Stephen chegou a pensar o quão incômodas podem ser aquelas portinholas. Foram colocadas ali para prevenir que os leprosos morressem em seus quartos e por lá ficassem esquecidos por dias, com a porta fechada, até que alguém os encontrasse. Entristecia-se ao notar que cada detalhe daquele local era preparado para a morte.
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Re: A Catedral de Corpos

em Sex Dez 07, 2018 11:03 pm
*Ele estava deitado quando o jovem padre entrou. Não estava exatamente dormindo, mas naquele limiar da consciência, quando se encontrava meditando e entregue aos próprios pensamentos. Ao ouvir a voz do padre, Stephen abriu um único olho e observou seu interlocutor. Não esboçou reação alguma, exceto talvez por uma fagulha de raiva que brilhou no olho ao ser chamado de Lorde. Após um silêncio considerável, ele começa a se sentar. Um processo longo e meticuloso, onde Stephen tomava cuidado com cada gesto e checava o próprio corpo em busca de novas feridas. É apenas quando está efetivamente sentado que começa a responder ao padre.*

-Eu não sou um lorde, padre Callum. Em sua sabedoria, Deus e sua majestade, o rei, julgaram melhor assim. Eu sou um cavaleiro, e se Deus permitir, morrerei um cavaleiro. Nem mais, nem menos.

*Com o mesmo cuidado com o qual havia se sentado, Stephen agora enrolava os braços em bandagens. Não era bom deixar as chagas expostas, ainda mais se tinha um visitante, algo tão raro. Ele sente os dedos, os que lhe sobraram ao menos, rígidos e intertes ao enrolar as faixas. Era mais um motivo para que cada gesto seu fosse feito com extremo cuidado - não conseguia fazer mais nada sozinho se não fosse dessa forma.*

-Você me dá mais valor do que eu tenho. Todos a quem conheci fora destes muros estão mortos ou me esqueceram, não consigo quem poderia vir me visitar nos dias de hoje. E um lorde ainda por cima... qual surpresa essa visita nos reserva, padre?

*Ele abana uma mão ferida quando o padre oferece ajuda, mas em seguida passa um tempo observando a parede com suas relíquias, uma única concessão sua ao pecado da vaidade. Sua armadura estava montada, ainda polida, ainda bem cuidada, bem como suas vestes da época das cruzadas e sua grande espada, exposta na parede pendurada por um suporte. A cavalaria sempre seria seu orgulho e no seu cotidiano, mesmo nas roupas simples, costumava combinar as cores de sua ordem, o branco e verde, e se tinha um visitante, o receberia como o cavaleiro juramentado que era.*

-Me faça a gentileza de pegar meu tabardo e meu cajado, por favor.

*As memórias da Terra Santa logo lhe voltam à cabeça quando encosta no tecido branco, e ao vestí-lo com ajuda do padre, se sente um pouco melhor. Um pouco mais digno. Um pouco mais si próprio. A roupa branca com uma cruz verde lhe trazia paz, talvez a única que conseguia encontrar nos dias atuais.*

*Ele se levanta, um gesto igualmente cauteloso como os demais, e se apoia no cajado fornecido pelo padre. Ainda era um homem grande, embora encurvado, mas não sentia mais a mesma firmeza nas pernas. Talvez real problema é que não sentia mais as pernas, não inteiramente. Ele pega uma espécie de capacete improvisado que usava ao andar pelo ar livre - uma máscara de malha de ferro combinada com ataduras, para proteger o rosto e esconder coisas como a ruína que havia se tornado seu nariz. Ele olha para a portinhola e dá um suspiro cansado, ao pensar na morte que espreitava a todos naquele lugar.*


-Não ficarei melhor que isso. Por favor, mostre o caminho, padre. Não é cortês deixar um visitante esperando.
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Re: A Catedral de Corpos

em Sab Dez 08, 2018 10:33 am
Callum, o jovem filho de Deus, guiou Stephen através dos corredores lúgubres de Stourbridge. O garoto estava visivelmente excitado, ansioso.

- Perdoe-me Sir, perdoe-me. Ao chegar aqui três a cada dois residentes se referiram ao senhor como Lorde. Eles o vêem desta forma, como alguém que não deveria estar aqui. Por Deus! O que estou falando? Mal consegui me ordenar e cá estou. Mas não posso maldizer os planos de Nosso Senhor para mim. Sou um Padre, eu consegui! Imagino como seria se a podridão me alcançasse antes de minha ordenação...

Caminhavam pelo estreito corredor de pedra e ouviam os ecos dos lamúrios cada vez que passavam diante de uma das portas. Para além deles, somente o bater constante e compassado do cajado de apoio do Cavaleiro e a voz constante de Callum eram ouvidos.

- Pega-se pensando sobre isso, Sir Stephen de Cromwell? Sobre o quão bondoso foi Cristo-Rei, o Filho e o Pai, ao permitir que o senhor pudesse tornar-se um Cavaleiro antes de possuir a doença? O amor divino é belíssimo, Sir Stephen, belíssimo. Ele nos deu tanto, tanto...eu creio que agora somos os penitentes de nossa história.

O corredor se encerrava em um salão central que desembocava em um segundo corredor que permitia acesso ao pátio externo e, dele, rumava à capela de Stourbridge, chamada de Salão de Orações. Quando lá chegaram vislumbraram um homem de pé, atrás de um dos bancos da capela, a observar a imagem do Cristo Crucificado acima do altar. Ele não tecia preces, ao menos não o fazia de forma audível. Apenas permanecia a observar, fixamente, a estátua sagrada.

Novamente foi a voz de Callum a quebrar o silêncio.


- Milorde, apresento-o Sir Stephen de Cromwell.

O Rapaz sorria enquanto o homem virava-se para seu interlocutor. Era um homem com uma face vivida. A idade havia pesado sobre seus ombros e levado sua juventude. Ainda assim, era imponente e parecia possuir o vigor físico intacto. Era um homem de armas por seu porte, não restava dúvidas. Seus cabelos eram de um castanho claro e uma barba por fazer, muito curta, permanecia em sua face. Trajava roupas de cor escura, em couro, com um tecido pesado de cor marrom lançado sobre os ombros e caindo por suas costas até a cintura. Não havia nenhuma marca visível da doença em seu corpo. Nenhuma.

Os olhos eram particularmente atrativos diante da pouca iluminação disponível na capela, oriunda dos castiçais nas paredes e das velas espalhadas pelo altar. Eles, os olhos, eram azuis em um tom escuro, profundo. Lembravam o mar durante o fim do dia, quando o sol se esconde e uma onda púrpura-azulada cobre as águas. Brilhavam um tanto a mais naquela luz baixa.







Primeiro, ele olhou para o jovem padre Callum e o agradeceu.

- Sou grato por vossa atenção, Padre. Peço que nos deixe agora.

Callum, sorrindo como um garoto deslumbrado com um elogio de seus pais, se despediu de Stephen e os deixou aos pés da Cruz de Nosso Senhor e sob a luz amarelada das velas da simplória capela de Stourbrigde. O Homem aproximou-se, estendeu a mão - sem quaisquer receios ou mudanças em sua expressão - para um aperto de pulsos.

- Perdoe-me retirá-lo de vosso repouso, Sir Stephen de Cromwell. Sou Arturo de Richmond, Conde de Montfort.
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Re: A Catedral de Corpos

em Sab Dez 08, 2018 11:28 pm
*Enquanto Stephen se arrasta pelos corredores, não consegue deixar de pensar nas palavras do padre. Algo nele o fez pensar da última confissão que fizera, ainda que não fosse o mesmo sacerdote.*

-Sua visão não é sem fundamentos, padre. Em verdade, é de um otimismo reconfortante. Talvez você esteja certo - afinal eu não posso dizer que não tive uma vida plena, por mais que tenha sido cheia de dor. Nós somos, eu imagino, nossos próprios mártires.

*Quando chegam à Sala de Orações, Stephen deixa Callum fazer as apresentações enquanto olha mais uma vez para o Cristo crucificado ali. Ele faz uma genuflexão, lenta e metódica como todos os seus gestos, além de se ajoelhar diante do altar. Era um martírio por si só o ato, com suas juntas rígidas e insensíveis, mas Stephen não podia se permitir tamanho sacrilégio, não enquanto ainda tinha forças para se ajoelhar. Ele oferece uma prece rápida para Cristo e São Lázaro, para então se levantar, depois de um esforço considerável. É só então que se dá ao luxo de observar o visitante. Um homem deveras impressionante, que poderia estar em qualquer campo de batalha da Europa, mas ao invés disso preferia estar ali, em meio aos proscritos.*

*Ele se despede do padre simpático com um cumprimento silencioso, e olha curiosamente o braço estendido pelo visitante. Se ele não aparentava repulsa, Stephen estaria mais do que feliz em retribuir o cumprimento, e o faz com força, para mostrar que seus braços ainda não eram inúteis. Ainda.*


-Não interrompeu nada. Eu suspeito que terei tempo o bastante para repousar quando estiver morto, Vossa Senhoria. É um prazer receber sua visita, ainda que não possa deixar de me perguntar seu motivo.
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Re: A Catedral de Corpos

em Dom Dez 09, 2018 3:28 pm
- Perdão e redenção.

Respondeu-lhe o homem enquanto apertava, com firmeza, o punho de Sir Stephen. A iluminação baixa marcou com sombras a face de Arturo de Richmond com uma expressão triste. Encerrou o cumprimento e colocou-se ao lado do moribundo Cromwell, para que seus olhos alcançassem a estátua do Crucificado no altar à frente.

- Somos ambos homens definhando com o tempo, Sir Stephen. Ambos acorrentados com os pesados grilhões do destino e das leis dos nossos.

Estavam lado a lado, ombro a ombro, como por muitas vezes Stephen se viu em batalha ao lado de seus companheiros. Desta vez não havia um inimigo à sua frente, mas o igualmente julgador e misericordioso olhar do Cristo na cruz. O Conde de Montfort continuou.

- Eu o observei por muito tempo e por todo ele fui incapaz de quebrar os meus grilhões. O vi ser um promissor escudeiro. Assisti, da escuridão e com orgulho, tua nomeação e tua ascenção como Sir Stephen de Cromwell. Estava tão próximo...tão próximo.

- E então ela veio. A doença.

Stephen poderia ver o perfil do homem a seu lado e notar que seus olhos azuis brilhavam em um púrpura escuro e lúgubre como os cantos escuros daquela capela. Os olhos colocavam para fora o desespero incontido daquelas palavras ao brilharem cada vez menos. Continuava, o Conde.

- O peso que carrego está naquelas noites. Nas primeiras delas. Me acovardei de minhas íntimas vontades e da busca por ti, Sir Stephen, e me permiti ser amarrado pelas leis dos meus. Me negaram o direito a intervir e eu aceitei passivamente. Eu poderia ter impedido a tua desgraça e assim encerrado também o meu sofrimento. Fui fraco ao não fazê-lo. Hoje eu vejo.

- Os anos que decorreram foram de apodrecimento da tua carne e da minha vontade de continuar de pé. O tempo, assim como faz convosco, não tratou de curar as chagas e sim as fez crescer e espalhar sobre a minha alma.

Só então ele virou-se novamente e encarou o único olho visível de Stephen por trás das bandagens. Encarou-os com os seus azuis cor-do-mar escuro.

- Esta noite me liberto de minhas correntes ao oferecê-lo o fim da doença do corpo e o início de uma nova caminhada.
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Re: A Catedral de Corpos

Ontem à(s) 6:59 pm
*Stephen fica sem reação. Seu único olho encara o conde de Richmond incrédulo com suas afirmações, que beiravam o sacrilégio. Ele precisa de um bom tempo, longos minutos de silêncio, para se recompor.*

-É... de um certo alento para minha desgastada vaidade que o senhor tenha me acompanhado tanto tempo atrás, Vossa Senhoria. Aqueles eram bons tempos, melhores ainda se comparados aos de hoje, mas a Doença veio, e a Doença, Senhor Conde, tem um hábito nefasto de atrapalhar planos. Alguns dos padres aqui presentes gostam de dizer que é como uma maneira de Deus nos fazer rever nossas vidas, de criarmos novos caminhos para desfrutarmos de Seu amor. Nos meus bons dias, eu gosto de acreditar nisso, mas os bons dias são raros...

*Ele passa mais uns segundos quietos, nervosamente retorcendo o cajado em sua mão, até falar novamente, após um longo suspiro.*

-Mais de uma década, senhor conde... Há mais de uma década eu vivo com essa doença, a cada dia achando que acordaria pela última vez. E em todo este tempo, não faltaram curas milagrosas para minha condição. Meu pai, chegou ao meu conhecimento, gastou uma verdadeira fortuna com charlatães, para nenhum efeito. Meu caro conde de Richmond, sua presença me agrada muito. Eu gosto de pensar que ainda há alguém no mundo lá fora que se importe comigo. Eu gosto de saber que algo de minha vida antiga ainda exista... Gosto de pensar que Vossa Senhoria seria um soberbo camarada de armas, e que ombro a ombro faríamos uma Cristandade melhor...

-Mas meu caro conde, quem quer que lhe prometeu uma cura para minha condição, apenas quer seu dinheiro por vias pecaminosas. Foi apenas Nosso Senhor Jesus Cristo que pôde curar os leprosos e, para azar da humanidade, ele anda entre nós há muito, muito tempo...

*Ele se vira para o nobre, encarando seus olhos, se perdendo por um momento na cor profunda deles. Pelo resto da sua vida, por mais breve que fosse, Stephen sentia que agora associaria aquela cor aos bons eventos que não poderia viver.*

-Eu sou imensamente grato por sua visita, meu senhor. Me trouxe um conforto indescritível. Mas não é para ser... *Ele sacode a cabeça lentamente* Meus dias como cavaleiro pertencem a outra vida, outro tempo...
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Re: A Catedral de Corpos

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